POEMA

CANÇÃO DO MILICIANO RECÉM-CASADO

(Dorme, meu amor, dorme,
o meu coração vela
junto à tua cama.
Nazim Hikmet)


Aqui é a solidão
a noite espessa
do campo;
é a intempérie,
o silêncio
que amparam
a minha arma e o meu sangue

E em tudo isto, meu amor,
estão as tuas coisas
falando-me, risonhas,
como se não te tivesse deixado na cama
nua entre os lençóis,
com um livro nas mãos.

Em pequeno
(não sabes?)
gostava
de ir até ao rio,
deambular
atrás dos animais assustados
medir com um suspiro
as altas copas das árvores
no monte.

Os meus olhos não chegavam
para tantas paisagens de verdor e pureza.
O meu pai
(lembro-me bem)
ensinou-me
que dá forças ao homem
a frescura do orvalho da manhã,
que as estrelas
são amigas
dos namorados e dos pobres.

Talvez
por tanto apego às coisas simples,
nesta noite de Junho
enquanto espero
quem me renda,
sinto-me bem, muito bem.

Às vezes,
no entanto,
domina-me a ansiedade
e ponho-me a cantar
para ti
- quase sem palavras,
quase sem voz -
as ingénuas canções do povo.

Já se aproxima a aurora.
A sua luz pequena
entrará pela gelosia até ao teu sono,
para te abrir as pálpebras
como todos os dias.

Às 8,
de novo,
na fábrica, tu
- miliciana e esposa -
encherás cada instante
de esforços, de beleza e pombas.

(Comove-me
evocar-te
no teu posto, serena,
com a boina ao lado e o teu sorriso
de rapariga que aprende a ser feliz)

Agora,
dorme tranquila.
Não duvides, amor:
eu estou bem,
sobretudo
pensando que descansas e me esperas.
Os teus olhos, as tuas palavras, a tua alegria,
as tuas mãos de manhã.


Adolfo Menéndez Alberdi

CONSEQUÊNCIAS DA FUGA DE PENICHE

Álvaro Cunhal foi um dos dez dirigentes comunistas que, no dia 3 de Janeiro, se evadiram do Forte de Peniche - e que, como todos os outros, retomou de imediato a actividade clandestina antifascista.

É sabido que, pela vasta e importante obra teórica produzida e pelo papel singular que desempenhou na construção do PCP como partido marxista-leninista, Álvaro Cunhal se afirmou como figura maior do movimento comunista internacional e como «o mais relevante operário da notável construção colectiva que é o PCP».
Os seus 75 anos de militância revolucionária - desde o início dos anos 30, altura em que aderiu ao Partido, até ao fim dos seus dias - foram marcados pela preocupação dominante de, integrando o colectivo partidário, fazer do PCP o partido revolucionário que é.
E a sua singular intervenção foi de tal modo impressiva que falar da sua vida e da sua acção significa falar da vida e da história do Partido.

Na sequência da fuga de Peniche, Álvaro Cunhal desempenhou um papel crucial no combate, e na posterior correcção, do desvio de direita em que o PCP mergulhara - desvio caracterizado por uma errada avaliação da situação nacional que via como «traço dominante da situação política nacional, a desagregação irreversível do regime fascista» e apontava a «via pacífica» como caminho para pôr fim à ditadura salazarista.
A partir de dois notáveis trabalhos de Álvaro Cunhal - A Tendência Anarco-Liberal na Organização do Trabalho de Direcção e O Desvio de Direita nos Anos 1956-1959 (1) - desenvolveu-se um intenso debate interno que, apesar das limitações impostas pela clandestinidade, envolveu parte grande do colectivo partidário.

O desvio de direita foi corrigido, foi retomada a linha do «levantamento nacional» como caminho para o derrubamento da fascismo, o Partido voltou a assumir o seu papel de vanguarda.
Os efeitos da correcção do desvio de direita foram visíveis desde logo na acção, na dinâmica e no conteúdo da intervenção do PCP: na vaga de lutas dos anos de 1961 e de 1962 - neste caso com o maior 1º de Maio de sempre na história do movimento operário português e com a formidável conquista das oito horas de trabalho pelo proletariado rural do Sul.

Os efeitos da correcção do desvio projectaram-se igualmente em todo o processo que conduziu à construção do histórico VI Congresso do Partido, cuja influência na revolução portuguesa iria ser determinante.
O VI Congresso - que viria a consagrar a correcção ao desvio de direita - contou, no seu processo preparatório, com um precioso contributo de Álvaro Cunhal: o Rumo à Vitória.
Trata-se de um trabalho no qual Álvaro Cunhal procede à abordagem da «linha política e táctica do Partido na actual etapa da revolução» e em que, a partir da caracterização rigorosa da situação política portuguesa - natureza de classe da ditadura fascista; definição da sua base económica e da arrumação de forças sociais, do papel forças antifascistas, da classe operária e do Partido - define os objectivos da revolução democrática e nacional, aponta a via para o derrubamento do fascismo, define uma política de unidade antifascista e define as tarefas do Partido... rumo à vitória.

«E o Rumo à Vitória foi isso mesmo: rumo à vitória que chegaria em Abril de 1974 e se desenvolveria no processo transformador da revolução portuguesa.
O Rumo à Vitória esteve nas ruas, nas fábricas, nos escritórios, nos campos, nas escolas; esteve nas políticas dos governos provisórios; esteve na acção dos militares revolucionários e progressistas e no Programa do MFA; esteve nas importantes conquistas revolucionárias alcançadas pelo movimento operário e popular, ou seja: o processo revolucionário seguiu a par e passo os passos rigorosamente definidos dez anos antes.
E é ainda rumo à vitória esta luta que há (mais de) trinta anos travamos contra a política de direita, que é a política da contra-revolução de Abril».


(1) Estes dois trabalhos integram o II Volume das Obras Escolhidas de Álvaro Cunhal, recentemente publicado pelas Edições Avante - livro que, tal como o 1º Volume, é de leitura imprescindível.

POEMA

BURGUESES


Não tenho pena dos burgueses
vencidos. E quando penso que vou ter pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso nos meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso nos meus longos dias sem chapéu nem nuvens.
Penso nos meus longos dias sem camisa nem sonhos.
Penso nos meus longos dias com a pele proibida.
Penso nos meus longos dias.

- Isto é um clube. Aqui não pode entrar.
- A lista já está cheia.
- Não há quarto no hotel.
- O senhor não está.
- Rapariga precisa-se.
- Fraude nas eleições.
- Grande baile para cegos.
- A taluda saiu em Santa Clara.
- Tômbola para órfãos.
- O cavalheiro está em Paris.
- A senhora marquesa não recebe.

Enfim, recordo tudo.
E como recordo tudo,
que caralho me pede você que faça?
E além disso, pergunte-lhes.
Com certeza
que eles também se lembram.


Nicolás Guillén

A FUGA DE PENICHE

A 3 de Janeiro de 1960 ocorreu a célebre Fuga de Peniche.
Pela sua superior organização; pelo facto de o Forte de Peniche ser a prisão de mais alta segurança do fascismo; por ter restituído à liberdade e à luta um valioso conjunto de quadros dirigentes do PCP, esta fuga espectacular constituiu um dos mais relevantes acontecimentos ocorridos durante a longa ditadura fascista.

Eis os nomes dos «10 de Peniche», como ficaram conhecidos:
Álvaro Cunhal, Carlos Costa, Joaquim Gomes, Jaime Serra, Francisco Miguel, Guilherme Carvalho, Pedro Soares, Rogério de Carvalho, José Carlos e Francisco Martins Rodrigues
(que posteriormente abandonaria o PCP).

A Fuga só foi possível graças a um planeamento extremamente rigoroso e a uma coordenação perfeita entre as organizações do PCP no interior e no exterior do Forte.
No interior, organizaram e dirigiram a Fuga, Álvaro Cunhal, Joaquim Gomes e Jaime Serra.
No exterior, intervieram Pires Jorge, Dias Lourenço, Octávio Pato e o actor e militante comunista Rogério Paulo.

As consequências da Fuga de Peniche - quer no reforço interventivo, ideológico e político do PCP, quer na subsequente intensificação da luta antifascista - foram imediatas. Delas falarei aqui, no próximo post.

POEMA

PRAIA GIRÓN


Praia Girón:
no dia seguinte
ao sangue vertido pelo teu punho potente,
já derrotada a invasão,
já esmagada, com furor crescente,
a nefanda traição,
quisemos ver a tua fronte,
a tua estrela enfurecida na torrente
da cólera! E ver teu coração,
Praia Girón!

Foi um trágico baptismo!
E tu não foste praia, mas abismo!
Um abismo colérico de fuzis agrários!
O estrondo feroz de um cataclismo,
entre lôbregos cantos funerários,
não só para o crime dos cobardes mercenários
mas para a força vil do imperialismo!

Ali ficou destruída
e transformada em lodo e em latrina!
Pela primeira vez vencida
por um pequeno povo da América Latina!

Vimos o rosto das tuas pedras calcinadas;
em Soplillar e em Pálpite barracas destruídas,
como se os traidores, as hediondas manadas
de gangsters, as manadas
de violentos fulheiros, usassem as jornadas
do crime para vê-las destruídas!

E sim! Contra eles era
o fogo principal da investida!
Contra os camponeses, a primeira
descarga. E a segunda para a nobre vida,
para a vida da classe obreira!

Porque são os humildes, com os puros e abertos
cálices acesos no seu limpo decoro,
os que com mais pujança e músculos despertos
defendem o tesouro da Pátria! Não o ouro
que do burguês defende cada poro
contra a Pátria, não! Para o operário
e para o camponês
nunca será o dinheiro
o primeiro,
mas a Pátria e o seu feliz destino!

Mas vimos também, Praia Girón tremenda,
na Playa Larga e em San Blas o mesmo
que em ti vimos: a grande, a estupenda
derrota mercenária e do imperialismo!

O teu rosto era a esplêndida ufania
dos rebeldes heróicos e da polícia
de Havana valente e dos valentes milicianos!
E de rastos sobre a vil hipocrisia,
os putrefactos gusanos!

De nada lhes serviram as armas infernais,
barcos, aviões, tanques, metralhadoras e fuzis,
que lhes deram as forças imperiais
de Kennedy! Tão vis, tão covardes e vis
gusanos não puderam segurá-las nas mãos
quando os atacámos. A maior parte delas
veio para nós a golpes de relâmpagos.
Dos relâmpagos dos milicianos!

Mas nas tuas mãos as vimos, Praia Girón! As vimos,
enquanto os escuros gusanos se arrastavam!
E com grande orgulho de Pátria e de bandeira
essa clara manhã de ti nos despedimos.


Manuel Navarro Luna

RESISTÊNCIA HERÓICA

O 50º aniversário da Revolução Cubana tem vindo a ser abordado por vários média portugueses - naturalmente, recorrendo à habitual, velha e roufenha cassete gravada nos EUA e distribuída como material de apoio aos muitos propagandistas que o Império tem espalhados pelo mundo.
Contudo, desta vez houve quem enviasse jornalistas a Cuba, supostamente para ver como aquilo era...
E ainda bem que o fizeram.
Na verdade, lendo as reportagens feitas em Cuba a partir de conversas de rua com cubanos e cubanas, ficámos a saber que, inequivocamente, o povo cubano está com a sua Revolução: mesmo quando criticam este ou aquele aspecto da situação actual, os cubanos sabem e sentem as profundas transformações revolucionárias ocorridas no seu País nos últimos 50 anos.
De tal forma que, lendo as referidas reportagens, verificamos que os jornalistas quando querem cumprir a missão de que foram encarregados, têm que recorrer à tal cassete. E fazem-no em comentários tão à margem e tão em atropelo das opiniões emitidas pelos entrevistados, que com frequência caem em situações de um tremendo ridículo.

Registe-se o caso de uma repórter que, a dada altura, certamente incomodada com as declarações ouvidas e de que não estava à espera, decidiu acrescentar de sua lavra que os entrevistados lhe respondiam olhando para os lados, receosos de estarem a ser vigiados pela polícia...
Percebo o desespero da jornalista: julgou, ou alguém lhe disse, que falando com as pessoas na rua, as ouviria manifestar-se contra o regime; em vez disso, o que ouviu foi gente a defender a Revolução... Bom, lá teve que recorrer à velha cassete... lá teve que recorrer à mentira...
Porque, na verdade, qualquer pessoa que tenha ido a Cuba sabe como estas conversas de rua são feitas sem quaisquer receios quer do visitado quer do visitante - isto para além de elas nos mostrarem um homem da rua com um conhecimento e uma cultura geral muito, muito, muito acima das médias nacionais da generalidade dos países da União Europeia...

Sobre Cuba escreveram também, em vários jornais, os habituais analistas da cassete: repetitivos, monocórdicos, sarrazinas, mais-do-mesmo, nhã-nhã-nhã.
Dois deles - Pedro Correia, no DN, e José Manuel Fernandes, no Público - falaram do embargo imposto há... quase cinquenta anos pelos EUA: o primeiro, para dizer que o referido embargo «serve de pretexto ao regime para justificar as persistentes dificuldades económicas»; o segundo, em complemento do primeiro, para dizer, mais coisa menos coisa, que se os EUA acabassem com o embargo, o regime cubano afundava-se - e, claro, Cuba cairia inteirinha, novamente, nos braços amigos do Império...

Esta tese - curiosamente, nascida nos EUA há uns vinte anos atrás... - foi uma das várias formas utilizadas para desviar as atenções do conteúdo criminoso deste embargo e para esconder as consequências reais que ele tem na vida do povo de Cuba.
Pelo que, utilizá-la significa, de facto, apoiar o criminoso embargo.
Mas isso sabem, muito melhor do que eu, os seus utilizadores.

E sabem que o povo cubano resiste. E sofrem com isso.
Tanto quanto eu - e milhões de amigos da Revolução cubana - nos alegramos e somos solidários com essa heróica resistência.

POEMA

O CANTO DA ESTRELA


Sobre o sangue, em charcos, no sendeiro,
já semeado de crimes e de espanto,
a estrela redentora com seu canto
brilhou num céu claro de Janeiro.
Desperta, limpa, pura, e pela força
de Fidel e do seu povo suspensa,
já nada haverá que o seu caminho torça
nem que brilhar, em toda a luz, impeça.

Em toda a luz de honra e de decoro
e jamais rebaixada e de joelhos.
A besta negra que a noventa milhas,
do lodo putrefacto do seu oiro,
a nossa Pátria, por pequena, ofende
e por livre maltrata e insulta,
não mediu o tamanho da estrela
que em seu sangrento triângulo se acende.

A guerra imperialista que a espia
desde a podridão da sua escória,
verá que sua medida não está feita
senão à medida da vitória.
O gigante Golias foi tombado
por David, cuja funda enfurecida
tem agora o nosso povo armado
e da Praia Girón sabe a medida.

Do heróico triângulo em que cintila
a sua luz, a estrela como nunca brilha,
e ante o imperialismo não se humilha,
não se humilha jamais e nem se curva.

Já da liberdade das montanhas
é mais firme a luz que lança.
Se o ianqui nos invade, saberá
como é a chama desta estrela!

Nenhuma força haverá que a derrube
nem que lhe imponha jugos ou cadeias,
porque todo o seu fogo o recebe
da torrente viril das nossas veias.
E embora partida e feita em estilhas
essa estrela, a luz que ela derrama
sempre erguerá a redentora chama
sobre a morte e sobre as cinzas!


Manuel Navarro Luna

VIVA CUBA!

No primeiro dia do ano de 1959, os revolucionários cubanos entravam em Havana e punham fim à ditadura de Fulgêncio Batista.
Daqui saudamos esse dia da vitória!

A vitória culminava uma luta iniciada em 26 de Julho de 1953 - com o ataque fracassado ao quartel de Moncada - e com o posterior desembarque na ilha, no iate Granma, em 2 de Dezembro de 1956, de um pequeno grupo de revolucionários, entre os quais se encontravam Fidel, Raul, Che, Camilo - que iniciaria a vitoriosa luta de guerrilha.
Daqui saudamos essa luta!

De então para cá, Cuba constituiu sempre uma referência essencial para todos os revolucionários do mundo.
Coerência revolucionária, coragem, determinação, dignidade, honra: eis alguns dos atributos que têm permitido ao heróico povo cubano resistir com êxito a décadas de forte e criminosa ofensiva por parte dos vários governos dos EUA e da reacção internacional.
Daqui saudamos essa resistência!

E a estas saudações, juntamos o compromisso de prosseguirmos e intensificarmos a nossa solidariedade total com a vitória, a luta e a resistência do povo e do Partido cubanos.

VIVA CUBA!

POEMA

JURO NUNCA ME RENDER


Pela minha terra clara
e o povo que nela habita
e fala a língua que eu falo,
juro nunca me render.

Pelo menino que fui
e o sossego que desejo
para o velho que serei,
juro nunca me render.

Pelas árvores fecundas
que nos dão frutos gostosos
e as aves que nelas cantam,
juro nunca me render.

Pelo céu que não tem margens
e as suas nuvens boiando
sem remorso nem receio,
juro nunca me render.

Pelas montanhas e rios
e mares que os rios buscam,
com o seu murmúrio fundo,
juro nunca me render.

Pelo sol e pela chuva
e pelo vento disperso
e pela plácida lua,
juro nunca me render.

Pelas flores delicadas
e as borboletas irmãs
que nos livros espalmei,
juro nunca me render.

Pelo riso que me alegra,
com a sua nitidez
de guizos e de alvorada,
juro nunca me render.

Pela verdade que afirmo,
dos que a verdade demandam
até à contradição,
juro nunca me render.

Pela exaltação que estua
nos protestos que não escondo
e a justiça que os provoca,
juro nunca me render.

Pelas lágrimas dos pobres
e o pão escasso que comem
e o vinho rude que bebem,
juro nunca me render.

Pelas prisões em que estive
e os gritos que lá esmaguei
contra as mãos enclavinhadas,
juro nunca me render.

Pelos meus pais e meus avós
e os avós dos avós deles,
com o seu suor antigo,
juro nunca me render.

Pelas balas que vararam
tantos peitos de homens justos,
por amarem muito a vida,
juro nunca me render.

Pelas esperanças que tenho,
pelas certezas que traço,
pelos caminhos que piso,
juro nunca me render.

Pelos amigos queridos
e os companheiros de ideias,
que são amigos também,
juro nunca me render.

Pela mulher a quem amo,
pelo amor que me tem,
pela filha que é dos dois,
juro nunca me render.

E até pelos inimigos,
que odeiam a liberdade,
e por isso não são livres,
juro nunca me render.



Armindo Rodrigues

LUTAREMOS! E VENCEREMOS!

Fim de ano é tempo de balanço - e porque é também início de ano é, igualmente, tempo de definir objectivos.

O balanço do ano que passou é positivo: lutámos muito contra um inimigo poderoso; resistimos a à ofensiva desse inimigo; construímos algumas das maiores lutas de sempre dos trabalhadores portugueses; invadimos as ruas com as nossas exigências de liberdade e justiça social. Enfim, confirmámos que a luta vale a pena e é indispensável sempre - mesmo quando não se traduz de imediato nas vitórias desejadas.

O ano que aí vem terá que ter como objectivo primeiro o prosseguimento, intensificação e alargamento da luta de massas - trazendo mais gente a participar com a consciência da importância essencial dessa participação e dando ao protesto contra a política de direita a dimensão necessária para ele se transformar em exigência imperativa de mudança.

Vivemos um tempo de grandes dificuldades, que continuam a pôr à prova a nossa capacidade de resposta e intervenção, a nossa capacidade de resistência.
Resistência à nossa maneira: olhando para a frente, nunca virando as costas à luta, recuando se a força superior do inimigo a isso nos obrigar, mas nunca perdendo a perspectiva de avançar - e avançando.

Lutaremos! E venceremos!
Porque cada um de nós faz suas, todos os dias, as palavras do Poeta no poema que, no post seguinte, o Cravo de Abril partilha com os seus visitantes neste fim de ano 2008/início de ano 2009.

POEMA

OS CÃES DA INFÂNCIA


São os cães da infância os cães dementes
ladrando-me às canelas do passado
cães mordendo-me a vida com os dentes
ferrados no meu sexo atormentado.

Paguei cada minuto do presente
com vergões de amor próprio vergastado
porém só fala quem se não consente
vencido temeroso ou amarrado.

Contra os cães uivo. Não me fico assim.
Não tenho pai nem mãe. Nasci de mim
macho e fêmea gerando o desespero.

Lutar é tudo quanto sou capaz.
Não me pari para viver em paz.
Tudo o que eu sou é menos do que eu quero.


José Carlos Ary dos Santos

O PROPAGANDISTA

Todas as terças-feiras, Mário Soares tem à sua disposição uma página do DN, que utiliza para fazer propaganda daquilo que há mais de trinta anos é o seu cavalo de batalha: a política de direita por ele iniciada em 1976 com o objectivo de liquidar a Revolução de Abril.
Fá-lo, contudo, mascarado de democrata de gema e de exemplar homem de esquerda, sabendo que essa é a melhor forma de levar a água ao seu moinho - que é, também, o moinho do capitalismo...

Ontem, Soares fez o elogio da Mensagem de Natal de José Sócrates. Um elogio caloroso, sublinhe-se.
Na opinião de Soares, na mensagem há «novidades» que «as oposições» não quiseram ver.
Isto porque, diz ele, «as oposições» estão mais mais preocupadas com o «bota abaixo».
Falando de «oposições», Soares sabe que está a meter no mesmo saco os que combatem o Governo e a sua política de direita, à qual contrapõem uma alternativa de esquerda; e os que criticam o Governo com o objectivo de para lá irem fazer a mesma política de direita - e sabe que essa é a melhor forma de defender, precisamente, a política de direita tão cara ao PS/PSD/CDS...

Mas quais são, então, as «novidades» detectadas por Soares na Mensagem de Sócrates?
Ele explica: «(Sócrates) disse que as suas primeiras prioridades são o desemprego, que prevê crescente, e a pobreza de que sofrem muitos portugueses. Quem o pode negar?».
Soares sabe que estas «prioridades» - recorrentes em todas as alocuções de Natal de todos os primeiros-ministros, desde 1976 - nada têm de «novidade». E sabe que, depois de cada uma dessas alocuções, o desemprego aumentou e a pobreza idem.
Quem o pode negar? - pergunto eu.

A terminar, escreve Soares: «Os portugueses que ouviram a mensagem sabem, por experiência própria, que não é com manifestações de rua - nem com protestos mais ou menos violentos - que esses flagelos podem ser remediados».
Ora aí está:
afinal é isto, essencialmente isto, que o preocupa;
afinal é isto, essencialmente isto, que ele quer evitar;
afinal é isto, essencialmente isto, que lhe mete medo.

O que confirma que a luta de massas é o caminho - e que intensificá-la e ampliá-la constitui o nosso objectivo fundamental no ano de 2009.

POEMA

COM ILUSÕES OU NÃO...


Com ilusões ou não,
venha o futuro,
pois por enquanto, ao menos,
não é escuro.


Armindo Rodrigues

A MUDANÇA ADIADA

Gaza: até agora, mais de 350 palestinos foram mortos em consequência dos brutais ataques perpetrados pelo governo fascista de Israel. E, ao que parece, o massacre vai continuar, para já prosseguindo com os bombardeamentos e os mísseis - mas fala-se cada vez mais em invasão terrestre.
«Está em curso uma guerra total contra o Hamas» - afirmou o criminoso de guerra que ocupa o posto de ministro da Defesa de Israel.
E o facto de 81% dos israelitas apoiarem o morticínio mostra que o crime pode vir a render muitos votos nas eleições de Fevereiro próximo...

Entretanto, as reacções da chamada «comunidade internacional» continuam a primar pelo silêncio quase total. Como se sabe, esta «comunidade» é uma senhora muito matreira que não perde uma oportunidade de se expressar em apoio dos direitos-humanos-made-in-EUA, mas que fica muda e queda sempre que os direitos humanos são violados pelos EUA ou por qualquer dos seus amigos/lacaios.

A União Europeia ainda não disse nada. Percebem-se as razões do euro-silêncio: por um lado, porque o boss-mor Bush, de férias no Texas, ainda não se pronunciou sobre o assunto - e seria arriscado emitir uma opinião que lhe desagradasse; por outro lado, porque seria escandaloso subscrever a escandalosa declaração da Casa Branca - a tal que dizia que «o Hamas deve parar os disparos de rockets sobre Israel» e não fazia qualquer reparo aos bombardeamentos israelitas...

Neste quadro, a opinião de Obama - o da mudança, lembram-se? - era aguardada com grandes expectativas. Havia até quem pensasse que o novo Presidente dos EUA iria dar, pela primeira vez em concreto, um arzinho da mudança prometida.
Afinal, não foi assim: um seu conselheiro veio a público dizer que Obama não se pronunciará sobre a questão porque, disse o conselheiro, nos EUA «há apenas um presidente de cada vez» e, assim sendo, Obama só poderá dar opinião depois de tomar posse...
Espanta que assim seja, tanto mais quanto, como sabemos, Obama, quer enquanto candidato quer após ter sido eleito, tem-se pronunciado sobre tudo o que se passa nos EUA e no mundo.
Pronto: fica uma vez mais a mudança adiada.

E entretanto o massacre continua. Em nome da democracia, da liberdade e dos direitos humanos, bem entendido...

POEMA

RECOMEÇA...


Se puderes
sem angústia
e sem pressa.
E os passos que deres
nesse caminho duro
do futuro,
dá-os em liberdade.
Enquanto não alcances
não descanses.
De nenhum fruto queiras só metade.

E, nunca saciado,
vai colhendo ilusões sucessivas no pomar.
Sempre a sonhar e vendo
o logro da aventura.
És homem, não te esqueças!
Só é tua a loucura
onde, com lucidez, te reconheças...


Miguel Torga

A OPINIÃO

A frase de Eduardo Barroso (EB) que ontem aqui publiquei - transcrita do Público - fazia parte de uma entrevista concedida por esse cavalheiro ao Sol.
Hoje dei uma vista de olhos pela referida entrevista e deparei com um conjunto de afirmações dignas de igual transcrição, de tal modo são reveladoras do estado político/mental do entrevistado.
Aqui ficam algumas delas:
EB considera que foi «fundamental o fecho das maternidades e dos SAP's» e acha que estas «reformas que estavam a ser iniciadas eram fundamentais» porque «eram a porta para outras reformas». Diz ainda que «Correia de Campos foi o melhor ministro de sempre. O mais sabedor e o mais corajoso».
Enfim, estamos conversados...

Afirmando-se «defensor da avaliação dos professores», EB avisou que «seria um erro trágico deixar cair a ministra. Simpatizo com ela. Não a acho arrogante. É determinada e simpática. Estou com ela a 100%».
Enfim, opiniões...

Perguntado sobre se gostaria de ser ministro da Saúde, EB respondeu: «Coitado de quem me convidasse. Sou políticamente muito incorrecto. Seria dramático para qualquer primeiro-ministro ter-me como ministro da Saúde. Não tenho dúvidas de que teria ideias fundamentais, só que não seriam realizáveis» - e rematou, fulminante: «O 25 de Abril foi um dos dias mais felizes da minha vida e tenho horror à ditadura, mas as minhas propostas só poderiam ser feitas em ditadura».
Enfim, a OPINIÃO...

POEMA

(ESPERAREMOS CEM ANOS...
Em frente da estação do Rossio, quando os ponteiros se aproximam da meia-noite.)


Amigos: vai passar mais um ano no relógio luminoso do Rossio.

E a nossa Revolução
cada vez mais sonho frio,
eterna paisagem
de merda sem canos
em que os homens continuam como são
com bocas de granizo
numa repetição de poços sem ecos.

Deixá-lo!

Se for preciso
teremos a coragem
de esperar mais cem anos
pela transformação do mundo
no relógio dos Séculos.

(Cem anos que voem nos relógios com asas de um segundo.)


José Gomes Ferreira

PAZ AO SEU JUÍZO

Há gente que produz análise, conclui - e, alegremente, entorna o que analisou e concluiu nos média - não a partir da avaliação de factos mas a partir do que deseja que aconteça...
Um exemplo disso é afirmação produzida por um tal Eduardo Barroso (ao que suponho membro do PS) que o Público de hoje transcreve.
Disse ele: «Se o país não tiver ensandecido, o PS voltará a ter maioria absoluta. De outra forma isto torna-se ingovernável».

Quer isto dizer que o analista concorda com a política que o governo tem vindo a aplicar - que aumentou o desemprego, agravou as condições de vida da imensa maioria dos portugueses, aumentou a pobreza e a miséria, roubou conteúdo democrático ao regime, violou a Constituição, entregou Portugal ao grande capital nacional e internacional, etc, etc, etc.
Quer isto dizer que o analista deseja que tal política prossiga - e que prossiga em pleno, para o que a obtenção da maioria absoluta é necessária.
Quer isto dizer que «isto» só é governável assim...
Quer isto dizer, enfim, que o analista ensandeceu.
Paz ao seu juízo!...

POEMA

PASSAGEM DO ANO


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e o seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olho e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e que sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles... e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.


Carlos Drummond de Andrade

A RECEITA

1941 foi um ano terrível. No mundo e em Portugal.
Nesse ano longínquo, o nazi-fascismo avançava, aparentemente imparável, no seu objectivo de conquista do mundo. O exército hitleriano invadia a URSS e o seu comandante ordenava que por cada alemão morto, fossem executados 50 a 100 comunistas; começavam os fuzilamentos em massa da população civil e em cerca de seis meses, as «unidades especiais» nazis liquidavam mais de 1 milhão de cidadãos soviéticos; em Outubro as tropas nazis chegavam às portas de Moscovo.
Apesar disso, sinais promissores começavam a surgir: em Dezembro, o avanço alemão era sustido, com a derrota frente a Moscovo...

Por cá, o fascismo exultava: emissoras nazis, instaladas em vários pontos do País com o apoio da PVDE, apoiavam as operações dos submarinos alemães; um relatório alemão falava de «nós»: «O sr. Volker informou que se conseguiu alugar a emissora portuguesa Rádio Renascença de modo a ficarem todas as emissões à nossa completa disposição»; um trust alemão, ligado a capitais norte-americanos, apoderava-se do ferro de Moncorvo; um relatório do Presidente do Comité Internacional de Auxílio aos Refugiados informava: «Vários refugiados alemães antifascistas têm desaparecido de Portugal por terem sido entregues pela polícia portuguesa à Gestapo, que os tem assassinado ou enviado para campos de concentração».
E, ainda por cá: 6 militantes comunistas eram assassinados no Tarrafal; jovens quadros comunistas, entre eles Álvaro Cunhal, levavam por diante o importante processo de reorganização do PCP - processo que era acompanhado de medidas concretas visando o reforço da actividade e da influência do Partido: em Agosto, o Avante! voltava a publicar-se (e, desde então, nunca mais interromperia a sua publicação clandestina regular até ao 25 de Abril de 1974); e a greve geral dos operários têxteis da Covilhã era ponto de partida para uma poderosa vaga de acções de massas contra a ditadura fascista...

Aqui chegados, os leitores do Cravo de Abril (os que tiveram a paciência de aqui chegar, obviamente...) perguntar-se-ão: mas a que propósito vêm estas notícias sobre o ano de 1941?
Eu explico: um post há umas semanas atrás publicado no blog as palavras são armas - excelente blog, de visita imperativa - informava sobre a edição nesse ano de 1941, em Portugal, de um curioso livro de gastronomia - «A Cosinheira das Cosinheiras» (que viria a ter dez edições).
Curioso, porque entre as muitas receitas ensinadas no referido livro, há uma cuja designação é surpreendente: «BACALHAU À COMUNISTA».
Na verdade, um prato assim chamado, divulgado em livro e aconselhado aos leitores em plena ditadura fascista - sob uma censura férrea e com perseguições ferozes aos comunistas - provocou em mim, leitor de hoje, um enorme espanto.
E foi esse espanto que me levou a rememorar alguns contecimentos ocorridos nesse ano, no mundo e em Portugal - acontecimentos ocorridos na mesma altura em que alguém escrevia e publicava um livro de receitas de cozinha do qual constava um prato chamado «Bacalhau à Comunista»...
Talvez a confirmar - isto digo eu, em jeito de conclusão - que em todas as áreas da vida nacional havia uma receita para combater - e se combatia - a ditadura fascista...

E aqui fica a receita (a do bacalhau, claro...):
«Bacalhau à Comunista - Partir um bacalhau em filetes fininhos, fazer uma massa bem fina de farinha de trigo, passar nela os filetes, um por um, fritar. Pôr num prato de ir ao forno, uma camada de filetes fritos, depois uma camada de rodas grossas de batatas cosidas e queijo parmesão; fazer molho branco e com ele cobrir o bacalhau; levar ao forno e aloirar».

POEMA

NA PASSAGEM DE UM ANO


Erros nossos não são de toda a gente
tropeçamos às vezes na entrega
mas retomamos sempre a marcha em frente
massa humana que nada desagrega.

Para nós o passado e o presente
são futuro no qual o povo pega
com suas mãos de luz incandescente
que aquece que deslumbra mas não cega.

Para nós não há tempo. O tempo é vento
soprando ano após ano sobre a história
que para nós é vida e não memória.

Por isso é que no tempo em movimento
cada ano que passa é menos tempo
para chegar ao tempo da vitória.


José Carlos Ary dos Santos

UM POÇO SEM FUNDO...

Como de Roma se diz que todos os caminhos lá vão dar, também do «caso SLN/BPN» podemos dizer que para lá se encaminham todos os dias ramificações de novos «casos»...

Desta vez é o «caso TBZ».
A TBZ era, até há pouco tempo, uma «empresa de sucesso» fundada e dirigida por um «empresário de sucesso»: João Barroqueiro (como estamos lembrados as empresas e os empresários de sucesso são filhas e filhos do consulado cavaquista...)
A TBZ era «uma das maiores empresas de licenciamentos em contratos com Benfica, Sporting, FCPORTO e Real Madrid, entre outros clubes» - e dela dizia o seu fundador, em Abril deste ano: «O nosso objectivo é público: queremos ser líderes absolutos no negócio em três anos».

O Público de hoje, informa sobre o percurso desse «sucesso»: «Em pouco mais de uma década (a TBZ) transformou-se de uma empresa de 500 mil euros num gigante de 20 milhões».
E do fim do «sucesso»: «Em pouco menos de um ano, foi alvo de um arresto de bens, de um processo de insolvência, de rescisões de contratos milionários e está a ser investigada pelo Ministério Público por insolvência dolosa».
O pior é que a notícia acrescenta, depois, aquilo que já parece ser coisa inevitável nestes casos: «Parte dos danos terá de ser assumida pelo Estado, uma vez que este detém 50 por cento da TBZ, através de um fundo de investimento do nacionalizado banco Efisa».
E é aqui que entra em cena o omnipresente Grupo SLN/BPN.

Explicando melhor:
Em Maio de 2007, a TBZ - «para suportar a expansão» meteórica rumo à liderança absoluta... - recorreu a um empréstimo ao banco Efisa;
Com esse empréstimo, o Efisa apropriou-se de 50 por cento do capital da TBZ;
Ora, como o banco Efisa faz parte do recém-«nacionalizado» BPN... o Estado tem que assumir os danos, não é verdade?
É.

E é igualmente verdade que este BPN é um poço sem fundo em matéria de ramificações com casos suspeitos.

POEMA

NATAL


Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grandes e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?


Sidónio Muralha

UM DIREITO HUMANO FUNDAMENTAL

Hoje, Dia de Natal, pelas 10H30, os representantes dos trabalhadores da Gestnave e da Erecta vão «bater à porta da residência oficial do primeiro-ministro».
E, sabendo o que a casa gasta - isto é: «sentindo na pele os efeitos das prendas que o Governo vai dando aos patrões em geral e aos Mellos em particular» - esclarecem que NÃO QUEREM PRENDAS!

«Reclamam tão só que o Governo cumpra a sua obrigação, levando a Lisnave a cumprir os deveres que assumiu quando recebeu a PRENDA de milhões do erário público»: os 1339 postos de trabalho que se comprometeu a manter e não cumpriu, apesar dos lucros alcançados - dos maiores dos últimos anos.

Não querem prendas.
Querem que «o primeiro-ministro pense no dia de Natal dos desempregados da Gestnave e da Erecta».
Querem os postos de trabalho a que têm direito.


Querem, apenas, o reconhecimento desse direito humano fundamental que é o DIREITO AO TRABALHO.

POEMA

LITANIA PARA O NATAL DE 1967


Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num sótão num porão numa cave inundada
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
dentro de um foguetão reduzido a sucata
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
numa casa de Hanói ontem bombardeada

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
num presépio de lama e de sangue e de cisco
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para ter amanhã a suspeita que existe
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Tem no ano dois mil a idade de Cristo

Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
Vê-lo-emos depois de chicote no templo
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
e anda já um terror no látego do vento
Vai nascer esta noite à meia-noite em ponto
para nos vir pedir contas do nosso tempo


David Mourão-Ferreira

UMA HISTÓRIA DE NATAL...

Wilmington é uma pequena cidade - com cerca de 13 mil habitantes - no estado do Ohio, nos EUA.
O maior empregador de Wilmington é o «gigante alemão de entregas DHL» - que recentemente decidiu fechar as portas, atirando para o desemprego os seus 7 500 trabalhadores.
Este número subirá para 9 500 porque uma outra empresa - a ABX Air, que trabalha para a DHL - vai também despedir (ou já despediu) os seus trabalhadores.

Temos assim que, 9 500 dos 13 mil habitantes de Wilmington - ou seja, a quase totalidade dos trabalhadores da cidade de Wilmington - começarão o ano de 2009 no desemprego.

Por tudo isto, eis o Natal na futura cidade fantasma de Wilmington: «As igrejas estão cheias, os centros de apoio aos sem-abrigo já albergam famílias inteiras, as sopas dos pobres alimentam pilotos que há um mês ganhavam 1 700 euros por mês, as escolas privadas estão a perder alunos e os hospitais estão a rejeitar tratamentos e a cancelar operações a pessoas que ficaram sem seguro de saúde».
E diz o jornal, «isto é só o princípio».
E digo eu: certamente: porque o pior está para vir.
E diz o jornal: «É a crise».
E digo eu: é o capitalismo.

O «Sonho Americano» tem destes pesadelos...

POEMA

NATAL À BEIRA-RIO


É o braço do abeto a bater na vidraça?
E o ponteiro pequeno a caminho da meta!
Cala-te, vento velho! É o Natal que passa,
a trazer-me da água a infância ressurrecta.

Da casa onde nasci via-se perto o rio.
Tão novos os meus Pais, tão novos no passado!
E o Menino nascia a bordo de um navio
que ficava, no cais, à noite iluminado...

Ó noite de Natal, que travo a maresia!
Depois fui não sei quem que se perdeu na terra.
E quanto mais na terra a terra me envolvia
mais da terra fazia o norte de quem erra.

Vem tu, Poesia, vem, agora conduzir-me
à beira desse cais onde Jesus nascia...
Serei dos que afinal, errando em terra firme,
precisam de Jesus, de Mar. ou de Poesia?


David Mourão-Ferreira

DIFERENÇAS DE OCASIÃO

É sabido que a comunicação social dominante - propriedade dos grandes grupos económicos e financeiros - existe para defender os interesses desses grupos.

É sabido, também, que, para os grandes grupos económicos e financeiros, a política de direita é a que melhor serve os seus interesses - daí que todos os média dominantes sejam fervorosos defensores dessa política.

É sabido, igualmente, que a prática de um governo nem sempre agrada plenamente a todos os grandes grupos económicos e financeiros.

Por exemplo, olhando para dois jornais diários ditos de «referência» - o Público e o Diário de Notícias - é fácil constatar que a aplicação da política de direita na versão Sócrates, agrada mais aos donos do DN do que aos donos do Público.
Com efeito, olhando cada um destes jornais - sublinhe-se: ambos cumprindo cabalmente a sua função e ambos defensores incontestáveis da política de direita - verificamos que cada um deles trata o governo... à vontade do dono...

Isso é visível todos os dias: no DN, com a sua postura de órgão oficioso do Governo; no Público, mais crítico em relação à prática governativa de Sócrates.
Mas há dias em que essa diferença assume expressões mais evidentes.
É o caso da forma como os dois jornais, nas suas edições de hoje, noticiam as manobras divisionistas e demagógicas do Governo/ministério da Educação em relação à luta dos professores.
Diz o DN que «apelos ao diálogo (por parte do ministério) dividem plataforma sindical».
E diz o Público, sobre o mesmo assunto, que Jorge Pedreira «tenta dividir os sindicatos e acusa Fenprof de querer a instabilidade».

Insisto: são diferenças de ocasião e que têm tudo a ver com a apreciação que os patrões dos dois jornais fazem da prática governativa de Sócrates.
E insisto: ambos os jornais estão com a política de direita - que é, de facto, a que serve os interesses dos seus donos.

Entretanto, a luta dos professores continua.
Isto é: mantém-se a greve marcada pelos sindicatos para 19 de Janeiro.
Porque, como disse Mário Nogueira, secretário-geral da Fenprof, aludindo à última proposta do Governo, «os professores não podem desistir por uma mão completamente vazia».

POEMA

NATAL UP-TO-DATE


Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da lua
Rainhas de beleza hão-de vir de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa. E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco


David Mourão-Ferreira

A VERDADEIRA MUDANÇA

Não falo da «mudança» prometida por Barack Obama.
Falo da mudança cumprida de Evo Morales.

Quando Evo Morales foi eleito Presidente da Bolívia, havia no País cerca de 15 por cento de analfabetos.
Três anos passados, o analfabetismo foi erradicado.
E como foi isso feito?
Assim: Cuba cedeu o método - «Yo sí puedo» - e 30 mil televisores e vídeos para pôr o programa em marcha; a Venezuela montou 8 350 painéis solares onde não havia electricidade; Cuba e a Venezuela enviaram formadores que prepararam 50 mil orientadores bolivianos.
Pronto: em 33 meses, 824 mil bolivianos aprenderam a ler.
Assim, a Bolivia - agora «Território Livre de Analfabetos» - passa a ser o terceiro país da América Latina sem analfabetos - os outros dois são Cuba e a Venezuela.

Um pormenor cheio de significado: entre os 824 mil cidadãos bolivianos que deixaram de ser analfabetos, encontram-se a mãe e vários outros familiares do Presidente Evo Morales...

Tudo isto a confirmar que naquela região do mundo... o mundo está a mudar.
Fidel, Raul, Chavez, Morales - entre outros - são homens novos, dirigentes políticos e governantes de tipo novo e que, em todos os aspectos, se situam nos antípodas dos políticos de velho tipo que, por esse mundo fora, «governam» tendo como referência modelar os governos dos EUA.

É gente do povo, vinda do povo e ao serviço do povo, a que governa aqueles países onde, de alguma forma, se constroem alicerces do mundo novo - que há-de substituir este mundo velho, milenarmente baseado na exploração e na opressão e governado por gente ao serviço dos interesses do grande capital.

Aqui fica para os visitantes do Cravo de Abril esta boa notícia - com os votos de BOM NATAL para todos.

POEMA

NA TAL


Na tal habitação volto a falar-te
Na tal que já eu-próprio não conheço
Na tal que mais que tálamo era berço
Na tal em que de noite nunca é tarde

Na tal de que por fim ninguém se evade
Na tal a que sei bem que não regresso
Na tal que umbilical cabe num verso
Na tal sem universo que a iguale

Na tal habitação te vou falando
Na tal como quem joga às escondidas
Na tal a ver se tu me dizes qual

Na tal de que eu herdei só este canto
Na tal que para sempre está perdida
Na tal em que o natal era Natal.


David Mourão-Ferreira

UMA BOA NOTÍCIA

O prometido é devido: volto ao caso do jornalista iraquiano Muntazer al-Zaidi - o que atirou os sapatos ao focinho do «cão» Bush e de quem, depois, disseram os jornais que tinha escrito uma carta a pedir desculpa do que fez.
E volto com uma boa notícia: o irmão de al-Zaidi - que o visitou na prisão - desmentiu veementemente a notícia sobre o pedido de desculpa. Disse ele que o irmão «nunca pediria desculpa a Bush, nem que fosse cortado em pedaços».

É uma boa notícia, esta - porque é sempre uma boa notícia sabermos que, seja onde for e em que circunstâncias for, há sempre alguém que enfrenta com dignidade os todo-poderosos donos do mundo e os seus lacaios.
Ao mesmo tempo, vemos confirmada uma vez mais a falta de escrúpulos, o vale-tudo a que esta cambada recorre, neste caso inventando um pedido de desculpa que não existiu e, assim, procurando denegrir a imagem e o acto corajoso de MUNTAZER AL-ZAIDI.

Al-Zaidi, foi visitado pelo irmão no domingo passado. Essa foi a única visita que até agora lhe foi permitida. O jornalista vai processar as autoridades iraquianas por maus tratos - queimaduras nas orelhas, um dente partido - que lhe infligiram no decorrer dos interrogatórios.

Por outro lado, o julgamento de Muntazer al-Zaidi começará no próximo dia 31 de Dezembro e, de acordo com as leis iraquianas, arrisca-se a uma pena que pode ir de 5 a 15 anos de prisão.
E o juíz que o vai julgar já «concluiu» que al-Zaidi não foi torturado...
É necessário, portanto, que o movimento mundial de solidariedade com o jovem jornalista faça chegar a sua voz junto das autoridades iraquianas e as obrigue a recuar nos seus intentos condenatórios.

POEMA

NATAL


U
m Deus à nossa medida...
A fé sempre apetecida
de ver nascer um menino
divino
e habitual.
A transcendência à lareira
a receber da fogueira
calor sobrenatural.


Miguel Torga

Geografia e Salário Mínimo

Bem nos recordamos que em Novembro último, o salário mínimo nacional foi fixado em €uros 450,00 para o o ano de 2009, face aos actuais €uros 426,00.

Para além do distanciamento social que a maioria dos deputados da Assembleia da República (algo que já sabíamos) também ficamos a saber que não "pescam" nada de geografia.

Deixo-vos esta preciosidade.

POEMA

NOITE DE NATAL


(A um pequenito, vendedor de jornais)

Bairro elegante, - e que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
o pequenito adormeceu...

Morto de frio e de cansaço,
as mãos no seio, erguido o braço
sobre os jornais, que não vendeu...

A noite é fria. a geada cresta;
em cada lar, sinais de festa!
E o pobrezinho não tem lar...

Todas as portas já cerradas!
Ó almas puras, bem formadas,
vede as estrelas a chorar!

Morto de frio e de cansaço,
as mãos no seio, erguido o braço
sobre os jornais, que não vendeu,

em plena rua, que miséria!
Roto e faminto, à luz sidéria,
o pequenito adormeceu...

Em torno dele -ó dor sagrada!
Ao ver um círculo sem geada
na sua morna exalação,

pensei se o frio descaroável
do pequenino miserável
teria mágoa e compaixão...

Sonha talvez, pobre inocente!
Ao frio, à neve, ao luar mordente,
com o presépio de Belém...

Do céu azul, às horas mortas,
Nossa Senhora abriu-lhe as portas
e aos orfãozinhos sem ninguém...

E todo o céu se lhe apresenta
numa grande Árvore que ostenta
coisas dum vívido esplendor,

onde Jesus, o Deus Menino,
ao som dum cântico divino,
colhe as estrelas do Senhor...

E o pequenito extasiado,
naquele sonho iluminado
de tantas coisas imortais,

- no céu azul, pobre criança!
Pensa talvez, cheio de esp'rança,
vender melhor os seus jornais...


António Feijó