POEMA

(Um jovem comunista, recém-saído da cadeia,
procurou-me para me dizer: «vou para Espanha
bater-me ao lado dos republicanos».)


Adeus!

Tu que arrancaste da treva dos dias e das noites
o sol subterrâneo das flores ocultas nas raízes.
Tu que nunca viste o luar completar os olhos das mulheres
- e a tua mão só te beijava em fotografia.

Tu que vais morrer pelos outros com vinte anos de desdém ardente
e o futuro nunca saberá o teu nome para maior glória.
Tu que vais conhecer finalmente a verdadeira morte: a nossa.
Não vida cobarde atirada para as nuvens,
mas sombra sem frestas,
frio sem portas...

Tu: adeus!

Morre orgulhosamente
o teu destino de relâmpago
que afoga nos abismos
o eco longo
do silêncio das águias.


José Gomes Ferreira

9 comentários:

Maria disse...

Terrivelmente bonito...
orgulhosamente revolucionário!

Um beijo grande

Anónimo disse...

Este poema relembrou-me um livro q li há duas semnas (O tempo das giestas, do casanova)e do destino de um homem ("com vinte anos de desdém ardente") "que "morreu pelos outros", por uma causa, por querer um mundo diferente( e lutou!) e cujo futuro "não saberá o seu nome" nem da sua morte orgulhosa, mas certamente lhe deverá o presente.
Sempre tocada por estes poemas....:)
beijo
Sílvia MV

Cheira-me a Revolução! disse...

Sempre Revolucionário.
Abraço

# Ludo Rex

poesianopopular disse...

Para grandes causas, grandes opções, esta poesia revela a grande sabedoria do José Gomes Ferreira, não é por acaso que o evocas.
Abraço

samuel disse...

E há os que têm conseguido "morrer" pelos outros, com vinte anos de desdeém ardente, todos os dias, desde então até aos dias de hoje.
Feliz, quem pôde olhar nos olhos alguns destes!

Abraço.

CRN disse...

Fernando,
"Não vida cobarde atirada para as nuvens..."

Seria interessante reconhecer essa capacidade cada dia em mais homens, de atirar a sua vida para qualquer parte, reconhecer-se vivo.

A revolução é hoje!

CRN disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
CRN disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fernando Samuel disse...

Rectificação: onde eu escrevi «e a tua mão só te beijava em fotografia», o Zé Gomes tinha escrito: «e a tua mãe só te beijava em fotografia» - e ele é que sabia...


Maria: bem definido: é isso mesmo.
Um beijo grande.

Sílvia MV: muito deve o futuro a estes homens «com vinte anos de desdém ardente»
Um beijo.

Ludo Rex: sempre!
Um abraço.

poesianopopular: quem opta assim, sabe o que faz...
Um abraço.

samuel: dizes bem.
Um abraço.

CRN: bem vistas as coisas, há cada vez mais homens com essa capacidade.
Um abraço.