AFIRMAÇÕES INFELIZES

O Diário de Notícias de ontem publicou um excelente texto - que daqui se saúda - de Francisco Mangas, a propósito do centenário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes.
Também sobre Soeiro, Francisco Mangas faz uma breve entrevista ao escritor Mário Cláudio que expressa o seu grande apreço pela qualidade da obra literária do autor de Esteiros - que, muito justamente, diz ser «o livro que traz a dedicatória mais bela de toda a nossa literatura: "aos filhos dos homens que nunca foram meninos"»

No entanto, estranhamente, à pergunta sobre se a obra de Soeiro «deve ser ensinada nas escolas às gerações mais novas que não viveram a ditadura fascista», Mário Cláudio responde assim:
«O interesse da ficção de Soeiro Pereira Gomes é sobretudo histórico. A sociedade portuguesa evoluiu muito, agora os nossos problemas são outros. Vivemos uma época em que, por exemplo, há legislação específica para combater o trabalho infantil».

Desta resposta, deduzo que, na opinião de Mário Cláudio, a obra de Soeiro não deve ser ensinada nas escolas... pelas três razões que apresenta: o seu interesse é sobretudo histórico; a sociedade evoluiu muito; e até há legislação para combater o trabalho infantil...
Francamente, não percebo!

Ou talvez perceba, já que face a uma outra pergunta sobre a validade actual do neo-realismo, Mário Cláudio responde: «Enquanto processo de abordagem do real, o neo-realismo não acabou. O que acho ultrapassado, nos tempos de hoje, é a ideia de uma literatura com mensagem, uma literatura de combate» - isto porque, acrescenta, o nosso tempo não é o de «uma literatura que tenha um comprometimento político óbvio».

Percebi: o que leva Mário Cláudio a opinar que a obra do autor de Esteiros e de Engrenagem - o primeiro dedicado «aos filhos dos homens que nunca foram meninos»; o segundo dedicado «aos trabalhadores sem trabalho - rodas paradas de uma engrenagem caduca» - não deve ser ensinada nas escolas, é o facto de a literatura de Soeiro Pereira Gomes ser uma literatura de mensagem e de combate e ter um comprometimento político óbvio...

Mário Cláudio é um escritor de grande qualidade, do qual li, creio, tudo o que escreveu - acabei de ler há dias o seu Camilo Broca, no qual nos conta, em versão romanceada, a história da família de Camilo Castelo Branco.
Mais lamento, por isso, as suas infelizes afirmações.
Por um lado, porque, ao contrário do que diz Mário Cláudio, ensinar a obra de Soeiro nas escolas seria um bom contributo para esclarecer as jovens gerações sobre o que foi o regime fascista que durante décadas explorou, oprimiu e reprimiu o povo português - esse fascismo sobre o qual está em curso, hoje, uma poderosa operação de branqueamento.

Por outro lado, porque, ao contrário do que diz Mário Cláudio, o facto de a sociedade ter evoluído muito e haver legislação contra o trabalho infantil, não anulou, nem as muitas misérias da sociedade, nem o desemprego, nem os salários em atraso, nem a miséria e a fome. Nem o trabalho infantil. Nem as crianças com fome que acorrem aos hospitais...

Finalmente, porque, ao contrário do que pensa Mário Cláudio, no nosso tempo há uma literatura com mensagem, de combate e com um comprometimento político óbvio, só que, infelizmente, essa literatura - dominante, de facto, no nosso tempo - divulga uma mensagem, trava um combate e tem um comprometimento político que, tendo ou não os seus autores consciência disso, serve fielmente os interesses da ideologia dominante.

Felizmente - e contra a opinião de Mário Cáudio - há quem persista em remar contra essa maré: há quem persista em produzir literatura com mensagem, de combate e com comprometimento político óbvio: a mensagem, o combate e o comprometimento político de quem não desiste de transformar o mundo, de substituir a velha sociedade capitalista, baseada na exploração do homem pelo homem, por uma sociedade liberta de todas as formas de exploração.

15 comentários:

Anónimo disse...

«aos trabalhadores sem trabalho - rodas paradas de uma engrenagem caduca».

Querem coisa mais actual?

Um Abraço,

MG

CRN disse...

Fernando,

A propósito dos medos do Mário, não é ele quem escreve sobre a Portugalidade, mostra uma religiosidade barroca na prosa ou ensaia teses sem que valham a publicação, como "Para o Estudo do Analfabetismo e da Relutância à Leitura em Portugal"?
Está falar de quê, futebol?

A revolução é hoje!

Ana Camarra disse...

Bom, para já tenho pena que o Mário Cláudio se tenha estupidificado com essa afirmação.
Depois, a sociedade evolui, pouco e devagar, mas ainda assim só evolui pela luta continua de pessoas como Soeiro Pereira Gomes, nada mais.
Os "Esteiros" a par com outros que me ocorrem, como "Constantino Guardador de Vacas e de Sonhos", o "Malhadinhas" ou ainda "As Aventuras de João Sem Medo", são optimos exemplos de uma literatura portuguesa, boa, pertinente, bem estruturada com conteudo a ser incluida nos programas escolares.
Eu como mãe tento incutir esse gosto.

Beijos

zemanel disse...

Há maids literatura para lá do neo-realismo. Mas nós sabemos bem porque é que querem calar os neo-realistas.
No entanto ela move-se...

poesianopopular disse...

Ainda bem que o Mário Claudio, não tem a importância que ele pensa ter, pois assim os neo-realistas continuam vivos e actuais.
Abraço

salvoconduto disse...

Não fora Mári Claudio e eu não saberia que o trabalho infantil desaparece por decreto...

filipe disse...

Saúdo as tuas palavras, de crítica a mais uma triste manifestação de rendição de uma certa intelectualidade.
Do grande escritor comunista Soeiro Pereira Gomes, da sua obra luminosa, talvez nos baste saber que um e outra permanecerão na memória e no património literário do nosso Povo.
Quanto às afirmações de Mário Claudio, seguramente chegará dizer que, com elas, se introduziu no redil que há muito acolhe tantos que optaram e optam por louvar o sistema dominante e seus panegíricos do momento, a pretexto de uma pseudo libertação da estética perante o real, tese tão falsa quanto manhosa.
Um abraço.

GR disse...

O Mário Cláudio um escritor mediático tendo destaque nos meios intelectuais e alguma influência nos jovens, pelo menos no norte, faça uma critica tão reaccionária.
Sim, reaccionária!
Não podemos esperar que homens de letras conscientes (!), sabendo bem o que estão a dizer, maltratem um escritor desta dimensão como Soeiro. Já bastou o Regime Fascista para o fazer.
Faz-me lembrar “aquela frase batida”, - “é muito boa pessoa, honesto, trabalhador, só é pena ser comunista!”.
Soeiro Pereira Gomes está actualíssimo. Hoje (16/4) vai sair no Avante!, uma reedição de um dos seus Contos.

GR

samuel disse...

Também pertence ao grupo daqueles que, independentemente da maestria técnica, se enfastiaram com "certas coisas"...
São as lutas e mensagens que já não se usam... as canções que não se usam...
Parece-me mais ser uma zona do cérebro que não se usa!
Grande post!

Abraço.

Maria disse...

É que pode ser considerado subversivo ensinar Soeiro aos jovens...
Mais uma manobra para branquear o fascismo, como dizes e eu subscrevo em absoluto.
O que chateia esse senhor e outra gente é que Soeiro está tão actual como sempre esteve. E o que os move é outra coisa....

Um beijo grande

Hilário disse...

Basta olhar para os dias de hoje da nossa sociedade e do Mundo, para continuarmos a dizer que Soeiro Pereira Gomes continua actual, como sempre esteve e estará, enquanto continuar a existir esta sociedade e este Mundo de paz podre, da exploração, da corrupção, do compadrio e das guerras.

Um Abraço

Anónimo disse...

Alguem disse "as coisas têm preço, as pessoas têm dignidade".
Porque será que me lembrei destas palavras? O que sei é que,ontem,quase desatei a chorar quando vi e ouvi, na tv, uma notícia que relatava o facto de que chegam aos hospitais crianças sub-nutridas que se alimentam apenas com um biberão por dia.
Não há "real" nem literatura (por muito bem escrita que seja) que possam fazer esquecer, e muito menos perdoar, tanto sofrimento e tanta angústia.
Agora estou a pensar:
E se isto se passasse na casa dele?

Campaniça

Antuã disse...

Mário cláudio rendeu-se ao dinheiro e este é o seu deus. que mensagem pode vir duma mente destas?!...

Fernando Samuel disse...

MG: podia ter sido escrito hoje.
Um abraço.

CRN: antes fosse de futebol...
Um abraço.

Ana Camarra: sempre foi a luta que fez evoluir a sociedade - uma luta à qual, por vezes, os lutadores dão a sua própria vida.
Um beijo.

zemanel: a questão é essa, precisamente.
Um abraço.

poesianopopular: ao fim e ao cabo é a luta que está actulizadíssima...
Um abraço.

salvoconduto: e que o desemprego está «desactualizado»...
Um abraço.

filipe: neste caso, não será tanto a louvação do sistema dominante, mas mais, talvez, não o ver nas suas dimensões opressora e exploradora.
Um abraço.

GR: e vale a pena ler (reler) esses contos.
Um beijo.

samuel: a «maestria técnica» por vezes deslumbra e é como um espelho para o qual os «maestros» não se cansam de olhar...
Um abraço.

Maria: subversivo, pois, género «campanha negra» ou assim...
Um beijo grande.

Hilario: a Obra de Soeiro é de hoje.
Um abraço.

Campaniça: Lembraste-te muito bem dessas palavras...
Um beijo amigo.

Antuã: o que espanta é a contradição...
Um abraço.

Jota disse...

Com uma obra tão respeitável,é pena o sr Mário Cláudio expressar opiniões tão infelizes.