POEMA

TALVEZ A MINHA ÚLTIMA CARTA A MÉMET



Por um lado
os carrascos entre nós
como uma parede a separar-nos
e por outro lado
este coração mal comportado
que me armou uma partida reles.
Meu pequenino, meu Mémet,
o destino vai talvez impedir-me
de voltar a ver-te.
Sei-o
serás um rapaz parecido
com uma espiga de trigo
eu próprio era assim ao tempo da minha juventude,
louro, esbelto e de boa estatura;
os teus olhos serão vastos como os da tua mãe
por vezes com um traço de amargura
de tristeza,
a fronte será clara até ao infinito.
Terás também uma bela voz
a minha era horrível
as canções que cantares
partirão corações.
E serás um conversador brilhante
eu também era mestre em tal matéria
quando não me punham com os nervos em franja.
O mel fluirá da tua boca
Ah Mémet
que devastador de corações
tu vais ser!
É difícil criar um filho sem a presença do pai
não magoes a tua mãe,
se eu não pude dar-lhe alegrias
dá-lhas tu.
A tua mãe
forte e branda como a seda
a tua mãe
ainda será bela quando tiver idade para ser avó,
como no primeiro dia em que a vi
na margem do Bósforo
tinha ela dezassete anos.
Ela era o luar
e a luz do dia
fazia lembrar uma rainha-cláudia,
a tua mãe,
uma manhã como de costume
separou-se de mim: Até logo!
Nunca mais nos vimos.
A tua mãe
na sua bondade a melhor das mães
que viva cem anos
e que Deus a proteja.
Eu, meu filho, não tenho medo de morrer,
mas não obstante
por vezes quando estou a trabalhar
de repente
estremeço
ou então na solidão que precede o sono.
É difícil contar os dias
não podemos saciar-nos do mundo
Mémet
não podemos saciar-nos.
Não vivas na terra
à maneira de um locatário
ou em vilegiatura
na natureza,
vive neste mundo
como se ela fosse a casa do teu pai,
acredita nas sementes
na terra, no mar,
mas em primeiro lugar ama o homem,
sente a tristeza
da árvore que seca
do planeta que se extingue
do animal enfermo,
mas em primeiro lugar a tristeza do homem.
Que todos os bens terrestres
te dêem alegria em profusão,
que a sombra e a claridade
te dêem alegria em profusão,~
mas em primeiro lugar que o homem
te dê alegria em profusão.
A nossa pátria, a Turquia,
é um belo país
entre os demais países
e os seus homens,
aqueles que não se turvaram,
são trabalhadores
meditativos e corajosos,
mas horrivelmente miseráveis.
Já sofremos e havemos de sofrer mais
mas no fim a conclusão será esplêndida.

Tu, neste país, com o teu povo,
construirás o comunismo,
vê-lo-ás com os olhos
tocá-lo-ás com as mãos.

Mémet, morrerei talvez
longe da minha língua
longe das minhas canções
longe do meu sal e do meu pão,
com a nostalgia da tua mãe e de ti,
do meu povo e dos meus camaradas.
Mas não no exílio
não no estrangeiro.
Morrerei no país dos meus sonhos
na cidade branca dos meus melhores dias.
Mémet, meu pequeno,
confio-te
ao Partido comunista turco.
Vou-me embora mas estou calmo
a vida que em mim se apaga
continuará em ti por muito tempo
e no meu povo eternamente.


Nâzim Hikmet

VIVA A GREVE GERAL

As notícias são como são: umas grandes, outras pequenas, umas más, outras boas...

Esta - de apenas dezassete palavras - é pequena:
«A UGT confirmou hoje a adesão à greve geral marcada pela CGTP para o dia 24 de Novembro».

Pequena, mas boa - para já.
Nas circunstâncias actuais, pode dizer-se, até, que esta adesão da UGT constitui um primeiro êxito da Greve Geral.

Entretanto, continuemos a trabalhar no sentido de fazermos da Greve Geral uma muito grande e muito forte jornada de luta dos trabalhadores portugueses.
Porque é nesse trabalho preparatório - de esclarecimento e de mobilização dos trabalhadores - que está a chave do êxito.

VIVA A GREVE GERAL!

POEMA

UMA HORA DA MANHÃ


A toalha é de algodão azul
e em cima dela os nossos livros
risonhos, sinceros, corajosos.

Cheguei do cativeiro
minha bela,
do baluarte
do meu inimigo
no meu próprio país.
É uma hora da manhã.
Ainda não apagámos a luz,
a minha mulher está deitada ao meu lado
está no seu quinto mês
e quando lhe toco ao de leve
quando lhe pouso a mão no ventre
o bebé dá voltas e mais voltas,
tal como a folha no ramo
o peixe na água
o filho do homem na matriz
o meu filho.
A primeira camisola do meu filho
em lã cor de rosa,
foi tricotada pela mãe.
O corpo, um palmo da minha mão.
E os braços - assim grandes!
Quero que o meu filho,
se for menina,
seja parecido com a mãe da cabeça aos pés,
se for menino,
que saia a mim em altura,
se for menina,
que olhe com uns olhos cor de avelã,
se for menino,
que o seu olhar seja de um azul imenso.
Ao meu pequenino,
não quero que o matem aos vinte anos,
se for rapaz, com um tiro na fronte,
se for menina,
nos abrigos, em plena noite.
Ao meu pequenino,
seja rapariga seja rapaz,
e qualquer que seja a sua idade,
não quero que o levem para a prisão
por ser a favor da beleza, da justiça e da paz.
Mas não há dúvida
meu filho e minha filha
que se o dia tardar
tu vais ter mesmo
que te bater...

É um duro ofício, no nosso país, nos nossos fias,
ser pai.
É uma hora da manhã.
Ainda não apagámos a luz,
talvez dentro de momentos,
com a aurora, talvez,
vão entrar em casa à força
e prender-me e levar-me
e aos meus livros,
ladeado pelos membros da polícia política.
Vou olhar para trás e tornar a olhar
a minha mulher imóvel na soleira da porta
e no seu ventre cheio e pesado
o bebé dará voltas e mais voltas.


Nâzim Hikmet

O ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES

«Perseguição religiosa»: é assim que João César das Neves, reaccionarão e beato - também conhecido por Abominável Homem das Neves - na sua homilia semanal no DN, classifica as notícias sobre a suspeita de branqueamento de dinheiro por parte do Banco do Vaticano e sobre os casos dos padres e bispos pedófilos.

Procedendo a um resumo da história das «perseguições religiosas» de que, diz ele, a Igreja tem sido vítima, Neves esclarece que tudo começou no século XIX com a «acusação de violência», ou seja: com «o mito da Igreja sangrenta da Inquisição e das Cruzadas».
Ora, Neves considera «ridículo (...) atacar pessoas pacíficas e serenas por histórias de séculos antigos», tanto mais que, esclarece, «os católicos actuais não pretendem tribunais ou invasões» - além de que, observa, a Inquisição e as Cruzadas não foram exactamente como se diz...
É certo e sabido que, um dia destes, o Abominável virá demonstrar-nos que os autos de fé não passavam de festivas fogueiras de S. João e que os cruzados eram grupos excursionistas que percorriam o mundo em busca de novas paisagens.

Mais tarde, a «perseguição religiosa» centrou-se naquilo a que Neves chama «o triplo cânone da injúria»: «dinheiro, sexo e poder» - coisa esta «irónica» na pia visão do Abominável, já que «a Igreja sempre foi a principal promotora da virtude» tanto em matéria de dinheiro, como de sexo, como de poder... E para quem duvide, Neves ensina que «a perfeição evangélica baseia-se nos votos de pobreza, castidade e obediência»...
É certo e sabido que, um dia destes, a fértil imaginação do Abominável virá mostrar-nos exemplos muitos da forma como os príncipes da Igreja cumprem à risca «a perfeição evangélica»...

Mas, pergunta Neves, «não serão graves e reais as acusações, como no caso dos padres pedófilos?» - e responde que a polícia e os tribunais é que decidirão... e que tudo isso se passou há muito, muito tempo, nalguns casos há tanto tempo que «a morte ou a prescrição tornam já impossível fazer justiça»... e só por «perseguição religiosa» é que se volta agora a falar nisso...
É certo e sabido que, um dia destes, o Abominável virá dizer-nos: «eu não vos disse?: todos os casos de pedofilia foram arquivados por prescrição»...

Finalmente, Neves explica a razão pela qual os «inimigos» lançaram agora esta «perseguição»: «o sucesso do pontificado de Bento XVI» - um «sucesso» tão, tão, tão grande - diz Neves - que os «inimigos», para o diminuir, tiveram que recorrer ao «cânone da injúria»...
É certo e sabido que, um dia destes, o Abominável virá demonstrar-nos que o pastor alemão é a única raça pura do planeta...

POEMA

O DESPERTAR


Acordaste.
Onde estás?
Na tua casa.

Ainda não ganhaste o hábito
de estar em casa
ao acordar.
É um dos males
resultante de treze anos de prisão.

Quem está deitado ao teu lado?
Não é a solidão.
É a tua mulher.
Dorme como um anjo.
Fica-lhe bem, à minha bela, a gravidez.

Que horas são?
Oito horas.
Isso quer dizer
que até à noite estaremos em segurança.
Segundo o costume,
enquanto for dia
a polícia não faz buscas.


Nâzim Hikmet

A BANCA GANHA SEMPRE

A Banca é, de facto, uma grande, anafada e próspera criatura.
Quer chova quer faça sol - isto é, quer o tempo seja de crise quer seja de retoma... - a Banca ganha sempre.
Porquê?: porque, como deste tempos imemoriais nos é dito, a Banca tem que ganhar sempre. E pronto.

Atente-se neste exemplo: a propósito do PEC3 e das suas consequências nos bolsos dos portugueses, alguém fez as contas e concluiu que os muitos milhões de euros que o Estado vai arrecadar serão assim distribuídos: os consumidores (isto é, a malta) entram com 93% e a Banca entra com 7%.
Mas isto é uma maneira de dizer, já que, como fez questão de nos informar um dos senhores 7% (neste caso o inevitável Faria de Oliveira, presidente da CGD) quem, de facto, vai pagar esses 7% são «os clientes da Banca» (isto é, a malta).
E assim se cumpre o sagrado princípio: a Banca ganha sempre.

Outro exemplo: o dinheiro com o qual o Estado salvou de falências fraudulentas o BPP e o BPN - dinheiro que era (deveria ser...) de todos nós - seria suficiente para baixar o défice de 7, 3 para 4, 6 %... e, portanto, os impostos não teriam que aumentar.
Mas vejamos: se os referidos bancos não tivessem sido salvos dariam uma má imagem da Banca em geral - o que acarrateria elevados prejuízos para a Banca em particular.
Ora, a Banca não pode ter prejuízos, a Banca tem que ganhar sempre...


Para que a Banca ganhe sempre, os «governos», os «mercados», «Bruxelas», a «Comissão»... não se poupam a esforços.
E chega a ser comovente o zelo, o enlevo, o desvelo com que essas instituições cumprem a sagrada tarefa de que estão incumbidas.
Por exemplo: o Banco Central Europeu - que, por razões óbvias, decidiu não fazer empréstimos directamente aos Estados - elegeu a Banca como intermediária nas suas relações com esses Estados, ou seja: empresta à Banca que, por sua vez, empresta aos Estados.
Mas atenção: como a Banca tem que ganhar sempre, o BCE cobra-lhe um juro de 1% de forma a que ela - a Banca - possa depois emprestar aos Estados cobrando-lhes um juro de 6% e, assim, cumprir o sagrado destino de ganhar sempre.

Até que a malta troque as voltas a esse destino...

POEMA

NO QUINTO DIA DE UMA GREVE DA FOME



Meus irmãos,
se eu não conseguir dizer correctamente o que tenho para vos dizer,
desculpar-me-eis, irmãos.
Estou levemente embriagado, a cabeça um pouco a andar à roda,
não de aguardente,
de fome, um nadinha.

Meus irmãos
da Europa, da Ásia, da América,
não estou na prisão, em greve da fome,
é como se estivesse deitado na relva, à noite, neste mês de Maio,
os vossos olhos brilham como estrelas à minha beira.
E as vossas mãos, uma só dentro da minha
como a da minha mãe,
como a mão da minha amada,
como a de Mémet,
como a de Mémet.

Meus irmãos,
convosco eu nunca estive sozinho:
não apenas eu,
mas também o meu país e o meu povo.
Porque vós amais os meus tanto quanto eu os vossos,
obrigado, irmãos, meus irmãos,
obrigado.

Meus irmãos,
não faço tenção de morrer.
Meus irmãos, continuarei e viver junto de vós, sei que sim:
estarei no verso de Aragon,
no seu verso
que fala dos belos dias que hão-de vir.
Estarei na pomba branca de Picasso,
estarei nas canções de Robeson.
E sobretudo
e melhor que tudo,
entre os estivadores de Marselha,
estarei no riso vitorioso dos meus camaradas.

Numa palavra, meus irmãos,
sou feliz, feliz a mais não poder.


Nâzim Hikmet

O QUE DAVA, SEI EU...

Quem está a viver momentos de dramática aflição e de pungente angústia com as medidas do PEC3 - especialmente no que respeita aos cortes nos salários - é o deputado Ricardo Gonçalves, do PS...
Não que esteja em desacordo com as ditas medidas. Pelo contrário: acha-as todas inevitáveis; acha até que já deviam ter sido tomadas há mais tempo; e acha, ainda, que é necessário que sejam muito bem explicadas ao povo.

A questão é que com o anunciado corte nos salários, ele, Ricardo Gonçalves, deputado do PS, «quase fica sem dinheiro para comer» - e isso é intolerável...
E é com a ameaça da fome a toldar-lhe a razão e o raciocínio que explica: «Estamos todos a apertar o cinto, mas os deputados são de longe os mais atingidos na carteira» - especialmente os «deputados da província», como é o seu caso, que têm que «pagar viagens, alojamento e comer fora».

E sempre a explicar... explica-se: «Ganho 3 700 euros por mês. E tenho mais 60 euros de ajudas de custo por dia»
E pergunta: «Acha que dá para tudo?»
E responde: «Não dá».

Claro que «não dá»...
O que dava, sei eu: era pôr o senhor Gonçalves a ganhar o mesmo que ganha a imensa maioria dos portugueses, ou seja: menos de um décimo do salário do deputado Gonçalves - e com efeitos retroactivos.
Ele bem o merecia - tanto mais que não só está de acordo com as medidas tomadas, como acha que vieram tarde....

POEMA

NÃO NOS DEIXAM CANTAR


Não nos deixam cantar, Robeson*,
meu canário com asas de águia,
meu irmão negro com dentes de pérola,
não nos deixam cantar as nossas canções.
Têm medo, Robeson,
medo da aurora, medo de olhar,
medo de ouvir, medo de tocar.
Têm medo de amar,
medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.
(Decerto que também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como é que lhe chamas, Robeson?)
Têm medo da semente e da terra,
medo da água que corre,
medo da lembrança.
A mão de um amigo que não deseja
nem desconto nem moratória,
igual a um pássaro quente,
não apertou nunca a sua mão.
Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Têm medo, meu canário com asas de águia,
têm medo das nossas canções, Robeson...



Nazim Hikmet


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* Paul Robeson - cantor negro americano já falecido. Do seu repertório faima parte cantos espirituais negros e outras canções tradicionais e de combate. (N.T)

NO DIA 24 DE NOVEMBRO FALAMOS...

Nada mete mais medo ao grande capital - e, por dever de ofício, aos seus serventuários e propagandistas - do que a luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos e interesses.
Se essa luta atinge formas superiores - Greve Geral, por exemplo - então o medo transforma-se em pavor e o habitual vale-tudo mostra o que vale: redobram as pressões, chantagens, ameaças e represálias todos os dias exercidas sobre os trabalhadores em milhares de empresas, proibindo-os de exercer direitos consagrados na Constituição da República, entre eles, e especialmente, o direito à greve.
Em simultâneo, ao toque da campainha pavloviana, os propagandistas de serviço começam a salivar... e, repetindo-se e repetindo o que os seus antepassados vêm escrevendo desde tempos imemoriais, disparam as tradicionais rajadas de velharias ideológicas travestidas de modernidade.


Desta vez, o primeiro propagandista de serviço a entrar em cena (tanto quanto me apercebi) foi um tal Alberto Gonçalves - sociólogo com tabuleta para a rua e uma página dominical no Diário de Notícias.
À primeira vista, a arruaceira prosa de Gonçalves parece ser dirigida contra a poderosa Greve Geral recentemente erguida pelos trabalhadores espanhóis, mas, de facto, ela é produzida a pensar essencialmente no dia 24 de Novembro...
Com efeito, é com os temores apontados para essa data que o dominical sociólogo - que, a avaliar pelo conteúdo do que escreve, deve andar pelos 160 anos de idade - dispara raivosas rajadas contra os piquetes de greve: «essa instituição que se dedica a exercer violência sobre alguns trabalhadores»; essa «brutalidade»; essa «visão totalitária da humanidade»; essa coisa «protagonizada por indivíduos com o privilégio de um emprego estável que tentam obrigar os restantes a perderem o seu»...
Não há dúvida: o sociólogo sabe a velha lição na ponta da língua.

Tudo isso para chegar à «conclusão» habitual nestas ocasiões: que «a greve geral, alegada "demonstração de força" é, afinal uma confissão de impotência».
O que, a ser verdade, seria motivo para o sociólogo dos domingos fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas...
Em vez da festa, contudo, ele faz uma exibição dos receios que lhe vão naialma, da impotência que, de facto, o invade.
E, incomodado, provocador e com força de viagra, remata assim: «Incómoda e com frequência criminosa, mas impotência de qualquer modo, a qual será exibida a 24 de Novembro nas ruas do nosso país»...

Então, sendo assim, no dia 24 de Novembro falamos...

POEMA

A VIAGEM


A viagem fazemo-la num qualquer modesto cargueiro.
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
roçando as águas?
Não era cada aurora o reflexo
da nossa grande nostalgia?

Mas é em frente que vamos, não é verdade?,
é em frente que vamos.


Nâzim Hikmet

A LUTA CONTINUA

A CGTP-IN comemorou o seu 40º aniversário.
Fê-lo da forma mais apropriada: realizando uma grande Assembleia de dirigentes e activistas sindicais - ou seja: em luta.

Os mais de 1300 sindicalistas presentes relembraram o 1 de Outubro de 1970, dia em que foi criada a Intersindical, que viria a transformar-se na Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional. A CGTP-IN.

Nos seus quarenta anos de vida, a CGTP-IN - unitária, de classe, democrática e de massas - afirmou-se como a grande central sindical dos trabalhadores portugueses, desempenhando um papel decisivo em momentos vários da nossa história colectiva.
Por isso tem sido alvo, por parte das forças do grande capital, de fortes e permanentes ofensivas tendo como objectivo - eles o disseram... - «quebrar a espinha à Intersindical»...

Objectivo fracassado - como o comprova o conteúdo da acção todos os dias desenvolvida pela CGTP-IN e, de forma particular, a Assembleia de ontem.
Em especial quando os 1 300 sindicalistas presentes aplaudiram entusiásticamente - e gritando «A Luta Continua» - a decisão de convocar uma Greve Geral para o dia 24 de Novembro.

É isso: A Luta Continua - e, na situação actual, a linha fundamental dessa luta é a criação de condições para que a Greve Geral se traduza num grande êxito da acção organizada e da luta dos trabalhadores.

POEMA

O LIVRO COM CAPA DE COURO


Na noite passada
à luz
fo luar
li, durante horas,
como um derviche louco
cuja vela se tivesse apagado,
li o livro com imagens a cores,
o grande livro da capa de couro dourado, já rasgada.

Cada página amarelecida
do livro que dorme
por baixo da capa rasgada
de couro dourado
espalhava
um odor a bafio.

As suas linhas animaram-se uma a uma
e diante da mesa de leitura
ergueram-se sob a forma
que lhe dão as fábulas:
O Diabo
tomou o aspecto de uma serpente,
Adão
sucumbiu
à atracção de Eva.
Vi Abel matar Caim como um danado,
um grande navio em madeira singrou no Oceano do sonho.
No horizonte vi Noé
à espera de uma pomba.
Então pareceu-me estar a calcar
a terra de um túmulo.
No alto do Monte Sinai vi Moisés
levantar os braços para Deus, que o ouviu
e a um sinal da sua vara o mar abriu-se.
Os filhos de Israel
encontraram o caminho da Terra Prometida...
A oração de Zacarias
trasnformou-se num suspiro infinito.
Jesus nasceu e Maria
fez Dom da sua virgindade a Deuas...

Medina ofereceu a morada
a Mahomé o chorichita,
e Kerbela para Husseyin
tornou-se uma sepultura de fogo.
Sim, pouco a pouco tudo isso
se levantava e despenhava através das idades,
à medida que eu virava as páginas
do livro que espalhava odor a bafio.
Desapareceu a lua, o sol ergueu-se
uma chama nova nasceu
no meu coração.
E depois
com um gesto profundo e solene
atirei-o para o fundo de um poço
de forma a poder dormir lá o sono eterno -
o livro das páginas amarelas
com capa de couro dourado, já rasgada!...

Pobres, pobres de nós que fomos enganados
durante séculos.
Que rastejámos
como répteis.
Que ardemos
como tochas
para lobrigar na escuridão
os sinais que lá foram traçados,
para vê-los
na noite escura
e prosternar-nos diante deles.
Tudo mentiras,
o céu não concedeu
nem a misericórdia nem a salvação
aos escravos que sofrem até mais não poderem,
Moisés, Mahomé, Jesus
concederam tão-só uma prece vã, um incenso mentiroso
com os seus infernos e os seus diabos,
apontaram-nos o caminho do paraíso das fábulas,
continuamos a ser escravos e a ter senhores,
e há sempre um muro,
um muro de pedras malditas cobertas de musgo,
que atribuiu dois destinos diferentes
aos filhos da terra,
chamando senhores a uns e escravos a outros!
Que todos os seus donos, santos e eremitas
desapareçam nos profundezas das trevas eternas
cujo caminho até agora nos fizeram seguir.

Nos caminhos da luz
só existe
uma única religião,
uma única lei, uma única fé, um único direito,
igual aqui como em toda a parte:
O TRABALHO DO TRABALHADOR!


Nâzim Hikmet

GREVE GERAL!

Lá fora:
«As medidas foram bem recebidas em Bruxelas»
«Os mercados estão satisfeitos com as medidas»
Pronto: o Governo pode dormir descansado...

Cá dentro:
Teixeira dos Santos, actual ministro das Finanças: «Devo dizer-vos que para tomar estas medidas dormi mal, mas, se não as tomasse, eu acho que não era capaz de dormir»
Está visto: o sono do ministro faz parte do «interesse nacional».

Vários ex-ministros das Finanças (uns do PS, outros do PSD, outros dos dois) acham bem, mas acham que é pouco.
Não percam o sono por causa disso: durmam um bocadinho que quando acordarem há mais.

Na reunião de Sócrates com o secretariado, a comissão política e o grupo parlamentar do PS, realizada após o anúncio das medidas: «ninguém atacou directamente as medidas em si. A ala esquerda (...) alinhou na defesa das medidas e na tese de que é preciso serem explicadas»
Com uma ala esquerda assim, o PS pode dormir tranquilo: nem precisa de ala direita.


Foi neste cenário de cambada bem dormida que o Conselho Nacional da CGTP aprovou ontem, por unanimidade, a realização de uma GREVE GERAL.
Vai ser no dia 24 de Novembro.
E estou em crer que, mal foi anunciada, a GREVE GERAL começou logo a tirar o sono à cambada.

POEMA

D. QUIXOTE


O cavaleiro da eterna juventude
ao atingir os cinquenta foi atrás
da razão que batia no seu coração.
Uma bela manhã de Julho partiu
à conquista da beleza, da verdade e da justiça.
Diante dele estava o mundo
com os seus gigantes absurdos e abjectos
e por baixo o Rocinante
triste e heróico.

Bem o sei,
uma vez que essa paixão se apodere de nós
e se tenha um coração de um peso respeitável
não há nada a fazer, meu D. Quixote, nada a fazer.
Há que enfrentar os moinhos de vento.

Tens razão,
Dulcineia é a mulher mais bela do mundo.
Claro que era preciso lançar tudo isto
à cara dos pequenos comerciantes de ninharias.
Claro que eles iam atirar-se a ti
e moer-te de pancadaria.
Mas tu és o invencível cavaleiro da sede.
Tu continuarás a viver como uma chama
dentro da pesada armadura de ferro.
E Dulcineia será cada dia mais bela.


Nâzim Hikmet

É TEMPO DE LUTAR

«Sócrates anuncia um ano terrível aos portugueses», diz a primeira página do Diário de Notícias de hoje - e enuncia algumas das malfeitorias ontem anunciadas pelo primeiro-ministro.

É o PEC3 seguindo o caminho do 1 e do 2: cortes brutais nos salários, nas pensões, nos serviços públicos, em tudo o que diz respeito a direitos e interesses de quem trabalha e vive do seu trabalho - e benesses à fartazana para os que vivem à custa do trabalho dos outros: os grandes grupos económicos e financeiros.

Mas atenção: o «ano terrível» é o próximo, pois apesar de o ano actual ser o que se sabe , «é em 2011 que a austeridade vai sentir-se mais».

A «receita» é velha: conhecem-na e aplicaram-na todos os governos dos últimos 34 anos, desde o 1º do Soares até ao actual do Sócrates, passando pelos do Cavaco, do Guterres, do Barroso/Lopes..., e cada um indo mais longe do que o anterior, cada um afundando o País mais do que o anterior, e todos, cada ano, anunciando aos portugueses «um ano terrível».

34 anos de «anos terríveis» para os mesmos de sempre, é demais.
É tempo de pôr fim aos «anos terríveis» para a imensa maioria dos portugueses.
É tempo de dar a volta a isto.
É tempo de fazer de cada ano que aí vem um «ano terrível» sim, mas para aquela escassa minoria de exploradores e lacaios que tem enchido os bolsos à nossa custa.

É tempo de lutar.
Ontem foi o que vimos.
Amanhã seremos mais e mais fortes.

POEMA

ANGINA DE PEITO


Se metade do meu coração está aqui, doutor,
a outra metade está na China,
no exército que desce em direcção ao Rio Amarelo.

E depois, todas as manhãs, doutor,
o meu coração é fuzilado na Grécia.

E depois, quando os prisioneiros mergulham no sono,
quando a calma regressa à enfermaria,
o meu coração parte, doutor,
todas as noites
parte para uma casa
velha de madeira em Tchamlidja.

E depois, faz dez anos, doutor,
que nada tenho nas mãos para oferecer ao meu pobre povo,
só uma maçã,
uma maçã vermelha: o meu coração.

É por isso, doutor,
e não por causa da arteriosclerose, da nicotina, da prisão,
que tenho esta angina de peito.

Olho à noite por entre as grades
e apesar de todas as paredes que me pesam no peito,
o meu coração bate ao ritmo da estrela mais longínqua.


Nâzim Hikmet

QUE FAZER COM ESTE BARRETO?

António Barreto - exactamente, esse em quem estão a pensar... - foi a Coimbra fazer uma palestra sobre «Desenvolvimento Regional e Cidadania».

Não sei a que propósito - talvez na parte da Cidadania... - disparou contra a Constituição da República Portuguesa.
Como é sabido, Barreto odeia a Lei Fundamental do País desde que ela foi aprovada e, quando foi ministro da agricultura do governo contra-revolucionário de Mário Soares, maltratou-a, espezinhou-a, violou-a, rasgou-a - de tal forma que se houvesse justiça tinha ido, justamente, parar com os costados à choça...
Mas não foi: pelo contrário, subiu na vida, não lhe falta nada - a não ser o que sempre lhe faltou: vergonha, dignidade, seriedade...

Então, sobre o assunto disse o animal, em Coimbra, que «há direitos a mais na Constituição».
E explicou: «na Constituição, o cidadão português tem todos os direitos e mais alguns. Tem direito à saúde e à educação de graça, à habitação» - enfim, um autêntico desbragamento de direitos...
Mas, pior, muito pior do que isso - diz a besta - é que a maior parte desses direitos constitucionais não são «direitos fundamentais» - e «é essencial distinguir entre direitos fundamentais e direitos sociais e económicos».

Para o quadrúpede, «direitos fundamentais são o direito à privacidade, à integridade humana individual, direito à boa reputação, de voto, de expressão e de circulação» - todos os outros direitos não são fundamentais...
Por isso, diz a cavalgadura, esses direitos todos que estão na Constituição - como o direito ao trabalho, ao salário, à saúde, à educação, à habitação, à velhice, à infância... -não deveriam lá estar porque não são fundamentais - além de que «não são compatíveis com o período de crise económica que o País atravessa».

Digam lá: que fazer com este Barreto?

POEMA

A PROPÓSITO DO MONTE ULUDAG



Faz sete anos que nos olhamos
olhos nos olhos
esta montanha e eu
e ninguém arreda pé
nem ela nem eu.
Contudo, já nos conhecemos bem.
Ela sabe rir e zangar-se
como tudo o que leva a vida a sério.

Porém
sobretudo no Inverno
sobretudo à noite
sobretudo quando o vento sopra do sul
com os picos nevados
as florestas de pinheiros
as pastagens
os lagos gelados,
ela move-se ao de leve no sono
e o eremita que vive lá no cimo
com a barba comprida e descuidada
e a túnica ao vento
desce até à planície a ulular
a ulular à frente do vento.

E às vezes
sobretudo em Maio, de manhã cedo
toda azul, sem quaisquer limites,
imensa, feliz livre
ela eleva-se, semelhante a um mundo novo.

E há dias em que por vezes
se assemelha à sua imagem nas garrafas de limonada...

E calculo que num hotel que nunca vi
as esquiadoras passam bons momentos
a beber conhaque com os esquiadores.

E há dias
em que um desses serranos de sobrancelhas negras
e calças de burel, amarelas e largas,
por ter sacrificado o vizinho no altar da sacrossanta propriedade
vem, como nosso hóspede,
passar quinze anos na cela colectiva número dezassete...


Nâzim Hikmet

O POVO HONDURENHO VENCERÁ

Há 15 meses - feitos precisamente hoje - um golpe militar derrubou o Presidente das Honduras, Manuel Zelaya, e entregou o poder a um agente do imperialismo norte-americano, fascista, de seu nome Micheletti.

Desde logo, o povo hondurenho decidiu resistir ao golpe fascista, consciente das consequências dessa decisão - consequências que não se fizeram esperar...
De então para cá, a repressão tem sido brutal - mas o povo resiste.
Prisões, torturas, assassinatos multiplicam-se por todo o País - mas, por todo o País, o povo resiste.
E não desiste de resistir - sempre consciente das consequências dessa decisão.
Trata-se, de facto, de uma resistência corajosa e heróica e que assim é vista por milhões de trabalhadores de todo o mundo que não desistem, também, de manifestar a sua solidariedade aos heróicos resistentes.

A resistência nas Honduras é obra do povo.
Demonstram-no as massivas acções levadas a cabo por todo o País com a participação activa de centenas e centenas de milhares de pessoas.
Um exemplo claro disso é o que diz respeito ao abaixo-assinado posto a correr pela Frente Nacional de Resistência Popular, exigindo a reposiçã da legalidade democrática: a convocação de uma Assembleia Constituinte e o regresso do presidente legítimo, Manuel Zelaya, e de todos os exilados: no espaço de cinco meses foram recolhidas 1 342 876 assinaturas (para compreender o significado deste número - por si só altamente significativo... - basta dizer que ele corresponde a cerca de 20% do total da população e a mais de 30% dos eleitores inscritos).
Acrescente-se que, por decisão dos seus subscritores, a petição não será enviada para qualquer dos actuais poderes do Estado - que eles consideram ilegais e ilegítimos - mas para a ONU e para a Organização dos Estados Americanos.

Assim se resiste nas Honduras.

Quinze meses depois do golpe fascista perpetrado pelo governo de Obama e concretizado pelos seus homens de mão nas Honduras, e após quinze meses de resistência heróica por parte do heróico povo hondurenho, o Cravo de Abril manifesta uma vez mais a sua solidariedade aos resistentes, assumindo o compromisso de prosseguir a denúncia da repressão fascista e a divulgação da resistência - tanto mais que essa repressão e essa resistência são cirurgicamente silenciadas pelos média do grande capital.
O POVO HONDURENHO VENCERÁ!

POEMA

ACERCA DA VIDA


A vida não é uma brincadeira,
deves tomá-la a sério,
como faz, por exemplo, o esquilo,
sem nada esperar
nem fora nem para além da vida.
Quer dizer: a tua única preocupação será viver.
A vida não é uma brincadeira,
deves tomá-la a sério
e a tal ponto a sério
que de mãos atadas, por exemplo, de costas para a parede,
ou num laboratório
de bata branca e óculos enormes,
morrerás para que os homens vivam,
os homens a quem nem sequer viste a cara.
Morrerás sabendo
que nada é mais belo, nada é mais verdadeiro do que a vida.
Deves tomá-la a sério
e a tal ponto a sério
que aos setenta anos, por exemplo, plantarás oliveiras
não para herança dos teus filhos, não
mas porque não acreditarás na morte,
temendo-a embora,
mas porque a vida pesará mais na balança.


Nâzim Hikmet

«UM SOCIALISTA NA EUROPA»

Ao intervir no Fórum Mundial de Líderes da Universidade de Columbia, o secretário-geral do PS, José Sócrates, por distracção, apresentou-se como «socialista».
Dado que, nos EUA, socialista é sinónimo de comunista, os presentes... nem queriam acreditar no que tinham ouvido:

Mas o que é isto!!??
Um comunista aqui, no Forum Mundial de Líderes da Universidade de Columbia?
Era o que faltava!
E estou em crer que um ao outro mais afectado pela brutal revelação, há-de ter esboçado o clássico incitamento que a circunstância impunha:
Vamos a ele!...

Quem não ganhou para o susto foi José Sócrates, que, naquele momento, deve ter visto toda a sua vida a andar para trás e a sua categoria de líder em perigo de vida...
Com uma série de pares de olhos fixando-o - severos, implacáveis, demolidores - o secretário-geral do PS, perturbado, apressou-se a esclarecer o público presente de que «um socialista na Europa é o que aqui nos Estados Unidos se chama liberal democrata».
A assistência, esclarecida, respirou fundo e riu - assim como quem diz: Ah bom!, se é assim, és cá dos nossos, podes ser «socialista» à vontade.
E pronto: os «liberais democratas» aplaudiram o «socialista», este retribuíu, e tudo terminou em bem.

Sócrates regressou Portugal certamente ainda mais «socialista» (e ainda mais de «esquerda») do que era antes da viagem aos EUA.
Que assim é, confirma-o aquele que é, sem dúvida, o maior «socialista» de todos os tempos - Mário Soares - que ainda ontem, em entrevista ao Diário de Notícias afirmava, sério (isto é, sem se rir) que «o Partido Socialista deu uma guinada à esquerda» e «até já usa a palavra "camarada"»...
Se o «amigo americano» leu a entrevista, lá tem o Soares que explicar o que quer dizer quando diz «camarada»...

POEMA

O MESMO CORAÇÃO E A MESMA CABEÇA



Não é para me gabar,
mas atravessei de um jacto, como uma bala, os meus dez anos de prisão.
E se deixarmos de lado as dores no fígado,
o coração está igual, a cabeça é a mesma de antes.


Nâzim Hikmet

O NEGÓCIO DA GUERRA

Com o aval do seu Congresso e do seu Presidente, os EUA concretizaram um histórico negócio de venda de armas à Arábia Saudita - negócio histórico, na medida em que constitui a maior transacção de sempre no género: o negócio está avaliado em 60 mil milhões de dólares.

Com esta compra, a Arábia Saudita passará a dispor, designadamente, de mais 84 caças F-15 e mais 200 helicópteros (Apaches, Black Hawks e Little Birds) - armamento que não lhe fazia falta nenhuma, mas... os amigos são para as ocasiões, negócios são negócios e a venda de armas é o alimento número um da besta imperialista.

Com este negócio, os EUA confirmam-se como o maior vendedor de armas do planeta e, portanto, aquele que maiores lucros arrecada com o negócio da guerra.
Registe-se que mais de 66 por cento das armas vendidas no mundo são proveninentes do país que tem como Presidente o Prémio Nobel da Paz...
O que significa que há armas oriundas dos EUA em todos os países do mundo.
Armas que fazem guerras...
Guerras que, depois, «obrigam» os EUA ao «sacrifício» de mandar os seus caças F-15, os seus helicópteros (Apaches, Black Hawks e Little Birds)... para instalar a «paz»...

Não há dúvida: o negócio da guerra é o que está a dar.
Mais ainda se ele for feito em nome da «paz»...

POEMA

DA MORTE



Entrem lá, meus amigos, sentem-se,
sejam benvindos, trazem-me alegria.
Já sei, entraram pela janela da cela enquanto eu dormia
não deixaram cair nem a garrafa de gargalo fino
nem a caixa vermelha de medicamentos.
Aí estão todos de mãos dadas à minha cabeceira
com uma palidez de estrela nos rostos.

Como é estranho
Pensava que estavam mortos
e como não creio em Deus nem no além
lamentava não lhes ter ainda
oferecido uma pitada de tabaco.

Como é estranho
Pensava que estavam mortos
entraram pela janela da cela
Venham pois, meus amigos, sentem-se
sejam benvindos, trazem-me alegria.

Hachim, filho de Osman,
porque me olhas com ar de caso?
Hachim, filho de Osman,
como é estranho
não tinhas morrido, meu irmão,
em Istambul, no porto,
durante um carregamento de carvão para um barco estrangeiro?
Caíste com o balde no fundo do porão
foi o cabrestante do cargueiro a içar-te
e antes de ires repousar para sempre
o teu sangue, muito vermelho, lavou a tua cabeça negra.
Quem sabe aquilo que sofreste.

Não fiquem de pé, sentem-se,
pensava que estavam mortos
entraram pela janela da cela
com uma palidez de estrela nos rostos
Sejam benvindos, trazem-me alegria.

Yakup, da aldeia de Kayalar,
olá, velhote,
não estavas morto, também tu?
Não tinhas ido para o cemitério sem árvores
deixando aos filhos a malária e a fome?
Fazia um calor horrível nesse dia
Então, não estavas morto?

E tu Ahmed Djemil, o Escritor?
Vi com os meus próprios olhos
o teu caixão descer à terra
creio mesmo estar lembrado
que o teu caixão era pequeno demais para o teu tamanho.
Deixa, Ahmed Djemil,
vejo que ainda conservas o velho hábito,
uma garrafa de medicamento, não de raki,
bebias dessa maneira
para poderes fazer cinquenta piastras por dia
e para poderes esquecer o mundo na tua solidão.

Pensava que estavam mortos, meus amigos,
afinal estão à minha cabeceira de mãos dadas
Sentem-se, meus amigos, sentem-se,
sejam benvindos, trazem-me alegria.

A morte é justa, diz um poeta persa,
ceifa o pobre e o xá com igual majestade.
Hachim, porque te espantas?
nunca ouviste falar de um xá
morto no porão de um navio com um balde na mão?
A morte é justa, diz um poeta persa.

Yakup,
como ficas belo quando ris, querido velho,
nunca te vi rir assim
quando estavas vivo...
Mas espera que eu acabe
A morte é justa, diz um poeta persa...

Deixa essa garrafa, Ahmed Djemil,
não vale a pena zangares-te, eu compreendo-te
Para que a morte seja justa
é preciso que a vida seja justa.

O poeta persa...

Porquê, meus amigos, porque me deixam assim sozinho?
Onde vão vocês?


Nâzim Hikmet

QUE GRANDE CAMBADA!

Em tempo de «crise»... não se limpam armas...
Aí estão, a demonstrá-lo, os dois intrépidos guerreiros do momento - José Sócrates e Passos Coelho - exibindo as mesmas armas sujas na representação da farsa que tem como primeiro objectivo garantir a continuação da política de direita.
Ambos cheios de razão, chamam-se, um ao outro, mentirosos. Ambos mentindo, dizem-se, um e outro, portadores de projectos e políticas diferentes.

Por seu lado, os média dominantes - cumprindo o destino que lhes está reservado - relatam os aguerridos duelos de palavras travados pelos dois protagonistas da farsa como se de uma batalha se tratasse - e com tal colorido o fazem que, por vezes, até parece que os próprios média acreditam no que escrevem...

Tudo isto terminará, para já, com... o Orçamento de Estado aprovado, ou seja, com o caminho aberto para que a política de direita - com Sócrates ou com Passos, com o PS ou com o PSD, para o grande capital tanto faz - prossiga a destruição dos interesses e direitos dos trabalhadores, do povo e do País.
E tudo isto terminará quando os trabalhadores e o povo decidirem tomar nas suas mãos o seu próprio destino.

Protagonistas da farsa são, também, o actual e alguns ex-presidentes da República, os tais que, em acto de tomada de posse, juraram pela sua honra «defender, cumprir e fazer cumprir a Constituição da República Portuguesa» - mas que, como a realidade mostrou, nem defenderam, nem cumpriram, nem fizeram cumprir a Lei Fundamental do País, antes pelo contrário.

Cavaco Silva tem-se desdobrado em conselhos, advertências e apelos ao entendimento entre os dois principais partidos da política de direita: o dele e o que não é mas podia ser dele. Por isso, como hoje nos diz uma afamada empresa produtora das chamadas sondagens de opinião, «será reeleito com larga maioria»...

Agora, foi a vez de entrar em cena o ex-PR Jorge Sampaio que se manifestou preocupado com a não aplicação dos «inevitáveis sacrifícios» que a «crise» exige...
E, mostrando de que «sacrifícios» está a falar, ensinou que «os portugueses reagem bem quando se explica os sacrifícios que é preciso serem feitos»...
O que precisamos, então, é de bons... explicadores...

Por seu turno, o omnipresente Mário Soares - pai da política de direita e ex-PR - veio, ontem, apelar ao «bom senso» do PSD e do PS com vistas a um acordo sobre o Orçamento de Estado, isto é, sobre a continuação da política de direita.
E aproveitou para ensinar o que sabe e praticou em matéria de «inevitáveis sacrifícios»: em fala de mestre, e apontando caminhos ao actual Governo PS, lembrou que, quando foi primeiro-ministro, ele, Soares, roubou «o 14º mês aos portugueses»...
Ora, como a «crise» actual é a mais grave de sempre, o melhor é começar a pensar não apenas no 14º mas também no 13º mês, pelo menos...

Que grande cambada!

POEMA

ELES



Eles que são inúmeros
como as formigas na terra,
os peixes na água,
as aves no céu,
eles que são poltrões,
corajosos,
ignorantes
e sábios,
eles que são crianças,
eles que fazem tábua rasa
e eles que criam,
serão, com as suas aventuras, o objecto único deste livro.

Eles que, deixando-se enredar nas teias do traidor,
atiram com o chapéu
e, abandonando a arena ao inimigo,
correm a fechar-se em casa,
e eles ainda que trespassam o traidor à punhalada,
eles que riem como a árvore jovem,
eles que choram prematuramente,
eles que injuriam pai e mãe,
serão, com as suas aventuras, o objecto único deste livro.

E o ferro
e o carvão
e o açúcar
e o cobre vermelho
e os tecidos
e cada um dos ramos da indústria
e o amor
e a tirania
e a vida
e o céu
e a planície
e o oceano azul
e as melancólicas vias fluviais
e a terra lavrada e as cidades,
um dia tudo muda de feição,
quando manhã cedo, nos confins das trevas,
apoiando no chão as mãos calosas e pesadas
eles se levantarem.

São eles que reflectem
nos espelhos mais sábios
as imagens mais coloridas.
No nosso século, eles venceram,
eles foram vencidos.
Deles muita coisa se disse
e para eles foi dito
que não tinham nada a perder
a não ser as grilhetas.


Nâzim Hikmet

ASSIM SE FAZEM AS NOTÍCIAS

Assim se fazem as notícias:
esta diz, em título:
«Obama oferece solução negocial aos iranianos».

Lido isto, o leitor será levado a concluir desde logo que Obama, num gesto de boa vontade, «ofereceu» aos iranianos a «solução» para o diferendo (sobre o programa nuclear) que opõe EUA e Irão - e que essa «solução» passa por negociar, dialogar, procurar um acordo.
Prosseguindo a leitura, o leitor ficará a saber que «o Presidente dos EUA estendeu a mão às autoridades iranianas» - o que só confirma a conclusão anteriormente tirada...


Aqui chegado, de duas uma: ou o leitor não lê a notícia até ao fim e guarda na memória a imagem de Obama a estender a mão aos iranianos e a oferecer-lhes a solução...
ou a notícia até ao fim... e - se não for distraído, se estiver atento às armadilhas desinformativas dos média dominantes - perceberá então o verdadeiro significado das palavras utilizadas por Obama.
Ou seja: perceberá que, no linguajar do Império, «oferecer solução negocial» significa que o governo do Irão deve obedecer incondicionalmente às ordens do governo dos EUA.
E que «estender a mão» significa aquilo que o governo de Obama explica em meia dúzia de palavras: «caso o Irão não respeite os seus deveres, sofrerá as consequências».


POEMA

DA PRISÃO DE ISTAMBUL


Em Istambul, no pátio da prisão,
depois da chuva, num dia soalheiro de Inverno,
ao mesmo tempo que
as nuvens
as telhas vermelhas
os muros
e o meu rosto
tremelicam nas poças do chão,
assumindo
toda a coragem
toda a cobardia
toda a força
toda a fraqueza
que há em mim,
penso no universo,
no meu país,
em ti.


Nâzim Hikmet
(Prisão de Istambul, Fevereiro de 1939)

ALÍCIA ALONSO

De 28/10 a 7/11 realiza-se, em Havana, o Festival Internacional de Ballet, cuja primeira edição data de... logo a seguir ao triunfo da Revolução Cubana, obviamente.
A relevância deste Festival pode medir-se pelas companhias que ali se farão representar: Royal Ballet de Londres, English National Ballet, Scala de Milão, American Ballet Theatre, entre muitas outras.

A organização do Festival está a cargo do Ballet Nacional de Cuba - considerada uma das cinco melhores companhias de ballet clássico do mundo - dirigido por aquela que foi a maior bailarina cubana de sempre e uma das maiores bailarinas mundiais: Alícia Alonso.
Aliás, o próximo Festival ocorre «en el año de homenagen a la prima ballerina assoluta Alícia Alonso».

À semelhança do que tem acontecido nas edições anteriores do Festival, Alícia Alonso, em nome do Ballet Nacional de Cuba, enviou convites a pessoas de vários países.
Só que, desta vez, da lista dos convidados consta um nome invulgar e certamente inesperado para a imensa maioria das pessoas.
Com efeito, a grande bailarina cubana convidou o Presidente dos EUA, Barack Obama, para assistir ao Festival.
Mas Alícia Alonso fez mais: convidou Obama a levar consigo os cinco cidadãos cubanos injustamente presos há doze anos nos EUA.

Aí está um convite bem direccionado e oportuno e que, se fosse correspondido, me levaria (a mim e a milhões de pessoas) a aplaudir o Presidente Obama - o que só lhe ficava bem.
Sendo certo que, se isso acontecesse, Obama deixaria de ser aplaudido todos os dias por todos os soares do planeta - o que só lhe ficava bem.

Para já, os meus aplausos vão para quem os merece: Alícia Alonso.

POEMA

DOMINGO



Hoje é domingo.
Pela primeira vez, hoje
deixaram-me sair ao sol,
e eu,
pela primeira vez na vida,
espantado de o ver tão longe
tão azul
tão vasto,
imóvel olhei o céu.
A seguir sentei-me na terra, com respeito,
encostei-me à parede branca.
Nesse instante, nada de ideias.
Nesse instante, nem luta, nem liberdade, nem mulher.
A terra, o sol e eu.
Sou feliz.


Nâzim Hikmet

(Poemas da Prisão e do Exílio)

DEUS DORME

Ettore Gotti Tedeschi, presidente do Instituto para as Obras Religiosas - mais conhecido por Banco Vaticano - está a ser investigado por suspeita de branqueamento de dinheiro.
Para já, e à cautela, a polícia financeira italiana bloqueou os 23 milhões de euros correspondentes a duas transacções suspeitas: uma para o JPMorgan de Frankfurt; outra para um banco italiano.

Estamos, então, perante mais um escândalo envolvendo o Banco Vaticano e um Banqueiro de Deus (nome pelo qual são conhecidos todos os presidentes do referido Banco).
Em muitas memórias está ainda presente o escândalo do envolvimento do Banco Vaticano na falência fraudulenta do Banco Ambrosiano, de que era o principal accionista.
Na altura o Banco Ambrosiano reciclava dinheiro da Cosa Nostra, a máfia siciliana, num processo no qual desempenhava importante papel a loja maçónica P2, ligada à CIA (ver O Padrinho, de Coppola»
Era então presidente do Banco Vaticano (portanto, Banqueiro de Deus) o sinistro arcebispo Marcinkus, cujo envolvimento neste, como em vários outros casos semelhantes, só não o atirou para a prisão porque o Papa João Paulo II não deixou, opondo-se sempre aos pedido de juizes italianos para o interrogarem.
Aliás, Marcinkus, que foi Banqueiro de Deus de 1971 a 1989, contou sempre com o apoio incondicional quer de Paulo VI quer de João Paulo II - e era um homem cheio de sorte...
De tal forma que o único Papa que se preparava para correr com ele (e com mais uns tantos cardeais...) - João Paulo I - «apareceu morto» em circunstâncias que só não são, como é hábito dizer-se, «misteriosas», porque está mais do que provado que foi assassinado...

Sobre o desfecho da mais recente golpaça... logo veremos...
Para já, e como é seu hábito, a Santa Sé manifestou-se surpreendida e reafirmou a sua confiança, toda a sua confiança, em Ettore Tedeschi - o seu Banqueiro de Deus e que, como tal, é «especializado em ética financeira».
Vejam bem as designações que eles inventam!...
Entretanto, ao que tudo indica, Deus dorme...

POEMA

ADEUS


Fiquem em paz, meus amigos
fiquem em paz
Eu vou partir
convosco no coração
e a minha luta na cabeça.
Fiquem em paz,
amigos meus,
fiquem em paz.
Não quero ver-vos na praia
alinhados como aves num postal
Não quero os vossos lenços a acenar, não, isso não.
Vejo-me inteiro nos olhos dos meus amigos.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
Adeus sem uma palavra.

As noites vão fechar o ferrolho da porta
Os anos vão criar teias de aranha na janela
E eu cantarei na prisão a minha canção de combate.
Tornaremos a ver-nos, amigos, tornaremos a ver-nos
Juntos, sorrindo, olharemos o sol
bater-nos-emos lado a lado
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho.
Adeus.


Nâzim Hikmet



Nâzim Hikmet é o Poeta que segue nesta teimosa insistência do Cravo de Abril em partilhar diariamente um poema com os seus visitantes.
Para os amigos que, eventualmente, desconheçam o Poeta e a sua Poesia, aqui ficam algumas notas informativas.
Brevíssima biografia: nasceu em 20.1.1902, em Salónica (então parte do Reino Osmânico), filho de pais cultos, pertencentes à classe dominante da época, mas que se opunham à ditadura vigente. Em 1917 entrou para a Escola de Cadetes de Heybekiada, em Istambul. Começou a escrever poesia aos 14 anos e um seu professor ajudou-o a publicar os primeiros poemas numa revista. Em 1920, após a ocupação de Istambul pela »Entente», abandonou secretamente a cidade e, com um amigo, foi juntar-se ao Movimento de Libertação, sob o comando de Ataturk. Aí chegam-lhes notícias da Revolução Russa - notícias que os fizeram meter-se a caminho de Moscovo. Hikmet inscreveu-se na Universidade Comunista dos Trabalhadores de Leste.
Conheceu e privou com vários artistas soviéticos, entre eles Meyerhold e Maiakovski que o influenciaram duradouramente. Por essa altura adere ao Partido Comunista Turco.
Acabado o curso, Nâzim regressou à Turquia.
Em 1932, na sequência de uma onda de perseguições e prisão de comunistas, foi preso - tendo sido amnistiado dois anos depois. Em 1938, com base numa provocação, Hikmet foi acusado de preparar uma revolta na Marinha e preso. Viria a ser libertado doze anos depois, em 1950, graças a uma ampla campanha internacional de solidariedade. No ano seguinte, doente, partiu para o exílio.
Morreu de enfarte de miocárdio a 3 de Junho de 1963, de manhã cedo, quando ia comprar os jornais.

Sobre a sua Poesia escreveu Philippe Soupault:
«Dele se pode escrever que foi um poeta universal. E este elogio deve ser meditado porque poucos poetas atingiram uma audiência mundial e porque significa que, apesar da alta qualidade da sua poesia, Nâzim Hikmet nunca quis isolar-se numa torre de marfim. Quis (e conseguiu) fazer-se entender por todos aqueles a quem chamava irmãos. Em todos os seus poemas, até nos mais íntimos, exaltou a amizade. Era sempre a amigos que se dirigia, e eram inúmeros os seus amigos. Fez voto de ser fraterno desde que começou a escrever, porque para ele a Fraternidade não era palavra vã, essa mesma que se grava, ou antes, gravava, no frontão dos monumentos públicos em França. O seu primeiro e o seu último poema são poemas fraternos. Fala aos homens, aos seus irmãos, da sua existência íntima, do seu amor, das suas viagens, das suas experiências, porque pretende não só "contar-lhes a vida" mas também associá-los à sua vida.
A obra de Nâzim Hikmet é a legenda do nosso século. Nenhum outro poeta da nossa época terá, como ele, sabido exprimir esta angústia que nos paralisa em plena era atómica, onde a nossa única defesa é a confiança que depositamos, que não podemos deixar de depositar, no homem. O poeta propõe-nos essa necessária confiança, mais, impõe-no-la. A poesia de alguém que sofreu tanto, mas que nunca perdeu a coragem, está colocada sob o signo da esperança. Não se receie aceitar toda a obra de Nâzim Hikment como uma mensagem.»

(POEMAS DA PRISÃO E DO EXÍLIO - edição «& etc», 2000)

A HORA É DE LUTA!

«VAMOS LUTAR!

JUNTOS - QUE OS OBJECTIVOS SÃO COMUNS!

TODOS - QUE A LUTA É DE TODOS!

É assim que a CGTP-IN apela à participação dos trabalhadores na Jornada de Luta de 29 de Setembro - de todos os trabalhadores: no activo ou aposentados; com vínculos efectivos ou precários; a trabalhar ou no desemprego.


Mostra a realidade que a luta de massas é o caminho para travar e derrotar a política de direita ao serviço dos interesses exclusivos do grande capital e para construir uma política ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País - e sabemos todos que quanto mais forte e participada for a luta mais depressa esse objectivo será alcançado.
Por tudo isso, é preciso fazermos da Jornada de 29 de Setembro uma poderosa demonstração da força organizada das massas trabalhadoras.

A hora é de luta!
Vamos a ela!

POEMA

INTERVALO (para uma Arte poética)


(O meu filho Raul José foi julgado, absolvido e depois enviado para o Regimento Disciplinar de Penamacor. Viva o silêncio insurrecto!.)


A poesia não é um dialecto
para bocas irreais.
Nem o suor concreto
das palavras banais.

É talvez o sussurro daquele insecto
de que ninguém sabe os sinais.

Silêncio insurrecto.


José Gomes Ferreira


(Interrompo aqui o ciclo de poesia dedicado ao «Poeta Militante». Tratou-se de uma selecção feita a partir dos poemas escritos entre 1931 e 1956. Para uma segunda fase, sem data marcada, ficam... os que faltam.)