POEMA

A QUE MORREU ÀS PORTAS DE MADRID


A que morreu às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
teve a morte que quis.
teve o fim que escolheu.
Nunca, passiva e aterrada, ela rezou.
E antes de flor, foi, como tantas, pomo.
Ninguém a virgindade lhe roubou
depois dum saque - antes a deu
a quem lha desejou,
na lama dum reduto,
sem náusea, mas sem cio,
sob a manta comum,
a pretexto do frio.
Não quis na retaguarda aligeirar,
entre champagne, aos generais senis,
as horas de lazer.
Não quis, activa e boa, tricotar
agasalhos pueris,
no sossego dum lar.
Não sonhou minorar,
num heroísmo branco,
de bicho de hospital,
a aflição dos aflitos.

Uma noite, às portas de Madrid,
com uma praga na boca
e a espingarda na mão,
à hora tal, atacou e morreu.

Teve a sorte que quis.
Teve o fim que escolheu.


Reinaldo Ferreira

4 comentários:

CRN disse...

Sempre!

Um abraço

GR disse...

Ode à Mulher combatente.

BJS,

GR

Graciete Rietsch disse...

Poema à mulher que está do lado certo da luta, seja qual for a sua situação. Gostei.

Um beijo.

Olinda disse...

Já disse tantas vezes este poema,que quase o considero meu.A guerra civil espanhola inspirou tantos e belos poemas a tantos e óptimos poetas que optaram pelo lado da razao.