É conhecida a forma como os média dominantes tratam as actividades do PCP: ou silenciam-nas, pura e simplesmente, ou fazem delas um relato que as menoriza e, regra geral, as reduz a encontros de gente de idade avançada...
Sendo incontestável que a actividade do PCP é superior à actividade conjunta de todos os restantes partidos, o que transparece dos jornais, das rádios e das televisões é precisamente o contrário.
E vários destes órgãos ditos de informação chegam ao ponto de mostrar fotografias e imagens da Festa do Avante! mostrando apenas pessoas de idade...
Ou, outro exemplo: há tempos, um jornal, referindo-se a uma sessão organizada pelo PCP, escrevia: «Jerónimo de Sousa, falando para uma sala cheia de gente idosa, disse que...» - ocultando aos leitores que se tratava de uma sessão dedicada a reformados...
Já em relação aos outros partidos - e de forma muito especial no que toca a esse filho-querido dos média do grande capital que é o BE - tudo se passa de maneira diferente: as suas actividades são anunciadas com antecedência e são sempre relatadas se forma encomiástica...
O mesmo acontece no que respeita às posições tomadas pelo PCP em relação aos problemas nacionais e às propostas que apresenta: os média dominantes ou as silenciam, ou as reduzem a duas ou três linhas, ou as deturpam e manipulam.
Vimos, recentemente, como o Compromisso Eleitoral do PCP foi reduzido a quase nada - ou a nada - pela generalidade desses média. E vimos como trataram o Programa Eleitoral do BE... e como tratam, todos os dias, as «propostas de BE»- especialmente aquelas que são a cópia desavergonhada das do PCP...
Quando confrontados com esta realidade indesmentível, os porta-vozes desses média, dizem que se trata de... «critérios»...
Lembrei-me disto quando, assistindo na RTP1 ao debate Jerónimo de Sousa/Paulo Portas, constatei que o «entrevistador» de serviço interrompia constantemente o secretário-geral do PCP e deixava falar à vontade o chefe do CDS.
Mais: interrompia constantemente Jerónimo de Sousa assumindo claramente as posições de Paulo Portas - o que transformou um debate que deveria ser a dois, num debate de dois contra um...
Voltei a lembra-me disto, ontem, quando assistia a um debate entre deputados de todos os partidos representados no Parlamento Europeu.
Neste caso a «entrevistadora» de serviço fez questão de interromper - mandando-o calar! - o deputado comunista João Ferreira, todas as vezes que este usou da palavra. Coisa que não fez com nenhum dos restantes intervenientes no debate. Obviamente.
São «critérios», está visto...
POEMA
O SONHO
Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos.
Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.
Chegamos? Não chegamos?
Partimos. Vamos. Somos.
Sebastião da Gama
ASSIM FALOU A TROIKA
Aqui têm a nossa ajuda !
E passou o cheque de 78 mil milhões de dólares.
Tanta massa!
Mas atenção - advertiu a troika - desta quantia entreguem já, e em primeiro lugar, 12 mil milhões à Banca na modalidade de «apoios directos» -
e tomem medidas para reservar 35 mil milhões para garantias à mesma Banca, que, coitada, é a grande vítima da crise, a grande sacrificada e, portanto, deve ter prioridade no apoio.
Para que a nossa ajuda seja eficaz - decretou a troika - roubem nos salários dos trabalhadores, roubem nas pensões e reformas, aumentem os impostos, acabem com os serviços públicos, criem mais desemprego, generalizem a precariedade e, especialmente, acabem com essa história dos direitos laborais, essa coisa velha, ultrapassada e arcaica que a modernidade dos nossos tempos não pode tolerar...
À despedida, a troika FMI/BCE/UE, de semblante severo e dedo em riste, avisou: e não se esqueçam que, entretanto, por esta ajuda têm que nos pagar de juros, no total, uns 30 e tal mil milhões de euros.
E enquanto a troika assim falava, os três da troika PS/PSD/CDS-PP diziam que sim, acenavam as cabecinhas até quase desprendê-las dos corpos e, às escondidas, trocavam bilhetinhos: já temos programa eleitoral!, que grande ajuda!, que grande acordo!, que grande amiga é a troika!
Que grande cambada!
POEMA
A QUEIMA DOS LIVROS
Quando o Regime ordenou que queimassem em público
os livros de saber nocivo, e por toda a parte,
os bois foram forçados a puxar carroças
carregadas de livros para a fogueira, um poeta
expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
livros tinham sido esquecidos.
Correu para a secretária
alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me!, escreveu com pena veloz, Queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixeis de fora! Não disse eu
sempre a verdade nos meus livros? E agora
tratais-me como um mentiroso!
Ordeno-vos: Queimai-me!
Bertolt Brecht
(por ocasião da queima de livros, em Berlim, em Maio de 1933)
Quando o Regime ordenou que queimassem em público
os livros de saber nocivo, e por toda a parte,
os bois foram forçados a puxar carroças
carregadas de livros para a fogueira, um poeta
expulso, um dos melhores, ao estudar a lista
dos queimados, descobriu, horrorizado, que os seus
livros tinham sido esquecidos.
Correu para a secretária
alado de cólera e escreveu uma carta aos do Poder.
Queimai-me!, escreveu com pena veloz, Queimai-me!
Não me façais isso! Não me deixeis de fora! Não disse eu
sempre a verdade nos meus livros? E agora
tratais-me como um mentiroso!
Ordeno-vos: Queimai-me!
Bertolt Brecht
(por ocasião da queima de livros, em Berlim, em Maio de 1933)
TAL COMO HITLER...
Obama foi entrevistado pela CBS.
Foi a primeira entrevista do Presidente dos EUA depois do assassinato de Bin Laden.
Ficámos a saber o drama que foram, para Obama, aqueles «40 minutos» que durou a operação: «a incerteza sobre o seu êxito, a ansiedade», enfim, um horror...
E, depois, o alívio: o golpe profundo que fora vibrado sobre a Al-Qhaeda, a notável vitória alcançada no combate ao terrorismo...
Mas - avisou Obama! - o terrorismo não está ainda derrotado... é preciso prosseguir a caça aos terroristas...
(recorde-se: terroristas são, para o governo dos EUA, todos os que, em qualquer parte do mundo, não aceitem a supremacia da raça... norte-americana)
Obama explicou que a operação que levou à morte de Bin Laden, foi uma «operação militar, com homens e helicópteros, num país soberano» - assim mesmo: «num país soberano»! - acrescentando que este é o caminho para o combate ao terrorismo no futuro, avisando solenemente que os EUA farão operações semelhantes em qualquer país do mundo onde se acoitem terroristas...
Estamos, então, perante uma situação com contornos de novidade: o presidente do país mais poderoso do Planeta afirma publicamente a sua intenção de levar por diante acções militares em qualquer país onde ele, e os seus homens de mão, suspeitem existirem terroristas - e, como aconteceu no Paquistão, sem ouvir a opinião, sem avisar, sem passar cavaco aos governantes do respectivo país.
É o imperialismo norte-americano a afirmar publicamente, como nunca antes o havia feito, a sua postura de dono e senhor do mundo.
A confirmar as ameaças e os perigos que pesam sobre os países e os povos do mundo.
A mostrar as suas garras.
A exibir a sua sede de domínio - de sangue.
Com esta declaração, Obama deu o passo que faltava para cumprir plenamente o seu destino...
Tal como Hitler o fez há sete décadas atrás.
Foi a primeira entrevista do Presidente dos EUA depois do assassinato de Bin Laden.
Ficámos a saber o drama que foram, para Obama, aqueles «40 minutos» que durou a operação: «a incerteza sobre o seu êxito, a ansiedade», enfim, um horror...
E, depois, o alívio: o golpe profundo que fora vibrado sobre a Al-Qhaeda, a notável vitória alcançada no combate ao terrorismo...
Mas - avisou Obama! - o terrorismo não está ainda derrotado... é preciso prosseguir a caça aos terroristas...
(recorde-se: terroristas são, para o governo dos EUA, todos os que, em qualquer parte do mundo, não aceitem a supremacia da raça... norte-americana)
Obama explicou que a operação que levou à morte de Bin Laden, foi uma «operação militar, com homens e helicópteros, num país soberano» - assim mesmo: «num país soberano»! - acrescentando que este é o caminho para o combate ao terrorismo no futuro, avisando solenemente que os EUA farão operações semelhantes em qualquer país do mundo onde se acoitem terroristas...
Estamos, então, perante uma situação com contornos de novidade: o presidente do país mais poderoso do Planeta afirma publicamente a sua intenção de levar por diante acções militares em qualquer país onde ele, e os seus homens de mão, suspeitem existirem terroristas - e, como aconteceu no Paquistão, sem ouvir a opinião, sem avisar, sem passar cavaco aos governantes do respectivo país.
É o imperialismo norte-americano a afirmar publicamente, como nunca antes o havia feito, a sua postura de dono e senhor do mundo.
A confirmar as ameaças e os perigos que pesam sobre os países e os povos do mundo.
A mostrar as suas garras.
A exibir a sua sede de domínio - de sangue.
Com esta declaração, Obama deu o passo que faltava para cumprir plenamente o seu destino...
Tal como Hitler o fez há sete décadas atrás.
POEMA
ENTERRO DO AGITADOR NO CAIXÃO DE ZINCO
Aqui, neste caixão de zinco,
jaz um homem morto.
Ou as suas pernas e a cabeça
ou ainda menos
ou nada, pois ele era um agitador.
Foi reconhecido como causa primeira do Mal.
À vala com ele! O melhor é
que só o acompanhe a esterqueira,
pois quem quer que o acompanhe
fica também marcado.
Isso aí no caixão de zinco
instigou-vos a muitas coisas:
a comer a fartar
e a morar debaixo de telha
e a alimentar os filhos
e a exigir o salário até ao último vintém
e à solidariedade com todos
os oprimidos vossos iguais e
a pensar.
Isso aí no caixão de zinco disse
que era preciso um outro sistema de produção
e que vós, as massas milhões do trabalho,
tínheis que tomar conta do mando.
E que antes disso nada melhoraria para vós.
E porque isso aí no caixão de zinco disse isso
por isso acabou no caixão de zinco e vai ser atirado à cova
como um agitador que vos incitou.
E quem quer que fale de comer a fartar
e quem quer de entre vós que queira morar debaixo de telha
e quem quer de entre vós que exija o último vintém do salário
e quem quer de entre vós que queira sustentar os filhos
e quem quer que pense e se declare solidário
com todos os que são oprimidos,
esse virá, desde agora até à eternidade,
acabar no caixão de zinco como esse,
como um agitador, e será atirado à vala.
Bertolt Brecht
Aqui, neste caixão de zinco,
jaz um homem morto.
Ou as suas pernas e a cabeça
ou ainda menos
ou nada, pois ele era um agitador.
Foi reconhecido como causa primeira do Mal.
À vala com ele! O melhor é
que só o acompanhe a esterqueira,
pois quem quer que o acompanhe
fica também marcado.
Isso aí no caixão de zinco
instigou-vos a muitas coisas:
a comer a fartar
e a morar debaixo de telha
e a alimentar os filhos
e a exigir o salário até ao último vintém
e à solidariedade com todos
os oprimidos vossos iguais e
a pensar.
Isso aí no caixão de zinco disse
que era preciso um outro sistema de produção
e que vós, as massas milhões do trabalho,
tínheis que tomar conta do mando.
E que antes disso nada melhoraria para vós.
E porque isso aí no caixão de zinco disse isso
por isso acabou no caixão de zinco e vai ser atirado à cova
como um agitador que vos incitou.
E quem quer que fale de comer a fartar
e quem quer de entre vós que queira morar debaixo de telha
e quem quer de entre vós que exija o último vintém do salário
e quem quer de entre vós que queira sustentar os filhos
e quem quer que pense e se declare solidário
com todos os que são oprimidos,
esse virá, desde agora até à eternidade,
acabar no caixão de zinco como esse,
como um agitador, e será atirado à vala.
Bertolt Brecht
PARA DAR MAIS FORÇA À LUTA
Repetindo:
Levar a luta ao voto, no dia 5 e, a seguir, levar o voto à luta.
Ou, dito doutra maneira: fazer do acto eleitoral uma jornada de luta, igual a uma grande manifestação de massas ou a uma greve geral - e fazer do voto uma arma.
Para que isso aconteça - com êxito - temos muito trabalho à nossa frente.
Há que despertar memórias:
É preciso lembrar aos que no dia-a-dia lutam connosco mas nos dias das eleições votam com eles, que se assim continuarem a fazer estão a votar contra si próprios, contra os seus interesses pessoais - e que têm que dar ao seu voto, no dia 5, a razão que os fez, por exemplo, participar na greve geral de 24 de Novembro.
É preciso mostrar que votar nos partidos que há 35 anos ocupam o poder é votar no desemprego, na precariedade, nos roubos nos salários e nas reformas, em todos os dramas sociais causados pela política de direita - dramas contra os quais as massas populares se pronunciaram em múltiplas lutas nas empresas e em grandiosas manifestações de rua.
É preciso afirmar a esperança e a confiança, combater os medos, as fatalidades, as inevitabilidades com que a ofensiva ideológica do capitalismo, através dos média dominantes, nos bombardeia todos os dias.
É preciso demonstrar que há uma alternativa a 35 anos de declínio nacional: que a alternativa à política de direita, anti-patriótica, antidemocrática e antipopular, é uma política patriótica, de esquerda, inspirada nos valores e nos ideais de Abril - e que essa alternativa está no PCP, na CDU.
É preciso fazer da batalha eleitoral uma intensa e forte acção de massas, uma ampla acção de esclarecimento e de mobilização para o voto certo no dia 5 - para o voto em quem, sempre, em todos os momentos e situações, esteve, está e estará ao lado dos trabalhadores e fez, faz e fará dos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo a sua bandeira de luta fundamental.
É preciso votar CDU - para dar mais força à luta.
Levar a luta ao voto, no dia 5 e, a seguir, levar o voto à luta.
Ou, dito doutra maneira: fazer do acto eleitoral uma jornada de luta, igual a uma grande manifestação de massas ou a uma greve geral - e fazer do voto uma arma.
Para que isso aconteça - com êxito - temos muito trabalho à nossa frente.
Há que despertar memórias:
É preciso lembrar aos que no dia-a-dia lutam connosco mas nos dias das eleições votam com eles, que se assim continuarem a fazer estão a votar contra si próprios, contra os seus interesses pessoais - e que têm que dar ao seu voto, no dia 5, a razão que os fez, por exemplo, participar na greve geral de 24 de Novembro.
É preciso mostrar que votar nos partidos que há 35 anos ocupam o poder é votar no desemprego, na precariedade, nos roubos nos salários e nas reformas, em todos os dramas sociais causados pela política de direita - dramas contra os quais as massas populares se pronunciaram em múltiplas lutas nas empresas e em grandiosas manifestações de rua.
É preciso afirmar a esperança e a confiança, combater os medos, as fatalidades, as inevitabilidades com que a ofensiva ideológica do capitalismo, através dos média dominantes, nos bombardeia todos os dias.
É preciso demonstrar que há uma alternativa a 35 anos de declínio nacional: que a alternativa à política de direita, anti-patriótica, antidemocrática e antipopular, é uma política patriótica, de esquerda, inspirada nos valores e nos ideais de Abril - e que essa alternativa está no PCP, na CDU.
É preciso fazer da batalha eleitoral uma intensa e forte acção de massas, uma ampla acção de esclarecimento e de mobilização para o voto certo no dia 5 - para o voto em quem, sempre, em todos os momentos e situações, esteve, está e estará ao lado dos trabalhadores e fez, faz e fará dos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo a sua bandeira de luta fundamental.
É preciso votar CDU - para dar mais força à luta.
POEMA
O CIDADÃO DESCONHECIDO
Segundo apurou o Instituto de Estatística,
contra ele nunca existiu qualquer queixa oficial,
e todos os relatórios sobre a sua conduta confirmam:
no moderno sentido de uma palavra velha, ele era um santo,
pois em tudo o que fez serviu a Grande Comunidade.
Com excepção da Guerra e até ao dia da reforma,
trabalhou numa fábrica e nunca foi despedido;
sempre satisfez os seus patrões, Máquinas Fraude, Lt.dª.
Mas não era fura-greves nem tinha opiniões estranhas,
pois o Sindicato informa que sempre pagou as quotas
(e o seu Sindicato tem a nossa confiança),
e o nosso pessoal de Psicologia Social descobriu
que ele era popular entre os colegas e gostava de um copo.
A Imprensa não duvida de que ele comprava um jornal por dia
e que as reacções à publicidade eram cem por cento normais.
Apólices tiradas em seu nome provam que tinha todos os seguros,
e o Boletim de Saúde mostra que esteve uma vez no hospital e saiu curado.
Tanto o Gabinete de Estudo dos Produtores como o da Qualidade de Vida declaram
que estava plenamente sensibilizado para as vantagens da Compra a Prestações
e tinha tudo o que é preciso ao Homem Moderno:
um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Os nossos Inquiridores da Opinião Pública alegram-se
por ele ter opiniões certas para a época do ano;
Quando havia paz, era pela paz, quando havia guerra, ele ia.
Era casado e aumentou com cinco filhos a população,
o que, diz o nosso Eugenista, era o número certo para um pai da sua geração,
e os nossos Professores informam que nunca interferiu com a sua educação.
Era livre? Era feliz? A pergunta é absurda:
se algo estivesse errado, com certeza teríamos sabido.
Wystan Hugh Auden
Segundo apurou o Instituto de Estatística,
contra ele nunca existiu qualquer queixa oficial,
e todos os relatórios sobre a sua conduta confirmam:
no moderno sentido de uma palavra velha, ele era um santo,
pois em tudo o que fez serviu a Grande Comunidade.
Com excepção da Guerra e até ao dia da reforma,
trabalhou numa fábrica e nunca foi despedido;
sempre satisfez os seus patrões, Máquinas Fraude, Lt.dª.
Mas não era fura-greves nem tinha opiniões estranhas,
pois o Sindicato informa que sempre pagou as quotas
(e o seu Sindicato tem a nossa confiança),
e o nosso pessoal de Psicologia Social descobriu
que ele era popular entre os colegas e gostava de um copo.
A Imprensa não duvida de que ele comprava um jornal por dia
e que as reacções à publicidade eram cem por cento normais.
Apólices tiradas em seu nome provam que tinha todos os seguros,
e o Boletim de Saúde mostra que esteve uma vez no hospital e saiu curado.
Tanto o Gabinete de Estudo dos Produtores como o da Qualidade de Vida declaram
que estava plenamente sensibilizado para as vantagens da Compra a Prestações
e tinha tudo o que é preciso ao Homem Moderno:
um gira-discos, um rádio, um carro e um frigorífico.
Os nossos Inquiridores da Opinião Pública alegram-se
por ele ter opiniões certas para a época do ano;
Quando havia paz, era pela paz, quando havia guerra, ele ia.
Era casado e aumentou com cinco filhos a população,
o que, diz o nosso Eugenista, era o número certo para um pai da sua geração,
e os nossos Professores informam que nunca interferiu com a sua educação.
Era livre? Era feliz? A pergunta é absurda:
se algo estivesse errado, com certeza teríamos sabido.
Wystan Hugh Auden
LEVAR A LUTA AO VOTO E O VOTO À LUTA
É tempo de «eleições». Com aspas, pois claro...
Na verdade, para que, em vez de «eleições» sejam eleições, falta-lhes... quase tudo.
Falta-lhes, por exemplo, serem eleições livres. Com tudo o que isso significa.
E é assim em todos os países onde o regime de democracia burguesa assegura a defesa dos interesses do sistema capitalista.
As «eleições» são a fachada democrática por detrás da qual se esconde um dos mais clamorosos embustes do nosso tempo:
a ilusão de que é o povo, com o seu voto, que decide, quando na realidade, antes das «eleições» já está tudo decidido, estando assegurada, pelo poder dominante, sempre, a vitória de um dos partidos do sistema.
Seja ele qual for: o Democrata ou o Republicano, nos EUA; o Trabalhista ou o Conservador, na Grã-Bretanha; o PSOE ou o PP, em Espanha... e, no nosso caso, o PS ou o PSD (cada um deles com o CDS atrelado ou não).
Por tudo isto, a meu ver, para os comunistas, participar em «eleições» significa fazer delas um capítulo da luta de massas, travar uma batalha de esclarecimento e de mobilização dos trabalhadores para o voto como arma da luta, no sentido em que, quanto mais votos obtivermos e quanto mais deputados elegermos, mais forte será a luta no dia a seguir às eleições - a luta de massas, a que é decisiva para dar a volta a isto.
Daí a necessidade do envolvimento intenso, determinado e confiante de todo o colectivo partidário comunista nesta batalha, fazendo chegar às massas trabalhadoras a nossa mensagem, procurando atrair ao voto na CDU todos os que, nos últimos meses, têm participado no vasto e poderoso conjunto de lutas travadas contra a política de direita e por um novo rumo para Portugal.
Ou, como temos dito: levar a luta ao voto.
E, como diremos no dia 5, depois de contados os votos: levar o voto à luta.
Na verdade, para que, em vez de «eleições» sejam eleições, falta-lhes... quase tudo.
Falta-lhes, por exemplo, serem eleições livres. Com tudo o que isso significa.
E é assim em todos os países onde o regime de democracia burguesa assegura a defesa dos interesses do sistema capitalista.
As «eleições» são a fachada democrática por detrás da qual se esconde um dos mais clamorosos embustes do nosso tempo:
a ilusão de que é o povo, com o seu voto, que decide, quando na realidade, antes das «eleições» já está tudo decidido, estando assegurada, pelo poder dominante, sempre, a vitória de um dos partidos do sistema.
Seja ele qual for: o Democrata ou o Republicano, nos EUA; o Trabalhista ou o Conservador, na Grã-Bretanha; o PSOE ou o PP, em Espanha... e, no nosso caso, o PS ou o PSD (cada um deles com o CDS atrelado ou não).
Por tudo isto, a meu ver, para os comunistas, participar em «eleições» significa fazer delas um capítulo da luta de massas, travar uma batalha de esclarecimento e de mobilização dos trabalhadores para o voto como arma da luta, no sentido em que, quanto mais votos obtivermos e quanto mais deputados elegermos, mais forte será a luta no dia a seguir às eleições - a luta de massas, a que é decisiva para dar a volta a isto.
Daí a necessidade do envolvimento intenso, determinado e confiante de todo o colectivo partidário comunista nesta batalha, fazendo chegar às massas trabalhadoras a nossa mensagem, procurando atrair ao voto na CDU todos os que, nos últimos meses, têm participado no vasto e poderoso conjunto de lutas travadas contra a política de direita e por um novo rumo para Portugal.
Ou, como temos dito: levar a luta ao voto.
E, como diremos no dia 5, depois de contados os votos: levar o voto à luta.
POEMA
NÃO PASSAM MAIS
Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!
E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!
Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!
Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
O trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!
E em nome das conquistas
vindas dos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.
Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!
Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos quer trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.
José Carlos Ary dos Santos
Em nome dos nossos braços
em nome das nossas mãos
em nome de quantos passos
deram os nossos irmãos.
Em nome das ferramentas
que nos magoaram os dedos
das torturas das tormentas
das sevícias dos degredos.
Em nome daquele nome
que herdámos dos nossos pais
em nome da sua fome
dizemos: não passam mais!
E em nome dos milénios
de prisão adicionada
em nome de tantos génios
com a voz amordaçada
em nome dos camponeses
com a terra confiscada
em nome dos Portugueses
com a carne estilhaçada
em nome daqueles nomes
escarrados nos tribunais
dizemos que há outros nomes
que não passam nunca mais!
Em nome do que nós temos
em nome do que nós fomos
revolução que fizemos
democracia que somos
em nome da unidade
linda flor da classe operária
em nome da liberdade
flor imensa e proletária
em nome desta vontade
de sermos todos iguais
vamos dizer a verdade
dizendo: não passam mais!
Em nome de quantos corpos
nossos filhos foram feitos.
Em nome de quantos mortos
vivem nos nossos direitos.
Em nome de quantos vivos
dão mais vida à nossa voz
não mais seremos cativos:
O trabalho somos nós.
Por isso tornos enxadas
canetas frezas dedais
são as nossas barricadas
que dizem: não passam mais!
E em nome das conquistas
vindas dos ventos de Abril
reforma agrária controlo
operário no meio fabril
empresas que são do estado
porque o seu dono é o povo
em nome de lado a lado
termos feito um país novo.
Em nome da nossa frente
e dos nossos ideais
diante de toda a gente
dizemos: não passam mais!
Em nome do que passámos
não deixaremos passar
o patrão que ultrapassámos
e que nos quer trespassar.
E por onde a gente passa
nós passamos a palavra:
Cada rua cada praça
é o chão que o povo lavra.
Passaremos adiante
com passo firme e seguro.
O passado é já bastante
vamos passar ao futuro.
José Carlos Ary dos Santos
AS DUAS TROIKAS
Após 48 anos de fascismo - e após o breve interregno luminoso que foi a Revolução de Abril - Portugal mergulhou nesta democracia burguesa em que vivemos.
Nos últimos 35 anos, três partidos - a troika PS, PSD e CDS/PP - eles e só eles, experimentando todas as alianças possíveis, têm levado a cabo a devastadora política de direita que afundou o País, assim instalando este sombrio regime de política única, ao serviço exclusivo dos interesses do grande capital.
A troika partidária indígena viu-se agora na necessidade de apelar à intervenção de uma outra troika - FMI, BCE, UE - esta ao serviço dos interesses do grande capital financeiro internacional.
E a troika veio, instalou-se, decidiu, ordenou, decretou, enfim, ocupou Portugal, tendo como objectivo imediato salvar a política de direita e garantir que a troika indígena prossiga a sua acção devastadora.
E é isso que temos que impedir que aconteça.
Como?: lutando, lutando muito, lutando sempre: até corrermos com a troika ocupante e despachar com ela, com bilhete de ida, a troika indígena.
É difícil?: é.
Mas é possível.
Se fizermos dos ideais de Abril a nossa lança... isto vai, meus amigos, isto vai.
Nos últimos 35 anos, três partidos - a troika PS, PSD e CDS/PP - eles e só eles, experimentando todas as alianças possíveis, têm levado a cabo a devastadora política de direita que afundou o País, assim instalando este sombrio regime de política única, ao serviço exclusivo dos interesses do grande capital.
A troika partidária indígena viu-se agora na necessidade de apelar à intervenção de uma outra troika - FMI, BCE, UE - esta ao serviço dos interesses do grande capital financeiro internacional.
E a troika veio, instalou-se, decidiu, ordenou, decretou, enfim, ocupou Portugal, tendo como objectivo imediato salvar a política de direita e garantir que a troika indígena prossiga a sua acção devastadora.
E é isso que temos que impedir que aconteça.
Como?: lutando, lutando muito, lutando sempre: até corrermos com a troika ocupante e despachar com ela, com bilhete de ida, a troika indígena.
É difícil?: é.
Mas é possível.
Se fizermos dos ideais de Abril a nossa lança... isto vai, meus amigos, isto vai.
POEMA
É INÚTIL CHORAR
É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.
Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...
Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
António Cardoso
É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.
Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...
Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
António Cardoso
APENAS O REGISTO
Milhões de trabalhadores comemoraram o 1º de Maio em todo o mundo.
Nalguns casos, em gigantescas manifestações, noutros em acções de menor dimensão, mas sempre tendo como objectivo principal a defesa dos direitos e interesses de quem trabalha e vive o seu trabalho.
Vale a pena registar as diferentes posturas dos governos de cada país em relação às comemorações do Dia do Trabalhador.
Nas democracias burguesas - a que podemos, talvez com mais rigor, chamar ditaduras do grande capital - o que fazem os governantes em relação às comemorações do 1º de Maio?
ou assobiam para o lado, desvalorizando e menorizando as manifestações e colocando-se longe, muito longe delas (o que não surpreende: alguém imagina, por exemplo, José Sócrates, ou Cavaco Silva, ou Sarkozy, ou Obama, ou qualquer outro democrata desta família a desfilar ao lado dos trabalhadores num 1º de Maio?...),
ou reprimem-nas, como aconteceu nesse modelo ímpar de democracia que é a Colômbia, onde, por efeito da democrática acção policial, trinta trabalhadores ficaram feridos e setenta foram presos.
Tudo é diferente, no entanto, nos países onde os governos têm como referências primordiais da sua política a salvaguarda dos interesses e direitos dos trabalhadores.
Dois exemplos:
na Venezuela e na Bolívia, os presidentes Hugo Chávez e Evo Morales desfilaram com os trabalhadores e o povo nas manifestações do 1º de Maio.
E fizeram mais: no decorrer das manifestações em Caracas, Chávez anunciou o aumento em 26, 5% do salário mínimo, 15% já este mês e o restante em Setembro; e na manifestação de La Paz, Morales comprometeu-se a implementar a nova lei de trabalho proposta pela central sindical boliviana e anunciou a anulação de um decreto de 1985 que estabelecia o modelo económico da Bolívia como de mercado.
A isto, os comentadores, analistas & etc. dos média dominantes chamam «demagogia», «populismo» & etc.
E com isso, outra coisa não pretendem do que louvar e eternizar a exploração e a opressão.
Com a consciência de que não vos vim dizer nada de novo, fica apenas o registo - mais um - da diferença existente entre, por um lado, regimes virados para o PASSADO e, por outro lado, regimes onde o FUTURO é quem mais ordena.
Nalguns casos, em gigantescas manifestações, noutros em acções de menor dimensão, mas sempre tendo como objectivo principal a defesa dos direitos e interesses de quem trabalha e vive o seu trabalho.
Vale a pena registar as diferentes posturas dos governos de cada país em relação às comemorações do Dia do Trabalhador.
Nas democracias burguesas - a que podemos, talvez com mais rigor, chamar ditaduras do grande capital - o que fazem os governantes em relação às comemorações do 1º de Maio?
ou assobiam para o lado, desvalorizando e menorizando as manifestações e colocando-se longe, muito longe delas (o que não surpreende: alguém imagina, por exemplo, José Sócrates, ou Cavaco Silva, ou Sarkozy, ou Obama, ou qualquer outro democrata desta família a desfilar ao lado dos trabalhadores num 1º de Maio?...),
ou reprimem-nas, como aconteceu nesse modelo ímpar de democracia que é a Colômbia, onde, por efeito da democrática acção policial, trinta trabalhadores ficaram feridos e setenta foram presos.
Tudo é diferente, no entanto, nos países onde os governos têm como referências primordiais da sua política a salvaguarda dos interesses e direitos dos trabalhadores.
Dois exemplos:
na Venezuela e na Bolívia, os presidentes Hugo Chávez e Evo Morales desfilaram com os trabalhadores e o povo nas manifestações do 1º de Maio.
E fizeram mais: no decorrer das manifestações em Caracas, Chávez anunciou o aumento em 26, 5% do salário mínimo, 15% já este mês e o restante em Setembro; e na manifestação de La Paz, Morales comprometeu-se a implementar a nova lei de trabalho proposta pela central sindical boliviana e anunciou a anulação de um decreto de 1985 que estabelecia o modelo económico da Bolívia como de mercado.
A isto, os comentadores, analistas & etc. dos média dominantes chamam «demagogia», «populismo» & etc.
E com isso, outra coisa não pretendem do que louvar e eternizar a exploração e a opressão.
Com a consciência de que não vos vim dizer nada de novo, fica apenas o registo - mais um - da diferença existente entre, por um lado, regimes virados para o PASSADO e, por outro lado, regimes onde o FUTURO é quem mais ordena.
POEMA
NÃO PASSARÃO
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
entre o sangue vertido
e o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
de traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação.
Não morre um Povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
as forças que te querem jugular
não poderão passar
sobre a dor infinita desse não
que a terra inteira ouviu
e repetiu:
Não passarão!
Miguel Torga
Não desesperes, Mãe!
O último triunfo é interdito
aos heróis que o não são.
Lembra-te do teu grito:
Não passarão!
Não passarão!
Só mesmo se parasse o coração
que te bate no peito.
Só mesmo se pudesse haver sentido
entre o sangue vertido
e o sonho desfeito.
Só mesmo se a raiz bebesse em lodo
de traição e de crime.
Só mesmo se não fosse o mundo todo
que na tua tragédia se redime.
Não passarão!
Arde a seara, mas dum simples grão
nasce o trigal de novo.
Morrem filhos e filhas da nação.
Não morre um Povo!
Não passarão!
Seja qual for a fúria da agressão,
as forças que te querem jugular
não poderão passar
sobre a dor infinita desse não
que a terra inteira ouviu
e repetiu:
Não passarão!
Miguel Torga
A PREOCUPAÇÃO MAIOR...
Orlando Bosch, terrorista, morreu.
De morte natural.
Em casa: na sua vivenda de Miami, onde vivia à grande e à francesa - no caso à grande e à norte-americana... - e beneficiando de todas as mordomias e honrarias prodigalizadas pelos sucessivos governos dos EUA aos que servem a causa do Império, espalhando o terror e a morte ali onde o Império quer que o terror e a morte aconteçam.
Sempre apoiado pela CIA - e alvo de um tratamento muito especial por parte de Bush-pai e de Bush-filho - Bosch foi (com o seu colega das lides terroristas ao serviço dos EUA, Posada Carrilles) responsável por, pelo menos, 50 actos terroristas, entre eles a explosão no avião da Cubana Aviación que provocou a morte de 73 homens, mulheres e crianças.
Mas, lá está, Bosch era um terrorista bom - um «terrorista nosso», como diriam os Bush's, ou o Clinton, ou o Obama... - que praticava um terrorismo democrático, a bem da liberdade e dos direitos humanos... enfim, um daqueles terroristas cujo destino é morrer na cama... e nunca vítima de um atentado organizado pela CIA em qualquer parte do Planeta, com o corpo lançado ao mar e coisas assim...
E não esqueçamos: como os média e analistas dominantes têm acentuado nos últimos dias, na situação actual «a preocupação maior dos EUA é o combate contra o terrorismo»...
De morte natural.
Em casa: na sua vivenda de Miami, onde vivia à grande e à francesa - no caso à grande e à norte-americana... - e beneficiando de todas as mordomias e honrarias prodigalizadas pelos sucessivos governos dos EUA aos que servem a causa do Império, espalhando o terror e a morte ali onde o Império quer que o terror e a morte aconteçam.
Sempre apoiado pela CIA - e alvo de um tratamento muito especial por parte de Bush-pai e de Bush-filho - Bosch foi (com o seu colega das lides terroristas ao serviço dos EUA, Posada Carrilles) responsável por, pelo menos, 50 actos terroristas, entre eles a explosão no avião da Cubana Aviación que provocou a morte de 73 homens, mulheres e crianças.
Mas, lá está, Bosch era um terrorista bom - um «terrorista nosso», como diriam os Bush's, ou o Clinton, ou o Obama... - que praticava um terrorismo democrático, a bem da liberdade e dos direitos humanos... enfim, um daqueles terroristas cujo destino é morrer na cama... e nunca vítima de um atentado organizado pela CIA em qualquer parte do Planeta, com o corpo lançado ao mar e coisas assim...
E não esqueçamos: como os média e analistas dominantes têm acentuado nos últimos dias, na situação actual «a preocupação maior dos EUA é o combate contra o terrorismo»...
POEMA
ENCORAJAMENTO
... E a poesia lá vai - tão amada e detestada -
livre, como se marchasse nua contra o vento,
vai levar aos que se cansam da longa caminhada
a água pura e fresca do encorajamento.
E ela lá vai... Lá vai, e luta, quer queiram ou não,
contra a lassidão e a doença do sono,
e a quem tiver sede oferece a canção
do futuro sem grades e dos homens sem dono.
Sidónio Muralha
... E a poesia lá vai - tão amada e detestada -
livre, como se marchasse nua contra o vento,
vai levar aos que se cansam da longa caminhada
a água pura e fresca do encorajamento.
E ela lá vai... Lá vai, e luta, quer queiram ou não,
contra a lassidão e a doença do sono,
e a quem tiver sede oferece a canção
do futuro sem grades e dos homens sem dono.
Sidónio Muralha
OS FESTEJOS
1 - Obama, eufórico, feliz e triunfante, anunciou a morte de Bin Laden.
E milhares de pessoas saíram à rua a festejar o feliz acontecimento, que o mesmo é dizer a festejar a morte.
É assim o imperialismo norte-americano: gera terroristas, serve-se deles enquanto lhe são úteis, mata-os quando isso lhe é útil e faz da morte deles uma utilidade...
São relevantes os serviços prestados ao Império pelo terrorista Bin Laden.
E é bem provável que o mais relevante de todos esses serviços prestados tenha sido, precisamente, a brutal acção terrorista do 11 de Setembro, acontecimento que permitiu aos EUA, a pretexto do chamado «combate ao terrorismo», dar asas ao seu velho sonho de domínio do mundo, desde então com o incentivo, o apoio e o aplauso dos seus lacaios espalhados por todo o Planeta - acontecimento que teve ainda a suprema vantagem de legalizar e institucionalizar os EUA como o principal centro de terrorismo internacional.
É pena, por isso, que o terrorista, em vez de ter sido morto e deitado ao mar, não tenha sido preso e submetido a julgamento, num tribunal penal internacional, pelos crimes que cometeu - tanto mais que, como é sabido, o terrorista fez terrorismo e matou pessoas não apenas nos EUA mas em vários outros países.
Mas, como também é sabido, tal julgamento era o que menos convinha ao governo de Obama: sabe-se lá o que viria a lume em matéria de revelação sobre acções conjuntas entre o agora morto e os governantes norte-americanos...
Estou em crer, no entanto, que há uma falha no plano de Obama: com efeito, a forma estranha como se processou a morte do terrorista e os festejos pela sua morte a que se entregaram milhares de norte-americanos, em vez de acabarem com um caso, talvez tenham gerado um mártir...
2 - Um dia antes da morte de Bin Laden, as forças da NATO, às ordens dos EUA, bombardearam uma casa familiar de Khadafi e mataram um filho e três netos do chefe de Estado líbio.
Obviamente, não se tratou, neste caso, de um acto de terrorismo, nem pensar nisso!...
Na verdade, como todos os dias nos é dito pelos média dominantes, as forças da NATO na Líbia estão envolvidas numa louvável «acção humanitária», de «protecção de civis», de «prevenir a perda de vidas humanas», de «ataques a alvos exclusivamente militares»...
Por isso, também as mortes do filho e dos três netos de Khadafi foram festejadas, quer pelos governantes europeus lacaios dos EUA, quer pelos «rebeldes líbios» - que manifestaram o seu regozijo pelo feliz acontecimento vindo para a rua gritar «viva a morte» e pedindo à NATO que mate mais...
3 - Entretanto, entre mortes e festejos também os últimos dias nos confirmaram que não é beato quem quer, só é beato quem Deus quer...
E quis Deus que João Paulo II o fosse. Ele lá sabe porquê...
E também neste caso, milhares e milhares de pessoas festejaram, nas ruas, o feliz acontecimento...
POEMA
UM PÁSSARO NA PALAVRA
E ali estava no céu há duzentos anos
e toda a gente dizia para sempre que
cantava com uma voz divinamente mística
uma grande águia desdobrando as asas
aos ventos do mundo
e aos povos
oh como vêm
em barcos e aviões
e como montaram o grande pássaro
e como ele os levou de passeio
e voou milhares
e milhares de milhar
e como gostava de levar gente de passeio
faziam tocas no grande costado
e fossos nas asas
e cavavam nos grandes genitais
e extraíam-lhe os sucos a taxa reduzida
e treinavam e ajaezavam
este pássaro divinamente místico
e ele foi enfraquecendo
e envelhecendo
e os cabelos brancos
caíram da sua cabeça encanecida
e chamaram-lhe
a águia careca
e pôs um ovo em hiroshima
e outro em nagasaki
e perdeu a voz
e as penas caíram-lhe sobre cuba
e a república dominicana e o mississipi
e as asas caíram-lhe sobre o vietnam
e fizeram penas sintéticas para tapar as faltas
e ninguém acreditou no seu canto
nem mesmo as joaninhas
e ao cair tornou-se um falcão
e começou gente a cair
sufocada pelo fedor de um sonho moribundo
e tornou-se um canário
cantando versos de cor
a um mundo comprado dentro de um mundo
e o dia tornou-se noite
e o atrás tornou-se frente
e o preto tornou-se branco
e as folhas de erva viraram-se e gemeram
e as árvores gemeram
e o ar uiva e guincha
o seu lamento contra a América.
Robert Saggese
(in antologia da novíssima poesia norte-americana)
E ali estava no céu há duzentos anos
e toda a gente dizia para sempre que
cantava com uma voz divinamente mística
uma grande águia desdobrando as asas
aos ventos do mundo
e aos povos
oh como vêm
em barcos e aviões
e como montaram o grande pássaro
e como ele os levou de passeio
e voou milhares
e milhares de milhar
e como gostava de levar gente de passeio
faziam tocas no grande costado
e fossos nas asas
e cavavam nos grandes genitais
e extraíam-lhe os sucos a taxa reduzida
e treinavam e ajaezavam
este pássaro divinamente místico
e ele foi enfraquecendo
e envelhecendo
e os cabelos brancos
caíram da sua cabeça encanecida
e chamaram-lhe
a águia careca
e pôs um ovo em hiroshima
e outro em nagasaki
e perdeu a voz
e as penas caíram-lhe sobre cuba
e a república dominicana e o mississipi
e as asas caíram-lhe sobre o vietnam
e fizeram penas sintéticas para tapar as faltas
e ninguém acreditou no seu canto
nem mesmo as joaninhas
e ao cair tornou-se um falcão
e começou gente a cair
sufocada pelo fedor de um sonho moribundo
e tornou-se um canário
cantando versos de cor
a um mundo comprado dentro de um mundo
e o dia tornou-se noite
e o atrás tornou-se frente
e o preto tornou-se branco
e as folhas de erva viraram-se e gemeram
e as árvores gemeram
e o ar uiva e guincha
o seu lamento contra a América.
Robert Saggese
(in antologia da novíssima poesia norte-americana)
MAIO - A LUTA - CONTINUA!
Mesmo correndo o risco de abusar da paciência dos visitantes do Cravo de Abril, parece-me indispensável concluir a breve revisão da matéria dada no que respeita ao 1º de Maio com uma referência às comemorações do Dia do Trabalhador após o 25 de Abril de 1974.
«De todos os Dia do Trabalhador comemorados em Portugal, o mais impressionante, o mais grandioso, o mais belo - e que, por isso, ficará na nossa memória colectiva como acontecimento maior na luta do movimento operário e popular português - foi, sem dúvida, o 1º de Maio de 1974: o primeiro 1º de Maio.
Foi todo o povo nas ruas de todas as cidades e vilas e aldeias do País, exercendo a liberdade acabada de conquistar por força do seu exercício; transformando o levantamento militar vitorioso num impetuoso processo revolucionário e dando assim os primeiros passos na conquista de uma democracia com inequívoco conteúdo político, social, económico e cultural - e foi o ponto de partida para a conquista histórica, pelos trabalhadores, de direitos que tinham constituído objectivo das suas lutas ao longo de décadas.
Oito anos depois, quando o processo revolucionário já havia sido interrompido e a contra-revolução avançava - as comemorações do Dia do Trabalhador voltaram a ficar marcadas pelo sangue dos trabalhadores.
Os acontecimentos em torno das comemorações, no Porto, do 1º de Maio de 1982, trouxeram às memórias os tempos do passado que se julgava definitivamente derrotado em Abril: na sequência de uma provocação criminosa, montada pelo Governo "AD" (PSD/CDS), pelas forças repressivas e pelos divisionistas da UGT, dezenas de trabalhadores foram feridos, muitos em estado grave, oito dos quais baleados pela polícia.
E dois jovens trabalhadores - Pedro Vieira e Mário Gonçalves - foram assassinados».
Ontem, em dezenas de localidades do País, milhares e milhares de trabalhadores saíram às ruas, ao apelo da sua Central Sindical - a CGTP-IN - lutando pelos seus direitos e interesses, combatendo a política de direita ao serviço do grande capital, exigindo uma política de esquerda ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País -gritando bem alto: «NÃO QUEREMOS AQUI O FMI!»
E Maio - a luta - continua.
Nas empresas e locais de trabalho, a luta continua.
Nas ruas - nas manifestações convocadas para dia 19, em Lisboa e no Porto - a luta continua.
Por ABRIL.
Por MAIO.
Até conquistarmos o FUTURO.
«De todos os Dia do Trabalhador comemorados em Portugal, o mais impressionante, o mais grandioso, o mais belo - e que, por isso, ficará na nossa memória colectiva como acontecimento maior na luta do movimento operário e popular português - foi, sem dúvida, o 1º de Maio de 1974: o primeiro 1º de Maio.
Foi todo o povo nas ruas de todas as cidades e vilas e aldeias do País, exercendo a liberdade acabada de conquistar por força do seu exercício; transformando o levantamento militar vitorioso num impetuoso processo revolucionário e dando assim os primeiros passos na conquista de uma democracia com inequívoco conteúdo político, social, económico e cultural - e foi o ponto de partida para a conquista histórica, pelos trabalhadores, de direitos que tinham constituído objectivo das suas lutas ao longo de décadas.
Oito anos depois, quando o processo revolucionário já havia sido interrompido e a contra-revolução avançava - as comemorações do Dia do Trabalhador voltaram a ficar marcadas pelo sangue dos trabalhadores.
Os acontecimentos em torno das comemorações, no Porto, do 1º de Maio de 1982, trouxeram às memórias os tempos do passado que se julgava definitivamente derrotado em Abril: na sequência de uma provocação criminosa, montada pelo Governo "AD" (PSD/CDS), pelas forças repressivas e pelos divisionistas da UGT, dezenas de trabalhadores foram feridos, muitos em estado grave, oito dos quais baleados pela polícia.
E dois jovens trabalhadores - Pedro Vieira e Mário Gonçalves - foram assassinados».
Ontem, em dezenas de localidades do País, milhares e milhares de trabalhadores saíram às ruas, ao apelo da sua Central Sindical - a CGTP-IN - lutando pelos seus direitos e interesses, combatendo a política de direita ao serviço do grande capital, exigindo uma política de esquerda ao serviço dos trabalhadores, do povo e do País -gritando bem alto: «NÃO QUEREMOS AQUI O FMI!»
E Maio - a luta - continua.
Nas empresas e locais de trabalho, a luta continua.
Nas ruas - nas manifestações convocadas para dia 19, em Lisboa e no Porto - a luta continua.
Por ABRIL.
Por MAIO.
Até conquistarmos o FUTURO.
POEMA
O INIMIGO
Grandes olhos frios espiam esta calma
fictícia em que vives. Olhos de inimigo
que chove sobre ti a sua areia,
migalha-te o futuro, cobiça-te os joelhos,
oferece longas jornas de fome, salários
feitos de medo e asco.
Sobre os campos, as fábricas, o inimigo
sopra no teu querer uma paralisia.
Inventa sombras, disfarça a sua imagem;
a linha que o define, fugidia,
em vão a pensarás, em vão teu lápis
tentará aprisionar o seu contorno.
Mas se avanças um passo logo o vês
nesses olhos que tentam fascinar-te.
Egito Gonçalves
Grandes olhos frios espiam esta calma
fictícia em que vives. Olhos de inimigo
que chove sobre ti a sua areia,
migalha-te o futuro, cobiça-te os joelhos,
oferece longas jornas de fome, salários
feitos de medo e asco.
Sobre os campos, as fábricas, o inimigo
sopra no teu querer uma paralisia.
Inventa sombras, disfarça a sua imagem;
a linha que o define, fugidia,
em vão a pensarás, em vão teu lápis
tentará aprisionar o seu contorno.
Mas se avanças um passo logo o vês
nesses olhos que tentam fascinar-te.
Egito Gonçalves
MAIO - LUTA, FESTA, AMOR, FUTURO
PRIMEIRO DE MAIO
Hoje cidade está parada
e ele apressa a caminhada
pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
pra mostrar, cheio de si,
que hoje ele é senhor das suas mãos
e das ferramentas
Quando a sirene não apita
ela acorda mais bonita
sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
é o tafetá que Deus lhe deu
e é bendito o fruto do suor
do trabalho que é só seu
Hoje eles hão-de consagrar
o dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão,
faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã,
vai fiar nas malhas do seu ventre
o homem de amanhã
Chico Buarque
Hoje cidade está parada
e ele apressa a caminhada
pra acordar a namorada logo ali
E vai sorrindo, vai aflito
pra mostrar, cheio de si,
que hoje ele é senhor das suas mãos
e das ferramentas
Quando a sirene não apita
ela acorda mais bonita
sua pele é sua chita, seu fustão
E, bem ou mal, é o seu veludo
é o tafetá que Deus lhe deu
e é bendito o fruto do suor
do trabalho que é só seu
Hoje eles hão-de consagrar
o dia inteiro pra se amar tanto
Ele, o artesão,
faz dentro dela a sua oficina
E ela, a tecelã,
vai fiar nas malhas do seu ventre
o homem de amanhã
Chico Buarque
MAIO É LUTA - SEMPRE
Prosseguindo a revisão da matéria dada:
«Em Portugal, o 1º de Maio foi assinalado pela primeira vez logo em 1890, em Lisboa e no Porto; no ano seguinte, nas mesmas cidades, são já milhares os trabalhadores que se manifestam e exigem as oito horas de trabalho; em 1892, as comemorações estendem-se a várias outras localidades e, com o desenvolvimento do movimento sindical nos últimos anos da Monarquia e na sequência da implantação da República, assumiu dimensão e conteúdo superiores. Em 1919, fruto de importantes lutas da classe operária e dos trabalhadores, a jornada das oito horas foi conquistada e consagrada na lei para os trabalhadores da indústria e do comércio.
Durante a ditadura fascista, cuja primeira preocupação foi a abolição das liberdades, aí incluídas a liberdade sindical, o direito de greve e de manifestação - tudo complementado com a criação de um forte aparelho repressivo - as comemorações do Dia do Trabalhador, por vezes expressas apenas em actos simbólicos, constituíram verdadeiras acções de resistência e foram sempre objecto de brutal repressão.
Das comemorações nesses quase cinquenta anos de fascismo, emerge o 1º de Maio de 1962 - que assume expressão e dimensão históricas e evidencia de forma inequívoca o papel decisivo da classe operária na luta antifascista.
1oo mil pessoas em Lisboa; 20 mil no Porto; 5 000 em Setúbal; dezenas de milhares noutras cidades e de forma massiva no Sul, vieram para a rua, enfrentaram heroicamente as brutais cargas da polícia e, em Lisboa, responderam à violência policial "atirando pedras arrancadas do pavimento, empunhando postes de sinalização igualmente arrancados, dispersando num lado para se reagrupar noutro, ocupando as ruas durante longas horas".
A repressão foi brutal: rajadas de metralhadora fizeram dezenas de feridos e tiraram a vida ao jovem operário Estêvão Giro.
Tratou-se de uma grande jornada de luta, só possível, na dimensão e na expressão que assumiu, graças a um aturado trabalho preparatório, com a criação de comissões que promoviam reuniões alargadas, elaboravam e distribuíam cartazes e manifestos, faziam inscrições nas paredes, enfim, mobilizavam os trabalhadores e organizavam a direcção da jornada de luta.
Sempre sob a vigilância das forças repressivas que, numa dessas acções preparatórias, em 28 de Abril, em Aljustrel, assassinaram os mineiros António Adângio e Francisco Madeira.
Esse trabalho preparatório foi decisivo não apenas para o êxito da jornada do 1º de Maio, mas também para as impressionantes lutas através das quais o proletariado agrícola, em poderosas movimentações que envolveram 200 mil trabalhadores, obteve, no decorrer desse Maio de luta, a histórica conquista das oito horas de trabalho para os assalariados agrícolas do Sul.
(...) E tais foram a importância e o significado do 1º de Maio de 1962 que, desde então, o Dia do Trabalhador enquanto tal, passou a ser o dia nacional da resistência antifascista, ocupando assim o lugar até aí ocupado pelo 5 de Outubro, dia da revolução republicana burguesa»
PÁTRIA, LUGAR DE EXÍLIO
(EXCERTOS)
Aqui neste ano de 1962
primeiro de Maio
às três horas da tarde
(...)
Aqui às três horas da tarde
posso olhar-vos sem medo
e dizer-vos aqui estou
O poeta é um operário
(Maiakovski)
aprendei depressa a matar-nos
o poeta é o inimigo
(...)
A morte engatilhada
espera o momento de partir Agora
Cumpra-se o ritual
Uma voz grita Viva
a Liberdade e coro lhe responde
pontuado de tiros
Canalhas Temos fome
arranquemos as pedras da calçada
Ó meu amor resiste!
(...)
De mãos dadas cantando
abrimos flores às balas assassinas
merecemos a vida
(...)
Neste ano de 1962
primeiro de Maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa muda imagem
sem temor nem vergonha
(...)
Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura
Daniel Filipe
MAIO, MADURO MAIO
Revendo (resumidamente) a matéria dada:
«No dia 1 de Maio de 1886, o operariado norte-americano ergueu um poderoso conjunto de greves e de grandes acções de massas, reivindicando direitos laborais e, entre eles, as oito horas diárias de trabalho.
Em Chicago, no dia 4 de Maio desse ano, no decorrer de um comício sindical, a polícia montou uma provocação, fazendo explodir uma bomba que matou um polícia, assim criando o pretexto para a brutal vaga repressiva que se seguiu: dezenas de mortos, centenas de feridos, centenas de trabalhadores presos, designadamente dirigentes operários, oito dos quais foram submetidos a um julgamento que se revelaria como a continuação da provocação montada no dia 4: um juiz, um júri e testemunhas todos escolhidos a dedo...
E, como a provocação previamente determinara, os acusados foram condenados a penas cruéis, tendo quatro deles - Adolph Fischer, Albert Parsons, August Spies e George Engel - sido enforcados em 11 de Novembro do ano seguinte.
(...) A repercussão destes acontecimentos - que constituíram um novo estádio na luta dos trabalhadores contra a exploração capitalista - fez-se sentir em todo o mundo.
E três anos depois, o Congresso Operário Internacional de Paris, em homenagem aos "Mártires de Chicago", aprovou uma resolução que fixava o dia 1º de Maio como Dia Internacional do Trabalhador.
(...) Desde então, todos os anos, no 1º de Maio, por todo o mundo, milhões de trabalhadores saem às ruas em memoráveis jornadas de confraternização, de luta e de exigência reivindicativa aos governos e ao patronato, exigência que comporta, sempre, a redução do horário de trabalho - sendo certo que em alguns países, as oito horas diárias são, ainda hoje, a reivindicação primeira dessas manifestações.
E tal é o significado do 1º de Maio, enquanto sinónimo de liberdade na luta pelos direitos e interesses dos trabalhadores, que só nos países onde a opressão domina ele não é comemorado livremente».
O MASTRO DE MAIO DOS TRABALHADORES
Trabalhadores de todo o mundo, seja qual for
o vosso trabalho, suspendei-o neste dia:
deixai para trás as nuvens de inverno,
avançai ao sol com alegria.
Agora que de novo a verde terra rejubila
nos rebentos e nas flores de Maio
levantai os corações e a voz
na alegria universal do Dia do Trabalho.
Desfraldai bandeiras de terras longínquas
com a mesma mensagem de luta e esperança:
levantai o mastro de Maio e as suas grinaldas
que a vossa causa envolve na causa de todos.
Em cada faixa que esvoaça está escrito
o doce alvoroço do coração da liberdade
por distantes que estejam a coroa e o prémio
cada um com todos os outros os há-de alcançar.
A vossa causa é a esperança do mundo
a vossa luta é a vida do homem,
a Liberdade, bandeira desfraldada dos trabalhadores,
é um véu na luminosa face do futuro.
Sejais vós muitos ou poucos, reunidos,
que seja clara a vossa mensagem neste dia;
sejamos pássaros da primavera, mesmo com uma só pena,
cantemos o Primeiro de Maio.
Uma vida nova está ainda oculta,
mas projecta-se já a sua sombra;
um novo renascer da esperança seguramente
aí vem, como o mar chega à praia.
Fincai pé, trabalhadores, com firmeza,
fortes e unidos, puxai em conjunto:
juntai as mãos numa cadeia ao redor do mundo
se quereis realizar a vossa esperança.
Quando os Trabalhadores do Mundo, irmãos e irmãs,
construírem, no tempo novo que aí vem,
a casa comum para si próprios,
então, será sua a terra inteira.
Walter Crane
(Inglaterra, 1845-1915)
ABRIL, MAIO, OS AMIGOS - A LUTA
Os chamados «motivos imprevistos» são tramados...
E, por vezes, cruéis - especialmente quando nos obrigam a cortar contactos com aqueles que são a fonte de força essencial no dia a dia das nossas vidas: OS AMIGOS.
BOM DIA! BOM DIA!
Abraços e beijos, muitos.
Para OS AMIGOS.
E a vida - a luta - continua.
Ainda em Abril, penso em Maio e no seu dia primeiro - que é «o primeiro dos nossos dias».
Dia de luta.
ÀS RUAS NO PRIMEIRO DE MAIO
Às ruas no Primeiro de Maio!
A rugir nas Praças!
Tremam torres no centro da cidade!
Estilhace-se a atmosfera da Baixa!
Vinde com uma tempestade de bandeiras,
vinde com a passada de um terramoto,
Sinos, abandonai o campanário,
Bandeira vermelha, salta fora do teu vermelho!
Para fora das oficinas e das fábricas,
levantai a foice e o martelo,
Camaradas, são estas as nossas ferramentas:
uma canção e uma bandeira!
Canção, ondula no mar dos nossos corações,
Bandeira, salta e liberta-te;
Canção e Bandeira unidas.
Abaixo a burguesia!
Varram a grande cidade, avante!
Este dia é uma barricada;
Lancemos a brilhante bomba do sol,
e a lua como uma granada de mão.
Derramai-vos com uma segunda inundação!
Trovejai, montanhas do ar!
Milhares dos nossos rugem no metropolitano -
Camaradas, todos à praça!
Alfred Hayes
(Inglaterra, 1857-1936)
Somos como as aves... Partimos juntos, regressamos juntos
Podia vir aqui dizer-vos da minha ausência. Mas o direito ao silêncio ainda vinca as veias quando todos os outros soçobram. podia dizer-vos que habitual almoço comemorativo do aniversário do cravo de abril (o quarto!!) este ano se realiza em Espinho (Ah grande GR) e que foi atirado para as calendas de Agosto devido à intensa batalha em que todos os comunistas estão empenhados(que junto com todas as outras, faz a nossa luta!). Poderia falar-vos do que quer dizer este meu aparente silêncio e deserção deste espaço... poderia contar-vos dos projectos que, brevemente, verão a luz do dia nos olhos de todos aqueles que me lerem (e, em espinho, lá estará também)... podia... podia dizer-vos que habito agora junto da planicie liquefeita no atlântico. e das minha noites de pescarias solitárias, buscando algum deus no coração das areias ou na lembrança dos amigos... podia... mas nada disto quero. Escrevo apenas por um profundissimo apelo.
Um dos homens que amo profundamente passou estes dias por momentos difíceis. Na nossa amizade, todos os meus segundos têm sido de sobressalto. Nele, imagino-o, de profunda resistência contra as limitações da matéria.
daqui lhe deixo um abraço. e um apelo que já hoje me ouviu. Volta depressa. que fazes cá muita falta!
abraço-te, porque te gosto profundamente.
somos como as aves. e eu nunca mais me esqueci disso.
teu menino.
antónio sérgio
(hoje sem foto, que não há foto para as saudades.)
POEMA
Destino
A ser cão,
antes vagabundo
sem pão,
passadas firmadas,
lés a lés,
no mundo
a meus pés.
Carlos Aboim Inglez
A ser cão,
antes vagabundo
sem pão,
passadas firmadas,
lés a lés,
no mundo
a meus pés.
Carlos Aboim Inglez
25 de Abril
Porque nunca me canso de ver este vídeo especialmente neste dia, partilho-o (mais uma vez) no Cravo de Abril!
Viva o 25 de Abril!
A BEM DA BANCA
Palavras do secretário-geral do PCP:
«Quando se olha no concreto para a dívida, verifica-se que a maior parte é privada e não pública. Ou seja, o povo português não viveu acima das suas possibilidades. O que houve foi um sector financeiro e grupos económicos que, na ânsia do lucro, especularam, recorreram a essa dívida, ficando os encargos para o País» - o que quer dizer que «parte significativa da "ajuda externa" agora em negociação vai direitinha para a banca portuguesa».
Jerónimo de Sousa tem insistido nas ideias acima expostas sobre as quais os média fazem o que lhes compete: assobiam para o lado ou, cobrindo-se de ridículo, procuram ridicularizá-las.
Entretanto, eis que, pela voz do director-geral do FMI nos é dito que «o problema de Portugal não é tanto a dívida pública mas o financiamento da banca e a dívida privada».
De facto, olhando para os números é fácil de comprovar que a dívida pública portuguesa (que corresponde a 97,3% do PIB) é bastante inferior às da Irlanda (107%), da Grécia (150,2%), da Bélgica (100,5%), da Itália (120,2%» - e não está tão distante das da França e da Alemanha como se julga...
Já em relação à dívida privada portuguesa, ela corresponde a 220% do PIB - e é da exclusiva responsabilidade da Banca.
Tem razão Jerónimo de Sousa quando diz que é essa dívida privada que a troika vem agora cobrar.
Cobrar a quem?
Aos mesmos de sempre, claro.
Aos trabalhadores, aos desempregados, aos reformados e pensionistas, aos pobres...
A BEM DA BANCA ...
POEMA
ESTA GENTE/ESSA GENTE
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Ana Hatherly
O que é preciso é gente
gente com dente
gente que tenha dente
que mostre o dente
Gente que seja decente
nem docente
nem docemente
nem delicodocemente
Gente com mente
com sã mente
que sinta que não mente
que sinta o dente são e a mente
Gente que enterre o dente
que fira de unhas e dente
e mostre o dente potente
ao prepotente
O que é preciso é gente
que atire fora com essa gente
Ana Hatherly
CIDADANIA E ÁGUA BENTA...
O folhetim Fernando Nobre continua a dar que falar.
E à medida que vão sendo reveladas mais peripécias do caso, mais evidente fica a desvergonha da postura do Nobre e dos que, de uma maneira ou doutra, integram o seu círculo cívico-cidadão.
Afinal quem é que convidou Fernando Nobre para seu candidato às legislativas?
O PSD? O PS?
Luís Osório, que fez parte da direcção de campanha de Fernando Nobre, diz que
«tanto o PS como o PSD lhe fizeram convites e tentaram o seu apoio».
Assim sendo, por que razão é que Nobre aceitou o PSD e rejeitou o PS?
Luís Osório apresenta as duas razões que levaram Nobre a fazer a opção que fez: em primeiro lugar, «o seu convencimento de que que o ciclo socialista chegou ao fim» - assim como quem diz: se o PSD é o senhor que se segue no Poder, então é com o PSD que eu estou...
E assim, Nobre exibia uma vez mais as suas meritórias qualidades de cidadania, de desapego pelo poder, enfim de todo aquele conjunto de atributos cívicos que o levaram a jurar e jurar e jurar que candidatar-se às legislativas nas listas de um partido político, isso NUNCA!...
A segunda razão que, segundo Luís Osório, levou Nobre a optar pelo PSD tem a ver com «o facto de o PS apenas se ter aproximado de Nobre depois dos 14% que este obteve nas eleições», enquanto que Pedro Passos Coelho «procurou várias vezes escutar a opinião de Nobre» durante a campanha.
E aqui está mais um exemplo da singular postura cívico-cidadã do impoluto Nobre: ao mesmo tempo que nos debates televisivos deitava abaixo os «políticos», os «partidos», a «política», ele trocava amenas opiniões político-partidárias com o líder do PSD...
A mostrar que cidadania e água benta cada um toma a que quer...
Portanto, Sócrates atrasou-se, distraiu-se, adormeceu e... quando acordou, era tarde.
Segundo revelou Luís Osório, o encontro que juntou José Sócrates e Fernando Nobre, ocorreu depois das eleições.
Foi num jantar, que teve lugar... onde é que havia de ser?: em casa de Mário Soares, pois claro.
Sempre segundo Osório, no decorrer do referido jantar Sócrates não deu o passo em frente no sentido de convidar Nobre para as listas do PS, limitando-se a manifestar surpresa pelos 14% por ele obtidos.
E confessando-lhe, também, que «metade dos seus ministros votara nele».
A outra metade, certamente, votou no Cavaco...
POEMA
PALAVRAS
Queria chamar-te tanta coisa bela
pássaro, fogo, vento, caravela
terra, semente, pão
Chamar-te amigo
e inventar as palavras que não digo
com medo de as dizer sem ter razão.
Maria Eugénia Cunhal
Queria chamar-te tanta coisa bela
pássaro, fogo, vento, caravela
terra, semente, pão
Chamar-te amigo
e inventar as palavras que não digo
com medo de as dizer sem ter razão.
Maria Eugénia Cunhal
AS FUNDAÇÕES
«No rasto das fundações» é o título de um interessante trabalho hoje publicado no Diário de Notícias.
Começando por lembrar que as fundações «não são obrigadas a mostrar orçamento, nem relatórios, nem a prestar contas com regularidade» - e que o seu enquadramento legal permite a ausência de transparência no que respeita ao dinheiro transferido do Orçamento do Estado - o DN revela ter apurado que, «em pouco mais de cinco anos, foram transferidos cerca de 250 milhões de euros de dinheiro dos contribuintes» para 31 das 639 fundações existentes.
É muito dinheiro?
É pouco?
Não sei.
Sei apenas - e é isso que, para já interessa - que, muito ou pouco, é o CONTRIBUINTE (eu, tu, ele, nós...) que paga...
Acresce que algumas destas fundações são também financiadas por autarquias...
É-nos dado o exemplo da Fundação Mário Soares que recebe 50 mil euros anuais da Câmara Municipal de Lisboa. E que desde 2006 recebeu da Câmara Municipal de Leiria 294 mil euros.
Tudo isto em paga das «acções de carácter cultural, científico e educativo» levadas a cabo pela referida Fundação...
Hão-de ser muitas, e de elevadíssima qualidade - e de onerosos custos de produção... - as acções praticadas pela Fundação Mário Soares...
Finalmente, diz-nos um dos autores do trabalho que «a política e as fundações andam há muito de mãos dadas».
E dá exemplos, depois, dos políticos que integram os órgãos sociais das respectivas fundações.
Sem surpresa, lá encontramos... o que era inevitável encontrarmos: só políticos ligados, directa ou indirectamente, a todos os partidos do sistema e que passaram por todos os governos PS, ou PSD, ou PS/CDS, ou PS/PSD, ou PSD/CDS...
Isto é: só políticos ligados aos partidos do chamado arco do governo...
Ou «arco da velha», como, há dias, em fala certeira, os caracterizou Jerónimo de Sousa.
Arco da velha política de direita que, com fundações ou sem elas, afundou Portugal.
POEMA
PARA BELLUM
Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada: a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
E nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
(nunca os próprios mortos) exageravam - evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
(e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário - vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?
Jorge de Sena
Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada: a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
E nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
(nunca os próprios mortos) exageravam - evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
(e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário - vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?
Jorge de Sena
ALI HÁ NEGÓCIO...
Não vou falar de novidade nenhuma.
O caso é por demais conhecido - pelo menos desde que, aqui há uns quatro meses, veio a público.
É certo que, a partir de dada altura, praticamente não se voltou a falar do assunto. Sabe-se lá porquê, sabe-se lá para quê...
A propósito, sempre me interroguei sobre as razões pelas quais uma coisa tão obviamente... irregular (digamos assim, para simplificar...) era tratada de maneira tão... sem consequências (digamos assim, para simplificar...)
E creio bem que continuarei a interrogar-me sobre o assunto durante muito, muito tempo...
Mas vamos ao que interessa: o caso veio à baila ontem no tribunal que está a tratar do caso SLN/BPN/Oliveira e Costa & Cia.
E o caso é este: «Cavaco Silva e a filha, Patrícia Cavaco Silva Montez, compraram 250 mil acções a Oliveira e Costa a 1 euro cada, apesar de o arguido as ter adquirido a 2,1 euros cada» - quer isto dizer que o arguido (Oliveira e Costa) perdeu no negócio qualquer coisa como 275 mil euros.
Dois anos depois, Cavaco Silva e a filha venderam ao BPN, a 2,4 euros cada, as acções que haviam comprado a 1 euro - o que quer dizer que lucraram com o negócio qualquer coisa como 350 mil euros.
Ora, como escrevi lá em cima, não se trata de novidade nenhuma.
Mas confesso que este é, para mim, um mistério profundo - ou, dizendo com mais rigor, um duplo mistério.
Assim:
1 - o que é que leva um homem de negócios, com notável currículo, a fazer um negócio que logo à partida lhe causa um prejuízo de 275 mil euros?
2 - o que é que leva um cidadão e a filha a, sem se interrogarem, fazerem um negócio que lhes traz assim, de mão beijada e do pé para a mão, um lucro de 350 mil euros?
No que me diz respeito, estou convencido que ambas as partes envolvidas no negócio sabiam o que estavam a fazer; sabiam que o negócio era assim mesmo; sabiam que o prejuízo e o lucro eram os que eram...
E assim sendo, sabiam também o que ninguém mais sabe.
A saber: que ali há NEGÓCIO...
POEMA
CONTRATADOS
Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos
Sobre o dorso
levam pesadas cargas
Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas
Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam
Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam
Cheios de injustiças
caladas no imo das suas almas
e cantam
Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam
Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes
Ah!
eles cantam...
Agostinho Neto
Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos
Sobre o dorso
levam pesadas cargas
Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas
Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam
Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam
Cheios de injustiças
caladas no imo das suas almas
e cantam
Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam
Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes
Ah!
eles cantam...
Agostinho Neto
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