POEMA

IDIOTAS, PALHAÇOS E BANDIDOS...


Idiotas, palhaços e bandidos,
enfatuados, ocos, ignorantes,
do capital humildes servidores,
ante os trabalhadores majestosos,
melífluos, devotos, afectados,
hipócritas, sem escrúpulos, grosseiros,
no apetite à solta insaciáveis,
na total desvergonha sem remédio,
agiotas vorazes para os pobres,
para os ricos mãos rotas sem medida,
impávidos na asneira triunfal,
relapsos no logro e na mentira,
useiros e vezeiros na traição,
são os que nos governam e eu desprezo.


Armindo Rodrigues

PORTUGUÊS É QUE NÃO

No mesmo dia em que o presidente do Conselho da Europa, Herman Van Rompuy, afirmava que «a Zona Euro e a União Europeia podem não sobreviver» à crise actual, Mário Soares, falando para alunos da Escola Secundária de Trofa, arrotava que «a única hipótese que a Europa tem para não patinar, é a criação de um governo europeu, eleito por cidadãos comunitários: um governo federal similar ao dos Estados Unidos».

Como se sabe, Soares é o grande responsável pela entrada de Portugal para a CEE/UE.
E não o fez a pensar nos interesses nacionais, mas, pelo contrário, por ver nessa integração a forma mais eficaz de liquidar a democracia de Abril.
Aliás, liquidar a democracia de Abril foi a tarefa na qual Soares, em toda a sua vida, mais se empenhou, não hesitando em aliar-se com quem fosse necessário para o efeito e em vender a alma ao diabo que mais alto pagasse a sua traição - e, provavelmente, fazendo-se pagar bem...

Já agora, recorde-se que, desde logo, o PCP alertou para as graves consequências políticas, económicas, sociais, culturais que a integração na CEE/UE traria para Portugal e para os portugueses, sublinhando que ela conduziria à entrega da independência nacional nas garras dos grandes grupos económicos e financeiros - como, de facto, veio a acontecer.


A situação da União Europeia, hoje, está bem patente na declaração acima citada de Herman Van Rompuy.
A situação económica e social do nosso País é o desastre que se vê e que a imensa maioria dos portugueses sente na pele: Portugal afunda-se.
E Soares, sem dúvida o principal responsável por esse afundamento, o que propugna é... a aplicação até ao fim da tortura do afogamento: a entrega definitiva e total do País aos patrões da Europa.

Disse o sacripanta aos alunos da Escola Secundária de Trofa: «Sou europeísta e sou federalista».
Lá isso é.
Português é que não...

POEMA

NEM A SETE CHAVES


Nem a sete chaves
de mim separado,
de ti separado,
guardado dos outros,
em mim conseguiram,
no tempo das trevas,
nas trevas das celas,
as trevas murchar
os cravos solares
floridos em mim,
em mim ateados,
do meu pensamento,
da minha certeza,
da minha vontade.


Armindo Rodrigues

AFINAL, HAVIA... COISA

Ontem comentei a entrevista do ministro Amado ao Expresso.
Mal sabia eu, ao escrever o que escrevi - designadamente sobre o hipotético futuro político do entrevistado - que afinal havia... coisa...

Com efeito, o Público de hoje revela que a hipótese de Amado substituir Sócrates no cargo de primeiro-ministro está a ser «ponderada» já há alguns meses - precisamente desde Maio, altura em que foi decretado o PEC 1.

«Ponderada» por quem?
«Por dirigentes do PS, por outras figuras públicas e também por alguns empresários» - informa o jornal.

Se assim é - e tudo leva a crer que sim, vindo a informação donde vem - então, repito, afinal havia... coisa.
E coisa grossa!
Porque, reparem: se os «ponderadores» fossem, apenas, «dirigentes do PS» e «outras figuras públicas», a coisa não seria por aí além relevante, pois estaríamos perante mais uma daquelas guerrinhas de bastidores, em busca do tacho, com traições e facadas nas costas, tão usuais na família da «grande coligação»...

Mas entre os «ponderadores» há, informa o órgão oficial da Sonae, «alguns empresários»!
E aí, a coisa fia mais fino.

Não acham?

POEMA

AO MORRER


Ao morrer, nada mais me importará.
Por antecipação, nem já me importa.
Com consciência, pois, do paradoxo,
é que ouso dizer com bonomia
que até quem se incomode a acompanhar-me
o corpo hirto, inerte,a apodrecer,
ao cemitério sossegado e claro,
o fará com desgosto meu actual.
Nunca gostei de incomodar ninguém.
Mas quem não quero lá, fique isto assente,
são padres, charlatães, capitalistas,
para nem morto suportar ofensas.


Armindo Rodrigues

AQUI HÁ GATO...

Luis Amado, actual MNE (e futuro... a ver vamos...) é um personagem estranho. Para mim, é claro.
Não sei porquê (ou até sei...) habituei-me a vê-lo como homem de confiança (digamos assim...) dos EUA, uma espécie de embaixador local dos interesses dos States.

Vem isto a propósito da entrevista por ele concedida (digamos assim...) ao Expresso - uma entrevista que é, ela própria, também algo estranha, na medida em que mais parece (a mim, é claro...) uma daquelas entrevistas não-se-sabe-porquê, ou seja, feitas por encomenda de alguém...

À medida que lia as perguntas do entrevistador e as respostas do entrevistado, dei comigo a pronunciar repetidas vezes, em voz baixa: aqui há gato... - não tanto pelo facto de Amado pensar o mesmo que Paulo Portas em matéria de «solução» para a actual situação nacional, mas mais pelos caminhos seguidos pelo entrevistado na «fundamentação» da sua «solução».

Começando por declarar que «esta crise está para lá de nós» (frase dúbia... ou talvez não...), Amado fez questão de informar que «os meus colegas (na UE) estranham termos um Governo minoritário no contexto de uma crise tão séria» - estranheza que, pelos vistos Amado subscreve, ao afirmar, primeiro, que «é preciso colocar os interesses do país acima dos partidários e pessoais» e, logo a seguir, que «o país precisa de uma grande coligação que permita ultrapassar a actual situação».
«Uma grande coligação» englobando, obviamente, os três partidos da política de direita - ao fim e ao cabo os mesmos que, em coligação disfarçada, durante 34 anos, são os grandes responsáveis pela situação a que o País chegou (isto digo eu e não o Amado...).

Mas «grande coligação» como? - pergunta o entrevistador - «sem eleições?» - e Amado responde sem hesitações que as eleições «neste momento são inviáveis num horizonte excessivamente longo», e a crise é séria, portanto... grande coligação sem eleições...

E, colocando os interesses do país acima dos partidários e pessoais, proclamou, patriótico:
«Estou disposto a ceder o lugar para uma solução de estabilidade».
»Ceder o lugar»?: a quem? e a troco de que outro lugar?...

Bom, receio bem que, neste caso, se trate de gato escondido com o rabo de fora...

Mas, tratando-se ou não disso, de uma coisa estou certo: aqui há gato...

POEMA

REMATE


O que é obscuro
tentemoos elucidá-lo.

O que é complexo
tentemos
simplificá-lo.

O que é impuro
tentemos
purificá-lo.


Armindo Rodrigues

MEDALHA DE OURO, JÁ!

Desde que, há mês e meio, o PEC III foi anunciado - com as suas «drásticas medidas de austeridade» e de «contenção na despesa pública» - José Sócrates e os seus ministros já fizeram 270 nomeações para cargos no Governo.
O que corresponde, feitas as contas, a uma média de 180 nomeações/mês - ou, se se preferir, 45 nomeações/semana; ou, para quem seja mais miudinho, 9 nomeações/dia...

De acordo com dados divulgados pelo DN, Sócrates, com este notável score, bate o seu recorde pessoal, ultrapassando largamente a média de nomeações verificada no seu primeiro governo.
Mas... Sócrates não é só isto!: ele bate também os recordes dos seus três antecessores: Guterres e Barroso (com médias de, respectivamente, 127 e 117 boys/mês); e Santana (com a aconchegante média de 172 girls/mês).


Estes recordes, projectando o recordista para o cume do pódio, são tanto mais relevantes quanto são obtidos em tempo de «austeridade» e de «contenção»...
Por tudo isso, para Sócrates a bem merecida Medalha de Ouro, já!

POEMA

AUTO-RETRATO


O'Neill (Alexandre), moreno português,
cabelo asa de corvo; da angústia da cara,
nariguete que sobrepuja de través
a ferida desdenhosa e não cicatrizada.
Se a visagem de tal sujeito é o que vês
(omita-se o olho triste e a testa iluminada)
o retrato moral também tem os seus quês
(aqui, uma pequena frase censurada...)
No amor? No amor crê (ou não fosse ele O'Neill!)
e tem a veleidade de o saber fazer
(pois amor não há feito) das maneiras mil
que são a semovente estátua do prazer.
Mas sofre de ternura, bebe demais e ri-se
do que neste soneto sobre si mesmo disse...


Alexandre O'Neill


(Assim termina este convívio do Cravo de Abril com a poesia de Alexandre O'Neill.
O próximo convidado - que, aliás, por aqui tem passado com justificada frequência - é Armindo Rodrigues)

A AGENDA

O «professor universitário, especialista em...» é uma espécie de instituição com Sede nos EUA e com sucursais espalhadas pelo mundo.
Com frequência e oportunidade cirúrgicas, estes «professores especialistas» correm todas as capitais, convidados e pagos por «institutos especializados», proferindo doutas «conferências» sobre os temas que, em cada momento, ocupam a «agenda» do imperialismo norte-americano - que é a «agenda» dos seus propagandistas espalhados pelo mundo.

Foi no cumprimento dessa «agenda» que, um tal Malcolm Deas - «Professor da Universidade de Oxford, especialista em Colômbia» - se deslocou a Lisboa, a convite do «Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica», para fazer uma conferência sobre «Democracia e Segurança na Colômbia» - ou seja: para, do alto do seu saber universitário e especialista, nos garantir que «democracia e segurança» são coisas que abundam na Colômbia de Uribe&Santos Associados (USA) - ao contrário do que, anteontem, aqui se disse no Cravo de Abril...

É costume nestas situações que o «conferencista» de serviço seja entrevistado por um ou vários órgãos de informação de serviço, de modo a que a «conferência» não fique apenas no conhecimento da centena de «alunos» que a ela assistem e chegue onde é necessário que chegue: ao grande público...
Por isso, o especialista Diário de Notícias correu a entrevistar o especialista Malcolm Deas.

Que disse ele, então, confirmando a «Democracia e Segurança na Colômbia»?
Nem mais nem menos do que aquilo que os média (DN incluído) nos dizem todos os dias.

O conferencista/especialista em Colômbia começou por nos «tranquilizar» quanto às superiores qualidades do sucessor do fascista Uribe (isto digo eu...) - e garantiu solenemente que as «diferenças entre Uribe e Santos são apenas do ponto de vista pessoal, mas não político»...
Quanto a «violações de direitos humanos», o professor/especialista em Colômbia diz que, enfim, o próprio «Uribe admitiu que houve abusos», contudo de alguma forma justificados, não é verdade?; não que a violação de direitos humanos seja de aplaudir, nem pensar nisso!, nós somos democratas, não é verdade?; mas... não exageremos, isto é: «o Governo deve fazer tudo para que não haja abusos, mas não podemos dizer que, por eles terem acontecido, temos de abandonar a política», pois isso «seria pior para o país»...
No que respeita às bases norte-americanas, o professor Malcolm aplaude entusiasticamente, tanto mais que, ensina ele, «a ajuda dos EUA, pontual, eficaz e discreta, foi muito importante para a Colômbia»; e não vê razões para protestos: que diabo!, «um país tem direito a pedir e receber ajuda», ou não tem?; ora, assim sendo, pergunta/responde o professor/especialista: «Quem mais, sem ser os EUA, a ia oferecer?».

Obama, ou a sua secretária Clinton, não diriam melhor.
Nem precisam: há sempre, disponível, um «professor universitário especialista»...

POEMA

SALDOS NO VIETNAME


Bombas de esferas:
cachos de bombas nascem de uma só bomba-mãe.
Cada bomba-filha ejecta, à altura do homem,
300 esferas que vão penetrar na carne aos ziguezagues.

Parente deste sanguinário jogo de berlinde
é o jogo das setas: um polegar de tamanho,
aletas que lhe permitem
entrar em parafuso carne dentro,
pontas de arpão,
o que torna a sua extracção muito difícil.

(Agora, as setas, quando já no corpo
- é um melhoramento! - fragmentam-se.)

Também há projécteis de plástico
não detectáveis pelos raios x;
e a bomba dita de nuvem explosiva.

Quando entra em cena o seu papel é este:
introduzir, primeiro, por escâncaras ou frinchas,
no teatro onde está a actuar,
uma expansiva nuvem de etileno.
Só depois explode: então, o fogo
pega-se ao etileno e... cai o pano!

E mais uma invenção: as minas-aranhiços,
que desenrolam patas de 6 metros
quando tocam no chão.

Ai de quem tropeçar numa das patas:
nem a mosca da alma terá tempo
de se evolar!

A TV veio também colaborar
com «directos» bem sofisticados:
realizador-bombista, o pessoal-piloto
a um só tempo fabrica e realiza a própria acção
e faz-vê, em grande plano, o seu desfecho.

Outros sinetes deixou o americano
no texto Vietname.
Um dos mais velhos: a incandescente lepra
à procura de pessoas que se chama napalm;
um dos mais novos: a bomba
devoradora de todo o oxigénio
250 metros em derredor
do ponto onde cair.

E onde o americano espera nunca estar.


Alexandre O'Neill

E NÓS A VERMOS...

Um amigo fez-me chegar esta interessante definição de «liberal», que passo a partilhar convosco:

Liberal é o indivíduo que, montado nas costas do outro, que quase esmaga com o seu peso, lhe vai dizendo que lamenta muito, muito, muito, e que, para o aliviar da carga, fará tudo, tudo, tudo... excepto sair de cima dele.

Isto faz-me pensar na quantidade de liberais que há 34 anos nos andam a lixar - de Soares a Sócrates, passando por Sá Carneiro, Balsemão, Freitas, Cavaco, Guterres, Barroso & Lopes...


«E nós a vermos», como acabou de nos dizer o O'Neill...

POEMA

VOLTA AO MUNDO


júlio verme deu a
volta ao mundo em 80 mil dias
e agora que chegou prepara-se para assentar
o rastejantraseiro na presidência do que estiver
vacante de presidentes
é o costume há sempre um júlio ainda por cime verme
que vem ver-me ver-te ver-nos
que saíu longetempo do buraco
da mãe para um feio dia limpar
pública meticulosamente os óculos
pô-los no nariz entalar o arreganho dum sorriso
entre as duas faiscantes vidraças
e dizer doravante quem manda
sou eu pelo menos até ao próximo
verme que a providência já fez partir do seu buraco
e ao qual cederei
o poder dentro de 8o mil dias
quando a situação estiver normalizada
quando o povo encontrar praza a deus a cloaca
onde evacuar os seus filhos espúrios
causa de todo o mal

(e nós a vermos)


Alexandre O'Neill

BREVE RETRATO DA COLÔMBIA

Eis um breve retrato da Colômbia de Uribe & Santos Associados (USA) patrocinados por Obama:

Em 2010, até agora, foram assassinados 37 sindicalistas - o que quer dizer que 67% dos sindicalistas assassinados no mundo são colombianos.

O número de presos políticos ultrapassa os 7 500.

Nos últimos três anos, o total de desaparecidos em resultado do terrorismo de Estado, ultrapassa os 38 mil.

Nos últimos quinze anos, os paramilitares executaram mais de 30 mil pessoas.
O uso de fornos crematórios tornou-se prática corrente.

A maior vala comum da América Latina foi encontrada na Colômbia: muitos dos 2 mil cadáveres ali depositados são de jovens, aliciados e depois executados pelo exército e apresentados à comunicação social como guerrilheiros das FARC.
Há notícia de mais 4 000 valas comuns.

Nos últimos quinze anos, os paramilitares executaram mais de 30 mil pessoas.

28 milhões de colombianos - 68% da população do país - vivem na pobreza.

Todos os anos morrem, de desnutrição, mais de 20 mil crianças menores de cinco anos.


Sete bases militares dos EUA instaladas na Colômbia asseguram a paz, a ordem, a democracia, a liberdade - e, obviamente, o respeito pelos direitos humanos...

POEMA

O ENFORCADO


No gesto suspensivo de um sobreiro,
o enforcado.

Badalo que ninguém ouve,
espantalho que ninguém vê,
suas botas recusam o chão que o rejeitou.

Dele sobra o cajado.


Alexandre O'Neill

A DIFERENÇA

Observemos a fauna:

1 - Alguns membros da Comissão Política Nacional da Candidatura de Manuel Alegre - nomeadamente Augusto Santos Silva e José Manuel Pureza (os bons espíritos encontram-se sempre...) - informaram que é intenção da dita Comissão levar por diante «uma campanha sem qualquer tabu, em que o candidato assume a sua independência em relação aos partidos que o apoiam». Isto porque, continuam a informar, na campanha eleitoral há que «valorizar o carácter suprapartidário do candidato».
Ficamos, então, informados sobre a «independência» deste candidato «suprapartidário» - que, certamente por coincidência, é o candidato do PS apoiado pelo BE...

2 - Quem também não quer nada com os partidos é o candidato Fernando Nobre, o qual , em eleições anteriores já foi apoiante do PS, do PSD, do BE... e pronto, felizmente...
Sabendo-se que Nobre é, certamente por coincidência, o candidato da família Soares, está tudo explicado...

3 - Mais longe vai, no entanto, o candidato Cavaco, para o qual... nem partidos nem políticos...
Do alto do seu pedestal, olhando sobranceiro o país e o mundo, com aquele sorriso superiormente inteligente que se lhe conhece, Cavaco declara-se preocupado com os políticos - ou, como ele diz, com os pu-lí-ti-cus...
Percebe-se: Cavaco não é político... E é isso que o safa, porque se fosse político, certamente por coincidência, ele seria o político que, depois de Salazar, mais anos esteve à frente de cargos... políticos: 10+5=15, Chiça!...

(Em verdade vos digo, meus amigos, que já não tenho pachorra para aturar estes aldrabões de feira, estes vendedores de banha de cobra, esta cambada sem ponta de vergonha)



Já agora, recorde-se que, no polo oposto de toda esta porcaria, a marcar a diferença, está a candidatura de Francisco Lopes - uma candidatura singular: única tanto pelos objectivos que apresenta, como pela dignidade com que os apresenta e por eles se bate.

POEMA

TAÇA DO MUNDO DE FUTEBOL
(Argentina, 1978)





O estádio River Plate situa-se a 700 metros de
um edifício pertencente à Marinha argentina
onde se praticavam as piores torturas.





Em Buenos Aires, no River Plate,
a seis campos de futebol (medidas máximas)
do Centro onde, entre outros primores de jogo,
se chutavam testículos, mamas e cabeças,
a Taça do Mundo ferverá nas mãos de quem a ganhar,
de quem a empunhar, de quem por ela beber
A MERDA DE TER LÁ IDO.


Alexandre O'Neill

MARCAS PROFUNDAS

«Uma derrota de Obama?», pergunta Mário Soares - sempre ele!... - em título, na página que o Diário de Notícias lhe paga (muito, presumo...) para encher todas as terças-feiras.

E responde que... bom... enfim... isto é... quer dizer... vejamos:
as eleições «para os republicanos foram uma semivitória amarga»: ganharam aqui mas perderam ali - pelo que, para Obama foram uma semivitória doce: perdeu aqui mas ganhou ali...

Mas, para Soares, tudo isso conta pouco. Ele acha, mesmo, que após as eleições, «Obama proferiu um mea culpa a meu ver exagerado».
Porque, na opinião esclarecida e avisada de Soares, o que mais conta é que nada anula - pelo contrário, tudo confirma - a justeza da atribuição do Prémio Nobel da Paz a Obama.
Porquê?: «pela marca profunda que os primeiros meses de Obama deixaram na América e neste nosso mundo tão inseguro, incerto e agressivo».

Realmente, digam lá, o que seria deste «nosso mundo» sem «a marca profunda» de Obama?
É óbvio que sem Obama, os seus discursos, o seu génio, a sua «marca profunda», o Iraque, o Afeganistão, o campo de concentração de Guantánamo, as Honduras, etc, etc, seriam hoje terras sem liberdade nem democracia, de prisões e de torturas, de crimes e assassinatos brutais, de barbárie à solta, enfim, de direitos humanos todos os dias espezinhados, a tornarem «este nosso mundo» ainda mais «inseguro, incerto e agressivo»...

Felizmente que a tríade composta pela liberdade, pela democracia e pelos direitos humanos é a menina dos olhos de Obama - e de Soares, que à coisa tem dedicado toda a sua vida, deixando atrás de si a sua inconfundível «marca profunda»...

POEMA

A BICICLETA


O meu marido saiu de casa no dia
25 de Janeiro. Levava uma bicicleta
a pedais, caixa de ferramenta de pedreiro,
vestia calças azuis de zuarte, camisa verde,
blusão cinzento, tipo militar, e calçava
botas de borracha e tinha chapéu cinzento
e levava na bicicleta um saco com uma manta
e uma pele de ovelha, um fogão a petróleo
e uma panela de esmalte azul.
Como não tive mais notícias, espero o pior.


Alexandre O'Neill

COMO A ÁGUA QUE CORRE

Comentando e criticando os chamados «esforços» do PSD/Passos Coelho para encontrar «consensos» com o PS/Sócrates, um comentador encartado opina assim no Diário de Notícias:

«O problema nunca foi o actual primeiro-ministro, tem sido sim as políticas prosseguidas pelos socialistas nos últimos quinze anos. Guterres e Sócrates são faces diferentes da mesma moeda».

Trata-se de uma meia verdade - uma meia verdade que, aliás, tem sido o seguro de vida da política de direita desde há mais de três décadas, na medida em que espalha a falsa ideia de que PS e PSD (independentemente dos nomes dos seus líderes em cada momento) são portadores de projectos políticos diferentes - quando a verdade inteira mostra que eles se identificam e complementam na aplicação do mesmo projecto: a política de direita.

Assim, nas mesmas referidas faces da moeda de que fala o comentador acima citado, encontram-se Cavaco, Barroso/Lopes/Portas (isto para não irmos mais longe no tempo), os quais, durante os quinze anos em que alternaram com os quinze anos de Guterres/Sócrates, fizeram uma política igualzinha à que foi praticada por estes.
Como todos eles, comentador incluído, sabem - mas... não querem que se saiba...

Por isso, importa relembrar todos os dias que estes dois partidos (PS e PSD, às vezes com o CDS/PP atrelado) estão no poder, alternadamente - eles e só eles - há 34 anos; e que são eles - e só eles - os responsáveis pela situação dramática em que o País se encontra - situação que é consequência directa de uma política que tem como preocupação única servir os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros.

Percebendo isso, perceber-se-á que, em dia de eleições, votar num ou votar noutro é votar na continuação dessa política de direita comum aos dois.
E que afastá-los do poder é condição indispensável para implementar uma política ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

Simples como a água que corre...

POEMA

A VIDA DE FAMÍLIA


a vida de família tornou-se um bem difícil
com as contas a pagar os filhos a fazer
ou a evitar a ranhoca a limpar
a vida de família não tem razão de ser
não tem ração de querer

a vida de família jangada da medusa
é o tablado da antropofagia

mas ficam os retratos cristo virgem maria
e os sobreviventes, que vão chupando os dentes


Alexandre O'Neill

UM PRÉMIO PARA GENTE DE BEM

Há prémios que vêm por bem...
É o caso deste «Prémio Internacional de Direitos Humanos Herberto Anaya», atribuído à Frente Nacional de Resistência Popular das Honduras (FNRPH)

Após a vaga fétida de nóbeis e sakharovs a premiar lacaios do imperialismo norte-americano e da sua ambição de domínio do mundo, a atribuição de um prémio a gente de bem constitui , além do mais, um verdadeiro acto de higiene...

Recorde-se que a FNRPH nasceu em 28 de Junho de 2009 - dia em que o golpe fascista, organizado pelos EUA e concretizado por fascistas locais derrubou o governo do Presidente legítimo, Manuel Zelaya, e impôs o governo do fascista Micheletti.
Recorde-se que, de então para cá, a FNRPH tem sido a grande organizadora da heróica resistência do povo hondurenho ao fascismo, que o mesmo é dizer da luta pela defesa da liberdade, de facto; pela defesa da democracia, de facto; pela defesa dos direitos humanos, de facto.

Uma luta que continua todos os dias e que todos os dias é reprimida pelos agentes locais do imperialismo norte-americano, para os quais, em matéria repressiva, o vale-tudo é lei.

«As violações dos direitos humanos, as perseguições e os assassinatos continuam na ordem do dia»:
Os «esquadrões da morte executam opositores e os seus familiares mais próximos de maneira selectiva. Os professores estão entre os mais castigados: só este ano foram assassinados dez docentes».
«Nos últimos seis meses, 16 camponeses foram assassinados por lutarem pelo direito à terra».

O Prémio agora justamente atribuído à FNRPH constitui um incentivo à luta do povo hondurenho e um estímulo à solidariedade internacional com essa luta.
É, por isso, um prémio que veio por bem - e para gente de bem.

POEMA

AMIGOS PENSADOS: BELARMINO


Tiveste jeito, como qualquer de nós,
e foste campeão, como qualquer de nós.

Que é a poesia mais que o boxe, não me dizes?
Também na poesia não se janta nada,
mas nem por isso somos infelizes.

Campeóes com jeito
é nossa vocação, nosso trejeito.

Esperam de 1 a 10 que a gente, oxalá, não se levante
- e a gente levanta-se, pois pudera, sempre.

Mas do miudame levámos cada soco!
Achas que foi pouco?

Belarmino:
quando ao tapete nos levar
a mofina,
tu ficarás sem murro,
eu ficarei sem rima,
pugilista e poeta, campeões sem jeito
a amadores da má vida.


Alexandre O'Neill

VAMOS A ISSO!

Finalmente, Passos Coelho fez alguma coisa de jeito: defendeu que os responsáveis pela situação dramática a que o País chegou devem ser julgados e condenados.
Muito bem!

Vamos, então, a isso!
Para o caso de haver dificuldade na selecção dos primeiros réus, sugiro que se comece pelos meliantes que chefiaram a maior parte dos governos nos últimos 34 anos:

Mário Soares
Freitas do Amaral
Pinto Balsemão
Mário Soares
Cavaco Silva
António Guterres
Mário Soares
Cavaco Silva
Durão Barroso
Santana Lopes
Mário Soares
Cavaco Silva
José Sócrates

(A repetição de dois dos nomes tem a ver com o facto de se tratar de malfeitores relapsos para os quais há que pedir, pelo menos, condenações perpétuas)

Naturalmente, a estes deverão seguir-se os julgamentos e condenações dos ministros destes; depois, dos secretários de Estado; e por aí fora, até nos vermos livres de toda a cambada.

POEMA

PRIMEIRO RETRATO DO NATURAL


Ela queria perceber o que se passa.
Queria?

Passa a rua às risadas.
«Uscumunistas?»

Gritam flores da jarra.
Estão inocentes?

O telefone terrinta.
É o destino?

Na bandeja de prata, o sedativo.
Por tomar?

Na sala das porcelanas, a senhora.
Por viver.

*

De sentinela à porcelana
está Inês ou Teresa ou Ana
(Maria, deixa-se ver).
Tem à mão uma bengala
para o que der e vier:
«Se os bolchevistas entrarem,
vão ver, vão ver!
As porcelanas inteiras
é que eles não hão-de ter!»

*

Porcelana implora
Senhora insiste.
Até que a levam prà cama,
pauzinho em riste, zangada.

É uma terrina vazia
que em sonhos se suicida
à bengalada.


Alexandre O'Neill

QUE FAZER COM ESTA NOTÌCIA?

De acordo com uma notícia que hoje me chegou, os trabalhadores portugueses vivem no melhor dos mundos.

Com efeito, diz a notícia que «nove em cada dez portugueses estão satisfeitos com o emprego que têm» - ou seja: 90% dos portugueses gostam do que fazem, têm as condições de trabalho que desejam, ganham o que desejam ganhar, enfim, não cabem em si de contentes...
Imaginem a satisfação em que vivem milhões de trabalhadores com emprego precário; com despedimento à vista; com salários em atraso; com salário mínimo ou menos do que isso!...

Digam lá: que fazer com esta notícia?...

POEMA

A TRAIÇÃO


quando do cavalo de tróia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse


Alexandre O'Neill

HÁ DIAS...

Passei um magnífico fim-de-tarde, princípio-de-noite na Casa do Alentejo.
Fui lá para assistir à evocação do 30º aniversário da publicação desse notável romance - um dos grandes romances da literatura portugesa - que é o Levantado do Chão, de José Saramago.

Foi assim: por volta das dezoito horas, terminou a leitura do romance - leitura integral, que durou muitas horas e na qual participaram centenas de admiradores da obra de Saramago.
Depois, o Manuel Gusmão - com o rigor e a profundidade do costume - falou do livro.
Seguiram-se dois grupos corais alentejanos - um feminino: Cantadeiras da Alma Alentejana; e um masculino: Os Amigos das Minas de S. Domingos.
Tinha que ser, sabido que é que o cante alentejano é como que o pano de fundo da história e da luta do povo do Alentejo - dessa história e dessa luta que são personagens principais do Levantado do Chão.

Depois, falou Pilar del Rio, a companheira de muitos anos de José Saramago.
Falou em castelhano mas fez distribuir pela assistência a tradução, em português, do texto que leu.
Falou do «Levantado do Chão, epopeia gigantesca de heróis não reconhecidos apesar de parecerem ter mais força que o sol que nos ilumina e serem, além do mais, a matéria de que todos somos feitos»...
Lembrou que, «Chico Buarque de Holanda, quando quis prestar homenagem aos camponeses sem terra que ocupavam herdades no Brasil (...) compôs um tema a que deu o título de Levantado do Chão, um coral que poderia ser entoado nos cinco continentes em todos os idiomas, bastando que houvesse voz para denunciar o abuso e vontade de erguer-se, de levantar-se, apesar da ideia, habilmente difundida, de que a insubmissão não vale a pena, já que vivemos no melhor dos mundos possíveis»...

Finalmente, falou Jerónimo de Sousa: do romance, de Saramago, do Prémio Nobel, da luta do povo alentejano ao longo dos tempos - desse povo levantado do chão que esteve sempre na primeira fila da luta contra o fascismo; que construiu a mais bela conquista da Revolução de Abril; que enfrentou heroicamente a ofensiva criminosa e destruidora contra a Reforma Agrária, ofensiva iniciada por Mário Soares e continuada por todos os cavacos que lhe sucederam.
E sublinhou que, se é verdade que a atribuição do Prémio Nobel a Saramago prestigiou o escritor, não é menos verdade que a Obra de Saramago prestigiou de igual maneira o Prémio - o que não é de somenos importância neste tempo de descredibilização do Nobel, por efeito de atribuições que outra coisa não são do que instrumentos da ofensiva ideológica anticomunista em curso...
E relembrou Saramago e a sua afirmação de que, para ganhar o Nobel não deixou de ser comunista...
E falou da luta, hoje - dia 6, dia 20, dia 24 - da sua importância, da sua necessidade, do seu papel decisivo e determinante para dar a volta a isto...

Enfim, tudo muito bonito, tudo a deixar toda a gente de papo cheio e com vontade de não sair dali.
Tudo a confirmar que há dias em que um homem deve mesmo sair de casa...


Acabada a sessão, saí da Casa do Alentejo e, ainda levantado chão, resolvi dar um passeio a pé, Restauradores fora, Avenida da Liberdade acima...
Eis senão quando, ali por alturas do Condes se me depara uma multidão de televisões (todas), rádios (todas) e jornais (muitos), tudo numa agitação frenética e febril...
Pensei que tinham chegado atrasados, isto é: que, vindo como lhes competia, enquanto órgãos de informação, fazer a cobertura de uma iniciativa em que se homenageava a Obra do único (até agora) Prémio Nobel da Literatura da Língua Portuguesa, por qualquer problema de trânsito, ou assim, só agora chegavam - e, por isso, nenhum deles tinha estado na Casa do Alentejo...
Enganei-me: de facto, não se atrasaram, chegaram bem a horas ao que iam: chegaram bem a horas para fazer (presumo que em directo integral) a cobertura da inauguração da sede de candidatura de Cavaco Silva...

Lembrei-me, então - e percebi melhor - a postura ética do candidato Cavaco sobre o pouco dinheiro que vai gastar na sua campanha...
Lembrei-me, ainda, de que o candidato Cavaco disse estar «apreensivo com a classe política» e que «não pode contribuir para o espectáculo público do cinismo»...
Lembrei-me, enfim, dos dez anos do Cavaco primeiro-ministro, do Cavaco cinco anos PR e do Cavaco que aí vem...

E pensei para mim que há dias em que um homem não deve sair... da Casa do Alentejo...

POEMA

A CAMA QUENTE


Homenagem aos mineiros do Chile
que dormem, singelo,
pelo sistema da «cama quente»


Na mina trabalha-se por turnos.
Quando se volta, nem se tiram os coturnos.

Bebido o café negro e trincado o casqueiro,
joga-se o corpo ao sono, mas primeiro,

enxota-se o camarada da cama ainda quente,
que não há camas, no Chile, pra toda a gente.

Do calor que sobrou o nosso se acrescenta
pra dar calor ao próximo que entra.

Vós, que dormis em camas, como reis,
tantas horas por dia, não sabeis

como é bom dormir ao calor de um irmão
que saiu ao nitrato ou ao carvão

e despertar ao abanão (é o contrato!)
de um que chega do carvão ou do nitrato!

É a este sistema, minha gente,
que se chama no Chile «a cama quente»...


Alexandre O'Neill

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

Duas notícias:

1 - «Quatro bancos privados (entre eles o BES) tiveram, no terceiro trimestre deste ano, lucros de 4, 1 milhões de euros por dia».
É a crise - que o primeiro-ministro não se cansa de dizer que « toca a todos».
E toca: só que de maneiras diferentes...

2 - Ricardo Salgado, presidente do BES, afirmou que «as medidas do Orçamento de Estado são duras, mas são para cumprir».
Se assim, lucra o que lucra, imagine-se o que será com as«medidas duras»!...


Crise, banca, lucros, mercados, união europeia, governo, ps, psd, cavaco, medidas duras, orçamento de estado... isto anda tudo ligado...

POEMA

TOMA TOMA TOMA





Ainda prefiro os bonecos de cachaporra,

contundentes, contundidos, esmocados,

com vozes de cana rachada e um toma toma toma

de quem não usa a moca para coçar os piolhos

mas para rachar as cabeças.



O padreca, o diabo, a criadita,

o tarata, a velha alcoviteira, o galã

e, às vezes, um verdadeiro rato branco trapezista,

tramavam para nós a estafada estória

da nossa própria vida.



Mundo de pasta e de trapo

que armava barraca em qualquer canto

e sem contemplações pela moral de classe

nem as subtilezas de quem fica ileso

desancava os maus e beijocava os bons.



Ainda prefiro os bonecos de cachaporra.



Ainda hoje esbracejo e me esganiço como esses

matraquilhos da comédia humana.





Alexandre O'Neill

PRONTO, ELE LÁ SABE...

Há dias, o candidato do PS/BE às presidenciais pronunciou-se sobre o Orçamento de Estado.
Disse que sim, que acha que, pesados todos os prós e todos os contras, o melhor é o OE ser aprovado - significando isto, penso eu, que dá aos prós - ou seja: às benesses prodigalizadas ao grande capital - um peso um nadinha maior do que dá aos contras - ou seja: às malfeitorias causadas aos trabalhadores.
Pronto, ele lá sabe...

Ontem, o candidato de BE/PS fez saber que «não declara apoio à greve geral».
Porquê?: porque, explicou, «não toma atitudes populistas»...
Pronto, ele lá sabe...

Mas atenção!, muita atenção!: o candidato do PS/BE «deixou um aviso»!
«Um aviso» a quem?: ao Governo, pois claro! - porque a ele ninguém o cala!
Trata-se de «um aviso» sério e grave, de uma intimação sem apelo, seca, peremptória, imperativa: «os sindicatos têm que ser ouvidos» - ouviram?, os sindicatos têm que ser ouvidos, senão...
Finalmente, num gesto largo, aberto, generoso, verdadeiramente de esquerda, proclamou que «a greve é legítima».
Pronto, ele lá sabe.

Consta que, dentro de dias, o candidato do BE/PS irá pronunciar-se sobre a Cimeira da Nato...
Quanto ao que irá dizer sobre o assunto, sabe-se apenas que: pronto, ele lá sabe...

POEMA

POIS


O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca perpenetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.


Alexandre O'Neill

LUTAR, LUTAR SEMPRE

Dilma Rousseff foi a vencedora!
Na situação concreta, foi o melhor que podia acontecer.
No entanto, permanece a pergunta: quando será o povo brasileiro o vencedor?
Proponho uma resposta: quando, através da luta, se afirmar dono e senhor do seu destino.

José Serra foi vencido!
Ainda bem!
O Papa Bento XVI também!
Ainda bem!
São derrotas que dão mais força à luta dos trabalhadores e do povo - à luta que tem que continuar.
Lá como cá.


Por cá, outra «sondagem» da Católica... a confirmar os efeitos devastadores da ofensiva ideológica difundida pelos média dominantes, prègando todos os dias a «inevitabilidade» da política de direita...
Diz a «sondagem», entre muitas outras coisas, que «os portugueses estão resignados com a austeridade» - é «inevitável»...; e com «o aumento dos impostos» - é «inevitável»...; e com o «Orçamento de Estado»- é «inevitável»...
E acham que «os sacrifícios não têm sido devidamente explicados»...

Dia 6, com a manifestação da Administração Pública;
Dia 20, com a manifestação «Paz, sim; Nato, não»;
Dia 24, com a Greve Geral,
os portugueses desmentirão a «sondagem» - e, como ontem afirmou Francisco Lopes, candidato do PCP às presidenciais, afirmarão na rua o seu desacordo com a política de direita e exigirão uma nova política, rumo a um Portugal melhor e mais justo.

Porque o que é INEVITÁVEL é a luta.
E lutar, lutar sempre é o caminho.

POEMA

«NINGUÉM SE MEXA! MÃOS AO AR!»


«Ninguém se mexa! Mãos ao ar!», disse o histérico
e frívolo homenzinho com mais medo
da arma que empunhava que de nós.
«Mãos ao ar!», repetiu para convencer-se.

Mas ningém se mexeu, como ele queria...
Deu-lhe então a maldade. Quase à toa,
escaqueirou o espelho biselado
que tinha as Boas Festas da gerência

escritas a sabão. Todos baixámos,
medrosos, a cabeça. Se era um louco,
melhor deixá-lo. (O barman escondera-se
por detrás do balcão). Ali estivemos

um ror de medo, até que o rabioso
virou a arma à boca e disparou.


Alexandre O'Neill