POEMA

SE...


Se é possível conservar a juventude
respitando abraçado a um marco do correio;
Se a dentadura postiça se voltou contra a pobre senhora
e a mordeu deixando-a em estado grave;
Se ao descer do avião a Duquesa do Quente
pôs marfim a sorrir;
Se Baú-Cheio tem acções nas minas de esterco;
Se na América um jovem de cem anos
veio de longe ver o Presidente
a cavalo na mãe;
Se um bode recebe o próprio peso em aspirina
e a oferece aos hospitais do seu país;
Se o engenheiro sempre não era engenheiro
e a rapariga ficou com uma engenhoca nos braços;
Se, reentrante, protuberante, perturbante,
Lola domina ainda os portugueses;
Se o Jorge (o «ponto do Jorge!) tentou beber naquela noite
o presunto de Chaves por uma palhinha
e o Eduardo não lhe ficou atrás
ao sair com a lagosta pela trela;
Se «ninguém me ama porque tenho mau hálito
e reviro os olhos como uma parva»;
Se a Mimi Travessuras já não vem a Lisboa
cantar com o Alberto...

... Acaso o nosso destino, tac!, vai mudar?


Alexandre O'Neill

A MATANÇA VAI CONTINUAR

O site de Julian Assange - Wikileaks - divulgou mais 390 mil relatórios secretos sobre a Guerra do Iraque.

Os relatórios mostram que, de Janeiro de 2004 a Dezembro de 2009, foram mortas naquele país 109 mil pessoas, das quais 66 mil eram civis, regra geral assassinados em «postos de controlo» ou por efeito de ataques de helicópteros.

Os documentos agora divulgados revelam igualmente inúmeros casos de presos torturados por militares norte-americanos e iraquianos.



Justificando a divulgação dos relatórios, Julian Assange afirmou: «Queremos corrigir centenas de ataques contra a verdade que sucederam antes, durante e depois da guerra».

Sobre o conteúdo dos documentos, disse John Sloboda (da Ong Body Count): «Cada relatório conta uma história que era até agora desconhecida, e é uma história, quase sempre, de sofrimento humano e de morte».



Do lado dos assassinos, as reacções foram as esperadas.

A secretária de Estado Hillary Clinton avisou: «Condenamos a divulgação de quaisquer documentos que coloquem em perigo a vida quer dos norte-americanos quer dos aliados» - ou seja: se as vidas forem de iraquianos, de preferência civis inocentes, não há problema, é matar à vontade...

Por seu turno, o porta-voz do Pentágono, Geoff Morret, categórico, esclareceu: «Observámos cada página dos dicumentos e não há nada que possa indiciar a existência de crimes de guerra. Se fosse o caso, já teríamos actuado» - afirmação que ele podia ter feito antes mesmo de ler os documentos... e que confirma que o Governo dos EUA conhece melhor do que ninguém a situação... Conhece, até, aqueles millhares de casos que nem sequer vêm nos relatórios...



Quer tudo isto dizer que, como já era sabido, o Governo dos EUA vai prosseguir a matança.

Uma matança legal - mais do que legal, sagrada - na medida em que os governantes daquele país gozam da especialíssima condição de serem portadores de um «mandato divino», que lhes permite fazer o que quiserem quando, onde e como quiserem... sempre que os superiores e sagrados interesses dos States forem minimamente postos em causa.

E sempre em nome dos sacrossantos «direitos humanos» - que são a pedra de toque da democracia norte-americana e para defender os quais o exército dos EUA bombardeia, invade, destrói, esmaga, ocupa, prende, tortura, mata... viola e espezinha brutalmente os direitos de milhões de seres humanos no mundo.

POEMA

AO ROSTO VULGAR DOS DIAS


Monstros e homens lado a lado,
não à margem, mas na própria vida.

Absurdos monstros que circulam
quase honestamente.

Homens atormentados, divididos, fracos.
Homens fortes, unidos, temperados.


*

Ao rosto vulgar dos dias,
à vida cada vez mais corrente,
as imagens regressam já experimentadas,
quotidianas, razoáveis, surpreendentes.


*

Imaginar, primeiro, é ver.
Imaginar é conhecer, portanto agir.



Alexandre O'Neill

TODOS OS DIAS

O caso conta-se em poucas palavras:
cinco membros da JCP, quatro raparigas e um rapaz, foram detidos pela PSP quando procediam à pintura de um mural na Rotunda das Olaias, em Lisboa; levados para a esquadra, foram insultados, ameaçados e... obrigados a despir-se.
Repito: obrigados a despir-se.

Estamos perante uma situação que espelha luminarmente os danos causados por 34 anos de política de direita aos direitos, liberdades e garantias dos cidadãos - uma situação que mostra quão longe estamos do 25 de Abril libertador e quão perto estamos do passado que «em Abril, Abril venceu»...

E não se trata apenas de uma prática policial de desprezo pela lei, para o caso a Lei 97/88, que não só legitima a pintura de murais em locais públicos como condena o seu impedimento.
Trata-se, acima de tudo, de um comportamento policial nojento, ascoroso, abjecto, com contornos de doentia perversão.
Os que obrigaram os cinco jovens a despir-se, fizeram-no provavelmente inspirados nas práticas actualmente em voga nas prisões dos EUA no Iraque, em Guantánamo... práticas que, aliás, eram de uso corrente nas salas de interrogatório da sede da PIDE, especialmente em relação a mulheres comunistas que caíam nas garras da tenebrosa polícia política do fascismo.
A confirmar que isto anda tudo ligado...

E é contra tudo isto que lutamos todos os dias. E é contra tudo isto que a luta tem que continuar todos os dias.
Até que o nosso grito «25 de Abril sempre, fascismo nunca mais» deixe de ser necessário e seja apenas a memória de uma luta que vencemos.
Até ao triunfo definitivo de Abril, dos seus valores e dos seus ideais de liberdade e justiça social.

POEMA

POESIA E PROPAGANDA


Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...


Alexandre O'Neill

O MEU APELO

Eu aplaudo a atribuição do Prémio Sakharov ao cubano Fariñas.
Pelo prémio, pelo premiado e, já agora, também pelos que tomaram a decisão.
Com efeito, Sakharov foi o que foi; Fariñas é o que é; e o Parlamento Europeu também - todos constituindo uma ínclita tríade cuja meritória acção na defesa dos direitos humanos é reconhecida muito para além da zona de intervenção do Parlamento Europeu, ou seja, em todo o mundo, dos EUA a Israel, passando pela Colômbia, pela Arábia Saudita, etc, etc, etc.

Portanto, e por tudo isso, só posso aplaudir.
E discordo aberta e frontalmente dos que defendem a ideia de que o Prémio Sakharov deveria ter sido atribuído , por exemplo, aos cinco cubanos presos há doze nos EUA.
Nem pensar nisso!, era o que faltava! - e ainda bem que o PE pensa como eu.

Se alguma crítica há a fazer à escolha deste ano - e há, como sempre acontece nestas coisas de premiar defensores dos direitos humanos, que são tantos, tantos, tantos... - ela tem a ver com o facto de haver quem mereça, tanto ou mais do que Fariñas, a justiça do Sakharov e, não obstante, continuar à espera, á espera, à espera...

Mas não sejamos impacientes, tanto mais que Cuba não se pode queixar do PE: primeiro foi o Sardiñas, depois as Damas de Branco, agora o Fariñas... Nada mau.

Esperemos, então, pelo próximo ano.
E estou em crer - e assim o desejo ardentemente - que o Sakharov/2011, uma vez mais virado para Cuba, será atribuído a quem, mais do que ninguém, deu provas de notável «determinação e coragem» na defesa dos direitos humanos que o Prémio Sakharov tanto preza.
Refiro-me, obviamente, ao cubano Posada Carrilles, que teve o alto mérito de, entre vários outros actos de democrática bravura, ter derrubado, com uma bomba, um avião de passageiros que transportava 73 compatriotas seus.

É esse o meu apelo a quem, lá no PE, toma as sakharovianas decisões.
E se, para mais informações, tiverem necessidade de contactar o futuro laureado, não há nada que enganar: dirijam-se à CIA que é quem sabe tudo sobre todos: o Carrilles, o Sardiñas, as Damas de Branco, o Fariñas - e o Sakharov, é claro.

POEMA

AMIGO


Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão.

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill

(CAI O PANO)

A espectacular representação montada em torno do sentido do voto do PSD em relação ao OE, chegou ao fim: hoje, a dúvida está em saber se o PSD aprovará o OE votando a favor ou abstendo-se...

No entanto, durante algum tempo houve quem pensasse (ou fingisse pensar...) que o partido de Passos Coelho iria chumbar o Orçamento - e quem assim pensava (ou fingia pensar...) manifestava pungentes preocupações com tal eventualidade.
Assim, de todos os quadrantes políticos ligados à política de direita - desde Mário Soares à Banca - choveram os apelos à «inteligência», ao «bom senso» e ao «sentido de responsabilidade» do líder laranja.
E há que reconhecer que o líder mostrou-se possuidor de «inteligência» qb; de um elevado «bom senso»; e de um subido «sentido de responsabilidade» - qualidades às quais acrescentou um patriótico respeito pelo «interesse nacional»...

É claro que a representação de farsas deste tipo está sempre - como não podia deixar de ser - povoada de curiosidades, de ocorrências pitorescas, de casos, enfim...- casos que, por vezes, são por demais elucidativos...
É o caso relatado pelo Correio da Manhã de hoje e que, a ser verdadeiro, mais parece uma farsa dentro da farsa...

Em três actos:

1º acto: nesses dias tormentosos em que o «voto contra» do PSD se apresentava como certo, Francisco Louçã, dirigiu-se a deputados do PSD, «nos corredores do Parlamento», e - presumo que com ansiedade na voz e nos gestos - perguntou-lhes se era «mesmo verdade» que o PSD ia votar contra o OE;
2º acto - os deputados inquiridos - presumo que em coro festivo - responderam que sim;
3º acto - o líder do BE - presumo que em pânico - gritou-lhes: «Vocês estão loucos, ou quê?»
(Cai o pano)

POEMA

AUTOBIOGRAFIA


Nasci em 1902
não voltei mais à minha cidade natal
não gosto de regressos.
Com a idade de três anos, em Alep fiz profissão de neto de paxá,
com dezanove anos, de estudante na universidade comunista de Moscovo,
com quarenta e nove anos em Moscovo
de convidado do Comité Central,
e desde os catorze anos que exerço a profissão de poeta...
Há pessoas que conhecem todas as espécies de ervas,
outras as de peixes,
eu as das separações.
Há pessoas
que podem citar de cor
os nomes das estrelas,
eu os das nostalgias.

Dormi em prisões e também em grande hotéis.
Conheci a fome e também a greve da fome
e não existe manjar que eu não tenha provado.
Aos trinta anos quiseram enforcar-me.
Aos quarenta e oito anos quseram dar-me o Prémio mundial da PAZ
e deram-mo.
No ano em que fiz trinta e seis anos percorri durante seis meses
quatro metros quadrados de betão.
Aos cinquenta e nove anos voei de Praga até Havana em dezoito horas.
Nunca vi Lenine mas montei guarda junto do seu catafalco em 1924.
Em 1961 o mausoléu que visito são os livros.
Tentaram separar-me do meu Partido
não conseguiram.
Não fiquei esmagado sob os ídolos caídos
em 1951 no mar em companhia de um camarada
caminhei para a morte.
Em 1912, com o coração destroçado, esperei a morte
durante quatro meses deitado de costas.
Tive um ciúme louco das mulheres que amei.
Nem Charlot eu invejei.
Enganei as minhas mulheres
mas nunca murmurei nas costas dos meus amigos.

Bebi sem me tornar um bêbado,
por felicidade, sempre ganhei o pão com o suor do meu rosto.
Se menti foi por ter sentido vergonha por outrem,
menti para não prejudicar terceiros,
mas também menti sem razão.

Tomei o comboio, o avião, o automóvel,
a maior parte das pessoas não pode tomá-los.
Fui à Ópera
a maior parte das pessoas não pode lá ir e até ignora o nome.
Mas onde vai a maior parte das pessoas, desde 1921 que lá não vou:
à mesquita, à igreja, à sinagoga, ao templo, ao feiticeiro,
mas li algumas vezes nas borras do café.

Estou traduzido em trinta ou quarenta línguas
mas na Turquia estou proibido na minha própria língua.

Não tive cancro até à presente data,
também não era obrigatório.
Não serei primeiro-ministro et
cétera
nem tenho prazer nenhum nesse tipo de trabalho.
Também não estive na guerra
não corri noite cerrada para dentro dos abrigos
nem me vi
pelos caminhos
sob aviões a descerem a pique
mas quase aos sessenta anos enamorei-me.

Para ser breve, camaradas,
hoje aqui em Berlim, embora morrendo de tristeza,
posso dizer que vivi como um homem
mas o tempo que me resta para viver
e aquilo que pode acontecer-me
quem sabe?


Nâzim Hikmet


(Com esta «Autobiografia» termina o ciclo de poemas do grande poeta turco. Amanhã iniciaremos a publicação de uma série de poemas de Alexandre O'Neill)

E SE OS MANDÁSSEMOS TODOS À MISSA?

Quando da sua visita a Portugal, o Papa deu missas várias - todas com grande aparato e suportadas por sofisticados meios técnicos.
Missas caras, portanto.

Uma delas ocorreu no Terreiro do Paço, e sobre quem pagaria os custos da liturgia tudo foi esclarecido por quem de direito.

Na altura, a Igreja fez questão de esclarecer que, para a missa do Terreiro do Paço, «não ia pedir dinheiro à autarquia»: «a missa vai ficar a custo zero, graças aos donativos».

Na altura, o cardeal patriarca fez questão de esclarecer que «não iria pedir dinheiro à Câmara Municipal de Lisboa», porque «as cerimónias litúrgicas não devem ser financiadas pelo poder autárquico ou político» - e, bíblico, citou: «A César o que é de César, a Deus o que é de Deus».

Na altura, o presidente da Câmara de Lisboa fez questão de esclarecer que «não há dinheiros públicos envolvidos na missa do Terreiro do Paço».

Hoje soube-se que, ao contrário do que na altura foi esclarecido, a Câmara Municipal de Lisboa gastou pelo menos 228 mil euros com a dita missa.

E se os mandássemos todos à missa?...


POEMA

MEUS IRMÃOS...


Meus irmãos
É preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
É preciso que este se enterre até aos joelhos
na vaza dos arrozais
É preciso que eles façam todas as perguntas
É preciso que recolham toda a luz
É preciso que os nossos poemas como marcos milenários
balizem as estradas
É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
É preciso que batam tambores na selva

E enquanto na terra houver um único país ou um único homem escravo
E enquanto no céu restar nem que seja uma única nuvem atómica
É preciso que os nossos poemas dêem tudo por tudo,
corpo e alma,
para a grande liberdade.


Nâzim Hikmet

Seja isto dito assim


"Seja isto dito assim, sem orgulho nem humildade, por não poder imaginar o homem reduzido à lama complacente dos próprios excrementos: para amar queria a terra toda, para morrer bastam-me os flancos do silêncio."

Eugénio de Andrade in memória doutro rio
Foto: Barragem de Odivelas, Setembro '10

DEPOIS DE 24, A LUTA CONTINUA

Ainda a propósito das lutas dos trabalhadores, vale a pena abordar uma outra questão actualmente muito em voga em certos blogues e caixas de comentários.
Trata-se das comparações aí feitas entre as lutas levadas a cabo pelos trabalhadores de alguns países da Europa (França, Grécia, etc.) e as lutas que os trabalhadores portugueses têm vindo a desenvolver - comparações que, diz quem as faz, são extremamente desfavoráveis para os trabalhadores portugueses...

Dizem essas vozes que (nesses países) é que se luta, lá é que as lutas têm a dimensão e o conteúdo revolucionário que se exige, lá é que o capitalismo treme... - enquanto que em Portugal é uma tristeza... só agora é que se avança para a primeira greve geral e mesmo assim uma greve desprovida de conteúdo anticapitalistas, conciliadora, etc, etc.

Segundo as ditas vozes, as culpas de todas estas carências revolucionárias, destes desvios oportunistas, desta conciliação com o inimigo capitalista, etc, etc, radicam na postura oportunista e revisionista do PCP e da CGTP.

Nada disto é novidade.
Aliás, como a experiência nos mostra, este paleio surge por vagas regra geral coincidentes com períodos de ascenso da luta de massas: ouvimo-lo nos anos sessenta, quando as massas trabalhadoras intensificavam a sua luta rumo à vitória; ouvimo-lo durante o processo revolucionário de Abril, quando o movimento operário e popular avançava impetuosamente para as grandes conquistas transformadoras que marcaram esse período; ouvimo-lo agora, quando por toda a Europa - Portugal incluído - o movimento de massas cresce e avança.
E é claro que - sempre e na situação actual de forma bem evidente - este paleio cíclico tem como alvo prioritário as forças que, nos planos político e social, constituem a incontestável vanguarda da luta das massas contra a política de direita: o PCP e a CGTP.

Menorizando e desvalorizando a luta dos trabalhadores portugueses, essas vozes estão, de facto, a insultar milhares e milhares de trabalhadores que, com uma coragem e uma consciência notáveis, têm dado um combate sem tréguas à política de direita -para além de não se coibiram de evidenciar uma gritante carência de rigor (para não dizer outra coisa...) na avaliação dessa luta.

É um facto que, nas últimas três décadas, a luta dos trabalhadores portugueses assumiu uma força, uma dimensão e um conteúdo singulares em toda a Europa.
Porque os trabalhadores portugueses são «especialíssimos»?
Não: porque, como sempre acontece, a força, a dimensão e o conteúdo da luta de massas depende das condições concretas - objectivas e subjectivas - existentes em cada momento.

Ora, nas últimas três décadas, Portugal foi o único país da Europa onde se fez uma Revolução - Revolução que liquidou o capitalismo monopolista e o latifúndio; que teve como preocupação primeira e essencial o respeito pelos direitos e interesses dos trabalhadores; que restituiu a Portugal a soberania e a independência; que iniciou a construção de uma democracia económica, social, política e cultural, amplamente participada: uma democracia avançada, rumo ao socialismo - e que consagrou todas essas conquistas naquele que é um dos mais belos textos em língua portuguesa: a Constituição da República aprovada em 2 de Abril de 1976.
Assim tendo sido, é natural que nesse processo revolucionário e nesse período tenham occorido as mais fortes e participadas lutas de todo o continente europeu - lutas revolucionárias erguidas pelo poderoso movimento operário e popular, tendo à frente, naturalmente, o PCP e a CGTP.

Depois, veio a contra-revolução... que os trabalhadores portugueses enfrentaram com uma coragem e uma determinação notáveis.
E mais uma vez a luta em Portugal se situou nos níveis mais elevados da luta de massas em toda a Europa.
Recorde-se - só um exemplo - a luta dos trabalhadores da Reforma Agrária em defesa daquela que foi «a mais bela conquista da Revolução»: foram 14 anos de resistência heróica fazendo frente à repressão, às prisões, aos espancamentos, aos julgamentos sumários, aos assassinatos, à brutalidade e à violência praticadas às ordens dos soares, dos barretos, dos cavacos, de toda a corja contra-revolucionária - uma luta que ficará como referência marcante na história da luta dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo.

São, enfim, 34 anos de luta - de uma luta singular em toda a Europa, travada com o duplo objectivo de defender a Revolução e de procurar a satisfação de reivindicações e interesses mais imediatos.
Uma luta que, por isso mesmo, teve e tem como alvo a política de direita e o sistema capitalista que ela integra.
Uma luta que se tem traduzido, ao longo de todos estes anos, na concretização de poderosas movimentações de massas.
Uma luta que, nos últimos meses, tem vindo a crescer e a atrair novos segmentos das massas trabalhadoras, com significativas greves e paralisações, com jornadas de luta memoráveis, com gigantescas manifestações de massas.
Uma luta que, com a Greve Geral de 24 de Novembro, atinge um novo e superior patamar .
Que não é a luta final - mas que nos vai permitir tirar a mais importante de todas as conclusões: depois de 24, a luta continua.

Face a tudo isto, parece-me um pouco estranho (para não dizer outra coisa...) o que as tais vozes vêm repetindo sobre uma suposta posição recuada dos trabalhadores portugueses comparativamente com os seus camaradas de luta de outros países europeus.
Será que não vêem mesmo?
Será que não querem ver?
Ou será que...?

POEMA

O GLOBO


Ofereçamos o globo às crianças, ao menos por um dia.
Para que brinquem com ele como se fosse um balão multicolor,
para que brinquem e cantem por entre as estrelas.
Ofereçamos o globo às crianças,
entreguemo-lo como uma maçã enorme,
como uma bola de pão quente.
Que ao menos por um dia comam até se fartarem.
Ofereçamos o globo às crianças,
Que ao menos por um dia o mundo aprenda a camaradagem.
As crianças tomarão o globo das nossas mãos
e plantarão nele árvores imortais.


Nâzim Hikmet

LUTAR, LUTAR SEMPRE

Na madrugada de 18 de Outubro de 1936 - faz hoje 74 anos - o navio Luanda saíu do porto de Lisboa rumo ao Tarrafal.
Levava no porão 150 resistentes antifascistas, em grande parte operários e marinheiros: os primeiros, tinham participado na greve insurreccional da Marinha Grande, em 18 de Janeiro de 1934, contra a fascização dos sindicatos; os segundos, eram protagonistas da Revolta dos Marinheiros, ocorrida em 8 de Setembro de 1936.
No dia 29 de Outubro, o Luanda terminaria a sua tarefa: os 150 presos inauguravam o Campo de Concentração do Tarrafal.

Pelo Campo da Morte Lenta passaram 340 resistentes antifascistas portugueses, somando um total de dois mil anos, onze meses e cinco dias de prisão.
32 foram ali assassinados, entre eles o secretário-geral do PCP, Bento Gonçalves.

A Revolta da Marinha Grande e a Revolta dos Marinheiros, porventura as duas mais importantes lutas travadas em Portugal na década de 30 - quando Salazar, metódica, sistemática e friamente, levava a cabo, com êxito, o processo de fascização do Estado - saldaram-se, ambas, por derrotas com pesadas consequências para os seus protagonistas.
Contudo, ambas foram sementes lançadas à terra da luta libertadora - sementes que viriam a dar flor e fruto no 25 de Abril de 1974 e na Revolução que se lhe seguiu.
A confirmar que a luta dos trabalhadores, mesmo quando, de imediato, se traduz numa derrota, nunca é inútil e vale sempre a pena.
Sempre.

Hoje, mais de setenta anos passados - e num momento em que os trabalhadores portugueses preparam intensa e activamente uma Greve Geral de resposta à política de direita ao serviço do grande capital, é particularmente importante reter esse ensinamento - tanto mais quanto, como sabemos, os ideólogos do capitalismo levam por diante uma poderosa ofensiva ideológica que tem entre as suas linhas fundamentais a pregação da inutilidade da luta.
Sempre como velho objectivo de enfraquecer, e se possível liquidar, a luta das massas trabalhadoras.

E não é por acaso que os seguidores dessa ideia proliferam nos média dominantes - e em blogues e caixas de comentários... - nuns casos mostrando o que são, noutros casos ostentando garridas vestes de «esquerda» e, nessa qualidade, colocando a fasquia dos objectivos da luta em níveis claramente inatingíveis no momento e, simultaneamente, decretando que a luta só conta e só vale a pena se for vitoriosa..., fingindo que não sabem que se os trabalhadores só avançassem para uma luta quando tivessem a certeza prévia de que iriam vencer de imediato, nunca lutariam... para tranquilidade do capitalismo explorador.

Essa ideia da inutilidade da luta constitui, assim, uma das linhas mais perigosas da ofensiva ideológica em curso e visa empurrar os trabalhadores para o conformismo, para o «não vale a pena», para a aceitação da exploração capitalista como uma «inevitabilidade»...

De facto, o que o grande capital aplaude, nos trabalhadores, é ou a passividade e o amorfismo, por vezes através do medo: ou a impaciência geradora de desesperos, de capitulações e aventuras que fragilizem a unidade dos trabalhadores ou conduzem a luta para becos sem saída - enfim, todas aquelas situações que vicejam onde houver uma frágil consciência política, ideológica e de classe.

E o que o grande capital teme, nos trabalhadores, é a determinação, a confiança, a convicção, a perseverança, a perspectiva revolucionária - enfim, todas aquelas armas que são consequência de uma firme consciência política, ideológica e de classe.

E a verdade é que - como a vida nos mostra desde, pelo menos, a Revolta de Spártacus... - quem luta, nem sempre ganha, mas quem não luta, perde sempre.

POEMA

A ESPANHA


Entre nós, uns atingem os sessenta;
outros vão um pouco mais longe,
outros há que são apenas uma mancheia de ossos.

A Espanha, nossa juventude,
a Espanha é uma rosa ensanguentada que desabrochou em nossos peitos.
A Espanha, nossa amizade na penumbra da morte,
a Espanha, nossa amizade à luz da nossa esperança invencível.
E as velhas oliveiras, com talhos, e a terra amarela e a terra vermelha esburacadas.
Entre nós, uns atingem os sessenta;
outros vão um pouco mais além,
outros há muito que são apenas uma mancheia de ossos.

Madrid caiu em 39:
quantas coisas, boas ou amargas, aconteceram aos homens de então!
A Espanha caiu em 39.
Em 62 vem-nos das minas das Astúrias a sua voz colérica e fraterna,
vem-nos do fundo da nossa esperança invencível, de Bilbao.
A Espanha era a nossa juventude,
a Espanha é a vossa juventude.
A Espanha é na palma da mão a linha da vida de todos nós.


Nâzim Hikmet

CHIÇA!

Foi Deus, certamente - só pode ter sido... - que conferiu a Cavaco Silva todos aqueles atributos que exibe sempre que abre a boca.
Cavaco é inculto, pretensioso, ignorante, petulante... - atributos que, aliados ao facto de se julgar um génio, fazem dele um ser tristemente ridículo.

É claro que pior - muito pior - do que isso é que Cavaco é um dos mais implacáveis executantes da política de direita: em dez anos de primeiro-ministro devastou o País e os cinco anos de PR passou-os a contemplar a devastação que fez e a incitar os governos que sucederam aos seus a prosseguir a devastação - com êxito, reconheça-se.

Sempre que fala, Cavaco desnuda-se.
Ontem, Cavaco falou.

Disse que «o país precisa de um orçamento»; que isso exige consensos partidários e que a negociação PS/PSD «se desenvolve com bons resultados».
Ele lá sabe...

Sobre si próprio, Cavaco informou estar « a fazer tudo aquilo que deve ser feito por um PR que conhece bem a situação, que tem bom senso e que é ponderado».
Ele o diz: qualidades não lhe faltam...

Mas como se tudo isso não bastasse, Cavaco - com aquele ar enfático e naquele jeito pernóstico que são sua imagem de marca - acrescentou que, em caso de crise grave, «o PR é a última reserva do país».
A última?
Chiça!

POEMA

OS CANTOS DOS HOMENS


Os cantos dos homens são mais belos que os homens,
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.

Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser infiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei;
nunca também os cantos me enganaram.

Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.

Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer,
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude compreender,
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...


Nâzim Hukmet

VIVA A GREVE GERAL!

A proposta de Orçamento de Estado chegou tarde e incompleta.
Mas chegou, essencialmente, a más horas para a imensa maioria dos portugueses, ou seja para os que trabalham e vivem do seu trabalho; para os que já trabalharam e deveriam ter, mas não têm, pensões e reformas dignas; para os jovens que querem começar a trabalhar e só vêem à sua frente espessos muros e pesadas portas fechadas.


Entretanto, uma sondagem encomendada pela SIC, Expresso e Rádio Renascença (olha que três!...), informa que a maioria dos portugueses apoia o OE... isto porque essa maioria considera que «as medidas de austeridade são inevitáveis»...
Integrando essa «maioria» estão, naturalmente, os habituais «especialistas», «comentadores» e «analistas», cuja tarefa principal, nos últimos tempos, tem sido precisamente a de espalhar a ideia de que «as medidas de austeridade são inevitáveis» - repetindo-a tantas vezes quantas as necessárias para ela passar de opinião publicada a opinião pública...

São várias as razões que levam os apoiantes do OE a dizer que sim ao dito.
Assim:
Há os que dizem que sim e explicam porquê:
«As reduções salariais vão contagiar o sector privado e melhorar a competitividade externa do país», proclama o editorial do Público (pudera!...).

Há os que dizem que sim, por «realismo»:
«A proposta de Orçamento do Governo é dura mas realista» (Paulo Pinto de Albuquerque).

Há os que dizem que sim, por hábito que vem de longe:
«Adriano Moreira apela ao «consenso partidário» a bem do «interesse nacional».

Há os que dizem que sim porque... sim:
«O candidato presidencial Fernando Nobre, considera o OE um brutal ataque aos mais necessitados», mas... «apela ao consenso» para que ele seja aprovado.
«Carlos Brito, antigo dirigente do PCP, diz discordar das medidas avançadas», mas... «deseja que o OE passe na Assembleia da República».

Tudo isto a confirmar... o que já sabíamos: para derrotar a política de direita e os seus OE's não há outro caminho que não seja o da luta de massas.
Uma luta que tem que ser cada vez mais participada e mais forte.
Uma luta à altura das gigantescas batalhas travadas pelos trabalhadores portugueses nas últimas décadas - sem dúvida as maiores e as mais fortes travadas em toda a Europa.

Por isso: VIVA A GREVE GERAL!

POEMA

O MORTO NA PRAÇA DE BEYAZIT


Um morto está deitado,
um jovem de dezoito anos,
ao sol dos dias,
à noite com as estrelas,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado:
segura numa mão o seu livro de estudo,
na outra o sonho interrompido antes de ter começado
em Abril no ano de mil novecentos e sessenta,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado.
Foi abatido,
e a ferida da bala
abre-se-lhe na fronte como um cravo vermelho,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto continuará deitado,
o sangue a cair na terra, gota a gota,
até ao dia em que o meu povo em armas
com cantos de liberdade
vier tomar de assalto a praça grande.


Nâzim Hikmet

ATÉ AS ROSAS, SENHOR?...

A propósito do Orçamento de Estado, pode ler-se na primeira página do Diário de Notícias de hoje:
«IRS triplica nos escalões mais baixos».
Outra coisa não seria de esperar: trata-se do OE da política de direita e esta, como sabemos há longos 34 anos, é tão implacável a flagelar a maioria dos portugueses - os que trabalham e vivem do seu trabalho -como é generosa a beneficiar a minoria - os que vivem à custa de quem trabalha.

Mais adiante, diz-nos o DN que «subida do IVA vai pesar na carteira», ou seja, que «a factura do supermercado vai engordar a partir de Janeiro, com o IVA de vários bens alimentares hoje com a taxa reduzida a saltar para 23%», ou seja, que tudo, tudo vai aumentar (excepção feita aos salários, pensões, reformas,etc...)
Pelas razões acima aduzidas, outra coisa não seria de esperar.

O que eu não esperava, confesso, é que entre os muitos produtos cujos preços o OE vai fazer saltar, estivesse incluído o símbolo do partido do governo responsável pela tragédia que é este OE: a rosa.
Mas é verdade: a partir de agora, «uma dúzia de rosas na florista Romeira» passa de 40 para 43,54 euros...

Que tudo, tudo aumente, vá lá, mas... até as rosas, senhor?...

POEMA

QUADRA


Como sementes deitadas à terra espalhei os meus mortos.
Alguns repousam em Odessa, alguns em Istambul, outros ainda em Praga.
O país que eu prefiro é toda a terra.
Quando chegar a minha hora, cubram-me com a terra inteira.


Nâzim Hikmet

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

Estava escrito que assim seria e assim foi: mal a CGTP anunciou a convocação da Greve Geral, os analistas de serviço pagos à peça passaram ao ataque.
Sindicatos e sindicalistas começaram desde logo a ser objecto de sucessivas rajadas de ódio de classe - e de então para cá, não passou um dia sem que um (às vezes mais do que um) desses propagandistas da ideologia dominante exibisse as suas credenciais...

Logo a seguir, entraram em cena os bonzos - tipo Mário Soares e outros escalrachos semelhantes - a dizer por palavras suas o mesmo que os analistas de serviço disseram por palavras deles...

Seguiram-se as chamadas «cartas do leitor» - e é raro o dia em que não aparece um «leitor» (às vezes mais do que um) a repetir o que os analistas de serviço e os bonzos debitaram.

E assim continuará a ser até ao dia 24 de Novembro.
Depois, a partir do dia 25, mudam o disco... e tocam o mesmo: a Greve Geral foi um fracasso, porque não pararam todos, mas mesmo todos, todos, os trabalhadores...

Hoje foi a vez (outra vez...) de um escriba com lugar cativo na Correio da Manhã fazer o seu número.
Sem ponta de vergonha, escreveu: «É difícil entender a adesão à greve geral de trabalhadores que têm o emprego seguro e o ordenado, pouco ou muito, garantido ao fim do mês»
E, desavergonhado, rematou: «Tenham vergonha, por favor».

O desavergonhado é um tal António Ribeiro Ferreira que, no Correio da Manhã, assina uma rubrica para a qual escolheu o título do pasquim oficial do fascismo salazarista: «Diário da Manhã» - a confirmar que isto anda tudo ligado...

POEMA

A MAIORIA DAS PESSOAS


A maioria das pessoas viaja na coberta dos navios
na terceira classe dos comboios
a pé pelas estradas.
A maioria das pessoas.

A maioria das pessoas começa a trabalhar aos oito anos
casa aos vinte
morre aos quarenta.
A maioria das pessoas.

Para todos há pão, salvo para a maioria das pessoas.
Arroz também
açúcar também
roupas também
livros também
Há para todos, salvo para a maioria das pessoas.

Não há sombra na terra para a maioria das pessoas
não há candeeiros nas ruas
não há vidros nas janelas.
Mas a maioria das pessoas tem a esperança.
Não se pode viver sem esperança.


Nâzim Hikmet

UM FUTURO NOBEL DA PAZ

Uma revista fascista de Espanha publicou, há uma semana, um artigo assinado por Jesús Gómez Ruiz, dirigente do PP espanhol e fascista.
Pronunciando-se sobre o que são (e não são) direitos humanos fundamentais, o homem decretou que:
1 - «os verdadeiros direitos fundamentais são dois: o direito à propriedade e o direito à liberdade»; e que:
2 - «a educação universal e gratuita não é um verdadeiro direito fundamental».
(registe-se, a propósito, a semelhança entre esta opinião e a de António Barreto, comentada aqui no Cravo de Abril há umas duas semanas...)

Em matéria de «educação gratuita», no entanto, o fascista do PP abre uma excepção: os filhos de pais comunistas!
Nem mais!: os filhos de pais comunistas, esses sim, devem ter direito a uma «educação gratuita», clama o fascistão.
Porquê?
Ele explica: «os comunistas pertencem à seita mais criminosa que a história jamais viu» e «inculcam nos filhos uma representação teórica da realidade absolutamente falsa que lhes provocará no futuro sérios problemas de adaptação social e um agudo sentimento de infelicidade».
Portanto, e por isso, espuma o animal, «é necessário, quanto antes, retirar aos pais comunistas a tutela dos seus filho e, de imediato, enviá-los para campos de reeducação» - «e aos pais também» acrescentou, certamente a pensar numa «solução final» adequada aos tempos actuais, com fornos crematórios topo de gama e... naturalmente, em defesa dos «dois verdadeiros direitos fundamentais»: a propriedade e a liberdade...

Fixem o nome da besta: Jesús Gómez Ruiz - mais ano menos ano, vamos vê-lo distinguido com o Prémio Nobel da Paz.


POEMA

EM PARIS, A 28 DE MAIO DE 1958



Por sorte que vi, por sorte que vi,
por sorte que vi esse dia.
Esse dia, por sorte que o vi em Paris.
Paris correu como um rio.
O verdadeiro Paris,
o grande Paris,
todo azul e vermelho,
e o Reno e o Ródano e o Garona e o Sena correram;
Paris correu como as águas em cascata.
Paris desfilou em 1958
a 28 de Maio.
Por sorte que vi, por sorte que vi
esse dia, por sorte que o vi em Paris.
O homem transpôs as portas.
De um momento para o outro o homem encheu a praça.
Como gaiola aberta para o pássaro sair,
os muros libertaram o homem.
De repente um homem confundiu-se
com quinhentos mil homens.
Quinhentos mil homens
confundiram-se
com um único homem:
Ivry, Saint-Denis, Belleville,
todos os arrabaldes de Paris
chegaram
de bicicleta.
As pedras animaram-se para se transformarem em homens.
Ah este coração! Ah este coração! Ah este coração!
Coração doente, maldito coração!
Este coração que impede que eu me misture com eles:
à cabeça, os deputados, cingidos com as
suas faixas,
à minha direita, Pierre, o torneiro de olhos de água;
à minha esquerda, o professor da Sorbonne,
de barba branca;
à minha direita, um
baixo e moreno,
explosivo;
os seios da rapariga de azul ao meu lado
são bombas,
e os saltos dos sapatos, agulhas.
Ah este coração! Ah este coração!
que me impede de integrar a corrente,
de uma praça para outra.

Escrevo tudo isto
a 29 de Maio de 1958.
Sei que há traidores entre nós,
conheço alguns.
Quem sabe? É talvez um pouco
por nossa causa
que as águas, em sucessivas vagas,
de azul e vermelho,
não conseguem destroçar
o navio negro do corsário.


Nâzim Hikmet

A «PAZ» QUE O JÚRI PREMIOU

A atribuição do Prémio Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo, foi estrondosamente festejada por quem a tarefa de festejar estas coisas - e ainda agora a procissão vai no adro.
Percebe-se...
Aliás, o júri responsável pela decisão não esperava outra coisa...

Ora, é óbvio que, como diz a nota do Gabinete de Imprensa do PCP,
1º: a atribuição deste Prémio Nobel da Paz «é inseparável da pressão económica e política dos EUA à República Popular da China»; e,
2º: tal atribuição constitui «mais um golpe na credibilidade» daquele Prémio - a somar-se a muitos outro golpes com objectivos semelhantes ocorridos ao longo dos anos, um dos quais - por demais significativo - foi a atribuição do Nobel da Paz a Obama, em 2009.

A razão que levou o júri do Nobel a escolher Liu Xiaobo, este ano, é a mesma que esteve na origem da escolha de Obama, há um ano, e insere-se na permanente ofensiva propagandística e ideológica visando apresentar os EUA como exemplo supremo «da democracia, da liberdade e dos direitos humanos» e, assim, legitimar a sua ambição de domínio absoluto do mundo, custe o que custar.
Com efeito, nem Obama nem Liu Xiaobo fizeram fosse o que fosse a favor da paz e da fraternidade entre os povos - no caso de Obama, bem pelo contrário até, como o demonstram as guerras de ocupação do Iraque e do Afeganistão; os golpes ou tentativas de golpes fascistas no continente americano; o seu apoio incondicional às práticas do governo fascista de Israel, enfim, toda a política belicista levada a cabo pelo imperialismo norte-americano.
E foi essa a «paz» que, uma vez mais, o júri do Nobel premiou.

POEMA

ADIVINHAS SOBRE PARIS


Qual a cidade que se parece com o vinho?
Paris.
Bebes o primeiro copo.
Sabe mal.
Ao segundo,
sobe-te à cabeça.
Ao terceiro,
impossível ires-te embora:
Rapaz, outra garrafa!
A seguir, estejas onde estiveres,
vás onde fores,
estás amarrado a Paris, meu velho.

Qual a cidade
que se mnatém bela mesmo depois de
quarenta dias de chuva?
Paris...

Filho de Hikmet, em que cidade
gostarias de morrer?
Em Istambul,
em Moscovo,
e também em Paris...

Em que momento Paris se torna feia?
Quando as tipografias são saqueadas
e se queimam os livros.
O que é que destoa em Paris?
Os carros pretos de grades nas janelas.

Em que cidade comeste
o pão
mais puro?
Em Paris.
Sobretudo os "croissants" com manteiga.
Nada que se pareça
com os da padaria de Chehzadébachi.

O que mais amaste em Paris?
Foi Paris.

A quem ofereceste flores, camarada?
Aos do Muro dos Federados,
e também a uma bela, esbelta como uma vergôntea.
Entre os teus, quem encontraste em Paris?
Namik Kemal, Ziya Pacha, Mustafa Sufi,
e também a juventude da minha mãe:
faz pintura,
fala francês,
é a mais bela do mundo.
E também encontrei
a juventude de Mimi.

Bom: com quem se parece Paris?
Com o Parisiense...

Acreditas em Paris, filho do homem?
Acredito em Paris.


Nâzim Hikmet

ARQUIVE-SE A QUEIXA

Quando, aqui há uns tempos, foi chamado à Comissão de Inquérito da Assembleia da República para ser ouvido sobre o caso PT/TVI (lembram-se?...), Rui Pedro Soares (lembram-se?...) recusou-se a responder a qualquer pergunta dos deputados, invocando aquilo a que chamou o «direito a não se autoincriminar».
Pelo facto, a Assembleia da República apresentou, então, uma queixa.

O Ministério Público pegou na queixa, analisou-a dos pés à cabeça, estudou-a da cabeça aos pés... e arquivou-a.
Porquê?: porque considera válido o argumento utilizado por Rui Pedro Soares...

Para mim, que não percebo nada, nadinha, destas coisas das leis (digamos assim), isto de um indivíduo ter o «direito» de se recusar a responder quando sabe que as respostas que vai dar o incriminam... é um grande «direito» - e um «direito» que dá muito jeito...
E tudo isto me leva a pensar que, na outra face deste «direito», está aquilo a que provavelmente os especialistas na matéria chamam um «dever» - o «dever» de, quando o indivíduo sabe que as respostas que vai dar não o incriminam, responder a todas as perguntas que lhe façam...


Arquive-se, então, a queixa.

POEMA

ACERCA DE UMA VIAGEM


Abrimos portas,
fechamos portas,
franqueamos portas
e no termo da viagem única
nem cidade
nem porto.

O comboio descarrila,
o barco naufraga,
o avião cai.
Há uma inscrição gravada no gelo.
Se eu pudesse escolher
recomeçar ou não esta viagem
recomeçá-la-ia.


Nâzim Hikmet

UM CONTO

CÁRCERE


«Na cela há cinco polícias fortes e um preso. Os polícias dispõem de meios que tudo alcançam e sabem que o obrigarão a confessar.
Como feras esfaimadas, atiram-se ao preso, às cegas, numa fúria. No fundo, sentem-se mal, porque a cela é demasiado pequena para tanta gente. Além disso, os fatos pesados são um estorvo e os colarinhos duros incomodam terrivelmente.
Os polícias transpiram, rosnam e praguejam. As matracas erguem-se e baixam-se sobre o homem sem liberdade.
Na cela há cinco polícias fortes e um preso.

Para principiar, torceram-lhe os braços até estalarem as articulações. Bateram-lhe na cabeça com as matracas. Depois, deram-lhe valentes pontapés, ao acaso. Pisaram-no e amassaram-lhe o nariz.
Na cela há cinco polícias e um preso e os polícias sabem que o obrigarão a falar.

No céu distante entremostra-se a Lua, branca e inocente, para desaparecer de seguida, sabendo que não faz falta.
Passa um automóvel na rua e uma rapariga ri-se para o homem ao seu lado.
No corredor da prisão, enquanto o bico de gás solta no espaço a sua monótono e triste melopeia, o carcereiro brinca com as chaves.
Saudosamente, os presos do mundo inteiro sonham com os lares perdidos, com carícias já esquecidas.
Entretanto, na cela, os cinco polícias sovam e interrogam o preso e gritam-lhe que há-de falar...
As duras matracas e os rudes sapatos martirizam o preso e induzem-no a falar.
O coração opresso sugere-lhe que fale. Como criança amedrontada, o pobre corpo já sangrento soluça:
- Fala!
Em torturante agonia, o cérebro arde-lhe e clama:
- Fala!
E o sangue latejante segreda-lhe:
«A tua mulher está à tua espera... é só falares...»
E em todo ele um milhão de vozes grita:
- Fala... Fala!
... Mas o preso não quer falar.
Ao longe, na cidade, a noite é calma e silenciosa. Nas ruas dormentes, homens e mulheres deslizam em idílios. Os agentes balouçam os bastões e bocejam sonolentos.
No sossego das suas casas, depois de um dia enervante nos tribunais, os juízes lêem versos às esposas. No escuro dos cinemas há pares de namorados que, em contacto furtivo, vibram de desejo.
Em quieta paz, as mães aconchegam ao seio os filhos pequeninos, enquanto o pai, descuidado, fuma num cachimbo velho.
E é tão tranquilo e calado o conjunto dos milhares de casas, que o bater dum relógio parece voz gigantesca.

Na cela há cinco polícias fortes que espancam um preso. E sabem que ele falará!
Sem dó, as matracas erguem-se e baixam. Impiedosos, os pés trituram a cara do preso.
Os polícias, como amantes em espasmo, roncam alto. Os colarinhos estão amarrotados, viscosos, nojentos.
O prisioneiro cerra os olhos por instantes, e vê miríades de estrelas que refulgem no seu mundo de dor.
Cerra os dentes, garante que não falará e morde os lábios.
Com a boca sangrenta, jura que jamais soltará uma só palavra.
Com a boca sangrenta, jura que os cinco fortes polícias nunca o obrigarão a falar»


Michael Gold

POEMA

DA VIDA


No caso de estarmos doentes
e tão gravemente
que seja preciso recorrer ao bisturi,
isso significa que porventura
não vamos mais erguer-nos do bilhar branco.
Então, embora sentindo uma grande tristeza
por ir embora demasiado cedo
vamos rir à mesma
ao ouvir uma anedota,
vamos olhar pela janela
para ver se o tempo está de chuva
ou vamos guardar, ansiosamente,
as notícias da última hora.

No caso de estarmos na frente de batalha
a lutar por uma causa que valha a pena,
logo desde o primeiro dia e desde o primeiro embate
podemos cair de nariz no chão e morrer.
Sabemo-lo, é intensa a nossa amargura,
mas apeasr disso
somos ainda ansiosos e apaixonados,
gostávamos de ter uma saída para essa guerra
que ainda pode durar anos.

No caso de estarmos na prisão
prestes a fazer os cinquenta
e devendo ainda esperar dezoito anos
pelo abrir das grades,
mesmo então
não deixaremos de viver com o mundo lá de fora,
com seus homens, seus animais, suas lutas e seus ventos
Com o mundo além-muros.
Assim, onde quer que estejas e sejam quais forem as circunstâncias
deves viver
como se nunca houvesses de morrer.


Nâzim Hikmet

SERÁ?

Neste tempo de duelos verbais entre os líderes do PS e do PSD, cada um responsabilizando o outro pela situação dramática em que se encontra o País - e ambos assobiando para o lado em relação à responsabilidade comum aos dois - é bom não esquecermos o que eles querem que esqueçamos.

A saber:
- PS e PSD estão no poder, ora um ora outro, há 34 anos sucessivos.
- Eles e só eles.
- Fazendo, alternadamente, a mesma política: a política da contra-revolução ao serviço dos interesses do grande capital.
- Balsemão, Cavaco e Barroso/Lopes cumpriram a tarefa pelo PSD.
- Soares, Guterres e Sócrates cumpriram-na pelo PS.
- Os duelos verbais do momento têm como objectivo, por um lado, criar condições para o prosseguimento da política de direita e, por outro lado, esconder a grande conclusão a tirar de tudo isto: PS e PSD tiveram 34 anos para mostrar que não prestam e que deles nada de bom (e tudo de mau) há a esperar para Portugal e para os portugueses.

Dir-se-á que tudo isto é por demais conhecido dos portugueses...
Será?...

POEMA

A MENINA


Sou eu que bato às portas,
às portas, umas após outras.
Sou invisível aos vossos olhos.
Os mortos são invisíveis.

Morta em Hiroxima
há mais de dez anos,
sou uma menina de
sete anos.
As crianças mortas não crescem.

Primeiro arderam os meus cabelos,
também os olhos arderam, ficaram calcinados.
Num instante fiquei reduzida a um punhado de cinzas
que se espalharam
ao vento.

No que diz respeito
a mim,
nada vos imploro:
a criança que ardeu como papel
não podia comer, nem sequer bombons.

Bato à vossa porta, tio, tia:
uma assinatura.
Não matem as crianças
e deixem-nas também
comer bombons.


Nâzim Hikmet

UMA EQUIPA PREDESTINADA

O cardeal Tarcisio Bertone - primeiro-ministro do Vaticano, «braço direito de Bento XVI», «número 2 do Vaticano» - é, actualmente, uma das figuras maiores da Igreja Católica.
Já aqui vos falei dele - quando o cardeal, comentando as notícias sobre as vagas de casos de padres e bispos pedófilos, veio dizer que se tratava de «uma campanha visando minar a confiança na Igreja», ao mesmo tempo que garantia ter provas científicas de que «há uma relação entre a homossexualidade e a pedofilia»...

Hoje, o cardeal Bertone volta a ser notícia.
Ei-la: certamente por vontade de Deus, o cardeal é um entusiástico adepto do futebol, a ponto de um dos seus sonhos ser, desde há muito, a constituição de uma equipa de futebol do Vaticano.
Ora, o sonho do cardeal foi agora concretizado: a selecção de futebol do Vaticano é uma realidade.
Ela aí está, acabadinha de formar e - com os jogadores alinhando de«amarelo e branco, as cores oficiais do Vaticano» - a iniciar a preparação rumo às grandes competições futebolísticas urbi et orbi.
Essa preparação passa por uma série de jogos «particulares», ou «amigáveis», que darão à equipa do cardeal o indispensável «calo» e a necessária experiência para se lançar à conquista... quiçá da próxima Taça do Mundo...

E é aqui que a notícia é... NOTíCIA: o primeiro jogo «amigável» da «selecção de futebol do Vaticano» vai ser com uma equipa que dá pelo nome de «Guarda di Finanza», nome que seria algo bizarro para uma equipa de futebol, não fosse ela aquilo que é: a equipa da polícia financeira italiana - precisamente a polícia que está a investigar o Banco do Vaticano por suspeita de lavagem de dinheiro...

Não há dúvida: o cardeal Bertone não dorme em serviço - e a sua equipa de futebol está predestinada a grandes êxitos... em todos os campos...