Sondagem- resultados

Aprova o Tratado Reformador que altera o Tratado da União Europeia e o Tratado que institui a Comunidade Europeia?


Não- 48 votos (92%)

Sim- 4 votos (7%)

É-me indiferente- 0 votos (0%)

Sondagem fechada!

Contos do Sul

Dias difíceis I

Longe, longe. Não o local, que longe só fica para os Homens Distantes. Antes o olhar, perdido entre o escaldar dos sobreiros no horizonte e a rua cambaleante que o vinho perturba. Um passo, outro. E já as gargantas se ouvem no lamento que atravessa a cal empobrecida pelo duro dos dias. Não se pôs ainda o sol, outrora sacrilégio para os lavradores da terra, mas a tasca já está invadida pelo sufoco dos homens desempregados. Há poucos dias findaram-se as ceifas e agora, até às podas (se a mina não admitir mais ninguém – difícil será não despedir ), onde alguns enganarão a miséria que transportam, os braços dos da terra prendem-se ao balcão procurando distracção para a inutilidade que outros lhe impõem. – São bichos de trabalho, com necessidades mínimas. Animais bebedolas e irresponsáveis. E ainda para aí se juntam, procurando na greve motivo que lhes faltava para não fazerem nada. E o pior são esses comunistas... Ouvem-se os de muita folga rosnarem, preenchendo os dias da sua calunice. Mas Joaquim Gadanha, ainda que pudesse, não está em condições de lhes responder. Vem da feira de Santa Iria onde rebentou o último cartucho dos tostões ganhos na empreitada. Torto, mais o dia áspero que ele, e cisma na terra batida que lhe foge aos pés: - Bônote!- ninguém responde. Talvez cismem os lavradores reunidos: - Que breu lhe preenche o cérebro e lhe tira a claridade das cinco da tarde? – se fossem sensíveis à fome seria isto, talvez, que pensariam. Mas remetamos o narrador para o local que lhe compete e continuemos. Ninguém respondeu e, Joaquim Gadanha sua. Sua no exercício que é manter-se de pé. O farol é o ruído de fundo, ao fundo. Pronuncio do Cante ainda em afinação.

A porta estava encostada, protegendo talvez os olhos da cegueira da luz. Ou a luz dos homens mal iluminados.... Custou a empurrar, pouco ajudado pelos vapores do álcool que lhe fazem tremer os braços. Formigueiro contínuo, reminiscência das chagas das searas. À sua saudação silenciosa, em custoso aceno da cabeça, responde-lhe o burburinho que não cessa à sua chegada...

Há lobos sem ser na serra...

Mestre Pratas afina a garganta que o copito já localizou e chama a polifonia de dentro das outras consciências e corpos maltratados.

eu ainda não sabia,

debaixo do arvoredo

trabalham com valentia

Pára-arranca que parece abstracto perante a distracção ou ensimesmamento de cada um. Mas, contrariando a mansidão vagarosa da canícula, de repente, as vozes respondem ao chamamento que a vivência lhes ensinou, e a polifonia abraça a cal arrefecida do interior da tasca do joão das cabeças

-TRABALHAM COM VALENTIA

CADA UM NA SUA ARTE

HÁ LOBOS SEM SER NA SERRA

EU AINDA NÃO SABIA

José Gentil “Famila” – assim conhecido por todos tratar como compadre – saboreando a liberdade que a presença do lavrador não permitiria, achega-se à frente, poisa as mãos rudes uma no balcão outra no ombro ali perto e cumpre a sua missão de boa voz:

Maldita sociedade

Estás tão mal organizada

Quem não trabalha tem tudo

Quem trabalha não tem nada

E novamente a polifonia no refrão já lido, ouvido, não sem antes o Chico Lota a ter levantado com a competência do Alto. E depois o silêncio que necessário se cumpre para que se assimile o colectivo no que cada um cantou.

Aproveitemos o silêncio e voltemos a Joaquim Gadanha. Pediu uma selha mas não a bebe de trago enquanto não souber como a pagará. Em casa espera-se a farinha, o trigo para as papas do mais novo (são cinco!), o naco de toucinho prometido à fome dos filhos para quando fosse santa iria e as suas caravanas e tendas, o almude de azeite para temperar o pão que quase nunca existe em fartura. Rasam-se os olhos de água. Há a desculpa de que se canta e o coração estremece... mas fervem-lhe as veias noutras cantorias que se choram menos mas doem mais. E a promessa à Senhora D’aires!? Quem pagará as velas? Talvez o safem nesta agonia, verdadeiro calvário de quem padece, o padre Serafim e o lavrador assim assim, não me lembro do nome pelo qual respondem... solidariedade que a bebedeira de Gadanha no narrador provoca. Não sabe ler, mas tem um jornal com uma foice na algibeira larga por muitas ausências. Disseram-lhe lá no Monte do Marmelo, onde andou ceifando, que é escrito para acabar com a escravatura. Não sabe de palavras caras mas os dedos aceitaram-no porque perceberam a simbiose entre as ditas e a sua condição. E a selha por beber.... Famila redescobre-lhe o ombro:

Então compadre gadanha, tem ávondo de tristeza! Bote-lhe essa, sobram-me uns réis da avia na venda da Maria Bem-querendo.

E Gadanha percebeu como as palavras são doces e ásperas, na mesma voz, na mesma vez, ao mesmo tempo.

Aljustrel, Maio de 2006


TRANSPARÊNCIAS

EXPLICAÇÕES GRÁTIS


A primeira notícia dizia assim: «militares norte-americanos no Iraque exercem torturas sobre prisioneiros» - e vinham imagens que confirmavam a notícia.

O «escândalo» foi enorme: o mundo nem queria acreditar, era lá possível os «soldados de Cristo» cometerem tal barbaridade!
Mas as fotos eram por demais evidentes...

Alguns chefes de Estado e de governo europeus, fazendo das tripas coração, foram forçados a manifestar publicamente algum «incómodo» com o facto.

Foi então que o Bush enviou a Condollezza à Europa para explicar a situação.
Ela veio e explicou: as notícias da prática de torturas eram totalmente falsas, porque - explicou - «nos EUA as torturas são proibidas por lei».

Perante tão clarificadora explicação, os chefes europeus respiraram aliviados e ficaram absolutamente «desincomodados».

Mais recentemente, a notícia repetiu-se: torturas praticadas por norte-americanos sobre prisioneiros... - e, novamente, as arreliadoras provas: vídeos, desta vez.

Agora, os vídeos desapareceram. Todos. «Foram destruídos» - segundo explicou, consternado, o Director da benemérita CIA.

Pronto: lá se foram as torturas, outra vez - isto digo eu.

Mas alguém me explica: Atenção!, estamos a falar da democracia mais avançada do mundo. do país-berço da liberdade, da democracia e dos direitos humanos, onde a verdade é um princípio e a transparência é total: se, por qualquer acaso por ora inexplicável, houve torturas, delas terá o mundo conhecimento, etc, etc, etc.

E a demonstrar que esse alguém tinha carradas de razão, aí está a transparência confirmada: o Director da CIA anunciou que «vai proceder a uma investigação criminal».

Para punir os torturadores?
Não: para saber quem destruíu os vídeos - explicou.

Não há dúvida: com explicadores destes - e ainda por cima grátis - só quem não quer saber é que não sabe.

«MADE IN USA»

FOLCLORE DEMOCRATÓIDE


As «primárias» norte-americanas são um dos temas mais badalados nos média portugueses.
O objectivo é óbvio: «mostrar-nos» que a democracia norte-americana é a mais «democrática» de todas as existentes no planeta.

Vendo a quantidade e a aparente diversidade de candidatos a participar na corrida - sete-candidatos-sete e, aparentemente, cada um com o seu programa - o cidadão desprevenido é levado a concluir o que os média querem que ele conclua: que está perante uma exuberante manifestação de democracia aplicada da qual emerge a tão apregoada «igualdade de oportunidades» made in USA.

Ora, o que se passa é isto: destes sete candidatos - três do partido democrático e quatro do republicano - sairão dois, que disputarão as eleições de facto. E um deles será, naturalmente, o vencedor.
Pode acontecer que apareça um terceito candidato - o «independente» que faz de cereja no topo do bolo democrático - mas, se assim for, ele não terá a mais remota hipótese de ser eleito.

Como a realidade tem vindo a evidenciar ao longo dos anos, as eleições poderão ser mais ou menos fraudulentas. E não serão fiscalizadas por observadores internacionais: como é sabido, nessa matéria os EUA apenas estão vocacionados para fiscalizar eleições noutros países.

Quanto aos «programas»: a política que o vencedor irá fazer é tão igual à que o vencido faria, que nem com forte lupa se descobrirão as eventuais diferenças existentes entre elas.

O resto é folclore democratóide.

POEMA

NA FÁBRICA ONDE EU TRABALHAVA


na fábrica onde eu trabalhava havia muito frio
mas os meus camaradas sorriam e contávamos histórias uns aos outros
de vez em quando encandeávamo-nos e esfregávamos os olhos
depois olhávamos admirados a perfeição da soldadura

medíamos dobrávamos batíamos o ferro
e era como se pouco a pouco algo dentro de nós se construísse
tínhamos ali as nossas entranhas e o nosso jardim

e aquilo era como a nossa horta ou a nossa casa à hora do almoço

José Vultos Sequeira

Proibido fumar!

Permitam-me discordar das opiniões que se têm revelado neste blog: concordo com a proibição de fumar em locais de trabalho!

Disse-o o meu parceiro de escrita e amigo Fernando Samuel: " «Governo corta 330 milhões na saúde». Isso significa mais encerramentos de hospitais, de centros de saúde, de serviços de urgência, de maternidades - e mais aumentos dos preços dos medicamentos.
Estas são, de facto, as «preocupações» do Governo quanto à nossa saúde."

Tudo isso é verdade, ninguém duvida. Mas há que acertar um ponto: o governo existe para zelar pela segurança dos cidadãos. Por algum lado se tem que começar: o tabaco é uma droga, consequentemente: vicia e mata. Sabemos que os centros de saúde e hospitais estão continuamente a ser encerrados. Má política! Mas porque não melhorar, pelo menos, um pouco na prevenção?: a proibição de fumar em locais de trabalho pode evitar milhares de doenças pulmonares e vasculares. "Quem está mal muda-se" clamam os fumadores - quem está são tem que se prevenir de doenças dizem os médicos. E já era hora de o DESgoverno (como diz o camarada José Manangão) governar sobre alguma matéria...

SEM SOMBRA DE VERGONHA

«Morro em casa»


O telejornal de ontem, foi ouvir várias pessoas que se encontravam em postos de saúde, e às quais ia informando e pedindo opinião sobre os brutais aumentos das taxas moderadoras, das consultas, dos internamentos.
A maior parte dos inquiridos desconhecia, ainda, os aumentos.

Um homem, com ar de espanto e preocupação, ficou a olhar a repórter e comentou: «Se vier isso quem é que pode ir ao hospital?»
Fez uma pausa, encolheu os ombros e acrescentou: «Morro em casa».

No mesmo telejornal, o Director Geral de Saúde, Francisco George, falando sobre a lei do tabaco acabada de entrar em vigor, explicava, pomposamente e sem sombra de vergonha, que ela se inseria na «missão que o Estado tem de proteger a saúde de todos os portugeses.»

Quando da parte dos governantes, a insolência, o despudor, a hipocrisia, o insulto à inteligência e à sensiblidade dos cidadãos, atingem estes níveis, dificilmente se refreia a vontade - esta vontade enorme!- de lhes ... tratar da saúde.

NO PRIMEIRO DIA

OLHO-TE DAQUI, MIGUEL...


Olho-te daqui, meu filho, vejo-te brincar com os
pequenos cubos que a tua imaginação rapidamente
transformou em comboio, e interrogo-me:
Que destino é o teu? Que futuro temos nós para te dar?
E haverá futuro com tantos mísseis apontados ao
coração?
Ao interrogar-me assim, imediatamente
me censuro: Como posso eu consentir à roda dos
teus três anos de idade a sombra espessa e
inquieta destas interrogações? Mentir? E como
poderia eu pactuar com a mentira, ocultar esta
inquietação, este medo de te ver crescer num
lugar tão precário como é a terra? Como deixar
de pensar que contigo crescem no mundo milhões
de crianças sem ternura, e que tantas outras morrem
simplesmente de fome? - enquanto os homens,
e quando digo homens tenho em mente os responsáveis
pelos nossos destinos, continuam numa desenfreada
corrida a armamentos cada vez mais dispendiosos e
mortíferos, a construir reactores e centrais que não
tardarão a pôr-nos o lixo nuclear à porta, comprometendo
assim toda a economia do planeta, o seu equilíbrio ecoló-
gico, a sobrevivência das espécies, multiplicando a
angústia, o terror de uma catástrofe atómica, fazendo-se
da vida a negação da própria vida, transformando-se o
homem, esse «prodígio» de que falavam os gregos,
no «monstro» de que fala Pascal.
E tudo isto para manter a mais bárbara, a mais vil,
a mais hipócrita das sociedades - uma sociedade
meramente mercantil, cujo objectivo único é o lucro,
sem qualquer finalidade moral.

Olho-te daqui, Miguel, vejo-te brincar com os
pequenos cubos, juntando-os e empurrando-os,
comboio seguindo viagem para um qualquer lugar
onde se não chegue dilacerado ou amputado
da alegria de o homem se sentir nascer para
um amor novo, uma imaginação nova, distante já,
e vamos dizê-lo com tremendas palavras de
Nietzsche, desse asilo de alienados que
durante tantos anos foi a terra.


Eugénio de Andrade

Ano Novo. A mesma luta!

Aljustrel. Vila mineira de Aljustrel. Operários da minha terra, revolucionários do meu tempo... Bom ano novo.

BRINDO AOS AMIGOS - À NOSSA LUTA

NA PASSAGEM DE UM ANO


Erros nossos não são de toda a gente
tropeçamos às vezes na entrega
mas retomamos sempre a marcha em frente
massa humana que nada desagrega.

Para nós o passado e o presente
são futuro no qual o povo pega
com as suas mãos de luz incandescente
que aquece que deslumbra mas não cega.

Para nós não há tempo. O tempo é vento
soprando ano após ano sobre a história
que para nós é vida e não memória.

Por isso é que no tempo em movimento
cada ano que passa é menos tempo
para chegar ao tempo da vitória.


José Carlos Ary dos Santos

CHANTAGISTAS MAFIOSOS

ELES SABEM E TÊM MEDO



«Tratado de Lisboa tem saída para a vitória do "não"»: eis o título de uma notícia hoje publicada no DN.
A «saída» consiste na novidade agora divulgada de que, afinal, não basta um «não» para inviabilizar o dito Tratado: são necessários mais de cinco «nãos», em eventuais referendos - e mesmo assim, ainda há umas escapadelas previstas...

E confirmando a total ausência de vergonha que os caracteriza, estes ditadores de fachada democrática disparam, ainda, que quem não ratificar o Tratado pode sempre escolher sair da UE.

Ou seja: fazem da União Europeia um monstro ao serviço dos exclusivos interesses do grande capital; um imenso e poderoso polvo, cujos tentáculos aprisionam ferreamente a independência e a soberania dos povos; um espaço ditatorial onde os direitos dos trabalhadores de todos os países europeus são brutalmente espezinhados; um asfixiante cerco cerrado à liberdade de cada povo decidir livremente o seu destino - e, depois, arremessam a ameaça chantagista e mafiosa.

Mas por detrás desta arrogância insolente e ditatorial, está o medo que eles têm do que sabem - porque sabem que, inexoravelmente, virá o dia em que os trabalhadores e os povos da Europa lhes darão a resposta necessária.

E talvez esse dia chegue mais cedo do que eles sabem e temem.


A DECISÃO QUE FALTAVA

SEM COMENTÁRIOS


Resolvida o «caso CGD - com um empate técnico-táctico entre os dois partidos da política de direita - surgem, agora, novos desenvolvimentos no «caso BCP».

Como era previsível, o Banco de Portugal tomou a decisão que faltava: «nenhum membro dos órgãos sociais do BCP está actualmente inibido de concorrer ou exercer funções no sistema financeiro, enquanto não forem concluídas as investigações».

Postas as coisas assim, Miguel Cadilhe - um dos nomes que haviam sido indicados para a presidência da CGD - entrou na corrida para a presidência do BCP, à frente de uma lista composta, na sua maioria, por actuais ou ex-gestores... do BCP.

Sem comentários.

HIPÓCRITAS

REPRESSÃO MASCARADA


Que fumar faz mal à saúde, sabem, melhor do que ninguém, todos os fumadores - ou ex-fumadores, como é o meu caso.
Que todos os que fumam devem esforçar-se para deixar de o fazer, é também uma evidência.
Outra coisa, porém, é tentar eliminar os fumadores através de medidas repressivas, como é o caso da lei contra os fumadores que amanhã entra em vigor.

Trata-se de uma lei repressiva, com a agravante de estimular a delacção em geral, a delacção entre companheiros de trabalho - e, até, entre familiares.
Trata-se de uma lei fundamentalista, que visa dividir os portugueses em «fumadores» - os maus, os pecadores... - e «não fumadores» - os bons, os puros... e incentiva o confronto entre os «maus» e os «bons», desviando-os, assim, do confronto essencial que deve preocupar a imensa maioria de fumadores e não fumadores: o confronto com a política de direita que afronta os direitos e interesses da quase totalidade dos portugueses.
Trata-se, por tudo isso, de uma lei que nos traz à memória tempos passados e que não queremos que voltem.
Trata-se, enfim, de uma lei repressiva mascarada de boas intenções.

O Governo justifica esta lei invocando a sua preocupação com a saúde dos portugueses.
Ora, como a realidade nos mostra todos os dias, a política de saúde deste Governo constitui, ela sim, a maior e mais perigosa ameaça à saúde dos portugueses.
E só uma desavergonhada hipocrisia pode levar um Governo que segue o princípio de «quem quer saúde, paga-a», a sustentar esta lei nessa pretensa preocupação.

Há dias, um jornal anunciava, em manchete: «Governo corta 330 milhões na saúde». Isso significa mais encerramentos de hospitais, de centros de saúde, de serviços de urgência, de maternidades - e mais aumentos dos preços dos medicamentos.
Estas são, de facto, as «preocupações» do Governo quanto à nossa saúde.

A DEMOCRACIA DELES

O TACHO


PS e PSD chegaram finalmente a acordo naquela que é a única matéria em que nem sempre há, entre os dois partidos da política de direita, pontos de vista convergentes: O TACHO.
Neste caso, o tacho CGD.

Os candidatos - uns propostos pelo PS, outros pelo PSD - eram nomes de peso.
O partido do Governo apresentou três nomes sonantes: Manuel Pinho, ministro da Economia; Campos Cunha, ex-ministro das Finanças e Maldonado Gonelha, que, se a memória me não falha, iniciou a sua formação financeira na tarefa de «quebrar a espinha à Intersindical»...

O PSD respondeu taco-a-taco, com três pesos pesados: Miguel Cadilhe, que foi ministro de Cavaco Silva; Dias Loureiro, que foi ministro de Cavaco Silva e Eduardo Catroga, que foi ministro de Cavaco Silva.

Seis candidatos com abundante experiência financeira - não apenas pelos cargos que ocuparam mas, essencialmente, pelo montante das remunerações que recebem.
Portanto, cada um deles reunindo todas as condições para ocupar a presidência da pública CGD.
Daí as dúvidas sobre qual seria o eleito.

Afinal havia outro... E depois da peixeirada pública a que assistimos, o Governo optou por Faria de Oliveira - que foi ministro de Cavaco Silva, por isso sendo possuidor de currículo de gabarito semelhante ao dos restantes seis.

Pronto: entendem-se os compadres, encobrem-se as verdades.
E assim termina, em bem, mais um episódio da série A Democracia Deles.

A TRADIÇÃO

TODOS BONS RAPAZES


Sobre o discurso de fim de ano do Presidente da República (PR), diz um jornal que ele é «aguardado com grande expectativa» e diz outro que «com grande ansiedade».

Isto porque, concluíram os analistas em uníssono, o PR vai retomar os temas que abordou há um ano (justiça, pobreza, etc, etc), mas desta vez fazendo balanço, que é como quem diz, «pedindo contas ao primeiro-ministro (p-m)» e «subindo a fasquia das exigências».

Confesso que não partilho esta «expectativa» e muito menos esta «ansiedade».
Na verdade, estes discursos de Natal e de Ano Novo não passam de representações do folclore oratório da política de direita e, ao fim de 31 anos, pode dizer-se que são, acima de tudo, uma tradição.

É assim todos os anos: no discurso do Natal, o p-m tece loas ao que fez, e diz que muito mais irá fazer no ano seguinte, para o que conta com a disponibilidade de todos os portugueses para fazerem os sacrifícios necessários, a bem da Nação - «todos os portugueses» significa, como sabemos, todos menos os chefes dos grandes grupos económicos e financeiros, os quais, porque a ordem natural das coisas assim o exige, estão isentos de sacrifícios e condenados ao aumento dos seus lucros.

No que toca ao discurso de fim de ano, foi - e vai ser- assim: O PR Cavaco Silva vai exigir ao p-m José Sócrates o mesmo que, por exemplo, o PR Mário Soares exigiu, em tempos, ao p-m Cavaco Silva.
E, tal como o então PR Mário Soares sabia que o então p-m Cavaco Silva não iria cumprir as suas exigências, também o actual PR Cavaco Silva sabe que o actual p-m José Sócrates não vai cumprir as suas exigências.

E, por tradição, não se zangam uns com os outros.
Porque, por tradição, todos conhecem e aceitam as regras do jogo.

E acima de tudo, porque, por tradição, são todos bons rapazes.

LEIS COM RAÍZES NO PASSADO

NÃO PASSARÃO!


Respondendo à solicitação feita, o PCP informou o Tribunal Constitucional de que tem mais de cinco mil militantes - anunciou, ontem, o Secretariado do CC do Partido, num comunicado em que, uma vez mais, denunciava o carácter antidemocrático das leis dos partidos e do seu financiamento, e a determinação de continuar a lutar pela revogação dessas leis.

É claro que «não foram entregues documentos internos, nem nomes, nem fichas de militantes».

As leis em causa - que visam essencialmente o PCP - são bem reveladoras do estado a que chegou a democracia no nosso País, quase 34 anos após o 25 de Abril.
À ditadura terrorista do grande capital - que, durante 48 anos oprimiu Portugal e os portugueses e fez dos comunistas e do seu Partido, o alvo prioritário da sua brutal acção repressiva - sucedeu a ditadura burguesa do grande capital - construída ao longo dos últimos 31 anos, num processo de crescente, e agora total, domínio do poder económico sobre o poder político, e que vê no PCP o inimigo a abater - porque não baixa os braços, porque luta, porque não desiste - nem desistirá - de construir em Portugal uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e exploração.

Assim, as leis dos partidos e do seu financiamento, impostas por estes herdeiros de Salazar de fachada democrática, constituem formas repressivas com raízes no passado fascista, criteriosamente adaptadas aos tempos actuais.

No caso da lei dos partidos, eles pretendem que o PCP deixe de ser o que é e passe a ser aquilo que eles querem que seja; pretendem impor que o Partido se organize e funcione, não como os seus militantes querem e decidem, mas como eles, inimigos do Partido, desejam.

No caso da lei do financiamento, visam, em primeiro lugar e acima de tudo, a Festa do Avante! - realização que eles não suportam porque ela é a demonstração mais evidente de várias verdades que os incomodam e que nem através da comunicação social dominante conseguem ocultar: a força do colectivo partidário; a força da consciência militante e do trabalho voluntário; a força dos ideais de liberdade, de justiça social, de fraternidade, de solidariedade, de camaradagem - tudo isto confirmando que, no quadro partidário nacional, «o PCP é um partido diferente dos que são todos iguais».

E em tudo isto, o que mais incomoda e irrita e enraivece estes salazarentos serôdios, é que eles sabem - certeza certa - que, hoje como no passado fascista, «não passarão!»


UM CONTO

HISTÓRIA EXEMPLAR


Entrei.

- Tire o chapéu - disse o Senhor Director.
Tirei o chapéu.
- Sente-se - determinou o Senhor Director.
Sentei-me.
- O que deseja? - investigou o Senhor Director.
Levantei-me, pus o chapéu e dei duas latadas no Senhor Director.

Saí.


Mário Henrique Leiria
(in «Contos do Gin-Tonic»)

Liberdade?

Não olhava o infinito como que esperando o Sebastião que não vem. Não. Talvez heroísmo desse tipo fosse melhor com o imaginário português. Mas não. Esta mulher alentejana (que autorizou que a fotografasse e que utilizasse a fotografia como achasse que devia), olha longe porque sabe que me deve a pose. E deve-me a pose (pensa) porque me pediu pão. Assim. Com estas letras, embora não escritas, pronunciadas. Pão. Pão! Pão, país pequenino absorto na vaidade! Pão! Pão, São Bento brincando ao governo e aos governantes. Pão, Sócrates! Pão! Como se atrevem a encher o bandulho com déficits e a vaidade com números inventados? Como? Há gente que pede pão. Muitos. Um milhão de portugueses vive com pouco mais de um euro por dia. E Pedem pão. Que bichos eleitos lhes respondem com a falsidade estonteante dos números?
Liberdade?

«CALL GIRL»»

A ESCOLHA DE ANTÓNIO


O DN de hoje dedica duas páginas ao mais recente filme de António Pedro Vasconcelos (APV) - «CALL GIRL» - e informa que «a história roda em torno de um autarca corrupto ligado ao PCP».

APV tem todo o direito - senão mesmo o dever - de, nos seus filmes, tratar o tema da corrupção.
Optou pela «corrupção nas autarquias»? Pronto, é uma opção tão legítima como seria abordar a corrupção em qualquer outra área da vida nacional (na Banca, por exemplo - e não falo apenas nas últimas sobre o «caso BCP», que bem poderia ser designado por caso BCP/BP/CGD e o mais que se verá...)

Mas APV optou pelas autarquias - ele lá sabe porquê.

Imagino o processo de busca inteligencial seguido pelo autor de «CALL GIRL»: um autarca corrupto?: ora deixa cá ver, António, ora deixa cá ver António, um autarca corrupto, um autarca corrupto... este não, chiça... aquele, nem pensar... ah!, que estúpido que eu sou, está-se mesmo a ver: um comunista!, não estou a ver quem, mas quero lá saber, não me traz qualquer problema, bem pelo contrário, eh, eh, eh, bem pelo contrário, é isso: um comunista: está decidido: temos filme!

Não garanto que o percurso reflexivo do realizador tenha sido rigorosamente este, mas dadas as circunstâncias, é-me legítimo presumir que a sua procura de agulha em palheiro não há-de ter andado longe disto.

Curiosamente, numa das duas páginas do DN acima referidas, o tema da «corrupção nas autarquias» é abordado: vemos seis fotos de autarcas «a braços com a justiça»: três são do PS; dois, do PSD; um, do CDS/PP.
Os restantes são do PCP - a escolha de António.

O GÉNIO

O PEDESTAL


De olhos fixos no tele-ponto, Sócrates leu-nos a sua mensagem natalícia: garantiu-nos que vivemos no melhor dos mundos.
Graças a ele, às suas incomensuráveis capacidades, ao seu imensurável talento, à sua fulgurante inteligência - ao seu génio, enfim - o País vai de vento em popa e os feitos da sua governação já têm lugar assegurado na História Universal - não obstante haver por aí uns quantos ignorantes que acham pouco o muito que ele tem feito...

Dito isto, Sócrates partiu para a viagem de Natal paga pelos seus fiéis serviçais.

Ao ouvi-lo, lembrei-me, sei bem porquê, da crónica de Daniel Sampaio, «Os Narcísicos»(Pública de 23/12), da qual aqui transcrevo alguns excertos:

«Portugal anda cheio de chefes narcísicos. Querem dominar tudo e todos e não mostram qualquer empatia pelos problemas dos que os rodeiam. A principal característica destas pessoas é um sentimento grandioso da sua importância. Hipervalorizam todos os dias as suas capacidades e exageram tudo em que participam, exigindo que os outros dêem o mesmo valor que atribuem a si próprios.»

(...) «Aspiram a altos voos: com a cumplicidade dos média e o trabalho das "agências de comunicação", estão preocupados com fantasias de sucesso ilimitado, poder ou brilho especiais. Ruminam com frequência acerca da "merecida" admiração e propalam que a história lhes fará justiça».

(...) Necessitam de admiração constante, porque vivem preocupados com a forma como se estão a sair, desejosos de obter uma cotação favorável, testemunho da admiração de que dependem. No fundo, aguardam a reverência de todos: para a garantir ao máximo, rodeiam-se de gente submissa que, para os servir, decretou para si mesma o silêncio e o elogio fácil ao chefe: podem ser sobrecarregados com trabalhos e críticas ferozes que jamais abrirão a boca contra quem manda.»

(...) Quando não são servidos como desejam, ou quando alguém ousa uma crítica, respondem com agressividade, como se estivessem a ser atacados. Esta raiva narcísica é um dos traços mais evidentes do seu carácter: perante a discordância, reagem com fúria».

(...) Estes chefes não são verdadeiros democratas: falta-lhes o sentido do reconhecimento do outro, a partilha e a capacidade de amar que caracteriza os verdadeiros líderes: podem mandar, mas não serão amados, apenas tolerados, mais tarde ou mais cedo cairão do pedestal que construíram para si próprios».

Que a queda não demore muito, é o que eu desejo - isto digo eu.


(Cuidado!: em nota final, Daniel Sampaio informa que «esta crónica contém fragmentos da DSM-IV-R, classificação americana das doenças mentais»)


UM CONTO

CARREIRISMO


Após ter surripiado três vezes a compota da despensa, seu pai admoestou-o.
Depois de ter roubado a caixa do senhor Esteves da mercearia da esquina, seu pai pô-lo na rua.

Voltou passados vinte e dois anos, com chofer fardado.
Era Director Geral das Polícias.

Seu pai teve o enfarte.


Mário-Henrique Leiria
(in «Contos do Gin Tonic»)

Feliz Natal



"So this is Christmas
And what have you done?"


John Lennon- Happy Christmas (War is over!)

POEMA

ANTES QUE SEJA TARDE


Amigo
tu que choras uma angústia qualquer
e falas de coisas mansas como o luar
e paradas
como as águas de um largo adormecido,
acorda!
Deixa de vez
as margens do regato solitário
onde te miras
como se fosses a tua namorada.
Abandona o jardim sem flores
desse país inventado
onde tu és o único habitante.
Deixa os desejos sem rumo
de barco ao deus-dará
e esse ar de renúncia
às coisas do mundo.
Acorda, amigo,
liberta-te dessa paz podre de milagre
que existe
apenas na tua imaginação.
Abre os olhos e olha
abre os braços e luta!

Amigo,
antes da morte vir
nasce de vez para a vida.


Manuel da Fonseca

Histórias de Cravos (III)

Fiquem com a última composição, disponível no site da Escola Básica do Primeiro Ciclo de Idanha-a-Nova, sobre a Revolução de Abril. É tão bonita a simplicidade com que as crianças contam as coisas.


Grande vida!

Eu sou um cravo vermelho.

A minha história é muito engraçada.

Tudo começou há 32 anos. Eu e uns amigos meus estávamos numa florista onde havia sempre uma pessoa que falava sempre muito bem do governo, nunca saía dali e escutava as conversas de todos os clientes. Mas eu nunca soube porque ele fazia essas coisas.

No dia 24 de Abril de 1974, às 22 h e 55 m, tocou a canção « E depois do adeus» e às 00 h e 20 m, tocou canção « Grândola Vila Morena ». Depois os soldados começaram a sair e a minha florista foi buscar-me a mim e aos meus amigos. Deu-nos um por cada soldado para nos colocarem nas espingardas.

E em vez de matarem alguém dispararam os cravos.

E agora chamam-me o «Cravo de Abril».

Marta Santos – 3º ano Escola Básica do Primeiro Ciclo de Idanha-a-Nova (26/04/2006)

BCP/CGD: AS DUAS FACES DA MOEDA

TUDO EM FAMÍLIA


Na reunião de accionistas do BCP, ontem realizada, António Mexia - que foi ministro do Governo de Santana Lopes e é Presidente da EDP e membro do PSD - propôs Carlos Santos Ferreira para Presidente do BCP.
Tudo indica que a proposta será aceite na Assembleia-Geral da próxima sexta-feira.

As decisões em vias de concretização no que respeita ao BCP, depois da decisão anteontem tomada por Vítor Constâncio - Presidente do Banco de Portugal e membro do PS - surgem na sequência de um processo que suscita «desconforto» a alguns accionistas anónimos (ver Público de hoje) que consideram que a «crise do BCP se encaminha para uma solução que constitui «uma forma indirecta de o Governo "tomar" conta do grupo» e, se assim for, «o executivo garante a "mão" nos dois maiores bancos nacionais.»

Carlos Santos Ferreira - membro do PS - foi administrador da ANA-EP; Presidente do Aeroporto de Macau; Presidente da Mundial Confiança; Administrador da Segurança & Pensões (ex-BCP); Vice-presidente da Estoril Sol e, desde 2005, Presidente da Caixa Geral de Depósitos.

Entretanto:

«Armando Vara vai com Santos Ferreira para o BCP» - titula o Diário de Notícias de hoje.

Armando Vara, membro do PS, é, também ele, possuidor de um vasto e próspero currículo. Dele se pode dizer, como é uso nestes casos, que subiu a pulso na vida ou que comeu o pão que o diabo amassou: começou como funcionário de balcão da CGD em Mogadouro; após o 25 de Abril inscreveu-se no PS: Mário Soares, António Guterres e José Sócrates, foram, cada um no seu tempo, os «seus ídolos»: Soares levou-o para deputado e Guterres chamou-o para o Governo - do qual foi afastado por «alegadas irregularidades cometidas na Fundação para a Prevenção e Segurança» que ele fundara enquanto membro do Governo («processo que seria arquivado pela PGR»); em 2005 foi nomeado administrador e, mais tarde, vice-presidente da CGD; em 2006 passa a ser, acunulando funções, administrador da Portugal Telecom («terá de ir à PT 12 vezes por ano durante quatro horas», pelo que recebe mensalmente 1. 250 euros): Sócrates deu-lhe, agora, o BCP.

Para substituir Carlos Santos Ferreira na presidência da CGD fala-se no ex-ministro das Finanças e membro do PS, Campos Cunha.

Todavia, o líder do PSD, Luís Filipe Menezes - cumprindo o prometido papel de martirizador de Sócrates - já propôs que o novo presidente da CGD seja Miguel Cadilhe - que é membro do PSD, fez parte dos governos de Sá Carneiro e Cavaco Silva e foi, nomeadamente, consultor da várias empresas do BPA, Presidente do Conselho de Administração do BFE e do BBI, e Administrador do BPA e do BCP.

Como se vê, sejam quais forem as decisões finais, tanto em relação ao BCP como em relação à CGD, fica tudo em família.
Como é próprio da Quadra de Natal...



Histórias de Cravos (II)

Deixo a segunda composição encontrada no site da Escola Básica do Primeiro Ciclo de Idanha-a-Nova.

O Cravo Vermelho

Eu sou um cravo e nasci duma semente.

A minha vida era num vaso de barro, muito fresquinho. Bebia muita água fresca, e fui crescendo, até ficar muito vistoso. O meu cheiro era muito agradável e a minha cor era vermelha.

Um dia levaram-me num camião até Lisboa. Colheram-me do vaso, deram-me a uma florista. Ela recebeu-me com muito carinho e juntou-me a outros cravos.

Ouviram-se vozes, era um grupo de soldados com as suas armas. Ao verem cravos tão bonitos, resolveram pôr um na ponta da espingarda. Gritaram:

- Liberdade! Liberdade!

Eu senti muita alegria por ver a Paz no ar!

Joana – 3º Ano C Escola Básica do Primeiro Ciclo de Idanha-a-Nova (26/04/2006)

Dia de Natal- António Gedeão

Hoje é dia de ser bom.
É dia de passar a mão pelo rosto das crianças,
de falar e de ouvir com mavioso tom,
de abraçar toda a gente e de oferecer lembranças.

É dia de pensar nos outros— coitadinhos— nos que padecem,
de lhes darmos coragem para poderem continuar a aceitar a sua miséria,
de perdoar aos nossos inimigos, mesmo aos que não merecem,
de meditar sobre a nossa existência, tão efémera e tão séria.

Comove tanta fraternidade universal.
É só abrir o rádio e logo um coro de anjos,
como se de anjos fosse,
numa toada doce,
de violas e banjos,
Entoa gravemente um hino ao Criador.
E mal se extinguem os clamores plangentes,
a voz do locutor
anuncia o melhor dos detergentes.

De novo a melopeia inunda a Terra e o Céu
e as vozes crescem num fervor patético.
(Vossa Excelência verificou a hora exacta em que o Menino Jesus nasceu?
Não seja estúpido! Compre imediatamente um relógio de pulso antimagnético.)

Torna-se difícil caminhar nas preciosas ruas.
Toda a gente se acotovela, se multiplica em gestos, esfuziante.
Todos participam nas alegrias dos outros como se fossem suas
e fazem adeuses enluvados aos bons amigos que passam mais distante.

Nas lojas, na luxúria das montras e dos escaparates,
com subtis requintes de bom gosto e de engenhosa dinâmica,
cintilam, sob o intenso fluxo de milhares de quilovates,
as belas coisas inúteis de plástico, de metal, de vidro e de cerâmica.

Os olhos acorrem, num alvoroço liquefeito,
ao chamamento voluptuoso dos brilhos e das cores.
É como se tudo aquilo nos dissesse directamente respeito,
como se o Céu olhasse para nós e nos cobrisse de bênçãos e favores.

A Oratória de Bach embruxa a atmosfera do arruamento.
Adivinha-se uma roupagem diáfana a desembrulhar-se no ar.
E a gente, mesmo sem querer, entra no estabelecimento
e compra— louvado seja o Senhor!— o que nunca tinha pensado comprar.

Mas a maior felicidade é a da gente pequena.
Naquela véspera santa
a sua comoção é tanta, tanta, tanta,
que nem dorme serena.

Cada menino
abre um olhinho
na noite incerta
para ver se a aurora
já está desperta.
De manhãzinha,
salta da cama,
corre à cozinha
mesmo em pijama.

Ah!!!!!!!!!!

Na branda macieza
da matutina luz
aguarda-o a surpresa
do Menino Jesus.

Jesus
o doce Jesus,
o mesmo que nasceu na manjedoura,
veio pôr no sapatinho
do Pedrinho
uma metralhadora.

Que alegria
reinou naquela casa em todo o santo dia!
O Pedrinho, estrategicamente escondido atrás das portas,
fuzilava tudo com devastadoras rajadas
e obrigava as criadas
a caírem no chão como se fossem mortas:
Tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá-tá.

Já está!
E fazia-as erguer para de novo matá-las.
E até mesmo a mamã e o sisudo papá
fingiam
que caíam
crivados de balas.

Dia de Confraternização Universal,
Dia de Amor, de Paz, de Felicidade,
de Sonhos e Venturas.
É dia de Natal.
Paz na Terra aos Homens de Boa Vontade.
Glória a Deus nas Alturas.

PROCURAM-SE

OS DEZ MAIS?

O Diário de Notícias publicou, hoje, fotos e biografias daqueles que, segundo o FBI, são «os dez homens mais perigosos do mundo» - mas que não são, obviamente, os dez homens mais perigosos do mundo.

À frente da lista está o inevitável Ben Laden, por cuja captura - à boa maneira do Oeste norte-americano - é oferecida a soma de 25 milhões de dólares - de longe o «prémio» mais elevado.
Os restantes nove são criminosos típicos do dia-a-dia do modo de vida dos Estados Unidos da América.

Não surpreende - mas é injusto e é pena - que destes dez mais perigosos não façam parte os inevitáveis Bush, Blair, Aznar e Barroso.

Isto para citar apenas quatro elementos da numerosa e sinistra família de criminosos de guerra que por aí anda à solta - neste caso quatro responsáveis e co-responsáveis pelo assassinato, no Iraque, de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes.

Pela captura de cada um destes quatro, o «prémio» teria que ser, no mínimo, de 25milhões de dólares.

Bom Natal

Recebi o seguinte texto que espelha bem a nossa realidade actual.

Este Natal não vai haver presépio.
A Vaca tá louca e não se segura nas patas.
O Reis Magos não puderam vir porque os camelos estão no Governo.
O Burro migrou para os EUA e chegou a Presidente sempre disposto a atacar um pais qualquer desde que tenha petróleo.
A Nossa Senhora e S. José foram meter os papeis para o rendimento mínimo.
A ASAE fechou o estábulo por falta de condições de higiene.
E o Tribunal de menores ordenou a entrega do menino Jesus ao pai biológico.

Bom Natal!


BCP

FICA A PERGUNTA


Manchete do Correio da Manhã de hoje: «CONSTÂNCIO DESPEDE GESTORES DO BCP» - «Autoridades investigam ilícitos criminais no Banco».

Aplauda-se a decisão e coloque-se a pergunta necessária: se desde há três anos estes «ilícitos criminais» eram conhecidos por que é que, na altura, Constâncio «decidiu arquivar este mesmo processo» e só agora tomou as medidas que se impunham?

Se para todas as perguntas há uma resposta, esta não foge à regra. Ou foge?


FARSANTES (IV)

UNIÃO DE FACTO


«Onde está o PSD?» - pergunta Pacheco Pereira, no Público de hoje - «onde está Menezes, onde está a oposição vinda do partido que é suposto 'liderá-la, que não se vê em parte nenhuma».
Acusa Pacheco que o PSD - desde Santana Lopes a Menezes, passando por Marques Mendes - «aproximou-se politicamente do PS (...) abdicou da diferença, da alteridade, da oposição».

É claro que Pacheco sabe que o PSD não só nunca «liderou» como nunca foi, sequer, oposição à política dos vários governos do PS desde o primeiro chefiado por Mários Soares, em 1976.
E sabe, igualmente, que o mesmo se passou com o PS: nunca foi oposição à política dos vários governos do PSD.
Pela simples razão, num caso e no outro, de que não se pode ser oposição àquilo que se defende: a política de direita comum aos dois partidos.

Quanto à aproximação do PSD ao PS, a questão que se colocaria era a de saber quem é que se aproximou de quem - isto, se a questão não fosse, como é, irrelevante, na medida em que, nos últimos trinta e um anos, estes dois partidos têm estado tão unidos na aplicação da mesma política que bem se pode dizer que dessa união de facto nasceu esse monstro que é a política única praticada por um partido único bicéfalo.

Marques Mendes perdeu a liderança do PSD porque não foi capaz de bem cumprir a tarefa que lhe competia: fingir que era oposição - mas há que reconhecer que essa era uma tarefa ciclópica, tão longe foi Sócrates na sua ofensiva de direita contra a democracia económica, social, política e cultural.

Luís Filipe Menezes ganhou a liderança do PSD com a promessa de que agora é que o Sócrates vai ver como é, agora é que ele vai saber o que é oposição.
E a comunicação dita social, como lhe competia, dedicou parte grande do seu tempo e do seu espaço a alimentar essa patranha.
Mas patranhas dessas - mesmo com uma comunicação dita social e sem sombra de vergonha como a que por cá domina - têm um tempo de vida muito limitado.

E eis Pacheco Pereira - sempre no lugar certo à hora certa, sempre a apanhar a primeira carruagem do primeiro combóio na primeira paragem - a exigir «oposição» ao PSD.

E eis Menezes a ser acusado de não fazer... aquilo que, de facto, não pode fazer: oposição à política Sócrates/PS - porque essa é a política que Menezes/PSD faria se fosse primeiro-ministro, já que o grande capital que dá ordens ao governo do PS é o mesmo que daria ordens ao governo do PSD.

E lá veio Menezes, patético, dizer uma vez mais que agora é que vai ser: «a partir de Janeiro, vai começar o martírio para o primeiro-ministro (...) nem vai dormir de noite».

E para iniciar com o pé direito a martirização do primeiro-ministro, Menezes fez o que dele se esperava: exigiu aos deputados do PSD que votem contra a realização de um referendo sobre o Tratado.

Histórias de Cravos (I)

Estava a navegar pela internet, e fui parar ao site da Escola Básica do Primeiro Ciclo de Idanha-a-Nova, encontrei vários textos sobre a Revolução de Abril e decidi partilhar este lindo registo. Outros se seguirão.


EU SOU UM CRAVO ESPECIAL

Olá! Eu sou um cravo vermelho e sou muito bonito!

Nasci no dia 25 de Abril, dia da Revolução pela Liberdade de Portugal.

Antigamente o nosso país vivia em ditadura, quer isto dizer, que não se podia falar em liberdade se não éramos presos. Por exemplo quem falasse do presidente era preso.

A partir da data em que eu nasci já podemos falar e viver à vontade.

Ai! Eu sou mesmo um cravo especial! Quando Portugal passou a ser livre os soldados puseram-me nas suas espingardas.

E deram o nome de Revolução dos Cravos à revolução que houve.

Eu sou muito especial!

José 3º Ano C - Escola Básica do Primeiro Ciclo de Idanha-a-Nova (26/04 /2006)

Joaquim Rafael


Nota: Clica na imagem para aumentar

B - A - BÁ

B - E - BE


Escreveu Miguel Portas que «a adesão à CEE é a maior dívida de gratidão que temos com Mário Soares» - e isto escrevendo está, à sua maneira, a pagar a sua parte da dívida...

Prosseguindo no acerto de contas, Miguel Portas escreveu: «a integração de Portugal na CEE visava enterrar definitivamente as veleidades revolucionárias no País» - e isto escrevendo coloca-se, inequivocamente, ao lado dos que não toleram Abril e os seus históricos avanços políticos, económicos, sociais, culturais, civilizacionais.

Surpresa?: só para quem gosta de se fingir surpreendido...
Mostra a história que estes radicalistas pequeno-burgueses de fachada revolucionária, por muito que tentem esconder a sua verdadeira postura de aliados objectivos das classes dominantes, acabam sempre por, nos momentos decisivos, se desnudarem e mostrarem o que realmente são.

Foi notado (por quem foi...) o facto de - enquanto os governantes serventuários do grande capital europeu assinavam o Tratado Porreiro, Pá contra os trabalhadores e os povos da Europa - o BE ter passado o dia a protestar contra o magno problema das praxes académicas...

De facto, não lhes convinha dizer o que pensam sobre o Tratado e recorreram à mais poderosa das suas armas de diversão: o folclore.

Há por aí alguém que ainda tenha dúvidas sobre o que é, para que serve e a quem serve o BE?

Livro Branco das Relações Laborais

"Despedir tornou-se tão complicado neste País de Abril..." clamam as vozes patronais...

E, para grandes males, grandes remédios: o Livro Branco das Relações Laborais - que vem alterar o código do trabalho- foi , ontem, apresentado em Lisboa.
Pedro Furtado Martins (um dos responsáveis pela elaboração de tal atrocidade) afirmou que “o alongamento dos processos de despedimento individual, decorrente das suas complexidades e burocratização, é prejudicial para ambas as partes”.

Como é possível o povo português nunca ter pensado nisso? que o grande mal do trabalho são as grandes dificuldades do despedimento... Ora, agora com esta fórmula em jeito de poção mágica, vamos poder fazer o país andar para a frente: em direcção ao abismo vertiginoso dos altos níveis de desemprego.

E isto não põe em causa os injustos despedimentos, reafirma-o Pedro Furtado Martins. Porque o recém- promovido à classe de desempregado pode sempre contestar o seu despedimento. E a única coisa que tem que fazer para não ser realmente despedido é justificar que o justo patrão se descuidou quando o catalogou como inadaptado e posteriormente o despediu. Coisa simples e- como todos sabemos- eficaz.

Mas, segundo José Vieira Lopes, vice-presidente da Confederação do Comércio (CCP), o livro peca por defeito. Seja isto: "Houve um retrocesso em relação ao relatório intercalar de progresso, que era mais abrangente e ambicioso, pelo menos nas expectativas que deixou criar”.
José Vieira Lopes refere-se - quando fala num retrocesso- ao relatório original onde além da medida de fácil despedimento viria a possibilidade de redução salarial em caso de “necessidades prementes” da empresa. José Vieira Lopes acusa, portanto, o Livro de "muito pouco atrevido".