(No túnel antes de chegar à estação
de S. Bento, no Porto.)
Ousaram
fechar um homem na treva
promovê-lo ao silêncio
impor-lhe muros de sede.
E agora?
Ei-lo sozinho,
terror de olhos secos
com uma lâmpada de lágrimas no coração
a furar um túnel de névoa na parede.
Ousaram
iluminar a treva com homens.
José Gomes Ferreira
«OUVIR BARRETO»?: CHIÇA!
Pedro Lomba é um dos comentadores com lugar cativo no órgão da Sonae.
Um, igual a muitos que, fingindo profundas diferenças entre si, ali vão vertendo a ideologia comum a todos - que, por coincidência, é a ideologia do patrão da Sonae...
Na peça de hoje, Lomba manifesta o seu desagrado por haver quem não tenha gostado do discurso de António Barreto, no 10 de Junho. Vejam bem, os ingratos!...
E identifica os que não gostaram da barretal oração com «a esquerda» - que para ele é, explicitamente, o PS e é, depois, uma equívoca «certa esquerda»...
(tal identificação tem toda a lógica: sendo Lomba um direitinha à maneira, convém-lhe - e de que maneira! - que conste que o PS é de «esquerda» - e, até, como ele diz, «socialista» - sabendo bem que essa é a melhor forma de denegrir a esquerda e o socialismo).
Pergunta o Lomba: «O que disse Barreto de tão ofensivo?».
E responde: «Criticou os políticos, exigiu o "apuramento de responsabilidades" e falou no "direito" das novas gerações em rever a Constituição» - ou seja, remata o Lomba, triunfante, Barreto «disse fielmente o que dizem as pessoas na rua»...
É certo que muitas pessoas, «na rua», criticam os «políticos» e exigem o apuramento de responsabilidades pelas tropelias cometidas «pelos políticos»;
é certo, também, que para essas pessoas, os «políticos», como os «partidos», «são todos iguais»;
e é tragicamente certo que o que essas pessoas dizem, é o que lhes foi dito e redito, todos os dias de todos os anos, pelos comentadores com lugares cativos nos média dominantes - os tais cuja opinião comum a todos, de tantas vezes publicada se transforma em opinião pública...
Pelo que, invocar o que dizem «as pessoas na rua» para fazer de uma manipulação cozinhada uma verdade absoluta, constitui profunda desonestidade - e mostra bem o tipo de condimentos de que é feita a ideologia dominante...
Sobre a Constituição, que é hoje o tema dos temas para o grande capital e para os partidos que o representam - e é, por isso, o tema dos temas para os comentadores com lugar cativo nos média do grande capital - Lomba cumpre a tarefa de não ter dúvidas: «É necessária uma reforma constitucional a sério»!!!
E avançando já com a «necessária» argumentação - que, nos tempos mais próximos, vai ser repetida e repetida por tudo quanto é comentador pago pelo grande capital - Lomba clama por uma revisão «em que todos nós, e os que nasceram depois de 1976, possamos intervir num debate novo e limpo sobre o nosso futuro colectivo»...
Porque, como disse o genial Barreto, citando não sei quem, «cada geração tem o direito de rever a Constituição».
E porque, como disse o sempre genial Barreto, desta vez citando-se a si próprio, para esse debate «novo e limpo» vamos proceder à «repolitização das novas gerações». (quererão Barreto&Lomba Associados dizer que as «novas gerações» já foram, em tempos, politizadas, mas entretanto perderam a politização?...)
Esta apetência participativa, vinda de um Lomba assim, é no mínimo estranha.
Não sabe , talvez, o Lomba - ou sabe, mas não quer que se saiba - que a elaboração da Constituição de Abril, aprovada em 1976, resultou de um processo de participação popular único na história do nosso País - da mesma forma que uma das características essenciais da democracia de Abril foi a sua forte componente participativa.
E como o Lomba muito bem sabe, a democracia burguesa em que vivemos é estruturalmente, intrinsecamente, avessa à participação - o que se compreende, pois se assim não fosse não durava dois dias...
Por isso, quando o Lomba clama por uma revisão «a sério», com a participação de «todos nós, e de todos os que nasceram depois de 1976», sabe muito bem que está a querer enfiar-nos o barrete. E o Barreto.
E é em tom profético que o Lomba termina o seu panegírico de Barreto - que é, simultaneamente, auto-panegírico: «Barreto provavelmente compreendeu, e não foi o único, que certa esquerda se tornou arcaica, conservadora, desconfiada. Essa esquerda devia perceber que, se não quiser fugir ao seu tempo, tem de ouvir Barreto».
Aqui chegado - e independentemente de quem seja a referida «certa esquerda» - só posso desabafar:
«Ouvir Barreto»?: CHIÇA!
Um, igual a muitos que, fingindo profundas diferenças entre si, ali vão vertendo a ideologia comum a todos - que, por coincidência, é a ideologia do patrão da Sonae...
Na peça de hoje, Lomba manifesta o seu desagrado por haver quem não tenha gostado do discurso de António Barreto, no 10 de Junho. Vejam bem, os ingratos!...
E identifica os que não gostaram da barretal oração com «a esquerda» - que para ele é, explicitamente, o PS e é, depois, uma equívoca «certa esquerda»...
(tal identificação tem toda a lógica: sendo Lomba um direitinha à maneira, convém-lhe - e de que maneira! - que conste que o PS é de «esquerda» - e, até, como ele diz, «socialista» - sabendo bem que essa é a melhor forma de denegrir a esquerda e o socialismo).
Pergunta o Lomba: «O que disse Barreto de tão ofensivo?».
E responde: «Criticou os políticos, exigiu o "apuramento de responsabilidades" e falou no "direito" das novas gerações em rever a Constituição» - ou seja, remata o Lomba, triunfante, Barreto «disse fielmente o que dizem as pessoas na rua»...
É certo que muitas pessoas, «na rua», criticam os «políticos» e exigem o apuramento de responsabilidades pelas tropelias cometidas «pelos políticos»;
é certo, também, que para essas pessoas, os «políticos», como os «partidos», «são todos iguais»;
e é tragicamente certo que o que essas pessoas dizem, é o que lhes foi dito e redito, todos os dias de todos os anos, pelos comentadores com lugares cativos nos média dominantes - os tais cuja opinião comum a todos, de tantas vezes publicada se transforma em opinião pública...
Pelo que, invocar o que dizem «as pessoas na rua» para fazer de uma manipulação cozinhada uma verdade absoluta, constitui profunda desonestidade - e mostra bem o tipo de condimentos de que é feita a ideologia dominante...
Sobre a Constituição, que é hoje o tema dos temas para o grande capital e para os partidos que o representam - e é, por isso, o tema dos temas para os comentadores com lugar cativo nos média do grande capital - Lomba cumpre a tarefa de não ter dúvidas: «É necessária uma reforma constitucional a sério»!!!
E avançando já com a «necessária» argumentação - que, nos tempos mais próximos, vai ser repetida e repetida por tudo quanto é comentador pago pelo grande capital - Lomba clama por uma revisão «em que todos nós, e os que nasceram depois de 1976, possamos intervir num debate novo e limpo sobre o nosso futuro colectivo»...
Porque, como disse o genial Barreto, citando não sei quem, «cada geração tem o direito de rever a Constituição».
E porque, como disse o sempre genial Barreto, desta vez citando-se a si próprio, para esse debate «novo e limpo» vamos proceder à «repolitização das novas gerações». (quererão Barreto&Lomba Associados dizer que as «novas gerações» já foram, em tempos, politizadas, mas entretanto perderam a politização?...)
Esta apetência participativa, vinda de um Lomba assim, é no mínimo estranha.
Não sabe , talvez, o Lomba - ou sabe, mas não quer que se saiba - que a elaboração da Constituição de Abril, aprovada em 1976, resultou de um processo de participação popular único na história do nosso País - da mesma forma que uma das características essenciais da democracia de Abril foi a sua forte componente participativa.
E como o Lomba muito bem sabe, a democracia burguesa em que vivemos é estruturalmente, intrinsecamente, avessa à participação - o que se compreende, pois se assim não fosse não durava dois dias...
Por isso, quando o Lomba clama por uma revisão «a sério», com a participação de «todos nós, e de todos os que nasceram depois de 1976», sabe muito bem que está a querer enfiar-nos o barrete. E o Barreto.
E é em tom profético que o Lomba termina o seu panegírico de Barreto - que é, simultaneamente, auto-panegírico: «Barreto provavelmente compreendeu, e não foi o único, que certa esquerda se tornou arcaica, conservadora, desconfiada. Essa esquerda devia perceber que, se não quiser fugir ao seu tempo, tem de ouvir Barreto».
Aqui chegado - e independentemente de quem seja a referida «certa esquerda» - só posso desabafar:
«Ouvir Barreto»?: CHIÇA!
POEMA
(A meu lado na carruagem-restaurante,
um pedante faz muitos gestos para exibir
o brasão do anel.)
Também tenho brasão.
Este:
Em campo agreste,
oculta na bainha,
uma espada
com altivez de cipreste
- a lutar sozinha
contra a morte a fingir de acordada.
(Lema do meu brasão)
Viva a solidão!
que cerra mais e mais
os punhos dos homens
- para terem a ilusão
dos dedos iguais.
José Gomes Ferreira
um pedante faz muitos gestos para exibir
o brasão do anel.)
Também tenho brasão.
Este:
Em campo agreste,
oculta na bainha,
uma espada
com altivez de cipreste
- a lutar sozinha
contra a morte a fingir de acordada.
(Lema do meu brasão)
Viva a solidão!
que cerra mais e mais
os punhos dos homens
- para terem a ilusão
dos dedos iguais.
José Gomes Ferreira
ALA QUÊ?
É voz corrente que há, no PS, uma «ala esquerda».
Haverá?: responda quem souber.
Dizem uns que ela é indetectável mesmo que com o recurso a forte lupa; segundo outros, ela é detectável mesmo à vista desarmada; dizem terceiros que tanto se lhes faz...
Há ainda quem diga que há e não há, isto é: há uma coisa com esse nome à qual está atribuída a exclusiva, útil e utilitária tarefa de mostrar que no PS - líder incontestável da contra-revolução e da política de direita - há uma «ala esquerda» - que é coisa que fica sempre bem.
Diz a mesma voz corrente que Ana Gomes integra essa «ala esquerda» - que uns detectam, outros não e outros nem sim nem não.
Integrará?: responda quem souber.
Certo-certo é que, de vez em quando, a exuberante eurodeputada do PS, arreia a giga e, de mãos nas ancas, representa a tradicional peixeirada que a catapulta para a ribalta mediática - umas vezes dando ares de «esquerda»; outras, nem por isso; outras, bem pelo contrário...
Há dias, Ana Gomes entornou no DN um texto intitulado «Líbia: de armas e sandálias, pela liberdade».
Nele, a representante da (in)detectável «ala esquerda», destilando emoção por tudo quanto é sítio, relata as suas impressões sobre uma viagem à Líbia e o seu entusiasmo com a eficácia libertadora e humanista dos bombardeamentos da NATO.
É neste estilo de correspondente de guerra que puxa a brasa à sua sardinha - à «esquerda» do fogareiro, obviamente - que ela arranca:
«À saída de Bengazi, passei pelas carcaças dos tanques de Kadhafi: impressionante a precisão cirúrgica da intervenção aérea que impediu o massacre».
E é com ainda maior fervor bombista e ardor de «esquerda» que prossegue:
«Foi redentora a decisão das forças aliadas de levar à prática a "Responsabilidade de Proteger»...
Mais adiante - chamando à memória tudo o que leu sobre o assunto - conta que conversou «com combatentes sobre o desenrolar espontâneo da revolta popular», conversa que, faz questão de sublinhar, decorreu «na linha da frente» (se bem entendo: onde não caem bombas da NATO).
E o que é que lhe disseram os «combatentes»?: para além, naturalmente (isto digo eu...), de expressarem o desejo de que a NATO bombardeie até à rendição todas as cidades que estão sob controlo do governo líbio, confessaram-lhe, (isto diz ela), que querem «uma democracia secular», com «medias livres», com «leis eleitorais e reformas constitucionais e institucionais».
Enfim, uma «democracia» (isto digo eu) mais coisa menos coisa como a que existe em Portugal, graças à contra-revolução e à política de direita lideradas pelo partido no qual Ana Gomes integra a (in)detectável «ala esquerda».
E é com lágrimas de emoção libertadora correndo-lhe pelas falangetas que ela descreve as cidades libertadas, (onde) «as crianças brincam nas ruas»; onde «as lojas estão abertas e até os semáforos são obedecidos»... enquanto na Tripoli ocupada, «faltam gasolina, electricidade, alimentos e a repressão é brutal»...
Aqui chegado, não posso deixar de dar toda a razão a Ana Gomes:
é um facto que, em Tripoli,
as crianças não brincam nas ruas,
as lojas estão fechadas,
os semáforos nem sequer funcionam,
não há alimentos,
a repressão é brutal.
E nem é preciso ir lá para saber que assim é: basta saber que os redentores/protectores - amigos e heróis de Ana Gomes - despejam sobre a cidade, dia e noite, toneladas e toneladas de bombas.
Bombas que, não obstante Ana Gomes nos garantir que são «redentoras» e cumpridoras da «responsabilidade de proteger»,
destroem bairros residenciais, escolas, hospitais e ferem, estropiam e matam milhares de pessoas inocentes;
bombas que são complementadas por um cerrado bloqueio humanitário que impede a entrada de alimentos e medicamentos;
bombas que matam quando rebentam e que, por efeito do urânio empobrecido que contêm, continuam a matar pelos tempos fora;
bombas que - Obama o diz- são ainda poucas e têm que ser multiplicadas para que a «protecção» seja total.
Mas isso que importa? Mas isso que interessa?
Para a intrépida activista da «ala esquerda», o futuro da Líbia é por demais promissor:
depois da destruição redentora, virá a ocupação libertadora, à qual se seguirá a reconstrução protectora (as grandes empresas dos países ocupantes, generosas, reconstruirão tudo, tudo, tudo o que as suas bombas destruíram); e, finalmente, chegará a democracia salvadora - made in USA - garante da democrática transferência das riquezas naturais da Líbia - petróleo incluído... - para a pátria da democracia, da liberdade e dos direitos humanos: a mui louvada pátria do mui louvado Obama, descendente directo e herdeiro de Bush-filho, de Clinton, de Bush-pai, de Reagan e de todo o cortejo de redentores, libertadores, reconstrutores e salvadores aos quais o mundo e a humanidade tanto devem - e tanto têm ainda que pagar...
Voltando à matéria de primeiro: ala quê?...
É caso para dizer que um partido com tal «ala esquerda» nem precisa de «ala direita» para ser o que é.
Haverá?: responda quem souber.
Dizem uns que ela é indetectável mesmo que com o recurso a forte lupa; segundo outros, ela é detectável mesmo à vista desarmada; dizem terceiros que tanto se lhes faz...
Há ainda quem diga que há e não há, isto é: há uma coisa com esse nome à qual está atribuída a exclusiva, útil e utilitária tarefa de mostrar que no PS - líder incontestável da contra-revolução e da política de direita - há uma «ala esquerda» - que é coisa que fica sempre bem.
Diz a mesma voz corrente que Ana Gomes integra essa «ala esquerda» - que uns detectam, outros não e outros nem sim nem não.
Integrará?: responda quem souber.
Certo-certo é que, de vez em quando, a exuberante eurodeputada do PS, arreia a giga e, de mãos nas ancas, representa a tradicional peixeirada que a catapulta para a ribalta mediática - umas vezes dando ares de «esquerda»; outras, nem por isso; outras, bem pelo contrário...
Há dias, Ana Gomes entornou no DN um texto intitulado «Líbia: de armas e sandálias, pela liberdade».
Nele, a representante da (in)detectável «ala esquerda», destilando emoção por tudo quanto é sítio, relata as suas impressões sobre uma viagem à Líbia e o seu entusiasmo com a eficácia libertadora e humanista dos bombardeamentos da NATO.
É neste estilo de correspondente de guerra que puxa a brasa à sua sardinha - à «esquerda» do fogareiro, obviamente - que ela arranca:
«À saída de Bengazi, passei pelas carcaças dos tanques de Kadhafi: impressionante a precisão cirúrgica da intervenção aérea que impediu o massacre».
E é com ainda maior fervor bombista e ardor de «esquerda» que prossegue:
«Foi redentora a decisão das forças aliadas de levar à prática a "Responsabilidade de Proteger»...
Mais adiante - chamando à memória tudo o que leu sobre o assunto - conta que conversou «com combatentes sobre o desenrolar espontâneo da revolta popular», conversa que, faz questão de sublinhar, decorreu «na linha da frente» (se bem entendo: onde não caem bombas da NATO).
E o que é que lhe disseram os «combatentes»?: para além, naturalmente (isto digo eu...), de expressarem o desejo de que a NATO bombardeie até à rendição todas as cidades que estão sob controlo do governo líbio, confessaram-lhe, (isto diz ela), que querem «uma democracia secular», com «medias livres», com «leis eleitorais e reformas constitucionais e institucionais».
Enfim, uma «democracia» (isto digo eu) mais coisa menos coisa como a que existe em Portugal, graças à contra-revolução e à política de direita lideradas pelo partido no qual Ana Gomes integra a (in)detectável «ala esquerda».
E é com lágrimas de emoção libertadora correndo-lhe pelas falangetas que ela descreve as cidades libertadas, (onde) «as crianças brincam nas ruas»; onde «as lojas estão abertas e até os semáforos são obedecidos»... enquanto na Tripoli ocupada, «faltam gasolina, electricidade, alimentos e a repressão é brutal»...
Aqui chegado, não posso deixar de dar toda a razão a Ana Gomes:
é um facto que, em Tripoli,
as crianças não brincam nas ruas,
as lojas estão fechadas,
os semáforos nem sequer funcionam,
não há alimentos,
a repressão é brutal.
E nem é preciso ir lá para saber que assim é: basta saber que os redentores/protectores - amigos e heróis de Ana Gomes - despejam sobre a cidade, dia e noite, toneladas e toneladas de bombas.
Bombas que, não obstante Ana Gomes nos garantir que são «redentoras» e cumpridoras da «responsabilidade de proteger»,
destroem bairros residenciais, escolas, hospitais e ferem, estropiam e matam milhares de pessoas inocentes;
bombas que são complementadas por um cerrado bloqueio humanitário que impede a entrada de alimentos e medicamentos;
bombas que matam quando rebentam e que, por efeito do urânio empobrecido que contêm, continuam a matar pelos tempos fora;
bombas que - Obama o diz- são ainda poucas e têm que ser multiplicadas para que a «protecção» seja total.
Mas isso que importa? Mas isso que interessa?
Para a intrépida activista da «ala esquerda», o futuro da Líbia é por demais promissor:
depois da destruição redentora, virá a ocupação libertadora, à qual se seguirá a reconstrução protectora (as grandes empresas dos países ocupantes, generosas, reconstruirão tudo, tudo, tudo o que as suas bombas destruíram); e, finalmente, chegará a democracia salvadora - made in USA - garante da democrática transferência das riquezas naturais da Líbia - petróleo incluído... - para a pátria da democracia, da liberdade e dos direitos humanos: a mui louvada pátria do mui louvado Obama, descendente directo e herdeiro de Bush-filho, de Clinton, de Bush-pai, de Reagan e de todo o cortejo de redentores, libertadores, reconstrutores e salvadores aos quais o mundo e a humanidade tanto devem - e tanto têm ainda que pagar...
Voltando à matéria de primeiro: ala quê?...
É caso para dizer que um partido com tal «ala esquerda» nem precisa de «ala direita» para ser o que é.
POEMA
(«Ó papoilas da vingança/a nova cor da esperança/é a vossa cor».
A mãe cantava-lhe estes versos.
Entretanto consta que no Baleizão mataram uma camponesa:
Catarina Eufémia.)
Toda a noite cantaste em voz baixa,
para adormecer o menino,
a canção do Graça:
«Ó papoilas dos trigais...»
Canta, canta,
para o acordares mais.
(Transforma-lhe os dedos
em pátrias de punhais.)
José Gomes Ferreira
A mãe cantava-lhe estes versos.
Entretanto consta que no Baleizão mataram uma camponesa:
Catarina Eufémia.)
Toda a noite cantaste em voz baixa,
para adormecer o menino,
a canção do Graça:
«Ó papoilas dos trigais...»
Canta, canta,
para o acordares mais.
(Transforma-lhe os dedos
em pátrias de punhais.)
José Gomes Ferreira
O QUE FAZ CORRER ASSIS
Da entrevista de Francisco Assis ao Diário de Notícias (com sublinhados meus, em jeito de comentário...):
«É evidente que me candidato a secretário-geral e a primeiro-ministro».
«O meu objectivo é mesmo ser o secretário-geral e ser o próximo primeiro-ministro socialista de Portugal».
«É evidente que o PS tem de honrar em absoluto os compromissos assumidos» (com a troika).
«Desejo (a Passos Coelho) que tudo lhe corra bem».
«Desejo a melhor sorte ao próximo Governo».
«É bom para o País, é bom para a saúde das instituições democráticas, para o prestígio do próprio regime, que esta legislatura seja cumprida».
«Se as eleições fossem só daqui a quatro anos, isso era um bom sinal».
Pergunta: «Dentro do PS é da ala esquerda?»
Resposta: «Sou um homem de esquerda democrática, sempre fui desde que me conheço com consciência política. Não tenho uma preocupação excessiva em estar-me a colocar mais à esquerda ou mais à direita, insiro-me nessa tradição histórica do socialismo democrático e da social-democracia.
(...) Tenho dito ao longo dos anos que talvez a minha maior referência política seja o dr. Mário Soares. Mas também não é difícil que assim seja. É um fundador, não apenas do PS como da democracia portuguesa».
Comentário do entrevistador: «O discurso de Francisco Assis, fluente, sai rápido, está estruturado. Faz lembrar António Guterres».
«É evidente que me candidato a secretário-geral e a primeiro-ministro».
«O meu objectivo é mesmo ser o secretário-geral e ser o próximo primeiro-ministro socialista de Portugal».
«É evidente que o PS tem de honrar em absoluto os compromissos assumidos» (com a troika).
«Desejo (a Passos Coelho) que tudo lhe corra bem».
«Desejo a melhor sorte ao próximo Governo».
«É bom para o País, é bom para a saúde das instituições democráticas, para o prestígio do próprio regime, que esta legislatura seja cumprida».
«Se as eleições fossem só daqui a quatro anos, isso era um bom sinal».
Pergunta: «Dentro do PS é da ala esquerda?»
Resposta: «Sou um homem de esquerda democrática, sempre fui desde que me conheço com consciência política. Não tenho uma preocupação excessiva em estar-me a colocar mais à esquerda ou mais à direita, insiro-me nessa tradição histórica do socialismo democrático e da social-democracia.
(...) Tenho dito ao longo dos anos que talvez a minha maior referência política seja o dr. Mário Soares. Mas também não é difícil que assim seja. É um fundador, não apenas do PS como da democracia portuguesa».
Comentário do entrevistador: «O discurso de Francisco Assis, fluente, sai rápido, está estruturado. Faz lembrar António Guterres».
POEMA
(Garcia Lorca foi fuzilado)
Terra:
endurece mais!
Recusa abrir-te em cova
para esconder o Poeta
no rumor das raízes.
Deixa-o apodrecer no chão
como uma bandeira de carne de remorsos.
José Gomes Ferreira
Terra:
endurece mais!
Recusa abrir-te em cova
para esconder o Poeta
no rumor das raízes.
Deixa-o apodrecer no chão
como uma bandeira de carne de remorsos.
José Gomes Ferreira
VASCO, NOME DE ABRIL (3)
Por tudo o que antes se disse, recordaremos e saudaremos, hoje, a partir das 11H30, a memória do Companheiro Vasco, o seu exemplo de dignidade e de verticalidade, de frontalidade e de lealdade, de coragem e de patriotismo, de inteligência e de cultura, de modéstia e de vontade de saber, de lucidez e de coerência - qualidades que ele sempre complementou com uma postura de fraterna solidariedade.
Por tudo isso, ele ficará para sempre como referência maior da nossa luta e dos nossos sonhos - e, pelas mesmas razões, será sempre objecto do ódio dos grandes e poderosos e dos seus lacaios, que não lhe perdoam ter sonhado e lutado por um Portugal de justiça social e de liberdade - que não lhe perdoam, acima de tudo, ter demonstrado, na prática, que esse País novo é possível.
Por tudo isso, ele foi admirado por figuras maiores da Cultura portuguesa, por grandes artistas plásticos e escritores; por grandes músicos e cantores; por poetas que o cantaram - entre eles, Eugénio de Andrade, falecido dois dias após o falecimento do Companheiro Vasco, que lhe dedicou o seu belíssimo poema
O COMUM DA TERRA
«Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a transparência
também sabe que no verão pelas veredas
de cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tantas palavras que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
ventos areias mastros lábios, tudo ardia»
Por tudo isso, grandes políticos, com papel preponderante, crucial em alguns casos, na resistência ao fascismo e na Revolução de Abril, manifestaram profundo reconhecimento pelo seu papel.
Entre eles Álvaro Cunhal - que a morte nos levou, também, dois dias após nos ter roubado o Companheiro Vasco - que dele disse, referindo o fim do V Governo Provisório e a sua exoneração do cargo de primeiro-ministro e de efectivas responsabilidades militares:
«Conseguiram arredar do poder aquele contra o qual, utilizando os mais indignos meios e campanhas, tinham movido uma guerra sem quartel.
Sem quartel, porque, firme e corajoso, durante mais de um ano primeiro-ministro nos tempos cruciais da Revolução, deu tudo de si próprio para que em Portugal fosse criada uma sociedade mais justa e melhor.
Sempre com o povo, que o aclamava "força, força, Companheiro Vasco/nós seremos a muralha de aço".
Afastaram o general, afastaram o primeiro-ministro. Não afastaram o "Companheiro Vasco" do coração de muitas e muitas centenas de milhar de portugueses e portuguesas para quem a gratidão não é uma palavra vã».
Por tudo isso, o General Vasco Gonçalves é, será sempre, o que a linguagem certeira do povo decidiu que seja:
«Vasco, amigo, o povo está contigo»;
ou apenas: «Companheiro Vasco»;
ou, simplesmente «O General»;
ou, talvez ainda mais sentidamente, apenas e só «Vasco».
Vasco: nome querido entre os mais queridos.
Vasco: nome nosso entre os mais nossos - por isso, nome que se escolhe para dar aos filhos.
Vasco: nome de resistência e de luta.
Vasco: nome de firmeza, de coragem e de esperança.
Vasco: nome de futuro.
VASCO: NOME DE ABRIL.
Por tudo isso, ele ficará para sempre como referência maior da nossa luta e dos nossos sonhos - e, pelas mesmas razões, será sempre objecto do ódio dos grandes e poderosos e dos seus lacaios, que não lhe perdoam ter sonhado e lutado por um Portugal de justiça social e de liberdade - que não lhe perdoam, acima de tudo, ter demonstrado, na prática, que esse País novo é possível.
Por tudo isso, ele foi admirado por figuras maiores da Cultura portuguesa, por grandes artistas plásticos e escritores; por grandes músicos e cantores; por poetas que o cantaram - entre eles, Eugénio de Andrade, falecido dois dias após o falecimento do Companheiro Vasco, que lhe dedicou o seu belíssimo poema
O COMUM DA TERRA
«Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a transparência
também sabe que no verão pelas veredas
de cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tantas palavras que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
ventos areias mastros lábios, tudo ardia»
Por tudo isso, grandes políticos, com papel preponderante, crucial em alguns casos, na resistência ao fascismo e na Revolução de Abril, manifestaram profundo reconhecimento pelo seu papel.
Entre eles Álvaro Cunhal - que a morte nos levou, também, dois dias após nos ter roubado o Companheiro Vasco - que dele disse, referindo o fim do V Governo Provisório e a sua exoneração do cargo de primeiro-ministro e de efectivas responsabilidades militares:
«Conseguiram arredar do poder aquele contra o qual, utilizando os mais indignos meios e campanhas, tinham movido uma guerra sem quartel.
Sem quartel, porque, firme e corajoso, durante mais de um ano primeiro-ministro nos tempos cruciais da Revolução, deu tudo de si próprio para que em Portugal fosse criada uma sociedade mais justa e melhor.
Sempre com o povo, que o aclamava "força, força, Companheiro Vasco/nós seremos a muralha de aço".
Afastaram o general, afastaram o primeiro-ministro. Não afastaram o "Companheiro Vasco" do coração de muitas e muitas centenas de milhar de portugueses e portuguesas para quem a gratidão não é uma palavra vã».
Por tudo isso, o General Vasco Gonçalves é, será sempre, o que a linguagem certeira do povo decidiu que seja:
«Vasco, amigo, o povo está contigo»;
ou apenas: «Companheiro Vasco»;
ou, simplesmente «O General»;
ou, talvez ainda mais sentidamente, apenas e só «Vasco».
Vasco: nome querido entre os mais queridos.
Vasco: nome nosso entre os mais nossos - por isso, nome que se escolhe para dar aos filhos.
Vasco: nome de resistência e de luta.
Vasco: nome de firmeza, de coragem e de esperança.
Vasco: nome de futuro.
VASCO: NOME DE ABRIL.
O TANAS!
Em Castelo Branco, Cavaco Silva e António Barreto - dois figurões da contra-revolução, inimigos de Abril e da sua democracia, responsáveis directos, cada um à sua maneira, pela situação em que hoje se encontra Portugal - fizeram o que se esperava que fizessem: falaram, falaram, falaram...
Num Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a sério, ninguém lhes teria dado a palavra.
Em Lisboa, na Embaixada dos EUA, Mário Soares, o vendilhão da independência nacional, e Frank Carlucci, o pagador, reencontraram-se - e fizeram o que se esperava que fizessem: relembraram os golpes e golpaças com que destruíram a democracia de Abril e instalaram esta coisa que é a democracia deles.
Num Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a sério, teriam falado mas era O TANAS!
Num Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a sério, ninguém lhes teria dado a palavra.
Em Lisboa, na Embaixada dos EUA, Mário Soares, o vendilhão da independência nacional, e Frank Carlucci, o pagador, reencontraram-se - e fizeram o que se esperava que fizessem: relembraram os golpes e golpaças com que destruíram a democracia de Abril e instalaram esta coisa que é a democracia deles.
Num Dia de Portugal, de Camões e das Comunidades Portuguesas, a sério, teriam falado mas era O TANAS!
POEMA
(Hoje acordei descarnado... nu de ilusões.)
Já não ouço no som do Chicote
violinos de adormecer.
Nem sinto no frio das algemas
asas geladas de sonho.
Nem vejo nas cicatrizes
os misteriosos sinais
do Ser e do Não-Ser...
Ou nas curvas da correia,
andorinhas a voar...
Aprendi a ver-me escravo para ser livre.
E agora olho virilmente para o mundo
com estes dez mil olhos de sangue
que o Chicote me rasgou na pele.
José Gomes Ferreira
Já não ouço no som do Chicote
violinos de adormecer.
Nem sinto no frio das algemas
asas geladas de sonho.
Nem vejo nas cicatrizes
os misteriosos sinais
do Ser e do Não-Ser...
Ou nas curvas da correia,
andorinhas a voar...
Aprendi a ver-me escravo para ser livre.
E agora olho virilmente para o mundo
com estes dez mil olhos de sangue
que o Chicote me rasgou na pele.
José Gomes Ferreira
VASCO, NOME DE ABRIL (2)
É muito o que devemos ao Companheiro Vasco, é grande a dívida de gratidão que temos para com ele - uma dívida tanto maior quanto grandes são as diferenças entre esse tempo novo de Abril e este tempo velho de política de direita, este tempo de impiedoso ajuste de contas com os ideais e os valores de Abril e as conquistas da sua Revolução.
À política dos governos do primeiro-ministro dos trabalhadores e do povo - que tinha como referências primordiais o respeito pelos direitos e interesses da imensa maioria dos portugueses - sucedeu, desde há 35 anos, desde o primeiro governo PS/Soares até hoje, a política que tem como único e exclusivo objectivo servir, com fidelidade canina, os interesses da imensa minoria de portugueses: os grandes grupos económicos e financeiros.
À política que visava a eliminação das desigualdades e injustiças sociais, sucedeu esta política dos soares, cavacos, guterres, barrosos, sócrates, coelhos & portas, que acentuou e gerou novas e profundas desigualdades e injustiças.
À política patriótica e de defesa da independência nacional, sucedeu esta política de sujeição servil ao imperialismo norte-americano e à sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia.
À política de paz, que pôs termo às guerras coloniais e proclamou a solidariedade com todos os povos, sucedeu esta política de envolvimento de Portugal em criminosas guerras de ocupação colonialista que tornam os governos portugueses co-responsáveis no assassinato de centenas e centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes.
Em resumo: a democracia de Abril, progressista, avançada, moderna, participada, virada para o futuro, do povo e para o povo - e da qual o Companheiro Vasco foi um dos grandes construtores - foi substituída por esta «democracia» conservadora, recuada, velha, virada para o passado, do grande capital e para o grande capital - esta «democracia» de fachada, de faz-de-conta, cada vez mais carenciada de conteúdo democrático, para a qual Abril é um pesadelo e o passado de opressão e exploração, um sonho.
Dito de outra forma: o regime democrático nascido da Revolução de Abril, moldado de acordo com os interesses da imensa maioria dos portugueses e consagrado na Constituição da República Portuguesa, foi substituído por este regime de política única executada por um partido único bicéfalo, fora da Lei Fundamental do País, moldado ao sabor dos interesses exclusivos do grande capital - o qual, em muitos casos, é representado pelos mesmo grupos que foram o sustentáculo do regime fascista.
É contra o tempo velho do presente e relembrando o tempo novo de Abril que, amanhã, sábado, iremos homenagear a memória do Companheiro Vasco.
Garantindo-lhe que a luta continua.
Por Abril.
À política dos governos do primeiro-ministro dos trabalhadores e do povo - que tinha como referências primordiais o respeito pelos direitos e interesses da imensa maioria dos portugueses - sucedeu, desde há 35 anos, desde o primeiro governo PS/Soares até hoje, a política que tem como único e exclusivo objectivo servir, com fidelidade canina, os interesses da imensa minoria de portugueses: os grandes grupos económicos e financeiros.
À política que visava a eliminação das desigualdades e injustiças sociais, sucedeu esta política dos soares, cavacos, guterres, barrosos, sócrates, coelhos & portas, que acentuou e gerou novas e profundas desigualdades e injustiças.
À política patriótica e de defesa da independência nacional, sucedeu esta política de sujeição servil ao imperialismo norte-americano e à sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia.
À política de paz, que pôs termo às guerras coloniais e proclamou a solidariedade com todos os povos, sucedeu esta política de envolvimento de Portugal em criminosas guerras de ocupação colonialista que tornam os governos portugueses co-responsáveis no assassinato de centenas e centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes.
Em resumo: a democracia de Abril, progressista, avançada, moderna, participada, virada para o futuro, do povo e para o povo - e da qual o Companheiro Vasco foi um dos grandes construtores - foi substituída por esta «democracia» conservadora, recuada, velha, virada para o passado, do grande capital e para o grande capital - esta «democracia» de fachada, de faz-de-conta, cada vez mais carenciada de conteúdo democrático, para a qual Abril é um pesadelo e o passado de opressão e exploração, um sonho.
Dito de outra forma: o regime democrático nascido da Revolução de Abril, moldado de acordo com os interesses da imensa maioria dos portugueses e consagrado na Constituição da República Portuguesa, foi substituído por este regime de política única executada por um partido único bicéfalo, fora da Lei Fundamental do País, moldado ao sabor dos interesses exclusivos do grande capital - o qual, em muitos casos, é representado pelos mesmo grupos que foram o sustentáculo do regime fascista.
É contra o tempo velho do presente e relembrando o tempo novo de Abril que, amanhã, sábado, iremos homenagear a memória do Companheiro Vasco.
Garantindo-lhe que a luta continua.
Por Abril.
VASCO, NOME DE ABRIL
A Comissão Promotora da Associação Conquistas da Revolução promove - no sábado, dia 11, às 11h30 - uma romagem ao cemitério do Alto de S. João, com a qual presta homenagem ao General Vasco Gonçalves por ocasião do sexto aniversário da sua morte.
O Cravo de Abril associa-se a essa homenagem e apela aos seus visitantes para que compareçam e passem palavra a outros amigos.
Entretanto, de hoje até sábado, recordaremos aqui a figura, a obra e o exemplo do Companheiro Vasco.
É a modesta mas muito sentida homenagem do Cravo de Abril a essa figura maior da nossa Revolução.
Da memória do 25 de Abril de 1974 - desse tempo novo de povo feliz nas ruas conquistando a liberdade através do seu exercício pleno e dando os primeiros passos no caminho do processo revolucionário que fez da Revolução de Abril o momento mais luminoso da nossa história colectiva - emerge, límpida e transparente, a figura ímpar de Vasco Gonçalves, como o mais puro e fiel intérprete dos ideais libertadores e transformadores de Abril.
Os quatro governos provisórios de que, durante o curto período de 14 meses, ele foi primeiro-ministro, corresponderam ao período mais exaltante, inovador, criativo e avançado do processo revolucionário.
Com ele, Portugal teve, pela primeira e (até agora) única vez, um primeiro-ministro que se identificava totalmente com os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Com ele, a classe operária lançou-se ao assalto do céu... avançando para as grandes Conquistas da Revolução: as nacionalizações, o controlo operário, a reforma agrária, a descolonização, a liquidação do capitalismo monopolista de Estado - num processo rumo à construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.
Com ele, o movimento operário e popular, as massas populares em movimento, deram os primeiros passos para a construção da democracia de Abril: uma democracia avançada nas suas componentes social, política, económica e cultural; uma democracia amplamente participada - como nunca, antes, tinha existido em Portugal e nunca, depois, voltou a existir; uma democracia de facto, em que a opinião dos trabalhadores e dos cidadãos era estimulada e ouvida e, por isso, contava, imprimindo ritmos e conteúdos às políticas praticadas.
Com ele, Portugal ergueu-se, pela primeira e (até agora) única vez, como País soberano, independente, livre.
Por tudo isso, o Companheiro Vasco ficará para sempre na memória e no coração dos homens e mulheres de Abril.
O Cravo de Abril associa-se a essa homenagem e apela aos seus visitantes para que compareçam e passem palavra a outros amigos.
Entretanto, de hoje até sábado, recordaremos aqui a figura, a obra e o exemplo do Companheiro Vasco.
É a modesta mas muito sentida homenagem do Cravo de Abril a essa figura maior da nossa Revolução.
Da memória do 25 de Abril de 1974 - desse tempo novo de povo feliz nas ruas conquistando a liberdade através do seu exercício pleno e dando os primeiros passos no caminho do processo revolucionário que fez da Revolução de Abril o momento mais luminoso da nossa história colectiva - emerge, límpida e transparente, a figura ímpar de Vasco Gonçalves, como o mais puro e fiel intérprete dos ideais libertadores e transformadores de Abril.
Os quatro governos provisórios de que, durante o curto período de 14 meses, ele foi primeiro-ministro, corresponderam ao período mais exaltante, inovador, criativo e avançado do processo revolucionário.
Com ele, Portugal teve, pela primeira e (até agora) única vez, um primeiro-ministro que se identificava totalmente com os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Com ele, a classe operária lançou-se ao assalto do céu... avançando para as grandes Conquistas da Revolução: as nacionalizações, o controlo operário, a reforma agrária, a descolonização, a liquidação do capitalismo monopolista de Estado - num processo rumo à construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados.
Com ele, o movimento operário e popular, as massas populares em movimento, deram os primeiros passos para a construção da democracia de Abril: uma democracia avançada nas suas componentes social, política, económica e cultural; uma democracia amplamente participada - como nunca, antes, tinha existido em Portugal e nunca, depois, voltou a existir; uma democracia de facto, em que a opinião dos trabalhadores e dos cidadãos era estimulada e ouvida e, por isso, contava, imprimindo ritmos e conteúdos às políticas praticadas.
Com ele, Portugal ergueu-se, pela primeira e (até agora) única vez, como País soberano, independente, livre.
Por tudo isso, o Companheiro Vasco ficará para sempre na memória e no coração dos homens e mulheres de Abril.
UM SONHO HÁ MUITO CUMPRIDO
Entre as abundantes considerações produzidas por analistas, comentadores, politólogos e etc. em torno dos resultados eleitorais, há uma que quase todos repetem: é a que se refere àquilo a que uns chamam «o sonho da direita» e outros denominam de «o sonho de Sá Carneiro» - cujo, dizem todos, teria sido «finalmente cumprido!» nestas eleições.
Trata-se do objectivo traçado pela direita de alcançar «uma maioria, um governo e um presidente» e, assim, ficar com plenos poderes para fazer, como quiser, a política que quiser.
Obviamente, as coisas são postas assim para que os leitores e ouvintes sejam levados a pensar que, até agora, por falta de cumprimento do tal «sonho», a direita não fez, como queria, a política que desejava.
Ora, como a realidade mostra inequivocamente, o que tem acontecido é que a política levada à prática nos últimos 35 anos - e que afundou o País - é exactamente a política de direita que constitui o sonho da direita.
O que quer dizer que - de facto! - não foi no domingo que «o sonho de uma maioria, um governo e um presidente» foi «finalmente cumprido!».
Esse «sonho» começou - de facto! - a ser cumprido há 35 anos, durante os quais teve expressão concreta na política de direita sustentada, aplicada e abençoada pelas sucessivas maiorias, governos e presidentes...
Com a enorme vantagem - para a direita, é claro - de, muitas vezes, essas maiorias, governos e presidentes se dizerem de «esquerda» e «socialistas».
POEMA
(Mais uma definição de poeta
num carro eléctrico para Almirante Reis.)
Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina -
mas apenas vê
o que não ilumina.
José Gomes Ferreira
num carro eléctrico para Almirante Reis.)
Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina -
mas apenas vê
o que não ilumina.
José Gomes Ferreira
A TROIKA DE LACAIOS
O que a seguir se escreve não constitui qualquer novidade para os visitantes do Cravo de Abril.
Trata-se tão-somente de, recapitulando matéria dada, avivar memórias...
1 - Nesta concreta democracia-burguesa em que vivemos, as «eleições» fazem-se e servem para:
a) - exibir a fachada democrática do regime, fingindo ser o que não é;
b) - garantir a continuidade da política de direita - assegurando sempre a vitória de um dos dois partidos do grande capital;
c)- liquidar eleitoralmente o PCP.
Nos últimos 35 anos, o poder do grande capital tem alcançado os dois primeiros objectivos - e não alcançou, nem alcançará, o terceiro.
2 - Os resultados eleitorais dos partidos da troika nacional não alteram nada de essencial no que respeita à política de direita.
Assim:
Sendo o PSD o vencedor, a política de direita venceu e vai continuar, agora tendo como executante um governo Passos/Portas - e com o PS a fingir de «oposição»;
Se o vencedor tivesse sido o PS, a política de direita teria vencido e iria continuar, nesse caso tendo como executante um governo Sócrates/com quem fosse necessário - com o PSD e o CDS a fingirem de «oposição».
Tudo de acordo com as vontades do grande capital...
«O futuro ministro das Finanças (do Governo Passos/Portas) tem que ser fluente em finanças e fluente em inglês, para poder conversar direitinho nas reuniões internacionais e, em regime capitalista, não se pode dizer mal dos mercados, não se pode dizer mal de quem nos empresta dinheiro».(Belmiro dixit)
... vontades que são ordens que a troika de lacaios cumprirá fielmente.
Também sem pretensões a novidade, mas apenas para avivar memórias:
A LUTA CONTINUA!
Trata-se tão-somente de, recapitulando matéria dada, avivar memórias...
1 - Nesta concreta democracia-burguesa em que vivemos, as «eleições» fazem-se e servem para:
a) - exibir a fachada democrática do regime, fingindo ser o que não é;
b) - garantir a continuidade da política de direita - assegurando sempre a vitória de um dos dois partidos do grande capital;
c)- liquidar eleitoralmente o PCP.
Nos últimos 35 anos, o poder do grande capital tem alcançado os dois primeiros objectivos - e não alcançou, nem alcançará, o terceiro.
2 - Os resultados eleitorais dos partidos da troika nacional não alteram nada de essencial no que respeita à política de direita.
Assim:
Sendo o PSD o vencedor, a política de direita venceu e vai continuar, agora tendo como executante um governo Passos/Portas - e com o PS a fingir de «oposição»;
Se o vencedor tivesse sido o PS, a política de direita teria vencido e iria continuar, nesse caso tendo como executante um governo Sócrates/com quem fosse necessário - com o PSD e o CDS a fingirem de «oposição».
Tudo de acordo com as vontades do grande capital...
«O futuro ministro das Finanças (do Governo Passos/Portas) tem que ser fluente em finanças e fluente em inglês, para poder conversar direitinho nas reuniões internacionais e, em regime capitalista, não se pode dizer mal dos mercados, não se pode dizer mal de quem nos empresta dinheiro».(Belmiro dixit)
... vontades que são ordens que a troika de lacaios cumprirá fielmente.
Também sem pretensões a novidade, mas apenas para avivar memórias:
A LUTA CONTINUA!
POEMA
(A Censura não deixou publicar
estes versos n'«O Diabo».)
Posso lá compreender os teus olhos resignados
com qualquer mecânica de Primavera!
Eu, que estou farto das canções vazias dos pássaros
e dos montes de pedras
que já ninguém sabe quem criou
neste enredo da preguiça das árvores
e repetirem sonâmbulas
a herança azul
do primeiro caos da criação.
Eu quero outra luz,
outro sol,
outra morte,
neste planeta de cadáveres
enfurecido de flores.
Eu que só choro diante das paisagens
quando me lembro que por dentro das pedras
corre, negro e escondido,
o sangue humano de todos os fuzilados.
A Primavera queremos nós criá-la.
Nós, os homens.
José Gomes Ferreira
estes versos n'«O Diabo».)
Posso lá compreender os teus olhos resignados
com qualquer mecânica de Primavera!
Eu, que estou farto das canções vazias dos pássaros
e dos montes de pedras
que já ninguém sabe quem criou
neste enredo da preguiça das árvores
e repetirem sonâmbulas
a herança azul
do primeiro caos da criação.
Eu quero outra luz,
outro sol,
outra morte,
neste planeta de cadáveres
enfurecido de flores.
Eu que só choro diante das paisagens
quando me lembro que por dentro das pedras
corre, negro e escondido,
o sangue humano de todos os fuzilados.
A Primavera queremos nós criá-la.
Nós, os homens.
José Gomes Ferreira
«O JOGO DEMOCRÁTICO»...
No domingo, mal se soube que (não contando com os abstencionistas...) o PSD era a força mais votada,
1 - A troika internacional felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e lembrou ao novo chefe da troika nacional os compromissos assumidos.
2 - Paulo Portas felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e tratou logo de falar do futuro governo, que deve ter muitos ministérios para que tenha muitos ministros.
3 - Um magote de pessoas, na rua, felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - candidatando-se a futuros boys.
4 - José Sócrates felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e demitiu-se de tudo.
5 - Francisco Louçã felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e não se demitiu de nada.
Assim se joga «o jogo democrático» nesta democracia-de-faz-de-conta em que vivemos.
1 - A troika internacional felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e lembrou ao novo chefe da troika nacional os compromissos assumidos.
2 - Paulo Portas felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e tratou logo de falar do futuro governo, que deve ter muitos ministérios para que tenha muitos ministros.
3 - Um magote de pessoas, na rua, felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - candidatando-se a futuros boys.
4 - José Sócrates felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e demitiu-se de tudo.
5 - Francisco Louçã felicitou Passos Coelho pela vitória eleitoral - e não se demitiu de nada.
Assim se joga «o jogo democrático» nesta democracia-de-faz-de-conta em que vivemos.
POEMA
(Testamento de um fuzilado.)
«Não me falem de fé!
Eu não preciso de fé!
Basta-me morrer de frente
- nesta camaradagem
com todos os mortos de mãos dadas
que desde o princípio do mundo
não quiseram morrer inutilmente...
Fé? Fé?
Eu não preciso de fé!
Basta-me morrer de pé
num desdém de sol nascente.»
José Gomes Ferreira
«Não me falem de fé!
Eu não preciso de fé!
Basta-me morrer de frente
- nesta camaradagem
com todos os mortos de mãos dadas
que desde o princípio do mundo
não quiseram morrer inutilmente...
Fé? Fé?
Eu não preciso de fé!
Basta-me morrer de pé
num desdém de sol nascente.»
José Gomes Ferreira
REFLECTINDO (2)
«Reflectindo» aqui, no Cravo de Abril, no passado sábado, concluí, procurando fundamentar a conclusão, que «a política de direita e as troikas seriam as grandes vencedoras» das eleições.
E foram.
Com efeito, é isso que constatamos olhando para os resultados dos partidos da troika nacional: a meu ver, a generalidade dos eleitores que votaram no PS fizeram-no para que fosse esse partido a prosseguir a tarefa de executante da política de direita; e estou em crer que a generalidade dos eleitores que votaram no PSD e no CDS, o fizeram para que estes partidos substituíssem o PS nessa tarefa - em ambos os casos sob a vigilância férrea da troika ocupante.
Isto é: tenho para mim que, tanto os eleitores que votaram no PS, como os que preferiram o PSD e o CDS, optaram pela política de direita - o que faz desta e das troikas, como acima digo, as grandes vencedoras destas eleições.
(outra coisa é, obviamente, saber o que é que leva tanta gente que trabalha e vive do seu trabalho a votar contra os seus próprios interesses e direitos...)
Depois, há o «grande perdedor/PS/Sócrates» e o «grande vencedor/PSD/Passos» (e o nem-uma-coisa-nem-outra/CDS/Portas...) - mas tudo isso é fogo de vista, foguetório democrático-alternante, cujo objectivo principal é o de tentar levar os eternos papalvos, bem alimentados pelos comentadores de serviço, uns, a lamentar a «derrota de esquerda» e a «vitória da direita»...; outros, a vitoriar, até à rouquidão, a «mudança» que lhes disseram que houve... mas que, em relação à questão essencial, não houve.
Nem «mudança» de política nem «mudança» de políticos: o que aí vem é a mesma política praticada pelos mesma família de políticos...
Passos Coelho, logo no «discurso da vitória» - portanto, sem perdas de tempo... - fez questão de referir a necessidade de mais medidas de austeridade além das já acordadas com a troika da UE, FMI e BCE» - e Portas, de garras afiadas, pregou a necessidade de uma «revisão constitucional pragmática» e de, sobretudo, fazer «um novo acordo social entre trabalhadores e empregadores», porque,«com greves sistemáticas não vamos a lado nenhum»...
Quanto a «mudanças» de políticos, vejam-se as «novidades» que estão a ser apontadas para o futuro governo: Paulo Portas, Bagão Félix, Aguiar Branco, Miguel Macedo, Eduardo Catroga, Campos e Cunha, Daniel Bessa - tudo gente «nova», como se vê: todos ex- ministros de governos do PSD ou do PS...
Ainda «Reflectindo», no sábado, concluí, procurando fundamentar a conclusão, que domingo era «dia de festejar o resultado da CDU».
E foi.
Eu festejei.
Festejei o resultado global da CDU - o qual, obtido no contexto que referi «reflectindo», é para deitar foguetes.
Festejei a re-eleição dos deputados da CDU em Lisboa e Setúbal, em Braga e no Porto, em Santarém e Évora e em Beja - e festejei de forma muito especial a eleição do deputado comunista em Faro.
Festejei lançando foguetes imaginados... a estrelejar a minha certeza de que, com este resultado, a luta será mais forte.
É claro que se trata de um resultado inesperado, incompreensível - e, sobretudo, incómodo... - para quem anda há décadas a anunciar o «definhamento», a «morte» e o «funeral» do PCP...
A titulo de exemplo, vejamos este desabafo algo irritado e impaciente de um comentador do Público, de seu nome Raposo Antunes:
«De eleição em eleição, o PCP continua a segurar o eleitorado, sem se perceber muito bem como é possível que isso aconteça em pleno século XXI»...
Vejam bem!, no século XXI!...
Outro exemplo é o deste outro comentador do Correio da Manhã - António Ribeiro Ferreira - o qual, certamente não desejando ter escrito o que escreveu.. - nem nada que se pareça! - mesmo assim, se pronunciou deste jeito:
«Numa eleição em que a esquerda foi devastada por uma onda de direita, é preciso ser muito forte para aumentar deputados e aguentar um aumento razoável da abstenção. O que mostra, de forma óbvia, que o PCP é uma força política que não está destinada a morrer com o envelhecimento da população e dos seus militantes. Pelo contrário, o partido de Jerónimo de Sousa mostrou nestas eleições que consegue captar o voto dos novos eleitores e está para durar e lavar, contra ventos, marés e tempestades».
Pode crer que está.
Para durar e lavar e para aumentar a sua influência social, eleitoral e política junto das massas trabalhadoras - que, com a sua força organizada, são quem há-de dar a volta isto.
Mais tarde ou mais cedo.
POEMA
(Hoje vi no Campo Grande um autêntico
rebanho de ovelhas. E outro de carneiros.
E outro de homens: nós, os portugueses
de mil novecentos e quarenta e tal.)
Olha as ovelhas como são!
Tão diferentes daquelas
verdes ovelhinhas
da minha imaginação
- sim, verdes da cor do limão -
que na infância de outros prados
vinham comer à mão
luas amarelas.
Estas não.
Parecem lama aos bocados
com lã de terra
- os estupores!
Talvez na Primavera
rebentem em balidos de flores.
(Enquanto eu apascento
lobos de vento...)
José Gomes Ferreira
rebanho de ovelhas. E outro de carneiros.
E outro de homens: nós, os portugueses
de mil novecentos e quarenta e tal.)
Olha as ovelhas como são!
Tão diferentes daquelas
verdes ovelhinhas
da minha imaginação
- sim, verdes da cor do limão -
que na infância de outros prados
vinham comer à mão
luas amarelas.
Estas não.
Parecem lama aos bocados
com lã de terra
- os estupores!
Talvez na Primavera
rebentem em balidos de flores.
(Enquanto eu apascento
lobos de vento...)
José Gomes Ferreira
ATÉ LOGO
No chamado «dia de reflexão», o Presidente da República, em «mensagem ao País», apelou ao voto na política de direita.
Com efeito, no quadro concreto em que o apelo foi produzido, o que o PR fez, de facto, foi, a pretexto do combate à abstenção, apelar «aos milhares de portugueses que estão desempregados» para que votem na política que os atirou para o desemprego;
apelar às «novas gerações» para que votem na política que ergueu os espessos muros que lhes barram o futuro;
- enfim, apelar a que todos vão votar para que tudo continue na mesma.
Eu apelo a todos - desempregados; com emprego fixo ou precário mas ameaçados de desemprego; com salários em atraso; explorados e espoliados de direitos humanos fundamentais; maltratados, humilhados e ofendidos pela política defendida por Cavaco Silva - apelo a todos, repito, para que votem com lucidez, isto é, para que votem nos seus próprios interesses e direitos.
Mas o PR, na sua arenga eleitoralista, fez mais - e pior: na ânsia de arrebanhar votos para sustentar a política que, praticada pela troika partidária nacional, há 35 anos afunda Portugal - afundamento de que ele, PR, é um dos principais responsáveis - Cavaco Silva exorbitou dos poderes que a Constituição da República Portuguesa lhe confere (a Constituição que, recorde-se, ele jurou cumprir e fazer cumprir, jura que e realidade nos mostra estar bem longe de ser cumprida...)
Disse ele que os cidadãos que não forem votar hoje, «não têm depois autoridade para criticar as políticas públicas»...
E não satisfeito com o dislate, acrescentou: «Só quem vota poderá legitimamente exigir o melhor do próximo Governo».
Ou seja: o Presidente da República Portuguesa, recorrendo a poderes que ninguém lhe conferiu - e que, em democracia, ninguém lhe pode conferir - rouba aos cidadãos que, exercendo um direito, entendam abster-se, o legítimo direito de ter opinião sobre a política que o futuro governo fará!!!!!!
Ora bem: uma coisa, legítima e louvável, é combater a abstenção apelando aos cidadãos para que exerçam o direito de votar; outra coisa, essa ilegítima, condenável e inadmissível, é ameaçá-los de penalizações por exercerem esse outro direito que a lei lhes confere que é o da abstenção.
Tenho para mim, que votar é, em primeiro lugar e acima de tudo, um DIREITO - aliás, um direito arduamente conquistado pelos trabalhadores e pelos povos do mundo ao longo dos tempos; um direito arrancado à força às classes dominantes: com muitas e difíceis lutas, amiúde brutalmente reprimidas.
Com o tempo, as classes dominantes, foram adaptando aos seus interesses esse direito conquistado pelos trabalhadores e pelos povos.
Fizeram-no (fazem-no) com leis eleitorais cirurgicamente elaboradas; com os aparelhos de Estado postos ao serviço dos dominadores; com permanentes vagas de propaganda difundida pelos média propriedade dessas classes dominantes; enfim, com atropelos múltiplos à democraticidade dos actos eleitorais, transformando-os progressivamente na farsa democrática que hoje são em todo o mundo capitalista.
Assim, fraudulentamente, têm vindo a transformar esse direito conquistado num dever obrigatório (passe a redundância): o dever de votar nos interesses dos dominadores - que é, afinal, o dever invocado pelo Presidente da República na sua «mensagem ao País».
O combate à abstenção - necessário e indispensável - não se faz com ameaças repressivas.
Faz-se com políticas governamentais que, servindo os interesses dos trabalhadores, do povo e do País, estimulem a participação dos cidadãos na vida nacional, participação sem a qual a democracia não o é - ou só o é neste modelo de faz-de-conta em que vivemos;
faz-se garantindo a todos que a opinião de cada um conta;
faz-se no pleno respeito pelos princípios democráticos;
e faz-se, sempre - ao contrário do que pensa e diz o Presidente da República - tendo em conta que votar é um direito que só a consciência de cada um pode decidir se, e quando, é também um dever.
Eu vou votar: daqui a bocado lá estarei a desenhar a cruzinha no boletim de voto - uma cruzinha contra a política de direita e anti-patriótica defendida por Cavaco Silva; uma cruzinha por uma política patriótica e de esquerda.
E penso que todos os portugueses, ou a sua imensa maioria, devem ir votar.
E seria bom que todos votassem com a consciência de que estão a exercer um DIREITO arduamente conquistado.
E seria bom que, ao desenhar a cruzinha, todos se lembrassem que estão a exercer um DIREITO que foi conquistado em Abril.
E que, por isso, votassem nos ideais de Abril: nos ideais de liberdade, de justiça social, de paz, de fraternidade, de solidariedade - de independência nacional.
E que, por isso, rejeitassem, com o seu voto, os causadores da dramática situação actual.
E que, por isso, apoiassem, com o seu voto, aqueles que sempre combateram a política de desastre nacional e que sempre se têm batido por Abril.
Enfim, que votassem bem: nos seus interesses e direitos.
Agora vou votar na CDU.
Até logo.
POEMA
(Comício. Mais vale morrer de pé
do que viver de «rodillas».)
Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho.
Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho!
José Gomes Ferreira
do que viver de «rodillas».)
Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho.
Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho!
José Gomes Ferreira
REFLECTINDO...
Ontem terminou a campanha; hoje reflecte-se; amanhã vota-se; depois de amanhã luta-se.
Na campanha, os média dominantes cumpriram à risca a tarefa de que foram incumbidos pelos seus donos:
todos, sem excepção, foram fieis defensores da política de direita e das troikas; uns, estiveram mais com o PS;
outros, mais com o PSD;
todos, sem excepção, apoiaram o CDS;
todos, sem excepção, apoiaram o BE.
Todos, sem excepção, estiveram contra a CDU.
E diz-me a minha reflexão: tudo nos conformes, tudo como estava previsto - tudo como se esperava de jornais, rádios e televisões que são propriedade do grande capital explorador e opressor.
Hoje, os média dedicar-se-ão à reflexão: lá para o fim do dia, os chefes, respeitosos, telefonarão para os donos a perguntar se estão satisfeitos - os donos dir-lhes-ão que sim, não esteve mal, mas tu és capaz de fazer melhor... e os chefes garantirão que, da próxima vez, vão fazer melhor - vão fazer ainda melhor...
E vão.
Também nos cafés se reflecte. Em voz alta.
Há pouco, enquanto bebia a bica, ouvi a reflexão de três cidadãos, todos utentes dos média dominantes - e veio-me à memória o poema do Zé Gomes Ferreira que transcrevi no post anterior...
Hoje é dia de reflexão: será?
Amanhã é dia de votar.
Diz um jornal de hoje que, «ao fim do dia, saberemos os resultados»...
No que me diz respeito - e lembro que estou em reflexão - não preciso de esperar pelo fim do dia para saber que a política de direita e as troikas serão as grandes vencedoras - com uma percentagem semelhante à que obtinham as listas da «União Nacional»...
Isto porque, diz-me a minha reflexão, se em regime fascista o vencedor é sempre o partido único, em regime de democracia burguesa o vencedor é sempre um partido do sistema, ora um, ora outro, porque estamos em «democracia» e é preciso garantir a alternância democrática - que porque é a chave a chave-mestra do sistema, é assegurada por um unipartidarismo bicéfalo cuidadosamente disfarçado de pluralismo partidário...
E se assim não fosse, isto é se os donos disto tudo não tivessem a certeza que um dos seus partidos seria vencedor, não haveria eleições - que com coisas sérias não se brinca...
A única dúvida, em matéria de resultados eleitorais é a que diz respeito à CDU.
Sobe?, mantém a votação? desce?: das três, uma...
Eu desejo que suba - e para isso votarei.
Mas, em democracia burguesa, o resultado eleitoral de uma força que integra um partido comunista é sempre uma incógnita.
Isto porque as eleições em democracia burguesa têm entre os seus objectivos essenciais acabar com os partidos comunistas, correr com eles do parlamento - que é, segreda-me a minha reflexão, o coração da burguesia dominante.
E tudo está montado nesse sentido, como é fácil de constatar, por exemplo, consultando diariamente os média dominantes - diariamente, isto é, não apenas em tempo de campanha eleitoral mas todos os dias, de todas as semanas, de todos os meses, de todos os anos...
Nestas circunstâncias, diz-me a minha reflexão pessoal que, quando um partido comunista consegue rechaçar, eleitoralmente, a condenação à morte a que está sujeito - aumentando a expressão eleitoral, mantendo-a ou mesmo descendo um pouco - tem razões, e muitas, para festejar.
Ora, diz-me a minha reflexão que amanhã é dia de festejar o resultado da CDU.
E é isso que farei.
Depois de amanhã é dia de luta.
Falo da luta de massas (da qual a batalha eleitoral é apenas uma componente) que, mais tarde ou mais cedo, decidirá tudo.
E tanto mais cedo decidirá quanto mais forte e participada for.
E tanto mais forte e participada será quanto maior e mais expressiva for a votação na CDU.
Diz-me a minha reflexão que os meses que aí vêm serão de lutas fortes e participadas.
Reflectindo melhor: lutas muito fortes e muito participadas.
POEMA
(Que vontade de esbofetear estes palermas
a meu lado nos cafés e nos eléctricos,
a fingirem de Vida Acesa!)
Antes os mortos hirtos, de pé, por dentro dos ciprestes
a beijarem a caveira da lua,
do que estes, do que estes
a nosso lado na rua.
São mortos sem cemitério
mortos da Morte Arrefecida
- a que tiraram todo o mistério
para lhe chamarem vida.
José Gomes Ferreira
a meu lado nos cafés e nos eléctricos,
a fingirem de Vida Acesa!)
Antes os mortos hirtos, de pé, por dentro dos ciprestes
a beijarem a caveira da lua,
do que estes, do que estes
a nosso lado na rua.
São mortos sem cemitério
mortos da Morte Arrefecida
- a que tiraram todo o mistério
para lhe chamarem vida.
José Gomes Ferreira
O EXECRÁVEL
O Público de hoje dedica duas páginas ao balanço da campanha eleitoral em geral e das campanhas do PS, do PSD, do CDS, da CDU e do BE, em particular.
Em título e sub-título diz que se tratou, em geral, de «uma campanha bipolar e a duas velocidades para um país em crise» - com «poucas promessas eleitorais, muitos ataques pessoais e uma infindável caça ao voto em terrenos improváveis. Os partidos só se iam esquecendo das medidas da troika».
Bom, é a visão do Público... que, por sinal, bipolarizou que se fartou... certamente para, entre outros objectivos, esconder o facto de os candidatos da CDU terem procedido a uma crítica exaustiva e fundamentada precisamente às «medidas da troika» e à troika nacional (a qual, satisfeita, aplaudiu essas medidas e, com fidelidade canina, se comprometeu a aplicá-las), para além de terem apontado, com lucidez e rigor, as causas e os causadores do estado de desgraça a que o País chegou e o caminho para dar a volta a isto.
No que respeita aos textos de balanço dedicados a cada uma das campanhas, os títulos falam por si:
«PS: entre o ataque e a resistência em saltar para a oposição»;
«PSD: uma campanha onde já cheira a poder»;
«CDS: Portas pôs "chapéu" de esquerda para travar o voto útil no PSD»;
«CDU: três distritos e um mural... do Facebook»;
«BE: renegociar, renegociar, renegociar a dívida».
Da mesma forma que pelo andar da carruagem se vê o que vai lá dentro, também a simples leitura destes títulos nos faz ouvir a voz do dono a ladrar - confirmando que os cães de guarda não dormem em serviço...
O balanço da campanha da CDU coube a Nuno Sá Lourenço - o Execrável.
E é, obviamente, um balanço negativo. Negativíssimo.
Com efeito, o Execrável não viu nada, nada, nada de positivo na campanha da CDU.
Acresce que, com a desvergonha que faz dele um vómito, decretou e publicou que a CDU colocou como objectivo eleger deputados nos distritos de Viseu, Aveiro e Faro - o que significa, concluiu o Execrável, que
ou a CDU elege deputados nesses três distritos e, no domingo, «o PCP estará do lado dos vencedores destas legislativas»,
ou não elege e... será o grande perdedor...
Ora, sabe-se que, não sendo impossível não é provável que a CDU eleja deputados nos três distritos referidos (e como eu gostaria de estar enganado!...), é óbvio que, com isto, o Execrável está já a afiar a dentuça para, segunda-feira, se atirar às canelas dos comunistas...
Não é por acaso que, ele se refere sempre à campanha da CDU como «a campanha comunista» - uma campanha que, viu ele, «foi de baixa intensidade, com poucas iniciativas agendadas»...
Vejam bem o que ele foi capaz de não ver!...
Mas o Execrável não se ficou por aqui: a fechar a prestação, e sempre em busca - busca canino!, busca!... - das festas do dono e do osso que as acompanha, elegeu como grande acontecimento da campanha da CDU «o incidente em Coimbra - com o protesto de universitários contra a pichagem nas escadarias monumentais», blá-blá-blá...
Monumental sacripanta, este Execrável! - que, a fechar, se eleva aos píncaros da provocação e, lançado em queda-livre, avisa que o «incidente em Coimbra» constitui «um sinal de alerta aos nonagenários comunistas»...
Que o salto lhe corra bem - especialmente se o pára-quedas não abrir - é o meu desejo.
POEMA
Poema XXII de «CAFÉ»
Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte...
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas...
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou...
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes...
Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta?
(Os santos são mais felizes.)
José Gomes Ferreira
Bati com o pé no deserto
e não nasceu uma fonte...
Toquei numa rocha
e não se cobriu de açucenas...
Beijei uma árvore
e o enforcado não ressuscitou...
Amaldiçoei a paisagem
e não secaram as raízes...
Digam-me lá: para que diabo serve ser poeta?
(Os santos são mais felizes.)
José Gomes Ferreira
ESSA COISA INSÓLITA E ABERRANTE
Diz o Público que o constitucionalista Gomes Canotilho afirmou que várias das medidas impostas pela troika do grande capital financeiro violam a Constituição da República Portuguesa - entre elas o alargamento do conceito de despedimento por justa causa...
Então, se essas medidas violam a Constituição da República Portuguesa não podem ser aplicadas, não é verdade? - digo eu, em jeito de pergunta.
Não, não é verdade - responde (no Público) o ilustre constitucionalista e professor da Faculdade de Direito de Coimbra, e acrescenta que o futuro governo deve aplicar essas medidas.
Ao arrepio da Constituição da República Portuguesa??!!- pergunto.
Sim, diz o emérito constitucionalista, e explica porquê: porque os prazos impostos pela troika para a aplicação dessas medidas são incompatíveis com um processo de revisão da Constituição...
Aqui chegado, ponho ponto final no diálogo...
Na verdade, fiquei esclarecido e em condições de esclarecer os visitantes do Cravo de Abril sobre o pensamento constitucional do consagrado constitucionalista, que pode resumir-se assim:
a troika ocupante impõe medidas de absoluta inaplicabilidade constitucional e, de duas uma, ou o governo aplica essas medidas desrespeitando a Constituição ou procede-se a uma revisão constitucional que torne legais as medidas que não o são. Ora, dado que não há tempo para se proceder a essa revisão... então que se apliquem as medidas, desrespeitando a Lei Fundamental do País mas obedecendo às ordens superiores da troika ocupante - que essas são para respeitar integralmente...
Ou, mais resumidamente ainda: ajoelhemo-nos aos pés da troika ocupante, beijemos-lhe as mãos, lavemos-lhe os pés, limpemos-lhe o rabo...
Felizmente não sou constitucionalista, porque se o fosse está visto que ficaria para aqui sozinho a defender essa coisa insólita e aberrante que é o cumprimento puro e simples da Constituição da República Portuguesa, Lei Fundamental do País - e a mandar a troika ocupante dar uma volta ao bilhar grande...
(confesso, no entanto, que alimento a esperança de que as afirmações do constitucionalista Gomes Canotilho não tenham sido exactamente as que o Público lhe atribui...)
POEMA
(No Rossio os ardinas vendem,
em Separata da «Seara Nova»,
duas canções do Graça: a «Mãe Pobre»
com versos de Carlos de Oliveira
e a «Jornada» com versos meus.)
Dia de chuva na cidade
triste como não haver liberdade.
Dia infeliz
com varões de água
a fecharem o mundo numa prisão.
E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:
«está a cair pão».)
Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua
sem pão nem sol de roupa:
«Eh! pequena! Deita-te na rua
e abre a boca...)
(Dia em que urdo
este sonho absurdo:)
José Gomes Ferreira
em Separata da «Seara Nova»,
duas canções do Graça: a «Mãe Pobre»
com versos de Carlos de Oliveira
e a «Jornada» com versos meus.)
Dia de chuva na cidade
triste como não haver liberdade.
Dia infeliz
com varões de água
a fecharem o mundo numa prisão.
E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:
«está a cair pão».)
Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua
sem pão nem sol de roupa:
«Eh! pequena! Deita-te na rua
e abre a boca...)
(Dia em que urdo
este sonho absurdo:)
José Gomes Ferreira
AH!, ESTE PUBLICOZINHO!...
O Público, na sua rubrica «sobe e desce», põe Khadafi a descer.
Porquê?
O orgão da SONAE explica: «porque o líder líbio recusa deixar o poder» - em vez de, digo eu, como Obama e o Público querem, o entregar aos homens de mão do imperialismo norte-americano...
Indigna-se, ainda, o jornal de Belmiro de Azevedo porque, diz, «nem a pressão internacional faz Khadafi mudar de posição»...
E é com o seu sentido humanitário em adiantado estado de inflamação que o jornal (digamos assim) clama, dorido: «Enquanto isso, ao abrigo da defesa do poder, vão-se cometendo crimes atrás de crimes sobre a população»...
Ali onde o funcionário ao serviço da SONAE escreveu «pressão internacional» deveria estar, se o Público fosse um órgão de informação e não um órgão da desinformação organizada: bombardeamentos devastadores atingindo e destruindo bairros residenciais, escolas, hospitais, e matando e ferindo milhares de cidadãos inocentes...
E ali onde o mesmo funcionário (ou um seu gémeo) fala de «crimes sobre a população», um JORNALISTA acrescentaria: crimes essencialmente cometidos pelas forças da NATO, que além dos bombardeamentos montaram um cerco da fome que impede a chegada de alimentos para as populações às zonas controladas pelo governo líbio - um cerco da fome que, segundo o «Coordenador Humanitário da ONU» (vejam bem, os apelidos que eles arranjam!...) , está a ter grande sucesso, pois nessas zonas «as reservas alimentares deverão durar apenas algumas semanas», o que faz o dito Coordenador Humanitário observar, esfregando as mãos de contente, que «a comida é um pouco como uma bomba-relógio».
Bomba-relógio humanitária, obviamente...
Ah!, este publicozinho!...
Mas o Público não é só isto: o seu sistemático e cirúrgico ataque à campanha eleitoral da CDU atinge, hoje, o grau máximo da baixeza, da degradação, da indignidade, da vileza, da abjecção, pela pena do habitual funcionário de serviço, de seu nome Nuno Sá Lourenço, jornalista, diz ele, mercenário, escalracho do jornalismo, digo eu.
E mais não digo. Por hoje.
POEMA
(E o vento trouxe este coro de presos
do Aljube.)
«Ouve, Noite:
só nós, os que não acreditamos no céu,
tivemos coragem de gritar a esta carcaça a fingir de vida:
NÃO!
Nós, sem morte nem mundo,
para aqui a apodrecer nas tumbas do sol secreto
e a sonhar com um céu para os outros na Terra
que só o ódio vê.
E é esta a nossa guerra.
E é esta a nossa fé.»
José Gomes Ferreira
do Aljube.)
«Ouve, Noite:
só nós, os que não acreditamos no céu,
tivemos coragem de gritar a esta carcaça a fingir de vida:
NÃO!
Nós, sem morte nem mundo,
para aqui a apodrecer nas tumbas do sol secreto
e a sonhar com um céu para os outros na Terra
que só o ódio vê.
E é esta a nossa guerra.
E é esta a nossa fé.»
José Gomes Ferreira
A VERDADE COMPLETA
«A troika vota PSD» - confidenciou Passos Coelho.
E é verdade.
Só que a troika também vota PS e CDS/PP... Ou seja, a troika vota na troika; ou, dizendo o mesmo mas com mais rigor: a troika ocupante vota na troika colaboracionista...
(Outra verdade é esta: em quem, seguramente, a troika não vota é na CDU.)
«Irei cumprir o acordo na íntegra» - prometeu Passos Coelho.
E é verdade.
Essa é mesmo a única promessa eleitoral que ele cumprirá - porque assinou e festejou o acordo com a troika e a troika não é para brincadeiras...
Por isso - quer ganhe quer perca as eleições, no Governo ou representando a farsa de «oposição» - Passos Coelho (o PSD) vai cumprir, submisso e satisfeito, a sua função de colaboracionista com a troika ocupante.
«Se o acordo não for cumprido podemos ter uma tragédia à grega»- alerta Passos Coelho.
(Faço minhas as palavras de Jerónimo de Sousa: «se o acordo for cumprido podemos ter é uma tragédia à portuguesa» - e está tudo dito.)
Por seu lado, Mário Soares está zangado.
Diz ele que, dos candidatos em presença, nenhum disse nada sobre «como iremos acordar no dia 6 de Junho e como nos confrontaremos com os problemas e os compromissos que nos esperam».
Está visto: para Soares, os candidatos da CDU - que todos os dias falam do dia 6 e da luta que é necessário levar por diante para fazer face aos graves problemas que nos esperam e para impedir a consumação do acordo de submissão assinado pela troika colaboracionista - para Soares, dizia eu, os candidatos da CDU não contam...
Diz ainda Soares que «eles» - obviamente os candidatos dele - apenas pensam em «ganhar», e atacam-se assim: diz um: «Tu é que foste o responsável pela crise e, por isso, és um irresponsável»; e responde o outro: «Não, tu é que és em absoluto irresponsável e, por isso, chegámos à crise em que estamos»...
Se quisesse dizer a verdade - coisa que nele é impossível de conceber... - Soares poderia dizer que ambos os candidatos dele estão cheios de razão, já que ambos lideram os partidos - PS e PSD - que são os grandes responsáveis pelo estado a que o País chegou...
E, já agora - e já que estamos a falar de responsáveis pela dramática situação em que o País se encontra - diga-se a verdade completa, dizendo a Soares:
Tu - enquanto chefe da contra-revolução de Abril, homem da mão da CIA e do imperialismo norte-americano, vendedor da independência e da soberania nacional aos grandes e poderosos da União Europeia, etc, etc, etc. - tu, é que és o principal responsável por tudo isto.
POEMA
(Saltimbancos.)
Ao som dum sol-e-dó
vão dois maltrapilhos
a ensinar os filhos
a dançar no pó.
Que pena esta gente sem pão
não ter
imaginação
para sofrer!
José Gomes Ferreira
Ao som dum sol-e-dó
vão dois maltrapilhos
a ensinar os filhos
a dançar no pó.
Que pena esta gente sem pão
não ter
imaginação
para sofrer!
José Gomes Ferreira
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