astrolábio
dormirei, já esta noite, no alentejo. dormirei. dormirei. dormirei. ah, a minha casa!
lains de ourém, de partida. 16 de março de 2012
lains de ourém, de partida. 16 de março de 2012
muro das lamentações
é nos muros de deus que esbarram todas as interrogações,
gumes do delírio na solidão sempre manca
notas gastas das músicas que sabemos de cor.
há uma ausência estridente que não me deixa dormir
ossos crepitantes privados já de carne
a tua morte.
os deuses só existem no nosso desconserto
vagas onde se desfazem todos os marinheiros ao sair
da barra da lucidez.
onde sombras, o nosso pavor, gritos onde esbarra
a luz do silêncio que habitava o mundo antes
dos bichos e dos estalos das plantas
negando às trevas o domínio absoluto do precário.
são de vagos dedos os meus segundos
tacteando os destinos dos caminhos ocultos
da condição que não pedi mas habito
contra a vontade de tudo o que é plausível ou explicável
na azeda explicação que o corpo oferece ao luto.
polifonia do desespero que os homens assimilam em rituais
onde o sangue das aves habita o grito
de tudo o que nasce para ser sacrificado à fome desconhecida
que só goya ainda soube aproximar.
todo o homem é um verso nunca lido
ladainha inútil mesmo para os deuses que inventamos
amaríssimo dedilhar de tudo o que já foi ou está para ser e não sabemos.
a maternidade é a única esperança
e mesmo essa, inexplicável... de tanto que percorre
os caminhos nauseabundos da beleza.
todo o homem é luz. toda a luz se apaga.
aljustrel, 16 de setembro de 2009. nos dias do meu luto
lains de ourém
gumes do delírio na solidão sempre manca
notas gastas das músicas que sabemos de cor.
há uma ausência estridente que não me deixa dormir
ossos crepitantes privados já de carne
a tua morte.
os deuses só existem no nosso desconserto
vagas onde se desfazem todos os marinheiros ao sair
da barra da lucidez.
onde sombras, o nosso pavor, gritos onde esbarra
a luz do silêncio que habitava o mundo antes
dos bichos e dos estalos das plantas
negando às trevas o domínio absoluto do precário.
são de vagos dedos os meus segundos
tacteando os destinos dos caminhos ocultos
da condição que não pedi mas habito
contra a vontade de tudo o que é plausível ou explicável
na azeda explicação que o corpo oferece ao luto.
polifonia do desespero que os homens assimilam em rituais
onde o sangue das aves habita o grito
de tudo o que nasce para ser sacrificado à fome desconhecida
que só goya ainda soube aproximar.
todo o homem é um verso nunca lido
ladainha inútil mesmo para os deuses que inventamos
amaríssimo dedilhar de tudo o que já foi ou está para ser e não sabemos.
a maternidade é a única esperança
e mesmo essa, inexplicável... de tanto que percorre
os caminhos nauseabundos da beleza.
todo o homem é luz. toda a luz se apaga.
aljustrel, 16 de setembro de 2009. nos dias do meu luto
lains de ourém
absolvição
não chove
e eu não escrevo.
Sofro a página em branco. Como pedem água as raízes da sede.
Sei agora que o trauma faz a vez das barragens nos ribeiros da dor.
Casa das glicínias, 12 de Março de 2012
Lains de ourém
e eu não escrevo.
Sofro a página em branco. Como pedem água as raízes da sede.
Sei agora que o trauma faz a vez das barragens nos ribeiros da dor.
Casa das glicínias, 12 de Março de 2012
Lains de ourém
POEMA
HOMENAGEM A 4 POETAS E 1 CINEASTA
Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.
Ana Paula Inácio
(do novo álbum dos A Naifa)
Livra-me das tentações
de fugir ao fisco
e que em Fevereiro pague sempre
os meus impostos.
Afasta-me do supérfluo e
da vaidade e recorda-me que
um dia hei-de ter hemorróidas.
E não me deixes cair no pecado
da ideologia
para que não leve com o proletariado nas trombas.
Guia-me pelos caminhos do amor
até um centro comercial
onde o amado me acompanhará
a experimentar um a um cada vestido.
E, por último, faz com que
todo o iogurte que coma seja
— foda-se! —
de morango.
Ana Paula Inácio
(do novo álbum dos A Naifa)
Exposição
Tabernas do sul
Ao sul, encontra-as quem percorrer uma fiada de cal, feita casas ou o grito dos homens. Desce-se, habitualmente, dois ou três degraus, reminiscência do gesto feminino de ir à cisterna. Aqui, ao contrário dos livros sagrados que nos querem impor junto com a exploração, a frescura está rente ao subsolo, talvez poeticamente buscando as raízes das glicínias ou dos limoeiros onde todos procuram mezinhas, mais para sossego da consciência do que das chagas. Tabernas do sul. São faróis ao cansaço dos homens, teimando ante a canícula a fúria de estarem vivos. Ainda que velhos. Os novos partiram. Ficaram sonhos, aguardando o seu regresso. Depositados no local das navalhas, do vinho, das raivas e dos afectos, estão junto a estes homens que o João fotografou. Sintam-lhe o cheiro. E saberão que vento de ternura é este de que vos falo.
António Lains Galamba
Antropólogo
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