Eu, conservador, me
inconformo
Há pouco mais de uma década – não foi
há séculos... –, numa das curvas em que a História é pródiga e em que há que
evitar o pânico da derrapagem, senti necessidade de escrever, em “o diário”,
que “eu, ortodoxo, me confesso”. “O diário” era então dirigido por quem é,
hoje, figura grada da SIC, tinha redactores que são, hoje, gradas figuras de
diários económicos e de negócios e, então, os arautos da necessária,
indispensável, inevitável renovação do Partido (comunista e português) eram
militantes e dirigentes do partido que são, hoje, graúdos ministros e
secretários de Estado, deputados com assento em bancadas centrais e tribunas
VIP, autarcas de elite, “boys” com “jobs” excelentemente remunerados. Alguns
com passagem, algo envergonhada, por plataformas de que fizeram trampolim. Por
mim, continuo a ser o que era quando tal confessei. Era, e sou, militante de
base do PCP. Logo, serei conservador.
(...) Com
essa renovação que, dentro, tentaram e, de fora, tanto promoveram, ter-nos-ia
acontecido o que se verificou pelas paragens onde partidos mudaram símbolos,
esconderam nomes, abandonaram o marxismo e, logo depois, o marxismo, perderam a
perspectiva de classe e, por isso, hoje os trabalhadores, por essas paragens,
estão orfãos de organização partidária, procuram recuperá-la ou reconstituí-la,
reencontram Marx e Lenine.
Passou só
uma década, não duas nem séculos. O PCP está aí. Surpreendentemente, para
alguns, vivo, incomodando como é fácil de comprovar. De classe,
marxista-leninista, em renovação porque capaz de atrair jovens em busca de
valores, de princípios, de causas por que valha a pena lutar.
Agora, passada
uma década em que as pressões externas e, também!, internas não desarmaram, com
o Congresso à porta, aí estão de novo a reclamar – de fora para dentro, dentro
e de dentro através de fora – uma necessária, indispensável, inevitável
renovação do PCP. Como sempre, anatematizando os que resistem a essa renovação
por encomenda. Ontem ortodoxos, hoje conservadores (também ortodoxos e o que
inovador vier às imaginativas cabeças).
Renovação
necessária para quê?, indispensável para quem?, inevitável porquê? Eu, que
conservador me confesso, também alinho com os inconformados e os insubmissos,
também defendo uma necessária, indispensável, inevitável renovação. Mas
necessária para melhor interpretarmos a História, apoiados no
marxismo-leninismo como base ideológica e metodologia; indispensável para que a
classe, os trabalhadores, o povo, não percam um colectivo que os defende, que é
o seu lugar e arma de luta; inevitável porque só renovando-se pode o Partido
continuar a ser o que sempre foi e a lutar pelo que sempre lutou.
A mudança
que de fora nos aconselham, e empenhadamente promovem, não seria em favor dos
trabalhadores, nem para melhorar a democracia, para a tornar menos burguesa.
Como Partido, somos anti-capitalistas e eles são capitalistas, somos democratas
a tempo inteiro – mesmo quando a luta pela democracia obriga a sacrifícios – e
eles são democratas em tempo e espaços condicionados e nem pensar em democracia
da porta das empresas para dentro.
A mudança
que, de fora promovem, e/ou a que dão eco, não é para combater a exploração e
as suas raízes, não é para ajudar a classe operária, que os tais conservadores
em que me incluo insistem em afirmar que existe (e eles sabem que temos
razão!). Classe operária que a todo o momento muda, porque a todo o momento muda
a vida, e que, por isso, exige que sejamos o Partido que se renova para
continuar a ser o que é necessário e indispensável que continue a ser.
Sérgio
Ribeiro
Vila Nova de Ourém
«Avante!»
Nº 1402 - 12.Outubro.2000









