UM CERTO «ESPÍRITO DE NATAL»...

Natal quer dizer, entre muitas outras coisas, prendas...
Prendas que a tradição manda que ofereçamos aos nossos familiares, aos nossos amigos...
Prendas: brinquedos, livros, discos, roupas...

Há países, contudo, onde as coisas funcionam de outro modo.
Por exemplo: nos EUA.
Ali, ao que parece a prenda de Natal mais desejada e mais oferecida é uma arma - arma de fogo, obviamente, daquelas que matam e das quais todos os dias nos chegam notícias...
Pronto, o que é que se há-de fazer, é assim o «espírito de Natal» lá para aquelas bandas...


E foi imbuídos desse curioso «espírito de Natal» que, no mês de Dezembro passado - e especialmente nos seis dias anteriores ao dia de Natal -, os norte-americanos compraram para oferecer (aos seus filhos, aos seus amigos...) nada mais nada menos do que 1, 5 milhões de armas de fogo.
Com este número, bateram todos os recordes até então estabelecidos - e sabemos bem como os norte-americanos se pelam por bater recordes...

Em muitos casos, os pais levam os filhos à loja para escolherem a arma que preferem.


Ali, disparando para um alvo que representa um corpo humano com o coração bem destacado, os adolescentes experimentam várias armas até escolherem a que mais lhes agrada - que é, regra geral, aquela que, atingindo o coração do alvo, dele faz saltar uma pasta vermelha, vermelha, que até parece sangue...

Não sei se, na noite de Natal, depois da troca de prendas, cantam em coro: «É Natal, é Natal, viva a terra em paz...», mas é bem provável que o façam.
O «espírito de Natal» tem destas coisas...



POEMA

DEMOTADURA


Estações de TV governo dá.
Descabeladamente aumenta o pão.
O Braga diz que mais aumentos, «não»
e que salários aumentados, ná.

Na Educação mil cortes? É pra já.
Os remédios mais caros? Aí estão.
A CEE vem-nos comer à mão
quiquiriqui, cocoricó, cacaracá...

Cavaco quer ter sempre o trunfo de ás.
Ele pensa, ele quer - logo ele faz.
Controvérsias, debates, não atura.

Na maré alta da hipocrisia
ele soletra bem de-mo-cra-cia
mas traduz mentalmente «ditadura».


Mário Castrim
(Janeiro/1992)

TRÊS TROIKAS GÉMEAS

Alexandre Soares dos Santos - o 2º marmanjo mais rico de Portugal - «vendeu» a sua parte do Pingo Doce (56%) a uma empresa sua (dele, Alexandre Soares dos Santos...) com sede na Holanda.
Grande negócio!

Assim, em vez de pagar ao Estado português os impostos sobre os fabulosos lucros que obtém nos seus pingos doces, paga-os ao Estado holandês - e paga muito menos porque na Holanda o fisco é mais barato...
Como em todos os negócios, há quem ganhe e quem perca: neste caso, ganha Alexandre Soares dos Santos e ganha a Holanda - e perde Portugal, perdem os portugueses.

A decisão do dono do Pingo Doce não é inovadora nem surpreende: antes dele, fizeram o mesmo os marmanjos que ocupam o e o 3º lugar no ranking dos mais ricos, respectivamente Américo Amorim e Belmiro de Azevedo; e é claro que, da parte desta cambada, não há que esperar outra coisa: o «patriotismo» deles está no lugar que ocupam no ranking...

Tudo isto a confirmar que, às troikas PS/PSD/CDS e FMI/UE/BCE, há que acrescentar mais esta: Amorim/Belmiro/ Santos - três troikas gémeas, cada uma e todas puxando para o mesmo lado...

POEMA

O SUCESSO


Dentro da conhecida lógica
começou a operação psicológica
do «diz-se que».
E que diz o «se que»? diz que os aumentos
andam no vento
estão por um triz...

E talvez não - dizem alguns jornais -
talvez ainda demore uns dias mais...

Água, pão, luz - aí vêm os arremessos.
Cavaco aperfeiçoa o seu governo.
Em aumentos de preços
vai ser mesmo um governo de sucesso.


Mário Castrim

(Janeiro de 1992, mas tão actual...)

QUE GRANDE CAMBADA!

O ministro Pedro Mota Soares visitou o Centro Paroquial de S. Vicente de Paulo, em Lisboa, e dissertou sobre aquilo a que chama o «aumento das pensões mínimas».

As «pensões mínimas» são - isto digo eu - um dos resultados de 35 anos de política de direita: os seus valores oscilam entre os quase 200 e os 250 euros/mês... o que é bem esclarecedor sobre as condições sofridas pelos que as recebem e delas vivem.

Mas agora - isto diz o ministro - as «pensões mínimas» foram aumentadas - e acrescentou, eufórico, que «não se trata de uma medida simbólica: estamos a falar de 1 milhão de pessoas»....

A afirmação do ministro - isto digo eu - é bem esclarecedora sobre a situação a que 35 anos de política de direita conduziram Portugal: 1 milhão de pessoas vive (simbolicamente, talvez...) com um rendimento de 6 a 8 euros/dia...

Mas, graças ao incomensurável humanismo do ministro Soares e do governo que ele representa, a partir de agora, com o «aumento» anunciado, cada pensionista vai passar a receber mais uns 23 cêntimos/dia...

Que grande cambada!

POEMA

A CANÇÃO DA FOME


Prezado senhor e rei,
sabes a notícia grada?:
segunda comemos pouco,
terça não comemos nada.

Quarta sofremos miséria,
e quinta passámos fome,
na sexta quase nos fomos,
não se aguenta q2uem não come.

Por isso vê se no sábado
mandas cozer o pãozinho,
senão no domingo, ó rei,
vamos comer-te inteirinho.


Georg Weerth

(poeta alemão, nascido em 1822. Foi companheiro de luta de Marx e Engels, com os quais manteve estreito contacto. Preso a dada altura pelo conteúdo revolucionário dos seus escritos, viria a fugir para Inglaterra, onde acompanhou Engels no estudo da vida e da luta do proletariado inglês. Entre os dois criou-se uma sólida amizade. Engels considerava-o o maior e o mais importante poeta do proletariado alemão. Weerth morreu em 1856, com apenas 34 anos de idade)

POEMA

NA PASSAGEM DE UM ANO


Erros nossos não são de toda a gente
tropeçamos às vezes na entrega
mas retomamos sempre a marcha em frente
massa humana que nada desagrega.

Para nós o passado e o presente
são o futuro no qual o povo pega
com as suas mãos de luz incandescente
que aquece que deslumbra mas não cega.

Para nós não há tempo. O tempo é vento
soprando ano após ano sobre a história
que para nós é vida e não memória.

Por isso é que no tempo em movimento
cada ano que passa é menos tempo
para chegar ao tempo da vitória.


José Carlos Ary dos Santos

TROQUEMOS-LHE AS VOLTAS...

Dentro de horas chegará 2012 - carregado de más novas...
Carregado de mais e mais injustiças, problemas e dificuldades para imensa maioria dos portugueses - carregado de mais e mais favores e benesses para a imensa minoria.

É assim há 35 anos - 35 anos de raivosa ofensiva contra direitos e interesses dos trabalhadores e do povo; contra a democracia económica, social, política e cultural de Abril; contra a independência nacional; contra o Portugal de Abril
E por isso estamos como estamos:

- Qual o país mais parecido com Portugal/2011?
- Portugal antes do 25 de Abril.



Dentro de horas chegará 2012 - carregado de más intenções...
Mas nós - homens, mulheres e jovens de Abril - podemos, se quisermos, trocar-lhe as voltas...

Podemos, se quisermos, dizer «NÃO!» ao pacto das troikas e aos roubos de salários e subsídios e ao aumento do horário de trabalho e à liquidação do SNS e à sucessão dinástica de governos da mesma família política...
Podemos, se quisermos, dizer «SIM!» a Abril e a tudo o que Abril nos trouxe.
Podemos, se quisermos, encher de Abril as ruas e avenidas e praças de todo o País.

Podemos, se quisermos, lutar.
E lutando, VENCEREMOS.

POEMA

POEMA XVII (A POESIA CONTINUA)


(ESPERAREMOS CEM ANOS...
Em frente da estação do Rossio, quando os
ponteiros se aproximam da meia-noite.)


Amigos: vai passar mais um ano no relógio luminoso do Rossio.

E a nossa Revolução
cada vez mais sonho frio,
eterna paisagem
de merda sem canos
em que os homens continuam como são
com bocas de granizo
numa repetição de poços de ecos.

Deixá-lo!

Se for preciso
teremos a coragem
de esperar mais cem anos
pela transformação do mundo
no relógio dos Séculos.

(Cem anos que voem nos relógios com asas de um segundo.)


José Gomes Ferreira

A LIBERDADE É ISTO...

20 anos - feitos no passado dia 25 - a União Soviética deixou de existir.

Foi uma tragédia para a Humanidade - uma tragédia com consequências devastadoras para os trabalhadores e os povos não só da ex-URSS mas de todo o mundo.
Foi uma festa para o capitalismo internacional e para os seus agentes espalhados por todo o mundo: o terrível e sinistro socialismo fora vencido, o maravilhoso e libertador capitalismo era o grande vencedor; finalmente os povos da União Soviética iriam saber o que era bom, iriam saber o que era a fartura e a bem-aventurança, iriam saber, enfim, o que era a liberdade...

E desde logo começaram a saber isso tudo: conheceram categorias novas que até então lhes tinham sido ocultadas pelo tenebroso regime socialista: o desemprego, os salários em atraso, a corrupção, as máfias, a droga, a prostituição, as rendas de casa, a saúde paga, o ensino pago, os sem-abrigo, a pobreza, a miséria, a fome, enfim, todas as farturas, bem-aventuranças e liberdades prodigalizadas pelo capitalismo - e tudo em tão larga escala, ou mais larga, como existia nos países modelo...

Cedo começaram a saber, também, que havia a outra face da moeda: as imensas fortunas - tão grandes como as existentes nos países modelo... - obtidas, desde logo, através da apropriação mafiosa, por uns poucos, do património antes colectivo, e aumentadas, logo a seguir, através da mais desbragada exploração.
(Fortunas de que todos os dias nos chegam notícias. Como esta: «Abramovich, o magnata russo dono do Chelsea, vai gastar seis milhões de euros numa festa de passagem de ano numa das suas mansões»...)

Mas é assim que deve ser, é essa a ordem natural das coisas...- diz o grande capital e repetem-no os seus agentes espalhados por todo o mundo - a liberdade é isto...

POEMA

ODE À AMIZADE


Por teu verbo em passes de mágica
eu te louvo
quando pões «o coração nas mãos»
ou entre
os dentes
«o coração na boca»

Por tua palavra gesto e fruto
que nos tempos dos tempos renovas
eu te louvo
não pelo gesto que és
mas pelo fruto que provas

Por tua faca e suas artes
por teu punho a romper do seio
eu te louvo
pão único que repartes
migalha cortada ao meio

Fome nenhuma fica impune

Teu gume é como golpe na água:
a lâmina que a retalha
é a mesma que a reúne.


Luís Veiga Leitão

35 ANOS CONSECUTIVOS...

Títulos:

«Portugal entre os países do euro com mais jovens desempregados»

«Centenas de lojas vão encerrar no Porto»

«Estaleiros de Viana: encerramento em cima da mesa»

«Saúde mais cara a partir de Janeiro»

«Ajuda a novos pobres deixa as IPSS à beira do colapso»

«FUGA DE CAPITAIS - saem de Portugal 5, 4 milhões de euros por dia»
«Até Outubro voaram 1647 milhões para off-shores - Portugueses preferem Ilhas Caimão. CGD é o mais recente exemplo»

«2012 será de mais sacrifícios»


Tudo isto - não me cansarei de o repetir - após, e por efeito de, 35 anos consecutivos de governos PS, PSD, CDS...

POEMA

Voltemos ao ano da graça de 1991: em Dezembro, o Tal & Qual informava:

«Maria João Saviotti deu uma festa de anos, em Lisboa, orçada em 100 mil contos. Ou mais...»

Pela mesma altura, Mário Castrim escreveu esta


ORGIA


Foi uma festa de truz.
Música, alegria, cor.
Cada vestido era luz
de riqueza, de esplendor.

Vendo tantos risos nobres
numa pergunta me fico:
Quantos milhares de pobres
nos custará este rico?

(Recorda-se este episódio de há vinte anos neste ano de 2011 em que o fosso entre ricos e pobres, em Portugal, atingiu o nível mais elevado dos últimos 30 anos...)

A CAMBADA

Títulos nos jornais:

«Função pública perde 17, 4% de salário»

«Lista de espera para exames em hospitais ultrapassa os 100 dias?

«Crise fechou, este ano, 12 empresas por dia»

Assim vai o reino da política de direita... que, não esqueçamos, começou em 1976, pela pata de Mário Soares e foi diligentemente prosseguida, de então para cá, por cavacos, guterres, barrosos, sócrates, passos & Cia. - a cambada.

(quem anda muito falado nos últimos dias é o Luís Fazenda do BE: entrevista no Público, entrevista no DN...
Por que será?...)

POEMA

Corria o mês de Dezembro de 1991 - há, portanto, 20 anos.
Era Cavaco primeiro-ministro e achava que os salários dos trabalhadores, demasiado altos, os estavam a transformar em autênticos gastadores... Outra preocupação de Cavaco era o desemprego, a crescer, sempre a crescer... enfim, só preocupações - para as quais o génio de Boliqueime enbcontrou a solução...
Ao cavacal paleio, respondeu Mário Castrim com este

EPIGRAMA

O país tem de ter juízo
poupar mais, menos gastar.
Aí está o que é preciso.
Por isso os salários devem baixar.

A economia manda aviso.
Emprego tem de aumentar.
Aí está o que é preciso.
Por isso os salários devem baixar.

A inflação é prejuízo.
Há que mandá-la ao ar.
Aí está o que é preciso.
Por isso os salários devem baixar.

«Dói-me a queixada direita,
doutor, o que faço a isto?
(diz Cavaco), o que receita?
- «Baixar os salários, está visto»

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

Títulos de jornais:

«Pensões inferiores a 247 euros arriscam-se a ficar congeladas»

«Imposto das casas duplicará em 2013»

«Em Portugal o fosso entre ricos e pobres atingiu o nível mais elevado dos últimos trinta anos»


Título da Biografia de Luiz Pacheco, acabada de publicar:

«PUTA QUE OS PARIU!»


E em verdade vos digo, meus amigos: isto anda tudo ligado...

POEMA

(E ENTÃO?)


Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.

Todos já vimos!

E então?


Fernando Sylvan

PUDERA!...

Passado que foi o Natal, voltemos às danças e andanças da política de direita.

Há dias, na Alemanha, dois ex-gestores da Ferrostaal (a tal, a dos submarinos...) foram condenados a dois anos de prisão e ao pagamento de coimas, por suborno a funcionários públicos estrangeiros, na venda de submarinos a Portugal e à Grécia.
No caso de Portugal, o subornado foi (tanto quanto se sabe, até agora...) o ex-cônsul de Portugal em Munique - um alemão de nome Adolph... - cujo recebeu 1, 6 milhões de euros, a troco de propiciar contactos de responsáveis da Ferrostaal com o Governo português.

Diz a notícia que o Adolph teve contactos directos com o então primeiro-ministro, Durão Barroso, com Paulo Portas e com Mário David (na altura assessor de Barroso e agora deputado europeu).
Diz ainda a notícia que, a dada altura, Durão Barroso esteve num almoço (que ele próprio propôs), em Munique, com um então Administrador da Ferrostaal - e que houve encontros e reuniões várias, em Lisboa, na residência oficial do primeiro-ministro, em São Bento.

A notícia diz, finalmente, que todos os acima referidos «contactos directos» do Adolph se recusaram a comentar o sucedido.

PUDERA!

POEMA

NÃO ESPERES O TEMPO


Camarada poeta: se puderes
pega na palavra e não te cales
mais. Digo que não esperes,
para cantar, o tempo da colheita.

Agora a fome é tanta
que a palavra pão também se come.
Quem diz pão diz fome e a fome de a não ter não é sobeja.

Digo que a palavra seara faz crescer
o grão da raiva de a não ter.
Digo que a palavra fonte faz jorrar
rios de sede até ao mar.

A palavra trabalho, a palavra suor,
a palavra amiga, a palavra amor.
A palavra precisa, de vendaval ou brisa:
a que denuncia, a que profetiza.

Digo que a palavra que disseres
se pode desfolhar como os malmequeres:
ou muito ou pouco ou tudo ou nada.
O que não pode é ficar calada.


Carlos Aboim Inglês

POEMA

NATAL


Hoje é dia de Natal.
O jornal fala dos pobres
em letras grande e pretas,
traz versos e historietas
e desenhos bonitinhos,
e traz retratos também
dos bodos, bodos e bodos,
em casa de gente bem.

Hoje é dia de Natal.

- Mas quando será de todos?


Sidónio Muralha

O FUTURO

«Duração do subsídio de desemprego pode vir a ser reduzida até 75%»: é a notícia de hoje - ou antes: uma das notícias de hoje, porque as troikas são autênticas coelhas parideiras...
Na verdade, não se passa um dia sem que uma, duas, três notícias destas nos visitem: todas para o mesmo lado, todas no mesmo sentido, ou seja: todas contra os trabalhadores e o povo - que o mesmo é dizer: contra Portugal.

Mas há quem não esteja parado e combata com unhas e dentes esta política criminosa.
É o caso, por exemplo, do PS.
Diz a notícia: «Seguro critica Governo por ser inábil no relacionamento com os parceiros sociais»...
Ou seja: se o Governo fosse hábil na aplicação do seu terrorismo social...

Também o BE não pára!
Diz a notícia: «A adopção por casais do mesmo sexo é um dos próximos combates do BE»...
Ou seja: as «grandes causas» à frente de tudo...

E o Natal está aí.
Um Natal que - escreve Pacheco Pereira - «será triste, porque todos sabem que a vida vai piorar, e que não existe esperança no futuro próximo».
Sendo isso certo, não o é menos que há, entre esses «todos», muitos que não desistem de lutar para dar a volta ao presente - por muitos que sejam, e são, os obstáculos; por muito difícil que seja, e é, a luta.
E é nessa luta - e nos que não desistem de lutar - que está o FUTURO.

POEMA

SURDINA DE NATAL PARA OS MEUS NETOS


Ó David Ó Inês
vamos ver o menino
inda mais pequenino que vocês

Vamos vê-lo tapado
sob o céu do futuro
com a sombra de um muro
a seu lado

Vamos vê-lo nós três
novamente a nascer
vamos ver se vai ser
desta vez


David Mourão Ferreira

MAIS CEDO OU MAIS TARDE

Iniciado na década de 90 por Cavaco Silva, o criminoso processo de privatização da EDP chegou praticamente ao fim com a entrega à empresa chinesa Three Gorges de 21, 35% do capital social que o Estado ainda detinha.

É mais um grave passo em frente na operação de saque do sector empresarial do Estado.

É mais um brutal atentado aos interesses de Portugal e dos portugueses.
É mais uma manifestação de ódio a Abril, às suas conquistas, aos seus valores, princípios e ideais.
É a continuação da política terrorista que o actual governo está a levar a cabo, na sequência da assinatura, pela troika nacional - PS, PSD, CDS - do pacto de submissão com a troika ocupante - FMI, UE, BCE.
É a confirmação da necessidade imperiosa de os democratas e patriotas rejeitarem inequivocamente o sinistro pacto das troikas e exigirem uma política patriótica e de esquerda, ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

É a confirmação de que a luta de massas tem que continuar e intensificar-se, mais ampla e mais forte, pois é ela que tudo decidirá - Mais cedo ou mais tarde.

(das reacções dos partidos a este acto criminoso, destaco a do BE, para o qual o aspecto mais criticável desta operação é o facto de o negócio ter sido feito com uma empresa da China - coisa inadmissível para os bloqueiros, já que, dizem, a China não é um país democrático... Se a EDP fosse vendida a um «país democrático» - como a Alemanha, por exemplo... - não haveria problema de maior...
E assim, com o inevitável toque anticomunista, se desviam as atenções do essencial para o acessório - e se faz, afinal, o jogo das troikas...)

POEMA

(MAIS ALTO DIREMOS...)


Por mais que calem
por mais voltas que dê o mundo
por mais que neguem os acontecimentos;
por mais repressão que o estado instaure;
por mais que lavem a cara com a democracia burguesa;
por mais assassinatos de estado que cometam e calem;
por mais greves de fome que silenciem;
por mais que tenham saturado os cárceres;
por mais pactos que engendrem os controladores de classe;
por mais guerras e repressão que imponham;
por mais que tentem negar a história e a memória da nossa classe

Mais alto diremos:
assassinos de povos
miséria de fome e liberdade
negociadores de vidas alheias,
mais alto que nunca, em grito ou em silêncio,
recordaremos os vossos assassinatos
de gentes, vidas, povos e natureza.
De boca em boca, passo a passo, pouco a pouco.


Salvador Puig Antich

(Jovem anarquista, executado pelo regime franquista, em 2 de Março de 1974. Este poema foi escrito na cela, pouco antes de ele ser garrotado)

O CAMINHO FAZ-SE CAMINHANDO

O Diário Económico diz que a Europa gastou, até agora, seis vezes mais dinheiro a salvar bancos do que a salvar países.
A notícia não constitui surpresa.
Qualquer cidadão minimamente informado sabe que a parte de leão da massa que por aí tem circulado, tem ido direitinha rumo à Banca, aliás em condições excepcionalmente favoráveis - condições que se situam nos antípodas das condições impostas aos países.

E sabe, até, mais: sabe que se a palavra «salvar» pode ser aplicada no que respeita aos bancos, o mesmo não se pode dizer em relação aos países...
Os bancos, de facto, são salvos e mais do que salvos, enquanto os países, de facto, são afundados e mais do que afundados.

E também isto não constitui surpresa.
Na verdade, o capitalismo é assim - e não tem cura... a não ser aquela que passa pela sua liquidação e pela sua substituição pelo socialismo - a única alternativa existente.

É difícil concretizar essa alternativa: é.
É impossível concretizar essa alternativa?: não é.

Especialmente se não nos esquecermos que o caminho faz-se caminhando...

POEMA

AFORISMO


Havia uma formiga
compartilhando comigo o isolamento
e comendo juntos.

Estávamos iguais
com duas diferenças:

Ela não era interrogada
e por descuido podiam pisá-la.

Mas aos dois intencionalmente
podiam pôr-nos de rastos
mas não podiam
ajoelhar-nos.


José Craveirinha

VENEZUELANOS, PONHAM-SE A PAU!

Obama está preocupado com a situação na Venezuela - Venezuelanos, ponham-se a pau!...

E o que é que preocupa o distinto Nobel da Paz?: «as limitações aos direitos humanos e as ameaças aos valores básicos da democracia», que, diz ele, «não contribuem para a segurança da região» - Venezuelanos, ponham-se a pau!...

Dito isto, o presidente dos EUA fez questão - como é seu hábito, herdado de todos os seus antecessores - de garantir que «a Venezuela é um país soberano e os EUA não têm qualquer intenção de interferir nas suas relações externas» - Venezuelanos, ponham-se a pau!...

Mesmo assim (ou por isso mesmo) Obama acrescentou: «penso que a ligação do governo venezuelano ao Irão e a Cuba não beneficiam os interesses da Venezuela e do seu povo» - Venezuelanos, ponham-se a pau!

A tudo isto, respondeu o Presidente Hugo Chávez, sem papas na língua: «És um palhaço. Deixa-nos em paz».

A resposta é boa. Agrada-me.
Em todo o caso, e cá por coisas, insisto: Venezuelanos, ponham-se a pau!

POEMA

COMEI OS VOSSOS PERUS


Comei os vossos perus
burgueses anafados
e dai esmolinha aos pobres
que tendes esfomeados.
Um dia há-de chegar
em que sereis assados
não para subir ao céu.


Jorge de Sena

«VAMOS FAZER CARIDADE»...

O Governo está cheio de preocupações humanitárias e sociais.
Do Passos ao Portas e do Gaspar ao Álvaro, passando pelo conselheiro Cavaco, os homens nem dormem só a pensar, a pensar, a pensar em soluções para os problemas de que se queixam estes pobres diabos que são os portugueses.

E os resultados começam a ver-se.
Assim, para a pobreza, a miséria, a fome, os pensadores receitam caridade, muita caridade, especialmente agora que o Natal está à porta.
Bodos aos pobres, sopa do Sidónio, jantares de Natal dos sem-abrigo, eis algumas das modalidades por eles descobertas e que põem na ordem do dia a palavra de ordem dos anos 30 do século passado: «Vamos fazer caridade»...

Para o desemprego, a solução encontrada pelos pensadores remete para o estrangeiro e pode resumir-se numa simples e pragmática frase: «Não tens emprego?: emigra»
Note-se que estamos perante uma outra forma de caridade, esta mais europeísta, mais moderna, embora também com raízes no século passado, década de 60, quando o pessoal ia a salto...

Face a tudo isto, há que reconhecer que governantes que se preocupam deste modo com o bem-estar dos seus governados, só podem ser aplaudidos e justamente premiados.

Vamos, então, «fazer caridade», atrelando-os seis meses à sopa do Sidónio e, depois de suficientemente ensopados, dando-lhes a guia de marcha para a emigração.

Estou certo de que, se assim fizermos, o País fica mais limpo e mais puro o ar que respiramos.

POEMA

MENINA FÚTIL


A menina fútil deu um bodo aos pobres;
pela primeira vez pôs avental...
Falou do gesto e seus intuitos nobres,
com palavrinhas brandas, o jornal...

- Os pobres ficaram pobres
e a menina fútil nunca mais pôs avental...

A menina fútil tem um cão de raça
que nunca saiu do quintal
e nunca viu uma cadela...
- Para a menina fútil, o seu cão de raça
deixou de ser um animal
e é um cãozinho de flanela...

... e a menina fútil tem um namorado
e atira-lhe promessas da janela...
Promessas... porque o resto era pecado
e pecar não é com ela...
(Fica sempre na rua, o namorado,
e é tão distante a janela...)

Mas a menina fútil tem um namorado;
tem um cão como feito de flanela;
e anda feliz por dar um bodo aos pobres
e ter descido a pôr um avental...

Lê e relê os seus intuitos nobres;
recorta o seu retrato do jornal;

- e os pobres continuam pobres,
e a menina fútil nunca mais põe avental...


Sidónio Muralha

MEMÓRIA BREVE DE UMA NOITE LONGA


Éramos 20 e ocupávamos uma sala da Prisão da PIDE, no Porto - Rua do Heroísmo... - paredes meias com outra sala igual e com igual número de camaradas.

Era Natal.

A notícia chegou-nos à noite - noite fria, fria - através de batidas na parede:
A PIDE ASSASSINOU O ZÉ DIAS COELHO.

Fez-se um silêncio.
Depois, alguém deu um murro na mesa de madeira e disse em voz rouca: Assassinos.

Novamente o silêncio.
Um camarada começa a andar de um lado para o outro a todo o comprimento da sala.
Pouco a pouco, todos o imitámos, alguns com brilho de lágrimas nos olhos.
Todos em silêncio.

À hora habitual, o guarda de serviço veio apagar a luz: era a hora do silêncio de todos os dias, agora interrompido com o barulho da chuva que começara a cair.

Uma voz - alentejana, límpida, clara - emerge do silêncio, cantando baixinho, muito baixinho:

«Noite imensa, noite imensa de amargura,
semeada de baionetas e ameaças.
Uma estrela vem rasgando a noite escura,
traz a morte das algemas e mordaças»

Três, quatro vozes juntam-se-lhe, baixinho, muito baixinho:

«O caminho é pedregoso e duro
mas o sonho que nos guia é puro»

E agora é o coro contido de 20 vozes:

«As espadas, as espadas,
impotentes vão tombar despedaçadas...
E as searas a crescer na terra
são promessas de beleza e pão,
mundo novo, mundo novo,
poderosa e triunfal canção.
de amor, de amor»...

Outra vez o silêncio - e a chuva, agora mais intensa.
Em vários bailiques brilham as pontas acesas dos cigarros.



E faz-se ouvir uma voz serena e cheia de força:


«Até amanhá, camaradas».

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA FATIA DE BOLO-REI


Corria o ano de 1961.
Estávamos à porta do Natal.

Eram quase duas horas da manhã
e eu perguntei-lhe
se queria comer alguma coisa.
Disse que sim. Mas que
estava com muita pressa.

Enquanto vestia a gabardina, trouxe-lhe
uma sanduíche de fiambre
um copo de vinho
uma fatia de bolo-rei.
Estava de pé
comia como se fosse a primeira vez
desde a infância.

-Há quantos anos
deixa cá ver
há quantos anos é que eu não comia
bolo-rei?
Este é bom, sabe a erva-doce
e a ovos.
(Caíam-lhe migalhas
aparava-as com a outra mão
em concha)

- Comes outra fatia, camarada?

- Isso não.
Estou atrasado já.
Mas se ma embrulhasses...

Através da janela
do quarto às escuras
fico a vê-lo atravessar a Rua da Creche
seguir pela Rua dos Lusíadas.

Nenhum de nós sabia
que estava já erguida a pirâmide do silêncio
à espera dele
num breve prazo.

Quando talvez o gosto do bolo-rei
mais forte do que nunca
tivesse ainda na boca.


Mário Castrim

ALGURES EM PORTUGAL...

A CIA estende os seus tentáculos a todo o planeta. É uma espécie de deus omnipresente. E omnipotente.
Não há país onde a sinistra associação de criminosos não esteja, de uma forma ou de outra: ou através dos seus agentes próprios; ou através de agentes locais devidamente remunerados - e que, em muitos, muitos casos ocupam altos, altíssimos cargos nos respectivos países... - ou infiltrada em organizações as mais diversas; ou organizando o assassinato de dirigentes políticos que defendem os interesses dos seus países; ou, quando os «interesses dos EUA» o exigem, organizando golpes contra governos legítimos e instaurando ditaduras.

Na última década a CIA encetou um nova modalidade de intervenção: a instalação de prisões secretas em vários países - prisões que enchem de indivíduos «suspeitos de terrorismo» e interrogam à sua maneira e segundo o princípio «ou confessam ser terroristas (mesmo que nada tenham a ver com isso), ou morrem».
Essas prisões funcionam o tempo necessário para os «suspeitos» se decidirem... e os que não morrem são enviados para Guantánamo.

Recentemente foi descoberta mais uma dessas prisões secretas. Desta vez, na Roménia.
A prisão funcionou entre 2003 e 2006, em Bucareste, a capital. E, para que não restem dúvidas sobre o envolvimento do governo romeno na criminosas operação, a referida prisão funcionava, nem mais menos do que no edifício onde funciona o Registo Nacional de Segredos do Estado da Roménia...

A prisão tinha «o nome de código de Luz Brilhante e dispunha de seis celas pré-fabricadas, assentes sobre molas, para provocar uma sensação de desequilíbrio e desorientação nos detidos».
Ali, os presos eram privados de sono e de alimentação e submetidos às mais diversas práticas de tortura, incluindo a simulação de afogamento.

São vários os países da Europa onde tem sido descoberta a existência de prisões da CIA.
E é bem possível que, mais dia menos dia, venhamos a saber que, algures em Portugal...

POEMA

«DE CADA VEZ QUE UM GOVERNO...»


De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado, ou para melhor êxito
das negociações internacionais, é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.

Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.

Porque, se há algum segredo na vida pública,
que todos não podem saber, é porque alguém,
sem saber, é o preço do negócio feito.
E, se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos e dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou fizeram,
a liberdade
é uma farsa,
a segurança
é uma farsa,
a ordem
é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros e nem pagam
decentemente senão aos maus actores.


Jorge de Sena

É PRECISO, IMPERIOSO E URGENTE...

Roubar a quem trabalha para dar a quem vive à custa do trabalho dos outros: eis o lema do governo Passos/Portas.
E se é verdade que assim é desde há 35 anos - ou seja, desde que, em 1976, o governo PS/Soares iniciou a política de direita que conduziu o País ao desgraçado estado em que se encontra - também é verdade que, hoje, a roubalheira atingiu níveis inimagináveis: a gatunagem governamental corre à rédea solta pelo País e, por onde passa, deixa atrás de si um rasto de devastação, de terra queimada pelo napalm que é o pacto das troikas do apocalipse.

O governo é o roubo: direitos laborais, emprego, salários, reformas, pensões, subsídios, feriados, Saúde, Educação, transportes e mobilidade, habitação, independência nacional... nada escapa ao apurado carácter de classe da política das troikas.
Porque, das medidas que o governo Passos/Portas tomou (ou anunciou), não há uma - uma única - que não seja contra o trabalho e a favor do capital; contra os trabalhadores e o povo e a favor dos grandes grupos económicos e financeiros; contra a imensa maioria dos portugueses e a favor da imensa minoria.

E roubando o que rouba, o governo está a roubar democracia... e a instalar, paulatinamente, um regime ditatorial de cariz fascizante, muito semelhante àquele que em Abril, Abril venceu.

É preciso, imperioso e urgente pôr termo a esta política.
É preciso, imperioso e urgente retomar o caminho de Abril.