SEMPRE!

A propósito da operação levada a cabo pelo governo fascista de Uribe, os média dominantes embandeiraram em arco. À sua maneira: muito mais interessados em desencadear a habitual campanha de intimidação contra os que não pensam como eles do que em tudo o resto - essa campanha recorrente que, como sempre acontece nestas ocasiões, assume os também habituais contornos persecutório-policiais.
É assim que vemos, por exemplo, no inevitável Diário de Notícias, uma prosa com cheiros pidescos, assinada por um tal Ferreira Fernandes e, no inevitabilíssimo Público, uma peça de igual cariz, assinada por uma tal São José Almeida - neste caso, como era inevitável, apontando e disparando directo contra o PCP (com a Festa do Avante! em lugar de destaque, é claro..)

Como em situações anteriores, estes média intimidarão alguns (veja-se como o deputado do BE, João Semedo, fez questão de explicar tudo, tintim por tintim...)
E, também como em situações anteriores, não intimidarão os que nunca se deixaram, nem deixam, intimidar - a comprovar a impotência dos todo-poderosos média...

A todos - os que se deixam e os que se não deixam intimidar - recomendo, entre outras leituras, a do texto publicado no resistir.info.
Aos intimidados, dir-lhes-ei que... isso passa, vão ver!, daqui por uns tempos, isso passa; isto é: quando a propaganda do sistema dominante tiver que virar as suas baterias essenciais para outros alvos e quando a realidade confirmar inequivocamente que «a operação ardilosa do dia 2, infelizmente, pôs a Colômbia mais distante da paz.»

Entretanto, e para já, ao severo interrogatório dos polícias mediáticos... apetecia-me responder: «não presto declarações»: ou: «não falo»; «à polícia nem as horas digo»...
Contudo, na situação presente, essa seria uma muito cómoda - e muito errada - atitude. Por isso, penso que é indispensável dizer-lhes as minhas... «horas», ou seja: dizer-lhes que, neste caso concreto, a minha solidariedade total vai para com todos os que combatem o governo fascista de Uribe - aí incluídas as FARC.
Porque entre os meus inimigos e os que os combatem, é com estes últimos que estou. Sejam quais forem as circunstâncias. Sempre!.

POEMA

BALADA DAQUELE QUE CANTOU NA TORTURA

E se houvesse que voltar
atrás eu voltaria
Uma voz sobe dos ferros
e fala de um outro dia

Dizem que na sua cela
dois homens tinham entrado
sussurravam Capitula
vê-se que estás cansado

podes viver a vida
acata os nossos conselhos
diz a palavra que livra
e viverás de joelhos

E se houvesse que voltar
atrás eu voltaria
a voz que sobe dos ferros
fala já para o novo dia

Só uma palavra e a porta
abre-se logo e tu sais
Assim o carrasco exorta
Sésamo Não sofras mais

Uma palavra só só mentira
o teu destino retém
na doçura das manhãs
pensa pensa pensa bem

E se houvesse que voltar
atrás eu queria ir
a voz que sobe dos ferros
fala aos homens do porvir

Aragon
(Tradução de Luiza Neto Jorge)

DÁ GOSTO VÊ - LOS...

No final de um encontro, em Washington, com o chefe do governo iraquiano, Jalal Talabani, no decorrer do qual foi discutida a questão das tropas norte-americanas no Iraque, Bush informou ter entregue a «proposta de um acordo muito conveniente para o governo iraquiano». Por seu lado, Talabani afirmou a sua «disponibilidade para cooperar de forma a chegar rapidamente a um acordo».

As declarações dos dois «presidentes» dão a ideia, em primeiro lugar, de que estamos perante um caso exemplar de diálogo aberto, civilizado e democrático entre dois chefes de Estado ; e, em segundo lugar, que ambas as partes se mostram interessadas na procura da solução séria para um complexo e grave problema - que, aliás, tem atrás de si um trágico rasto de violência, de barbaridade, de destruição, de terror.

Todavia, nem tudo o que parece, é - e, na verdade, neste caso concreto a realidade é bastante diferente das aparências...
É isso que pode concluir-se lendo os termos do «acordo» proposto por Bush, que o jornal britânico The Independent divulgou.
De acordo com a proposta norte-americana, o «acordo» prevê, designadamente:

a manutenção de meia centena de bases militares dos EUA no Iraque;
o controlo do espaço aéreo iraquiano;
a liberdade de movimentos e de acção para as unidades militares norte-americanas em todo o território;
a liberdade para prender iraquianos;
a imunidade legal para soldados e mercenários dos EUA...

Para além disso - e como prova das boas e democráticas intenções de Bush - o Iraque deverá assinar o «acordo» até finais de Julho. Se o não fizer até à data «proposta», o governo dos EUA «confiscará os 50 milhões de dólares iraquianos depositados no Banco da Reserva Federal de Nova York.»

Realmente, em matéria de pragmatismo e de exercício de democracia aplicada, não há como os EUA. Dá gosto vê-los...


POEMA

CHAMEI POR MIM

Chamei por mim quando cantava o mar
Chamei por mim quando corriam fontes
Chamei por mim quando os heróis morriam

E cada ser me deu sinal de mim.

Sophia de Mello Breyner Andresen

SOPHIA

Na passagem do 4º aniversário da morte de SOPHIA, o Cravo de Abril presta a sua homenagem àquela que é uma figura de primeira grandeza da POESIA portuguesa de todos os tempos.

Assinalamos esta data com a publicação do notável texto lido por SOPHIA, em 11 de Julho de 1964, no almoço promovido pela Sociedade Portuguesa de Escritores por ocasião da entrega do Grande Prémio de Poesia a LIVRO SEXTO:

«A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria.
Mais tarde, a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor da presença das coisas. E também a reconheci, intensa, atenta e acesa na pintura de Amadeu de Sousa Cardoso.
Dizer que a obra de arte faz parte da cultura é uma coisa um pouco escolar e artificial. A obra de arte faz parte do real e é destino, realização, salvação e vida.
Sempre a poesia foi para mim uma perseguição do real. Um poema foi sempre um círculo traçado à roda duma coisa, um círculo onde o pássaro do real fica preso. E se a minha poesia, tendo partido do ar, do mar e da luz, evoluiu, evoluiu sempre dentro dessa busca atenta.
Quem procura uma relação justa com a pedra, com a árvore, com o rio, é necessariamente levado, pelo espírito de verdade que o anima, procurar uma relação justa com o homem. Aquele que vê o espantoso esplendor do mundo é logicamente levado a ver o espantoso sofrimento do mundo. É apenas uma questão de atenção, de sequência e de rigor.
E é por isso que a poesia é uma moral. E é por isso que o poeta é levado a buscar a justiça pela própria natureza da sua poesia. E a busca da justiça é desde sempre uma coordenada fundamental de toda a obra poética.
Vemos que no teatro grego o tema da justiça é a própria respiração das palavras. Diz o coro de Ésquilo: "Nenhuma muralha defenderá aquele que, embriagado com a sua riqueza, derruba o altar sagrado da justiça." Pois a justiça se confunde com aquele equilíbrio das coisas, com aquela ordem do mundo onde o poeta quer integrar o seu canto. Confunde-se com aquele amor que, segundo Dante, move o sol e os outros astros. Confunde-se com a nossa confiança na evolução do homem, confunde-se com a nossa fé no universo.
Se em frente do esplendor do mundo nos alegrarmos com paixão, também em frente do sofrimento do mundo nos revoltamos com paixão. Esta lógica é íntima, interior, consequente consigo própria, necessária, fiel a si mesma. O facto de sermos feitos de louvor e protesto testemunha a unidade da nossa consciência.
A moral do poema não depende de nenhum código, de nenhuma lei, de nenhum programa que lhe seja exterior, mas, porque é uma realidade vivida, integra-se no tempo vivido. E o tempo em que vivemos é o tempo duma profunda tomada de consciência. Depois de tantos séculos de pecado burguês a nossa época rejeita a herança do pecado organizado. Não aceitamos a fatalidade do mal. Como Antígona, a poesia do nosso tempo diz: "Eu sou aquela que não aprendeu a ceder aos desastres." Há um desejo de rigor e de verdade que é intrínseco à íntima estrutura do poema e que não pode aceitar uma ordem falsa.
O artista não é, e nunca foi, um homem isolado que vive no alto duma torre de marfim. O artista, mesmo aquele que mais se coloca à margem da convivência, influenciará necessariamente, através da sua obra, a vida e o destino dos outros. Mesmo que o artista escolha o isolamento como melhor condição de trabalho e criação, pelo simples facto de fazer uma obra de rigor, de verdade e de consciência ele irá contribuir para a formação duma consciência comum. Mesmo que ele fale somente de pedras ou de brisas, a obra do artista vem sempre dizer-nos isto: que não somos apenas animais acossados na luta pela sobrevivência mas que somos, por direito natural, herdeiros da liberdade e da dignidade do ser.
Eis-nos aqui reunidos, nós escritores portugueses, reunidos por uma língua comum. Mas acima de tudo estamos reunidos por aquilo a que o padre Teilhard de Chardin chamou a nossa confiança no progresso das coisas.
E tendo começado por saudar os amigos presentes quero, ao terminar, saudar os meus amigos ausentes: porque não há nada que possa separar aqueles que estão unidos por uma fé e por uma esperança.»

POEMA

O MESMO CORAÇÃO E A MESMA CABEÇA

Não é para me gabar,
mas atravessei de um jacto, como uma bala,
os meus dez anos de prisão.

E se deixarmos de lado as dores no fígado,
o coração está igual,
a cabeça é a mesma de antes.

Nazim Hikmet

TERRORISMO (4)

Mostra a História que o terrorismo é uma arma da direita e da reacção - e que mesmo as organizações terroristas que se autodenominam de «esquerda», não passam de instrumentos criados e financiados pelo capitalismo opressor e explorador, com vistas a combater, denegrir e enfraquecer a Esquerda.
Mostra a História, igualmente, que o capitalismo sempre tentou (tenta) não apenas esconder o seu próprio carácter de facto terrorista, mas acusar de «terroristas» os que se lhe opõem e o combatem de armas na mão, quando necessário - desse modo «justificando» a repressão sobre os que o combatem.

É à luz desta prática ususal do capitalismo dominante que deve ser visto, na minha opinião, o «decreto» emanado dos EUA e que, há uns anos atrás, classificou as FARC como uma «organização terrorista» - e, de imediato, as incluiu na sua «lista negra».
Não surpreende que tal «decreto» tenha sido servilmente acatado por todos os governos satélites dos EUA - aí incluídos os da União Europeia (na verdade, se em nome de um falso «combate ao terrorismo» e na real defesa dos interesses dos EUA, esses governos participaram nos morticínios do Afeganistão e do Iraque, por que razão é que não acatariam a ordem de considerar as FARC uma «organização terrorista»?)
Não surpreende, também, que a comunicação social dominante ao serviço do grande capital, tenha adicionado ao cozinhado básico do «decreto» os temperos adequados e o sirva generosamente - difundindo-o tantas vezes quantas as necessárias para ele ser aceite como coisa boa e verdadeira.

Por tudo isto, é natural que o cidadão-consumidor-regular-de-comunicação-social,
aceite como verdadeiro o que lê e ouve nesses média.
E é também natural que, por efeito dessa desinformação cirurgicamente organizada e que, cirurgicamente, silencia as práticas terroristas do regime de Uribe - a brutal repressão, as prisões e os assassinatos de dirigentes sindicais, de comunistas e de outros democratas, etc - haja cidadãos, mesmo razoavelmente informados, que tendam a aceitar a desinformação como se informação fosse, que tendam a aceitar como verdadeira a catalogação das FARC como «organização terrorista», na base deste raciocínio simplista: se todos os dias, de todos os meses, de todos os anos, em todos os jornais, revistas, televisões e rádios, eu leio e ouço isto... é porque é verdade... por aí se quedando e, portanto, não recorrendo a instrumentos de análise como os que permitem fazer a distinção entre terrorismo e luta revolucionária armada, ou entre violência terrorista e violência revolucionária, etc, etc.
Não recorrendo, sequer, a caminhos muito menos complexos de análise, como o célebre poema de Brecht que, luminarmente, nos mostra que as causas da violência do rio se situam nas margens que o comprimem...

POEMA

CABO DA BOA ESPERANÇA

Na feira da África do Sul
os racistas brancos exibem
um casal de negros

Obrigam-nos a trepar a uma árvore
e aos uivos
a arrastarem-se de gatas
e a pastar

A mim só me resta escolher
Diz o meu amigo poeta

Ou arrancar a pele branca que tenho
e dependurá-la num prego
Ou

Vasko Popa
(Tradução de Eugénio de Andrade)

TERRORISMO (3)

A NOTÍCIA não é boa nem é má: vale pelo exemplo que é do processo de instrumentalização visando impor à escala planetária, como verdade absoluta, o conceito de «terrorismo» engendrado pelos EUA.

Sigamos, então, o percurso cronológico da NOTÍCIA:

Sabemos que os que, de armas na mão, lutavam contra o regime racista/terrorista da África do Sul eram considerados, pelo Poder dominante, como «perigosos terroristas» que era necessário caçar e abater impiedosamente.
Sabemos que, na altura, os EUA - para os quais, naturalmente, o regime do apartheid era um exemplo modelar de democracia - se apressaram a incluir na sua «lista negra do terrorismo» os nomes da ANC e do seu líder, Nelson Mandela.
Sabemos que, entretanto, as coisas mudaram: o regime terrorista foi derrotado... pelos «terroristas»: os terroristas de facto foram derrotados pela luta revolucionária armada - que é libertadora e, por isso, antiterrorista.
Sabemos que, face a essa realidade, os EUA - derrotados e contrariados, mas impotentes - tiveram que aceitar o fim do apartheid terrorista, o fim da repressão selvagem, o fim das brutais, bárbaras, inumanas humilhações a que o apartheid submetia milhões de crianças, mulheres e homens (como o poema do post seguinte nos lembra).

Ora, é aqui que entra a NOTÍCIA lá em cima anunciada e que diz assim:
«Os EUA retiraram os nomes de Nelson Mandela e da ANC da sua lista negra do terrorismo»
É caso para dizer: demorou, mas tiveram que lá ir!
E é claro que não é pelo facto de os seus nomes sairem da «lista» que Mandela e a ANC deixam de ser «terroristas»: na verdade eles nunca foram terroristas. Enquanto que os que os colocaram e agora retiraram da «lista», foram, são e serão terroristas. Até os vencermos.

Este post pretende, essencialmente, alertar para as malhas que os terroristas do Império tecem em torno de cada um de nós e de nós todos, sobre o conceito de «terrorismo» que serve exclusivamente os interesses do imperialismo norte-americano.

POEMA

AVISO

A noite que precedeu a sua morte
foi a mais breve de toda a sua vida
Pensar que estava vivo ainda
era um fogo no sangue até aos punhos
A sua força era tal que ele gemia
Foi quando atingia o fundo deste horror
que o seu rosto num sorriso se lhe abriu
Não tinha apenas um único camarada
mas sim milhões e milhões de camaradas
para o vingarem sim bem o sabia
E então para ele ergue-se a alvorada

Paul Éluard

TERRORISMO (2)

Volto às invencionices terroristas do vereador Assis/PS que, há dias, com o acolhimento mediático de que todas as trapaceirices reaccionárias gozam, anunciou a «presença das FARC na Festa do Avante!» - além de, sobre as FARC, ter revelado partilhar a opinião de Bush.

Se o vereador Assis está de facto preocupado com o terrorismo tem que mudar a agulha ao seu discurso. Na verdade, nem no PCP (nem nas imediações do PCP), o vereador PS encontrará vestígios de tal coisa, bem pelo contrário: são conhecidas as posições, a prática e a coerência do PCP na denúncia e no combate ao terrorismo - tal como é conhecido o facto incontestável de o PCP ter sido várias vezes alvo do terrorismo.
Essa é uma matéria na qual nenhum outro partido político nacional - sublinho: nenhum! - pode dizer, dizendo a verdade, o que o PCP, dizendo a verdade, diz.

Sabe quem quer saber - e a informação está disponível para o vereador Assis - que Salazar considerava «organizações terroristas» quer os movimentos de libertação das colónias, quer a (única) força organizada que em Portugal fazia frente ao fascismo: o PCP - e só se o dito vereador não quiser é que não sabe como, sobre estas organizações, se fizeram sentir as consequências da repressão contra elas desencadeada pela ditadura terrorista de Salazar.
No entanto, os vencedores dessa batalha foram os revolucionários. Os derrotados foram os terroristas.

O terrorismo, temporariamente interrompido com o 25 de Abril, cedo reapareceu: à medida que a Revolução avançou e a construção de uma democracia avançada começou a ganhar forma, as forças contra-revolucionárias viram no terrorismo uma necessidade imperiosa.
E não hesitaram em recorrer a ele - terrorismo a sério, com bombas, tiros, asaltos, incêndios, e provocando destruições, feridos, mortos.
Essa vaga terrorista - como o vereador Assis deveria saber - tinha como alvo primeiro e preferencial o PCP: vários centros de trabalho do Partido foram assaltados, destruídos á bomba, incendiados e muitos foram os militantes comunistas que sofreram as consequências dessas acções terroristas - em alguns casos com as perdas das suas vidas.
E é bom que o vereador Assis não esqueça quem financiou e quem organizou e dirigiu esses brutais actos terroristas:
os milhões necessários vieram dos EUA, da então RFA, da França, da Grã-Bretanha, enfim, de governos que, tendo apoiado o fascismo até ao seu último dia de vida, foram inimigos da revolução de Abril desde o seu primeiro dia de vida;
a direcção da vaga terrorista foi assegurada, superiormente, pelos partidos da contra-revolução: o CDS, o PSD e o seu, dele, vereador Assis, partido: o PS - que, aliás, teve em toda a acção contra-revolucionária um papel destacado, determinante.

Tudo isto para dizer que se o vereador Assis está, sinceramente, preocupado com o terrorismo, não é para o PCP nem para a Festa do Avante! que deve olhar: aí só encontrará combatentes, alvos e vítimas do terrorismo.
Olhe, isso sim, para a sua própria casa.

Se assim fizesse - e se, porventura, fosse tocado por um breve sopro de dignidade anti-terrorista - estou certo de que sairia e fecharia a porta bem fechada atrás de si.

POEMA

FLORILÉGIO


um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão
um patrão

Tão longa
procissão,
tão curto
o pão.

Francisco Viana

OS CONVIDADOS

Numa sucessão initerrupta, o Clube de Bilderberg vai convidando para as suas tradicionais reuniões «figuras prometedoras, que podem ascender à governação dos seus países».
Postas as coisas assim, dir-se-ia que o Clube é uma inofensiva instituição com superiores poderes de adivinhação e sem qualquer tipo de interferência na marcha dos destinos dos seus convidados especiais. Nada mais falso: ali decidem-se «governações», com os poderes que só o grande capital possui... - «governações» que, porque assim escolhidas, são autênticos executivos dos interesses de quem os escolheu.

Por lá passaram - antes de... - Guterres, Barroso, Santana Lopes, Sócrates - e lá lhes foram traçados os respectivos destinos...

Na última reunião do Clube - realizada em 6 de Junho, em Virgínia, EUA - os convidados foram António Costa e Rui Rio.

Vamos lá ver se, desta vez, através da luta, conseguimos cortar as voltas aos adivinhadores de Bilderberg e conquistar um governo de gente séria, presidido por um primeiro-ministro sério.
Já era tempo, não acham?

POEMA

TURNO

primeiro a neve.

depois da última neve
o primeiro filho.

depois das últimas dores de parto
a primeira comunhão.

depois da última porcaria
o primeiro amor.

depois da última palavra
a primeira hipoteca.

depois do último centavo
a primeira guerra mundial.

depois da última advertência
o primeiro fiscal.

depois da última instância
o primeiro clube de futebol de nuremberg.

depois da última camisa
o primeiro auxílio.

depois da última idiotice
o primeiro violino.

depois da última honraria
o primeiro cantar do galo.

depois da última porcaria

por fim

a primeira neve.


Hans Magnus Enzensberger

TERRORISMO (1)

Os jornais de hoje - todos - divulgam um protesto de um vereador do PS na Câmara do Seixal - José Assis - contra aquilo a que o dito vereador chama «a presença das FARC na Festa do Avante!» - «presença» que muito incomoda o vereador o qual, invocando nem mais nem menos do que a «comunidade internacional», acusa as FARC de «grupo terrorista».

É sabido que a caracterização das FARC como «grupo terrorista», tão diligentemente papagueada pelo vereador do PS, foi feita por quem, de facto, é responsável pelo maior centro de terrorismo do mundo: os EUA.
Mas deixemos isso, por agora, e sublinhemos aquilo que, por agora, é o mais importante, a saber: a declaração do vereador Assis sobre «a presença das FARC na Festa do Avante! é falsa! FALSA!
E tão falsa é, que só pode ser explicada por uma intencional vontade do vereador de, através da mentira, alimentar um velho e falso facto político, recorrente todos os anos por esta altura e sempre visando escuros, sujos objectivos políticos.

Afinal, fazendo o que fez, o vereador do PS praticou um verdadeiro acto de terrorismo político.
Matéria na qual, como se sabe, o partido do vereador Assis tem vasta, vastíssima experiência.

E RECORDAR...

Para os que o viram e se recordam dele com ternura...
Para aguçar o apetite aos que ainda não o viram...
Para os que com ele recordam a infância...

POEMA

O SONÂMBULO E O OUTRO

Durante a noite não pregou olho.
Seguia os passos do sonâmbulo sobre o tecto.
Cada passo, pesado e ôco,
ressoava infindamente num canto
vazio de si próprio.
Fica à janela, esperando
apará-lo nos braços, se viesse a cair.
Mas se o outro o arrastasse na queda?
Era a sombra de um pássaro na parede?
Uma estrela? Era o outro? As suas mãos?


Ouviu-se um baque surdo no pavimento.
Amanhecia.
Abriram-se janelas. Os vizinhos acorreram.
O sonâmbulo descia rapidamente
as escadas de serviço
para acudir àquele que tombara da janela.

Yannis Ritsos

O ARGUEIRO E A TRANCA...

Título de 1ª página de «Le Monde»:
«No Zimbabwe é preciso votar "Mugabe", senão...»

Cravo de Abril: Na União Europeia é preciso votar «Sim» ao Tratado, senão...

Obviamente, o que está aqui em causa não é o atropelo democrático, o desprezo pelo sufrágio universal que, quer no Zimbabwe quer na União Europeia transformam as eleições numa farsa.
O que está em causa é a dualidade de critérios dos média europeus, condenando no Zimbabwe aquilo que aplaudem na Europa.

Trata-se de, como há dois mil anos dizia S. Mateus, «ver o argueiro no olho alheio e não ver a tranca no seu».

POEMA

ENSAIO DE CÂNTICO NO TEMPLO

Ah, que farto que eu estou da minha
cobarde e velha terra, tão selvagem,
e como gostaria de abalar
para o norte
onde dizem que a gente é
limpa e nobre, culta e rica,
viva, livre, feliz!
Então, na confraria, os irmãos diriam
reprovando: «Como pássaro que deixa o ninho,
assim o homem que deixa o lugar»,
enquanto eu, bem longe, riria
da lei, da sabedoria
antiga desta terra tão ávida.

Porém de que me serve prosseguir um sonho -
aqui hei-de ficar até morrer,
pois cobarde e selvagem também eu o sou,
e além disso amando
com dor desesperada
esta pobre,
suja, triste, desgraçada pátria minha.

Salvador Espriu

ISTO ANDA TUDO LIGADO

Diz o DN que Durão Barroso «tem passado por Lisboa nos últimos tempos para pôr algumas coisas em dia».
Que tipo de coisas?
Por exemplo: na segunda-feira recebeu um grupo de estudantes universitários norte-americanos, vindos da famosa Universidade de Georgetown - mais do que famosa, aliás, já que se trata de uma universidade que, segundo se diz sem desmentidos, «é completamente dominada pelas altas esferas norte-americanas, incluindo a CIA».

Obviamente, a recepção de Durão Barroso aos jovens estudantes norte-americanos nada tem a ver com essas características ciáticas, digamos assim, da famosa universidade.
Tem tudo a ver, isso sim!, com o facto de Durão Barroso ter passado pela Universidade de Georgetown «algumas temporadas entre 1996 e 1999 para preparar um doutoramento».
Doutoramento que, diga-se em abono da verdade, não chegou a concluir.
Não por falta de capacidades do actual Presidente da Comissão Europeia, mas por... falta de tempo: como estamos lembrados, Barroso foi chamado ao clube Bilderberg em 1994, era então ministro dos Negócios Estrangeiros de Cavaco Silva - essa primeira presença no clube que escolhe os governantes do grande capital, parece ter sido decisiva na carreira deste assanhado ex-esquerdista. Em 1995 candidatou-se a líder do PSD, as coisas não lhe correram de feição e foi então que tomou a decisão suprema de passar umas «temporadas» na universidade da CIA - que, ao que tudo indica, funcionou neste caso mais como apêndice do clube de Bilderberg do que como local onde as pessoas vão doutorar-se...
E a verdade é que Barroso deixou Georgetown para passar a líder do PSD e, logo a seguir, a primeiro-ministro. Nestas funções, fez três dias de criado de Bush/Blair/Aznar nas Lages, e recebeu como paga o cargo de Presidente da Comissão Europeia.
A comprovar que... isto anda tudo ligado.

POEMA

CONFIANÇA


O que é bonito neste mundo, e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova...

Miguel Torga

AGUARDEMOS

A Comissão Nacional Justiça e Paz solicitou ao Parlamento que reconheça a pobreza como uma violação dos direitos humanos.
A questão vai ser debatida na próxima quinta-feira e há naturais expectativas sobre a decisão que será tomada.

Em princípio, os partidos da política de direita deveriam estar preocupados com tal debate: por razões várias, a mais importante das quais reside no facto de serem esses partidos os executores da política responsável pela existência em Portugal de mais de 2 milhões de pobres.
Ora, se a pobreza passar a ser considerada como violação dos direitos humanos, é imperioso concluir igualmente que esses partidos violam os direitos humanos desde há, pelo menos, 32 anos.
E, porque os responsáveis têm nome, há que escrever na lista negra dos violadores dos direitos humanos... todos os nomes - desde Mário Soares a José Sócrates, passando por Pinto Balsemão/Freitas do Amaral, Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso/Santana Lopes, isto para falar apenas de primeiros-ministros, porque se, como é justo fazer, incluirmos os nomes dos ministros, secretários e sub-secretários de Estado, enfim de todos os membros de todos os governos, então a lista é infindável...

É claro que, independentemente do que, na próxima quinta-feira, o Parlamento decidir sobre a matéria, a pobreza é, de facto, uma brutal violação dos mais elementares direitos humanos.
E o facto de até agora não ter sido considerada como tal (aqui, em Portugal como no resto da Europa!...) é bem revelador do conceito de direitos humanos que povoa as cabeças dessa longa lista de governantes que, ao serviço dos aumentos das fortunas de uns escassos milhares de exploradores, atiram para a pobreza e para a miséria milhões e milhões de humilhados, ofendidos, explorados.

Em todo o caso, aguardemos por quinta-feira...

POEMA

A ÚLTIMA MOEDA

Gasta a última moeda, companheiro,
e avança contra o vento contrário,
homem despedaçado mas inteiro,
nem tu, nem ninguém escreve o teu diário,

- mas se o entusiasmo fosse dinheiro
serias milionário.

Sidónio Muralha

RICOS, SUPER-RICOS E SOBRAS...

Sabem o que é um «homem rico»?
E um «homem super-rico»?
Não pergunto se sabem por experiência própria... pergunto se conhecem a definição internacional estabelecida por quem de direito e por todos aceite.
Não?: então aqui está ela:
«homem rico» é todo aquele que tem mais de um milhão de dólares;
«Homem super-rico» é aquele cuja fortuna ultrapassa os 30 milhões de dólares.

Segundo dados agora vindos a público, o número destas duas espécies de homem continua a aumentar por esse mundo fora: no último ano, os primeiros aumentaram em 6% e os segundos em 8,8%.
Em Portugal, os «homens ricos», que eram 11. 400 em 2007, são hoje 11. 6oo.
Nada mau, embora a subida seja um pouco inferior à média mundial. Mas atenção: há que estarmos atentos e não nos deixarmos atrasar demasiado.
Quanto aos «super-ricos», nada nos é dito no que respeita a compatriotas nossos. Será que não há por cá ninguém que tenha, até agora, superado a gloriosa barreira dos 30 milhões?
Se assim é, espero bem que, um dia destes, um qualquer portuguesito valente mostre a sua raça (aquela de que falou o Prof. Cavaco, pois claro...) e suba ao pódio dos 30 milhões - para que a nossa auto-estima, tão maltratada no recente Europeu de futebol, volte a subir às alturas atingidas com a EXPO, o 2º lugar no Euro 2008 e a assinatura do Tratado, Porreiro, pá!

É digno de nota, o facto de este aumento de homens «ricos» e «super-ricos» se verificar num tempo por todos reconhecido como de grande crise (global, regional, local...), assim se confirmando que não há crise - por maior, mais grave e mais ampla que seja - que trave o aumento grande das grandes riquezas - podendo até dizer-se que quanto mais crise, mais ricos.
E mais pobres, também - que, sendo as sobras dessas riquezas todas, são, por isso mesmo, indispensáveis...

Ou seja:
com crise ou sem crise, os ricos aumentam e as riquezas também;
com crise ou sem crise, os pobres aumentam e as pobrezas também.

E é assim que deve ser. Como dizia um célebre pensador, homem de vasta cultura e profunda humanidade: «é preciso que os ricos sejam cada vez mais ricos para poderem dar esmolas maiores aos pobres».
Louvemos, então, esta harmoniosa relação dialéctica entre riqueza e pobreza que alimenta o sistema capitalista e faz dele um exemplo perfeito de democracia, de liberdade e de justiça social.
E, especialmente, de caridade.

POEMA

O PREGUIÇOSO

Continuarão a viajar coisas
de metal entre as estrelas,
subirão homens extenuados,
violentarão a Lua suave
e ali abrirão farmácias,

Neste tempo de uva cheia
o vinho começa a viver
entre o mar e as cordilheiras.

No Chile bailam as cerejas,
cantam as moças morenas
e nas violas brilha a água.

O sol bate a todas as portas
e faz milagres com o trigo.

O primeiro vinho é rosado,
doce como um menino pequeno,
o segundo vinho é robusto
como a voz de um marinheiro
e o terceiro é um topázio,
uma papoila e um incêndio.

A minha casa tem mar e terra,
a minha mulher tem grandes olhos
da cor da avelã silvestre,
quando chega a noite o mar
veste-se de branco e de verde
e depois a Lua na espuma
sonha como noiva marinha.

Não quero mudar de planeta.

Pablo Neruda

O BASTONÁRIO VOLTA A ATACAR

Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, voltou a atacar.
Não pára, este Bastonário!
Infelizmente, regra geral ataca mal.
Como, regra geral, acontece com todos os populistas.

Desta vez deu-lhe para proclamar que a actual onda de criminalidade se deve à «influência perniciosa do sindicalismo entre as forças policiais»
Quer isto dizer que o sindicalismo com os seus malefícios continua a ser alvo preferencial da veemente oratória do Bastonário.
Ele lá sabe porquê...

Face à situação da criminalidade, o homem avançou com a proposta de criação de um sistema interno de fiscalização da polícia - à semelhança, explicou ele, do que existe nos EUA.
Com tal sistema, é que os polícias vão ver como é... e acabam logo com essas perniciosas veleidades sindicalistas...

A esta proposta do Bastonário, respondeu o dirigente sindical da PSP, António Ramos, nos seguintes termos:
«A PSP não é a Legião Portuguesa nem nós estamos nos tempos da Outra Senhora»

Ora toma!

POEMA

(Stockausen. Música eletrónica. Viagem espacial.)

Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo...

(Para os pobres é a Terra.)

José Gomes Ferreira

SINAIS DOS TEMPOS

Clinton veio a Portugal fazer uma Conferência sobre... não me lembro nem isso interessa, mas há-de ter sido sobre tema tão relevante como os das muitas outras conferências que o homem, desde que deixou de ser Presidente dos EUA, tem andado a fazer em todo o mundo - e que constituem parte grande do seu actual ganha-pão declarado.
As despesas do evento foram pagas por quem cá o trouxe, obviamente.
E quem cá o trouxe, e o foi ouvir ao Museu da Electricidade, foram uns quantos empresários florescentes. Aliás, a Conferência realizou-se no âmbito das comemorações de uma empresa: «Cunha Vaz $ ... », perdão: Cunha Vaz & Associados» - mas, dado o custo elevado da deslocação do conferencista, esta empresa angariou uns tantos patrocinadores para dividir o bem pelas aldeias.

São assim os tempos que vivemos: os ex-governantes do grande capital passam a caixeiros viajantes do grande capital e nessa nova profissão, além de serem bem pagos pelos favores prestados enquanto governaram, governam-se continuando a servir os mesmos interesses que serviram quando foram governantes.

Em resumo: Clinton, veio cá e fez o que sabe: falou para capitalistas. Estes, trazendo-o cá, fizeram o que lhes competia: investiram - sabendo que um personagem de tal gabarito traz sempre consigo, na mala da conferência, ricas propostas de negócios...


Quanto ao custo da conferência, os seus organizadores não quiseram divulgá-lo. No entanto, dizem os entendidos que conferencistas deste calibre não se deslocam por verbas inferiores a 1 milhão de dólares.

POEMA

ESTIO

Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerro gretado
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas...
(...Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!...)

Manuel da Fonseca

ANTES PELO CONTRÁRIO

Sem princípios nem ponta de vergonha, a ofensiva ideológica capitalista corre à rédea solta por todos os esgotos que alimentam a política de direita.
Sinais escandalosos dessa ofensiva marcaram presença nos testes dos exames de História do 12º ano. Trata-se de grosseiras provocações, de uma abjecta manipulação de consciências, de torpes insultos à inteligência e à sensibilidade dos cidadãos.

Na Prova de História A - num grupo significativamente designado por «o estalinismo e a afirmação do expansionismo soviético» - os alunos devem «interpretar» textos de Stáline e de Kennedy.
No texto de Stáline, é-lhes exigido que procedam à «identificação de três práticas políticas do estalinismo», sendo-lhes indicado um volumoso rol de exemplos, género: «campanhas de depuração/purgas», «trabalhos forçados», etc...
Do texto de Kennedy devem, primeiro, concluir que o pobre e bom homem «agia preocupado com o expansionismo soviético» e , a seguir, devem proceder a uma «análise profunda sobre o expansionismo soviético».
No grupo designado «integração e participação de Portugal no projecto europeu» é o inevitável Mário Soares quem dá as cartas. No texto escolhido, Soares ensina as muitas bondades da União Europeia, designadamente no que respeita a «assegurar um equilibrio cuidadoso entre a prosperidade económica, a justiça social e um ambiente saudável» - aos alunos é exigido que «identifiquem três aspectos positivos da entrada de Portugal na União Europeia»...

Na Prova de História B, a partir de um texto de Sá Carneiro, escrito na altura em que este era membro da Assembleia Nacional fascista, os alunos devem demonstrar que «a revolução do 25 de Abril de 1974 operou mudança de regime preconizada por Sá Carneiro»...
Vejam bem!: do que eles se lembram!...

Perante exemplos destes, invenções como a do «milagre» da Prova de Matemática, não passam de brincadeiras de crianças...
E é caso para dizer que os ideólogos da política de direita destacados para a área do Ensino não fazem nada para esconder aquilo que são. E, ao que parece, não têm vergonha de exibir tamanha desvergonha.

É este o Ensino prodigalizado pelo Sócrates excelentíssimo e pela sua excelentíssima ministra...
No tempo do fascismo era pior? Era melhor?
Ou nem pior nem melhor, antes pelo contrário?

POEMA

MEDITATIO

Ao estudar com atenção
os curiosos hábitos dos cães
sou forçado a concluir
que o homem é o animal superior.
Ao estudar
os curiosos hábitos do homem
confesso, meu amigo, que fico perplexo.

Ezra Pound

CONTINUANDO A REGISTAR...

Prossigo com os registos que trazem à ordem do dia, aquilo a que aqui chamei O CASO DO IRÃO, ou seja, a possibilidade real de, de um dia para o outro, o Irão ser bombardeado por Israel, ou pelos EUA, ou...
A razão invocada para o bombardeamento será, como estamos lembrados, o facto de o Irão se recusar a acatar a proibição decretada pelos EUA e por Israel, de produzir armas nucleares.

No Público de hoje, José Manuel Fernandes, entusiástico admirador dos EUA e de Israel, avisa, satisfeito:
«Israel não tolerará que o Irão construa armas nucleares. É melhor todos perceberem isso para ninguém ficar surpreendido se e quando surgir um ataque israelita».

Claro que percebemos, JMF, ó se percebemos...

POEMA

CICLO

O molar solitário duma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.

Gottfried Benn

UM HERÓI DO NOSSO TEMPO

Chama-se Salter Cid, tem 54 anos de idade e é vereador do PSD na Câmara Municipal de Lisboa.
Por detrás deste presente vulgar e banal, esconde-se, no entanto, um notabilíssimo currículo:
Em 1990, entrou na Marconi e, logo a seguir, foi chamado a secretário de Estado das Comunicações do Governo de Cavaco Silva; em 1994, passou a secretário de Estado da Segurança Social, no segundo Governo do mesmo Cavaco Silva; em 1997, regresssou à PT; em 2003, Durão Barroso chamou-o a presidente da Companhia das Lezírias (sem contrato e com o ordenado de 27,5 mil euros mensais); em 2006, regressou à PT; em 2007, sai da PT com suspensão de contrato e uma pensão de 17,9 mil euros mensais.

Releve-se, desde já, a vastidão de conhecimentos, capacidades e valências deste homem - e anote-se que tal vastidão de competências é por demais justificativa das altas remunerações que acompanharam o seu multifacetado currículo.
Face a isso, é fácil de perceber que o homem se sinta lesado com a mísera pensão de 17,9 mil euros mensais que, agora, lhe foi atribuída. E é compreensível que a indignação perante tamanha injustiça o tenha levado a avançar com um processo contra a EP, exigindo uma pensão maior, muito maior, e mais consentânea com a elevada qualidade do trabalho que ali desenvolveu durante os longos seis anos que por lá passou, nos intervalos dos tachos com que os sucessivos governos do PSD o iam presenteando.
Salter Cid é um herói do nosso tempo - um produto acabado, saído das tripas da política de direita que há 32 anos vem flagelando os trabalhadores, o povo e o País.

POEMA

ORGULHOSAS...

Orgulhosas, por toda a parte,
a carvão, a zarcão, a ocre,
se lêem palavras de esperança,
sóbrias, serenas, sem ódio.
O ódio é com os agrários
e os guardas-republicanos,
uns e outros bem alimentados,
uns e outros cruéis e inúteis.

Armindo Rodrigues