Alegre, uma estória pouco coerente
POEMA
Isto vai, caro amigo.
Não como nós queremos, é certo,
mas isto vai.
Por noites de insónia e alcatrão
por laranjas e lábios ressequidos
por desespero na voz e escuridão
isto vai, caro amigo.
Pelo cabo axial que liga a nossa esperança
pela luz dos cabelos, pelo sal
pela palavra remo, pela palavra ódio
isto vai, caro amigo.
Pela ternura e pela confiança
pela vontade e força, as nossas casas
pelo fervor com que inventamos (e depois
calamos)
isto vai, caro amigo.
Pelos carris do medo, pelas árvores
pela inocência e fome, pelos perigos
pelos sinais fraternos, pelas lágrimas
isto vai, caro amigo.
Pela rudeza do espaço
e em jardins falsíssimos
isto vai, caro amigo.
João Rui de Sousa
A LUTA CONTINUA
Mais de 200. 000?: sem dúvida.
Muitos mais do que os «mais de 200. 000» da manifestação de 18 de Outubro?: sem dúvida, também.
Cerca de 250. 000?: eis um número que se me afigura muito mais próximo da realidade.
Mas a questão é (quase) irrelevante. Porque o que conta - e disso ninguém duvida - é que, na tarde de ontem, uma multidão de pessoas ocupou a Avenida da Liberdade, Marquês e Restauradores incluídos, numa atitude de grande consciência social e política, dizendo «NÃO!» à política de direita; exigindo o cumprimento dos direitos a que têm direito e que o Governo PS/Sócrates lhes quer roubar - e, acima de tudo, mostrando uma firme disposição de prosseguir a luta.
É claro que Sócrates não se impressiona com os números. E, assim sendo, há que concluir que, para ele, o protesto de um cidadão isolado vale o mesmo do que o protesto de mais de 200. 000 trabalhadores organizados na sua Central Sindical.
É mentira: se a manifestação tivesse sido um fracasso, é fácil de imaginar o que seria, hoje, o discurso de Sócrates...
Mas deixemo-lo mentir. Deixemo-lo inebriado com os aplausos que recebe, poucos mas bons: os que a si próprio não se cansa de fazer e os que lhe fazem os donos dos grandes grupos económicos e financeiros - que são os donos dele, Sócrates...
Do lado dos trabalhadores - não para impressionar Sócrates, mas para derrotar a sua política de direita - A LUTA CONTINUA!
Com as armas que têm na mão: a sua força organizada.
Ainda (e sempre!) Catarina...

Este texto foi hoje publicado com a edição do semanário Alentejo Popular, propriedade da Cooperativa Cultural Alentejana.
A festa da esquerda!
« -Alegre do PS num comício do Bloco? Mas o Alegre não é aquele tipo da voz grave que dizendo sempre mal das politicas do seu partido as acaba sempre por as corroborar não votando contra elas? Mas e o Bloco não é aquele partido que se assume interclassista e não revolucionário? Que tem isto de esquerda??Ah, tem o nome, pois, não vá o povinho desconfiar da democracia burguesa que oferecem... a mania que esta gente tem de nos baralhar. Pena mesmo foi o Alegre ter saido logo depois. Não tivesse cheio de pressa para se ir abster neste pacote laboral e ainda ia com a malta do Bloco à manifestação. Afinal de contas deve ser das últimas em que participam. Ou talvez não. Bem vistas as coisas o Alegre agora também faz comícios para criticar a politica com a qual ele pactua. Ainda há-de ser giro... Ver os ministros Anacleto e Alegre a barafustarem, na rua, com mais 100 mil, contra as leis que eles próprios publicam. ele há coisas... não tivesse sido uma festa e dava vontade de chorar...» Inácio Caixeirinha
(foto: Beja. Manifestação do PCP por melhores condições de saúde. Maio de 2008)
POEMA
Aqui, na areia,
sentada à beira do cais da minha baía
do cais simbólico, dos fardos,
das malas e da chuva
caindo em torrente
sobre o cais desmantelado,
caindo em ruínas
eu queria ver à volta de mim,
nesta hora morna do entardecer
no mormaço tropical
desta terra de África
à beira do cais a desfazer-se em ruínas,
abrigados por um toldo movediço
uma legião de cabecinhas pequenas,
à roda de mim,
num voo magistral em torno do mundo
desenhando na areia
a senda de todos os destinos
pintando na grande tela da vida
uma história bela
para os homens de todas as terras
ciciando em coro, canções melodiosas
numa toada universal
num cortejo gigante de humana poesia
na ,ais bela de todas as lições:
HUMANIDADE.
Alda do Espírito Santo
DECIFRANDO
«O que nos uniu aqui foi a preocupação, inquietação e solidariedade para com todos os portugueses que passam momentos difíceis porque votaram nos socialistas»
Decifrando a mensagem:
1 - Alegre sabe que muitos eleitores que votaram PS/Alegre estão descontentes com a política de direita do Governo PS/Sócrates e pensam alterar o sentido do seu voto nas próximas eleições.
2 - Alegre receia que essa alteração de voto seja feita no sentido da força que, de facto e em concreto, tem combatido a política de direita geradora de desigualdades sociais: o PCP/CDU.
3 - Por isso, Alegre apela ao voto desses eleitores descontentes no BE.
Simples como a água que corre...
POEMA
Quando o descobridor chegou à primeira ilha
nem homens nus
nem mulheres nuas
espreitando
inocentes e medrosos
detrás da vegetação.
Nem setas envenenadas vindas no ar
nem gritos de alarme e de guerra
escoando pelos montes.
Havia somente
as aves de rapina
de garras afiadas
as aves marítimas
de voo largo
as aves canoras
assobiando inéditas melodias.
E a vegetação
cujas sementes vieram presas
nas asas dos pássaros
ao serem arrastadas para cá
pelas fúrias dos temporais.
Quando o descobridor chegou
e saltou da proa do escaler varado na praia
enterrando
o pé direito na areia molhada
e se persignou
receoso ainda e surpreso
pensando n'El-Rei
nessa hora então
nessa hora inicial
começou a cumprir-se
este destino ainda de todos nós.
Jorge Barbosa
PORQUÊ?
Contactou com populações de diversas localidades e, à tarde, participou num comício com cerca de mil pessoas, em Guimarães.
Falou do desemprego, do emprego precário, dos baixos salários, das desigualdades sociais, da situação dos jovens, dos reformados, dos pequenos empresários - e apontou a causa desse flagelos: a política de direita, de momento executada pelo Governo PS/Sócrates.
Falou da luta dos trabalhadores e das populações como caminho indispensável para derrotar essa política e as suas consequências nefastas - e apelou à participação na manifestação nacional do dia 5.
Reafirmou a disponibilidade do PCP para continuar a integrar essa luta.
Os jornais, as rádios e as televisões procederam a um cirúrgico silenciamento de todas estas iniciativas.
Porquê esse silenciamento?
II - Manuel Alegre, deputado do partido do Governo; Francisco Louçã, líder do BE, e mais uns quantos atrelados comuns aos dois, organizaram um comício para expressar preocupações face às desigualdades existentes no País.
Os jornais, as rádios e as televisões fizeram disso um acontecimento de dimensão nacional: antes, promovendo-o com estrondo; durante, com directos televisivos e radiofónicos; depois, com destaques de primeiras páginas e relatos encomiásticos.
Porquê essa propaganda?
Quem souber que responda.
POEMA
ADEUS, meu irmão branco, boa viagem!
Chegou a hora de você voltar
para a Europa, a sua terra.
Quando você chegar, há-de falar
dos encantos que encerra
esta África Negra, tão distante,
tão distante, irmão branco...
Pois eu quero, neste instante
da partida, pedir-lhe uma promessa:
- Não se esqueça da alma do negro,
não se esqueça!
Você há-de falar das terras africanas,
da mata e da cubata,
dos montes e das chanas;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar do sol fogoso,
das caçadas e queimadas,
das noites que viveu em batucadas
no mais feiticeiro gozo;
mas não se esqueça da alma.
Vai falar do café, do algodão, do sisal,
da fruta tropical, enfim, de toda a flora;
mas não se esqueça da alma.
Você há-de falar dos negros no seu mato,
da negra tentadora
de corpo sensual,
mostrando até retrato;
mas não se esqueça da alma.
Adeus, meu irmão branco! Lá na Europa,
quando falar da tropical paisagem,
não se esqueça da alma do negro.
Adeus, meu irmão branco, boa viagem!
Geraldo Bessa Victor
Alegre: ma non troppo
E, com mais meia dúzia de ilusões próprias de malabaristas, foi o circo decorrendo. Manuel Alegre começou dizendo que se tratava duma iniciativa cultural e o resto foi o paleio do costume: no seu tom de voz inconfundível foi evocando aquilo que há muito não pratica: os valores de esquerda, a esquerda de valores, o socialismo, o estar do lado dos pobres e dos oprimidos, ... E hoje os MEDIA serão inundados com notícias que um novo movimento de esquerda se reorganiza, que ganha força, que cresce, mas amanhã os participantes não mais se lembrarão deste comício, não mais se lembrarão do que defenderam. Aliás como vem sendo costume: da parte do Bloco, como agoirou o Jerónimo, bastará as eleições de 2009 para pôr definitivamente os dois pés dentro. O Manuel Alegre não necessitará de tanto tempo para se assumir: é só esperar pela próxima votação em AR... É mesmo caso para dizer: Alegre ma non troppo.
POEMA
Teu corpo
gordo
redondo
feio
mas belo.
Teu rosto largo
nariz largo
olhos grandes
cabelo lanoso
tudo grande
nasceste assim
feia mas bela.
As crianças gostam de ti
da tua bondade e paciência
Mãe Santa
Ama de muitas crianças.
Aquele menino branco
António
não gosta de mais ninguém.
Tomás Jorge
DESCULPEM A INSISTÊNCIA...
Insisto, então, na minha notícia - que podia ser, mas não é, sobre a ida de Jerónimo de Sousa ao Vale do Ave, a qual, sabemos bem porquê, foi cuidadosa e eficazmente silenciada pela generalidade da comunicação social dominante - para que, repito, a questão não caia no esquecimento.
Como estamos lembrados - e aqui lembrei várias vezes - o conceito de liberdade, democracia e direitos humanos em vigor nos Estados Unidos da América, exibe-se em múltiplas expressões, uma das quais é a forma de tratamento dada aos suspeitos de terrorismo e, particularmente, aos suspeitos de que se supõe dever suspeitar-se serem suspeitos de qualquer suspeita ligação ao suspeito atentado às Torres Gémeas em 11 de Setembro de 2001 - sem esquecer, naturalmente, que estes «suspeitos» incluem, também, os filhos, netos, pais e vizinhos de todos os preumiveis suspeitos...
Com efeito, tanto as diversificadas formas de tortura aplicadas, como as características celulares inventadas nas prisões secretas, como o volume de presos registado, revelam um imaginação notável por parte dos torturadores, dos carcereiros e de todos os heróicos combatentes do terrorismo em geral.
Diz-nos agora a ONG britânica Reprieve que, desde o 11 de setembro de 2001, terão passado pelas prisões secretas norte-americanas 80. 000 «suspeitos» - os quais foram criteriosamente fechados, fichados e tratados em cadeias secretas da CIA, espalhadas por vários países, designadamente: Quénia, Somália, Etiópia, Djibuti, Tailândia, Afeganistão, Polónia e Roménia.
Não surpreende mas é digno de registo, o elevado número pessoas presas - e seria bom saber, no final, quantas se provou, após a prisão e as torturas, nada terem a ver com aquele ou com qualquer outro atentado.
Outra notícia, diz-nos que vai ter início o julgamento daquele que a CIA considera ser «o cérebro» do ataque às Torres Gémeas.
Não surpreende mas é digno de registo, o facto de tal julgamento ocorrer quase sete anos depois do atentado - tal como convém registar este outro curioso pormenor: o «tribunal» que vai julgar (e condenar) «o cérebro», é «considerado ilegal pelo Supremo Tribunal dos EUA»...
Acrescentemos, então, ao painel de conceitos civilizacionais em vigor nos EUA, este peculiar conceito de justiça...
E registemos. Pelo menos na memória.
A TV Como Instrumento Redutor - Vergílio Ferreira
Já um acto religioso é muito diferente ao ar livre ou no interior de uma catedral. Mas a TV é algo de minúsculo e trivial como o sofá donde a presenciamos. Diremos assim e em resumo que a TV é um instrumento redutor. Porque tudo o que passa por lá chega até nós diminuído e desvalorizado no que lhe é essencial. E a maior razão disso não está nas reduzidas dimensões do ecrã, mas no facto de a «caixa revolucionadora» ser um objecto entre os objectos de uma sala.
Mas por sobre todos os males que nos infligiu, ergue-se o da promoção do analfabetismo. Ler é um acto difícil e olhar o boneco não dá trabalho nenhum. Ler exige a colaboração da memória, do entendimento e da imaginação.
A TV dispensa tudo. Uma simples frase como «o homem subiu a escada» exige a decifração de cada palavra, a relação das anteriores até se ler a última e a figuração do seu sentido e imagem correspondente. Mas na TV dá-se tudo de uma vez sem nós termos de trabalhar. Mas cada nossa faculdade, posta em desuso, chega ao desuso maior que é deixar de existir. Mas ser homem simplesmente é muito trabalhoso. E o mais cómodo é ser suíno...
POEMA
No silêncio pesado do caminho,
ouviu-se um passo, cadenciado
na firmeza das horas decisivas.
A sentinela bradou:
- Quem vem lá?...
O Homem podia ter respondido
qualquer coisa parecida
com: «gente de paz»...
Mas não. Onde a paz,
se no seu peito ardiam agonias
enraivadas,
se no seus olhos boiavam
visões de fogo e de morte,
e as suas mãos,
(ó belas, generosas mãos!)
vinham ainda tintas
do sangue dos camaradas?...
Não trocou portanto as falas.
Respondeu simplesmente, sombriamente:
- EU!
E a sentinela, varou-o com três balas.
Alda Lara
O INQUÉRITO DO COSTUME...
Trata-se, neste caso, da mais que presumível mega-negociata relacionada com os custos e o processo de adjudicação do Sistema Integrado das Redes de Emergência e Segurança de Portugal (SIRESP) - que é um sistema de comunicações para as várias forças de segurança, serviços de informação, emergência médica e protecção civil.
Os custos da instalação desta rede de comunicações foram avaliados em cerca de 100 milhões de euros por um grupo de trabalho constituído para o efeito e presidido por Almiro de Oliveira.
A adjudicação da obra foi feita pelo então ministro da Administração Interna, Daniel Sanches (Governo Santana Lopes), a um consórcio liderado pela Sociedade Lusa de Negócios (SLN) - isto numa altura em que o Governo de Santana Lopes se encontrava já em regime de gestão corrente e a três dias das eleições legislativas...
Acresce que a adjudicação foi feita, não pelos 100 milhões de euros avaliados pelo grupo de trabalho de Almiro de Oliveira, mas por 538, 2 milhões!
Posteriormente, após intervenção do então ministro da Administração Interna de José Sócrates, António Costa, a Procuradoria-Geral da República «decretou nula a adjudicação feita por Sanches».
Todavia, o ministro António Costa, podendo, se quisesse, «não adjudicar o sistema à SLN, preferiu renegociar o contrato», baixando-o para aquele que viria a ser o seu custo final: 485, 5 milhões de euros: quase cinco vezes o custo previsto - e a que há que acrescentar, já agora, os custos do estudo, deitado para o caixote do lixo, feito pelo grupo de trabalho de Almiro de oliveira...
A adjudicação levantou natural polémica, também pelo facto, não dispiciendo..., de Daniel Sanches ter no seu vastíssimo currículo o desempenho de elevadas funções no grupo a que pertence a Sociedade Lusa Negócios, vencedora do concurso...
E o Ministério Público abriu um inquérito baseado em «suspeitas de tráfico de influências e participação económica em negócio» - isto é, o inquérito do costume...
Curiosamente, diz-nos o Público, nem Almiro de Oliveira nem nenhum dos outros membros do grupo de trabalho por ele presidido, foram ouvidos no referido inquérito... e «ninguém deu importância» ao relatório final produzido pelo grupo de trabalho - o tal que avaliava os custos da obra em 100 milhões de euros...
Assim, e como era previsível, o inquérito acabaria por ser arquivado em Março passado, concluindo o MP, entre outras coisas, não haver qualquer ligação entre os diversos cargos de Daniel Sanches no grupo da SLN e a adjudicação da obra, no valor de 485, 5 milhões de euros, a esta empresa...
Pronto.
Pois...
POEMA
Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima: Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.
Eugénio de Andrade
«A CRIANÇA E A VIDA»
Professora primária acabada de formar, nos longínquos anos 50, foi enviada para uma escola, em Cacilhas. Tinha à sua responsabilidade 45 crianças entre os 6 e os 10 anos, todas de «origens humildes».
À chegada, o Director entregou-lhe um, então, indispensável instrumento de trabalho pedagógico: a régua - a «menina dos cinco olhos», como em muitos lados era conhecida.
Primeiro e significativo gesto da jovem Professora: pediu a um aluno que deitasse a régua fora...
E deu início à tarefa de ensinar a ler e a pensar as suas crianças.
Dessa aventura pedagógica nasceu «A Criança e a Vida» - livrinho escrito por crianças estimuladas pela sua Professora a passarem a escrito o que pensavam sobre a Vida...
Esse livrinho foi lido por muitos milhares de pessoas: as suas quase 50 edições (desde os anos 60 até agora) chegaram a todo o País e a vários outros países - e foi, até, companheiro de todas as horas de guerrilheiros moçambicanos que lutavam pela libertação da sua Pátria do colonialismo...
Entretanto, a Professora escrevia os seus livros: tornava-se Romancista, Dramaturga, Contista, Cronista, Poeta - cantada pelos Trovante, recorde-se.
«O que é o Amor?»:
«O Amor é não haver polícias»: escreveu um menino que, veio a Professora a saber mais tarde, tinha o pai preso no Forte de Caxias...
E o Vitor Barroca Moreira (9 anos) escreveria o poema que ficaria como imagem de marca desse «milagre de pedagodia poética» - nas palavras certeiras de Urbano Tavares Rodrigues - e que aqui transcrevemos uma vez mais:
O AMOR É UM PÁSSARO VERDE
NUM CAMPO AZUL
NO ALTO
DA MADRUGADA
DIA MUNDIAL DA CRIANÇA
No entanto, entre o que está escrito e a realidade é grande, grande a diferença: como é sabido, a imensa maioria das crianças do planeta não tem acesso à quase totalidade desses direitos internacionalmente reconhecidos.
Três exemplos:
1 - São crianças grande parte das cerca de 50 mil pessoas que todos os dias morrem por falta de alimentos ou de cuidados de saúde.
2 - O trabalho infantil continua a proliferar em todo o mundo: segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de 165 milhões de crianças (dos 5 aos 14 anos) são vítimas da exploração do trabalho infantil.
3 - A Convenção dos Direitos da Criança - que define como criança todo o ser humano com menos de 18 anos - proibe explicitamente a participação de crianças em cenários de guerra.
Ora, a OIT calcula que dezenas de milhares de jovens menores integram exércitos em todo o mundo.
E no passado dia 21, a Amnistia Internacional informou que os EUA e a Grã-Bretanha lideram a lista dos países ocidentais que permitem e incentivam o alistamento de menores de 17 anos nas suas forças armadas - explicitando que, no ano de 2007, o exército britânico tinha nas suas fileiras mais de 1000 soldados com 16 anos de idade, alguns tendo estado no teatro de guerra do Iraque.
Assim, é relembrando estes factos que o Cravo de Abril assinala o dia 1 de Junho de 2008 - Dia Mundial da Criança.
POEMA
Os que vivem na grandeza
dizem, vendo alguém subir:
- Há que manter a pobreza,
p´rá grandeza não cair.
A ninguém faltava o pão,
se este dever se cumprisse:
ganharmos em relação
com o que se produzisse.
Quem trabalha e mata a fome,
não come o pão de ninguém,
mas quem não trabalha e come,
come sempre o pão de alguém.
António Aleixo
A RIQUEZA E A POBREZA
E, como toda a gente sabe, essa coisa da «qualificação dos recursos humanos» é de resolução lenta, lenta, muito lenta, como o confirma o facto de andarmos a ouvir falar nela há muitos anos sem quaisquer resultados práticos.
Daí me parecer que talvez o problema fosse mais rapidamente solucionado se, por exemplo, se procedesse desde já a uma mais justa distribuição da riqueza.
Podia ser assim, por exemplo e para começar: a imensa maioria da riqueza produzida, em vez de ir, como hoje acontece, para a imensa minoria dos portugueses, passaria a ir para a imensa maioria dos portugueses.
Simples, não?
POEMA
O capim não foi plantado
nem tratado,
e cresceu. É força
tudo força
que vem da força da terra.
Mas o capim está a arder
e a força que vem da terra
com a pujança da queimada
parece desaparecer.
Mas não! Basta a primeira chuvada
para o capim reviver.
Manuel Rui
O IMPÉRIO ZELA POR NÓS...
Muito bem!
Só que... os principais utilizadores dessas (e de todas as outras) bombas - os Estados Unidos da América - não participaram na conferência.
Além disso, e como era de esperar, um porta-voz do Departamento de Estado norte-americano apressou-se a esclarecer que nada do que ali foi decidido «mudou a nossa posição» - que é a de continuar a utilizar as ditas bombas, obviamente.
Questionado sobre as «consequências da rejeição do tratado» para a imagem dos EUA no mundo, o porta-voz, com a típica arrogância made in USA, aconselhou as pessoas a tirar «as suas próprias conclusões»...
Tiremos a conclusão: o Império zela por nós...
Pronto, por mim fico-me por aqui.
Porque se ceder à tentação de qualificar com rigor a atitude dos EUA face a esta questão - e se essa qualificação chegar ao conhecimento dos propagandistas lusos do Império - serei implacavelmente fustigado com a terrível acusação de «anti-americanista primário». Acusação que, na situação actual, tende cada vez mais a significar«amigo de terroristas» - e que, por isso, está mesmo a pedir a justiceira fragmentação...
POEMA
É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.
Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...
Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.
Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
António Cardoso
«O MAIOR ESPECIALISTA»
O livro foi apresentado por 1 - Mário Soares e por 2 - Otelo Saraiva de Carvalho numa sessão que decorreu na 3 - Fundação Mário Soares - três razões mais do que suficientes para eu não o ler, não fora a isso estar obrigado por dever-de-ofício-meu, pelo que, um dia destes, lá terá que ser...
O Expresso relata parte do que se passou na sessão de apresentação, nomeadamente as inevitáveis alarvidades proferidas pelos excelentíssimos aresentadores, as quais, por razões... sei lá, de higiene, talvez... me dispenso de citar.
Imaginem Soares e Otelo iguais a si próprios, e basta...
Refiro, apenas, duas sensacionais informações/revelações constantes do relato.
A primeira (da responsabilidade do Expresso) diz-nos que Fafe é «o maior especialista português sobre Cuba e o castrismo» - coisa que, francamente, eu desconhecia de todo... e creio que, comigo, todos os portugueses, «o maior especialista« incluído...
A segunda, proferida precisamente pelo «maior especialista», ao informar que «Fidel é o contrário de um marxista», como o comprova o seguinte facto agora revelado por Fafe: «do marxismo, Fidel só leu umas 300 páginas de "O Capital" e uns folhetos de Lénine» - revelação que me leva a crer que «o maior especialista» não leu... nem «300 páginas de "O Capital"», nem «uns folhetos de Lénine...
E muito menos... Fidel.
POEMA
Vem, sol,
doirar cinicamente
os cabelos de hoje
destas crianças esfarrapadas
que se atrevem a ser loiras
com olhos de trono azul.
Vem, sol,
tu que secas os rios
e os segredos dos poços
- e não deixas na terra
um charco para as estrelas
tremerem de luz despida...
Vem, sol,
secar estas lágrimas
dos olhos dos pobres.
Torna-os duros, implacáveis e frios
como canos de pistolas
nas manhãs coléricas de lobos.
José Gomes Ferreira
Democracia, dizem eles...

Mas passemos a análises concretas de acções governativas (deste governo, constituído por elementos da mesma cor politica que o senhor deputado ofendido) que são uma afronta à democracia e à participação nesta pelas populações (no texto de hoje ficaremos apenas pelo novo PACOTE LABORAL, deixando outros assuntos – Lei dos Partidos, por exemplo - que são um entrave à participação democrática dos cidadãos para outro dia, quem sabe se para a semana que vem): Os avanços tecnológicos permitidos pela capacidade inventiva do Homo Sapiens Ludens apenas são avanços civilizacionais se servirem a causa democrática, caso contrário transformam-se no cavalo de tróia do humanismo. Referia o ilustre Professor Adolfo Yañes Cazal que se há 50 anos eram precisos cem homens, em cem horas para produzirem cem bolas de ténis (por exemplo), hoje, se o avanço da tecnologia fosse empregue ao serviço das populações e não apenas dos detentores dos meios de produção, os mesmos cem homens precisariam apenas de 50 horas para produzir a mesma quantidade, reservando – justamente – as horas de sobra para a sua formação, para o lazer, para a família, para a PARTICIPAÇÃO NAS COISAS PÚBLICAS. Contudo, em vez de enveredarem por este caminho humanista, os proprietários dos meios de produção, resolveram abdicar antes de metade dos seus operários, fazendo com que agora fossem precisos apenas 50 homens para produzir nas mesmas cem horas as mesmas cem bolas de ténis. Criando a ideia (utilizando as mais diversas formas, desde os tais média ou aos meios estatais fazedores de opinião – manuais escolares, por exemplo) que só não trabalha quem não quer porque trabalho há muito, os detentores de tais poderes criam a angustia nas populações, construindo um ambiente de incerteza e ansiedade que permite a mais fácil manipulação. A precariedade – que se reforça com este pacote laboral, nomeadamente através da criação dos designados «mapas de pessoal» e com a extinção dos quadros de trabalhadores – silencia as consciências e, aliada aos horários extensos – que apenas existem, dentro do quadro da situação tecnológica em que nos encontramos, por resistência dos patrões na busca do maior rendimento com a menor despesa possível (e que este pacote laboral protege e beneficia, numa clara afronta aos direitos dos trabalhadores e aos princípios consagrados na Constituição da República) – cria a ideia nos trabalhadores que calados – no sentido de que quem cala não ofende - mais facilmente conseguirão outro «contratinho» de seis meses que permita mitigar, durante esse tempo, as necessidades da sua família. Mesmo para aqueles em que a consciência impele para a intervenção pública e para a defesa dos direitos, as responsabilidades criadas pelo excesso de carga horária e pelas crescentes dificuldades financeiras, atira-os para uma letargia de cansaço dificilmente ultrapassável no panorama socio-económico que se nos apresenta o sistema capitalista. Como diria o poeta José Fanha “ hoje não temos a PIDE que nos proíba de exprimir o que pensamos, mas temos o capitalismo que nos tira o tempo para pensar.”
Senhor deputado: brevemente abordaremos outros níveis onde este governo constrói a ofensiva contra a democracia – no sentido em que esta apenas sobrevive com a participação de todos, não se tornando (como alertou Platão faz mais de 2500 anos)
POEMA
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas - as crianças brancas
que brincavam todas numa roda viva
de canções festivas, gargalhadas francas...
O menino negro não entrou na roda.
E chegou o vento junto das crianças
- e bailou com elas e cantou com elas
as canções e danças das suaves brisas,
as canções e danças das brutais procelas.
E o menino negro não entrou na roda.
Pássaros, em bando, voaram chilreando
sobre as cabecinhas lindas dos meninos
e pousaram todos em redor. Por fim,
bailaram seus voos, cantando seus hinos...
E o menino negro não entrou na roda.
«Venha cá, pretinho, venha cá brincar»
- disse um dos meninos com seu ar feliz.
A mamã, zelosa, logo fez reparo;
e o menino branco já não quis, não quis...
E o menino negro não entrou na roda.
O menino negro não entrou na roda
das crianças brancas. Desolado, absorto,
ficou só, parado com olhar de cego,
ficou só, calado com voz de morto.
Geraldo Bessa Victor
A BEM DA NAÇÓN...
Aliás, parece ser essa a sua única razón de existir, já que semana sim, semana sim, La Razón se esgota em ataques insultuosos, soezes, provocatórios ao processo revolucionário venezuelano.
É claro que, ao mesmo tempo que assim pratica, não se cansa de sublinhar a sua condição de jornal independente, plural, isento e imparcial - e, naturalmente, de clamar contra a ausência de liberdade de imprensa na Venezuela...
(Entre parêntesis, registe-se um facto exemplar de como esta propaganda penetra longe: num texto publicado em La Razón, perdão: na Visão, a pretexto da visita de Sócrates à Venezuela e do mediático cigarro, o cómico Ricardo Araújo Pereira escreveu que o primeiro-ministro «foi visitar um dirigente sul-americano meio maluco, que manda fechar as estações de televisão que o criticam e chama Hitler a toda a gente»...)
Mas continuando: na sua última edição, La Razón informou - com visível satisfação - que «os EUA estudam, para a Venezuela, um embargo semelhante ao de Cuba», embargo que, obviamente, inclui «a activação da legislação anti-terrorista» - que é uma legislação feita pelos EUA e que lhes permite agir como muito bem entendam em relação a qualquer país considerado, pelos EUA, terrorista, ou amigo de terroristas. Sempre em nome da democracia, da liberdade e dos inevitáveis direitos humanos...
O bem informado La Razón faz questão, ainda, de desmentir as denúncias feitas por Hugo Chavéz sobre «um plano dos Estados Unidos para invadir a Venezuela».
O que acontece, isso sim - garante, entusiasmadíssimo, o semanário - é que «o Presidente Bush está a pôr em marcha uma série de medidas económicas, orientadas para desestabilizar e eventualmente desencadear uma implosão da revolução bolivariana».
Quer isto dizer que, para o patriótico semanário, o que importa é que os EUA ocupem a Venezuela e ali voltem a instalar-se como donos e senhores. Isto é: seja com tropas e armas, seja com medidas económicas, o que importa é que invadam e ocupem.
Para o que podem contar com o incondicional apoio de La Razón...
A Bem da Naçón, é claro...
POEMA
Criar não é sonhar, mas, ao invés,
atento construir o que se sonha.
Fugir alguém ao sonho é que é vergonha,
pois sonhar é fugir à pequenez.
Armindo Rodrigues
NEGOCIATAS
A acusação remontava a 2006, altura em que, em resposta a um concurso público para alienar 49% da Águas da Covilhã, a organização local do PCP afixou na cidade cinco cartazes com a frase: «Vamos deitar a negociata abaixo».
Os promotores do concurso público consideraram-se difamados e injuriados com a palavra «negociata» e, invocando a defesa do seu «bom nome», apresentaram cinco queixas - uma por cada cartaz afixado - pedindo para cada uma delas uma indemnização de 6 000 euros, ou seja: 30 mil euros.
Há que reconhecer a originalidade patente nesta modalidade de por cada cartaz uma queixa e por cada queixa um acusado - e tirar conclusões: se os comunistas da Covilhã tivessem afixado não cinco mas, por exemplo, cinquenta cartazes, os «ofendidos» apresentariam outras tantas queixas contra outros tantos acusados e um pedido de 300 mil euros de indemnização - o que, isto digo eu, configuraria, no mínimo, intenção de negociata...
Agora, o Tribunal Judicial da Covilhã absolveu os cinco militantes comunistas, ilibando-os igualmente do pagamento das indemnizações.
O que torna legítimo supor que, afinal, a palavra negociata não constituía difamação nem injúria: a negociata era mesmo negociata.
POEMA
Vi ontem um bicho
na imundície do pátio
catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão,
não era um gato,
não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Manuel Bandeira
OLHA QUE DOIS!
José Sócrates, de indignação a latejar, veio ontem dizer que «as culpas pelo agravamento do fosso das desigualdades» eram, todas, sem excepção, do PSD - alegando que o relatório se reporta ao ano de 2004.
De tudo isto, o que ressalta é a suprema desvergonha e a desbragada hipocrisia exibidas por estes dois executantes exímios da política de direita que há 32 anos vem cavando cada vez mais fundo o fosso das desigualdades: Soares, que a iniciou no longínquo ano de 1976; Sócrates, que a prossegue, num estádio mais avançado, em 2008.
O alerta de Soares ao PS não decorre do facto de ele estar preocupado com as desigualdades: a sua preocupação reside toda no perigo de o PS ver fugir-lhe eleitorado para a Esquerda.
A indignação de Sócrates, essa é feita da experiência daquela mãe que recomendava à filha em demanda com uma colega de ofício: «chama-lhe filha, chama-lhe antes que ela te chame a ti».
Na realidade, o alerta de um e a indignação de outro prendem-se exclusivamente com o ardente desejo, comum aos dois, de prosseguir a política ao serviço dos interesses do grande capital - a tal que, por isso mesmo, é a geradora da pobreza, das desigualdades, dos atropelos à democracia, do assalto às liberdades, direitos e garantias dos trabalhadores e dos cidadãos, da venda a retalho da independência e da soberania nacional.
POEMA
Claridade, não te afastes
dos meus olhos, não humilhes
a razão que me alenta
a prosseguir. Escuta
por trás das minhas palavras
o grito dos homens
que não podem falar.
Pelos seus esforços,
pela luta que sustentam
contra o muro de sombra,
eu te peço: persiste
no teu fulgor, ilumina
a minha vida, permanece
comigo, claridade.
José Agustin Goytisolo
O BOM DEUS
Sempre que se comentava a sua avançada idade, Clémentine, a mulher mais velha de França, sorria e dizia: «O Bom Deus esqueceu-se de mim»...
Agora, o Bom Deus lembrou-se dela: morreu no fim de semana passado, com quase 114 anos de idade.
Que Deus nos livre do Bom Deus!