8 DE MAIO DE 1945

O FIM DA GUERRA

Em 11 de Janeiro de 1945, o Exército Vermelho entra em Varsóvia e, no dia 26, no Campo de Concentração de Auschwitz; em 14 de Fevereiro, liberta Budapeste e, em 13 de Abril, Viena; em 25 de Abril, Mussolini é preso, julgado e fuzilado pelos guerrilheiros italianos; em 30 de Abril, o Exército Vermelho desencadeia a sua última grande ofensiva e, em 1 de Maio, entra em Berlim.
A bandeira soviética é hasteada no edifício do Reichstag.
Hitler suicida-se no bunker da Chancelaria - e o governo de Salazar proclama três dias de luto nacional.

Em 8 de Maio, os exércitos da Alemanha nazi capitulam incondicionalmente.

É a derrota do nazi-fascismo, é a vitória da coligação antifascista, é o fim da mais criminosa e mortífera guerra de todos os tempos - guerra que tinha como um dos seus principais objectivos a liquidação do socialismo na União Soviética.
Para a vitória foi decisiva a acção da URSS - do seu povo, do seu Exército Vermelho - que, porque mais do que qualquer outro país contribuiu para a libertação da Europa das garras nazis, adquiriu enorme prestígio internacional com a vitória alcançada.
Mais de vinte milhões de cidadãos soviéticos deram a vida pela liberdade e pela democracia na URSS, na Europa e no mundo.

Milhões de pessoas, em todo o mundo, festejaram o fim e o desfecho da guerra.
Em 8 de Maio, centenas de milhares de pessoas, muitas empunhando bandeiras nacionais e dos países aliados, comemoraram a vitória inundando as ruas de Lisboa, Porto, Setúbal, Évora, Santarém, Almeirim, Moita, Amora, Torre da Marinha, Alhos Vedros, Seixal, Almada, Barreiro, Cova da Piedade, Alenquer, e em muitas outras cidades e vilas do País.
Ao mesmo tempo, exigiam «Eleiçôes livres!», «Libertação dos presos políticos!», «Extinção do Tarrafal!».

Em Lisboa, a ampla movimentação de massas é acompanhada pela paralisação da maioria das fábricas e pelo abandono das aulas por milhares de estudantes.
Impedidos pela repressão de arvorar bandeiras da URSS, muitos manifestantes erguem apenas os paus das bandeiras.

No Avante! desse mês de Maio, pode ler-se: «Nesta grande jornada patriótica, orientada no fundamental pelo nosso Partido, o povo português entrou abertamente no caminho da luta política. Nestes 19 anos de tirania, o fascismo tudo fez para roubar ao povo o sentimento nacional. Mas o povo português arrancou aos traidores salazaristas a bandeira e o hino nacional».

POEMA

UMA CERTA MANEIRA DE CANTAR

Nunca ouvi um alentejano cantar sozinho
com egoísmo de fonte.

Quando sente voos na garganta
desce ao caminho
da solidão do seu monte,
e canta
em coro com a família do vizinho.

Não me parece pois necessária
outra razão
- ou desejo
de arrancar o sol do chão -
para explicar a reforma agrária
no Alentejo.

É apenas uma certa maneira de cantar.


José Gomes Fereira

MURAIS DE ABRIL (III)

A Reforma Agrária


Anos 70. Oeiras, Paço D' Arcos


1975/6. Estrada das Laranjeiras, Lisboa


1975/6. Cacém, Sintra



POEMA

PERGUNTAS

Onde estavas tu quando fiz vinte anos
e tinha uma boca de anjo pálido?
Em que sítio estavas quando o Che foi estampado
nas camisolas das teen-agers de todos os estados da América?
Em que covil ou gruta esconderam as suas armas
para com elas fazer posters cinzentos e emblemas?
Onde te encontravas quando lançaram mão a isto?
E atrás de quê te ocultavas quando
mataram Luther King para justificar sei lá que agressões
ao mesmo tempo que víamos Música no Coração
mastigando chiclets numa matinée do cinema Condes?
Por onde andavas que não viste os corações brancos
retalhados na Coreia e no Vietname
nem ouviste nenhuma das canções do Bob Dylan
virando também as costas quando arrasaram Wiriamu e
enterraram vivas
mulheres e crianças em nome
de uma pátria una e indivisível?
Que caminho escolheram os teus passos
no momento em que foram enforcados
os guerrilheiros negros da África do Sul
ou Allende terminou o seu último discurso?
Ainda estavas presente quando Victor Jara
pronunciou as suas últimas palavras?
E nem uma vez por acaso assististe
às chacinas dos Esquadrões da Morte?
Fugiste de Dachau e Estalinegrado?
Não puseste os pés em Auschwitz?
Que diabo andaste a fazer o tempo todo
que ninguém te encontrou em lugar algum?

Joaquim Pessoa

NO PELOTÃO DA FRENTE

Este ano assinala-se o 60º aniversário da aprovação da Declaração Universal dos Direitos do Homem - documento de excepcional importância política, humana, civilizacional, não obstante a adopção de um conceito de «direitos humanos» por demais limitado em matéria de conteúdo... humano.

Por isso, aqui se regista - com fortes aplausos! - a criação de um grupo de trabalho internacional, presidido pela jurista portuguesa Catarina Albuquerque, com a tarefa de elaborar e fazer chegar à ONU uma proposta visando a integração dos direitos sociais, económicos e culturais nos direitos humanos considerados na Declaração.

Caso a ONU aceite a proposta desse grupo de trabalho, a lista dos direitos humanos da Declaração Universal passará a integrar os direitos: ao Trabalho, à Alimentação, à Habitação, aos Cuidados de Saúde, à Segurança Social, a uma Vida Digna...

Se assim for, vai crescer muito, muito... o número de países nos quais os direitos humanos não são respeitados.
E Portugal - o Portugal da política de direita - ocupará destacado lugar no pelotão da frente desses países.

POEMA

O NOVO MANDAMENTO


Está criado
o novo mandamento. Aos pássaros
dirás: não cantareis; às flores:
não florireis. E florirão
as bombas. E ao sangue
dirás: rio
serás. E sobre
os escombros erguerás
o homem novo, o seu cadáver, desenharás
a ferro e fogo o mapa
do luto e das lágrimas. E imporás,
enfim,
a liberdade. A liberdade
do terror das armas. A liberdade
para matar.

Albano Martins

QUE DIREITOS HUMANOS?

Ahmed Binyam Mohamed é um cidadão etíope, com 29 anos de idade.
Adolescente, foi estudar para Londres e a dada altura passou a consumir drogas.
Tentando livrar-se da dependência, em 2001 foi para o Paquistão onde fez uma cura em «retiro espiritual».
No regresso, em Abril do ano seguinte, foi detido no aeroporto de Londres por alegadas «irregularidades no passaporte» - que viriam a ser transformadas na acusação de estar ligado à Al-Qaeda.
Em Londres foi interrogado, primeiro por polícias paquistaneses e britânicos e, depois, pelo FBI e pelo M16 (serviços secretos britânicos).
Negou as acusações.
A seguir foi enviado para o Paquistão - onde continuou a negar as acusações - e, posteriormente, seguiu para Marrocos, num voo da CIA.
Ali, após 18 meses de interrogatórios contínuos pela CIA - durante os quais continuou a negar as acusações - foi barbaramente torturado, designadamente «pendurado pelos pulsos durante horas e sujeito a lacerações no pescoço e no pénis com lâminas de barbear».
Então, confessou, isto é: assinou os papéis que os torturadores lhe puseram à frente.
Foi, então, transferido para o Afeganistão donde seguiu para Guantánamo.

Nestas viagens em voos da CIA, Ahmed passou duas vezes por Portugal (Porto e Lages, donde seguiu para Guantánamo). Trata-se de dois dos «pelo menos 48 voos» da CIA que, entre 2002 e 2005, passaram por Portugal, em tempo de governos Guterres, Barroso, Santana e Sócrates.

Agora, Ahmed vai ser julgado e o seu advogado escreveu a José Sócrates pedindo a confirmação dessas duas passagens por Portugal - confirmação que, segundo o advogado, se reveste de importância crucial para a defesa do jovem etíope.

Aguarda-se a resposta de Sócrates - que, se não estou em erro, continua a dizer que não houve voos da CIA em Portugal... e que considera Bush um exemplo na luta pelos direitos humanos...
A que «direitos humanos» se referirá Sócrates?

POEMA

CAÇANDO GAMBOZINOS


Vem caçar gambozinos
jovem d'olhar brilhante
e eterno coração
vem sem nada trazer na mão
e esperes não
que eu t'empreste
meu alçapão
vem
e aprende à tua custa
que a vida não é senão
uma eterna caçada
aos gambozinos
esse animal feito de sonho
e ilusão
e que assim mesmo
vala a pena a perseguição.

João Melo
(Angola)

MURAIS DE ABRIL (II)

Mais duas relíquias...

"O Povo unido jamais será vencido". Anos 70, Amoreiras, Lisboa

Campolide, Lisboa.

A MELHOR PROFISSÃO DO MUNDO

O ex-primeiro-ministro Blair, e respectiva família, viveram até há dias um pungente, lancinante drama: dispunham apenas de cinco residências familiares - o que, obviamente, lhes acarretava terríveis problemas de vida social, para além das angústias que a falta de espaço habitacional decente provocava no agregado familiar.
Felizmente, resolveram o problema. E é caso para dizer que valeu a pena o drama, as angústias e as dores sofridas: Blair acaba de comprar casa à sua dimensão e da respectiva família.
Trata-se de uma elegante mansão que data de 1704 e se situa no elegante condado de Buckinghamshire!
E a casa saíu-lhe em conta: custou apenas uns míseros 5 milhões de euros.

Agora, finalmente com seis residências - sendo uma delas a elegante mansão de Buckinghamshire!- a família encontrou, finalmente, a tão ansiada estabilidade, o tão desejado sossego, a tão almejada tranquilidade.

A notícia serve apenas para lembrar mais uma vez que, melhor do que ser governante é ser ex-governante. Ou dizendo com mais rigor: ser ex-governante de política de direita - que é a política que, em todos os países, serve os interesses exclusivos do grande capital.
É claro que, como todos sabemos, para se ser ex-governante é preciso, primeiro, ser governante. Daí que...

POEMA

UMA VEZ EU TIVE UM CRAVO


Uma vez eu tive um cravo
cravado no coração,
e eu não me acordo já se aquele cravo era
de ouro, de ferro ou de amor.
Só sei que ele me fez um mal tão fundo,
que tanto me atormentou,
que eu dia e noite sem cessar chorava
qual chorou Madalena na Paixão.

«Senhor, Vós que podeis tudo -
pedi a Deus numa ocasião -
dai-me valor para arrancar de um golpe
cravo de tal condição».
E deu-mo Deus e arranquei-mo.
Mas... quem pensara?... depois
já não senti mais tormentos
nem mais soube o que era dor;
soube só que não sei quê me faltava
onde o cravo me faltou,
e até penso que tive saudades
ai, meu Deus! da antiga dor.

Este barro mortal que envolve o espírito
quem o entenderá, Senhor!...

Rosalia de Castro

MURAIS DE ABRIL (I)

Folheando um livro intitulado "Murais de Abril 1974", encontrei algumas relíquias, obras de arte, murais pintados no fervilhar de mãos hábeis e sedentas de Liberdade. Partilho alguns desses murais, que por incrível que pareça, e após 34 anos, muitos, continuam actuais, na medida em que ainda hoje lutamos pelos ideais que as pinturas representam.


Belém, Lisboa

Anos 70. Belém, Lisboa



Retirado de: Murais de Abril 1974, Biblioteca Museu República e Resistência

PALAVRAS

Há tempos, o Público divulgou as «palavras mais utilizadas pelo Presidente da República na totalidade dos seus discursos desde a tomada de posse»

São elas:
Portugal: 635 vezes.
Portuguesa: 601 vezes.
Europa e União Europeia: 600 vezes.
País: 549 vezes.
Desenvolvimento: 370 vezes.
Económico: 279 vezes.
Globalização e global: 250 vezes.
Empresas: 212 vezes.
Economia: 170 vezes.
Democracia e democrático: 156 vezes.
Liberdade: 73 vezes.

Há, depois, uma série de palavras menos vezes utilizadas.

A lista das palavras mais utilizadas interessa, na medida em que, de alguma forma, revela as preocupações do Presidente da República enquanto tal.
Como se vê pela amostra, temos ali patrioteirismo às carradas, europeísmo a condizer e mais o essencial do palavreado com que é hábito, em defesa dos interesses da classe dominante, fingir modernidade e saber - sempre com acompanhamento, em trinados de guitarra, da democracia e da liberdade com que se justifica a exploração...

Pensei para mim: ora, se as palavras utilizadas mostram as preocupações de quem as utiliza, as palavras não utilizadas hão-de mostrar as não-preocupações (para não dizer outra coisa) do seu não-utilizador...

Na longa lista procurei, procurei...
Deixo-vos aqui duas das palavras nunca utilizadas pelo Presidente da República enquanto tal:

Trabalhador

Cravo.

Não creio que seja necessário comentar.
O que é que acham?

POEMA

INFÂNCIA


Não minha mãe. Não era ali que estava.
Talvez noutra gaveta. Noutro quarto.
talvez dentro de mim que me apertava
contra as paredes do teu sexo-parto.

A porta que entretanto atravessava
talhada no teu ventre de alabastro
abria-se fechava dilatava.
Agora sei: dali nunca mais parto.

Não minha mãe. Também não era a sala
nem nenhum dos retratos de família
nem a brisa que a vida já não tem.

Talvez a tua voz que ainda me fala...
... o meu berço enfeitado a buganvília...
Tenho tantas saudades, minha mãe!


José Carlos Ary dos Santos

POR QUE SERÁ?

Todos os dias - TODOS - vemos e lemos Louçã nos jornais: ora num, ora noutro, ora em todos, o líder do BE, em sorridente fotografia, é presença infalível.
Por que será?

Estou em crer que isso se deve ao facto de os principais interessados na política de direita (que são, também, os donos da quase totalidade dos órgãos de comunicação social) verem no BE - com a sua linguagem radical, mas inócua e sempre portadora da tradicional mensagem anticomunista - um instrumento para a diminuição da influência do PCP - que é, como toda a gente sabe, o único grande partido que, com determinação e coerência, combate a política de direita e lhe contrapõe uma alternativa de esquerda.

Ora, como estamos lembrados, nos últimos tempos as sondagens mostravam o BE em queda, coisa que há-de ter alarmado os donos dos média... e toca de pôr em marcha a actual campanha de promoção intensiva.

Dizer que tal campanha de promoção não terá resultados, seria subestimar o poder da comunicação social dominante, a sua capacidade de, à força de multiplicar a divulgação de mentiras, as transformar em verdades aceites por segmentos significativos da sociedade - como a realidade nos mostra todos os dias.
Erro maior seria, no entanto, a aceitação passiva da inevitabilidade do êxito dessa campanha - erro que os comunistas, certamente, não cometerão, para isso bastando continuarem a estar onde devem estar e sempre têm estado:
ao lado dos trabalhadores, mobilizando-os e incitando-os a prosseguir e intensificar a luta pela defesa dos seus interesses e direitos.
Que, na concreta situação actual, é a luta contra a política de direita que serve os interesses exclusivos dos donos dos média e por uma política de esquerda, tão necessária aos trabalhadores, ao povo e ao País.

25 de Abril? Que 25 de Abril?!?

Luís Franciso, director-adjunto do Jornal Sexta (Distribuição gratuita na rua, com o Público ou com A Bola), afirmou que "nenhuma geração tem o dever de estar grata às suas antecessoras. Os jovens em Portugal homenageiam a liberdade da melhor forma possível: vivendo-a."

E foi esta a sua quota-contribuição para o branqueamento da luta anti-fascista e do significado do 25 de Abril. Mas, além de não termos que estar gratos a ninguém pelo que somos e vivemos hoje, Luís Francisco afirma que "O problema é haver uma geração que se julga credora de gratidão eterna por ter lutado contra o fascismo."

Que poderemos dizer a uma pessoa destas?

DUAS HISTÓRIAS

O Diário de Notícias, na sua rubrica «Elevador» - uma variante do sobe e desce de personalidades hoje muito em voga nos média nacionais - põe João Proença, secretário-geral da UGT, a subir.
Razão: a «muito razoável participação (..) 25 mil na rua» conseguida pela UGT no 1º de Maio.

Para a responsável da rubrica, o facto de a manifestação ter tido carácter nacional (com deslocações e refeições à borla para muitos dos participantes...) é de todo irrelevante...

A rematar a subida de João Proença, a jornalista comenta: «A CGTP, evidentemente, conseguiu muitos mais, mas isso é outra história».

É. É outra história...

Aliás, são duas histórias:
de um lado, a história de uma central sindical de classe, unitária, de massas, independente e democrática, criada, no tempo do fascismo, pela classe operária e pelas massas trabalhadoras;
do outro lado, uma organização congeminada (com fortes financiamentos das centrais internacionais do divisionismo sindical) pelos partidos da política de direita serventuários do grande capital - PS, PSD e CDS - com o objectivo essencial de dividir os trabalhadores para enfraquecer a sua luta e para melhor os explorar - e para quebrar a espinha à CGTP...
Ou seja:
de um lado, os trabalhadores organizados na sua estrutura de classe para a defesa, de facto, dos seus interesses e direitos;
do outro lado, falsos representantes dos trabalhadores defendendo, de facto, os interesses do grande capital - e, sem dúvida, conseguindo iludir muitos trabalhadores, como foi visível nas declarações da alguns dos participantes no desfile da UGT que diziam ter vindo a Lisboa protestar contra a política do Governo...


Abril e Maio em Aljustrel




Dias incontáveis nas palavras que aqui vão. humedecidos os momentos, as palavras são opacas para descrever os corações agitados pelos sonhos. Talvez sintam camaradas um pouco do que senti olhando para as fotografias que vos deixo, memória do meu Primeiro de Maio junto com os camaradas do Bairro Mineiro - e VERMELHO! - de Vale de Oca. Cantei com os meus amigos hinos da Reforma Agrária. Ironizei e escarneci o nome da PIDE (na alegria de mais um Primeiro de Maio em Liberdade). Chamei nomes próprios que rimam com sal e azar. Fui à pesca. Apanhei um escaldão, precaução para alguma renitência no vermelho. Em sonho, acompanhei os camaradas em marcha nas avenidas de Lisboa. Ergui-me do chão com o ADANGIO e com o MADEIRA provocando a fúria hiante dos fascistas. Fundi as balas em canções. E chorei baixinho de comoção quando, novos e velhos pularam para um jipe, ergueram punhos e cantaram:
VENCEREMOS, VENCEREMOS
COM AS ARMAS QUE TEMOS NA MÃO
VENCEREMOS VENCEREMOS
A BATALHA DA TERRA E DO PÃO.

Mineiros de Aljustrel: devo-vos grande parte da minha felicidade. Com a vossa força se cumpre o meu sonho. VIVA O 25 DE ABRIL. VIVA O PRIMEIRO DE MAIO.

POEMA

VOSSOS NOMES


No chumbo, no terror, na morte, com sangue escrevo,
Alfredo e Catarina,
vossos nomes.

Na pedra, no ácido, neste branco muro escrevo,
Humberto e Militão,
vossos nomes.

Nas trevas, no medo, na raíz da aurora, escrevo,
Maria e Lourenço,
vossos nomes.

No sonho, nos ventos, na flor do trigo escrevo,
Pedro e Guilherme,
vossos nomes.

No aço das duras tarefas, no relâmpago escrevo,
Álvaro e Rui,
vossos nomes.

No amor, na cólera, na fome desta ave escrevo,
Virgínia e António,
vossos nomes.

No sol que levamos, na verde esperança escrevo,
Paula e Dinis,
vossos nomes.

No riso, nas lágrimas, no coração da pátria escrevo
e semeio
vosso nomes.

No ventre em flor da minha amada semeio, escrevo
e multiplico
vossos nomes.

Papiniano Carlos

DESCUBRA AS DIFERENÇAS

Diz o DN que, no decorrer da apresentação da candidatura de Manuela Ferreira Leite à liderança laranja - ontem, no Porto - a «militante número 11 305» perguntou à candidata «quais as diferenças que a distinguiam de José Sócrates».
Segundo o DN, Manuela Ferreira Leite «não soube responder», ficando-se pela afirmação de que «o primeiro-ministro é homem e ela é mulher».

Ora, a meu ver, Manuela Ferreira Leite soube responder: de facto, é essa a única diferença entre ela e José Sócrates...
É óbvio que se MFL viesse, eventualmente, a ser líder do PSD e, na sequência disso, viesse a ser, eventualmente, chefe do governo, ela faria exactamente a mesma política que José Sócrates está a fazer - o mesmo acontecendo, aliás, com qualquer dos outros candidatos à liderança do PSD.

Na realidade trata-se, em todos os casos, de candidatos da política de direita que há 32 anos tem vindo a ser aplicada por sucessivos governos do PS e do PSD.
E não é por acaso que os média dominantes - propriedade do grande capital - tratam as eleições no PSD como o maior e mais importante acontecimento nacional: por um lado, promovem a sua gente; por outro lado, desviam as atenções dos verdadeiros problemas do País causados por essa política de direita.

E FOI ASSIM...


O retrato do 1º de Maio é o de um mar de gente, em luta pela LIBERDADE, pela DEMOCRACIA e contra a REPRESSÃO.
O povo saiu à rua, num dia assim, num dia em que afirma a continuação da luta pelos direitos que têm vindo a ser espezinhados ao longo de 34 anos de políticas contrárias às conquistas de Abril, e que assumem hoje uma força maior através das medidas que o actual governo tem feito questão de impor.
O mar de gente e as vozes firmes são o espelho do descontentamento. Contra as alterações ao Código do Trabalho, contra a precariedade, contra a instabilidade no emprego e injustiças sociais, contra tudo aquilo que representa o mote das políticas de direita e a tentativa de as por em prática, mediante justificações medíocres e nas quais os trabalhadores não acreditam.
Lutamos e lutaremos SEMPRE, até que o governo entenda que com a vida do povo não se brinca.
A LUTA CONTINUA!

AINDA MAIO

1 - Desinformação organizada.

As televisões fizeram o que lhes competia no tratamento das manifestações do 1º de Maio: desinformaram e manipularam.
A RTP1 abriu com o 1º de Maio; a seguir foi a TVI - finalmente, mais de meia hora depois, foi a vez da SIC.

Regra geral, as imagens respeitantes à CGTP-IN eram criteriosamente más: quem não tenha lá estado, dirá que andavam por ali umas dezenas, talvez centenas de pessoas...
Já em relação à UGT, eram criteriosamente boas: quem lá não foi, ficou com a ideia de um mar de gente...

Quanto ao número de manifestantes, ficámos a saber que a UGT mobilizara «25 mil», ou «30 mil».
Sobre a CGTP-IN não havia números...

O facto de a manifestação da UGT ter sido de âmbito nacional não foi referido.
E só por dedução é que alguém podia concluir que a CGTP-IN organizara manifestações em dezenas de localidades...
A RTP1 chegou ao ponto de, sobre a manifestação da CGTP-IN, referir as «pessoas vindas de todo o País»...

Mais palavras para quê?: é a comunicação social «independente, plural, isenta e imparcial» a funcionar.


2 - Com respeito ao respeito...
Três observações sobre outras tantas anomalias patentes, a meu ver, no cartaz do 1º de Maio da CGTP-IN:
1 - utilizar a ideia do «respeito» que o BE já utilizara nos seus outdors, revela pouco respeito pela malta que luta a sério. Tal utilização não passaria pela cabeça de ninguém - mas pelos vistos passou...
2 - acresce que a palavra «respeito», assim utilizada, remete a luta dos trabalhadores para um duelo de cavalheiros, com punhos de renda, entre o capital e o trabalho - o que não «respeita» o carácter da luta das massas trabalhadoras.
3 - aquele punho levantado, cheirando mais a rosa do que a cravo, revela pouco «respeito» pelos graves problemas que a política de direita do Governo PS/Sócrates causa aos trabalhadores portugueses.

A coroar estas anomalias, o BE desfilou partidariamente organizado: com os seus cartazes, slogans e folclore - assim desrespeitando o carácter apartidário da manifestação; assim desrespeitando a CGTP-IN; assim desrespeitando os trabalhdores que a CGTP-IN representa.
Aqui fica o registo - apenas para ficar... registado...

POEMA

UM DIA VIRÁ...


Um dia virá, como uma borboleta,
em que através dos campos um hálito benigno,
caricioso e doce, tudo fecundará.
Então, pedras, ou nuvens, ou rios, ou estrelas
obedecerão aos homens, nunca mais divididos
em senhores e escravos, em ambiciosos e humildes.
Será a era fácil de uma felicidade
feita de farto pão, de paz, de amor fraterno,
dificilmente obtida por uma luta tenaz.
Deixarão de existir a cobiça, a inveja,
o gosto de domínio, a intriga, a traição,
a petulância, o espanto, o desalento, a ira.
Mas quando é que virá esse dia final?

Armindo Rodrigues

A LUTA CONTINUA

O DIA DO TRABALHADOR foi mais umavez comemorado com uma grande jornada de luta contra a política de direita do Governo PS/Sócrates e por uma política de esquerda.
Foram milhares, muitos milhares de trabalhadores - homens, mulheres e jovens - que hoje desfilaram em Lisboa, do Martim Moniz à Alameda Afonso Henrique.
E muitos outros milhares encheram praças e ruas de dezenas de outras localidades de Norte a Sul do País.
Este 1º de Maio constituiu uma poderosa afirmação das potencialidades de desenvolvimento da luta no futuro imediato.
Aqui em Lisboa, na Almirante Reis e na Alameda, foi bonito de ver. E deu força a quem lá esteve.
E assim há-de ter sido em todo o lado.

Quando se sai de uma jornada de luta a gritar «A Luta Continua!» é sinal de que... «isto vai, meus amigos, isto vai»

1º DE MAIO (3)

O PRIMEIRO 1º DE MAIO


O 25 de Abril de 1974 teve, uma semana depois, a sua confirmação maior nas gigantescas manifestações unitárias do 1º de Maio - expressão da imensa força autónoma e independente do movimento operário e popular.
As impressionantes manifestações do 1º de Maio afirmaram o movimento operário e popular como uma poderosa realidade da vida nacional à qual estava reservado um papel determinante no curso da revolução portuguesa. Esse papel é inseparável da orientação do PCP no sentido do reforço da unidade da classe operária e de todos os trabalhadores e da constituição de uma ampla frente social e política empenhada na defesa da democracia e das conquistas de Abril e da acção abnegada dos militantes comunistas nas mais diversas estruturas e frentes de luta do movimento popular.
A Revolução Portuguesa iria desenvolver-se através da acção conjugada das massas populares e do Movimento das Forças Armadas.
Álvaro Cunhal, na sua intervenção no Estádio 1º de Maio: «Neste dia deram-se passos gigantescos no sentido da democratização da vida nacional. Mas o perigo da reacção fascista, o perigo da contra-revolução existe.»

1º DE MAIO (2)

1º DE MAIO DE 1962

Uma das primeiras consequências visiveis da correcção do desvio de direita de 1956-1959 foi o 1º de Maio de 1962 que, atingindo dimensões, significado e conteúdos novos, trouxe à luz do dia a nova dinâmica do movimento operário.
É por demais significativo e relevante o facto de, desde aí, o Dia do Trabalhador, enquanto tal, ter passado a ser o dia nacional da resistência antifascista, ocupando, assim o lugar até então ocupado pelo 5 de Outubro, dia da revolução republicana burguesa.

No dia 1º de Maio de 1962, 100 mil pessoas ocuparam as ruas de Lisboa durante longas horas, enfrentando as forças policiais. Às cargas brutais da polícia e às rajadas de metralhadora, responderam com pedras, arrancadas do pavimento, e com postes de sinalização, dispersando num lado para se reagrupar no outro.
Neste confronto, o jovem operário comunista Estêvão Giro é morto por uma carga policial.
As comemorações do 1º de Maio estenderam-se a todo o País em importantes jornadas de luta.
No Porto, em Almada, no Barreiro, em Ervidel, em Alcácer do Sal, dezenas de milhares de trabalhadores comemoram o 1º de Maio enfrentando corajosamente as forças repressivas.
No Alentejo litoral, cerca de 50 000 trabalhadores, dos quais 35 000 assalariados rurais, param o trabalho.
No Ribatejo, Alto Alentejo, arredores de Lisboa e em algumas outras regiões, têm lugar greves e paralisações.
Em Montemor, Escoural, Alcáçovas, Aldeia Nova, Pias, Ervidel, Grândola, Alpiarça, Couço, Vila Moreira, Pero Pinheiro, e em muitas outras localidades praticamente ninguém trabalha no 1º de Maio.

Durante todo o mês de Maio, estas lutas prosseguirão por parte do proletariado agrícola do sul tendo como objectivo - vitorioso - a conquista da jornada de trabalho de 8 horas.

«A conquista das 8 horas de trabalho pelo proletariado rural é uma vitória histórica. E porque as lutas que a ela conduziram se desenvolveram em volta da grande jornada política do 1º de Maio, o dia 1º de Maio de 1962 será sempre lembrado como um marco fundamental na história da luta do proletariado português pela sua libertação do jugo do capital.
Foi uma grande conquista de carácter económico e uma vitória política (...)
O Partido Comunista, que dirigiu desde o início a luta, pode orgulhar-se desta vitória dos assalariados rurais como uma vitória sua.»
(Álvaro Cunhal, «Rumo à Vitória»)

POEMA

Neste ano de 1962
primeiro de Maio
ao começo da noite
podemos finalmente olhar no espelho a nossa imagem
sem temor nem vergonha

Na solidão do quarto meu Amor
podemos pela primeira vez
deixar de recear futuros julgamentos
e as perguntas silenciosas nos olhos dos vindouros
esquecer a humilhação o insulto sem resposta
que foi o nosso pão quotidiano e áspero

Agora podemos ser de novo homens
livres ainda que presos
mastigando a comida sem o sabor a lágrimas
antes com o sal da esperança
merecido tempero paga justa da luta

Renegamos o passado maculado de angústias
esquecemos as pequenas diárias covardias
os negócios onde tudo se perde e até a honra

Neste primeiro de Maio de 1962
podemos finalmente sorrir sem amargura

Daniel Filipe
(«Pátria, lugar de exílio»)

1º DE MAIO (1)

«Nunca os carcereiros do Campo de Concentração do Tarrafal nos venceram (...)
É muito grande a força de um homem que se bate por razões justas que o engrandecem e não quer abdicar do respeito por si próprio. No Tarrafal éramos muitos os que assim pensavam e sentiam, e mútuo era o amparo e mútuas as palavras de encorajamneto.
Cercaram-nos de arame farpado, de mar, de muitas muralhas de isolamento, e todas elas derrubámos. Mas a que construímos com a nossa firmeza, a nossa convicção num futuro que iria abater os fascistas, essa não a demoliram os carcereiros.

Os vencedores fomos nós.
Nós que pelo 1º de Maio, arriscando-nos aos espancamentos e à frigideira, de costas para as paredes das oficinas, ali estávamos esperando pela alvorada.
E quando o Sol se erguia por cima dos telhados das casernas, levantávamos então o punho em saudação. Saudação ao Sol que um dia amanheceria numa Pátria livre

«Os Vencedores do Campo» - in «TARRAFAL - Testemunhos»

UM TEMA DE REFLEXÃO

Mussolini sorri: depois das legislativas, os seus sucessores ganham, também, o município de Roma...
E anteontem o Parlamento italiano tomou posse - pela primeira vez, desde 1946, sem eleitos comunistas.

Com mais de um milhão de militantes e com uma fortíssima infuência social, eleitoral e política, o Partido Comunista Italiano era, nos anos 70, o maior Partido Comunista da Europa Ocidental.
Contudo, no seu seio nasceram e cresceram (ou foram lá implantadas) forças que, minando a identidade do Partido, conduziram à sua liquidação.
Achille Occhetto foi o último secretário-geral do PCI - e foi ele que, convocando um congresso para o efeito, deu o passo decisivo para a liquidação do Partido.

Durante todo esse processo de destruição, o PCI foi louvado pela comunicação social dominante que o aconselhava a todos os partidos comunistas da Europa como modelo a seguir.
Partidos houve que seguiram o conselho - e tiveram o mesmo fim.
Os que persistiram em continuar comunistas - caso do PCP - eram apontados por essa comunicação social inimigos da «renovação» e da «modernização», «ortodoxos», «estalinistas», etc, etc.

Dos destroços do PCI, surgiu, a dada altura, o Partido da Refundação Comunista e, de uma cisão deste, o Partido dos Comunistas italianos (os dois que, agora, se viram afastados do Parlamento) - e quer um quer outro estão muito, muito, muito longe de poderem ser considerados partidos revolucionários, marxistas-leninistas, com a sua específica natureza de classe, com o seu projecto, comunistas, enfim.

Pronunciando-se sobre esta derrota eleitoral, Occhetto diz que ela se deve ao facto de «os dois partidos comunistas» terem «atrasado a sua renovação» rumo à «criação de uma nova esquerda pluralista e democrática», bla-blá-blá. - o que, traduzido, significa que, para Occhetto, eles ainda são demasiado partidos comunistas e é preciso que o deixem de ser total e absolutamente...

Tudo isto faz pensar - e deve ser tema de reflexão - em como o inimigo de classe, ao longo do tempo, tem conseguido penetrar nos partidos comunistas, criando e pondo a funcionar ao seu serviço activas fracções revisionistas que, não raras vezes, logram mesmo chegar ao topo.
Occhetto, na Itália; Carrilho, na Espanha... - isto para não falar de Gorbachev que, depois de se vender e de vender a União Soviética ao imperialismo norte-americano, correu mundo a fazer «conferências» pagas a peso de ouro e terminou propagandista de malas de viagem...


Também por cá não têm faltado os «renovadores».
A primeira vaga surgiu em finais dos anos 80: todos juravam que o que queriam era «um PCP mais forte», todos se apresentavam como «vítimas de perseguições estalinistas» - e todos juravam que seriam «comunistas sempre».
Desse grupo, a maior parte está hoje no PS e no PSD - são ministros, secretários de Estado, deputados, autarcas, administradores de empresas...
A segunda vaga surgiu em finais dos anos 90: todos juravam o mesmo que os seus antecessores, todos eram «vítimas» das mesmas «perseguições»... e por aí andam...
E a terceira vaga surgirá logo que as condições se proporcionem... e fará as mesmas juras e proclamará as mesmas vitimizações e seguirá os mesmos destinos.

E o PCP continuará a ser o que é há 87 anos.
Porque os seus militantes - que são comunistas e portugueses - o querem assim: Partido Comunista Português.

POEMA

O BURGUÊS


A gravata de fibra como corda
amarrada à camisa mal suada
um estômago senil que só engorda
arrotando riqueza acumulada.

Uma espécie de polvo com açorda
de comida cem vezes mastigada
de cadeira de braços baixa e gorda
de cómoda com perna torneada.

Um baú de tolice. Uma chatice
com sorriso passado a purpurina
e olhos de pargo olhando de revés.

Para dizer quem é basta o que disse
é uma besta humana que rumina
é um filho da puta é um burguês.

José Carlos Ary dos Santos

É NISSO QUE ELE PENSA

Diz Mário Soares que vêm aí tempos maus para os portugueses.
Mas logo ensina o que sabe: «a culpa não é do Governo».
De quem é, então, a culpa?
Soares, qual pai da democracia, continua a ensinar: a culpa «é da conjuntura ocidental e mesmo mundial».

Pronto, está tudo explicado, podemos dormir tranquilos: o Governo PS/Sócrates vela por nós e logo que «a conjuntura» passe, isto vai ser um mar de rosas...

Soares - qual pai da democracia e da liberdade - insiste na lição: o Governo está a governar bem, vejam como «a redução do deficit foi importante»; vejam como era «necessário essa redução ser feita»; vejam como o Governo a fez...

A culpada do mal, continua Soares a ensinar, é «a conjuntura» - desta vez chamada «conjuntura económica europeia» - que nos é adversa, a malvada.
Mas, quando «a conjuntura» deixar de ser adversa, tudo vai melhorar, graças ao Governo PS/Sócrates.

Por tudo isso, ensina Soares - qual pai da democracia, da liberdade e dos direitos humanos - devemos «compreender a situação», isto é: esperar que «a conjuntura» mude. Ou, ensinado doutra forma: não é necessário nem vale a pena lutar, sentemo-nos e esperemos.
Porque, mal «a conjuntura» passe, o Governo PS/Sócrates, fulminante, entra em acção «com coragem, lucidez e sem quebra dos princípos éticos, que nos devem reger».

Como se vê, Soares continua a reger-se por uma incomensurável desvergonha e a sua coragem e lucidez são exemplares da forma como continua a pugnar pela política de direita - política da contra-revolução de Abril - que iniciou há 32 anos e a que sucessivos governos PS e PSD têm dado continuidade.
Ou seja: a defesa dos interesses do grande capital é - ontem, hoje e amanhã - a procupação maior de Soares.
É nisso que ele pensa quando fala em democracia.
É nisso que ele pensa quando fala em liberdade.
É nisso que ele pensa quando fala em direitos humanos.
É nisso que ele pensa - como o porco pensa na bolota.

POEMA

QUADRILHA


João amava Teresa que amava Raimundo
que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili
que não amava ninguém.
João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento,
Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia,
Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes
que não tinha entrado na história.


Carlos Drummond de Andrade

COMPANHEIRO VASCO

Da memória do 25 de Abril de 1974 - desse tempo novo de povo nas ruas conquistando as liberdades exercendo-as e dando os primeiros passos no caminho do processo que fez da Revolução de Abril o momento de maior modernidade da nossa história colectiva - emerge, límpida e transparente, a figura ímpar de VASCO GONÇALVES, General de Abril, Soldado do Povo, Companheiro Vasco.

Dignidade e verticalidade, coragem e patriotismo, inteligência e cultura, modéstia e vontade de saber, lucidez e coerência: eis alguns dos atributos pessoais que, aliados a uma total e permanente postura solidária e fraterna, fazem do Companheiro Vasco, pela sua vida, pela sua acção, pelo seu exemplo, o mais puro e fiel intérprete dos ideais libertadores e transformadores de Abril e uma figura maior da História de Portugal.

Os quatro governos provisórios de que foi primeiro-ministro - de 18/7/74 a 11/9/75 - corresponderam ao período mais exaltante, inovador, avançado e criativo do processo revolucionário.
Nesse tempo, pela primeira - e, até agora, única - vez, Portugal teve um primeiro-ministro que se identificava totalmente com os interesses e aspirações da classe operária, dos trabalhadores, do povo e do País.

Por ocasião do lançamento, em 1977, do livro Doze Poemas para Vasco Gonçalves, da autoria de «alguns dos maiores nomes da nossa poesia actual», Óscar Lopes perguntava: «Seria fácil imaginar Ramos Rosa, Silva Carvalho ou Eugénio de Andrade, por exemplo, a dedicar um poema a qualquer dos outros responsáveis políticos e militares que depois do 25 de Abril disputaram o poder a Vasco Gonçalves?».
E respondia, naturalmente, pela negativa.

Aqui fica - em homenagem ao Companheiro Vasco - um desses doze poemas.


O COMUM DA TERRA

Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esses eras tu: inclinação da água. Na margem
ventos areias mastros lábios, tudo ardia.

Eugénio de Andrade

POEMA

AMIGO


Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra "amigo".

"Amigo" é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!

"Amigo" (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
"Amigo" é o contrário de inimigo!

"Amigo" é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
É a verdade partilhada, praticada.

"Amigo" é a solidão derrotada!

"Amigo" é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil.
"Amigo" vai ser é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill

ANTÓNIO ADÂNGIO

No início de 1962,o fascismo desencadeou uma forte vaga repressiva em vários pontos do País.
O ditador Salazar tentava, assim, sufocar a luta antifascista que se desenvolvia e alastrava, e que, nesse ano, atingira proporções invulgares: grande manifestação no Porto no 31 de Janeiro; também no Porto, mais de 20 mil pessoas comemoraram o Dia Internacional da Mulher (8 de Março); dezenas de milhares de estudantes em Coimbra, Lisboa e Porto, levaram por diante uma vaga de lutas e greves como nunca antes havia acontecido - a que se seguiria a grande manifestação do 1º de Maio com mais de 100 mil trabalhadores - a maior até então organizada - e, logo a seguir, a histórica conquista das oito horas de trabalho pelo operariado agrícola do Sul, na sequência de muitas e difíceis lutas.

Entre os alvos da repressão fascista contavam-se vários democratas de Aljustrel, presos pela PIDE em Abril desse ano.
No dia 28 de Abril, centenas de aljustrelenses, com predominância de mineiros, concentraram-se junto ao posto da GNR exigindo a libertação dos seus conterrâneos.
A GNR abriu fogo sobre os manifestantes, provocando dezenas de feridos e a morte do jovem mineiro, militante do PCP, António Adângio - cujo nome e exemplo o Cravo de Abril aqui recorda hoje em sentida homenagem.