BUSH & BEN LADEN

Bush, em vésperas de ser substituído como presidente dos EUA, veio à Europa despedir-se dos seus amigos fiéis: os governantes da UE que o ajudaram na criminosa tarefa de invadir e destruir a ex-Jugoslávia, o Afeganistão e o Irão assassinando centenas de milhares de crianças, mulheres e homens.

Num desabafo ao criado do Reino Unido, confessou a sua mágoa por não ter conseguido alcançar o objectivo de caçar o Ben Laden - seu ex-amigo e ex-sócio (um dia se confirmará, ou não, se é ex...)
A confissão desta mágoa traz, mais uma vez, à luz do dia a contradição insanável com que Bush se vem debatendo de há sete anos a esta parte.

Como estamos lembrados, logo após o ainda não esclarecido ataque às Torres Gémeas, Bush colocou como tarefa prioritária a captura de Ben Laden.
Disse ele, na altura:
«O mais importante é encontrar Ben Laden. É essa a nossa prioridade».

E, três meses passados, reiterava o objectivo:
«Vamos apanhar Ben Laden. Vivo ou morto»

Depois, talvez porque ocupado com a democraticíssima tarefa de bombardear, ocupar e destruir o Afeganistão - e talvez, também, porque o Ben Laden não se deixava apanhar... - arvorou um ar displicente e mudou o rumo do discurso:
«Não sei onde está Ben Laden e não me interessa. Não é a nossa prioridade».

Logo a seguir, pressionado por incómodas perguntas, esclareceria, falho de memória e a pensar nas armas de destruição massiça do Iraque:
«Não me lembro de ter dito que não estava preocupado com Ben Laden».

Mais tarde, impotente face à resistência heróica do povo iraquiano, desdenharia assim:
«Ben Laden é um homem impotente refugiado numa gruta».

Agora, na Europa, pediu ao sempre rastejante lacaio britânico para o ajudar a lançar uma operação numas montanhas não sei onde, onde lhe disseram que se encontra, escondido, o Ben Laden...

Não sei se o Ben Laden está ou não nas tais montanhas, nem se a operação vai ou não por diante.
Mas permito-me deixar aqui um velho palpite meu sobre o local onde pode ser encontrado o terrorista das Torres Gémeas: o rancho de Bush, no Texas.

«CAMINHEMOS SERENOS»

Em 1958 - há cinquenta anos! - Papiniano Carlos publicava o seu sétimo livro de poemas: «Caminhemos Serenos» - poemas que, passados à máquina e distribuídos, lidos em convívios, desde logo passaram a ser armas da luta contra o fascismo.

O fascismo apressou-se a proibir e apreender o livro. As razões apresentadas constam da nota de apreensão da Comissão de Censura:
«Livro de poesias, quase todas de sabor comunisante, e algumas mesmo de índole comunista».

Entretanto, os poemas de Papiniano Carlos passaram a integrar o cancioneiro da resistência e eram declamados nas mais diversas iniciativas antifascistas:

«A teu lado, amor,
não há muros, silêncio, morte»...

«No chumbo, no terror, na morte, com sangue escrevo,
Alfredo e Catarina,
vossos nomes»...

«Na fome verde das searas roxas
passeava sorrindo Catarina»...


Em homenagem a Papiniano Carlos, relembramos hoje o poema


CAMINHEMOS SERENOS

(Para Julius e Ethel Rosemberg)

Sob as estrelas, sob as bombas,
sob os turvos ódios e injustiças,
no frio corredor de lâminas eriçadas,
no meio do sangue, das lágrimas,
caminhemos serenos.

De mãos dadas,
através da última das ignomínias,
sob o negro mar da iniquidade,
caminhemos serenos.

Sob a fúria dos ventos desumanos,
sob a treva e os furacões de fogo
dos que nem com a morte podem vencer-nos,
caminhemos serenos.

O que nos leva é indestrutível,
a luz que nos guia connosco vai.
E já que o cárcere é pequeno
para o sonho prisioneiro,
já que o cárcere não basta
para a ave inviolável,
que temer, ó minha querida?:
caminhemos serenos.

No pavor da floresta gelada,
através das torturas, através da morte,
em busca do país da aurora,
de mãos dadas, querida, de mãos dadas,
caminhemos serenos.

Pensamento que voa assim...

Uma vez, uma camarada e amiga de seu nome Cidália, deu asas ao pensamento numa acção de formação de Escrita Criativa promovida pelo nosso Partido. Foi o tema Escrita Estilo Saramago que lhe fez brotar tais ideias, que transcrevo abaixo.


25 DE ABRIL

Ao pesadelo da noite escura opressiva um dia de luz vermelho belo como são os dias dos sonhos realizados sua data 25 de Abril do ano de 1974 a liberdade o sonho a esperança voam no ar e poisam no coração das pessoas que felizes incrédulas saíram à rua.


ACORDAR DO SONHO

Não tardou que os sonhadores com lentidão se começassem a aperceber que no mesmo ar no mesmo céu não no mesmo dia pairavam os abutres que em voo picado lhes tentavam roubar esse sonho essa esperança Sonho e Esperança que continuam vivos e têm a força que nenhum abutre vencerá.


Um grande beijinho para ti que me deixaste partilhar o vôo do teu pensamento.

POEMA

ESTA GENTE

Esta gente cujo rosto
às vezes luminoso
e outras vezes tosco

ora me lembra escravos
ora me lembra reis

faz renascer meu gosto
de luta e de combate
contra o abutre e a cobra
o porco e o milhafre

Pois a gente que tem
o rosto desenhado
por paciência e fome
é a gente em quem
um país ocupado
escreve o seu nome

E em frente desta gente
ignorada e pisada
como a pedra do chão
e mais do que a pedra
humilhada e calcada

meu canto se renova
e recomeço a busca
de um país liberto
de uma vida limpa
e de um tempo justo.

Sophia de Mello Breyner Andresen

EU BUZINO!

BUZINÃO
Dia 17 de Junho, às 17H30.

CONTRA O AUMENTO DO PREÇO DOS COMBUSTÍVEIS
(e contra a cambada...)

EU BUZINO!

POEMA

AINDA ME ACOLHO


Ainda me acolho, Pai,
à tua madressilva.
Ali tens a passiflora,
não envelheceu.
O cedro grande, maior ainda.
O forno, dedadas
expungidas pelas portas.
A buganvília, não esqueço,
é preciso cortá-la.
A Mãe não está nem volta.

António Osório

"Humano, demasiado humano"


Pier Paolo Pasolini

POEMA

ESMAGADOS...


Esmagados sob as patas
das bestas taciturnas
os nossos peitos ansiosos,

que havemos nós de fazer senão, irados,
mesmo imprudentemente,
erguer-nos contra quanto
é ordem truculenta,
crença mutiladora,
ou crime sistemático?

Armindo Rodrigues

COM RESPEITO AO RESPEITO...

Pronto: está encontrada a «solução»!
Por sinal, nos moldes ontem referidos pelo Cravo de Abril e, hoje, confirmados pelo Público: «a Irlanda vai ter de decidir rapidamente se quer sair da União Europeia (...) ou se prefere voltar a submeter o texto aos eleitores mediante certos ajustamentos».

Temos, assim, que o caminho inevitável é o da repetição do referendo depois de submeter o texto às tais (desavergonhadamente) confessadas «pequenas modificações cosméticas»...
Temos, assim, a confirmação de que os construtores da União Europeia fogem dos métodos democráticos como o diabo da cruz: referendos para o eleitorado escolher livremente, NUNCA!; referendo repetido até o eleitorado escolher o «sim», SIM! (mas não abusem, senão... não há «modificações cosméticas» para ninguém!)

«Respeito o resultado do referendo, mas...»: eis a frase-tipo utilizada por todos os governantes europeus logo após a contagem dos votos irlandeses.
E naquele MAS está a essência do pensamento europeísta e do conceito de democracia que preside à construção desta União Europeia do grande capital.
É que, com respeito ao respeito, não há respeito nenhum...

POEMA

Para um amigo que gosta muito de poesia...


O desempregado com filhos

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a mão que te resta.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.
Mais tarde foi despedido e de novo procurou emprego.

Disseram-lhe: só te oferecemos emprego se te cortarmos a cabeça.
Ele estava desempregado há muito tempo; tinha filhos, aceitou.

In O Senhor Brecht de Gonçalo M. Tavares - Edições Caminho

ESTÁ MORTO MAS NÃO MORREU...

«Tratado de Lisboa avança apesar do "não" no referendo da Irlanda»: diz o Público de hoje, em primeira página - e avisa que «a Irlanda ficou com a responsabilidade de encontrar uma saída para o impasse que ela própria criou».
Reparem como em tão poucas palavras se pode resumir tudo o que paira nas cabeças dos derrotados de ontem...

Imagino a azáfama que vai por essa Europa: batalhões de juristas armados de potentes lupas à procura da «solução»; batalhões de lideres políticos a afinar os «argumentos» que hão-de «demonstrar» o carácter «profundamente democrático» da «solução» que os juristas hão-de encontrar...

Para já, e como convém, dizem todos que a bola está do lado da Irlanda que consideram obrigada, não apenas a «explicar as razões deste desaire» (irra, como é que vocês dixaram que o «não» ganhasse?), mas também - e essencialmente - a «assumir as responsabilidades de avançar com pistas para resolver o impasse», «impasse» que a própria Irlanda criou - dizem, irritados.
É claro que tudo isto é paleio: toda a gente sabe que os governantes da Irlanda farão o que lhes disserem para que o resultado do referendo não conte, para que o Tratado avance... morto, mas vivo, ainda que ligado à máquina do vale-tudo.

Há quem diga que a Irlanda deve «convocar novo referendo (...) sob pena de ver as suas relações com a Europa seriamente postas em causa». Há quem acrescente que o novo referendo seja sobre um novo texto, depois de submetido o actual a «pequenas modificações cosméticas»... Enfim, todas as possibilidades estão «em cima da mesa», à volta da qual estes paladinos da democracia se encontram reunidos.
Registe-se a impiedosa culpabilização da Irlanda, isto é: do eleitorado irlandês que, chamado a pronunciar-se, votou inequívocamente «não». Registe-se, igualmente, a insistência obsessiva na exigência feita à Irlanda de encontrar «a solução».

A dada altura, dei comigo a pensar que essa exigência continha, implícita, a hipótese de a Irlanda se auto-excluir da UE para «resolver o problema»...
Depois, pensei que era exagero meu, que tal coisa não passaria pela cabeça de ninguém...
Afinal, tal coisa passou, ou está a passar, por várias cabeças. Como se depreende destas palavras proferidas por um governante francês: «Não podemos pôr fora da Europa um país que é membro há 35 anos»...

Preparemo-nos, então, para tudo: o que é imaginável e o que pode parecer inimaginável.


POEMA

CANÇÃO INFANTIL


Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder.

Eugénio de Andrade

NÃO PASSOU

O Tratado Porreiro, Pá foi derrotado pelos irlandeses - os únicos que foram chamados a dar opinião sobre o assunto.
Trata-se de um acontecimento de enorme importância e significado.

As golpaças dos promotores da «coisa» não foram suficientes.
Não bastou a manobra de remeter a decisão para o aconchego dos parlamentos, com a aprovação previamente assegurada.
Não bastou o desavergonhado envolvimento no referendo irlandês de todos os países que fugiram de o fazer em suas casas.
Nada bastou: o Tratado NÃO PASSOU!
O NÃO irlandês deu-lhe o destino que merecia: o CAIXOTE DO LIXO.

Para já...
Fica a pergunta necessária: que outras manigâncias vão eles engendrar, agora?

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UNS CABELOS TODOS BRANCOS


E
stamos a vê-lo todos e sabemos.

Foram anos de fome, quantas vezes
à beira dos mercados e das feiras.
Foram anos com o perigo a escorrer das paredes.
Foram anos de todas as esquinas vigiadas.
Anos de encontros mais cronometrados
do que o fio-de-prumo sobre a lâmina.
Foram anos eternos de prisão
numa ilha de mar, de guardas, de muralhas
e de silêncio com o olhar feroz
de grades sobre o dia.

Foi toda a vida com o coração
sem nunca se esquecer por que batia.

Mário Castrim

13 de Junho


Uma multidão oriunda de todo o país - militantes do Partido e simpatizantes, gente sem filiação partidária, membros de outras forças políticas, operários, empregados, estudantes, intelectuais - participou naquela que foi a maior cerimónia fúnebre alguma vez realizada em Portugal.
Tratou-se da homenagem profundamente sentida a uma vida de luta que teve como referência constante e principal a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País - uma vida de revolucionário, feita de coragem, de dignidade, de verticalidade.
Tratou-se da homenagem a quem, ao longo de uma vida, desenvolveu uma actividade militante que teve como preocupação dominante e permanente a de, integrando o colectivo partidário, dar o seu contributo para fazer do Partido Comunista Português o Partido revolucionário que é.
Tratou-se da homenagem à coerência de quem fez da sua opção pelo ideal comunista uma opção de vida e a concretizou, exemplarmente, numa intervenção singular quer no longo e complexo processo de construção colectiva do PCP - do qual foi o mais relevante operário - quer na acção revolucionária do Partido, decorrente do conteúdo desse processo, desenvolvida ao longo de 75 anos.

Texto retirado do livro 85 Momentos de Vida e Luta do PCP, Edições Avante!

POEMA

(Clamor contra os que me forçam a ser
mais pequeno do que sou)


E
ainda por cima
me obrigam a odiar bandeiras exactas
e a embalar a superfície das coisas.

José Gomes Ferreira

A UNIÃO NACIONAL NÃO DIRIA MELHOR...

O auto-designado Partido da Nova Democracia (PND), chefiado por Manuel Monteiro, não gostou das reacções do PCP e do BE ao dia da raça de Cavaco Silva.
E tamanho foi o desagrado que não se conteve e desvendou-se um pedacinho: diz o PND, em comunicado, que «só um regime totalmente contemporizador é que admite partidos totalmente antidemocráticos no jogo eleitoral».
Saudades do fascismo, já se vê - e a mostrar que este PND, se pudesse, acabava totalmente com as contemporizações e fechava todos os antidemocráticos em Caxias, Peniche, etc.

Mas não pode. O que muito o incomoda e enraivece.
Por isso deixou um alerta a quem de direito: depois de acusar os comunistas de «falta de patriotismo», o patriota PND, em tom de simultâneos ódio, frustração, desabafo e cagaço, avisou que «mais do que nunca é necessário recordar que os comunistas não têm emenda».
Ditas as coisas assim, há que reconhecer que a União Nacional não diria melhor...

E há que reconhecer também que os receios, hoje do PND, ontem da União Nacional, são justificadíssimos.
De facto, «os comunistas não têm emenda»: nunca viram as costas à luta pela democracia, pela liberdade, pela justiça social, pelos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Nunca: sejam quais forem as condições que se lhes deparem.

POEMA

CHE


Che, tu conheces tudo,
as voltas da Sierra,
a asma na erva fria,
a tribuna,
as ondas da noite,
até como se fazem
os frutos e os bois se jungem.

Não é que eu queira dar-te
caneta por pistola
mas o poeta és tu.

Miguel Barnet
(In Poesia Cubana da Revolução)

O CAMINHO DAS BOMBAS

Bush encontrou-se, ontem, com Ângela Merkel.
Do encontro saíu a ameaça de «novas sanções» contra o Irão, se este «insistir nos seus planos nucleares» - sanções que pressupõem, segundo a chanceler alemã, «que a comunidade internacional actue em conjunto».
Quanto a Bush, disse que «todas as opções continuam em cima da mesa» - entre elas a de «um ataque militar contra o Irão».

Desculpem a minha insistência no tema, mas é só para ir assinalando... o caminho das bombas.

POEMA

POR ESTA LIBERDADE

Por esta liberdade de cantar à chuva
temos que dar tudo

Por esta liberdade de estarmos estreitamente unidos
ao firme e terno cerne do povo
temos que dar tudo

Por esta liberdade de girassol aberto na aurora das fábricas
acesas e escolas iluminadas
e de terra que range e criança que acorda
temos que dar tudo

Não há alternativa senão a liberdade
Não há outro caminho senão a liberdade
Não há outra pátria senão a liberdade
Não haverá poema sem a violenta música da liberdade

Por esta liberdade que é o terror
dos que sempre a violaram
em nome de faustosas misérias
Por esta liberdade que é a noite dos opressores
e a definitiva aurora de todo o povo já invencível
Por esta liberdade que ilumina as pupilas afundadas
os pés descalços
os telhados remendados
e os olhos das crianças que rebolam na poeira
Por esta liberdade que é o reino da juventude.
Por esta liberdade
bela como a vida
temos que dar tudo

se for necessário
até a própria sombra
e nunca será bastante.

Fayad Jamis
(In Poesia Cubana da Revolução)

A UNIÃO EUROPEIA DO GRANDE CAPITAL

As decisões ontem tomadas pelo Conselho para o Emprego e Política Social, mostram a verdadeira face da União Europeia do grande capital.
Constam do seguinte: a partir da aprovação de tais decisões pelo Parlamento Europeu, a semana de trabalho na UE, em vez das 48 horas, poderá ir até às 60 horas, nuns casos; até às 65 horas, noutros casos; e até às 78 horas, em «casos específicos».
A irem por diante estas medidas, estaríamos perante um retrocesso civizacional de monta.

É claro que nada disto surpreende: na verdade, tais decisões inserem-se na poderosa ofensiva em curso contra direitos dos trabalhadores, conquistados ao longo dos tempos, através de duras, difíceis e, muitas vezes, heróicas lutas.
Contudo, vale a pena reflectir um pouco sobre o conteúdo, as características e o significado dessa ofensiva.

Trata-se de uma operação global, de classe e - aspecto importante e que lhe confere especificidade particular- desencadeada nestes moldes após o desaparecimento da União Soviética.
Com efeito, o fim da URSS, pondo termo à primeira tentativa de construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados, provocou uma profunda alteração na correlação das forças, desfavorável aos trabalhadores - e o capitalismo internacional sentiu existirem condições para avançar contra os direitos dos trabalhadores.
Daí esta feroz cavalgada do grande capital visando liquidar todos os direitos laborais essenciais para, assim, acentuar e intensificar a exploração - e registe-se o facto, por demais significativo, de os alvos primeiros dessa ofensiva serem direitos que, na sua imensa maioria, foram conquistados na sequência da Revolução de Outubro.
Como é o caso da semana de 48 horas, uma das primeiras grandes conquistas dos trabalhadores russos, em 1917, e que cedo se estendeu aos trabalhadores de vários outros países da Europa.

POEMA

ACONTECE QUE NÓS

Acontece que nós
acontece que nós habitamos este mundo e esta ilha
que recomendamos como boa
acontece que meus pais e avós e todos os meus antepassados
que pisaram esta terra
acontece que chegámos apenas há pouco até este ponto
e que temos de continuar
acontece que todo o mundo nos conhece pelo nome desta ilha
e pelos discursos e frases e os mais compridos títulos
acontece que somos responsáveis pelos crimes mais justos
e as mais belas mentiras
e acontece que nos custou muito gurdar o que fizémos

a ver se um dia destes nos deixam em paz.


Víctor Casaus
(In Poesia Cubana da Revolução)

UM CASAL SINISTRO

A Comunidade Internacional e o Direito Internacional são um casal sinistro: sempre que dele se fala, regra geral algum país vai ser bombardeado.
Diz-se até que os habitantes de um qualquer país sobre a situação do qual é invocado o devastador casal, começam de imediato a olhar para o céu a ver quando é que as bombas começam a cair.

Por ocasião da sua visita aos EUA, o primeiro-ministro de Israel, Ehud Olmert, exigiu à «comunidade internacional, medidas drásticas contra o Irão», já que, disse, «as sanções actuais não são suficientes para travar os planos nucleares daquele país.
(o direito a ter «planos nucleares» na região, está, como se sabe, reservado a Israel...)

Dias depois, o vice-primeiro-ministro israelita, Shaul Mofaz, veio a público afirmar que «é inevitável atacar o Irão, para travar os seus planos nucleares» - já que, disse, «as sanções actuais são insuficientes»; e garantiu que, se o Irão mantiver esses planos, «atacaremos».
(E Israel fará o que for necessário para assegurar esse direito à exclusividade...)

Agora, Bush, na sua visita à Europa (onde veio despedir-se dos governantes que o apoiaram nas carnificinas do Iraque e do Afeganistão) aproveitou para salientar que, no que respeita ao Irão, as sanções actuais não são suficientes e que a comunidade internacional deve, a partir delas, «decidir novas sanções» - isto se, como tudo indica, «o Irão continuar a negar os apelos do mundo livre» e, é claro, a desrespeitar o Direito Internacional...

Invocado o tenebroso casal por tanta gente importante e poderosa, é bem possível que, a esta hora, os iranianos andem todos de olhos postos no céu...

POEMA

VIAGEM ÀS TRINCHEIRAS

I
Os milicianos do meu povo mortos pelo invasor
eram sapateiros,
pedreiros,
músicos e cortadores de cana. Suas mães
eram as minhas mães.
O ódio
os assassinou.
Sofro,
olho para o horizonte onde os bárbaros
com canhões e aviões e bombas
se aprontam.

Que morra
um milhão de camponeses cubanos
não lhes importa. São,
como os japoneses de Hiroshima,
inferiores.
Agora comem, cantam,
esperam.

Os generais não escutam as águas.
Nunca assobiam aos simples pardais.

II
Sejas quem fores,
estejas onde estiveres,
não traias
este nobre jovem na praia
esperando o invasor.
Ele é nobre, é puro.
Não te sujes, não emporques
a água de todos. Não intrigues,
não corrompas, deixa a tua miserável
ambição, que sempre surge
onde o homem está,
e olha para ele:
é nobre, é puro.
Pronto a oferecer a sua vida jovem
por ti, por mim, por
todos. Sê recto e generoso. Sê para ele
como ele é para todos: fiel.

Samuel Feijóo
(In Poesia Cubana da Revolução)

O CASO DO CASINO DE LISBOA

Volto ao célebre Caso do Casino de Lisboa.
Aqui há uns meses, veio a público o relato do processo de negociações entre o Governo e a Sociedade Estoril Sol sobre o assunto.
Como estamos lembrados, o Governo Santana Lopes fez uma lei específica no sentido de garantir que (ao contrário do que dizia a legislação até então vigente) o edifício do Casino ficasse propriedade da Estoril Sol, no fim da concessão.
Se continuarmos a puxar pela memória, recordar-nos-emos ainda que o despacho que concretizava essa decisão foi assinado no decorrer da célebre maratona do então ministro do Turismo, Telmo Correia que, numa noite - precisamente a última em que foi ministro, já que no dia seguinte tomou posse o novo governo - despachou cerca de 300 diplomas...

Todo este processo pareceu a muita gente ferido de... transparência, digamos assim, e muito se escreveu sobre o assunto.
Finalmente, há dias tudo ficou esclarecido: um parecer emitido pelo Conselho Consultivo da Procuradoria-Geral da República diz que, no negócio em causa, tudo é legal e transparente e nada há de «ilícito» nem de «desconforme» com o Estado de Direito.
Vindo o parecer de quem vem, só me resta aceitá-lo como bom - e começar à procura de negócio semelhante para mim...

Posteriormente, o Presidente da Estoril Sol, em declarações à comunicação social, deu um notável contributo para o total esclarecimento do caso: afirmou, alto e bom som, que a sociedade a que preside não quer o edifício do Casino para nada!!
E esclareceu mais: disse ele que, se há assim tanto interesse em que o edifício seja propriedade do Governo, a Estoril Sol está disposta a devolvê-lo ao Governo, desde já!!!... a troco de 40 milhões de euros, esclareceu magnânimo, altruista, direi mesmo: patriótico.

Comentários para quê?

POEMA

NENHUMA PALAVRA TE FAZ JUSTIÇA


Tremor mais forte que a cópula,
companhia mais intensa do que a solidão,
conversa mais rica que o silêncio,
realidade mais estranha que o sonho,
verdade do dia e da noite,
céu colorido de bandeiras,
canção que não se detém,
razão de estar aqui:
Já vês que nenhuma palavra te faz justiça,
Revolução.

Roberto Fernández Retamar
(In Poesia Cubana da Revolução)

VASCO SEMPRE!

CARTA A AIDA GONÇALVES
(11 de Junho de 2005)

«Estimada amiga:

Con profundo pesar recibimos la notícia del fallecimiento del entrañable compañero Vasco Gonçalves, amigo inolvidable de nuestra Revolución.

Guardo en mi memória los momentos que compartimos juntos y su invariable solidaridad hacia Cuba e el Tercer Mundo.

Su lucha incansable por las causas justas de la humanidad perdurará por siempre en el recuerdo de los revolucionarios que conocimos su obra. Estoy convencido que la historia contemporánea de Europa y, especialmente la de Portugal, no podrá prescindir del legado de Vasco Gonçalves.

Recibe, estimada amiga, en este momento de profundo dolor, nuestras más sentidas condolencias.

Fidel Castro»

POEMA

REPORTAGEM ESPECIAL
PELO DIA INTERNACIONAL DA MULHER


Uma mulher se inflama.
Vinte anos e um corpo cheio de fogo.
Seu ventre palpita
seus peitos brancos erguidos e abrasados.
Contorcem-se as ancas
e fervem as coxas.
Anh Dai
tem o corpo aceso pela chama.
Mas não é o amor.
É o napalm.

Minerva Salado
(In Poesia Cubana da Revolução)

Dia da Raça

"99.8% dos dados genéticos são comuns a todas as pessoas. O livro do genoma prova que não faz sentido falar em raças"

Ainda assim Cavaco Silva, além de se recusar - como vem sendo costume - comentar as políticas internas, afirma que foi a Viana do Castelo comemorar o "Dia da Raça". Qual raça? "A raça de Portugal"

Já conheciam este dia da ilustre raça portuguesa? Ou será que o Cavaco ainda vive no tempo da velha senhora?

POEMA

CARABINA Nº 5767

Esta é a crónica de Félix Faustino Ferrán
e da ficha da sua carabina de miliciano da Pátria.
Féliz Faustino Ferrán, na fria noite de 19 de Janeiro,
junto às trincheiras da Revolução,
num lugar qualquer de Cuba,
recitou-me o breve e enorme poema
da sua carabina nº 5767.

Eu digo que é o mais luminoso, o mais profundo,
o mais musical e cintilante de todos os poemas
da Revolução!

Disse-o com a voz grave e quente de negro cubano,
com o seu sorriso claro e grande de negro cubano,
e era a Pátria inteira que falava,
com as palavras simples como flores de aço
do miliciano 1061.

Esqueci-me da origem, da primeira palavra.
Oiço a sua voz e vejo a mão
fechar-se com ternura de diamante invencível
no cano da sua carabina.
Surpreendido, escuto:

António o cano,
Viviana o guarda-mão,
Caruca o manipulador,
Filiberto o carregador,
Irene o tampão de gases,
Lucía o atirador
Fabián o travão,
e a culatra sou eu.

Em cada peça da carabina um filho,
em cada peça uma flor do seu sangue,
uma face de amor com fúria defendida.
Por eles, para eles!
Por todos! Para todos aqueles cujos nomes
estão em cada peça das carabinas milicianas,
a voz rouca do miliciano Félix Faustino Ferrán,
negro cubano, operário da Pátria e da sua glória,
na fria noite inolvidável do 19 de Janeiro,
junto às trincheiras da Revolução
onde eu lhe lia os poemas deste livro,
mostrou-me o coração da poesia.

Félix Pita Rodriguez
(In Poesia Cubana da Revolução)

CONFISSÕES DE UM MINISTRO

O ministro do Trabalho (que, em rigor, deveria ser designado por ministro do Capital) não pára na sua cruzada em favor do Código do Trabalho (que, em rigor, deveris ser designado por Código do Capital).
Quando é confrontado com os argumentos da razão, o ministro baralha-se, irrita-se e não resiste a revelar o que lhe vai na alma.
Há dias, num debate realizado no Porto, Vieira da Silva, incapaz quer de convencer os assistentes da justeza do Código quer de contrariar as objecções vindas da plateia, explicou-se assim: «Temos hoje uma arquitectura de relações laborais pouco adequada às exigências da globalização» - pelo que, concluiu, há que adequar as leis à nova realidade laboral...
Ou seja: quem manda nisto tudo é o grande capital, e aos governos e respectivos ministros cabe a tarefa de cumprirem fielmente as ordens do patrão.

Já sabíamos que era assim, mas não deixa de ser digno de registo o facto de este ministro vir confessar em público a sua condição de lacaio do grande capital.


A dada altura do debate, confrontado com as contradições entre as promessas eleitorais feitas pelo PS e a sua prática governativa, o ministro irritou-se - e criticou severamente aqueles que acham que um partido que apresenta ao eleitorado um determinado programa ( com o qual ganha, por maioria absoluta, as eleições) deve, no governo, cumprir esse programa!!!
Acha o ministro que só gente irresponsável pode pensar assim...
Isto é: uma coisa - esta certa, correcta, normal - são as promessas feitas em campanha eleitoral, para caçar o voto dos incautos; outra coisa - esta errada, irresponsável, absurda - seria cumprir, depois, essas promessas... - e é a isto que se chama ser «eleito democraticamente»

Já sabíamos que era assim, mas não deixa de ser digno de registo o facto de este ministro vir confessar em público a sua condição de vendedor de banha de cobra.

POEMA

BURGUESES

Não tenho pena dos burgueses
vencidos. E quando penso que vou ter pena,
aperto bem os dentes e fecho bem os olhos.
Penso nos meus longos dias sem sapatos nem rosas.
Penso nos meus longos dias sem chapéu nem nuvens.
Penso nos meus longos dias sem camisa nem sonhos.
Penso nos meus longos dias com a pele proibida.
Penso nos meus longos dias.

- Isto é um clube. Aqui não pode entrar.
- A lista já está cheia.
- Não há quarto no hotel.
- O senhor não está.
- Rapariga precisa-se.
- Fraude nas eleições.
- Grande baile para cegos.
- A taluda saíu em Santa Clara.
- Tômbola para órfãos.
- O cavalheiro está em Paris.
- A senhora marquesa não recebe.

Enfim, recordo tudo.
E como recordo tudo,
que caralho me pede você que faça?
E além disso, pergunte-lhes.
Com certeza
que eles também se lembram.

Nicolás Guillén
(In Poesia Cubana da Revolução)

DESAFIO AOS VISITANTES

Sendo fácil deduzir que as declarações abaixo citadas (por ordem cronológica) foram proferidas por pessoa, ou pessoas, com altas responsabilidades no PS, talvez seja um pouco mais difícil descobrir quem as proferiu.

Aqui fica, pois, o desafio aos visitantes do Cravo de Abril:
Quem foi que nos brindou com as afirmações que se seguem?


I - O PS no Governo

«Se este Governo falhasse - e não falha - nada de bom poderia vir para a Esquerda».

«A partir de Abril do próximo ano ficarão para trás as maiores dificuldades».


II - O PS na «oposição»

«Nunca o descontentamento popular foi em Portugal tão grande (...) o PS está disposto a encetar acções de gravidade cada vez maior no sentido do Governo não fazer aplicar o Pacote Laboral».

«Os socialistas estão dispostos a vir para a rua defender os interesses dos trabalhadores».


III - O PS no Governo

«Tal política implica restrições e sacrifícios que entendemos deverem ser partilhados por todos».

«Posso garantir que não irá faltar aos portugueses nem trabalho nem salários».

«O Governo não vai falhar».

«No segundo semestre alargaremos o cinto».

«Dentro de seis meses o país vai considerar-me um herói».

POEMA

DA VIOLÊNCIA


Do rio que tudo arrasta
se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
as margens que o comprimem.

Brecht

RELEMBRANÇAS...

Em 2000, António Guterres era o chefe do governo PS de então.
Vivia-se uma situação de descontentamento generalizado face às consequências da guterral política.
Os trabalhadores manifestavam-se, protestavam e o movimento de massas ameaçava pôr em causa, não apenas o Governo e os governantes, mas a própria política de direita.
O PSD, com Durão Barroso como líder, fingia de oposição e preparava-se para substituir o PS na execução dessa mesma política.

Foi então que, de dentro do PS, surgiu a voz profunda e imponente do seu dirigente e deputado Manuel Alegre que, de semblante grave e austero, e respondendo a um lancinante apelo de consciência, veio à boca de cena fazer o seu número de fingir uma exuberante oposição às práticas governamentais geradoras do descontentamento popular e fingir exigir ao seu partido uma postura de esquerda.

Dizia Alegre, tonitroante, nesse ano 2000 (por sinal, por ocasião das grandes jornadas de massas do 25 de Abril e do 1º de Maio...):

«O grande perigo não vem do PSD nem de Durão Barroso. Vem do governo, vem do PS e da tendência do poder para o autismo, o conformismo e a auto-satisfação narcísica».
É de homem! - houve quem dissesse.

E dizia Alegre, com requebros de esquerda na voz grave, uns meses depois (por sinal, por ocasião de grandes manifestações das massas trabalhadoras...):

«O PS precisa de uma reorientação estratégica e de repor com urgência o primado dos valores».
É de homem de esquerda! - houve quem dissesse.

Entretanto, Guterres, não suportando mais os protestos populares (que ele dizia não o impressionarem, até porque não passavam de acções de agitação levadas a cabo pelos comunistas...), fugiu - aliás, seguindo o exemplo do colega que o antecedera - Cavaco Silva - que também fugira e que também não se impressionava com manifestações...
As eleições deram a vitória ao PSD e coube a Barroso dar continuidade à política de Guterres, Cavaco, etc.
Barroso - que também não se deixava impressionar por manifestações, fossem elas grandes ou pequenas - seguiu a tradição dos líderes da política de direita: fugiu...

E sucedeu-lhe Sócrates, o qual fez avançar essa política para níveis de direita... e de gravidade jamais antes atingidos, gerando um descontentamento popular jamais antes verificado.

Razão mais do que suficiente, portanto, para que o deputado Manuel Alegre, respondendo ao tradicional apelo de consciência, se esteja a repetir no cumprimento da tarefa maior de, hoje como em 2000, dar o seu contributo para impedir que o descontentamento popular conduza à derrota da política de direita e à sua substituição por uma política de esquerda inspirada nos ideais de Abril.

Por isso esteve, e disse o que disse, no Teatro da Trindade; e está, dizendo o que diz, nas primeiras páginas de todos os órgãos da comunicação social dominante.

Ah!: e se, para tentar alcançar o seu objectivo essencial, Alegre se apoiou, desta vez, na muleta BE, é porque, como a realidade mostra, essa muleta se mostra totalmente disponível para o apoiar.