«Inevitabilidade» é uma das palavras mais utilizadas pelos propagandistas de serviço à política de direita.
«Inevitabilidades» são, por exemplo, o desemprego, a precariedade, os salários baixos, os salários em atraso, as reformas e pensões de miséria, os cortes no subsídio de desemprego, os agora muito falados cortes dos subsídios de férias e de Natal...
«Inevitabilidades» são, também, todas as medidas do Governo no cumprimento da sua tarefa de pau-mandado do grande capital.
«Inevitabilidades» são, enfim, todas as decisões que permitam ao grande capital aumentar os seus lucros - e que, portanto, flagelam impiedosamente os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
José António Lima (JAL), que, enquanto manda-chuva do Sol, é um desses propagandistas de serviço, veio dizer, hoje, que a privatização da RTP é uma «inevitabilidade».
Porquê? - perguntar-se-á.
E JAL adianta, para já, três razões:
1 - porque Passos Coelho o disse;
2 - porque Manuel Pinho também o disse; e
3 - porque o ministro Teixeira de Sousa o admite.
São três poderosas razões, como se vê - tão poderosas que o diligente JAL não hesita em concluir que a privatização da RTP, mais do que «inevitável», «é irreversível»...
A propósito: este JAL... quem o viu e quem o vê: começou de punho no ar a gritar que «o imperialismo é um tigre de papel» e foi andando, andando, andando, até se tornar um fiel servidor do tigre - que certamente lhe paga (bem) em papel...
É contra tudo isto e para acabar com tudo isto (incluindo as «inevitabilidades»), que eu vou participar na Manifestação da CGTP-IN, no dia 29.
POEMA
EXORTAÇÃO
Negro
para quem a horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.
Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.
Negro!
Levanta os olhos prao sol rijo
e ama a tua mulher
na terra húmida e quente!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Negro
para quem a horas são sol e febre
que colhes
nesse ritmo de guindaste.
Negro
para quem os dias são iguais
que respeitas teu patrão e senhor
como água que mexe o engenho.
Negro!
Levanta os olhos prao sol rijo
e ama a tua mulher
na terra húmida e quente!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
«AS NOVAS REGRAS»
«Com as novas regras para o subsídio de desemprego, o Governo poupa 40 milhões».
Estas «novas regras» são, de facto, a última palavra em matéria de modernidade e transportam um forte conteúdo moralizador e um largo alcance social.
Com efeito, com as «novas regras», os desempregados - esses esbanjadores, esses perdulários - são obrigados, por um lado, a gastar menos, a poupar (o que só lhes faz bem); e, por outro lado, ficam obrigados a aceitar o primeiro emprego que lhes apareça com o salário que o patrão quiser (e se não aceitarem, perdem o subsídio, toma lá que é para saberes...)
Por isso a ministra do Trabalho - sindicalista made in ugt - diz que as «novas regras» vêm «acelerar o reingresso dos desempregados no mercado de trabalho»...
É comovedora esta preocupação do Governo PS/Sócrates em - para resolver a CRISE - ir buscar dinheiro... onde o há, é claro...
E onde é que o há?
Está à vista: 40 milhões do subsídio de desemprego; mais umas dezenas de milhões do subsídio de férias; mais umas dezenas de milhões do subsídio de Natal...
Depois, é só pegar nesses milhões todos e entregá-los a quem os merece e deles precisa como do pão para boca, a saber: os grupos económicos e financeiros, pobres deles, a debaterem-se com uma terrível CRISE, bem visível na quebra assustadora dos lucros - lucros que, em muitos casos, nem sequer chegam a 1 milhão de euros/dia...
Felizmente, o Governo Sócrates/PS vela por eles.
E a estas «novas regras» outras regras novas se sucederão
E a bênção do Papa está quase a chegar...
Estas «novas regras» são, de facto, a última palavra em matéria de modernidade e transportam um forte conteúdo moralizador e um largo alcance social.
Com efeito, com as «novas regras», os desempregados - esses esbanjadores, esses perdulários - são obrigados, por um lado, a gastar menos, a poupar (o que só lhes faz bem); e, por outro lado, ficam obrigados a aceitar o primeiro emprego que lhes apareça com o salário que o patrão quiser (e se não aceitarem, perdem o subsídio, toma lá que é para saberes...)
Por isso a ministra do Trabalho - sindicalista made in ugt - diz que as «novas regras» vêm «acelerar o reingresso dos desempregados no mercado de trabalho»...
É comovedora esta preocupação do Governo PS/Sócrates em - para resolver a CRISE - ir buscar dinheiro... onde o há, é claro...
E onde é que o há?
Está à vista: 40 milhões do subsídio de desemprego; mais umas dezenas de milhões do subsídio de férias; mais umas dezenas de milhões do subsídio de Natal...
Depois, é só pegar nesses milhões todos e entregá-los a quem os merece e deles precisa como do pão para boca, a saber: os grupos económicos e financeiros, pobres deles, a debaterem-se com uma terrível CRISE, bem visível na quebra assustadora dos lucros - lucros que, em muitos casos, nem sequer chegam a 1 milhão de euros/dia...
Felizmente, o Governo Sócrates/PS vela por eles.
E a estas «novas regras» outras regras novas se sucederão
E a bênção do Papa está quase a chegar...
POEMA
CANTO DO OBÓ
O sol golpeia as costas do negro
e os rios de suor ficam correndo.
Ardor!
O machim golpeia o pau
e os rios de seiva escorrendo.
Ardor!
Os olhos do branco
como chicotes
ferem o mato que está gritando...
Só o água sussurrantemente calmo
corre prao mar
tal qual a alma da terra!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
O sol golpeia as costas do negro
e os rios de suor ficam correndo.
Ardor!
O machim golpeia o pau
e os rios de seiva escorrendo.
Ardor!
Os olhos do branco
como chicotes
ferem o mato que está gritando...
Só o água sussurrantemente calmo
corre prao mar
tal qual a alma da terra!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Almoço 3º aniversário

Camaradas: as inscrições estão abertas. Podem confirmar a vossa presença até às 17 horas de dia 17 para o seguinte email: antonio.galamba@gmail.com.
O almoço custa 15 euros e tem dois pratos de opção - escalopes grelhados ou lulas grelhadas. da ementa constam também as entradas, bebidas à vontade da sede (vinho, cerveja, água e sumos)sobremesa e café.
venham daí, Abraçar Abril!
POEMA
EPOPEIA
Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos da azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
- veias intumescidas dum corpo em sangue!
Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
arroxeando a noite tropical.
Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!
Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando compasso!
Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
em terras estranhas...
No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No Norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações do fumo!
Na calma do descanso nocturno
só a saudade da terra
que ficou do outro lado...
- só as canções bem soluçadas
dum ritmo estranho!...
Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!
Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi um despropósito!...
Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideias
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!
Ah!
os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...
Quando cantas nos cabarés
fazendo brilhar o marfim da tua boca
é a África que está chegando!
Quando nas Olimpíadas
corres veloz
é a África que está chegando!
Segue em frente
irmão
Que a tua música
seja o ritmo de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma vida nova!
... para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Não mais a África
da vida livre
e dos gritos agudos da azagaia!
Não mais a África
de rios tumultuosos
- veias intumescidas dum corpo em sangue!
Os brancos abriram clareiras
a tiros de carabina.
Nas clareiras fogos
arroxeando a noite tropical.
Fogos!
Milhões de fogos
num terreno em brasa!
Noite de grande lua
e um cântico subindo
do porão do navio.
O som das grilhetas
marcando compasso!
Noite de grande lua
e destino ignorado!...
Foste o homem perdido
em terras estranhas...
No Brasil
ganhaste calo nas costas
nas vastas plantações do café!
No Norte
foste o homem enrodilhado
nas vastas plantações do fumo!
Na calma do descanso nocturno
só a saudade da terra
que ficou do outro lado...
- só as canções bem soluçadas
dum ritmo estranho!...
Os homens do norte
ficaram rasgando
ventres e cavalos
aos homens do sul!
Os homens do norte
estavam cheios
dos ideais maiores
tão grandes
que tudo foi um despropósito!...
Os homens do norte
os mais lúcidos e cheios de ideias
deram-te do que era teu
um pedaço para viveres...
Libéria! Libéria!
Ah!
os homens nas ruas da Libéria
são dollars americanos
ritmicamente deslizando...
Quando cantas nos cabarés
fazendo brilhar o marfim da tua boca
é a África que está chegando!
Quando nas Olimpíadas
corres veloz
é a África que está chegando!
Segue em frente
irmão
Que a tua música
seja o ritmo de uma conquista!
E que o teu ritmo
seja a cadência de uma vida nova!
... para que a tua gargalhada
de novo venha estraçalhar os ares
como gritos agudos de azagaia!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
A TRADIÇÃO AINDA É O QUE ERA
Manuel Alegre anunciou formalmente a sua candidatura à Presidência da República - candidatura que há vários meses anda a anunciar por todo o País.
Foi nos Açores e houve discurso.
Um discurso do qual os jornais disseram:
«Ao contrário de 2005, não houve qualquer crítica à governação de José Sócrates» - e eu acrescento: naturalmente...
Dizem, ainda, os jornais:
«O apoio do PS à candidatura pode chegar já na segunda-feira» - e eu acrescento: direi mesmo mais: o apoio do PS à candidatura pode chegar já na segunda-feira...
No dito discurso, Manuel Alegre disse:
«Nas pessoas do presidente Almeida Santos e do secretário-geral José Sócrates, saúdo o meu partido, o Partido Socialista» - e eu acrescento: saudação justa, mais do que justa, a fazer lembrar os bons velhos tempos em que os garotos complementavam o beija-mão com a frase clássica: «A sua bênção, padrinho»...
Ou seja: a tradição ainda é o que era.
Foi nos Açores e houve discurso.
Um discurso do qual os jornais disseram:
«Ao contrário de 2005, não houve qualquer crítica à governação de José Sócrates» - e eu acrescento: naturalmente...
Dizem, ainda, os jornais:
«O apoio do PS à candidatura pode chegar já na segunda-feira» - e eu acrescento: direi mesmo mais: o apoio do PS à candidatura pode chegar já na segunda-feira...
No dito discurso, Manuel Alegre disse:
«Nas pessoas do presidente Almeida Santos e do secretário-geral José Sócrates, saúdo o meu partido, o Partido Socialista» - e eu acrescento: saudação justa, mais do que justa, a fazer lembrar os bons velhos tempos em que os garotos complementavam o beija-mão com a frase clássica: «A sua bênção, padrinho»...
Ou seja: a tradição ainda é o que era.
POEMA
ILHA DE NOME SANTO
Terra!
das plantações de cacau de copra de café de coco a perderem-se de vista
que vão morrer numa quebra ritmada
num mar azul como o céu mais gostoso de todo o mundo!
Onde o sol bem amarelo bem redondo incendeia as costas
dos homens das mulheres agitando-lhes os nervos
num cadenciar mágico mas humano: capinar sonhar plantar!
Onde as mulheres que têm os braços mais grossos e mais tortos que ocá
são negras como o café que colhem depois de torrado
trabalham ao lado de seu homem numa ajuda toda de músculos!
Onde os moleques vêem seus pais no ritmo diário
deixando correr gostosamente pelo queixo quente
o sabor e a seiva húmida do sàfu maduro!
Onde nas noites estreladas
e uma lua redonda como um fruto
os negros as sangués os moleques os caçô
- mesmo o branco e a sua mulata -
vêm no socopé de uma sinhá
ouvir um malandro tocando no violão
cantando ao violão!
E o som fica ecoando pelo mar...
Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicor
dizerem poder dizerem força dizerem império branco
é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam
é terra do sàfu do socopé da mulata
- ui! fetiche di branco! -
é terra do negro leal e forte e valente que nenhum outro!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Terra!
das plantações de cacau de copra de café de coco a perderem-se de vista
que vão morrer numa quebra ritmada
num mar azul como o céu mais gostoso de todo o mundo!
Onde o sol bem amarelo bem redondo incendeia as costas
dos homens das mulheres agitando-lhes os nervos
num cadenciar mágico mas humano: capinar sonhar plantar!
Onde as mulheres que têm os braços mais grossos e mais tortos que ocá
são negras como o café que colhem depois de torrado
trabalham ao lado de seu homem numa ajuda toda de músculos!
Onde os moleques vêem seus pais no ritmo diário
deixando correr gostosamente pelo queixo quente
o sabor e a seiva húmida do sàfu maduro!
Onde nas noites estreladas
e uma lua redonda como um fruto
os negros as sangués os moleques os caçô
- mesmo o branco e a sua mulata -
vêm no socopé de uma sinhá
ouvir um malandro tocando no violão
cantando ao violão!
E o som fica ecoando pelo mar...
Onde apesar da pólvora que o branco trouxe num navio escuro
onde apesar da espada e duma bandeira multicor
dizerem poder dizerem força dizerem império branco
é terra de homens cantando vida que os brancos jamais souberam
é terra do sàfu do socopé da mulata
- ui! fetiche di branco! -
é terra do negro leal e forte e valente que nenhum outro!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
A CRISE, ESSA MALVADA
Sombria, soturna, alarmante, dramática, trágica, a notícia chegou:
«Santander Totta, BCP, BPI e BES ganham menos 9, 4% que em 2009, devido à crise».
Trocado o título por miúdos, ficamos a saber que, no primeiro trimestre deste ano, os três primeiros daqueles bancos registaram uma baixa nos seus lucros, relativamente ao mesmo período do ano passado.
A excepção é o BES que aumentou os lucros em 17, 6%.
Mas isso para o caso não conta: o que conta é que Santander Totta, BCP e BPI que há um ano, ganharam, nos primeiros três meses, um pouco mais de 1 milhão de euros por dia (cada um), este ano - ó drama!, ó tragédia! - este ano... ganharam apenas um pouco menos de 1 milhão de euros por dia (cada um)...
A culpa é da CRISE, essa malvada que tanta desgraça tem trazido.
Desgraça que toca a todos, como sabiamente têm subinhado todos os nossos governantes, de Sócrates, Belmiro de Azevedo e Passos Coelho a Américo Amorim, Mário Soares e o dr. Constâncio.
Ora, digam lá: com lucros de um pouco menos de 1 milhão de euros/dia, como é que uma pobre instituição bancária pode sobreviver?
Não pode, está visto: lucros desses não dão nem para mandar cantar um cego: sabemo-lo nós e sabem-no os nossos governantes - todos - que, imPECavelmente previdentes, tomaram todas as medidas necessárias para obstar à CRISE, essa malvada que tanta desgraça tem trazido - que o mesmo é dizer: tomaram todas as medidas para que os lucros dos pobres grupos económicos e financeiros voltem a ser aquilo que eram.
A Bem da Nação, obviamente.
E ainda há quem diga mal do PEC!...
«Santander Totta, BCP, BPI e BES ganham menos 9, 4% que em 2009, devido à crise».
Trocado o título por miúdos, ficamos a saber que, no primeiro trimestre deste ano, os três primeiros daqueles bancos registaram uma baixa nos seus lucros, relativamente ao mesmo período do ano passado.
A excepção é o BES que aumentou os lucros em 17, 6%.
Mas isso para o caso não conta: o que conta é que Santander Totta, BCP e BPI que há um ano, ganharam, nos primeiros três meses, um pouco mais de 1 milhão de euros por dia (cada um), este ano - ó drama!, ó tragédia! - este ano... ganharam apenas um pouco menos de 1 milhão de euros por dia (cada um)...
A culpa é da CRISE, essa malvada que tanta desgraça tem trazido.
Desgraça que toca a todos, como sabiamente têm subinhado todos os nossos governantes, de Sócrates, Belmiro de Azevedo e Passos Coelho a Américo Amorim, Mário Soares e o dr. Constâncio.
Ora, digam lá: com lucros de um pouco menos de 1 milhão de euros/dia, como é que uma pobre instituição bancária pode sobreviver?
Não pode, está visto: lucros desses não dão nem para mandar cantar um cego: sabemo-lo nós e sabem-no os nossos governantes - todos - que, imPECavelmente previdentes, tomaram todas as medidas necessárias para obstar à CRISE, essa malvada que tanta desgraça tem trazido - que o mesmo é dizer: tomaram todas as medidas para que os lucros dos pobres grupos económicos e financeiros voltem a ser aquilo que eram.
A Bem da Nação, obviamente.
E ainda há quem diga mal do PEC!...
POEMA
O CICLO DO ÁLCOOL
3
Mãe-Negra contou:
«eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!...»
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
«Oh!
filhinho
entrou no vinhateiro
vinhateiro entrou nele...»
Os olhos de nhá Rita
estão avermelhados de tristeza.
«Hum!
filhinho
ficou esquecendo sua mãe!...»
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
3
Mãe-Negra contou:
«eu disse:
filhinho
beba isso coisa não...
Filhinho riu tanto tanto!...»
Nhá Rita calou-se.
Só os olhos e as rugas
estremeceram um sorriso longínquo.
- E depois Mãe-Negra?
«Oh!
filhinho
entrou no vinhateiro
vinhateiro entrou nele...»
Os olhos de nhá Rita
estão avermelhados de tristeza.
«Hum!
filhinho
ficou esquecendo sua mãe!...»
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
ERRAR É HUMANO
A ideia da excelência do «privado» e da sua supremacia absoluta em relação ao «público» tem sido sistematicamente difundida (através dos média privados...) pelos propagandistas privados ao serviço da política de direita.
Tal ideia é um dos vários «argumentos» utilizados na defesa das privatizações - ou seja, da entrega ao «privado», ao preço da uva mijona, de tudo o que dá lucro - e da permanência na posse do «público» de tudo o que dá prejuízo...
A realidade mostra com frequência a falsidade dessa ideia, mas nunca os tais propagandistas privados reconhecem a realidade.
Vimos, por exemplo, como a comparação «público/privado» foi cuidadosamente ocultada nas muitas noticias sobre os casos BPN e BPP - exemplos bem elucidativos da tão apregoada «excelência do privado»...
E a verdade é que todos os dias nos chegam notícias demonstrativas da incomensurável capacidade do «privado» para angariar lucros, seja à conta de quem trabalha e vive do seu trabalho, seja à conta do «público», isto é, do Estado.
Eis, de entre os casos que vão sendo conhecidos, o mais recente:
a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) detectou uma série daquilo a que, delicadamente, chama «irregularidades», ou «divergências» ou «desconformidades», na facturação ao Estado oriunda de «22 unidades convencionadas com o Serviço Nacional de Saúde» (SNS), ou seja clínicas privadas às quais o SNS recorre.
As «iregulariadades, divergências ou desconformidades», segundo a IGAS, são muitas e diversificadas:
serviços cobrados mais do que uma vez;
casos em que, tendo sido prescrito apenas um exame, são feitos (?) e facturados dois;
disparidade de preços que fazem com que, por exemplo, algumas dessas clínicas cobrem 41, 34 euros por um exame que deveria custar, no máximo, 18, 66 euros... enfim, uma infinidade de serviços «mal facturados», que custaram ao Estado uma importância que a IGAS, infelizmente, não quantificou...
Que concluir de tudo isto?
Atenção: nada de conclusões precipitadas.
E tenhamos em conta que, como «esclareceu uma fonte do Ministério da Saúde», trata-se de «erros e não de fraudes»...
Pronto, se assim é não há problema - tanto mais que, como toda a gente sabe, errar é humano...
Tal ideia é um dos vários «argumentos» utilizados na defesa das privatizações - ou seja, da entrega ao «privado», ao preço da uva mijona, de tudo o que dá lucro - e da permanência na posse do «público» de tudo o que dá prejuízo...
A realidade mostra com frequência a falsidade dessa ideia, mas nunca os tais propagandistas privados reconhecem a realidade.
Vimos, por exemplo, como a comparação «público/privado» foi cuidadosamente ocultada nas muitas noticias sobre os casos BPN e BPP - exemplos bem elucidativos da tão apregoada «excelência do privado»...
E a verdade é que todos os dias nos chegam notícias demonstrativas da incomensurável capacidade do «privado» para angariar lucros, seja à conta de quem trabalha e vive do seu trabalho, seja à conta do «público», isto é, do Estado.
Eis, de entre os casos que vão sendo conhecidos, o mais recente:
a Inspecção-Geral das Actividades em Saúde (IGAS) detectou uma série daquilo a que, delicadamente, chama «irregularidades», ou «divergências» ou «desconformidades», na facturação ao Estado oriunda de «22 unidades convencionadas com o Serviço Nacional de Saúde» (SNS), ou seja clínicas privadas às quais o SNS recorre.
As «iregulariadades, divergências ou desconformidades», segundo a IGAS, são muitas e diversificadas:
serviços cobrados mais do que uma vez;
casos em que, tendo sido prescrito apenas um exame, são feitos (?) e facturados dois;
disparidade de preços que fazem com que, por exemplo, algumas dessas clínicas cobrem 41, 34 euros por um exame que deveria custar, no máximo, 18, 66 euros... enfim, uma infinidade de serviços «mal facturados», que custaram ao Estado uma importância que a IGAS, infelizmente, não quantificou...
Que concluir de tudo isto?
Atenção: nada de conclusões precipitadas.
E tenhamos em conta que, como «esclareceu uma fonte do Ministério da Saúde», trata-se de «erros e não de fraudes»...
Pronto, se assim é não há problema - tanto mais que, como toda a gente sabe, errar é humano...
POEMA
CICLO DO ÁLCOOL
2
A lua batendo nos palmares
tem carícias de sonho
nos olhos de Sam Màrinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
é o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
soluçam as cubatas
batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
os brancos estão fazendo negócios
a golpes de champagne!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
2
A lua batendo nos palmares
tem carícias de sonho
nos olhos de Sam Màrinha.
Silêncio!
O mar batendo nas rochas
é o eco da ilha.
Silêncio!
Lá no longe
soluçam as cubatas
batidas dum luar sem sonho.
Silêncio!
No canto da rua
os brancos estão fazendo negócios
a golpes de champagne!
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
A FAMÍLIA...
A Caixa Geral de Depósitos (CGD), presidida por Faria de Oliveira, propôs o nome de Castro Guerra para chairman, ou seja, director não executivo, da Cimpor.
A proposta foi aceite pelos restantes accionistas da Cimpor.
O PCP protestou, demonstrando inequivocamente que a nomeação de Castro Guerra viola a lei das incompatibilidades, na medida em que o nomeado vai desempenhar funções numa empresa que esteve sob a sua tutela há menos de três anos.
Um deputado comunista levantou a questão na Assembleia da República.
Um deputado do PS encontrou a solução do problema.
E que solução foi essa? anular a nomeação ilegal?
Não: «corrigir a lei»...
Provavelmente, é isso que vai acontecer, com o acordo da Família...
Pode acontecer, até, que a Família nem sinta necessidade de «corrigir a lei» e se limite, pura e simplesmente, a não a cumprir e pronto.
Como é sabido, é grande a experiência da Família nessa matéria: basta olhar para o que tem sido a sua prática ao longo dos últimos 34 anos...
Quando digo Família, falo, obviamente, da família da política de direita, composta pela santíssima trindade PS/PSD/CDS-PP, a qual tem dado provas de incontestável imparcialidade na distribuição de tachos pelos três ramos familiares.
Referindo-me apenas aos dois nomes supra-citados, recordo que Faria de Oliveira, para além de ter sido administrador de um número incontável de grandes empresas públicas e privadas, foi membro de governos presididos por Balsemão/Freitas do Amaral, Soares e Cavaco - e que Castro Guerra, também com vasto currículo empresarial, integrou o governo de Guterres e foi secretário de Estado de Manuel Pinho, no governo Sócrates.
Registe-se, finalmente, o facto de os accionistas da Cimpor (que aceitaram Castro Guerra para chairman da empresa) terem rejeitado a proposta, também apresentada pela CGD, de congelar as remunerações dos administradores da empresa...
Tudo nos conformes, não é verdade?
A proposta foi aceite pelos restantes accionistas da Cimpor.
O PCP protestou, demonstrando inequivocamente que a nomeação de Castro Guerra viola a lei das incompatibilidades, na medida em que o nomeado vai desempenhar funções numa empresa que esteve sob a sua tutela há menos de três anos.
Um deputado comunista levantou a questão na Assembleia da República.
Um deputado do PS encontrou a solução do problema.
E que solução foi essa? anular a nomeação ilegal?
Não: «corrigir a lei»...
Provavelmente, é isso que vai acontecer, com o acordo da Família...
Pode acontecer, até, que a Família nem sinta necessidade de «corrigir a lei» e se limite, pura e simplesmente, a não a cumprir e pronto.
Como é sabido, é grande a experiência da Família nessa matéria: basta olhar para o que tem sido a sua prática ao longo dos últimos 34 anos...
Quando digo Família, falo, obviamente, da família da política de direita, composta pela santíssima trindade PS/PSD/CDS-PP, a qual tem dado provas de incontestável imparcialidade na distribuição de tachos pelos três ramos familiares.
Referindo-me apenas aos dois nomes supra-citados, recordo que Faria de Oliveira, para além de ter sido administrador de um número incontável de grandes empresas públicas e privadas, foi membro de governos presididos por Balsemão/Freitas do Amaral, Soares e Cavaco - e que Castro Guerra, também com vasto currículo empresarial, integrou o governo de Guterres e foi secretário de Estado de Manuel Pinho, no governo Sócrates.
Registe-se, finalmente, o facto de os accionistas da Cimpor (que aceitaram Castro Guerra para chairman da empresa) terem rejeitado a proposta, também apresentada pela CGD, de congelar as remunerações dos administradores da empresa...
Tudo nos conformes, não é verdade?
POEMA
O CICLO DO ÁLCOOL
1
Quando seu Silva Costa
chegou na ilha
trouxe uma garrafa de aguardente
para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
havia tanto calor
que a água
parecia não ter potência
para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
bebeu metade...
E a sua garganta ganhou palavra
para o primeiro comércio...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
1
Quando seu Silva Costa
chegou na ilha
trouxe uma garrafa de aguardente
para o primeiro comércio.
A terra era tão vasta
havia tanto calor
que a água
parecia não ter potência
para acalmar a sede da sua garganta.
Seu Silva Costa
bebeu metade...
E a sua garganta ganhou palavra
para o primeiro comércio...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
VIVA O 1º DE MAIO
Hoje é 1º de Maio.
Por todo o País, os trabalhadores comemoram o seu DIA.
Ao apelo da sua Central Sindical - a CGTP-IN.
Em luta - porque a situação o exige.
Luta pelos seus direitos e interesses. Luta pela democracia. Luta por Abril.
A luta do 1º de Maio de hoje integra todas as lutas de todos os primeiros de Maio que passaram:
- o primeiro, comemorado há 120 anos;
- o 1º de Maio de 1962, o maior de todos ocorrido durante o regime fascista, no decorrer do qual a polícia fascista assassinou, em Lisboa, o jovem operário Estêvão Giro;
- «o primeiro 1º de Maio», o de 74, que foi ponto de partida crucial para a Revolução de Abril;
- o 1º de Maio de 1975, em que os trabalhadores souberam rechaçar a provocação montada e executada por Mário Soares e a sua tropa de choque (provocação repetida em 2009, tendo como provocador de serviço Vital Moreira)
- o 1º de Maio de 1982 em que, no Porto, na sequência de uma provocação montada pelo governo PSD/CDS e pela sua tropa de choque da UGT, a polícia de choque assassinou dois jovens trabalhadores: Pedro Vieira e Mário Gonçalves.
Por tudo isso, a luta do 1º de Maio de hoje será ponto de partida para a luta no futuro imediato: a luta necessária para a ruptura com a política de direita e para a implementação de uma política de esquerda, inspirada nos valores e nos ideais de Abril.
Viva o 1º de Maio!
Por todo o País, os trabalhadores comemoram o seu DIA.
Ao apelo da sua Central Sindical - a CGTP-IN.
Em luta - porque a situação o exige.
Luta pelos seus direitos e interesses. Luta pela democracia. Luta por Abril.
A luta do 1º de Maio de hoje integra todas as lutas de todos os primeiros de Maio que passaram:
- o primeiro, comemorado há 120 anos;
- o 1º de Maio de 1962, o maior de todos ocorrido durante o regime fascista, no decorrer do qual a polícia fascista assassinou, em Lisboa, o jovem operário Estêvão Giro;
- «o primeiro 1º de Maio», o de 74, que foi ponto de partida crucial para a Revolução de Abril;
- o 1º de Maio de 1975, em que os trabalhadores souberam rechaçar a provocação montada e executada por Mário Soares e a sua tropa de choque (provocação repetida em 2009, tendo como provocador de serviço Vital Moreira)
- o 1º de Maio de 1982 em que, no Porto, na sequência de uma provocação montada pelo governo PSD/CDS e pela sua tropa de choque da UGT, a polícia de choque assassinou dois jovens trabalhadores: Pedro Vieira e Mário Gonçalves.
Por tudo isso, a luta do 1º de Maio de hoje será ponto de partida para a luta no futuro imediato: a luta necessária para a ruptura com a política de direita e para a implementação de uma política de esquerda, inspirada nos valores e nos ideais de Abril.
Viva o 1º de Maio!
POEMA
CANÇÃO DO MESTIÇO
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando a cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito um alma grande
uma alma feita de adição
como 1 e 1 são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
- mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
mas eu não me danei...
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!...
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Mestiço!
Nasci do negro e do branco
e quem olhar para mim
é como se olhasse
para um tabuleiro de xadrez:
a vista passando depressa
fica baralhando a cor
no olho alumbrado de quem me vê.
Mestiço!
E tenho no peito um alma grande
uma alma feita de adição
como 1 e 1 são 2.
Foi por isso que um dia
o branco cheio de raiva
contou os dedos das mãos
fez uma tabuada e falou grosso:
- mestiço!
a tua conta está errada.
Teu lugar é ao pé do negro.
Ah!
mas eu não me danei...
e muito calminho
arrepanhei o meu cabelo para trás
fiz saltar fumo do meu cigarro
cantei do alto
a minha gargalhada livre
que encheu o branco de calor!...
Mestiço!
Quando amo a branca
sou branco...
Quando amo a negra
sou negro.
Pois é...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
NÃO HÁ OUTRO CAMINHO
Durante meses, a campanha para a eleição do líder do PSD foi a grande notícia em todos os média (privados e, digamos assim, públicos) - e, naturalmente, o PSD era apresentado como a alternativa ao PS.
Tratou-se de uma poderosa operação de manipulação e falsificação da realidade ao serviço da perpetuação da política de direita que PS e PSD, alternadamente, têm vindo a praticar há 34 anos - uma operação, por isso mesmo, ao serviço da bipolarização do sistema político em torno de PS e PSD.
Depois de eleito, o líder do PSD foi a grande notícia em todos os média (privados e, digamos assim, públicos) - e, naturalmente, o líder foi apresentado como a alternativa a Sócrates no cargo de primeiro-ministro que, alternadamente, tem vindo a ser ocupado, há 34 anos, por dirigentes do PS e do PSD.
O «eleito»e as suas «capacidades» foram projectados às mais elevadas alturas, com todos os média fingindo que não sabiam que a política que ele propõe é exactamente a mesma que PS e PSD, alternadamente, têm vindo a praticar há 34 anos - com esse fingimento propagando a bipolarização PS/PSD.
Esses meses de propaganda desbragada foram, agora, complementados com a inevitável «sondagem de opinião» - que, naturalmente, mostra que o «produto» foi vendido (e comprado...)
«Passos Coelho ultrapassa Sócrates na corrida para primeiro-ministro»: grita o Diário Económico de hoje a toda a largura da sua primeira página.
E apresenta, ainda na primeira página, uma foto de Sócrates/34% e outra de Passos Coelho/40%.
Depois, sempre na primeira página, conclui que «os números da sondagem revelam uma bipolarização do sistema político nacional à volta dos maiores partidos»...
A meu ver, seria errado concluir de tudo isto que o grande capital (proprietário dos média) não quer lá o Sócrates e quer lá o Passos Coelho - aliás, se fosse caso disso, nunca seria por ter perdido a confiança no Sócrates e depositar essa confiança no Passos Coelho, já que, na realidade, o grande capital tem toda a confiança num e no outro - e sabe que seja qual for o que estiver de turno ao governo cumprirá as suas ordens.
Na verdade - e até ver... - esta operação de propaganda cumpriu um objectivo muito caro ao grande capital: espalhar ainda mais a bipolarização espalhando ainda mais a ideia de que o PS e o PSD são alternativa um ao outro e, com isso, procurando garantir, para sempre, o voto maioritário na política de direita - seja ela praticada pelo PS ou pelo PSD.
E não é inocente o facto de a «sondagem» ter sido divulgada na véspera do 1º de Maio...
Face a isto, que fazer?: amanhã, irmos em força ao 1º de Maio; depois de amanhã, continuarmos e intensificarmos a luta de massas.
Não há outro caminho.
Tratou-se de uma poderosa operação de manipulação e falsificação da realidade ao serviço da perpetuação da política de direita que PS e PSD, alternadamente, têm vindo a praticar há 34 anos - uma operação, por isso mesmo, ao serviço da bipolarização do sistema político em torno de PS e PSD.
Depois de eleito, o líder do PSD foi a grande notícia em todos os média (privados e, digamos assim, públicos) - e, naturalmente, o líder foi apresentado como a alternativa a Sócrates no cargo de primeiro-ministro que, alternadamente, tem vindo a ser ocupado, há 34 anos, por dirigentes do PS e do PSD.
O «eleito»e as suas «capacidades» foram projectados às mais elevadas alturas, com todos os média fingindo que não sabiam que a política que ele propõe é exactamente a mesma que PS e PSD, alternadamente, têm vindo a praticar há 34 anos - com esse fingimento propagando a bipolarização PS/PSD.
Esses meses de propaganda desbragada foram, agora, complementados com a inevitável «sondagem de opinião» - que, naturalmente, mostra que o «produto» foi vendido (e comprado...)
«Passos Coelho ultrapassa Sócrates na corrida para primeiro-ministro»: grita o Diário Económico de hoje a toda a largura da sua primeira página.
E apresenta, ainda na primeira página, uma foto de Sócrates/34% e outra de Passos Coelho/40%.
Depois, sempre na primeira página, conclui que «os números da sondagem revelam uma bipolarização do sistema político nacional à volta dos maiores partidos»...
A meu ver, seria errado concluir de tudo isto que o grande capital (proprietário dos média) não quer lá o Sócrates e quer lá o Passos Coelho - aliás, se fosse caso disso, nunca seria por ter perdido a confiança no Sócrates e depositar essa confiança no Passos Coelho, já que, na realidade, o grande capital tem toda a confiança num e no outro - e sabe que seja qual for o que estiver de turno ao governo cumprirá as suas ordens.
Na verdade - e até ver... - esta operação de propaganda cumpriu um objectivo muito caro ao grande capital: espalhar ainda mais a bipolarização espalhando ainda mais a ideia de que o PS e o PSD são alternativa um ao outro e, com isso, procurando garantir, para sempre, o voto maioritário na política de direita - seja ela praticada pelo PS ou pelo PSD.
E não é inocente o facto de a «sondagem» ter sido divulgada na véspera do 1º de Maio...
Face a isto, que fazer?: amanhã, irmos em força ao 1º de Maio; depois de amanhã, continuarmos e intensificarmos a luta de massas.
Não há outro caminho.
POEMA
ROMANCE DE SINHÁ CARLOTA
Na beira do caminho
sinhá Carlota
está pitando no seu cachimbo.
Um círculo da cuspo
a seu lado...
Veio do sul
numa leva de contratados.
Teve filhos negros
que trocam hoje o peixe
por cachaça.
Teve filhos mestiços.
Uns
forros de a. b. c.
perdidos em rixas de navalhas.
Outros foram no norte
com seus pais brancos
e o seu coração
já não lembra o rostinho deles!
Sinhá Carlota
veio há muito do sul
numa leva de contratados.
Assim
embora pra seu branco
o seu corpo não baila mais no sòcòpé
ele ao passar
fica sempre dizendo:
sàbuá?
Sinhá Carlota
nos seus olhos cansados e vermelhos
solta um achô distante
enquanto vai pitando
no seu cachimbo carcomido...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Na beira do caminho
sinhá Carlota
está pitando no seu cachimbo.
Um círculo da cuspo
a seu lado...
Veio do sul
numa leva de contratados.
Teve filhos negros
que trocam hoje o peixe
por cachaça.
Teve filhos mestiços.
Uns
forros de a. b. c.
perdidos em rixas de navalhas.
Outros foram no norte
com seus pais brancos
e o seu coração
já não lembra o rostinho deles!
Sinhá Carlota
veio há muito do sul
numa leva de contratados.
Assim
embora pra seu branco
o seu corpo não baila mais no sòcòpé
ele ao passar
fica sempre dizendo:
sàbuá?
Sinhá Carlota
nos seus olhos cansados e vermelhos
solta um achô distante
enquanto vai pitando
no seu cachimbo carcomido...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
O PRECEITO BÍBLICO
Eufórico, o Diário de Notícias informa que José Eduardo Moniz, ouvido pela ERC, afirmou que o Governo de Santana Lopes «pressionou a TVI para que afastasse o comentador Miguel Sousa Tavares da estação» - era então ministro responsável pela comunicação social o então célebre Rui Gomes da Silva.
Umas linhas adiante, o DN, eufórico - e em prosa cobertura de guerra - lembra que as revelações de Moniz «podem ser hoje utilizadas pelo PS como arma de contra-ataque na Comissão Parlamentar de Inquérito ao negócio PT/TVI».
Mais umas linhas adiante, o DN, sempre eufórico - e sempre com o instinto guerreiro ao rubro - lembra outra vez que, revelando as «alegadas pressões» do PSD, Moniz «deu balas ao PS para se defender».
Quer isto dizer que a batalha naval está para durar.
(A não ser que Sócrates e Passos Coelho tenham assinado um acordo de tréguas que lhes permita, em acção conjugada e combinada, impor o PEC comum aos dois...)
Em todo o caso, no caso em questão há que registar, para já, um empate:
O PS quis correr com a Manuela Moura Guedes, o PSD quis correr com o Miguel Sousa Tavares.
Entretanto, aguardemos para ver de que mais «armas de contra-ataque» e de que mais «balas» vai dispor cada um dos contentores, perdão: contendores.
Por mim, desejo que quanto mais armas e balas, melhor, quer para um, quer para outro.
E desejo que as utilizem, em força, um contra o outro - e o outro contra o um.
Para que se cumpra o conhecido preceito bíblico (naturalmente com as devidas adaptações à situação):
Matai-vos uns aos outros!
Umas linhas adiante, o DN, eufórico - e em prosa cobertura de guerra - lembra que as revelações de Moniz «podem ser hoje utilizadas pelo PS como arma de contra-ataque na Comissão Parlamentar de Inquérito ao negócio PT/TVI».
Mais umas linhas adiante, o DN, sempre eufórico - e sempre com o instinto guerreiro ao rubro - lembra outra vez que, revelando as «alegadas pressões» do PSD, Moniz «deu balas ao PS para se defender».
Quer isto dizer que a batalha naval está para durar.
(A não ser que Sócrates e Passos Coelho tenham assinado um acordo de tréguas que lhes permita, em acção conjugada e combinada, impor o PEC comum aos dois...)
Em todo o caso, no caso em questão há que registar, para já, um empate:
O PS quis correr com a Manuela Moura Guedes, o PSD quis correr com o Miguel Sousa Tavares.
Entretanto, aguardemos para ver de que mais «armas de contra-ataque» e de que mais «balas» vai dispor cada um dos contentores, perdão: contendores.
Por mim, desejo que quanto mais armas e balas, melhor, quer para um, quer para outro.
E desejo que as utilizem, em força, um contra o outro - e o outro contra o um.
Para que se cumpra o conhecido preceito bíblico (naturalmente com as devidas adaptações à situação):
Matai-vos uns aos outros!
POEMA
ROMANCE DE SAM MÀRINHA
Sam Màrinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.
Risadas brancas
e goles de champanhe!
À hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço di seda que importou do Japão!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha à terra.
Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando pra lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
Sam Màrinha
a que menina foi no norte
chegou naquele navio à ilha.
Risadas brancas
e goles de champanhe!
À hora do espalmadoiro
os moços do comércio
passaram de gravatas garridas.
O monhé chegou na porta
e limpou o suor
ao lenço di seda que importou do Japão!
Ai!
Aquela que chegou na ilha
como uma risada branca
está fechando a carinha à terra.
Braços pendentemente tristes
só os olhinhos
estão pulando pra lá da fortaleza
querendo ver a Europa!...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo»)
A PERSONIFICAÇÃO DA IMORALIDADE
Luis Figo vai ficar de fora da investigação sobre o tal negócio dos 750 mil euros, com os quais foi pago a troco de expressar publicamente o seu apoio eleitoral ao PS/Sócrates.
E por que é que o Figo fica de fora da investigação?
Porque, dizem os juízes, Figo ignorava que a Taguspark era uma empresa pública.
Assim, ao velho ditado que nos diz que «o segredo é a alma do negócio», devemos acrescentar, agora: «e a ignorância também»...
Esperemos, agora, que os mesmos juízes que absolveram o vendedor, castiguem severamente o comprador - que sabia o que a Taguspark é.
A não ser que o comprador tenha um daqueles lapsos de memória típicos nestas circunstâncias - o tão recorrente «não me lembro»- e tudo fique em águas de bacalhau.
Se assim for, teremos o já tradicional fim feliz , com um absolvido por não saber, e o outro absolvido por não se lembrar...
O que jamais irá a julgamento - e tem absolvição prévia garantida - é esta prática de compra e venda de apoios eleitorais, tão característica da «democracia» dominante.
Prática imoral?
Sim - mas não mais do que a «democracia» que dela se alimenta e que é a personificação da imoralidade.
E por que é que o Figo fica de fora da investigação?
Porque, dizem os juízes, Figo ignorava que a Taguspark era uma empresa pública.
Assim, ao velho ditado que nos diz que «o segredo é a alma do negócio», devemos acrescentar, agora: «e a ignorância também»...
Esperemos, agora, que os mesmos juízes que absolveram o vendedor, castiguem severamente o comprador - que sabia o que a Taguspark é.
A não ser que o comprador tenha um daqueles lapsos de memória típicos nestas circunstâncias - o tão recorrente «não me lembro»- e tudo fique em águas de bacalhau.
Se assim for, teremos o já tradicional fim feliz , com um absolvido por não saber, e o outro absolvido por não se lembrar...
O que jamais irá a julgamento - e tem absolvição prévia garantida - é esta prática de compra e venda de apoios eleitorais, tão característica da «democracia» dominante.
Prática imoral?
Sim - mas não mais do que a «democracia» que dela se alimenta e que é a personificação da imoralidade.
POEMA
ROMANCE DE SEU SILVA COSTA
«Seu Silva Costa
chegou na ilha...»
Seu Silva Costa
chegou na ilha:
calcinha no fiozinho
dois moeda de ilusão
e vontade de voltar.
Seu Silva Costa
chegou na ilha:
fez comércio di álcool
fez comércio di homem
fez comércio di terra.
Ui!
Seu Silva Costa
virou branco grande:
su calça não é fiozinho
e sus moedas não têm mais ilusão!...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo» - 1942)
«Seu Silva Costa
chegou na ilha...»
Seu Silva Costa
chegou na ilha:
calcinha no fiozinho
dois moeda de ilusão
e vontade de voltar.
Seu Silva Costa
chegou na ilha:
fez comércio di álcool
fez comércio di homem
fez comércio di terra.
Ui!
Seu Silva Costa
virou branco grande:
su calça não é fiozinho
e sus moedas não têm mais ilusão!...
Francisco José Tenreiro
(«Ilha de Nome Santo» - 1942)
OS GOSTOS DE SOARES
Venho lembrar-vos que hoje é terça - dia em que, infalivelmente, Soares se entorna no Diário de Notícias dizendo-nos do que gosta e do que não gosta...
Assim, esta semana,
Soares não gosta das «comissões parlamentares de inquérito que têm sido transmitidas em directo pela televisão».
Porquê?: porque «desprestigiam o Parlamento»; porque «os deputados-inquisidores» são «jovens, portanto, com pouca experiência», e «fazem perguntas com sanha persecutória»...
Soares gosta (muito) do «novo líder do PSD, Passos Coelho».
Porquê?: porque é um rapaz «cheio de lucidez»...
Soares não gosta dos «partidos da esquerda, radical».
Porquê?: porque «reivindicam mais emprego, maiores salários, lutam contra o desemprego, as desigualdades e a pobreza» e exigem «mais dinheiro para a educação, a saúde, as pensões sociais, a justiça e a segurança».
Ora, pergunta Soares, «quem não desejaria tudo isso?».
E continua a perguntar: «mas com que meios» é que se pode fazer tudo isso?
E pergunta ainda: «Fazendo pagar os ricos e as multinacionais?»
E responde que, se assim fosse feito, «rapidamente cairíamos num novo PREC, com as consequências negativas que todos conhecem»...
Soares (diz que) gosta de Abril - diz, mesmo, que o dia 25 de Abril de 1974 foi «o dia decisivo» da sua vida, por isso grita: «viva o 25 de Abril», mas...
Soares gosta mesmo é do «25 de Novembro de 1975, que restituiu a revolução à sua pureza democrática inicial e não foi - ao contrário do que alguns disseram - uma contra-revolução. Longe disso»...
Comentários?: quem quiser que os faça...
Assim, esta semana,
Soares não gosta das «comissões parlamentares de inquérito que têm sido transmitidas em directo pela televisão».
Porquê?: porque «desprestigiam o Parlamento»; porque «os deputados-inquisidores» são «jovens, portanto, com pouca experiência», e «fazem perguntas com sanha persecutória»...
Soares gosta (muito) do «novo líder do PSD, Passos Coelho».
Porquê?: porque é um rapaz «cheio de lucidez»...
Soares não gosta dos «partidos da esquerda, radical».
Porquê?: porque «reivindicam mais emprego, maiores salários, lutam contra o desemprego, as desigualdades e a pobreza» e exigem «mais dinheiro para a educação, a saúde, as pensões sociais, a justiça e a segurança».
Ora, pergunta Soares, «quem não desejaria tudo isso?».
E continua a perguntar: «mas com que meios» é que se pode fazer tudo isso?
E pergunta ainda: «Fazendo pagar os ricos e as multinacionais?»
E responde que, se assim fosse feito, «rapidamente cairíamos num novo PREC, com as consequências negativas que todos conhecem»...
Soares (diz que) gosta de Abril - diz, mesmo, que o dia 25 de Abril de 1974 foi «o dia decisivo» da sua vida, por isso grita: «viva o 25 de Abril», mas...
Soares gosta mesmo é do «25 de Novembro de 1975, que restituiu a revolução à sua pureza democrática inicial e não foi - ao contrário do que alguns disseram - uma contra-revolução. Longe disso»...
Comentários?: quem quiser que os faça...
POEMA
ÁFRICA
África do Congo,
África distante do Congo
distante...
África apertada, cingida,
no périplo do meu abraço:
nó dos meus pulsos
fechando o teu corpo negro
aberto para a minha ânsia.
Descoberta do acaso
das minhas navegações:
África perdida nos «cabarets»
com o teu riso branco de espanto
das civilizações.
Ó minha negra,
escrava humilde e fiel,
encontro do meu destino pirata...
Floresta nunca pisada;
virgindade das florestas virgens rasgada;
rosa desfolhada
como a tua boca no riso branco,
como o teu destino branco
na lotaria da vida.
Cadeia dos meus sentidos,
febre da minha aventura...
Roubei os diamantes do teu seio,
o oiro das tuas pulseiras,
e negociei tudo nas bancas!
Vendi as tuas terras
e os teus rebanhos,
derrubei as tuas florestas
e arrasei as tuas aldeias,
despovoei os teus reinos,
trocei as tuas crenças...
Veneno europeu...
Fiz dos teus filhos escravos
e, senhor do meu destino,
amarrei-te à minha sorte.
Veneno europeu...
Teu corpo de mapas,
neste leito do mundo,
quantas vezes o fiz meu...
Ris com esse riso de cartaz:
branco,
límpido,
fixo.
Ris.
O jazz toca um desses blues
- e o negro do cornetim
rasga o silêncio
com o seu grito de faca.
O eco fica bailando
no teu corpo
como o ramo das palmeiras...
das palmeiras lá do Congo.
O som cavo das marimbas
bate o compasso no fundo da música...
África civilizada,
vestida à moda das nações,
fazendo ouvir nos boulevards
a tua música de recorte primitivo.
Outros batuques distantes,
ouros batuques mais distantes
que me vêm no sangue
- o bater das marimbas foi que o acordou.
A virgem loira desfalece
nos barços de quem dançou.
A saxofone, do espanto
dos teus olhos, se entornou...
E o teu riso de cartaz,
branco
como marfim de amuletos,
brilha nos acordes do piano.
Capa de magazine:
A luz correu no teu corpo
que brilhou como uma lança...
Já não há lanças em África...
dança,
dança...
Já não há lanças em África,
já não há guerra,
já não há guerra...
- batuque de lanças quebradas,
batuques do Congo já não são de guerra!
Batuques de lanças quebradas:
batuques de guerra... não!
Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras...
- Yes, whisky and soda.
Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras:
África da colonização!
Joaquim Namorado
(Com este poema - África - o Cravo de Abril encerra o ciclo dedicado a Joaquim Namorado. Trata-se, como sublinhou Alexandre Pinheiro Torres, de uma composição poética precursora da poesia que Francisco José Tenreiro - natural da ilha de São Tomé - iria publicar no ano seguinte, em Ilha de Nome Santo.
Assim, com África, Namorado abre caminho à poesia protestatária, autóctone, nascida dos próprios espaços das antigas colónias portuguesas, de que Francisco José Tenreiro se tornará o grande arauto.
Pinheiro Torres observa, ainda, que «foi o dinâmico Joaquim Namorado que lhe abriu a porta, sendo de duvidar que sem ele Francisco José Tenreiro tivesse chegado à consciência política e desalienatória que, a breve trecho, viria a alcançar».
Assim sendo, Francisco José Tenreiro é o poeta que se segue.
Começaremos, precisamente, com poemas do seu livro Ilha de Nome Santo - que foi o nono dos dez volumes dessa primeira grande manifestação colectiva do neo-realismo português que foi o «Novo Cancioneiro»)
África do Congo,
África distante do Congo
distante...
África apertada, cingida,
no périplo do meu abraço:
nó dos meus pulsos
fechando o teu corpo negro
aberto para a minha ânsia.
Descoberta do acaso
das minhas navegações:
África perdida nos «cabarets»
com o teu riso branco de espanto
das civilizações.
Ó minha negra,
escrava humilde e fiel,
encontro do meu destino pirata...
Floresta nunca pisada;
virgindade das florestas virgens rasgada;
rosa desfolhada
como a tua boca no riso branco,
como o teu destino branco
na lotaria da vida.
Cadeia dos meus sentidos,
febre da minha aventura...
Roubei os diamantes do teu seio,
o oiro das tuas pulseiras,
e negociei tudo nas bancas!
Vendi as tuas terras
e os teus rebanhos,
derrubei as tuas florestas
e arrasei as tuas aldeias,
despovoei os teus reinos,
trocei as tuas crenças...
Veneno europeu...
Fiz dos teus filhos escravos
e, senhor do meu destino,
amarrei-te à minha sorte.
Veneno europeu...
Teu corpo de mapas,
neste leito do mundo,
quantas vezes o fiz meu...
Ris com esse riso de cartaz:
branco,
límpido,
fixo.
Ris.
O jazz toca um desses blues
- e o negro do cornetim
rasga o silêncio
com o seu grito de faca.
O eco fica bailando
no teu corpo
como o ramo das palmeiras...
das palmeiras lá do Congo.
O som cavo das marimbas
bate o compasso no fundo da música...
África civilizada,
vestida à moda das nações,
fazendo ouvir nos boulevards
a tua música de recorte primitivo.
Outros batuques distantes,
ouros batuques mais distantes
que me vêm no sangue
- o bater das marimbas foi que o acordou.
A virgem loira desfalece
nos barços de quem dançou.
A saxofone, do espanto
dos teus olhos, se entornou...
E o teu riso de cartaz,
branco
como marfim de amuletos,
brilha nos acordes do piano.
Capa de magazine:
A luz correu no teu corpo
que brilhou como uma lança...
Já não há lanças em África...
dança,
dança...
Já não há lanças em África,
já não há guerra,
já não há guerra...
- batuque de lanças quebradas,
batuques do Congo já não são de guerra!
Batuques de lanças quebradas:
batuques de guerra... não!
Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras...
- Yes, whisky and soda.
Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras:
África da colonização!
Joaquim Namorado
(Com este poema - África - o Cravo de Abril encerra o ciclo dedicado a Joaquim Namorado. Trata-se, como sublinhou Alexandre Pinheiro Torres, de uma composição poética precursora da poesia que Francisco José Tenreiro - natural da ilha de São Tomé - iria publicar no ano seguinte, em Ilha de Nome Santo.
Assim, com África, Namorado abre caminho à poesia protestatária, autóctone, nascida dos próprios espaços das antigas colónias portuguesas, de que Francisco José Tenreiro se tornará o grande arauto.
Pinheiro Torres observa, ainda, que «foi o dinâmico Joaquim Namorado que lhe abriu a porta, sendo de duvidar que sem ele Francisco José Tenreiro tivesse chegado à consciência política e desalienatória que, a breve trecho, viria a alcançar».
Assim sendo, Francisco José Tenreiro é o poeta que se segue.
Começaremos, precisamente, com poemas do seu livro Ilha de Nome Santo - que foi o nono dos dez volumes dessa primeira grande manifestação colectiva do neo-realismo português que foi o «Novo Cancioneiro»)
NÃO PASSARÃO!
Não surpreende - mas exige registo - a forma como os jornais diários - todos! - maltrataram as comemorações populares do 25 de Abril, silenciando ou menorizando a sua dimensão e o seu significado.
Não surpreende, porque para os donos dos ditos jornais Abril é ainda hoje um pesadelo...
Exige registo... para ficar registado.
Também quanto ao espaço e à relevância dados às «comemorações oficiais», os ditos jornais cumpriram as ordens dos donos.
O destaque maior foi, naturalmente, para o discurso de Cavaco Silva - destaque merecido tendo em conta que se trata de pessoa pouco dada a Abril e que, enquanto primeiro-ministro, não se poupou a esforços para fechar a cadeado todas as portas que Abril abriu.
Destaque igualmente merecido foi o que os referidos jornais deram às «comemorações» protagonizadas pelos deputados dos partidos da política de direita, os quais - tendo como preocupação primeira erradicar da vida nacional tudo o que cheire a Cravos - aproveitaram o 25 de Abril para lançar o seu grito de guerra contra o que de Abril ainda resta na Constituição.
A este aparato «comemorativo», teremos que responder com a intensificação da luta, única forma de os vencer.
E venceremos.
Não passarão!
Não surpreende, porque para os donos dos ditos jornais Abril é ainda hoje um pesadelo...
Exige registo... para ficar registado.
Também quanto ao espaço e à relevância dados às «comemorações oficiais», os ditos jornais cumpriram as ordens dos donos.
O destaque maior foi, naturalmente, para o discurso de Cavaco Silva - destaque merecido tendo em conta que se trata de pessoa pouco dada a Abril e que, enquanto primeiro-ministro, não se poupou a esforços para fechar a cadeado todas as portas que Abril abriu.
Destaque igualmente merecido foi o que os referidos jornais deram às «comemorações» protagonizadas pelos deputados dos partidos da política de direita, os quais - tendo como preocupação primeira erradicar da vida nacional tudo o que cheire a Cravos - aproveitaram o 25 de Abril para lançar o seu grito de guerra contra o que de Abril ainda resta na Constituição.
A este aparato «comemorativo», teremos que responder com a intensificação da luta, única forma de os vencer.
E venceremos.
Não passarão!
POEMA
PORT-WINE
O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.
O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos do cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos..
Em Londres, os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.
O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
liberta-te, meu povo! - ou morre.
Joaquim Namorado
(«A Poesia Necessária»)
O Douro é um rio de vinho
que tem a foz em Liverpool e em Londres
e em Nova Iorque e no Rio e em Buenos Aires:
quando chega ao mar vai nos navios,
cria seus lodos em garrafeiras velhas,
desemboca nos clubes e nos bares.
O Douro é um rio de barcos
onde remam os barqueiros suas desgraças,
primeiro se afundam em terra as suas vidas
que no rio se afundam as barcaças.
Nas sobremesas finas as garrafas
assemelham cristais cheios de rubis,
em Cape-Town, em Sidney, em Paris,
tem um sabor generoso e fino
o sangue que dos cais exportamos em barris.
As margens do Douro são penedos
fecundados de sangue e amarguras
onde cava o meu povo as vinhas
como quem abre as próprias sepulturas:
nos entrepostos do cais, em armazéns,
comerciantes trocam por esterlino
o vinho que é o sangue dos seus corpos,
moeda pobre que são os seus destinos..
Em Londres, os lords e em Paris os snobs,
no Cabo e no Rio os fazendeiros ricos
acham no Porto um sabor divino,
mas a nós só nos sabe, só nos sabe,
à tristeza infinita de um destino.
O rio Douro é um rio de sangue,
por onde o sangue do meu povo corre.
Meu povo, liberta-te, liberta-te!,
liberta-te, meu povo! - ou morre.
Joaquim Namorado
(«A Poesia Necessária»)
POR ABRIL DE NOVO
Foi assim - com notável sensibilidade poética e política e numa síntese luminar - que o POETA DA REVOLUÇÃO nos contou/cantou o derrubamento do governo fascista no dia 25 de Abril de 1974:
«Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão»
Em quatro versos, o Zé Carlos assinalava o Dia da Liberdade, erguido pelos heróicos Capitães de Abril e situava o início da construção desse Dia na longa, difícil e heróica caminhada de resistência ao fascismo.
Ao derrubamento do governo fascista, seguiu-se o derrubamento do regime fascista, num impetuoso processo revolucionário em que o MFA e o Movimento Operário e Popular, em aliança decisiva, construíram a democracia mais avançada e mais participada alguma vez existente em Portugal e que a Constituição de Abril viria a consagrar.
Foi o tempo das grandes e profundas transformações económicas, políticas, sociais e culturais; da assunção clara da independência e da soberania nacional; da afirmação inequívoca dos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo.
Foi o tempo dos governos provisórios presididos por essa figura maior da Revolução que foi Vasco Gonçalves - militar de Abril, soldado do Povo, Companheiro Vasco.
Foi o tempo que ficará assinalado como o tempo mais luminoso da história de Portugal.
Foi o tempo que, mostrando-nos um pedacinho do futuro pelo qual lutamos, nos mostrou que esse futuro é possível - e que nos mostra, hoje, após 34 anos de contra-revolução, que lutando venceremos.
Por todo o País comemora-se, hoje, em milhares de iniciativas do mais diverso tipo, o 36º aniversário desse Dia que foi ponto de chegada de meio século de resistência e ponto de partida para o futuro.
E é preciso que cada um desses actos comemorativos seja um acto de luta por Abril - por Abril de novo.
Se assim fizermos, «isto vai, meus amigos, isto vai».
«Quem o fez era soldado
homem novo capitão
mas também tinha a seu lado
muitos homens na prisão»
Em quatro versos, o Zé Carlos assinalava o Dia da Liberdade, erguido pelos heróicos Capitães de Abril e situava o início da construção desse Dia na longa, difícil e heróica caminhada de resistência ao fascismo.
Ao derrubamento do governo fascista, seguiu-se o derrubamento do regime fascista, num impetuoso processo revolucionário em que o MFA e o Movimento Operário e Popular, em aliança decisiva, construíram a democracia mais avançada e mais participada alguma vez existente em Portugal e que a Constituição de Abril viria a consagrar.
Foi o tempo das grandes e profundas transformações económicas, políticas, sociais e culturais; da assunção clara da independência e da soberania nacional; da afirmação inequívoca dos interesses e direitos dos trabalhadores e do povo.
Foi o tempo dos governos provisórios presididos por essa figura maior da Revolução que foi Vasco Gonçalves - militar de Abril, soldado do Povo, Companheiro Vasco.
Foi o tempo que ficará assinalado como o tempo mais luminoso da história de Portugal.
Foi o tempo que, mostrando-nos um pedacinho do futuro pelo qual lutamos, nos mostrou que esse futuro é possível - e que nos mostra, hoje, após 34 anos de contra-revolução, que lutando venceremos.
Por todo o País comemora-se, hoje, em milhares de iniciativas do mais diverso tipo, o 36º aniversário desse Dia que foi ponto de chegada de meio século de resistência e ponto de partida para o futuro.
E é preciso que cada um desses actos comemorativos seja um acto de luta por Abril - por Abril de novo.
Se assim fizermos, «isto vai, meus amigos, isto vai».
POEMA
A MÁQUINA DE FAZER NOTAS FALSAS
A máquina de fazer notas falsas
era uma máquina tão falsa
que nem notas fazia...
Mas trabalhava perfeito...
dentre dois rolos saíam,
em vez de notas de mil,
folhas de velhos jornais
Com notícias falsas.
Joaquim Namorado
(«A Poesia Necessária»)
A máquina de fazer notas falsas
era uma máquina tão falsa
que nem notas fazia...
Mas trabalhava perfeito...
dentre dois rolos saíam,
em vez de notas de mil,
folhas de velhos jornais
Com notícias falsas.
Joaquim Namorado
(«A Poesia Necessária»)
POR QUE SERÁ?...
O problema do pagamento das viagens de avião Paris/Lisboa/Paris da deputada Inês de Medeiros está finalmente resolvido: o Parlamento paga.
Entretanto, o Correio da Manhã divulgou mais dados relacionados com o caso: ao que parece tudo começou em... Rui Pedro Soares - sempre ele!...
Foi assim, mais coisa menos coisa:
- Rui Pedro Soares era dono de uma revista onde Inês de Medeiros colaborava (e, naturalmente, era paga pela colaboração);
- O dono da revista e a colaboradora falavam de vez em quando (talvez almoçassem, até, nos dias em que Rui Pedro Soares não almoçava com Mário Lino - isto digo eu...);
- A dada altura, Rui Pedro Soares, na sua actividade de caçador de votos, convidou Inês de Medeiros para ser mandatária de Vital Moreira nas europeias;
- Inês de Medeiros disse... que sim, mas que também..., isto é: disse que o que queria mesmo-mesmo-mesmo era ser candidata a eurodeputada...
- Fechado o contrato, Inês foi mandatária de Vital e, uns meses depois, foi candidata à Assembleia da República e foi eleita. Com viagens pagas Paris/Lisboa/Paris. Em 1ªclasse.
Rui Pedro Soares nega estes factos.
Inês de Medeiros também.
Curiosamente, em matéria de conversas com Rui Pedro Soares, Inês de Medeiros diz mais ou menos o mesmo que o Mário Lino disse:
«O Rui Pedro Soares nunca falou comigo em nada que tivesse a ver com candidaturas ou campanhas eleitorais» - ou seja: conversaram, sim, mas sobre... futebol e vida privada...
Por outro lado, «uma fonte do PS» disse assim ao Correio da Manhã:
«Efectivamente, ela (Inês) tinha intenção de ser candidata a eurodeputada. Mas isso não avançou porque ela não tinha forte proximidade ao partido. Inês de Medeiros chegou a mandatária de Vital Moreira através de contacto feito por Rui Pedro Soares».
Tudo isto me faz lembrar um figo... perdão: um filme já visto...
Por que será?
Entretanto, o Correio da Manhã divulgou mais dados relacionados com o caso: ao que parece tudo começou em... Rui Pedro Soares - sempre ele!...
Foi assim, mais coisa menos coisa:
- Rui Pedro Soares era dono de uma revista onde Inês de Medeiros colaborava (e, naturalmente, era paga pela colaboração);
- O dono da revista e a colaboradora falavam de vez em quando (talvez almoçassem, até, nos dias em que Rui Pedro Soares não almoçava com Mário Lino - isto digo eu...);
- A dada altura, Rui Pedro Soares, na sua actividade de caçador de votos, convidou Inês de Medeiros para ser mandatária de Vital Moreira nas europeias;
- Inês de Medeiros disse... que sim, mas que também..., isto é: disse que o que queria mesmo-mesmo-mesmo era ser candidata a eurodeputada...
- Fechado o contrato, Inês foi mandatária de Vital e, uns meses depois, foi candidata à Assembleia da República e foi eleita. Com viagens pagas Paris/Lisboa/Paris. Em 1ªclasse.
Rui Pedro Soares nega estes factos.
Inês de Medeiros também.
Curiosamente, em matéria de conversas com Rui Pedro Soares, Inês de Medeiros diz mais ou menos o mesmo que o Mário Lino disse:
«O Rui Pedro Soares nunca falou comigo em nada que tivesse a ver com candidaturas ou campanhas eleitorais» - ou seja: conversaram, sim, mas sobre... futebol e vida privada...
Por outro lado, «uma fonte do PS» disse assim ao Correio da Manhã:
«Efectivamente, ela (Inês) tinha intenção de ser candidata a eurodeputada. Mas isso não avançou porque ela não tinha forte proximidade ao partido. Inês de Medeiros chegou a mandatária de Vital Moreira através de contacto feito por Rui Pedro Soares».
Tudo isto me faz lembrar um figo... perdão: um filme já visto...
Por que será?
POEMA
ROMANCE DE FEDERICO
I
Num pueblo de Espanha
la Barraca se levanta:
Num pueblo de Espanha,
numa praça de Castela...
Mas não se ouvem poemas,
nem guitarras, nem canções
- que la Barraca é deserta...
Morreram vozes e risos
(no chão, com as folhas arrancadas,
D. Quijote de Cervantes)
e calaram-se as canções,
geladas no oiro frio
das cordas dos violões
- que la Barraca está deserta
como uma alma... deserta.
Correi ventos de Espanha!
Chamai vozes de Espanha!
Mirad olhos de Espanha!
- Aonde está Federico?
Chorai corações de Espanha!
- No acampamento cigano
uma virgem desmaiou:
romance da «pena negra»
a feiticeira agoirou.
Romance da «pena negra»,
romance da negra sorte,
com uma bala na fronte
e outra no coração
morto para sempre ficou...
(No veludo dos estojos,
as cordas da guitarras estalaram
com um ai grave e profundo...)
as mãos estendidas, sem raiva,
os olhos cheios de terra,
morto ficou.
Chorai corações de Espanha!
Com os olhos cheios de terra,
sob o céu de su Granada,
morto ficou...
Cavalos negros da noite
encobriram as estrelas.
De Cádis até Navarra,
de Badajoz ao Levante.
II
A noite desceu sobre o corpo da Espanha.
A noite das águias carniceiras
desceu sobre o corpo da Espanha...
Ferem o chão fúrias soltas
- ruínas foram cidades e vilas,
escolas, lares, catedrais;
incêndios foram celeiros e searas;
ódio foi amor,
lágrimas foram riso...
A noite poisou seus dedos de treva
no coração da Espanha...
Espanha,
em teus braços de Mãe,
em teus braços de terra,
apodrecem os corpos
de teus filhos inocentes...
Espanha,
na sombra que desceu
as feridas dos cadáveres abrem-se
como flores roxas de agonia...
Espanha,
noites de serenata,
sob os balcões floridos, nunca mais:
que os corações não batem já para o amor,
só para o aço dos punhais...
Espanha,
Carmen, cigana,
corpo de bronze, olhos de lume,
não mais amante...
Espanha,
na noite das catedrais,
correm lágrimas de marfim
pelas faces dos crucificados
- na tua face
são de sangue, Espanha!
Espanha,
no silêncio das catedrais
sorrisos seráficos da Virgem
- na tua boca
sangue e fel, Espanha!
Joaquim Namorado
I
Num pueblo de Espanha
la Barraca se levanta:
Num pueblo de Espanha,
numa praça de Castela...
Mas não se ouvem poemas,
nem guitarras, nem canções
- que la Barraca é deserta...
Morreram vozes e risos
(no chão, com as folhas arrancadas,
D. Quijote de Cervantes)
e calaram-se as canções,
geladas no oiro frio
das cordas dos violões
- que la Barraca está deserta
como uma alma... deserta.
Correi ventos de Espanha!
Chamai vozes de Espanha!
Mirad olhos de Espanha!
- Aonde está Federico?
Chorai corações de Espanha!
- No acampamento cigano
uma virgem desmaiou:
romance da «pena negra»
a feiticeira agoirou.
Romance da «pena negra»,
romance da negra sorte,
com uma bala na fronte
e outra no coração
morto para sempre ficou...
(No veludo dos estojos,
as cordas da guitarras estalaram
com um ai grave e profundo...)
as mãos estendidas, sem raiva,
os olhos cheios de terra,
morto ficou.
Chorai corações de Espanha!
Com os olhos cheios de terra,
sob o céu de su Granada,
morto ficou...
Cavalos negros da noite
encobriram as estrelas.
De Cádis até Navarra,
de Badajoz ao Levante.
II
A noite desceu sobre o corpo da Espanha.
A noite das águias carniceiras
desceu sobre o corpo da Espanha...
Ferem o chão fúrias soltas
- ruínas foram cidades e vilas,
escolas, lares, catedrais;
incêndios foram celeiros e searas;
ódio foi amor,
lágrimas foram riso...
A noite poisou seus dedos de treva
no coração da Espanha...
Espanha,
em teus braços de Mãe,
em teus braços de terra,
apodrecem os corpos
de teus filhos inocentes...
Espanha,
na sombra que desceu
as feridas dos cadáveres abrem-se
como flores roxas de agonia...
Espanha,
noites de serenata,
sob os balcões floridos, nunca mais:
que os corações não batem já para o amor,
só para o aço dos punhais...
Espanha,
Carmen, cigana,
corpo de bronze, olhos de lume,
não mais amante...
Espanha,
na noite das catedrais,
correm lágrimas de marfim
pelas faces dos crucificados
- na tua face
são de sangue, Espanha!
Espanha,
no silêncio das catedrais
sorrisos seráficos da Virgem
- na tua boca
sangue e fel, Espanha!
Joaquim Namorado
VERDADE? MENTIRA?
O ex-ministro das Obras Públicas, Mário Lino, foi ouvido na comissão parlamentar de inquérito ao processo Face Oculta.
Ali, jurou nunca ter falado com Rui Pedro Soares - o «boy de Sócrates» - sobre assuntos da PT.
Fê-lo naquele tom categórico e definitivo que lhe é característico, como se dissesse: jamé!...
É verdade que - confessou - tem relações de amizade com Rui Pedro Soares.
É verdade que - confessou - de vez em quando Rui Pedro Soares passava lá pelo ministério para o cumprimentar.
É verdade que - confessou - de vez em quando iam os dois almoçar.
É verdade que - confessou - tinham longas conversas.
E, provavelmente farto de dizer verdades, concluiu assim: «as nossas conversas eram sobre futebol e assuntos privados. Nunca sobre a PT».
Foi talvez a pensar nisto tudo que Máximo Gorki escreveu: «Por vezes, a mentira exprime melhor do que a verdade aquilo que se passa na alma»...
Ali, jurou nunca ter falado com Rui Pedro Soares - o «boy de Sócrates» - sobre assuntos da PT.
Fê-lo naquele tom categórico e definitivo que lhe é característico, como se dissesse: jamé!...
É verdade que - confessou - tem relações de amizade com Rui Pedro Soares.
É verdade que - confessou - de vez em quando Rui Pedro Soares passava lá pelo ministério para o cumprimentar.
É verdade que - confessou - de vez em quando iam os dois almoçar.
É verdade que - confessou - tinham longas conversas.
E, provavelmente farto de dizer verdades, concluiu assim: «as nossas conversas eram sobre futebol e assuntos privados. Nunca sobre a PT».
Foi talvez a pensar nisto tudo que Máximo Gorki escreveu: «Por vezes, a mentira exprime melhor do que a verdade aquilo que se passa na alma»...
POEMA
O ANDAIME
O andaime era alto,
alto...
(e uma viga estava mal segura...)
Os ladrilhos vermelhos
saltavam de mão em mão
como peixes voadores...;
os aprendizes traziam e levavam
taboleiros de cal;
e os muros cresciam
e abriam-se janelas
e os andares subiam.
O andaime era cada vez mais alto,
mais alto...
(e aquela viga estava mal segura...)
Os operários cantavam - o ritmo dos braços,
o bater dos martelos, era o ritmo da canção
- cantavam e riam...
Em volta, a Natureza representava a comédia
da mais inteira confiança:
o sol baixava num céu calmo, infinitamente azul,
um céu de charco;
da rua subia o marasmo destas horas
em que os burgueses dormem a sesta
e as moscas zumbem nas vitrines;
a canção era a mesma de sempre:
o mesmo bater dos martelos que enchia o silêncio;
um bando de pombas viera poisar,
confiadamente,
no cimo alto das estacas...
(e uma viga estava mal segura...)
Os operários cantavam,
cantavam e riam;
nada lhes dizia
da ameaça que pesava
- em toda a parte a traição do encoberto...
E o andaime era alto...
tão alto que,
quando ele caiu, como uma ave ferida,
o seu corpo ficou desenhado a sangue na calçada,
que era um outro santo-sudário.
Então a canção parou em todas as bocas
e mais as roldanas e o bater dos martelos;
por um momento
tudo parou em redor do mesmo espanto.
Mas a vida continuou
e a Natureza afivelou de novo
a máscara da cega confiança.
- Depois levaram o corpo para a morgue
e lavaram com baldes de água
o sangue
que secara na calçada e tinha
um aspecto repugnante.
A casa é alta,
alta...
tem ascensor, água encanada e uma mercearia
no rés-do-chão;
as andorinhas fizeram ninhos nos beirais;
das varandas debruçam-se cravos e malvas;
uma toalha que enxuga numa janela
é uma bandeira de paz;
a menina loira, do terceiro andar, esquerdo,
namora e vai casar...
Todos os dias
vem um caos destes nos jornais...
Joaquim Namorado
(«Arquitectura»)
O andaime era alto,
alto...
(e uma viga estava mal segura...)
Os ladrilhos vermelhos
saltavam de mão em mão
como peixes voadores...;
os aprendizes traziam e levavam
taboleiros de cal;
e os muros cresciam
e abriam-se janelas
e os andares subiam.
O andaime era cada vez mais alto,
mais alto...
(e aquela viga estava mal segura...)
Os operários cantavam - o ritmo dos braços,
o bater dos martelos, era o ritmo da canção
- cantavam e riam...
Em volta, a Natureza representava a comédia
da mais inteira confiança:
o sol baixava num céu calmo, infinitamente azul,
um céu de charco;
da rua subia o marasmo destas horas
em que os burgueses dormem a sesta
e as moscas zumbem nas vitrines;
a canção era a mesma de sempre:
o mesmo bater dos martelos que enchia o silêncio;
um bando de pombas viera poisar,
confiadamente,
no cimo alto das estacas...
(e uma viga estava mal segura...)
Os operários cantavam,
cantavam e riam;
nada lhes dizia
da ameaça que pesava
- em toda a parte a traição do encoberto...
E o andaime era alto...
tão alto que,
quando ele caiu, como uma ave ferida,
o seu corpo ficou desenhado a sangue na calçada,
que era um outro santo-sudário.
Então a canção parou em todas as bocas
e mais as roldanas e o bater dos martelos;
por um momento
tudo parou em redor do mesmo espanto.
Mas a vida continuou
e a Natureza afivelou de novo
a máscara da cega confiança.
- Depois levaram o corpo para a morgue
e lavaram com baldes de água
o sangue
que secara na calçada e tinha
um aspecto repugnante.
A casa é alta,
alta...
tem ascensor, água encanada e uma mercearia
no rés-do-chão;
as andorinhas fizeram ninhos nos beirais;
das varandas debruçam-se cravos e malvas;
uma toalha que enxuga numa janela
é uma bandeira de paz;
a menina loira, do terceiro andar, esquerdo,
namora e vai casar...
Todos os dias
vem um caos destes nos jornais...
Joaquim Namorado
(«Arquitectura»)
«NOVAS FORMAS DE FAZER POLÍTICA»
O Público de hoje fala-nos de uma «Declaração Política» aprovada e divulgada no sábado passado, em Almeirim - terra da afamada sopa da pedra - por uma associação denominada «Movimento Nacional Esquerda» (MNE).
Se a memória me não falha, este MNE - que se diz portador de novas formas de fazer política com vista à sua dignificação e reabilitação - foi criado há uns meses por iniciativa de um grupo de ex-membros do PS e ex-apoiantes de Manuel Alegre (do qual se desligaram pelo facto de Alegre não se ter desligado do PS).
Segundo o Público, na declaração agora aprovada o MNE (surfando na onda propagandística que, com intuitos óbvios, visa identificar PCP e BE...) afirma «partilhar os mesmos ideais de justiça e de distribuição equitativa da riqueza característicos do PCP e do Bloco de Esquerda».
No entanto, o MNE diz discordar destes dois partidos em questões de fundo: não acredita que «as metas políticas e os ideais de esquerda possam ser alcançados através de um partido único, de um Estado centralizado e de uma economia estatizada».
«Partido único»?, «Estado centralizado»?, «economia estatizada»?: é evidente que, recorrendo a estes três «exemplos», o MNE, não está a falar do BE mas sim das patranhas que sobre o PCP são divulgadas (o que só confirma a falsidade da onda propagandística acima referida...).
Mas pior do que isso é o facto de o MNE atribuir ao PCP ideias e opiniões que este de todo não tem, mas que lhe são atribuídas no âmbito da ofensiva ideológica que os média dominantes todos os dias disparam contra os comunistas.
Se o MNE quisesse saber quais são, em verdade, as posições do PCP nessas matérias, bastar-lhe-ia, em vez de beber desinformação nos média do grande capital, procurar informar-se na fonte...
Se assim fizesse ficaria a saber que o PCP defende, de facto, a livre criação de partidos políticos, o pluralismo partidário - e que o faz, na teoria e na prática, desde o tempo em que o PCP era o único partido a combater o partido único fascista...
Ficaria a saber, também, que o PCP sempre defendeu - e defende - na teoria e na prática, um Estado democrático, representativo, participado, eficiente e moderno.
Ficaria a saber, ainda, que o PCP defende - e sempre defendeu - uma organização económica mista composta por um sector empresarial do Estado, um sector privado e um sector cooperativo.
E é claro que, ficando a saber tudo isso - ou seja, a verdade - o MNE não teria escrito o que escreveu. Ou teria?...
A verdade é que estas «novas formas de fazer política» revelam-se sempre mais velhas do que o obrar de cócoras...
Se a memória me não falha, este MNE - que se diz portador de novas formas de fazer política com vista à sua dignificação e reabilitação - foi criado há uns meses por iniciativa de um grupo de ex-membros do PS e ex-apoiantes de Manuel Alegre (do qual se desligaram pelo facto de Alegre não se ter desligado do PS).
Segundo o Público, na declaração agora aprovada o MNE (surfando na onda propagandística que, com intuitos óbvios, visa identificar PCP e BE...) afirma «partilhar os mesmos ideais de justiça e de distribuição equitativa da riqueza característicos do PCP e do Bloco de Esquerda».
No entanto, o MNE diz discordar destes dois partidos em questões de fundo: não acredita que «as metas políticas e os ideais de esquerda possam ser alcançados através de um partido único, de um Estado centralizado e de uma economia estatizada».
«Partido único»?, «Estado centralizado»?, «economia estatizada»?: é evidente que, recorrendo a estes três «exemplos», o MNE, não está a falar do BE mas sim das patranhas que sobre o PCP são divulgadas (o que só confirma a falsidade da onda propagandística acima referida...).
Mas pior do que isso é o facto de o MNE atribuir ao PCP ideias e opiniões que este de todo não tem, mas que lhe são atribuídas no âmbito da ofensiva ideológica que os média dominantes todos os dias disparam contra os comunistas.
Se o MNE quisesse saber quais são, em verdade, as posições do PCP nessas matérias, bastar-lhe-ia, em vez de beber desinformação nos média do grande capital, procurar informar-se na fonte...
Se assim fizesse ficaria a saber que o PCP defende, de facto, a livre criação de partidos políticos, o pluralismo partidário - e que o faz, na teoria e na prática, desde o tempo em que o PCP era o único partido a combater o partido único fascista...
Ficaria a saber, também, que o PCP sempre defendeu - e defende - na teoria e na prática, um Estado democrático, representativo, participado, eficiente e moderno.
Ficaria a saber, ainda, que o PCP defende - e sempre defendeu - uma organização económica mista composta por um sector empresarial do Estado, um sector privado e um sector cooperativo.
E é claro que, ficando a saber tudo isso - ou seja, a verdade - o MNE não teria escrito o que escreveu. Ou teria?...
A verdade é que estas «novas formas de fazer política» revelam-se sempre mais velhas do que o obrar de cócoras...
POEMA
FÁBRICA
Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto frio e liso dos metais,
a segura confiança
do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:
é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento,
como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.
Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;
as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.
Joaquim Namorado
(«Arquitectura»)
Oh, a poesia de tudo o que é geométrico
e perfeito,
a beleza nova dos maquinismos,
a força secreta das peças
sob o contacto frio e liso dos metais,
a segura confiança
do saber-se que é assim e assim exactamente,
sem lugar a enganos,
tudo matemático e harmónico,
sem nenhum imprevisto, sem nenhuma aventura,
como na cabeça do engenheiro.
Os operários têm nos músculos, de cor,
os movimentos dia a dia repetidos:
é como se fossem da sua natureza,
longe de toda a vontade e de todo o pensamento,
como se os metais fossem carne do corpo
e as veias se abrissem
àquela vida estranha, dura, implacável
das máquinas.
Os motores de tantos mil cavalos
alinhados e seguros de si,
seguros do seu poder;
as articulações subtis das bielas,
o enlace justo das engrenagens:
a fábrica, todo um imenso corpo de movimentos
concordantes, dependentes, necessários.
Joaquim Namorado
(«Arquitectura»)
TÃO LONGE DE ABRIL!
Assim agem os governantes da política de direita:
estamos a 20 de Abril e a imensa maioria (64, 7%) dos trabalhadores desempregados ainda não recebeu o subsídio de desemprego relativo ao mês de Março.
Dito de outra forma: cerca de 360 mil trabalhadores aguardam o subsídio de desemprego a que têm direito e que é, nas circunstâncias actuais, a principal (ou a única) fonte de rendimento para si e para as suas famílias.
Não é difícil imaginar os problemas e os dramas vividos por esses trabalhadores que assim vêem juntar-se ao flagelo do desemprego a nova e brutal penalização do atraso do pagamento do respectivo subsídio.
Assim falam os governantes da política de direita:
sobre esta situação, diz a ministra do (digamos assim) Trabalho que não há razão para alarmes: tudo se deve a um simples «erro informático» que um dia destes será corrigido...
Além disso, acrescenta a ministra - que tem emprego com salário elevado e pago a tempo e horas - não há razão para protestos porque «não há uma data fixa obrigatória para pagar o subsídio» - ou seja: o subsídio tanto pode ser pago esta semana ou este mês como na semana ou no mês que vem...
O caso em si e as explicações da ministra são bem o exemplo do estado a que chegou o governo PS/Sócrates - e de como ele está cada vez mais longe de Abril e cada vez mais próximo do tempo que Abril venceu.
estamos a 20 de Abril e a imensa maioria (64, 7%) dos trabalhadores desempregados ainda não recebeu o subsídio de desemprego relativo ao mês de Março.
Dito de outra forma: cerca de 360 mil trabalhadores aguardam o subsídio de desemprego a que têm direito e que é, nas circunstâncias actuais, a principal (ou a única) fonte de rendimento para si e para as suas famílias.
Não é difícil imaginar os problemas e os dramas vividos por esses trabalhadores que assim vêem juntar-se ao flagelo do desemprego a nova e brutal penalização do atraso do pagamento do respectivo subsídio.
Assim falam os governantes da política de direita:
sobre esta situação, diz a ministra do (digamos assim) Trabalho que não há razão para alarmes: tudo se deve a um simples «erro informático» que um dia destes será corrigido...
Além disso, acrescenta a ministra - que tem emprego com salário elevado e pago a tempo e horas - não há razão para protestos porque «não há uma data fixa obrigatória para pagar o subsídio» - ou seja: o subsídio tanto pode ser pago esta semana ou este mês como na semana ou no mês que vem...
O caso em si e as explicações da ministra são bem o exemplo do estado a que chegou o governo PS/Sócrates - e de como ele está cada vez mais longe de Abril e cada vez mais próximo do tempo que Abril venceu.
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