FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA
Aqui, na Terra, a fome continua,
a miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
e dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
e também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
de mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
as vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
onde come, brincando, só a fome,
só a fome, astronauta, só a fome,
e são brinquedos as bombas de napalme.
José Saramago
A «INTEGRIDADE» É QUE ESTÁ A DAR
Nas eleições presidenciais, Cavaco Silva é o candidato do grande capital.
O grande capital é, também, proprietário dos média dominantes.
Logo, os média dominantes tratam Cavaco Silva como o candidato dos seus patrões.
É certo que qualquer dos restantes candidatos - à excepção de Francisco Lopes - podia ser o candidato do grande capital.
Mas nas circunstâncias actuais, e por razões óbvias, Cavaco foi o escolhido.
Os média, obedientes e diligentes, seguem à risca a voz do dono: para eles, Cavaco é, desde já, «o vencedor», e é «o mestre», e é «o professor» - é, enfim, «o maior».
E não importa se têm que mentir - e têm; se têm que desinformar - e têm; se têm que ocultar a verdade - e têm.
A «imagem» do «vencedor», do «mestre», do «professor» - enfim, do «maior», essa é que conta, essa é que é a «verdade»...
O caso do BPN perturbou Cavaco - e perturbou, por arrasto, os média.
Daí a azáfama em que andam, todos: uns, procurando riscar esse tema da agenda eleitoral; outros, mais ousados, procurando transformá-lo em factor favorável ao candidato Cavaco.
E para isso não olham a meios...
Assim, pela leitura dos jornais de hoje, fiquei a «saber» que «o caso BPN surgiu na campanha das presidenciais lançado, primeiro, por Defensor de Moura e, depois, por Manuel Alegre, nos debates televisivos com Cavaco Silva»...
Vejam bem!: julgava eu que fora Francisco Lopes o primeiro a colocar a questão e, por sinal, a pôr Cavaco KO...
Mas estava enganado, pronto: os «politólogos» dizem que não e os «politólogos» é que sabem...
E sobre as consequências do caso BPN nos resultados eleitorais?
Sobre isso, os «politólogos» dizem, em coro afinado, que o caso «não tira votos a Cavaco».
Porquê?
Os «politólogos» explicam:
em primeiro lugar, porque «o tema BPN é demasiado técnico».
Claro que é: imagine-se a técnica a que os favoritos de Cavaco tiveram que recorrer para concretizar todas aquelas fraudes, vigarices, golpes e golpaças!...
em segundo lugar, porque «o caso BPN não põe em causa a integridade do Presidente da República».
Claro que não: quer o estreito e amigável relacionamento do PR com os autores da fraude, quer o negócio das (boas) acções da SLN, não só não põem em causa como atestam abundantemente a «integridade» do PR...
Ou seja, e como muito bem dizem os «politólogos»: a «integridade» é que está a dar...
Para eles, «politólogos», e para o candidato dos patrões deles.
O grande capital é, também, proprietário dos média dominantes.
Logo, os média dominantes tratam Cavaco Silva como o candidato dos seus patrões.
É certo que qualquer dos restantes candidatos - à excepção de Francisco Lopes - podia ser o candidato do grande capital.
Mas nas circunstâncias actuais, e por razões óbvias, Cavaco foi o escolhido.
Os média, obedientes e diligentes, seguem à risca a voz do dono: para eles, Cavaco é, desde já, «o vencedor», e é «o mestre», e é «o professor» - é, enfim, «o maior».
E não importa se têm que mentir - e têm; se têm que desinformar - e têm; se têm que ocultar a verdade - e têm.
A «imagem» do «vencedor», do «mestre», do «professor» - enfim, do «maior», essa é que conta, essa é que é a «verdade»...
O caso do BPN perturbou Cavaco - e perturbou, por arrasto, os média.
Daí a azáfama em que andam, todos: uns, procurando riscar esse tema da agenda eleitoral; outros, mais ousados, procurando transformá-lo em factor favorável ao candidato Cavaco.
E para isso não olham a meios...
Assim, pela leitura dos jornais de hoje, fiquei a «saber» que «o caso BPN surgiu na campanha das presidenciais lançado, primeiro, por Defensor de Moura e, depois, por Manuel Alegre, nos debates televisivos com Cavaco Silva»...
Vejam bem!: julgava eu que fora Francisco Lopes o primeiro a colocar a questão e, por sinal, a pôr Cavaco KO...
Mas estava enganado, pronto: os «politólogos» dizem que não e os «politólogos» é que sabem...
E sobre as consequências do caso BPN nos resultados eleitorais?
Sobre isso, os «politólogos» dizem, em coro afinado, que o caso «não tira votos a Cavaco».
Porquê?
Os «politólogos» explicam:
em primeiro lugar, porque «o tema BPN é demasiado técnico».
Claro que é: imagine-se a técnica a que os favoritos de Cavaco tiveram que recorrer para concretizar todas aquelas fraudes, vigarices, golpes e golpaças!...
em segundo lugar, porque «o caso BPN não põe em causa a integridade do Presidente da República».
Claro que não: quer o estreito e amigável relacionamento do PR com os autores da fraude, quer o negócio das (boas) acções da SLN, não só não põem em causa como atestam abundantemente a «integridade» do PR...
Ou seja, e como muito bem dizem os «politólogos»: a «integridade» é que está a dar...
Para eles, «politólogos», e para o candidato dos patrões deles.
POEMA
OUVINDO BEETHOVEN
Venham leis e homens de balanças,
mandamentos daquém e dalém mundo,
venham ordens, decretos e vinganças,
desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
para sujar nas fichas dos arquivos,
não respeitem mistérios nem segredos,
que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta,
não aceitem nem votem outra arte
que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de cair em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.
José Saramago
Venham leis e homens de balanças,
mandamentos daquém e dalém mundo,
venham ordens, decretos e vinganças,
desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
para sujar nas fichas dos arquivos,
não respeitem mistérios nem segredos,
que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta,
não aceitem nem votem outra arte
que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de cair em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.
José Saramago
LUTAR SEMPRE
Na última semana de Dezembro, o Governo grego fez passar no Parlamento um orçamento que constitui um novo e brutal ataque contra salários e direitos dos trabalhadores.
As medidas contidas nesse orçamento correspondem a condições exigidas pela União Europeia e pelo FMI para desbloquear uma «ajuda» de 110 mil milhões de euros.
Isto é: lá como cá, quem paga as «ajudas» - que o mesmo é dizer: quem paga a «crise»... - são os trabalhadores.
Quanto aos responsáveis pela «crise», esses vão fornecendo «ajudas» - «ajudas» que, engordando-os a eles, vão provocar mais desemprego, mais exploração, mais miséria.
É assim o capitalismo: lá como cá - como em qualquer país onde ele domine.
Este orçamento da Grécia, surge após um ano marcado por fortíssimas lutas levadas a cabo pelos trabalhadores gregos - entre elas as históricas 14 greves gerais.
Quer isto dizer que «não vale a pena lutar»?
Não: isso é o que propalam os ideólogos do capitalismo, assim procurando desanimar e desmotivar os trabalhadores; levá-los a descrer nas suas capacidades de resistência e de luta; torná-los espectadores passivos (gratos, até...) da exploração a que são submetidos; convencê-los de que não há alternativa à exploração e à opressão capitalistas, que o capitalismo dominante é o «fim da história», que o socialismo e o comunismo estão «definitivamente mortos e enterrados»...
Ora, o que as lutas dos trabalhadores gregos (como as dos trabalhadores portugueses, franceses, espanhóis, etc. - em cada caso específico de acordo com muito específicas condições concretas) mostram claramente é que não só vale a pena como é indispensável lutar.
E que a luta - caminho necessário para fazer frente à política de direita e às suas consequências - é caminho certo para o futuro, se tiver sempre o socialismo e o comunismo no horizonte.
Lutar sempre!
Com a consciência das enormes, das gigantescas dificuldades da luta.
Com a consciência de que, por vezes, somos derrotados.
Com a consciência de que, muitas vezes, os resultados da luta não são imediatamente visíveis.
Com a consciência de que cada luta, seja qual for o seu resultado imediato, é uma semente das lutas do futuro.
Com a consciência de que quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre.
As medidas contidas nesse orçamento correspondem a condições exigidas pela União Europeia e pelo FMI para desbloquear uma «ajuda» de 110 mil milhões de euros.
Isto é: lá como cá, quem paga as «ajudas» - que o mesmo é dizer: quem paga a «crise»... - são os trabalhadores.
Quanto aos responsáveis pela «crise», esses vão fornecendo «ajudas» - «ajudas» que, engordando-os a eles, vão provocar mais desemprego, mais exploração, mais miséria.
É assim o capitalismo: lá como cá - como em qualquer país onde ele domine.
Este orçamento da Grécia, surge após um ano marcado por fortíssimas lutas levadas a cabo pelos trabalhadores gregos - entre elas as históricas 14 greves gerais.
Quer isto dizer que «não vale a pena lutar»?
Não: isso é o que propalam os ideólogos do capitalismo, assim procurando desanimar e desmotivar os trabalhadores; levá-los a descrer nas suas capacidades de resistência e de luta; torná-los espectadores passivos (gratos, até...) da exploração a que são submetidos; convencê-los de que não há alternativa à exploração e à opressão capitalistas, que o capitalismo dominante é o «fim da história», que o socialismo e o comunismo estão «definitivamente mortos e enterrados»...
Ora, o que as lutas dos trabalhadores gregos (como as dos trabalhadores portugueses, franceses, espanhóis, etc. - em cada caso específico de acordo com muito específicas condições concretas) mostram claramente é que não só vale a pena como é indispensável lutar.
E que a luta - caminho necessário para fazer frente à política de direita e às suas consequências - é caminho certo para o futuro, se tiver sempre o socialismo e o comunismo no horizonte.
Lutar sempre!
Com a consciência das enormes, das gigantescas dificuldades da luta.
Com a consciência de que, por vezes, somos derrotados.
Com a consciência de que, muitas vezes, os resultados da luta não são imediatamente visíveis.
Com a consciência de que cada luta, seja qual for o seu resultado imediato, é uma semente das lutas do futuro.
Com a consciência de que quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre.
POEMA
SALMO 136
Nem por abandonadas se calavam
as harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
o vento de Sião, nas cordas tensas,
a música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
na lembrança Sião e no futuro,
até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
mais do que os corpos, as almas e as vontades,
que nem sentimos já o ferro duro,
se do que fomos deixarem as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.
José Saramago
Nem por abandonadas se calavam
as harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
o vento de Sião, nas cordas tensas,
a música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
na lembrança Sião e no futuro,
até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
mais do que os corpos, as almas e as vontades,
que nem sentimos já o ferro duro,
se do que fomos deixarem as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.
José Saramago
ENTREGUES AOS BICHOS?
Diz a notícia que o Governo dos EUA vai ter acesso aos dados pessoais de todos nós, cidadãos portugueses - e não só: o Governo dos EUA, como super-polícia que é, quer fichar todos os cidadãos de todos os países do mundo...
Esta pretensão do boss insere-se na chamada « luta contra o terrorismo» - expressão que, como é sabido, foi inventada pelos EUA, com dois objectivos essenciais: justificar a política criminosa do imperialismo norte-americano visando o domínio do planeta; e
esconder que os EUA são, de facto, o principal centro do terrorismo internacional.
Diz ainda a notícia que, «para já, Portugal disse que sim»...
Isto é: o Governo português disse que sim.
O que não surpreende: se o Governo dos EUA (seja ele Bush ou Obama) manda... o Governo português (seja ele PS ou PSD) obedece...
E pronto: «o acordo com o Governo português está feito e só falta ser ratificado na Assembleia da República»- sendo de prever que, a curto prazo, a história da vida de cada um de nós fique na posse do mais perigoso e poderoso bando de criminosos alguma vez existente.
Em nome da «luta contra o terrorismo», o Governo de Sócrates entregará ao FBI as «bases de dados biométricas e biográficas dos portugueses que constam no Arquivo de identificação Civil e Criminal»- e o Governo dos EUA pode, se assim o entender, «entregar os dados portugueses a outros países»...
Isto para começar, porque, segundo as autoridades norte-americanas, o projecto visa «prevenir e lidar com o terrorismo internacional e deve abranger a cooperação na identificação atempada de indivíduos conhecidos por estarem, ou terem estado, envolvidos em actividades que sejam consideradas terroristas» - e, como mandam as regras do mando arrogante e da obediência canina, é ao boss que compete definir o que são «actividades terroristas»...
Estamos, então, entregues aos bichos?...
Estaremos... até que, num sobressalto de dignidade e de brio patriótico, o povo e os trabalhadores portugueses, corram de vez com a cambada que há 34 anos vem afundando Portugal e depositando a independência e a soberania nacionais nas garras do imperialismo norte-americano e da sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia.
Esta pretensão do boss insere-se na chamada « luta contra o terrorismo» - expressão que, como é sabido, foi inventada pelos EUA, com dois objectivos essenciais: justificar a política criminosa do imperialismo norte-americano visando o domínio do planeta; e
esconder que os EUA são, de facto, o principal centro do terrorismo internacional.
Diz ainda a notícia que, «para já, Portugal disse que sim»...
Isto é: o Governo português disse que sim.
O que não surpreende: se o Governo dos EUA (seja ele Bush ou Obama) manda... o Governo português (seja ele PS ou PSD) obedece...
E pronto: «o acordo com o Governo português está feito e só falta ser ratificado na Assembleia da República»- sendo de prever que, a curto prazo, a história da vida de cada um de nós fique na posse do mais perigoso e poderoso bando de criminosos alguma vez existente.
Em nome da «luta contra o terrorismo», o Governo de Sócrates entregará ao FBI as «bases de dados biométricas e biográficas dos portugueses que constam no Arquivo de identificação Civil e Criminal»- e o Governo dos EUA pode, se assim o entender, «entregar os dados portugueses a outros países»...
Isto para começar, porque, segundo as autoridades norte-americanas, o projecto visa «prevenir e lidar com o terrorismo internacional e deve abranger a cooperação na identificação atempada de indivíduos conhecidos por estarem, ou terem estado, envolvidos em actividades que sejam consideradas terroristas» - e, como mandam as regras do mando arrogante e da obediência canina, é ao boss que compete definir o que são «actividades terroristas»...
Estamos, então, entregues aos bichos?...
Estaremos... até que, num sobressalto de dignidade e de brio patriótico, o povo e os trabalhadores portugueses, corram de vez com a cambada que há 34 anos vem afundando Portugal e depositando a independência e a soberania nacionais nas garras do imperialismo norte-americano e da sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia.
POEMA
«HÁ-DE HAVER...»
Há-de haver uma cor por descobrir,
um juntar de palavras escondido,
há-de haver uma chave para abrir
a porta deste muro desmedido.
Há-de haver uma ilha mais ao sul,
uma corda mais tensa e ressoante,
outro mar que nade noutro azul,
outra altura de voz que melhor cante.
Poesia tardia que não chegas
a dizer nem metade do que sabes:
não calas, quanto podes, nem renegas
este corpo de acaso em que não cabes.
José Saramago
Há-de haver uma cor por descobrir,
um juntar de palavras escondido,
há-de haver uma chave para abrir
a porta deste muro desmedido.
Há-de haver uma ilha mais ao sul,
uma corda mais tensa e ressoante,
outro mar que nade noutro azul,
outra altura de voz que melhor cante.
Poesia tardia que não chegas
a dizer nem metade do que sabes:
não calas, quanto podes, nem renegas
este corpo de acaso em que não cabes.
José Saramago
UM ANO NOVO
Há uma semana, na sua «mensagem de Natal», Sócrates anunciou, triunfante:
«Nos últimos dias, negociámos com os parceiros sociais os termos do aumento do salário mínimo nacional para os 500 euros no próximo ano».
Quem não soubesse que «negociação» foi essa e que «parceiros sociais» foram esses, ficaria pensar que hoje, dia 1 de Janeiro de 2011, o salário mínimo nacional passaria de 475 para 500 euros - como, aliás, fora previamente acordado.
Mentira: Sócrates e os seus «parceiros sociais» - para o caso, os patrões e a UGT - acharam que um aumento de 25 euros/mês, 80 cêntimos/dia, era demais...
E decidiram que, para já, o «aumento» seria de 10 euros/mês... 33 cêntimos/dia.
Assim, os cerca de 600 mil trabalhadores abrangidos pelo salário mínimo nacional, passarão a receber ao fim do mês, feitos os descontos, cerca de 404 euros: um rendimento que os coloca abaixo do limiar da pobreza - sendo que os aumentos dos bens essenciais, todos muito acima do aumento do salário e todos em vigor desde hoje, os vão enterrar bem para lá do limiar do pobreza: na miséria e na fome.
Ora, de um país onde o salário mínimo nacional é inferior ao limiar da pobreza, há que dizer que é um país onde os governantes - que são os mesmos há 34 anos - vêem a miséria e a fome como «direitos humanos»... e onde, portanto, a democracia entrou em estado de acelerada putrefacção.
E dar a volta a isto é a grande tarefa que se coloca aos trabalhadores e ao povo português no ano hoje iniciado - para que ele seja, de facto, um ano novo.
«Nos últimos dias, negociámos com os parceiros sociais os termos do aumento do salário mínimo nacional para os 500 euros no próximo ano».
Quem não soubesse que «negociação» foi essa e que «parceiros sociais» foram esses, ficaria pensar que hoje, dia 1 de Janeiro de 2011, o salário mínimo nacional passaria de 475 para 500 euros - como, aliás, fora previamente acordado.
Mentira: Sócrates e os seus «parceiros sociais» - para o caso, os patrões e a UGT - acharam que um aumento de 25 euros/mês, 80 cêntimos/dia, era demais...
E decidiram que, para já, o «aumento» seria de 10 euros/mês... 33 cêntimos/dia.
Assim, os cerca de 600 mil trabalhadores abrangidos pelo salário mínimo nacional, passarão a receber ao fim do mês, feitos os descontos, cerca de 404 euros: um rendimento que os coloca abaixo do limiar da pobreza - sendo que os aumentos dos bens essenciais, todos muito acima do aumento do salário e todos em vigor desde hoje, os vão enterrar bem para lá do limiar do pobreza: na miséria e na fome.
Ora, de um país onde o salário mínimo nacional é inferior ao limiar da pobreza, há que dizer que é um país onde os governantes - que são os mesmos há 34 anos - vêem a miséria e a fome como «direitos humanos»... e onde, portanto, a democracia entrou em estado de acelerada putrefacção.
E dar a volta a isto é a grande tarefa que se coloca aos trabalhadores e ao povo português no ano hoje iniciado - para que ele seja, de facto, um ano novo.
POEMA
PORTUGAL, CRAVO VERMELHO
Em vinte e cinco de Abril,
em Portugal, de repente,
no ermo da madrugada,
floriram cravos vermelhos.
Já quarenta e oito anos
a treva nos tinha cegos,
quando da treva rasgada
floriram cravos vermelhos.
Veio a manhã que tardava.
Estava a longa noite finda.
Num rumor de asas de pombas,
floriram cravos vermelhos.
Desde os peitos dos soldados
aos peitos dos marinheiros,
nas próprias metralhadoras,
floriram cravos vermelhos.
Mal rompeu o dia novo,
logo por ruas e praças,
das cidades às aldeias,
floriram cravos vermelhos.
Quer nas mãos dos operários,
quer nas mãos dos camponeses,
no tempo de um pensamento,
floriram cravos vermelhos.
Nos olhos baços dos velhos,
na gralhada das crianças,
no enlevo das mulheres,
floriram cravos vermelhos.
Nas páginas dos escritores,
na atenção dos estudantes,
nas comoções da razão,
floriram cravos vermelhos.
Era um povo renascido
da morte em que estava morto,
em cujos gestos e gritos
floriram cravos vermelhos.
No sol, na lua, no vento,
nas searas, nos montados,
nos olivais, nas charnecas,
floriram cravos vermelhos.
Na voz das fontes e rios,
nas ondas do mar amigo,
nas penedias dos montes,
floriram cravos vermelhos.
No pão, no vinho, nos frutos,
de sangue e suor nutridos,
mais na fome e sede deles,
floriram cravos vermelhos.
No azul do céu profundo,
no branco leve das nuvens,
no canto alegre das aves,
floriram cravos vermelhos.
Na sombra vil das prisões
abertas de par em par,
dos irmãos delas libertos,
floriram cravos vermelhos.
Mas no Primeiro de Maio,
foi que, em todo Portugal,
Portugal todo floriu
num mesmo cravo vermelho.
Armindo Rodrigues
(Termina aqui o ciclo de poesia dedicado a Armindo Rodrigues. O próximo poeta será José Saramago)
Em vinte e cinco de Abril,
em Portugal, de repente,
no ermo da madrugada,
floriram cravos vermelhos.
Já quarenta e oito anos
a treva nos tinha cegos,
quando da treva rasgada
floriram cravos vermelhos.
Veio a manhã que tardava.
Estava a longa noite finda.
Num rumor de asas de pombas,
floriram cravos vermelhos.
Desde os peitos dos soldados
aos peitos dos marinheiros,
nas próprias metralhadoras,
floriram cravos vermelhos.
Mal rompeu o dia novo,
logo por ruas e praças,
das cidades às aldeias,
floriram cravos vermelhos.
Quer nas mãos dos operários,
quer nas mãos dos camponeses,
no tempo de um pensamento,
floriram cravos vermelhos.
Nos olhos baços dos velhos,
na gralhada das crianças,
no enlevo das mulheres,
floriram cravos vermelhos.
Nas páginas dos escritores,
na atenção dos estudantes,
nas comoções da razão,
floriram cravos vermelhos.
Era um povo renascido
da morte em que estava morto,
em cujos gestos e gritos
floriram cravos vermelhos.
No sol, na lua, no vento,
nas searas, nos montados,
nos olivais, nas charnecas,
floriram cravos vermelhos.
Na voz das fontes e rios,
nas ondas do mar amigo,
nas penedias dos montes,
floriram cravos vermelhos.
No pão, no vinho, nos frutos,
de sangue e suor nutridos,
mais na fome e sede deles,
floriram cravos vermelhos.
No azul do céu profundo,
no branco leve das nuvens,
no canto alegre das aves,
floriram cravos vermelhos.
Na sombra vil das prisões
abertas de par em par,
dos irmãos delas libertos,
floriram cravos vermelhos.
Mas no Primeiro de Maio,
foi que, em todo Portugal,
Portugal todo floriu
num mesmo cravo vermelho.
Armindo Rodrigues
(Termina aqui o ciclo de poesia dedicado a Armindo Rodrigues. O próximo poeta será José Saramago)
MILITANTES DA ESPERANÇA
Todos os anos, nos últimos dias do ano, os jornais relembram acontecimentos, ocorrências e pessoas que, de acordo com os critérios de cada jornal, marcaram os doze meses passados.
Lá vem, todos os anos, a lembrança das (dez) tragédias ocorridas, dos (dez) feitos desportivos mais relevantes, dos (dez) mais assombrosos fenómenos acontecidos, tudo...
Tudo, excepto as lutas dos trabalhadores, obviamente.
Essas são para esquecer: assim mandam os donos dos jornais e assim obedecem os que, nos jornais, são a voz dos donos.
O Diário de Notícias de hoje destaca «dez personalidades que, este ano, disseram adeus».
Personalidades (quase) todas respeitáveis - ou, pelo menos, (quase) todas não desrespeitáveis.
Entre os «dez» está, naturalmente, o Nobel do nosso contentamento - e registe-se, positivamente, o facto de o DN não se ter esquecido de referir que «José Saramago foi militante do PCP desde 1969».
Por mim, se tivesses que escolher «dez», também não hesitaria em Saramago - o nosso Nobel Levantado do Chão.
E optaria, também, como fez o DN, por Rosa Coutinho - ao qual acrescentaria, no entanto, outro militar de Abril: Costa Martins.
Mas lembro-me de outros que a morte me (nos) roubou neste ano de 2010.
Outros que, não sendo «personalidades» para os média dominantes, marcaram o tempo que viveram com o seu exemplo de fraterna coragem, de solidária dignidade, de inquebrantável verticalidade.
No poema de Armindo Rodrigues que antecede este post, o Poeta faz o julgamento do monstro salazarento que durante quatro décadas oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses - e recorda esse tempo sombrio, «os dias tristes/de miséria e cobardia/ apenas iluminados/pela teimosia heróica/dos militantes da esperança/ousados e clandestinos».
São três desses «militantes da esperança», este ano desaparecidos do nosso convívio, que o Cravo de Abril hoje recorda:
SOFIA FERREIRA, ANTÓNIO DIAS LOURENÇO E JOAQUIM GOMES.
Personalidades maiores da nossa história colectiva, pelo seu exemplo de coragem, de dignidade, de entrega total à luta pela liberdade, pela justiça social, pela paz, pelo socialismo, pelo comunismo.
Para eles o nosso imenso adeus.
Lá vem, todos os anos, a lembrança das (dez) tragédias ocorridas, dos (dez) feitos desportivos mais relevantes, dos (dez) mais assombrosos fenómenos acontecidos, tudo...
Tudo, excepto as lutas dos trabalhadores, obviamente.
Essas são para esquecer: assim mandam os donos dos jornais e assim obedecem os que, nos jornais, são a voz dos donos.
O Diário de Notícias de hoje destaca «dez personalidades que, este ano, disseram adeus».
Personalidades (quase) todas respeitáveis - ou, pelo menos, (quase) todas não desrespeitáveis.
Entre os «dez» está, naturalmente, o Nobel do nosso contentamento - e registe-se, positivamente, o facto de o DN não se ter esquecido de referir que «José Saramago foi militante do PCP desde 1969».
Por mim, se tivesses que escolher «dez», também não hesitaria em Saramago - o nosso Nobel Levantado do Chão.
E optaria, também, como fez o DN, por Rosa Coutinho - ao qual acrescentaria, no entanto, outro militar de Abril: Costa Martins.
Mas lembro-me de outros que a morte me (nos) roubou neste ano de 2010.
Outros que, não sendo «personalidades» para os média dominantes, marcaram o tempo que viveram com o seu exemplo de fraterna coragem, de solidária dignidade, de inquebrantável verticalidade.
No poema de Armindo Rodrigues que antecede este post, o Poeta faz o julgamento do monstro salazarento que durante quatro décadas oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses - e recorda esse tempo sombrio, «os dias tristes/de miséria e cobardia/ apenas iluminados/pela teimosia heróica/dos militantes da esperança/ousados e clandestinos».
São três desses «militantes da esperança», este ano desaparecidos do nosso convívio, que o Cravo de Abril hoje recorda:
SOFIA FERREIRA, ANTÓNIO DIAS LOURENÇO E JOAQUIM GOMES.
Personalidades maiores da nossa história colectiva, pelo seu exemplo de coragem, de dignidade, de entrega total à luta pela liberdade, pela justiça social, pela paz, pelo socialismo, pelo comunismo.
Para eles o nosso imenso adeus.
POEMA
O MONSTRO JULGADO
Desenterremos o monstro
e, mesmo morto, o julguemos.
Mais nojento o foi em vida.
Mais nojento o foi em vida,
com as suas falas mansas,
os seus melífluos gestos,
o seu perfil de navalha,
o seu sonho imperial.
Julguemo-lo pela vergonha
com que nos enlameou.
Julguemo-lo pelos ladrões
que à sua sombra roubaram.
Pois roubaram, prestem contas.
Pois roubaram prestem contas.
Julguemo-lo pelos bandidos
que mataram a seu soldo.
Pois mataram, não mais tenham
ocasião de matar.
Erguei-vos, assassinados,
para o frio julgamento,
em que é forçoso que soe
a vossa condenação.
Julguemo-lo pelos assaltos
às nossas casas quietas,
às horas do nosso sono
merecido e sem remorso.
Julguemo-lo pela traição
que a nós próprios nos impunha
de nos pautarmos por ele,
sob pena de punição.
Julguemo-lo pela suspeita
a que nos habituou
de em tudo espreitarem perigos,
de todos serem espiões.
Julguemo-lo pela incerteza
de cada dia futuro,
no curso dos dias tristes
de miséria e cobardia,
apenas iluminados
pela teimosia heróica
dos militantes da esperança,
ousados e clandestinos.
Julguemo-lo pelas torturas
dos seus carrascos cruéis,
os seus juízes submissos,
os seus campos de concentração.
Julguemo-lo pela maldade.
Julguemo-lo pela frieza.
Julguemo-lo pela mentira,
sua única paixão.
Julguemo-lo pela fé falsa
de antigo seminarista,
com que aos fiéis iludidos
iludia a boa fé.
Julguemo-lo pela herança
de abandono e esgotamento
em que nos deixou os campos,
em que nos deixou as fábricas,
em que nos deixou a pródiga
e vasta leira do mar,
a que nos levou as escolas,
cuja cultura tolheu,
vazias de camponeses,
operários, pescadores,
professores e alunos,
que obrigou a emigrar.
Julguemo-lo pelo cuidado
de guarda-livros mesquinho,
com que serviu os interesses
só da grande burguesia,
a nação espezinhando
com os seus pés descomunais.
Julguemo-lo pela perfídia.
Julguemo-lo pela vaidade.
Julguemo-lo pelos palhaços
que escolheu para ministros,
que nomeou deputados,
que de pobres tornou ricos,
e diante dele tremiam,
e lhe lambiam o cu.
Para sempre o apaguemos
de nosso compatriota,
e até de homem simplesmente,
visto que nunca homem foi.
Armindo Rodrigues
Desenterremos o monstro
e, mesmo morto, o julguemos.
Mais nojento o foi em vida.
Mais nojento o foi em vida,
com as suas falas mansas,
os seus melífluos gestos,
o seu perfil de navalha,
o seu sonho imperial.
Julguemo-lo pela vergonha
com que nos enlameou.
Julguemo-lo pelos ladrões
que à sua sombra roubaram.
Pois roubaram, prestem contas.
Pois roubaram prestem contas.
Julguemo-lo pelos bandidos
que mataram a seu soldo.
Pois mataram, não mais tenham
ocasião de matar.
Erguei-vos, assassinados,
para o frio julgamento,
em que é forçoso que soe
a vossa condenação.
Julguemo-lo pelos assaltos
às nossas casas quietas,
às horas do nosso sono
merecido e sem remorso.
Julguemo-lo pela traição
que a nós próprios nos impunha
de nos pautarmos por ele,
sob pena de punição.
Julguemo-lo pela suspeita
a que nos habituou
de em tudo espreitarem perigos,
de todos serem espiões.
Julguemo-lo pela incerteza
de cada dia futuro,
no curso dos dias tristes
de miséria e cobardia,
apenas iluminados
pela teimosia heróica
dos militantes da esperança,
ousados e clandestinos.
Julguemo-lo pelas torturas
dos seus carrascos cruéis,
os seus juízes submissos,
os seus campos de concentração.
Julguemo-lo pela maldade.
Julguemo-lo pela frieza.
Julguemo-lo pela mentira,
sua única paixão.
Julguemo-lo pela fé falsa
de antigo seminarista,
com que aos fiéis iludidos
iludia a boa fé.
Julguemo-lo pela herança
de abandono e esgotamento
em que nos deixou os campos,
em que nos deixou as fábricas,
em que nos deixou a pródiga
e vasta leira do mar,
a que nos levou as escolas,
cuja cultura tolheu,
vazias de camponeses,
operários, pescadores,
professores e alunos,
que obrigou a emigrar.
Julguemo-lo pelo cuidado
de guarda-livros mesquinho,
com que serviu os interesses
só da grande burguesia,
a nação espezinhando
com os seus pés descomunais.
Julguemo-lo pela perfídia.
Julguemo-lo pela vaidade.
Julguemo-lo pelos palhaços
que escolheu para ministros,
que nomeou deputados,
que de pobres tornou ricos,
e diante dele tremiam,
e lhe lambiam o cu.
Para sempre o apaguemos
de nosso compatriota,
e até de homem simplesmente,
visto que nunca homem foi.
Armindo Rodrigues
DIREITOS QUÊ?
Enquanto, na Colômbia, foi descoberta mais uma vala comum, nas Honduras a violação dos direitos humanos continua a ser a imagem de marca do governo fascista.
A nova vala comum agora descoberta situa-se no departamento de Meta e contém mais de 1 500 corpos de «falsos positivos» - assim são designados os jovens que o governo colombiano apresenta como «combatentes das FARC abatidos em combate», mas que, na realidade, são jovens recrutados pelo exército com promessas de trabalho e a seguir executados e enterrados nessas valas.
(Como o Cravo de Abril já denunciou, neste mesmo departamento de Meta, foram descobertos, há um ano, 2 000 cadáveres naquela que é, tanto quanto se sabe, a maior vale comum do continente americano).
Comentando a mais recente descoberta, um dos advogados das vítimas e familiares, resumiu assim a situação:
«A Colômbia pode ser uma gigantesca vala comum. O exército colombiano converteu-se num autêntico exército ocupante contra o seu próprio povo».
A Colômbia é, como se sabe, a menina dos olhos do governo de Obama no continente: um modelo de democracia, de liberdade, de respeito pelos direitos humanos...
A situação nas Honduras após o golpe organizado pelo governo dos EUA e por fascistas hondurenhos, tem sido, também, tema frequentemente abordado no Cravo de Abril.
Registe-se, então, que a violenta repressão desencadeada pelo governo fascista contra os trabalhadores e o povo hondurenhos - e que a Frente Nacional de Resistência Popular tem corajosamente denunciado - foi agora confirmada por um grupo de representantes de 28 organizações suíças, alemãs e austríacas.
E, já agora, registe-se também o Programa de Apoio da União Europeia ao governo fascista das Honduras - o Programa Paz!...
Esse Apoio - no valor de 44 milhões de euros - é toda ele canalizado para a Defesa, a Administração Interna e o Supremo Tribunal de Justiça - ou seja: para o aparelho repressivo, com o qual o governo golpista leva por diante a brutal ofensiva de violação dos direitos humanos.
Que dizer destes direitos humanos made in USA /UE feitos de repressão, de crime, de valas comuns?...
A nova vala comum agora descoberta situa-se no departamento de Meta e contém mais de 1 500 corpos de «falsos positivos» - assim são designados os jovens que o governo colombiano apresenta como «combatentes das FARC abatidos em combate», mas que, na realidade, são jovens recrutados pelo exército com promessas de trabalho e a seguir executados e enterrados nessas valas.
(Como o Cravo de Abril já denunciou, neste mesmo departamento de Meta, foram descobertos, há um ano, 2 000 cadáveres naquela que é, tanto quanto se sabe, a maior vale comum do continente americano).
Comentando a mais recente descoberta, um dos advogados das vítimas e familiares, resumiu assim a situação:
«A Colômbia pode ser uma gigantesca vala comum. O exército colombiano converteu-se num autêntico exército ocupante contra o seu próprio povo».
A Colômbia é, como se sabe, a menina dos olhos do governo de Obama no continente: um modelo de democracia, de liberdade, de respeito pelos direitos humanos...
A situação nas Honduras após o golpe organizado pelo governo dos EUA e por fascistas hondurenhos, tem sido, também, tema frequentemente abordado no Cravo de Abril.
Registe-se, então, que a violenta repressão desencadeada pelo governo fascista contra os trabalhadores e o povo hondurenhos - e que a Frente Nacional de Resistência Popular tem corajosamente denunciado - foi agora confirmada por um grupo de representantes de 28 organizações suíças, alemãs e austríacas.
E, já agora, registe-se também o Programa de Apoio da União Europeia ao governo fascista das Honduras - o Programa Paz!...
Esse Apoio - no valor de 44 milhões de euros - é toda ele canalizado para a Defesa, a Administração Interna e o Supremo Tribunal de Justiça - ou seja: para o aparelho repressivo, com o qual o governo golpista leva por diante a brutal ofensiva de violação dos direitos humanos.
Que dizer destes direitos humanos made in USA /UE feitos de repressão, de crime, de valas comuns?...
POEMA
PRISÃO DE CAXIAS, 1949
Como fantasmas, sem repouso,
no corredor andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Nuvens vazias lhes pesam.
Um vinho azedo os corrompe.
O corredor é longo e estreito,
longo e sujo,
longo e escuro.
Do tecto baixo as lâmpadas exaustas
dir-se-ia que de remorso lhe põem mais sombras
na atmosfera sombria de remorso.
Só nas salas, fechados, os presos falam,
os presos riem,
os presos cantam.
Não há remorso na lembrança deles.
Na desgraça deles não há remorso.
O remorso ficou lá fora,
no corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite,
a manchar de vergonha a vida
e a fazer nojo aos escarradores
alinhados contra a parede.
O remorso ficou lá fora,
na felicidade e na cobardia
dos que se alheiam do combate.
Na minha sala há treze presos.
Treze são as salas que dão
para o corredor onde andam os guardas,
de pistola è cinta, dia e noite.
Maldita seja a maldição
com que à honra se responde.
Cada sala tem uma janela
que nem finge de fingimento,
porque além da barreira das grades
em frente um talude nos cobre
a despreocupação de ave
do horizonte desdobrado,
e lá fora andam outros guardas,
de carabina oa ombro, dia e noite.
Na minha sala há treze presos,
com treze protestos erguidos,
mas erguida uma só bandeira.
São criminosos de querer,
num tempo torpe de prisões,
as torpes prisões arrasadas.
Os outros presos, as outras salas,
sangram das mesmas feridas,
ardem de desejo igual.
Estão aqui presos, mas são livres,
porque neles a justiça
sopra como os vendavais.
A prisão ficou lá fora,
nos felizes e nos cobardes.
Armindo Rodrigues
Como fantasmas, sem repouso,
no corredor andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Nuvens vazias lhes pesam.
Um vinho azedo os corrompe.
O corredor é longo e estreito,
longo e sujo,
longo e escuro.
Do tecto baixo as lâmpadas exaustas
dir-se-ia que de remorso lhe põem mais sombras
na atmosfera sombria de remorso.
Só nas salas, fechados, os presos falam,
os presos riem,
os presos cantam.
Não há remorso na lembrança deles.
Na desgraça deles não há remorso.
O remorso ficou lá fora,
no corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite,
a manchar de vergonha a vida
e a fazer nojo aos escarradores
alinhados contra a parede.
O remorso ficou lá fora,
na felicidade e na cobardia
dos que se alheiam do combate.
Na minha sala há treze presos.
Treze são as salas que dão
para o corredor onde andam os guardas,
de pistola è cinta, dia e noite.
Maldita seja a maldição
com que à honra se responde.
Cada sala tem uma janela
que nem finge de fingimento,
porque além da barreira das grades
em frente um talude nos cobre
a despreocupação de ave
do horizonte desdobrado,
e lá fora andam outros guardas,
de carabina oa ombro, dia e noite.
Na minha sala há treze presos,
com treze protestos erguidos,
mas erguida uma só bandeira.
São criminosos de querer,
num tempo torpe de prisões,
as torpes prisões arrasadas.
Os outros presos, as outras salas,
sangram das mesmas feridas,
ardem de desejo igual.
Estão aqui presos, mas são livres,
porque neles a justiça
sopra como os vendavais.
A prisão ficou lá fora,
nos felizes e nos cobardes.
Armindo Rodrigues
GOSTEI
Realiza-se hoje um desafio de futebol amigável entre as selecções do País Basco e da Venezuela.
O embaixador venezuelano em Madrid, Isaías Rodriguez, assistirá ao jogo em representação do seu País.
Provocatoriamente, o presidente do PP basco, Antonio Basagoiti - que também assistirá ao jogo - declarou que não quer encontrar-se com o embaixador venezuelano, porque «no seu Governo há gente da ETA».
O embaixador venezuelano respondeu:
«Também não é do meu interesse falar com o presidente do PP basco. Na minha opinião, ele faz parte da corporação da TETA (órgão dos mamíferos que, na fome, serve para secrecção de leite e nas corporações bancárias serve para dar de mamar a dirigentes políticos sem maturidade e sem preparação social nem humanística)».
E prosseguindo:
(a esses indivíduos) na Venezuela destetamo-los, isto é, damos-lhes um curso para que percam a sua condição de "senhoritos, filhos de banqueiros" e aprendam que a política e a educação não se manejam da mesma forma que o dinheiro».
E, mais adiante:
«Os não-destetados têm causado bastantes danos ao Euskadi e vem agora este senhorito graças à pasta que o seu pai tem, pretender utilizar um encontro de futebol cordial para agredir a Venezuela...»
E rematou, certeiro:
«No meu Governo não há gente da ETA. E no PP há gente da TETA».
Gostei.
O embaixador venezuelano em Madrid, Isaías Rodriguez, assistirá ao jogo em representação do seu País.
Provocatoriamente, o presidente do PP basco, Antonio Basagoiti - que também assistirá ao jogo - declarou que não quer encontrar-se com o embaixador venezuelano, porque «no seu Governo há gente da ETA».
O embaixador venezuelano respondeu:
«Também não é do meu interesse falar com o presidente do PP basco. Na minha opinião, ele faz parte da corporação da TETA (órgão dos mamíferos que, na fome, serve para secrecção de leite e nas corporações bancárias serve para dar de mamar a dirigentes políticos sem maturidade e sem preparação social nem humanística)».
E prosseguindo:
(a esses indivíduos) na Venezuela destetamo-los, isto é, damos-lhes um curso para que percam a sua condição de "senhoritos, filhos de banqueiros" e aprendam que a política e a educação não se manejam da mesma forma que o dinheiro».
E, mais adiante:
«Os não-destetados têm causado bastantes danos ao Euskadi e vem agora este senhorito graças à pasta que o seu pai tem, pretender utilizar um encontro de futebol cordial para agredir a Venezuela...»
E rematou, certeiro:
«No meu Governo não há gente da ETA. E no PP há gente da TETA».
Gostei.
POEMA
ENTRE PATRÃO E OPERÁRIO
Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.
Armindo Rodrigues
Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.
Armindo Rodrigues
METEM NOJO
Quando, um dia, se fizer a história da ofensiva contra o PCP ao longo dos tempos, constataremos que ela constitui parte grande da história lusitana da pulhice humana.
Estou em crer que o conteúdo odiento e a forma desavergonhada dessa ofensiva têm a ver com a raiva que se apossa dos seus protagonistas ao verem frustradas, sucessivamente, as suas previsões necrológicas sobre o PCP...
Salazar e os seus jornais anunciaram repetidas vezes a morte do Partido, na convicção de que os comunistas não resistiriam às perseguições, às prisões, aos assassinatos, a toda a brutal repressão fascista.
Obviamente, enganaram-se.
O grande capital actual e os seus média, não se cansam de decretar a morte do PCP, na convicção de que, fazendo dos comunistas o seu alvo preferencial, utilizando contra eles toda a espécie de mentiras, de falsidades, de calúnias e difundindo-as massivamente, os desejos que têm de ver o PCP morto serão concretizados.
Obviamente, enganam-se.
Mas lá que lhes custa enganarem-se, custa, ó se custa!...
E lá que lhes causa raivas, causa, ó se causa!...
Vem isto a propósito da «notícia» do Público de ontem, sobre as coimas nas contas dos partidos.
O texto - assinado pelo inevitável Nuno Sá Lourenço (NSL) - como todos os escarros, mete nojo.
Partindo da premissa de que «é a partir das despesas que o Estado calcula a subvenção concedida aos partidos», NSL chega à conclusão de que, «ao incluir as coimas nessas despesas, os partidos acabam por receber de volta, mais tarde, o valor monetário das coimas que lhes foram aplicadas».
Ora, porque a premissa é falsa, a conclusão também o é.
Na verdade, as subvenções do Estado aos partidos são decididas, não a partir das despesas, mas a partir dos votos que cada partido obtém na mais recente eleição à AR - e, portanto, é falso tudo o que NSL escreve sobre os partidos receberem de volta o valor das coimas.
Mas NSL não é só isto... não esqueçamos que ele é um jornalista-tipo da nova ordem comunicacional, um daqueles a quem Serge Halimi chamou certeiramente os novos cães de guarda...
Pelo que, pegando na falsidade produzida, NSL virou-a... contra quem havia de ser?: contra o PCP, pois claro - o PCP que, diz ele, porque pagará de coimas não os 3 mil euros que os restantes partidos pagam, mas 30 mil euros, é o grande beneficiado!...
Esclareça-se que o facto de o PCP pagar 30 mil euros em vez dos 3 mil que deveria pagar, resulta de uma atitude claramente persecutória contra o Partido - mas isso que interessa?: NSL não tem nada contra atitudes persecutórias se elas forem contra o PCP...
E, já agora, sublinhe-se que quem vai pagar esses injustos 30 mil euros são os militantes e simpatizantes comunistas.
Depois, não querendo ficar sozinho com a patranha que engendrou, NSL foi ouvir o habitual «especialista», que desta vez dá pelo nome de Luís de Sousa; que é «investigador» não sei de quê; e que, fazendo sua a patranha de NSL, sentenciou que «as multas têm que ser sentidas na pele, têm que ser subtraídas à subvenção»...
(ó sr. investigador, em vez de cagar sentenças por ouvir dizer, não seria melhor investigar primeiro e depois falar?...)
Posto isto - patranha escrita e devidamente avalizada pelo «investigador» - a mentira correu célere por todos os telejornais como se se tratasse de verdade incontestável.
E para que fosse, também, incontestada, o comunicado emitido pelo PCP e repondo a verdade foi cirurgicamente silenciado por todos os telejornais.
É a isto que eles chamam informação isenta, imparcial e independente...
Metem nojo.
Estou em crer que o conteúdo odiento e a forma desavergonhada dessa ofensiva têm a ver com a raiva que se apossa dos seus protagonistas ao verem frustradas, sucessivamente, as suas previsões necrológicas sobre o PCP...
Salazar e os seus jornais anunciaram repetidas vezes a morte do Partido, na convicção de que os comunistas não resistiriam às perseguições, às prisões, aos assassinatos, a toda a brutal repressão fascista.
Obviamente, enganaram-se.
O grande capital actual e os seus média, não se cansam de decretar a morte do PCP, na convicção de que, fazendo dos comunistas o seu alvo preferencial, utilizando contra eles toda a espécie de mentiras, de falsidades, de calúnias e difundindo-as massivamente, os desejos que têm de ver o PCP morto serão concretizados.
Obviamente, enganam-se.
Mas lá que lhes custa enganarem-se, custa, ó se custa!...
E lá que lhes causa raivas, causa, ó se causa!...
Vem isto a propósito da «notícia» do Público de ontem, sobre as coimas nas contas dos partidos.
O texto - assinado pelo inevitável Nuno Sá Lourenço (NSL) - como todos os escarros, mete nojo.
Partindo da premissa de que «é a partir das despesas que o Estado calcula a subvenção concedida aos partidos», NSL chega à conclusão de que, «ao incluir as coimas nessas despesas, os partidos acabam por receber de volta, mais tarde, o valor monetário das coimas que lhes foram aplicadas».
Ora, porque a premissa é falsa, a conclusão também o é.
Na verdade, as subvenções do Estado aos partidos são decididas, não a partir das despesas, mas a partir dos votos que cada partido obtém na mais recente eleição à AR - e, portanto, é falso tudo o que NSL escreve sobre os partidos receberem de volta o valor das coimas.
Mas NSL não é só isto... não esqueçamos que ele é um jornalista-tipo da nova ordem comunicacional, um daqueles a quem Serge Halimi chamou certeiramente os novos cães de guarda...
Pelo que, pegando na falsidade produzida, NSL virou-a... contra quem havia de ser?: contra o PCP, pois claro - o PCP que, diz ele, porque pagará de coimas não os 3 mil euros que os restantes partidos pagam, mas 30 mil euros, é o grande beneficiado!...
Esclareça-se que o facto de o PCP pagar 30 mil euros em vez dos 3 mil que deveria pagar, resulta de uma atitude claramente persecutória contra o Partido - mas isso que interessa?: NSL não tem nada contra atitudes persecutórias se elas forem contra o PCP...
E, já agora, sublinhe-se que quem vai pagar esses injustos 30 mil euros são os militantes e simpatizantes comunistas.
Depois, não querendo ficar sozinho com a patranha que engendrou, NSL foi ouvir o habitual «especialista», que desta vez dá pelo nome de Luís de Sousa; que é «investigador» não sei de quê; e que, fazendo sua a patranha de NSL, sentenciou que «as multas têm que ser sentidas na pele, têm que ser subtraídas à subvenção»...
(ó sr. investigador, em vez de cagar sentenças por ouvir dizer, não seria melhor investigar primeiro e depois falar?...)
Posto isto - patranha escrita e devidamente avalizada pelo «investigador» - a mentira correu célere por todos os telejornais como se se tratasse de verdade incontestável.
E para que fosse, também, incontestada, o comunicado emitido pelo PCP e repondo a verdade foi cirurgicamente silenciado por todos os telejornais.
É a isto que eles chamam informação isenta, imparcial e independente...
Metem nojo.
POEMA
MALDIÇÃO
Maldito seja o que busca
matar o sonho dos homens.
Maldita seja a vergonha.
Maldito seja o pesar.
Maldito seja o silêncio
que nos cala antes da morte.
Maldito seja o que é falso,
ou induz em confusão.
Malditos sejam os bons
que o são só por piedosos.
Maldito seja o cruel
por ódio ou por piedade.
Maldito seja o que aceita
argumentos que não pesa.
Maldito seja o que força
alguém a acreditá-lo.
Maldito seja o orgulho
do que o alheio despreza.
Maldito seja o que faz
dos desejos maldição.
Maldito seja o desejo
de só nada desejar.
Maldito seja o que inveja
o pão de que não precisa.
Maldito seja o que encontra
na fome conformação.
Maldito seja o que é feio
por gosto de fealdade.
Maldita seja a beleza
que à vida seja traição.
Maldita seja a riqueza
que de fartura não serve.
Maldita seja a fartura
quando a todos não chegar.
Maldito seja o saber
arvorado em tirania.
Maldito seja o que ignora
e não dá por ignorar.
Maldito seja o que impõe
o que para si não quer.
Maldito seja o que jura
contra a sua convicção.
Maldito seja o que alcança
sem o esforço de colher.
Maldito seja o temor
de luz de mais nos cegar.
Armindo Rodrigues
Maldito seja o que busca
matar o sonho dos homens.
Maldita seja a vergonha.
Maldito seja o pesar.
Maldito seja o silêncio
que nos cala antes da morte.
Maldito seja o que é falso,
ou induz em confusão.
Malditos sejam os bons
que o são só por piedosos.
Maldito seja o cruel
por ódio ou por piedade.
Maldito seja o que aceita
argumentos que não pesa.
Maldito seja o que força
alguém a acreditá-lo.
Maldito seja o orgulho
do que o alheio despreza.
Maldito seja o que faz
dos desejos maldição.
Maldito seja o desejo
de só nada desejar.
Maldito seja o que inveja
o pão de que não precisa.
Maldito seja o que encontra
na fome conformação.
Maldito seja o que é feio
por gosto de fealdade.
Maldita seja a beleza
que à vida seja traição.
Maldita seja a riqueza
que de fartura não serve.
Maldita seja a fartura
quando a todos não chegar.
Maldito seja o saber
arvorado em tirania.
Maldito seja o que ignora
e não dá por ignorar.
Maldito seja o que impõe
o que para si não quer.
Maldito seja o que jura
contra a sua convicção.
Maldito seja o que alcança
sem o esforço de colher.
Maldito seja o temor
de luz de mais nos cegar.
Armindo Rodrigues
TAKIJI KOBAYASHI
TAKIJI KOBAYASHI é o nome de um grande escritor japonês.
Dele foi publicado recentemente, pela editora Clube do Autor, o romance O Navio dos Homens.
Trata-se de uma obra notável - e de leitura imperdível - que nos conta a revolta dos tripulantes de um barco de pesca, submetidos a uma exploração brutal, forçados a trabalhar até ao esgotamento e sujeitos a castigos de violência extrema, se se atreviam a protestar.
O romance, publicado pela primeira vez am 1929, ressurgiu há dois anos transformando-se num repentino sucesso internacional, uma vez que os leitores modernos, particularmente os jovens japoneses, se identificaram com as personagens que protagonizam o romance.
É um libelo contra o capitalismo explorador e opressor, que confirma TAKIJI KOBAYASHI como um grande escritor e que explica as razões pelas quais ele é conhecido como «o grande escitor do proletariado» e «o mais revolucionário dos escritores japoneses».
Insisto: é um livro de leitura imperdível.
A edição portuguesa fornece alguns dados sobre a vida do Autor.
TAKIJI KOBAYASHI nasceu em 1903.
Concluídos os estudos, foi trabalhar para um dos principais bancos do Japão - e escreve os seus primeiros contos.
Nas suas obras, o compromisso político e o valor literário confluem para a luta contra a injustiça social.
Aos 23 anos aderiu ao Partido Comunista Japonês, tendo sido preso várias vezes pela sua actividade revolucionária.
Despedido pelo banco foi eleito secretário da Associação de Escritores Japoneses.
No dia 21 de Fevereiro de 1933, foi preso, na rua.
Cinco horas depois estava morto devido às bárbaras torturas que lhe foram infligidas - recusando-se sempre a falar e a fornecer à polícia nomes de outros camaradas.
A polícia levou o cadáver para o hospital, onde obteve uma certidão de óbito falsa, na qual o médico o declarou morto por ataque cardíaco...
Chamaram os pais para que levassem o corpo.
A mãe - que simpatizava com a ideologia do filho - virou-se para os agentes da polícia e, olhando-os nos olhos, disse-lhes que jamais acreditaria na história da morte por causas naturais.
Pediu que não lhe dessem um funeral religioso, mas um funeral adequado a um trabalhador.
Oa amigos tentaram obter uma autópsia noutros centros hospitalares, mas ninguém aceitou fazê-la, receando represálias.
As fotografias que tiraram ao cadáver, mostravam ferimentos horríveis:
as costas estavam queimadas;
dos joelhos às canelas, a carne estava inchada e púrpura devido a hemorragias internas;
nos pulsos, um dos quais estava partido, viam-se as marcas das algemas;
à volta do pescoço havia equimoses, causadas por uma corda fina e cortante;
na testa via-se a marca de um ferro em brasa...
A polícia prendeu mais de trezentas pessoas que velavam a urna do jovem assassinado e devolveu todas as coroas fúnebres, inclusive a coroa enviada pela Associação de Escritores.
Nem assim conseguiu impedir a grandiosa homenagem prestada a TAKIJI KOBAYASHI por milhares de trabalhadores e camponeses no funeral, realizado em 15 de Março - data do quinto aniversário de uma vaga de prisões de militantes comunistas, que fora tema de um conto escrito por TAKIJI KOBAYASHI: A Aldeia de Numajiri.
Em todos os grandes centros urbanos, trabalhadores e estudantes saíram às ruas, manifestando-se e distribuindo folhetos nos quais denunciavam aquele crime hediondo.
TAKIJI KOBAYASHI.
Dele foi publicado recentemente, pela editora Clube do Autor, o romance O Navio dos Homens.
Trata-se de uma obra notável - e de leitura imperdível - que nos conta a revolta dos tripulantes de um barco de pesca, submetidos a uma exploração brutal, forçados a trabalhar até ao esgotamento e sujeitos a castigos de violência extrema, se se atreviam a protestar.
O romance, publicado pela primeira vez am 1929, ressurgiu há dois anos transformando-se num repentino sucesso internacional, uma vez que os leitores modernos, particularmente os jovens japoneses, se identificaram com as personagens que protagonizam o romance.
É um libelo contra o capitalismo explorador e opressor, que confirma TAKIJI KOBAYASHI como um grande escritor e que explica as razões pelas quais ele é conhecido como «o grande escitor do proletariado» e «o mais revolucionário dos escritores japoneses».
Insisto: é um livro de leitura imperdível.
A edição portuguesa fornece alguns dados sobre a vida do Autor.
TAKIJI KOBAYASHI nasceu em 1903.
Concluídos os estudos, foi trabalhar para um dos principais bancos do Japão - e escreve os seus primeiros contos.
Nas suas obras, o compromisso político e o valor literário confluem para a luta contra a injustiça social.
Aos 23 anos aderiu ao Partido Comunista Japonês, tendo sido preso várias vezes pela sua actividade revolucionária.
Despedido pelo banco foi eleito secretário da Associação de Escritores Japoneses.
No dia 21 de Fevereiro de 1933, foi preso, na rua.
Cinco horas depois estava morto devido às bárbaras torturas que lhe foram infligidas - recusando-se sempre a falar e a fornecer à polícia nomes de outros camaradas.
A polícia levou o cadáver para o hospital, onde obteve uma certidão de óbito falsa, na qual o médico o declarou morto por ataque cardíaco...
Chamaram os pais para que levassem o corpo.
A mãe - que simpatizava com a ideologia do filho - virou-se para os agentes da polícia e, olhando-os nos olhos, disse-lhes que jamais acreditaria na história da morte por causas naturais.
Pediu que não lhe dessem um funeral religioso, mas um funeral adequado a um trabalhador.
Oa amigos tentaram obter uma autópsia noutros centros hospitalares, mas ninguém aceitou fazê-la, receando represálias.
As fotografias que tiraram ao cadáver, mostravam ferimentos horríveis:
as costas estavam queimadas;
dos joelhos às canelas, a carne estava inchada e púrpura devido a hemorragias internas;
nos pulsos, um dos quais estava partido, viam-se as marcas das algemas;
à volta do pescoço havia equimoses, causadas por uma corda fina e cortante;
na testa via-se a marca de um ferro em brasa...
A polícia prendeu mais de trezentas pessoas que velavam a urna do jovem assassinado e devolveu todas as coroas fúnebres, inclusive a coroa enviada pela Associação de Escritores.
Nem assim conseguiu impedir a grandiosa homenagem prestada a TAKIJI KOBAYASHI por milhares de trabalhadores e camponeses no funeral, realizado em 15 de Março - data do quinto aniversário de uma vaga de prisões de militantes comunistas, que fora tema de um conto escrito por TAKIJI KOBAYASHI: A Aldeia de Numajiri.
Em todos os grandes centros urbanos, trabalhadores e estudantes saíram às ruas, manifestando-se e distribuindo folhetos nos quais denunciavam aquele crime hediondo.
TAKIJI KOBAYASHI.
POEMA
JURO NUNCA ME RENDER
Pela minha terra clara
e o povo que nela habita
e fala a língua que eu falo,
juro nunca me render.
Pelo menino que fui
e o sossego que desejo
para o velho que serei,
juro nunca me render.
Pelas árvores fecundas
que nos dão frutos gostosos
e as aves que nelas cantam,
juro nunca me render.
Pelo céu que não tem margens
e as suas nuvens boiando
sem remorso nem receio,
juro nunca me render.
Pelas montanhas e rios
e mares que os rios buscam,
com o seu murmúrio fundo,
juro nunca me render.
Pelo sol e pela chuva
e pelo vento disperso
e pela plácida lua,
juro nunca me render.
Pelas flores delicadas
e as borboletas irmãs
que nos livros espalmei,
juro nunca me render.
Pelo riso que me alegra,
com a sua nitidez
de guizos e de alvorada,
juro nunca me render.
Pela verdade que afirmo,
dos que a verdade demandam
até à contradição,
juro nunca me render.
Pela exaltação que estua
nos protestos que não escondo
e a justiça que os provoca,
juro nunca me render.
Pelas lágrimas dos pobres
e o pão escasso que comem
e o vinho rude que bebem,
juro nunca me render.
Pelas prisões em que estive
e os gritos que lá esmaguei
contra as mãos enclavinhadas,
juro nunca me render.
Pelos meus pais e meus avós
e os avós dos avós deles,
com o seu suor antigo,
juro nunca me render.
Pelas balas que vararam
tantos peitos de homens justos,
por amarem muito a vida,
juro nunca me render.
Pelas esperanças que tenho,
pelas certzeas que traço,
pelos caminhos que piso,
juro nunca me render.
Pelos amigos queridos
e os companheiros de ideias,
que são amigos também,
juro nunca me render.
Pela mulher a quem amo,
pelo amor que me tem,
pela filha que é dos dois,
juro nunca me render.
E até pelos inimigos,
que odeiam a liberdade,
e por isso não são livres,
juro nunca me render.
Armindo Rodrigues
Pela minha terra clara
e o povo que nela habita
e fala a língua que eu falo,
juro nunca me render.
Pelo menino que fui
e o sossego que desejo
para o velho que serei,
juro nunca me render.
Pelas árvores fecundas
que nos dão frutos gostosos
e as aves que nelas cantam,
juro nunca me render.
Pelo céu que não tem margens
e as suas nuvens boiando
sem remorso nem receio,
juro nunca me render.
Pelas montanhas e rios
e mares que os rios buscam,
com o seu murmúrio fundo,
juro nunca me render.
Pelo sol e pela chuva
e pelo vento disperso
e pela plácida lua,
juro nunca me render.
Pelas flores delicadas
e as borboletas irmãs
que nos livros espalmei,
juro nunca me render.
Pelo riso que me alegra,
com a sua nitidez
de guizos e de alvorada,
juro nunca me render.
Pela verdade que afirmo,
dos que a verdade demandam
até à contradição,
juro nunca me render.
Pela exaltação que estua
nos protestos que não escondo
e a justiça que os provoca,
juro nunca me render.
Pelas lágrimas dos pobres
e o pão escasso que comem
e o vinho rude que bebem,
juro nunca me render.
Pelas prisões em que estive
e os gritos que lá esmaguei
contra as mãos enclavinhadas,
juro nunca me render.
Pelos meus pais e meus avós
e os avós dos avós deles,
com o seu suor antigo,
juro nunca me render.
Pelas balas que vararam
tantos peitos de homens justos,
por amarem muito a vida,
juro nunca me render.
Pelas esperanças que tenho,
pelas certzeas que traço,
pelos caminhos que piso,
juro nunca me render.
Pelos amigos queridos
e os companheiros de ideias,
que são amigos também,
juro nunca me render.
Pela mulher a quem amo,
pelo amor que me tem,
pela filha que é dos dois,
juro nunca me render.
E até pelos inimigos,
que odeiam a liberdade,
e por isso não são livres,
juro nunca me render.
Armindo Rodrigues
ISENÇÃO E ÁGUA BENTA...
Confesso: não estava nos meus planos voltar tão cedo ao Cardeal Patriarca.
Mas, o que é querem?, o DN entrevistou-o...
A entrevista é grande, longa, enorme, pelo que, limitar-me-ei a referir a parte que diz respeito às eleições presidenciais, à posição do Cardeal sobre elas e à posição dele e da Igreja sobre eleições em geral...
À pergunta sobre se «a reeleição de Cavaco Silva seria favorável para a pacificação da situação nacional», o Cardeal respondeu que sente que sim: «Cavaco Silva é favorável àquilo que for melhor para Portugal».
Mas logo advertiu que, «com orientação nossa (isto é: dele, Cardeal), não haverá apelo ao voto», porque, lembrou: «costumamos ser o mais isentos possível a esse respeito».
E ele próprio, Cardeal, fez questão de assegurar: «Eu sou realmente o mais isento possível»...
Pronto, Cardeal, não é preciso insistir - convenceu-me: «isenção» é consigo e com a sua Igreja...
Aliás, é essa «isenção» que, como se está mesmo a ver, o torna «incapaz de sugerir um candidato».
Isto, na situação actual, porque «em situações extremas de risco para a Nação», aí, a «isenção» é outra...
Ou seja: há situações - «situações extremas», obviamente - em que é necessário a Igreja apelar publicamente ao voto. Apelar, especialmente, ao não-voto...
Porque, «isenção», sim, mas com a conta, o peso e a medida adequados a cada momento...
E o que são «situações extremas», de tal modo «extremas» que levam o Cardeal e a sua Igreja, em actos eleitorais, a optar pela outra «isenção»?
O Cardeal podia, se quisesse, ter dado exemplos vários de eleições em Portugal - desde o tempo do fascismo até agora - em que centenas de padres em milhares de missas prègaram o voto neste ou naquele e, sempre, o não-voto nos comunistas...
Mas optou por dar um «exemplo» mais abrangente, digamos assim: «o exemplo do pós-guerra, em Itália, em que havia o perigo de o Partido Comunista conquistar o poder»
Ora aí está!: face ao «perigo comunista», a «isenção» dizia que votar nos comunistas é votar no Diabo, pelo que é nos anti-comunistas que deveis votar, irmãos, e não deveis abster-vos porque a abstenção é pecado...
E, mostrando que, naquelas circunstâncias, a abstenção não passava de uma «isenção» pecaminosa, o Cardeal lembrou que «o Papa Pio XII até deu ordem às carmelitas, freiras de clausura, para irem votar»...
Tudo isto, num tempo - digo eu - em que o Papa, vergado ao peso das preocupações, vivia, porventura, uma angustiante crise de fé, repetindo e repetindo a dilacerante pergunta: como é que Deus - omnipotente, omnipresente e omnisciente - tinha permitido a derrota dos seus amigos nazis, ainda por cima derrotados graças, essencialmente, ao Exército Vermelho e ao povo soviético?...
Tudo isto, num tempo - insisto eu - em que o pio Papa se via a braços com a pia tarefa de assegurar passaportes falsos para os criminosos nazis em fuga e o envio destes para os países onde lhes era garantida segurança...
Preocupações, crise de fé e tarefa a confirmar que isenção e água benta cada qual toma a que quer...
Mas, o que é querem?, o DN entrevistou-o...
A entrevista é grande, longa, enorme, pelo que, limitar-me-ei a referir a parte que diz respeito às eleições presidenciais, à posição do Cardeal sobre elas e à posição dele e da Igreja sobre eleições em geral...
À pergunta sobre se «a reeleição de Cavaco Silva seria favorável para a pacificação da situação nacional», o Cardeal respondeu que sente que sim: «Cavaco Silva é favorável àquilo que for melhor para Portugal».
Mas logo advertiu que, «com orientação nossa (isto é: dele, Cardeal), não haverá apelo ao voto», porque, lembrou: «costumamos ser o mais isentos possível a esse respeito».
E ele próprio, Cardeal, fez questão de assegurar: «Eu sou realmente o mais isento possível»...
Pronto, Cardeal, não é preciso insistir - convenceu-me: «isenção» é consigo e com a sua Igreja...
Aliás, é essa «isenção» que, como se está mesmo a ver, o torna «incapaz de sugerir um candidato».
Isto, na situação actual, porque «em situações extremas de risco para a Nação», aí, a «isenção» é outra...
Ou seja: há situações - «situações extremas», obviamente - em que é necessário a Igreja apelar publicamente ao voto. Apelar, especialmente, ao não-voto...
Porque, «isenção», sim, mas com a conta, o peso e a medida adequados a cada momento...
E o que são «situações extremas», de tal modo «extremas» que levam o Cardeal e a sua Igreja, em actos eleitorais, a optar pela outra «isenção»?
O Cardeal podia, se quisesse, ter dado exemplos vários de eleições em Portugal - desde o tempo do fascismo até agora - em que centenas de padres em milhares de missas prègaram o voto neste ou naquele e, sempre, o não-voto nos comunistas...
Mas optou por dar um «exemplo» mais abrangente, digamos assim: «o exemplo do pós-guerra, em Itália, em que havia o perigo de o Partido Comunista conquistar o poder»
Ora aí está!: face ao «perigo comunista», a «isenção» dizia que votar nos comunistas é votar no Diabo, pelo que é nos anti-comunistas que deveis votar, irmãos, e não deveis abster-vos porque a abstenção é pecado...
E, mostrando que, naquelas circunstâncias, a abstenção não passava de uma «isenção» pecaminosa, o Cardeal lembrou que «o Papa Pio XII até deu ordem às carmelitas, freiras de clausura, para irem votar»...
Tudo isto, num tempo - digo eu - em que o Papa, vergado ao peso das preocupações, vivia, porventura, uma angustiante crise de fé, repetindo e repetindo a dilacerante pergunta: como é que Deus - omnipotente, omnipresente e omnisciente - tinha permitido a derrota dos seus amigos nazis, ainda por cima derrotados graças, essencialmente, ao Exército Vermelho e ao povo soviético?...
Tudo isto, num tempo - insisto eu - em que o pio Papa se via a braços com a pia tarefa de assegurar passaportes falsos para os criminosos nazis em fuga e o envio destes para os países onde lhes era garantida segurança...
Preocupações, crise de fé e tarefa a confirmar que isenção e água benta cada qual toma a que quer...
POEMA
HOMEM, ABRE OS OLHOS E VERÁS
Homem,
abre os olhos e verás
em cada outro homem um irmão.
Homem,
as paixões que te consomem
não são boas nem são más.
São a tua condição.
A paz,
porém, só a terás,
quando o pão que os outros comem,
homem,
for igual ao teu pão.
Armindo Rodrigues
Homem,
abre os olhos e verás
em cada outro homem um irmão.
Homem,
as paixões que te consomem
não são boas nem são más.
São a tua condição.
A paz,
porém, só a terás,
quando o pão que os outros comem,
homem,
for igual ao teu pão.
Armindo Rodrigues
O ELOGIO DA POBREZA
«Não olhemos só para aquilo de que nos privaram ou nos obrigaram a pagar mais; mas partilhemos generosamente o que temos com os que menos têm»: palavras do Cardeal Patriarca de Lisboa, José Policarpo, na sua tradicional mensagem de Natal.
Santas palavras, estas, que nos ensinam tudo o que devemos saber, a saber: a resignação face à «inevitabilidade» das «medidas de austeridade», e a prática da caridade - com os que têm, a dar, generosamente, aos que não têm - como solução para a «crise»...
É claro que o Cardeal sabe que «para muitas famílias, este não será um Natal fácil»...
Todavia, será isso razão para que seja um Natal triste?; será isso impedimento para que este seja um Natal com alegria?
Não, irmãos, não é - da mesma forma que «há dois mil anos, a alegria daquele nascimento não foi impedida pela pobreza da gruta»...
Por isso, em verdade vos digo, irmãos: «esta crise pode suscitar, em cada um de nós, este espírito de solidariedade» - a «solidariedade» da esmola, da caridade, do amor aos pobrezinhos, aos quais devemos dar tudo o que sobra do nosso prato...
Por isso, haja alegria, irmãos!: «A pobreza não impede, necessariamente, a alegria».
Por isso, façamos todos, irmãos, o elogio da pobreza, louvemo-la como Obra de Deus que é.
Feliz Natal, irmãos!...
Santas palavras, estas, que nos ensinam tudo o que devemos saber, a saber: a resignação face à «inevitabilidade» das «medidas de austeridade», e a prática da caridade - com os que têm, a dar, generosamente, aos que não têm - como solução para a «crise»...
É claro que o Cardeal sabe que «para muitas famílias, este não será um Natal fácil»...
Todavia, será isso razão para que seja um Natal triste?; será isso impedimento para que este seja um Natal com alegria?
Não, irmãos, não é - da mesma forma que «há dois mil anos, a alegria daquele nascimento não foi impedida pela pobreza da gruta»...
Por isso, em verdade vos digo, irmãos: «esta crise pode suscitar, em cada um de nós, este espírito de solidariedade» - a «solidariedade» da esmola, da caridade, do amor aos pobrezinhos, aos quais devemos dar tudo o que sobra do nosso prato...
Por isso, haja alegria, irmãos!: «A pobreza não impede, necessariamente, a alegria».
Por isso, façamos todos, irmãos, o elogio da pobreza, louvemo-la como Obra de Deus que é.
Feliz Natal, irmãos!...
POEMA
SIMPLIFICAÇÃO
O mundo é cada vez mais complexo,
mas é cada vez mais simples entendê-lo.
Armindo Rodrigues
O mundo é cada vez mais complexo,
mas é cada vez mais simples entendê-lo.
Armindo Rodrigues
BOM NATAL?
Que escrever neste Natal?
Primeiro, pensei escrever sobre Cavaco:
depois de tudo o que o homenzinho disse sobre as suas poupanças, seria educativo comentar a notícia de que, afinal, ele «é o candidato que vai gastar mais nas presidenciais»;
depois de tudo o que é sabido sobre os seus «investimentos» em acções da SLN/BPN e os resultados que obteve, daria pano para mangas a afirmação do «investidor» de que «para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes».
Depois, pensei escrever sobre os aumentos dos géneros, os quais, acrescentados «com o aumento do IVA vão, em vários casos, sofrer aumentos acima dos 10%» - é o caso do pão, que «aumentará 12%».
Na sequência - e porque se tratava de aumentos - pensei escrever sobre o aumento do desemprego, que já vai em 11% e «continuará a subir em 2011».
Ainda na sequência, pensei escrever sobre os cortes nos salários e nas pensões - e sobre as «50 medidas» que o Governo vai acrescentar aos PEC's 1, 2, 3, 4 e ao Orçamento de Estado.
Finalmente, deparei com esta:
«Agências de rating dizem que Portugal já não está na Zona Euro» - traduzindo: «os planos de austeridade do Governo convencem pouco»...
Aqui chegado, decidi nada escrever - pensando, com os meus botões: para correr com esta cambada vamos ter que lutar muito.
Bom Natal?...
Primeiro, pensei escrever sobre Cavaco:
depois de tudo o que o homenzinho disse sobre as suas poupanças, seria educativo comentar a notícia de que, afinal, ele «é o candidato que vai gastar mais nas presidenciais»;
depois de tudo o que é sabido sobre os seus «investimentos» em acções da SLN/BPN e os resultados que obteve, daria pano para mangas a afirmação do «investidor» de que «para serem mais honestos do que eu têm de nascer duas vezes».
Depois, pensei escrever sobre os aumentos dos géneros, os quais, acrescentados «com o aumento do IVA vão, em vários casos, sofrer aumentos acima dos 10%» - é o caso do pão, que «aumentará 12%».
Na sequência - e porque se tratava de aumentos - pensei escrever sobre o aumento do desemprego, que já vai em 11% e «continuará a subir em 2011».
Ainda na sequência, pensei escrever sobre os cortes nos salários e nas pensões - e sobre as «50 medidas» que o Governo vai acrescentar aos PEC's 1, 2, 3, 4 e ao Orçamento de Estado.
Finalmente, deparei com esta:
«Agências de rating dizem que Portugal já não está na Zona Euro» - traduzindo: «os planos de austeridade do Governo convencem pouco»...
Aqui chegado, decidi nada escrever - pensando, com os meus botões: para correr com esta cambada vamos ter que lutar muito.
Bom Natal?...
POEMA
NENHUM PRÉMIO, POR MAIOR...
Nenhum prémio, por maior,
vale as dores da liberdade.
Siga o seu próprio pendor
quem de segui-lo se agrade.
Ninguém chore um bem perdido.
Há muitos bens por achar.
Sonhos ocos de sentido
porque havemos de os sonhar?
A liberdade não é
de se dar, mas de tomar-se.
Liberdade que se dê
é apenas um disfarce.
Armindo Rodrigues
Nenhum prémio, por maior,
vale as dores da liberdade.
Siga o seu próprio pendor
quem de segui-lo se agrade.
Ninguém chore um bem perdido.
Há muitos bens por achar.
Sonhos ocos de sentido
porque havemos de os sonhar?
A liberdade não é
de se dar, mas de tomar-se.
Liberdade que se dê
é apenas um disfarce.
Armindo Rodrigues
A ORDEM NATURAL DAS COISAS
Há um ano, por esta altura, os donos disto tudo proclamaram que 2010 seria o «Ano Europeu de Combate à Pobreza e à Exclusão Social».
A proclamação fez o seu caminho normal: foi notícia destacada em todos os média dominantes; proporcionou declarações de amor ao próximo por parte de todos os governantes e seus derivados; alimentou ilusões nos pobres e nos excluídos...
O resultado foi o que estava previsto.
Por cá, sabemos como é: há mais exclusão social, há mais pobres, há mais miséria, há mais fome - não obstante os ciclópicos esforços dos governantes, a começar pelo inevitável Cavaco, que ainda há dias nos relembrou a sua meritória acção na luta contra a pobreza: vejam bem que o homenzinho falou da pobreza em vários discursos; alertou para ela em várias declarações presidenciais; e todos os natais visitou instituições de caridade...
«É a crise» - dizem os donos disto tudo - «e a crise toca a todos e todos terão que fazer sacrifícios»...
Dito por outras palavras: é «a ordem natural das coisas», ou seja, toda a gente sabe que ricos e pobres sempre houve e há-de haver e nisso reside a suprema harmonia do mundo...
E é para garantir essa harmoniosa relação que «a crise» providenciou no sentido de os lucros dos donos disto tudo continuarem a aumentar - porque, digam lá, se não houvesse ricos quem é que daria esmolas aos pobres?, quem é que combateria a pobreza?...
E em 2011?
Em 2011, naturalmente, o «combate à pobreza» continuará.
Começa já em Janeiro.
E começa em cheio, na medida em que aos cortes nos salários e nas pensões vai juntar-se o brutal aumento do custo de vida.
E a tudo isso juntar-se-ão, logo a seguir, as 50 medidas já anunciadas por esse intrépido soldado do combate à pobreza que é José Sócrates.
Tudo isto a confirmar o que já sabemos: o combate, de facto, à pobreza passa, primeiro, pela derrota da política de direita e pela sua substituição por uma política de esquerda, patriótica e vinculada aos valores de Abril.
E passa, a seguir, pela liquidação do capitalismo e pela construção de uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração: a sociedade socialista e comunista.
Quando lá chegarmos... acabaram-se os «anos de combate à pobreza e à exclusão social»...
E as coisas passarão a reger-se por uma outra ordem: esta, sim, natural.
A proclamação fez o seu caminho normal: foi notícia destacada em todos os média dominantes; proporcionou declarações de amor ao próximo por parte de todos os governantes e seus derivados; alimentou ilusões nos pobres e nos excluídos...
O resultado foi o que estava previsto.
Por cá, sabemos como é: há mais exclusão social, há mais pobres, há mais miséria, há mais fome - não obstante os ciclópicos esforços dos governantes, a começar pelo inevitável Cavaco, que ainda há dias nos relembrou a sua meritória acção na luta contra a pobreza: vejam bem que o homenzinho falou da pobreza em vários discursos; alertou para ela em várias declarações presidenciais; e todos os natais visitou instituições de caridade...
«É a crise» - dizem os donos disto tudo - «e a crise toca a todos e todos terão que fazer sacrifícios»...
Dito por outras palavras: é «a ordem natural das coisas», ou seja, toda a gente sabe que ricos e pobres sempre houve e há-de haver e nisso reside a suprema harmonia do mundo...
E é para garantir essa harmoniosa relação que «a crise» providenciou no sentido de os lucros dos donos disto tudo continuarem a aumentar - porque, digam lá, se não houvesse ricos quem é que daria esmolas aos pobres?, quem é que combateria a pobreza?...
E em 2011?
Em 2011, naturalmente, o «combate à pobreza» continuará.
Começa já em Janeiro.
E começa em cheio, na medida em que aos cortes nos salários e nas pensões vai juntar-se o brutal aumento do custo de vida.
E a tudo isso juntar-se-ão, logo a seguir, as 50 medidas já anunciadas por esse intrépido soldado do combate à pobreza que é José Sócrates.
Tudo isto a confirmar o que já sabemos: o combate, de facto, à pobreza passa, primeiro, pela derrota da política de direita e pela sua substituição por uma política de esquerda, patriótica e vinculada aos valores de Abril.
E passa, a seguir, pela liquidação do capitalismo e pela construção de uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração: a sociedade socialista e comunista.
Quando lá chegarmos... acabaram-se os «anos de combate à pobreza e à exclusão social»...
E as coisas passarão a reger-se por uma outra ordem: esta, sim, natural.
POEMA
A CADA UM CHEGA UM POUCO...
A cada um chega um pouco
do que para todos chega.
Quem o quer diz-se que é louco.
Mas por que é que se lho nega?
É porque a verdade assusta
que a mentira persuade.
A unidade mais justa
nasce da variedade.
Querer só não é querer.
Não há querer sem acção.
O próprio pão, para o ser,
primeiro rebenta o chão.
Armindo Rodrigues
A cada um chega um pouco
do que para todos chega.
Quem o quer diz-se que é louco.
Mas por que é que se lho nega?
É porque a verdade assusta
que a mentira persuade.
A unidade mais justa
nasce da variedade.
Querer só não é querer.
Não há querer sem acção.
O próprio pão, para o ser,
primeiro rebenta o chão.
Armindo Rodrigues
O TIRA-TEIMAS...
Eu já sabia que Francisco Lopes é portador de um projecto para Portugal que situa nos antípodas do cavacal projecto - o primeiro, tendo como referência fulcral a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País; o segundo, exclusivamente virado para a defesa dos grandes grupos económicos e financeiros.
Mas gostei de ver essa diferença, ao vivo - clara e inequívoca - no debate de ontem.
Eu já sabia que a candidatura de Francisco Lopes é a única que não só não está comprometida com a política de direita que conduziu o País à sitação actual, como é a única que combate essa política e lhe contrapõe uma alternativa - de esquerda, patriótica, vinculada aos valores de Abril, assumidamente com os trabalhadores.
Mas gostei de ver confirmada, ao vivo, essa singularidade no debate de ontem.
Eu já sabia das profundas diferenças - intelectuais, culturais, de conhecimento, políticas, humanas... - existentes entre Francisco Lopes e Cavaco Silva.
Mas gostei de ver essas diferenças, ao vivo, no decorrer do debate que opôs o candidato da política de esquerda a mais este candidato da política de direita.
E gostei de ver, no DN de hoje, o reconhecimento da vitória de Francisco Lopes no debate.
E gostei de ver, no mesmo DN, a transcrição deste grandíloqua tirada de Cavaco Silva, atirada contra Francisco Lopes:
«O futuro de Portugal não se trata com radicalismos, extremismos ou retórica».
E gostei de ver, ainda no DN, a transcrição da resposta de Francisco Lopes:
«Não há maior radicalismo do que aceitar a versão dos mercados e abdicar dos interesses nacionais ou aprovar um orçamento que vai gerar mais recessão e desemprego».
Ou seja: este debate foi um verdadeiro tira-teimas - para quem teimasse...
Mas gostei de ver essa diferença, ao vivo - clara e inequívoca - no debate de ontem.
Eu já sabia que a candidatura de Francisco Lopes é a única que não só não está comprometida com a política de direita que conduziu o País à sitação actual, como é a única que combate essa política e lhe contrapõe uma alternativa - de esquerda, patriótica, vinculada aos valores de Abril, assumidamente com os trabalhadores.
Mas gostei de ver confirmada, ao vivo, essa singularidade no debate de ontem.
Eu já sabia das profundas diferenças - intelectuais, culturais, de conhecimento, políticas, humanas... - existentes entre Francisco Lopes e Cavaco Silva.
Mas gostei de ver essas diferenças, ao vivo, no decorrer do debate que opôs o candidato da política de esquerda a mais este candidato da política de direita.
E gostei de ver, no DN de hoje, o reconhecimento da vitória de Francisco Lopes no debate.
E gostei de ver, no mesmo DN, a transcrição deste grandíloqua tirada de Cavaco Silva, atirada contra Francisco Lopes:
«O futuro de Portugal não se trata com radicalismos, extremismos ou retórica».
E gostei de ver, ainda no DN, a transcrição da resposta de Francisco Lopes:
«Não há maior radicalismo do que aceitar a versão dos mercados e abdicar dos interesses nacionais ou aprovar um orçamento que vai gerar mais recessão e desemprego».
Ou seja: este debate foi um verdadeiro tira-teimas - para quem teimasse...
POEMA
DESTA LAMA...
Desta lama de folhas amassadas,
que o varredor com a vassoira varre,
espreita a promessa já de novas folhas.
Armindo Rodrigues
Desta lama de folhas amassadas,
que o varredor com a vassoira varre,
espreita a promessa já de novas folhas.
Armindo Rodrigues
QUE GRAÇA QUE ELE TEM
O candidato Cavaco todos os dias nos proporciona exuberantes demonstrações das suas excelsas qualidades.
Arrasa-nos com exibições da sua vasta cultura.
Esmaga-nos com o fulgor da sua penetrante inteligência.
Cega-nos com a luz deslumbrante do seu saber.
Ele já leu, uma vez, um-livro-um.
Ele nunca tem dúvidas e raras vezes se engana.
Ele sabe tudo, tudo, tudo - tudo.
Como se tudo isso não bastasse, destroça-nos com aquele seu inigualável sorriso, onde a cultura, a inteligência e o saber se fundem numa ironia arrasadora, esmagadora, penetrante e deslumbrante.
E não perde uma única oportunidade de fazer humor - e de o fazer a sorrir com o tal sorriso e, depois, a rir, ele próprio, das graças que diz.
E nessa matéria não há pai para ele.
(nessa matéria e, infelizmente, não só: também não há pai para ele em tempo de ocupação de cargos e em malfeitorias praticadas contra os trabalhadores, o povo e o País)
Há dias, dirigindo-se ao filho do treinador de futebol Fernando Santos, actualmente a treinar uma equipa grega, o candidato Cavaco, visivelmente em hora de suprema inspiração humorística, perguntou:
«O seu pai não se sente grego no meio do futebol grego?» - e riu, riu, riu...
Pronto: cada um ri daquilo a que acha graça - e Cavaco acha-se graça...
E convenhamos que razões não lhe faltam...
O mal é que, sabemo-lo há décadas, a graça dele é a nossa desgraça.
Arrasa-nos com exibições da sua vasta cultura.
Esmaga-nos com o fulgor da sua penetrante inteligência.
Cega-nos com a luz deslumbrante do seu saber.
Ele já leu, uma vez, um-livro-um.
Ele nunca tem dúvidas e raras vezes se engana.
Ele sabe tudo, tudo, tudo - tudo.
Como se tudo isso não bastasse, destroça-nos com aquele seu inigualável sorriso, onde a cultura, a inteligência e o saber se fundem numa ironia arrasadora, esmagadora, penetrante e deslumbrante.
E não perde uma única oportunidade de fazer humor - e de o fazer a sorrir com o tal sorriso e, depois, a rir, ele próprio, das graças que diz.
E nessa matéria não há pai para ele.
(nessa matéria e, infelizmente, não só: também não há pai para ele em tempo de ocupação de cargos e em malfeitorias praticadas contra os trabalhadores, o povo e o País)
Há dias, dirigindo-se ao filho do treinador de futebol Fernando Santos, actualmente a treinar uma equipa grega, o candidato Cavaco, visivelmente em hora de suprema inspiração humorística, perguntou:
«O seu pai não se sente grego no meio do futebol grego?» - e riu, riu, riu...
Pronto: cada um ri daquilo a que acha graça - e Cavaco acha-se graça...
E convenhamos que razões não lhe faltam...
O mal é que, sabemo-lo há décadas, a graça dele é a nossa desgraça.
POEMA
IDEIAS BOAS OU MÁS
Ideias boas ou más,
actos maus e actos bons,
é a vida quem os faz,
ou são os seus próprios dons?
A quem negue a liberdade
vá-se ao extremo de a impor.
Não é com meia verdade
que uma verdade dá flor.
E não se tenha receio
de perder para ganhar.
A liberdade é um meio
de a vida se libertar.
Armindo Rodrigues
Ideias boas ou más,
actos maus e actos bons,
é a vida quem os faz,
ou são os seus próprios dons?
A quem negue a liberdade
vá-se ao extremo de a impor.
Não é com meia verdade
que uma verdade dá flor.
E não se tenha receio
de perder para ganhar.
A liberdade é um meio
de a vida se libertar.
Armindo Rodrigues
OS CANDIDATOS «INDEPENDENTES»
Nas últimas eleições presidenciais, coube a Manuel Alegre representar o papel de candidato «independente» - é há que reconhecer a sua brilhante prestação, o destemor com que se bateu contra os «espartilhos partidários» e pela «independência cidadã»...
Sublinhe-se que, para Alegre, não era fácil representar esse papel, na medida em que, na altura, já era credor de mais de 30 anos de militância partidária, a maior parte dos quais como deputado - para além de outras importantes tarefas que cumpriu com igual brio partidário, como a de correio da contra-revolução (corrida a Spínola/Massamá, corrida a Soares/Largo do Rato...), levando e trazendo novas sobre o golpe em preparação enquanto, nos intervalos, escrevia incandescentes poemas à liberdade, liberdade!
Este ano, Alegre, seguindo uma prática velha no seu partido, fechou na gaveta os «espartilhos partidários» e a «independência cidadã» e abriu as portas ao apoio de dois-partidos-dois: o BE e o PS (por ordem de entrada em cena).
E ele aí anda, o Alegre. Igual a si próprio. Uma tristeza.
Nas eleições em curso, coube a Fernando Nobre substituir Alegre como candidato «independente».
Nobre -que, enquanto candidato, nasceu, ao que se diz, de pai conhecidíssimo e de mãe incógnita - está bem lançado no cumprimento da tarefa de «independente»: a todo o lado onde vai, ele dispara sucessivas rajadas contra «os partidos» e os seus malefícios.
E fá-lo com tal arreganho, intencionalidade e pontaria que nos faz lembrar velhos tempos: quando Salazar ordenou a auto-dissolução de todos os partidos existentes e criou a União Nacional - que só não ficou sozinha no terreno porque o PCP decidiu o que só o PCP podia decidir: mergulhar na clandestinidade e resistir.
E é talvez por isso - velhas raivas ainda não digeridas... - que os ataques de Nobre «aos partidos» são acima de tudo, contra o Partido...
Nobre é, então, o candidato «independente» a Presidente da República.
Do seu currículo, atestando a sua inegável aversão aos partidos, deve destacar-se o facto de, em anteriores actos eleitorias, ter apoiado apenas três-partidos-três: PS, PSD e BE (por ordem de entrada em cena) - tudo indicando que o CDS está na calha, e sendo certo que no PCP nem pensar...
Em abono da profundíssima vocação presidencial de que é portador, Nobre invoca o facto relevantíssimo de ter nascido numa «província ultramarina» - lembram-se?: uma daquelas do «Portugal uno e indivisível» que faziam o orgulho do Salazar...- onde foi despertado para as grandes, médias, pequenas e micro causas, no dia em que presenciou a acesa disputa entre uma galinha e uma criança batendo-se por um pedacinho de pão.
E ele aí anda, o Nobre. Igual a si próprio. Uma tristeza.
Sublinhe-se que, para Alegre, não era fácil representar esse papel, na medida em que, na altura, já era credor de mais de 30 anos de militância partidária, a maior parte dos quais como deputado - para além de outras importantes tarefas que cumpriu com igual brio partidário, como a de correio da contra-revolução (corrida a Spínola/Massamá, corrida a Soares/Largo do Rato...), levando e trazendo novas sobre o golpe em preparação enquanto, nos intervalos, escrevia incandescentes poemas à liberdade, liberdade!
Este ano, Alegre, seguindo uma prática velha no seu partido, fechou na gaveta os «espartilhos partidários» e a «independência cidadã» e abriu as portas ao apoio de dois-partidos-dois: o BE e o PS (por ordem de entrada em cena).
E ele aí anda, o Alegre. Igual a si próprio. Uma tristeza.
Nas eleições em curso, coube a Fernando Nobre substituir Alegre como candidato «independente».
Nobre -que, enquanto candidato, nasceu, ao que se diz, de pai conhecidíssimo e de mãe incógnita - está bem lançado no cumprimento da tarefa de «independente»: a todo o lado onde vai, ele dispara sucessivas rajadas contra «os partidos» e os seus malefícios.
E fá-lo com tal arreganho, intencionalidade e pontaria que nos faz lembrar velhos tempos: quando Salazar ordenou a auto-dissolução de todos os partidos existentes e criou a União Nacional - que só não ficou sozinha no terreno porque o PCP decidiu o que só o PCP podia decidir: mergulhar na clandestinidade e resistir.
E é talvez por isso - velhas raivas ainda não digeridas... - que os ataques de Nobre «aos partidos» são acima de tudo, contra o Partido...
Nobre é, então, o candidato «independente» a Presidente da República.
Do seu currículo, atestando a sua inegável aversão aos partidos, deve destacar-se o facto de, em anteriores actos eleitorias, ter apoiado apenas três-partidos-três: PS, PSD e BE (por ordem de entrada em cena) - tudo indicando que o CDS está na calha, e sendo certo que no PCP nem pensar...
Em abono da profundíssima vocação presidencial de que é portador, Nobre invoca o facto relevantíssimo de ter nascido numa «província ultramarina» - lembram-se?: uma daquelas do «Portugal uno e indivisível» que faziam o orgulho do Salazar...- onde foi despertado para as grandes, médias, pequenas e micro causas, no dia em que presenciou a acesa disputa entre uma galinha e uma criança batendo-se por um pedacinho de pão.
E ele aí anda, o Nobre. Igual a si próprio. Uma tristeza.
POEMA
A SOCIEDADE DE CONSUMO É UM BALCÃO
A sociedade de consumo é um balcão.
Nela se vende o pão,
se vende o amor,
se vende o sonho, se vende a bondade,
se vende a justiça, se vende o favor,
se vende o acesso à informação,
se vende a modéstia, se vende a vaidade,
se vende a honra, se vende a fé,
se vende a vontade, que é uma ilusão,
se vende a morte, que não o é.
Armindo Rodrigues
A sociedade de consumo é um balcão.
Nela se vende o pão,
se vende o amor,
se vende o sonho, se vende a bondade,
se vende a justiça, se vende o favor,
se vende o acesso à informação,
se vende a modéstia, se vende a vaidade,
se vende a honra, se vende a fé,
se vende a vontade, que é uma ilusão,
se vende a morte, que não o é.
Armindo Rodrigues
A FRASE DO DEBATE
Os debates continuam...
A bem dizer, não se trata propriamente de debates, mas de entrevistas paralelas, no decorrer das quais, a entrevistadora coloca aos candidatos/entrevistados as questões que, na opinião dela, interessam.
Mas não há nada a fazer, chamam-lhes debates... debates são...
Como habitualmente, os jornais destacam «especialistas» para apreciar o desempenho de cada candidato - e o desempenho do candidato comunista é, regra geral, tratado de acordo com os critérios vigentes nos média dominantes.
Este ano há, contudo, uma diferença: o candidato comunista, Francisco Lopes, sendo em regra, avaliado como «perdedor» no debate... «perde» pela diferença mínima!!! - acontecendo, até, que em alguns casos, lhe é atribuído um «empate» !!!! e, excepcionalmente, uma «vitória»!!!!!...
Quer isto dizer que a notável prestação de Francisco Lopes na campanha eleitoral, obrigou os «especialistas» a esquecerem a desvalorização e menorização que dele fizeram quando a sua candidatura foi anunciada: afinal, o «obscuro», «limitado», etc, etc, candidato do PCP mostra-se seguro, arguto, acutilante, conhecedor dos problemas, claro na exposição das suas ideias, inteligente.
É claro que seria demais exigir que os «especialistas» reconhecessem explicitamente o seu erro de avaliação - em todo o caso há que sublinhar o facto de, implicitamente, o reconhecerem.
Ontem, os entrevistados foram Francisco Lopes e Manuel Alegre.
Sobre o desempenho de ambos, pronunciaram-se, no DN, Filomena Martins, jornalista e A. Perez Metelo, redactor principal.
A jornalista põe Manuel Alegre a «vencer» por 3-2, enquanto o redactor principal se decide por um «empate»: 3-3 - notas de 1 (mínimo) a 5 (máximo)
Quais as razões que levaram uma e outro a pronunciar-se desse modo?
Vejamos:
Filomena acha que, em matéria de «propostas», Alegre «soube conciliar políticas de esquerda com pose de Estado: vincou ser um europeísta, mesmo crítico, e defensor da aprovação do OE» - para além de ter aproveitado «o espaço, o tempo e até as ideias do oponente, para atacar o seu único e real adversário; Cavaco».
Então, para a Filomena, jornalista, «propostas» - «propostas», a sério... - são as que... propõem o mais do mesmo: políticas de direita disfarçadas de esquerda, OE e etc...
Já no que respeita a Francisco Lopes, a mesma Filomena acha que ele «leu de cor e com fluidez a cartilha do PCP: penalizar os ricos, ajudar os pobres. Mas não apresentou soluções ou caminhos» - não obstante ter levado estudada «a lição de colar Alegre às políticas do Governo».
Então, «a cartilha do PCP» foi o que estragou tudo: tivesse Francisco Lopes lido «de cor e com fluidez», a cartilha da Filomena e outra pontuação seria a sua...
Em matéria de «propostas», Metelo lê pela mesma cartilha da colega, sublinhando, no entanto, que Francisco Lopes se «propõe, de forma consistente mobilizar os descontentes com a política do Governo para derrotar Cavaco Silva».
Pronto: fiquemo-nos nos 3-2 da Filomena e nos 3-3 do Metelo...
Mas retenhamos na memória aquela que foi a frase do debate:
«Manuel Alegre está em melhores condições para mobilizar os que apoiam o Governo; eu estou em melhores condições para mobilizar todos os que são contra o Governo».
Mais palavras para quê?: estas dizem tudo.
Por elas, dou nota máxima a Francisco Lopes: 5.
A bem dizer, não se trata propriamente de debates, mas de entrevistas paralelas, no decorrer das quais, a entrevistadora coloca aos candidatos/entrevistados as questões que, na opinião dela, interessam.
Mas não há nada a fazer, chamam-lhes debates... debates são...
Como habitualmente, os jornais destacam «especialistas» para apreciar o desempenho de cada candidato - e o desempenho do candidato comunista é, regra geral, tratado de acordo com os critérios vigentes nos média dominantes.
Este ano há, contudo, uma diferença: o candidato comunista, Francisco Lopes, sendo em regra, avaliado como «perdedor» no debate... «perde» pela diferença mínima!!! - acontecendo, até, que em alguns casos, lhe é atribuído um «empate» !!!! e, excepcionalmente, uma «vitória»!!!!!...
Quer isto dizer que a notável prestação de Francisco Lopes na campanha eleitoral, obrigou os «especialistas» a esquecerem a desvalorização e menorização que dele fizeram quando a sua candidatura foi anunciada: afinal, o «obscuro», «limitado», etc, etc, candidato do PCP mostra-se seguro, arguto, acutilante, conhecedor dos problemas, claro na exposição das suas ideias, inteligente.
É claro que seria demais exigir que os «especialistas» reconhecessem explicitamente o seu erro de avaliação - em todo o caso há que sublinhar o facto de, implicitamente, o reconhecerem.
Ontem, os entrevistados foram Francisco Lopes e Manuel Alegre.
Sobre o desempenho de ambos, pronunciaram-se, no DN, Filomena Martins, jornalista e A. Perez Metelo, redactor principal.
A jornalista põe Manuel Alegre a «vencer» por 3-2, enquanto o redactor principal se decide por um «empate»: 3-3 - notas de 1 (mínimo) a 5 (máximo)
Quais as razões que levaram uma e outro a pronunciar-se desse modo?
Vejamos:
Filomena acha que, em matéria de «propostas», Alegre «soube conciliar políticas de esquerda com pose de Estado: vincou ser um europeísta, mesmo crítico, e defensor da aprovação do OE» - para além de ter aproveitado «o espaço, o tempo e até as ideias do oponente, para atacar o seu único e real adversário; Cavaco».
Então, para a Filomena, jornalista, «propostas» - «propostas», a sério... - são as que... propõem o mais do mesmo: políticas de direita disfarçadas de esquerda, OE e etc...
Já no que respeita a Francisco Lopes, a mesma Filomena acha que ele «leu de cor e com fluidez a cartilha do PCP: penalizar os ricos, ajudar os pobres. Mas não apresentou soluções ou caminhos» - não obstante ter levado estudada «a lição de colar Alegre às políticas do Governo».
Então, «a cartilha do PCP» foi o que estragou tudo: tivesse Francisco Lopes lido «de cor e com fluidez», a cartilha da Filomena e outra pontuação seria a sua...
Em matéria de «propostas», Metelo lê pela mesma cartilha da colega, sublinhando, no entanto, que Francisco Lopes se «propõe, de forma consistente mobilizar os descontentes com a política do Governo para derrotar Cavaco Silva».
Pronto: fiquemo-nos nos 3-2 da Filomena e nos 3-3 do Metelo...
Mas retenhamos na memória aquela que foi a frase do debate:
«Manuel Alegre está em melhores condições para mobilizar os que apoiam o Governo; eu estou em melhores condições para mobilizar todos os que são contra o Governo».
Mais palavras para quê?: estas dizem tudo.
Por elas, dou nota máxima a Francisco Lopes: 5.
POEMA
À MORTE VORAZ...
À morte voraz,
nem boa, nem má,
tanto se lhe dá
levar o audaz,
levar o sagaz,
levar o tenaz,
levar o mordaz,
levar o capaz,
levar o incapaz.
As destrinças que há
a vida é que as faz.
Armindo Rodrigues
À morte voraz,
nem boa, nem má,
tanto se lhe dá
levar o audaz,
levar o sagaz,
levar o tenaz,
levar o mordaz,
levar o capaz,
levar o incapaz.
As destrinças que há
a vida é que as faz.
Armindo Rodrigues
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