BASTONARICES

A história é simples e conta-se em meia dúzia de palavras: um grupo de advogados oficiosos está sem receber o pagamento dos seus honorários desde Abril; além de não receberem os honorários, os referidos advogados oficiosos têm sido forçados a adiantar do seu bolso o dinheiro para as despesas que os processos exigem; face a esta situação, e após várias tentativas goradas de receberem o que lhes é devido, resolveram pôr em tribunal quem lhes devia pagar mas não paga: o Estado.

A esta situação reagiu, irritado, o Bastonário da Ordem dos Advogados.
Disse Marinho Pinto: «é à Ordem dos Advogados que compete liderar esse processo».

Estava eu tentado a, pela primeira vez na minha vida, concordar com o Bastonário, eis senão quando o dito dispara uma rajada fulminante contra a iniciativa dos advogados, acusando-a de «servir objectivos de propaganda eleitoral».

Ora, com tal acusação, o que me parece que o Bastonário faz é condenar os advogados com salários em atraso e absolver o devedor dos salários...
Isto para além de, com o disparo, estar a desviar as atenções daquilo que, de facto, está em causa: o dinheiro que o Estado devia pagar mas não pagou...
Acresce que, como o Bastonário não fundamenta os supostos objectivos eleitoralistas, ficamos apenas a saber que o Bastonário acha que sim... - razão mais do que suficiente para eu achar que não...

Confesso que já não suporto estas bastonarices...

POEMA

COMBOIO


XXIX


(Hora da visita. A Srª Ermelinda, que vela pelo meu filho, também estava à entrada com a cestinha onde ia aquela sopa tão boa que fervia desde as seis da manhã.)


Entretanto cá fora
as mães aquecem com os dedos
as merendas nos cestos.

Outras sorriem
com inquietação de cilada.

São as que esconderam limas de sonho no pão
para os filhos cortarem as grades
e fugirem esta noite
pelos lençóis
da solidão rasgada.


José Gomes Ferreira

Jornal de Parede FDUNL - I

Todas as semanas, desde Setembro do ano passado, afixo um jornal de parede na cantina e no bar da minha faculdade - Direito da Universidade Nova de Lisboa. No presente ano lectivo, este é o primeiro (carregar na imagem para ver maior)!

SOBRE O ORÇAMENTO DE ESTADO

Prossegue a representação teatral dos partidos da política de direita - PS, PSD e CDS/PP - em torno do Orçamento de Estado.
Lendo-os ou ouvindo-os, o cidadão distraído - e que, por distracção, votará num deles... - julga estar perante uma intensa batalha política travada entre inimigos irreconciliáveis, cada um batendo-se por um projecto distinto e antagónico em relação aos restantes, todos capazes de tudo para defender «o interesse nacional»...
No entanto, se o cidadão distraído quiser deixar de o ser e puxar um pouco pela memória, lembrar-se-á que é assim todos os anos e que esta farsa já dura há 34 anos;
lembrar-se-á, também, que eles - os inimigos irreconciliáveis... - todos os anos têm aprovado o OE;
e concluirá, finalmente e sem receio de errar, que assim acontecerá também este ano.
(e se deixar mesmo de ser distraído, o cidadão - atento e lúcido - mudará definitiva e radicalmente o sentido do seu voto nas próximas eleições...)

A coisa é simples:
Tratando-se, como se trata, do Orçamento de Estado da política de direita - ou seja do OE feito à medida dos interesses do grande capital - ele será naturalmente aprovado pelos partidos que politicamente representam os interesses do grande capital.

Porquê, então, esta «guerra» tão assanhada?
Porque é preciso continuar a distrair o cidadão distraído, atá-lo, prendê-lo, amarrá-lo, algemá-lo ao voto no mais do mesmo que é, afinal, o voto no Orçamento de Estado da política de direita - seja qual for o partido de turno no governo.

Ontem, Mário Soares - sempre ele... - apelava ao PS e ao PSD para que chegassem a um acordo sobre o OE.
No seu linguajar embusteiro, o pai da política de direita assegurava que o OE é indispensável para resolver os muitos problemas existentes, «em primeiro lugar os problemas daqueles que estão a passar mal, os que não têm emprego», etc, etc.
E é enquanto chefe da contra-revolução ao serviço do grande capital que avisa: «Não é com manifestações que os problemas se resolvem»...

É claro que Soares sabe que o OE vai ser aprovado.
E sabe que quem o vai aprovar são os mesmos partidos que sempre o têm aprovado, desde que ele, Soares, em 1976, iniciou a política de direita - com os resultados visíveis na situação dramática do País.

E sabe que é com a luta, designadamente com as manifestações, que os problemas se resolvem: os problemas dos trabalhadores, obviamente.

Porque os problemas do grande capital, esses são todos resolvidos pelo Orçamento de Estado que Soares quer que seja aprovado e que os partidos da política de direita irão aprovar.

POEMA

COMBOIO


XXI


(O Eugénio de Andrade espera-me num Café. Atravesso as ruas do Porto - a cidade onde nasci - com os punhos cerrados de dor.)


Não nasci por acaso nestas pedras
mas para aprender dureza,
lume excedido,
coragem de mãos lúcidas.

Aqui no avesso da construção dos tempos
a palavra liberdade
é menos secreta.

Anda nos olhos da rua,
pega lanças aos gestos,
tira punhais das lágrimas,
conclui as manhãs.

E principalmente
não cheira a museu azedo
ou a musgo embalado
pela chuva na boca dos mortos.

Começa nos cabelos das crianças
para me sentir mais nascido nestas pedras.

Porto
- cidade de luz de granito.

Tristeza de luz viril
com punhos de grito.


José Gomes Ferreira

O MAIS COLOSSAL EMBUSTE

Anteontem, à medida que relembrava aqui o golpe sangrento do Chile, vieram-me à memória outros golpes semelhantes ocorridos noutros países do continente americano: Guatemala, 1954, derrubamento do governo progressista de Jacobo Arbenz;
Brasil, 1964, derrubamento do governo progressista de João Goulart;
Granada, 1983, derrubamento do governo progressista de Maurice Bishop;
Honduras, 2009, derrubamento do governo progressista de Manuel Zelaya....
E por aí fora.

Com efeito, a História está cheia de exemplos de governos progressistas legítimos - e haverá algum governo progressista que não seja legítimo?... - derrubados por golpes militares de inspiração fascista ou fascizante.

No continente europeu como no asiático, no africano como no americano, dezenas de golpes militares reaccionários, qual deles o mais brutal, foram levados à prática, esmagando a democracia e a liberdade e cada um deixando atrás de si um imenso rasto de dor, de sofrimento e de sangue.

Há, no entanto, um traço comum a todos esses golpes que importa assinalar: os Estados Unidos da América estavam lá, em todos eles, na sua organização, planificação e concretização; na imediata entrega do poder a governos fascistas; no apoio incondicional a esses governos e às suas práticas criminosas.
Essa é uma verdade incontestável.

E também é verdade que não há memória de um só caso em que o imperialismo norte-americano tenha estado do outro lado, isto é, do lado dos povos que, através de lutas heróicas, se libertaram de ditaduras fascistas.
(E, nesse sentido, nunca é demais relembrar o nosso caso: os EUA estiveram com o regime fascista de Salazar/Caetano até ao dia 24 de Abril de 1974 - e estiveram com a contra-revolução desde o dia 25 de Abril de 1974...)

No entanto, todos os dias os média dominantes, pelas mais diversas formas, no dizem que os EUA são o expoente máximo da democracia, da liberdade e dos direitos humanos - com a agravante de milhões de pessoas, em todo o planeta, acreditarem que assim é...

E esse é, certamente, o mais colossal embuste da História - e o que mais trágicas consequências tem para toda a Humanidade.

POEMA

COMBOIO


XX


(A Ilse e o Arménio Losa, de braços abertos, na Estação.)


Cidade de braços que me procuram
e estreitam
nas pedras,
nos cafés,
no passado de neblina
- correm ao meu encontro
os vivos e os mortos,
sobretudo os mortos,
mortalhas de granito,
31 de Janeiro,
o meu pai ainda criança
a fugir do Barredo
já com os olhos de transformar o mundo
diante da morte do Primeiro Sonho
nas barricadas do nevoeiro
com fúria e fel.

Agora chove
na cidade dos braços que me procuram
e teimam em trazer-me o sol
com outra pele.


José Gomes Ferreira

SALAZAR HAVIA DE GOSTAR DE LER

Há dias, falei-vos aqui dos analistas de serviço e do principal argumento por eles utilizado contra a candidatura de Francisco Lopes: «é um desconhecido», ou: «só é conhecido na Soeiro Pereira Gomes»...

Mais recentemente, falei-vos de um tenente-coronel reformado que, repetindo o que Salazar dizia e mandava dizer há décadas, afirmava que «o PCP recebia ordens do Partido Comunista da União Soviética» - e que isso legitimava a prisão, a tortura e os assassinatos de comunistas...

Hoje falo-vos de Ricardo Araújo Pereira (RAP) que, na Visão, escrevendo sobre a candidatura de Francisco Lopes,
1 - repete - fazendo humor - o que os analistas de serviço - falando a sério - dizem do candidato comunista, e
2 - repete - fazendo humor - o que o tenente-coronel reformado - falando a sério - disse sobre o PCP.


Tapando o nariz; tomando as devidas precauções higiénico/sanitárias; e munindo-se de ilimitada paciência, qualquer cidadão está em condições de ler até ao fim o texto de RAP.
Quem o fizer, constatará que parte grande da prosa de RAP é a repetição - humorística - do que, sobre o candidato comunista, tem sido dito pelos analistas de serviço: estes - falando a sério - dizem que «Francisco Lopes só é conhecido no PCP»; RAP - fazendo humor - diz que Francisco Lopes é «um candidato que nem os militantes comunistas sabem exactamente quem é»...
(pergunto: das duas espécies expostas, quem é que é analista e quem é que é humorista?...)


Mas onde RAP revela toda a sua incomensurável criatividade humorística é quando (repetindo o que, sobre o PCP, o tenente-coronel reformado diz - falando a sério), escreve - fazendo humor - que «Francisco Lopes é o candidato do PCUS, o Partido Comunista da União Soviética».
A tirada é forte e cheia de humor, como se vê.
Mas RAP acha pouco, quer ser ainda mais engraçado, ter ainda mais piada, elevar ainda mais o elevado humor que o possui - e acrescenta: «Francisco Lopes parece uma escolha de Brejnev, embora um pouco mais conservadora».
(pergunto: das duas espécies expostas, quem é que é tenente-coronel reformado e quem é que é humorista?...)

Lendo o fedorento texto, há que reconhecer, no entanto, que nem os analistas de serviço nem o o tenente-coronel reformado diriam melhor.
E Salazar havia de gostar de ler...

POEMA

COMBOIO


XIX


(No túnel antes de chegar à estação de S. Bento, no Porto.)


Ousaram
fechar um homem na treva
promovê-lo ao silêncio
impor-lhe muros de sede.

E agora?

Ei-lo sozinho,
terror de olhos secos
com uma lâmpada de lágrimas no coração
a furar um túnel de névoa na parede.

Ousaran
iluminar a treva com homens.


José Gomes Ferreira

Se um dia a juventude voltasse


"se um dia a juventude voltasse
na pele das serpentes atravessaria toda a memória
com a língua em teus cabelos dormiria no sossego
da noite transformada em pássaro de lume cortante
como a navalha de vidro que nos sinaliza a vida

sulcaria com as unhas o medo de te perder... eu
veleiro sem madrugadas nem promessas nem riqueza
apenas um vazio sem dimensão nas algibeiras
porque só aquele que nada possui e tudo partilhou
pode devassar a noite doutros corpos inocentes
sem se ferir no esplendor breve do amor

depois... mudaria de nome de casa de cidade de rio
de noite visitaria amigos que pouco dormem e têm gatos
mas aconteça o que tem de acontecer
não estou triste não tenho projectos nem ambições
guardo a fera que segrega a insónia e solta os ventos
espalho a saliva das visões pela demorada noite
onde deambula a melancolia lunar do corpo

mas se a juventude viesse novamente do fundo de mim
com suas raízes de escamas em forma de coração
e me chegasse à boca a sombra do rosto esquecido
pegaria sem hesitações no leme do frágil barco... eu
humilde e cansado piloto
que só de te sonhar me morro de aflição"


Al Berto - Se um dia a juventude voltasse

MEMÓRIAS DE SETEMBRO

Ainda a propósito de datas «esquecidas» pelos média dominantes - e ainda a propósito de Setembro.

Lembremos o Campo de Concentração do Tarrafal - «espelho do regime fascista».
Lembremos as palavras do director, Manuel dos Reis:
- «Quem vem para o Tarrafal vem para morrer» -

e do médico, Esmeraldo Pais Prata:
- «Eu não estou aqui para curar doentes, mas para passar certidões de óbito».

Lembremos Setembro, no Tarrafal, quando o director e o médico passam das palavras aos actos:

1937:
20 de Setembro: Francisco José Pereira e Pedro de Matos Filipe.
22 de Setembro: Francisco Domingos Quintas, Rafael Tobias e Augusto da Costa.
24 de Setembro: Cândido Alves Barja.
(Os primeiros camaradas assassinados no Campo da Morte Lenta)

1941:
24 de Setembro: Casimiro Ferreira.

E também no Tarrafal houve um 11 de Setembro: foi nesse dia, em 1942, que Bento Gonçalves, secretário-geral do PCP, foi assassinado.

Datas e nomes que - apesar do silenciamento a que são votados pelos média dominantes - ficarão na memória de todos os que, hoje e no futuro, prosseguirão a luta pelos objectivos pelos quais os mártires do Tarrafal deram as suas vidas: a construção do socialismo e do comunismo.

E para que fascismo nunca mais!

POEMA

COMBOIO


XVIII


(Ao compasso de ferro da locomotiva a minha obsessão persiste.)


Um filho preso
excede as razões do frio,
vinagre no Sol,
destino fora da lei
- ó pedras da morta violada
porque gritais?

Um filho preso,
desentendimento com as flores,
cumplicidade dos poços
- e tu, ó pequenina mão de lágrimas,
a embalar meninos de névoa
nos berços desiguais.

Um filho preso,
- lua com algemas,
voo tornado muro.

E toda esta gente à minha roda
a falar, a falar, a falar, a falar.
A apodrecer sombras...

Eh! calai-vos!
- cemitério futuro.


José Gomes Ferreira

DO OUTRO LADO DOS MÉDIA

É assim todos os anos: o 11 de Setembro de 2001 invade o tempo e o espaço dos média dominantes e transforma-se na «notícia do dia».
Só um exemplo: o Diário de Notícias de hoje dedica 20 páginas ao «dia que ninguém esquece» e em que «morreram quase três mil pessoas»...

É claro que este acto terrorista - pela brutalidade de que se revestiu e pelas consequências trágicas que teve em vidas humanas - não deve nem pode ser esquecido.
Da mesma forma que não devem nem podem ser esquecidos todos os actos terroristas com carácter e consequências semelhantes.

Ora, o que acontece é que os mesmos média que nunca se esquecem do 11 de Setembro de 2001 e das suas vítimas, esquecem-se sempre de todos os 11 de Setembro ocorridos e das suas vítimas.

Será porque, para esses média, a morte de um cidadão norte-americano é mais grave do que a morte de um cidadão de qualquer outro país?
Estou em crer que sim.
Será porque, para esses média, a morte dos 2996 norte-americanos vítimas inocentes do brutal atentado terrorista, é mais grave do que a morte das centenas de milhares de iraquianos, vítimas inocentes do brutal atentado terrorista que foi a invasão e ocupação do Iraque?
Estou em crer que sim.

E será que, para esses média, o atentado terrorista de 11 de Setembro de 2001 - cujas verdadeiras origens continuam por desvendar - é para nunca esquecer, enquanto o golpe fascista de 11 de Setembro de 1973 no Chile - cujas verdadeiras origens estão perfeitamente desvendadas - é para nunca lembrar?
Estou em crer que sim.

Felizmente, do outro lado dos média dominantes, todos os anos há quem recorde o 11 de Setembro de 1973, dia em que um golpe militar fascista, organizado e apoiado pelos EUA, instalou o terror no Chile, com o assassinato de milhares de pessoas.
Lembraram-no, hoje, por exemplo - e tanto quanto me foi dado ver - «O Cheiro da Ilha», o «Cantigueiro» e o «anónimo século xxi».
Para eles, o meu abraço.

POEMA

COMBOIO


XI


(Rápido para o Porto.)


Comboio.

E ninguém repara
que não trago os olhos de ontem.

Mas armas de febre,
ocultação de motim
e esta Caveira
que um Desconhecido
me escondeu na cara
com mãos de treva
- e de súbito desatou a chorar por mim
num riso de lágrimas de pedra.


José Gomes Ferreira

EM NOME DA DEMOCRACIA...

A poderosa operação de branqueamento do fascismo, levada a cabo pelos estoriadores do sistema e amplamente difundida pelos média dominantes, tem vindo a ser complementada, nos últimos tempos, por uma vaga de referências a Salazar - referências simpáticas, cheias de simpática compreensão e, até, de simpática admiração.
Sucedem-se os artigos sobre a vida privada e pública do ditador, as biografias do ditador, as entrevistas aos biógrafos do ditador - numa cadência que, a prosseguir, conduzirá a uma presença mediática do biografado tão frequente (e não menos elogiativa) como nos tempos em que ele era ditador...

Como é sabido, todos os autores destes extensos textos e destas extensas biografias, desconhecem a palavra fascismo, ou a expressão regime fascista.
O que se compreende se tivermos em conta que, para eles, em Portugal o fascismo não existiu, existiu. sim, aquilo que o próprio Salazar designou por «Estado Novo» - designação produzida pelo ditador enquanto promulgava, inspirado pela Carta del Lavoro da Itália fascista, o Estatuto do Trabalho Nacional; ou enquanto criava, instruído pela Alemanha nazi, o Campo de Concentração do Tarrafal; ou enquanto contemplava, enlevado, o retrato de Mussolini exposto destacadamente na sua mesa de trabalho; ou enquanto, cheio de pesar, decretava três dias de luto nacional, com a bandeira portuguesa a meia haste, pela morte de Hitler...

Agora, parece que tudo se encaminha para que os admiradores e os saudosistas do ditador dêem um passo em frente na expressão dessa admiração e dessa saudade.
Há dias, o Cantigueiro referia - e comentava, pertinente - o facto de o ministro Santos Silva ter recorrido a uma lei de Salazar para não cumprir uma lei actual que obriga à aprovação, pelo Tribunal de Contas, de obras de determinado montante - a confirmar a existência iniludível de traços fascizantes na política de direita e contra Abril que PS, PSD e CDS-PP levam a cabo há 34 anos.

Hoje, o Diário de Notícias publica um artigo -assinado por Brandão Ferreira, tenente-coronel na reforma - intitulado «Deve uma democracia aceitar sociedades secretas?»
À pergunta que faz, o articulista, aliás, no seu pleno direito, responde que não.
Atente-se, no entanto, no argumento que utiliza para explicar o seu «não»:
começando por relembrar a lei que, «durante o Estado Novo», obrigava todos os funcionários públicos a assinar uma declaração de repúdio do comunismo (e, acrescento eu, a denunciar à polícia política fascista todos os militantes ou simpatizantes comunistas de que tivessem conhecimento...), Brandão Ferreira observa que essa lei «foi muito criticada antes e depois do 25 de Abril», mas criticada «sem razão».
Porquê?: porque era uma lei boa, obviamente...

E delicado, atencioso e didático, o tenente-coronel reformado, escreve: «Permitam que lhes diga porquê» - e passa a explicar a razão das bondades da lei fascista:
«O PCP defendia uma doutrina totalitária, internacionalista, auto-exclusiva e fundamentalista, que recebia directivas, quando não ordens, do PC da União Soviética. Não era um partido livre nem nacional, mas apenas uma correia de transmissão de terceiros», pelo que, excluir os comunistas era «límpido e razoável».

Salazar o disse, Brandão Ferreira o repetiu décadas depois.
Ambos em nome da democracia...

POEMA

COMBOIO


VIII


(Obsessão de todos os instantes.)


«O teu filho está preso.»

Saí.

Um velho no eléctrico
com nuvens nos olhos
de chuva parada
- sorriu-me.

Percebeu talvez
que na minha dor
ardia o gozo de mostrá-la oculta
neste mundo de cães caídos.

Eh velho do eléctrico!
A nossa morte cabe bem na Terra.
Não precisa de abismos.


José Gomes Ferreira

Os putos, os putos


"Porque os meninos inventaram coisas novas
E até já dizem que as estrelas são do povo"

Rui Monteiro - Os meninos de Huambo

HÁ CRISE OU NÃO HÁ CRISE?

Há blogs que não visito nunca - entre eles o de Vital Moreira.
Porquê?: porque, sabendo quem lá escreve sei o que lá vou encontrar, que é aquilo que, por dever de ofício, sou obrigado a ler todos os dias nos jornais do grande capital - e basta o que basta...

Acontece que, segundo os jornais, um dia destes Vital Moreira produziu no seu blog a seguinte sensacional afirmação: «A crise económica é coisa do passado. Felizmente» - afirmação que não posso deixar sem comentário.

Estou em crer que, escrevendo o que escreveu, o eurodeputado do PS, quis apenas mostrar serviço ao chefe: mostrar ao chefe que é capaz de superar o optimismo crónico deste; que, em matéria de propaganda ao governo e aos milagres provocados pela sua política, é capaz de ser mais papista do que o papa Sócrates...

Todavia, talvez Vital não tenha reflectido o suficiente sobre as consequências imediatas da conclusão que proclamou.
Senão vejamos: a acreditar em Vital - e se «a crise» já passou - acabaram todos aqueles males que, segundo Sócrates, só existem porque existe a «crise»: o desemprego, o emprego precário, os salários em atraso, os despedimentos, as escolas fechadas, os golpes no SNS, a pobreza, a miséria, a fome...
E se assim for, os portugueses estão a viver no melhor dos mundos.
Mas estarão?
Bom, se considerarmos como «portugueses» apenas os chefes dos grandes grupos económicos e financeiros, é verdade que estão nas suas sete quintas - mas essa é uma verdade de antes da crise, de durante a crise e de depois da crise...

No entanto - e sempre dando como certa a conclusão de Vital - há que tirar uma outra conclusão, essa sim, fundamental:
se a «crise» já passou, o Governo deve revogar imediatamente todas as medidas com as quais, invocando a «crise», tem vindo a tramar a vida da imensa maioria dos portugueses:
o PEC não tem mais razão de existir; nem o PEC2; nem os aumentos dos preços dos bens de consumo; nem o roubo nos salários...

Então, em que ficamos?: há crise ou não há crise?...

POEMA

COMBOIO


V


(De um lado para o outro sempre a ouvir este clamor:)


«O teu filho está preso.»

Ah! mas peço-te que não chores, poeta.
Lembra-te de que só tens direito aos gritos dos espelhos dos outros.
À dor fora de ti.
Às insónias caídas dos relógios dos corações alheios.
Aos cardos com sangue de pés de pobres por dentro.

Sim. Abaixo a propriedade privada das lágrimas!


José Gomes Ferreira

Para sempre

"Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Palavras com inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela."

Vergílio Ferreira - Para Sempre (excerto)

HOJE NÃO HÁ POST

Hoje estou sem tema.

Primeiro, pensei escrever sobre o livro de Obama acabado de publicar: «Dez Discursos sobre a Paz e uma Mensagem às Crianças».
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar o Obama - e muito menos os seus discursos sobre a Paz, escritos e lidos nos intervalos das guerras mortíferas por ele decididas; e muito menos, ainda, a sua «mensagem às crianças», mensagem que, como ele sabe, nunca chegará aos milhares e milhares de crianças assassinadas pelas bombas lançadas pelos bombardeiros dos EUA, em nome da «paz».

Depois, lembrei-me da petição a favor das touradas, posta a correr pelo presidente da Câmara de Santarém, Moita Flores - que chama aos que não gostam de touradas «bando de senhores» que não respeitam «a tradição e a cultura nacionais», e outras coisas que tais...
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar o Moita Flores - personagem que, em matéria de opções políticas e ideológicas, já correu em todas e é, ele próprio, uma grande tourada.

Lembrei-me, ainda, de voltar ao Durão Barroso que, ontem, ameaçou que «um dia, se tiver saúde», também irá escrever as suas memórias, à semelhança do Blair, e contar a sua versão sobre o crime de que foi cúmplice.
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar o Durão Barroso. Pronto. (Ah!: e desejo-lhe que não tenha saúde para, um dia, escrever as suas memórias)

Em último recurso, pensei comentar o último Prós e Contras (que não vi mas que me foi relatado por quem viu) onde o «caso Casa Pia» foi tema.
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar a Fátima Campos Ferreira disfarçada de jornalista - e muito menos os seus convidados: Carlos Cruz (condenado por práticas pedófilas); Marinho Pinto (que fez saber que, há tempos atrás, a pedofilia não era crime...); e Daniel Oliveira (igual a si próprio e é quanto basta).

Portanto, hoje não há post.

POEMA

COMBOIO


II


(A PIDE prendeu o meu filho, no Porto.)


A voz do telefone riu para tornar o mundo mais triste:
«O teu filho está preso.»

E riu.

Rimos
com lágrimas de dentes de esqueleto.

As outras ficaram
para a luz líquida das noites
dos olhos sepultos
(e oxalá ninguém as ouça chorar
aqui debaixo deste cobertor de lã...)

Lágrimas
-aquecimento secreto
à espera do rumor moribundo da manhã.


José Gomes Ferreira

Quotidianos III



"Não sei ler nem escrever mas não me ralo
alguns há que até a caneta lhes faz calo
é só assinar despachos e decretos
p'ra nos dar a ler a nós, analfabetos

E saúde, eu tenho p'ra dar e vender
não preciso de um ministro para ter
tudo o que ele anda a ver se me pode dar
pode ir ele p'ro hospital em meu lugar"

Sérgio Godinho - Coro das Velhas (Excerto)

EU PAGO PARA VER

Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, anunciou discurso no Parlamento Europeu.
E anunciou mais: fez saber que «vai utilizar pela primeira vez o modelo americano do discurso do Estado da Nação» - que é aquele discurso que o Presidente dos EUA profere todos os anos, perante as duas câmaras do Congresso e no qual apresenta as linhas mestras da sua política para os 12 meses seguintes.

Temos, assim, Barroso em bicos de pés, disfarçado de presidente dos estados unidos da Europa, na modalidade voz do dono, naturalmente acrescida do lusitaníssimo Porreiro, pá!...
E tamanho é o entusiasmo do homenzinho com o discurso anunciado - e com a suposta superior qualidade do dito - que deu ordens para que todos os deputados o vão ouvir.
Mais: exigiu a todos os deputados que picassem o ponto, para confirmar presença.
Mais ainda: ameaçou multar os deputados que não o fossem ouvir - anunciando, até, o valor da multa: 150 euros.


É claro que o presidente Barroso foi obrigado a desistir das exigências e a recuar nas medidas punitivas anunciadas: já não há ponto picado nem multas...
Mas fica o registo da predisposição do homenzinho, do que ele é capaz de fazer se o deixarem.

Portanto, cuidado com ele!
Não esqueçamos que o animal foi premiado com o cargo de Presidente da Comissão Europeia pelos serviços prestados no decorrer da reunião do bando dos quatro, onde foi decidida a invasão e ocupação do Iraque - invasão e ocupação que, concretizada, se saldou pela destruição do país e pelo assassinato de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes.

E o facto de, na Cimeira dos Açores, o homenzinho apenas ter feito de porteiro e de criado de serviço às bebidas, não diminui em nada as suas responsabilidades no crime contra a humanidade que ali foi decidido e, posteriormente, cometido.

Tal como Bush, Blair e Aznar, o presidente da Comissão Europeia é um criminoso.
Que um dia será julgado. E condenado.
E nesse dia, não será necessário cobrar multas a quem não for assistir ao julgamento...
Eu pago para ver...

POEMA

ÁLBUM


XXIV


(Já anda!)


Se caíres
do arco-íris
a tua sombra abre-te os braços
para não te magoares no chão.

A indecisão
dos primeiros passos
na ponte dos séculos
leva agora minutos...

De pé
colhem-se melhor nas árvores
os astros iluminados nos frutos.


José Gomes Ferreira

Quotidianos II


«Eram tão lindos, tão suaves os dias ao teu lado. Nesse teu rosto moreno, que me é agora estrangeiro e onde longamente batem as pestanas desses teus embaraços que bem conheço, que são silêncios a eternizar-se entre nós, movem-se sombras, ideias furtivas que não consigo captar.Quando amassávamos o barro vermelho e ecoavam na tarde sons de lume e o vento cheirava a pão, quando olhávamos juntos, do nosso quarto andar, as estradas cor-de-rosa do crepúsculo, parecia, parecia apenas, que não havia segredos entre nós.»

Urbano Tavares Rodrigues - Violeta e a Noite (excerto)

DIAS DO FUTURO

Aquela Festa é assim: nós, os que lá vamos todos os anos, todos os anos sabemos que vamos voltar.

Ou, dito de outra forma: quem vai à Festa, seja ou não militante ou simpatizante comunista, gosta. E, no ano seguinte, volta - e, em muitos casos, traz outro amigo consigo...

Quem lá vai pela primeira vez, desde logo fica a conhecer as razões desta capacidade de atracção da Festa:
Os concertos?: claro.
A cultura?: sem dúvida.
As exposições?: não perco uma...
Os comícios e os debates?: obviamente.

Tudo isso. Mas, acima de tudo isso, o «convívio» - dizem uns; o «ambiente» - dizem outros; o «espírito da Festa» - dizem terceiros.
E, com isso, todos querem dizer o mesmo...


Numa excelente reportagem sobre a Festa, saída no Público de domingo, a jornalista Cláudia Sobral, em três dezenas de palavras disse tudo:
«Vêm velhos, vêm novos, papás e mamãs com bebés, comunistas ou nem por isso. Uns vêm pela política, outros pelos concertos ou pelo convívio» - e conclui: «Ainda não há festa como esta».

E um jovem visitante vindo do Porto - Telmo Parreira, de 21 anos - ouvido pela jornalista, deu as sua razões, naquela que é uma das mais belas e mais profundas definições da Festa:

«Posso não ser comunista mas aqui encontro um espírito que não encontro em mais lado nenhum. Só neste festival consigo sentar-me à mesa com pessoas trinta anos mais velhas do que eu e falar com elas como se fôssemos iguais».


Tudo isto a confirmar que aqueles três dias na Atalaia são dias de outro tempo que não o tempo presente: são dias do futuro.

Do futuro que conquistaremos através da luta - luta de que a Festa é, ela própria, uma expressão concreta.

POEMA

ÁLBUM


XXIII


(O instantâneo do menino na praia, a olhar para as mãos.)


Sentado no vento
vejo-o a olhar para a areia que escorre
por entre os dedos
- dez ponteiros
de um relógio atento.

As mãos dos homens
pensam o tempo.


José Gomes Ferreira

Quotidianos - Da maneira mais simples

A partir de hoje partilharei fotografias com maior regularidade. Urge-me denunciar a pobreza e a miséria, a fome e a exploração. Mas também, e não menos importante, os instantes vertiginosos de alegria e comoção transcendente, a paixão - como a foto abaixo -, os desencontros, a solidão, também o amor e o ódio, a raiva e a luta, a esperança, a condição humana. Digo: todos aqueles instantes que fazem os nossos quotidianos. E assim dou nome ao álbum: (caminhos) quotidianos da nossa esperança.



É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade - Apenas o começo

ENTÃO, ATÉ LOGO

Daqui por meia dúzia de horas, a Festa começa.
É uma maneira de dizer, dado que, de facto, a Festa começou no dia em que milhares de militantes e simpatizantes do PCP começaram a construí-la - com o seu trabalho voluntário, com a sua inteligência, com as suas capacidades, com os valores e princípios de que é feita a sua militância.

Militância revolucionária, pois claro, a única capaz de construir a Cidade do Futuro que é a Festa do Avante! - essa militância que faz da Festa o que ela é, desde o seu processo de construção, ao seu conteúdo político e cultural, ao ambiente solidário e fraterno que nela se vive durante três dias - o mesmo ambiente que, afinal, esteve presente em todo o processo de construção.

É por isso que nenhum dos restantes partidos políticos nacionais é capaz de construir uma Festa como esta - nem os restantes partidos nacionais todos juntos...
Na verdade, como poderiam eles construir uma Festa na base do trabalho voluntário e na qual estão sempre presentes os ideais e os valores de Abril apontando para o futuro socialista de Portugal?

É por isso que a Festa é o que é: três dias de Abril rumo ao Futuro.


Então, até logo.

POEMA

ÁLBUM


XIX


(Acordo. Noite alta. Sozinho na escuridão, o menino palra.)


O menino ri na sombra
contente de ver os pés nus.

Ver?

Sim, ver.
Na treva.

Ainda confunde as palavras
com a luz.


José Gomes Ferreira

É PRECISO AVISAR TODA A GENTE...

Nome: Israel Zelaya.
Idade: 62 anos.
Profissão: jornalista da Rádio Internacional de São Pedro Sula.
País: Honduras.

Nos últimos meses, à semelhança do que acontece com milhares de compatriotas seus, Israel Zelaya foi várias vezes ameaçado de morte.
Em Maio, a sua casa foi incendiada por «desconhecidos».

No dia 24 de Agosto foi assassinado com três tiros na cabeça.

É, tanto quanto se sabe, o 10º jornalista assassinado após o golpe fascista nas Honduras.

Sobre estes crimes, os média dominantes internacionais, os portugueses incluídos - sempre tão zelosos da defesa daquilo a que chamam «liberdade de informação», da qual se proclamam eméritos praticantes... - continuam a nada dizer: nem uma nota crítica, nem um apontamento solidário, nem, sequer, a simples notícia dos factos: nada.

No mundo, Portugal incluído, haverá certamente jornalistas que condenam esses crimes e , como cidadãos e como profissionais, desejariam denunciá-los e apelar à solidariedade para com as vítimas.
Por que não o fazem, então?

Voltamos à questão da «liberdade de informação» em vigor nos média propriedade do grande capital - uma «liberdade de informação» superiormente definida por aquele proprietário de um grande jornal britânico, que dizia:
«No meu jornal, os jornalistas têm toda a liberdade de escrever o que eu penso»...


O povo hondurenho continua, heroicamente, a resistir, a lutar: contra o fascismo, pela democracia, pela liberdade.
Pela liberdade de informação.
E essa resistência e essa luta serão tanto mais fortes quanto maior e mais ampla for a nossa solidariedade - designadamente denunciando os crimes praticados pelos fascistas e fazendo chegar essa denúncia ao maior número possível de pessoas.

É preciso avisar toda a gente...

POEMA

ÁLBUM


XVI


(«Ó papoilas da vingança/a nova cor da esperança/é a vossa cor». A mãe cantava-lhe estes versos. Entretanto consta que no Baleizão mataram uma camponesa: Catarina Eufémia.)


Toda a noite cantaste em voz baixa,
para adormecer o menino,
a canção do Graça:
«Ó papoilas dos trigais...»

Canta, canta,
para o acordares mais.

(Transforma-lhe os dedos
em pátrias de punhais.)


José Gomes Ferreira

A FONTE DE FORÇA ESSENCIAL

A candidatura comunista às presidenciais perturbou visivelmente o rebanho de comentadores de serviço nos média dominantes à direita e à «esquerda» (digamos assim...)
Percebe-se: eles não queriam que o candidato do PCP fosse um comunista - ou, como é uso dizerem no seu centenário linguajar, um «ortodoxo» - e, mal a notícia foi dada, correram ao baú de velharias, sacaram do habitual argumentário e dispararam.
Todos: à direita e à «esquerda» (digamos assim...)

(Daniel Oliveira, comentador com lugar cativo no Expresso, resumiu lapidarmente o pensamento (digamos assim...) dos restantes colegas, ao sublinhar que o candidato do PCP é «um obscuro dirigente (...) sem qualquer carisma e de uma ortodoxia perturbante» - isto no meio daquele luzido foguetório estrelejando velhas provocações, com o qual as pessoas desta condição exibem as suas qualidades e valências a quem utiliza os seus serviços e lhos paga).

Mas adiante: através das prosas dos comentadores à direita e à «esquerda» (digamos assim...), ficámos a saber, numa primeira fase, que o candidato do PCP - «ortodoxo», obviamente... - só era conhecido «na Soeiro Pereira Gomes» (o que, feitas as contas, daria, no dia das eleições, umas escassas dezenas de votos...).
Posteriormente, fomos informados que, afinal, o obviamente «ortodoxo» era conhecido «em todo o partido» (nada mal: podemos começar a contar a votação por dezenas de milhares...).

E, como a seguir se verá, as perspectivas são de crescimento da votação: a agência Lusa informa-nos que «Francisco Lopes é fenómeno de popularidade na terra natal» - Vinhó, concelho de Arganil - onde um jornalista da Lusa se deslocou para saber como era, e nos diz que «todas as pessoas contactadas pela reportagem se desfizeram em elogios ao filho da terra que entrou na corrida a Belém».

Registe-se, então, esta curiosidade:
todos os que conhecem o candidato comunista - «na Soeiro Pereira Gomes», «em todo o Partido», na «terra natal» - gostam dele... (coisa que não sei se acontecerá com qualquer dos candidatos presidenciais já anunciados, mais o que ainda não se anunciou...)

Posto isto, afigura-se-me que a grande tarefa que se coloca aos comunistas nesta campanha eleitoral é fazer com que mais e mais portugueses conheçam o seu candidato - já que conhecendo-o (e comparando-o com os restantes candidatos...), não hesitarão na escolha...

É claro que, neste caso, conhecer significa, fundamentalmente, saber o que cada candidatura e cada candidato representam.
No que diz respeito à candidatura de Francisco Lopes, tudo é claro como água: trata-se de uma candidatura patriótica e de esquerda; assumidamente integrada na luta contra a política de direita seja ela praticada por que partido, ou partidos, for; portadora de um projecto de ruptura e de mudança - enfim, vinculada aos valores de Abril.
No que diz respeito às restantes candidaturas... bom, nenhuma delas pode dizer o mesmo, nem nada que se pareça...

E é nesta singularidade da candidatura do PCP que está a sua fonte de força essencial.

POEMA

ÁLBUM


XV


(O meu filho foi hoje registado com o nome de Alexandre. Assim também se chamava o meu pai.)



A tua sombra arrasta agora uma palavra,
um nome,
manto branco,
lágrimas ao colo,
peso de bandeira,
comício nos olhos,
deixai vir a mim os velhos com crianças dentro
- voo de archote...

Oxalá lhe herdes o Sonho
como herdaste de todos nós a morte.


José Gomes Ferreira