19 DE JULHO DE 1979

Faz hoje 31 anos que a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) derrubou a ditadura fascista de Anastásio Somoza, na Nicarágua - pondo termo a um regime despótico que, durante mais de 40 anos, sempre com o apoio dos EUA, oprimiu, explorou e reprimiu brutalmente o povo nicaraguense.

Com o governo revolucionário - dirigido por Daniel Ortega - foi iniciado um processo que conduziu a profundas transformações económicas, políticas, sociais e culturais, tendo como referências primordiais a defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo e a defesa da independência do país, até então dominado pelo imperialismo norte-americano.

Por isso, e desde logo, a ofensiva contra a Nicarágua livre - com o recurso ao habitual vale-tudo que caracteriza a acção dos EUA em todo o lado onde os povos decidem assumir o seu destino -atingiu proporções gigantescas.
A dada altura, os «Contra»- grupos armados organizados e treinados pelas forças reaccionárias nicaraguenses e pela CIA - iniciaram uma actividade terrorista por todo o país, criando um ambiente de instabilidade e de medo.
Ao mesmo tempo, a máquina de propaganda dos EUA lançava uma campanha mundial que apresentava o regime nicaraguense como antidemocrático, sem liberdade, violador dos direitos humanos...

O povo nicaraguense, apoiado por Cuba e pela União Soviética, resistiu heroicamente à odensiva terrorista/mediática.
Nas eleições, entretanto realizadas, a Frente Sandinista saíu vencedora, derrotando a candidata dos EUA, Violeta Chamorro.
Todavia, as forças da reacção local e os EUA não aceitaram os resultados das eleições e exigiram a sua repetição - deixando claro, como é seu hábito, que as eleições só seriam «democráticas» quando a sua candidata vencesse...

Nos tempos que se seguiram, os «Contra» intensificaram a sua actividade terrorista, enquanto Violeta Chamorro prometia, se fosse eleita, acabar com a actividade dos «Contra»...
Entretanto, a União Soviética, onde Gorbatchov levava por diante a sua acção devastadora, cortou todo o apoio à Nicarágua, entregando-a ao imperialismo norte-americano...

E em 1990, a candidata dos EUA e dos «Contra» venceu as eleições.
E, naturalmente, os «Contra» cessaram a sua actividade...

Dezasseis anos depois, em 2006, a Frente Sandinista ganha as eleições e Daniel Ortega volta à Presidência da Nicarágua.
Hoje, o povo nicaraguense leva por diante um processo revolucionário que - à semelhança do que acontece em vários outros países da América Latina - constitui um importante sinal de esperança para todos os povos do mundo.

Hoje, dia 19 de Julho, em toda a Nicarágua, comemora-se o 31º aniversário do triunfo da Revolução Sandinista.
Uma comemoração à qual o Cravo de Abril se associa, com um abraço solidário.

POEMA

INVASÃO

XV


(Estalinegrado. Juramentos colectivos:
«Desde este momento juramos não recuar um passo».)

I

E dos corações dos soldados
saíram raízes de pedra
para cumprir os juramentos dados
que os prenderam ao chão.

Só é difícil morrer
em imaginação.

II

Entretanto
no fundo da treva
da Noite dos Escombros
um Homem e uma Mulher
continuam de mãos dadas,
no rancor de prolongar a vida,
de pele em pele,
de sangue em sangue,
de saliva em saliva,
de estertor em estertor.

E que importa ver o mundo a arder
com ódio, com frio, com monstro!

Arde, mundo! Arde,
coração de amor.


José Gomes Ferreira

UMA BOA CAUSA

Já aqui falei de Sean Penn, o actor de cinema norte-americano.
Fi-lo a propósito do protesto, de que Penn foi um dos protagonistas, contra a atribuição do`Óscar de Carreira a Elia Kazan.
(O protesto teve a ver com o facto de, no período da Caça às Bruxas, Kazan ter sido um abjecto delator, um bufo sem ponta de vergonha nem dignidade - e que, miseravelmente, disso se orgulhou até ao fim da sua vida.)

De Sean Penn sabe-se que é um cidadão activo e interveniente, com a vantagem de se bater sempre por causas justas.
Um exemplo: ele foi um activo opositor da invasão e ocupação do Iraque pelos EUA, tendo chegado mesmo a deslocar-se àquele país pouco antes do início da brutal invasão.

Agora, Sean Penn está no Haiti, como voluntário, ajudando as vítimas do terramoto ali ocorrido em Janeiro deste ano.
Segundo a Revista Notícias de Sábado, nas últimas semanas os jornais publicaram inúmeras fotos de Sean a fazer trabalhos braçais - e logo houve quem aproveitasse para dizer que se tratava de uma campanha de promoção do actor.
Só que, mostra a verdade, Sean Penn não foi passear ao Haiti: ele está lá desde o terramoto de Janeiro, altura em que para ali se deslocou e ali ficou a viver e a trabalhar: montou e dirige um acampamento para desalojados na capital, Port-au-Prince - o acampamento de Corail, que dá abrigo a cerca de cinquenta mil pessoas e é um dos maiores e dos melhores dos 1300 acampamentos que existem no país.

Na altura do terramoto, muita gente se mostrou incomodada e horrorizada com a dimensão e as consequências da catástrofe. Depois, em vários casos, afastaram o incómodo e o horror contribuindo com um donativo em dinheiro... - facto que os média não se cansaram de divulgar...
Além disso, o governo dos EUA «solidarizou-se» com o povo do Haiti à sua maneira, a única que conhece: invadindo e ocupando o país.

Por isso, aqui se regista e aplaude a atitude de Sean Penn, a sua solidariedade de facto com o povo haitiano, a sua entrega, uma vez mais, a uma boa causa.

POEMA

INVASÃO

XIV


(Abro o aparelho de rádio e ouço a emissão de Moscovo,
muito abafada, por causa dos vizinhos.)


A voz quente
na boca desta mulher, húmida de bandeiras,
entoa na rádio a apoteose do Futuro
para além do letargo da lucidez dos dias...

Mas tudo em redor
nos brilhos concretos
do cansaço da noite
me insinua um futuro sem esplendor
onde nunca se chega por estradas rectas,
mas só por atalhos
pardacentos de cardos e desvios
a ocultarem-nos a beleza directa do destino...


José Gomes Ferreira

UM LEMA CARREGADO DE FUTURO

Vicente Del Bosque - o homem que dirigiu a selecção de futebol da Espanha, vencedora do Mundial, na África do Sul - começou como futebolista.
Jogou em vários clubes espanhóis, incluindo o Real Madrid, com o qual manteve sempre uma forte ligação, quer como jogador quer como treinador, e pelo qual foi sempre muito maltratado.
Na sua carreira de treinador, passou por vários clubes não só de Espanha.

A dada altura, treinou durante três épocas o Real Madrid e, com ele, o clube ganhou:
duas Ligas dos Campeões europeus; uma Taça Intercontinental; uma Super Taça europeia; dois Campeonatos de Espanha; duas Taças de Espanha - após o que foi despedido de forma humilhante.

Despedido porquê?: porque o dono do Real Madrid, Florentino Perez, entendeu que Del Bosque (que tinha vencido tudo) não tinha «o perfil necessário» para dirigir a «equipa galáctica», onde pontificavam nomes como Zidane, Figo, Roberto Carlos, Ronaldo, Beckam...

E substituido por quem?
O treinador escolhido para o substituir - por ter o «perfil necessário», obviamente - foi Carlos Queiroz.
Infelizmente para o Real Madrid, o «Professor», além do «perfil necessário» não tinha mais nada e, com ele, o clube perdeu, galacticamente, todas as competições em que participou.

Del Bosque reagiu sempre a estas situações com grande dignidade, sem alardes, sem declarações bombásticas, sem se deixar arrastar para os folhetins mediáticos que tradicionalmente enfeitam tais casos.
Talvez por isso, quando, em 2008, foi chamado a dirigir a selecção de Espanha, os média cairam-lhe em cima: aquele bigode que já não se usa; aquele rosto de Ásterix, aquelas tácticas ultrapassadas... - enfim, o homem não tinha o «perfil necessário», não é verdade?...
E quando a Espanha perdeu o primeiro jogo no Mundial, com a Suiça, foi o fim do mundo...

No entanto, Del Bosque não desistiu de lutar e de incitar os seu jogadores à luta, deixando claro, desde logo, que «se perdermos, a culpa é minha»...
E ganhou. Justamente.
Porque não desistiu de lutar.

Resta dizer que Del Bosque, que se assume como homem de Esquerda, tem um lema para a sua vida: «Temos de nos manter sempre fiéis aos nossos princípios».
Um lema que, diz ele, aprendeu «com os velhos ferroviários», amigos de seu pai, também ele ferroviário - e lutador, que passou três anos nas prisões fascistas de Franco, e se manteve sempre fiel aos seus princípios.

Um lema carregado de futuro.

POEMA

INVASÃO


VI


(O povo em grita entrou na catedral)


Rasguei o céu de lés a lés
com unhas de súplica erguida...

(...mas só vi os astros ocos.)

Chamei pelos anjos.
Lancei-lhes escadarias de órgão.
Pedi-lhes, num murmúrio de incenso,
que baixassem à Terra
para combater os Dragões
no dorso das Trovoadas
com patas de vento...

(...mas os anjos só existem na imaginação da neblina.)

E andamos nós, há tantos séculos,
a iludir a nossa solidão
com vozes de estrelas.

Tudo inútil, Terra.

Tens de lutar sozinha.


José Gomes Ferreira

COSTA RICA

Com Obama, a ofensiva do imperialismo norte-americano na América Latina, não apenas se intensificou como retomou formas de intervenção típicas dos governos dos EUA ao longo de décadas.
O golpe fascista das Honduras, acompanhado do considerável reforço da presença militar dos EUA naquele país, foi o primeiro grande passo dado nesse sentido.
Ao golpe das Honduras sucederam-se, designadamente: a instalação de sete bases militares na Colômbia; o reforço da presença militar dos EUA no Panamá; a invasão do destruído Haiti.
Isto para além da intensificação do bloqueio contra Cuba e da multiplicação de acções provocatórias contra a Venezuela, a Bolívia, a Nicarágua - enfim, contra todos os países e povos que decidiram tomar os seus destinos nas próprias mãos.

A ofensiva imperialista deu agora novo e grave passo em frente com a ocupação da Costa Rica.
Ocupação silenciosa - porque silenciada pela generalidade dos média dominantes - não obstante tratar-se de uma operação aparatosa que envolve a entrada na Costa Rica de 46 vasos de guerra, entre eles um porta-aviões; 200 helicópteros, dez aviões de combate e sete mil marines.
Trata-se de uma ocupação concertada entre o ocupante e o ocupado, já que decorre de um chamado «acordo de segurança» entre os governos dos dois países: o de Obama e o de Laura Chinchilla.

O objectivo da utilização de todo este impressionante aparato bélico é, dizem Obama e Chinchila - em coro, sem corar, sem se rirem, e tomando-nos por estúpidos - «o combate contra o narcotráfico»...
Que combate a que narcotráfico?: encontraremos a resposta se tivermos em conta que os EUA são o maior consumidor de drogas do mundo e que a Colômbia e o Peru (dois países onde quem manda são os EUA) são os maiores produtores mundias de cocaína...

Este «acordo» dito «de segurança» viola frontalmente a Constituição da Costa Rica, mas isso não é problema nem é novidade, como pode constatar-se olhando para as práticas do anterior presidente da Costa Rica, Óscar Arias, eterno serventuário do imperialismo norte-americano (recorde-se que Arias foi utilizado por Obama para, fingindo que os EUA queriam o regresso de Manuel Zelaya à presidência das Honduras, consolidar os golpistas no poder).

Mas há que reconhecer que, em matéria de currículo, Laura Chinchila não fica atrás do seu antecessor: integrando, como Arias, a Internacional Socialista (pois claro...), Laura Chinchila tem na sua folha de serviço uma longa e estreita ligação à CIA...
Pelo que, mais dia menos dia, saberemos que Obama a condecorou com a medalha da liberdade, da democracia e dos direitos humanos...

POEMA

INVASÃO


II


(Invasão da União Soviética pelos exércitos de Hitler)


Homens de outros séculos:
invejai-me.

Cá estou no século vinte
no Dia do Grande Ruído
quando se escancararam na Terra
as Portas de Bronze
para todos os recomeços.

... E os braços dos mortos abriram no chão
caminhos de garras
para obrigar as sombras dos homens a erguerem-se no êxtase
de morrer de pé.

Cá estou no século vinte
nesta paisagem de bocejos
e estrelas estagnadas
onde só há cegos
presos na própria noite
aos tombos de declive...
- sem ao menos suspeitarem
de que anda uma nova Morte pelo mundo.

Cá estou no século vinte
nesta primavera de cadáveres
tão contentes de terra
que até beijam as raízes
para que as flores dos outros
nasçam mais límpidas
nas manhãs do sol múrmuro a espreguiçar-se no vento das planícies...


José Gomes Ferreira

O SR. LOPES

Esperto, mas mesmo esperto, vivaço, é o sr. Lopes.
Para ele, existem «duas vias para resolver a crise»:

diminuir muito, muito os salários (entre 15 a 30%);
ou aumentar muito, muito os impostos (não quantificou).

O sr. Lopes acha também que se deve mudar rapidamente a idade da reforma (tal como diz a Comissão Europeia do Barroso, que já avisou todos os países membros de que 70 anos é a idade certa para os trabalhadores se reformarem...)

O sr. Lopes começou a dizer estas coisas nas jornadas parlamentares do PSD e, como é hábito nestas situações, logo se viu acompanhado pelo coro síncrono dos economistas, analistas e comentaristas de serviço aos interesses do grande capital.
Todos repetindo-o e repetindo-se em tudo quanto é sítio.
Todos mostrando trabalho feito a quem lhes paga.
Todos justificando os chorudos salários que recebem.
Vários (entre eles o sr. Lopes) justificando as várias e chorudas reformas que recebem há vários anos.

Isto porque, quando o sr. Lopes e os seus ecos defendem a diminuição dos salários, estão a falar nos salários de quem trabalha - assim se excluindo desde logo a si próprios...
Isto porque os salários do sr. Lopes e dos seus ecos são pagos pela tal «mão invisível» de que falou há dias o insustentável Presidente da República...

POEMA

HERÓICAS


XXXIX


(No dia do tratado de Munique. Os governos do Ocidente da Europa esfregam as mãos. Vão levar o Hitler contra a União Soviética cercada.)


Aqui, nesta praia amarela
ainda fúria acesa
do sol da criação,
no princípio do mundo
um homem surgiu nela
- espanto vagabundo
sem pátria e sem inferno,
feliz na sem-razão -
e olhou para o mar
surpreendido
de ver o céu caído
e mais natureza
a nascer-lhe no olhar.

Hoje, nesta praia do sul
ao pé dum velho Forte,
quando a luz outoniça
e parda do poente
voa no céu azul
todo o mistério dos fossos
- um poeta altivo e mudo,
com pátria,
com inferno,
com morte
e, principalmente,
com esta dor da justiça,
olha com espanto para tudo:
caos de lágrimas e ossos,
cóleras de inverno,
fomes de primavera,
raivas do mar profundo...

E os homens de novo à espera
do princípio da mundo.


José Gomes Ferreira

QUE GRANDE PERÍCIA!

A notícia diz que «perícia judicial iliba Sócrates no Freeport» e que «não houve ilegalidades na aprovação do centro comercial».

Pronto, está tudo esclarecido: não tinham razão os acusadores de Sócrates e estava cheio de razão o acusado quando dizia ser alvo de uma «cabala» e de uma «campanha negra».
Não há nada como uma «perícia judicial» à maneira para dizer como é.

Assim, ficámos a saber que:
- não houve ilegalidades na actuação, em 2002, do ministro do Ambiente (que era, então, José Sócrates);
- não houve ilegalidades no facto de o estudo de impacto ambiental (que havia sido duas vezes chumbado) ter sido aprovado num instantinho e no mesmo dia em que o Governo aprovou um oportuno decreto-lei que alterava a Zona de Protecção do Estuário do Tejo;
- não houve ilegalidades no facto de tudo isto ter acontecido três dias antes das eleições (a «perícia judicial» considera o ocorrido «pouco habitual mas aceitável».
Portanto, não houve ilegalidades!
Ouviram?: NÃO HOUVE ILEGALIDADES!

(É certo que havia aquela gravação na qual Mr. Charles Smith garantia ter pago volumosa quantia a alguém muito próximo de José Sócrates a troco da viabilização do centro comercial. Mas também é certo - e isso é que conta! - que a referida gravação «não tem valor legal» - e, por isso, não conta)

Não posso deixar de tirar o chapéu aos autores desta espectacular «perícia judicial».
Que grande perícia eles revelaram!
Pena é que os seus nomes não sejam conhecidos, já que optaram pelo anonimato - certamente por modéstia, digo eu...

POEMA

HERÓICAS

XXXVII


(Sermão.)


Homem:
preso pela sombra a todas as pedras,
preso pelos olhos à liberdade das aves,
preso pelo corpo ao devorar das raízes,
preso pela sede aos cadáveres das ninfas nas fontes.

Olha bem de frente para as algemas,
asas pesadas de frio,
e através de pântanos e de rochas
esburacadas de caveira,
leva o mundo de rastos
a que te prendem todas as grilhetas
num tinir de ferrugem de ecos.

Homem livre que caminhas
amarrado ao Carro da Morte
até ao Silêncio Sem Astros.


José Gomes Ferreira

marear



dentro da vila velha não havia outros marinheiros, nem aqueles montados em cavalo de pau - os da ti Amélia Medronheiro - que melhor trilhassem as vagas da infância. os do Lota eram miúdos do diabo. cerro acima, muralhas abaixo, joelhos e calções esfolados, fintavam a vontade do pai e mandavam às urtigas a obrigação das searas e da água ao gado. afinal, a brasa fora inventada para caber inteira nos bolsos da miudagem, entre arraióis e um velho pião rachado - não se sabe se por batota ou apenas distração no zelo do carlitos. nalguns, talvez de tão rotos, cabiam todos os ribeiros que galgavam - atrás de pardelhas e cágados, rãs e alfaiates. dentro da vila velha não havia outros marinheiros, nem aqueles montados em cavalo de pau.
há dias partiram todos. com a mãe falecida morta ha meses, seu pai - concertado na herdade do vale d'água - foi apanhado muma reunião clandestina. daquelas que falam que fazem por aí os comunistas e os descontentes de tanta fome (porque não fui eu? não soube, por certo).
- Oh lota, chegue-me aqui!
- sim patrão, diga.
- Livrei-o da prisão por respeito aos meninos da sua falecida. mas não o quero ver mais por aqui. pegue nas suas coisas. a porta da rua é a serventia da casa.

cairam todos na maltesia. o carlinhos ia com os pés resistindo à fatalidade da pobreza. dos bolsos vazios, apenas água. não sei se dos ribeiros que por aí ladroou se das vagas de assombro perante a injustiça... o que eu sei é que dentro da vila velha não havia outros marinheiros. nunca mais os vi. hoje teimamos meia dúzia de velhos. remoendo na esperança o sonho navegante daqueles meninos.


Foto: Serpa, 2009

POEMA

HERÓICAS


XXXIV


(Neste mesmo instante, na Alemanha de Hitler, um condenado à morte caminha para o cepo.»



Tu vais morrer!... Tu vais morrer!...

(E eu para aqui a torcer as mãos,
atado à minha fantasia inútil de poeta!)

Ah! se me deixasses ao menos inventar-te um céu!

Um céu viril com anjos de aço
e nuvens de bandeira,
onde, sentado no frio da lua,
te esperasse o Eterno Sozinho
eleito do povo dos mortos
que dividiu os astros em partes iguais
e encheu o inferno
de silêncio e rosas...

Ah! se me deixasses ao menos inventar-te um céu!

Mas tu sorris como se ouvisses a voz dum pássaro antigo...
E caminhas para o cepo
com o Momento Gelado nos olhos
e os passos duros
de quem já encontrou nos ferros
o instante de amor
que ilumina a eternidade
a escuridão de tudo.

Caminhas para o cepo...

... E eu, para aqui inútil,
a ouvir o frio dos teus passos
nas lágrimas que me caem dos olhos
- irmão que vais morrer.


José Gomes Ferreira

BASTA UM ASSOBIO DO DONO

O Correio da Manhã de hoje transcreve a gravação de uma conversa travada entre Armando Vara e Joaquim Oliveira (dono da Global Notícias, proprietária nomeadamente do Diário de Notícias e do Jornal de Notícias.
A conversa - que ocorreu em Setembro de 2009 - versa sobre um tema em foco na altura (o fim do Jornal Nacional de Manuela Moura Guedes) e é bem esclarecedora sobre a liberdade de informação existente nos média propriedade do grande capital...

Na gravação transcrita, a dada altura Vara queixa-se a Oliveira que o DN está a atacar o PS, que os jornalistas fazem perguntas impertinentes, etc - e pergunta a Oliveira quem é que, «na redacção do jornal trata destes assuntos».
Oliveira responde que «apenas fala com o Marcelino (director do DN), com mais ninguém» - e garante a Vara que vai «ver o que se passa».

Depois de «ver o que se passa», Oliveira diz a Vara que «confrontou o Marcelino com o facto de haver jornalistas novos (do DN) a fazer perguntas incómodas para o PS» e que lhe ordenou para ter «atenção a essa brincadeira»... - e, tranquiliza Vara, garantindo-lhe que também falou com o director do JN, Leite Pereira, «para ter atenção às perguntas que (os jornalistas) andam a fazer».
Ouvidos sobre o assunto, Marcelino e Leite Pereira - os directores - «negaram qualquer influência editorial do dono da Global Notícias sobre os seus jornais».

Portanto, ou estão a chamar mentiroso ao dono (o que, por razões óbvias, se afigura pouco provável), ou estão a mentir (o que, por razões óbvias, se afigura mais do que provável)... ou, terceira hipótese, talvez considerem que, neste caso, chamar mentiroso ao dono não é coisa tão grave como à primeira vista pode parecer: afinal, dizer que no DN e no JN não é o dono que manda até pode ser coisa vista como sinal de respeito pela liberdade de informação...
Tanto mais que - dizem os dois directores - há, de facto, casos em que «o director do jornal é chamado a subir ao conselho de administração» para que o dono diga como é - casos do «Público» e do «Sol», entre outros...

Uma coisa parece certa: os directores do DN e do JN não «são chamados a subir ao conselho de administração» - basta um assobio do dono a dizer-lhes para acabar com a «brincadeira»...

POEMA

HERÓICAS


XXV


(Um jovem comunista, recém-saído da cadeia, procurou-me para me dizer:
«vou para Espanha bater-me ao lado dos republicanos».)



A
deus!

Tu que arrancaste da treva dos dias e das noites
o sol subterrâneo das flores ocultas nas raízes.
Tu que nunca viste o luar completar os olhos das mulheres
- e a tua mãe só te beijava em fotografia.

Tu que vais morrer pelos outros com vinte anos de desdém ardente
e o futuro nunca saberá o teu nome para maior glória.
Tu que vais conhecer finalmente a verdadeira morte: a nossa.
Não vida covarde atirada para as nuvens,
mas sombra sem frestas,
frio sem portas...

Tu: adeus!

Morre orgulhosamente
o teu destino de relâmpago
que afoga nos abismos
o eco longo
do silêncio das águias.


José Gomes Ferreira

HONDURAS: A RESISTÊNCIA CONTINUA

O balanço da situação das Honduras, um ano após a destituição do presidente legítimo Manuel Zelaya, não deixa margem para dúvidas sobre a natureza do golpe fascista perpetrado por militares hondurenhos, dirigidos e apoiados pelo governo dos EUA.

Durante os seis meses de duração do governo do fascista Micheletti - entre Junho e Novembro de 2009 - foram assassinadas centenas de pessoas - e nos seis meses de governo de Porfírio Lobo o número de assassinatos ultrapassa já os 150.
Quer num quer noutro governo as perseguições, prisões, torturas, «desaparecimentos» passaram a fazer parte do dia-a-dia da vida do povo hondurenho.

Trata-se, regra geral, de assassinatos selectivos: homens, mulheres e jovens ligados à Frente Nacional de Resistência Popular; dirigentes sindicais; dirigentes políticos; militantes de movimentos sociais; jornalistas - 10 jornalistas foram assassinados desde que o governo de Porfírio Lobo tomou posse.

O golpe Micheletti/Obama, com as suas trágicas consequências, é bem o espelho da criminosa política do imperialismo norte-americano, seja qual for o presidente de serviço em cada momento.


Entretanto, o povo hondurenho continua a resistir.

POEMA

HERÓICAS


XXI


(Testamento de um fuzilado.)



«Não me falem de fé!

Eu não preciso de fé!

Basta-me morrer de frente
- nesta camaradagem
com todos os mortos de mãos dadas
que desde o princípio do mundo
não quiseram morrer inutilmente...

Fé? Fé?
Eu não preciso de fé!

Basta-me morrer de pé
num desdém de sol nascente.»


José Gomes Ferreira

«OS VALORES DA NORMALIDADE DA LIBERDADE»

«Ao Domingo com... Zita Seabra» é o título de uma rubrica do Jornal de Notícias
Na edição de hoje, Zita Seabra conta-nos um «fim-de-semana em Moscovo» - cidade que ela já não visitava desde os tempos do... «comunismo»...

Acompanhada pelo «amigo de sempre José Milhazes» - olha que dois!... - Zita percorreu a cidade à procura das «mudanças destes anos de Rússia livre».
E encontrou-as (às mudanças) mal pôs o pezinho na Praça Vermelha. Lá estavam as «igrejas» construídas (ou reconstruídas, nos casos das que foram destruídas por Stáline). E as «montras» - ah!, as montras, que beleza de montras!, autênticas irmãs gémeas das «montras da 5ª Avenida de Nova Iorque», exclama Zita extasiada, lembrando que ali, onde no tempo do «comunismo» existiam os horrorosos «Armazéns do Povo», existe agora «um lindíssimo centro comercial cheio de lojas de todas as marcas»!!! - de todas as marcas, ouviram!?...

Enfim, conclui Zita deslumbrada: «Moscovo é hoje uma cidade com poucas marcas do passado comunista e que vive entre o reencontrar da velha alma russa e a vontade de olhar o futuro assente nos valores da normalidade da liberdade».

Zita está cheia de razão.
De facto, a confirmar a inexistência de «marcas do passado comunista» e a existência dos «valores da normalidade da liberdade», lá estão:
a prostituição (para consumo interno e para exportação); o tráfico e o consumo de drogas; as máfias dominantes; a exploração desenfreada; o desemprego; as grandes, grandes fortunas e as grandes, grandes pobrezas; a miséria, a fome; a falta (ou ausência) de cuidados de saúde e a respectiva quebra da esperança de vida, etc, etc, etc.

POEMA

HERÓICAS


XX



(Revolução dos marinheiros nos navios de guerra portugueses ancorados no Tejo. Foram vencidos e enviados pelos fascistas para o Campo de Concentração do Tarrafal, em Cabo Verde. Futuro, decora este nome, símbolo de infâmia: Tarrafal.)





Lá fora, não sei onde
- talvez dentro de mim -
ouço o ranger dum barco
na invenção das ondas
aladas no vento...


De súbito os fogueiros param trémulos
e perguntam ao fogo: «Para quê?»


Os pilotos largam os lemes
e perguntam às ondas: «Para quê?»


A tripulação desce dos mastros
e pergunta ao vento:«Para quê?»


Milhões de vozes no mesmo instante do mundo
rugem no céu um silêncio de tempestade.

Milhões de bocas paralelas
vão talvez gritar o ódio às máquinas
- mãos que se perderam dos homens -
neste planeta dos dias e das noites
que anda à roda do Sol
movido por um motor
monótono e igual.

Milhões de lábios vão desenhar talvez a mesma cólera
que já pairou no silêncio da criação do mundo.

Sim. PARA QUÊ?

Mas há sempre um dedo a apontar no mapa
a ferrugem dum porto...
Há sempre no horizonte uma ilha azul
onde os frutos dormem nas árvores
a amargura das bocas com sede...
Há sempre a ilusão dum destino
na indiferença das vagas...

E os homens sorriem
tranquilamente desesperados.
E os comboios chegam à tabela
com farrapos da vagabundos nas rodas...
E os mineiros vão a enterrar todas as manhãs...
E o sol acerta-se pelos relógios...
E o trigo cresce para discursos de propaganda
em paisagens de moinhos mortos...
E as máquinas fabricam fome e curvas estatísticas...
E os pássaros caem fuzilados como os poetas...

E o céu parece um poço por cima das cabeças
a reflectir as verdadeiras estrelas
que nunca vimos...
E os navios atracam ao cais com música a bordo
e carregamentos de lágrimas nos porões...
E os namorados casam no fim dos romances.

Tudo exacto e disperso
nesta rede complicada de pequenos destinos...

Tudo caos e miséria
nesta paisagem mecânica
com repetição de flores...

Tudo sem sentido!

Até a morte, onde dantes apodrecia o grande bairro dos pobres,
parece agora oca nos últimos olhos resignados.

Tudo sem sentido!

Só nas fossas do suor
os loucos de sempre
continuam a sonhar
com os olhos sonâmbulos
onde já arderam todas as lágrimas
menos as das manhãs das flores sussurrantes de orvalho...

Nada querem da vida,
nem da morte,
nem do amor...

Mas sorriem confiantes
para as teias de aranha,
a acreditar num Sentido qualquer
para além do sentido das bússolas.

Sorriem para a Sombra
que engrinalda as grades
duma luz absurda
de sol podre.


José Gomes Ferreira

SE ELE O DIZ

«A crise toca a todos»: de tantas vezes repetida, a frase pode muito bem ser considerada como refrão da cantiga «o combate à crise» que tem vindo a ser cantada pelo lastimável primeiro-ministro Sócrates e pelo seu deplorável Governo.
E, não passando a referida cantiga de pura ficção - ou, se se preferir, de um exercício de desavergonhada demagogia - também o dito refrão soa como aquilo que é: um brutal insulto à inteligência e à sensibilidade dos vários milhões de portugueses sobre os quais recaem, de facto, as sinistras consequências da crise.

«A crise toca a todos»?: mentira!
A «crise» é uma bênção para a imensa minoria dos portugueses, ou seja, para os chefes dos grandes grupos económicos e financeiros - e é um tormento para a imensa maioria dos portugueses, ou seja, para os trabalhadores e o povo.

A propósito: informa o Correio da Manhã de hoje que os «impostos sobem até 2013», e que as «famílias mais penalizadas» serão as que têm «rendimentos entre 400 e 1500 euros/mês»...

Mas não há razão para alarme: o primeiro-ministro José Sócrates ainda ontem garantiu que «a crise toca a todos».
E se ele o diz...

POEMA

HERÓICAS

IX


(Passei todo o dia a gritar nos cafés: «Vamos vencer! Vamos vencer!» Que fogo parvo!)



Agora que estou só
já posso arrancar da boca
as palavras de comício
que me magoam a alma
de soluços de chicote...

(Pobres labaredas sem incêndio
tão pesadas de cinzas!)


José Gomes Ferreira

O ASSESSOR

Notícia curiosa esta: Blair passou a ser assessor do novo presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos - notícia curiosa mas não surpreendente, tratando-se de quem se trata...
É claro que a assessoria vai ser feita à distância... por telefone, talvez; quiçá por e-mail... sendo certo que o «bago», esse chegará, volumoso e a tempo e horas...

Os dois meliantes conhecem-se desde a altura em que Santos viveu em Inglaterra e Blair lhe explicou tudo sobre a «terceira via».
E tal foi a explicação que, mal regressou à Colômbia, Santos - então assessorado por Blair... -escreveu um livro intitulado: «A Terceira Via: uma alternativa para a Colômbia».

Depois, foi só aplicar a «terceira via» do Blair na Colômbia: primeiro com o narco-fascista Uribe e agora com o sucessor de Uribe e amigo de Blair, Juan Manuel Santos.

E é o que se vê: aquilo é só democracia, só liberdade, só direitos humanos...
aquilo é só uribe, só santos, só blair...

POEMA

HERÓICAS

XIV


(Comício. Mais vale morrer de pé do que viver de «rodillas».)


Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho.

Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho!


José Gomes Ferreira

O ESPECTÁCULO COMEÇOU

Os partidos da política de direita preparam-se para dar mais um golpe na Constituição da República Portuguesa.
Mais um a juntar aos sete golpes que foram as anteriores sete revisões.

Registe-se que a Constituição Portuguesa ocupa o 1º lugar no ranking europeu (ou mundial?) das constituições mais vezes revistas.
Registe-se igualmente que as sete revisões cometidas até agora caracterizaram-se, todas, por dois traços essenciais:
1 - todas foram o resultado de acordos entre o PS e o PSD; e
2 - todas roubaram significativos pedaços de Abril à Lei Fundamental do País.

E é isso que PS e PSD se preparam para fazer uma vez mais.
O espectáculo começou: os actores deram início às habituais representações burlescas com que usam anteceder as revisões.
Como sempre, começaram por exibir «divergências» e «desacordos», cada um fingindo não querer o que, de facto, ambos querem.

Ontem, Sócrates «desafiou o PSD a apresentar de imediato uma proposta concreta de revisão constitucional».
Grande desafio! - ou seja: grande estímulo a que o PSD avance com o trabalho de casa para o PS, depois, aprovar...
Isto, não obstante a veemência de Sócrates ao «exigir» que a proposta do PSD não seja para pôr o neo-liberalismo na Constituição - porque, para isso, declamou Sócrates em voz de falsete, «para isso não contem comigo nem com o PS». - expressão que, traduzida à luz do que aconteceu nas anteriores revisões, significa: «Para isso contem comigo e com o PS»...

Passos Coelho, também ele cumprindo fielmente o guião estabelecido - e enfarpelado qual manequim de montra da Rua dos Fanqueiros - respondeu garantindo a Sócrates que... qual neo-liberalismo qual coisa!, nem pensar nisso!, nem ele nem o PSD têm ideias neo-liberais, eles são é sociais-democratas e mais nada.
E, sabendo que pode contar com Sócrates e com o PS tanto quanto Sócrates e o PS podem contar com ele, lembrou, cirúrgico, que nas anteriores revisões o PS esteve sempre de acordo com as propostas apresentadas pelo PSD - concluindo triunfante: e com isso «foi o país que ganhou».

O país do grande capital, obviamente, que é o único que PS/Sócrates e PSD/Coelho conhecem.

POEMA

HERÓICAS

XII


(Balada duma heroína que eu inventei.)


Vais morrer com a saia rota,
sem flores nos cabelos...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da terra
hão-de florescê-los?

Vais morrer de blusa no fio,
sem laços nas tranças...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos do frio
penteiam crianças?

Vais morrer espantada na rua,
sem fitas nos caracóis...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da lua
enfeitam os heróis?

Vais morrer a cantar numa esquina,
de sapatos velhos...
- Mas isso que importa
se depois de morta
continuarás a ser a menina
que nunca teve espelhos?

Vais morrer com olhos de águia presa
e meias de algodão...
- Mas isso que importa
se depois de morta
a tua beleza
não caberá num caixão.
E há-de rasgar a terra
e romper o chão
como uma primavera
de lágrimas acesa
que os homens atiram, em vão,
para a natureza?


José Gomes Ferreira

SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS

Na entrevista ao Avante! referida no post de ontem, o dirigente comunista Carolus Wimmer falou sobre as nacionalizações de sectores estratégicos que o Governo da Venezuela tem vindo a efectuar; sobre as consequências positivas dessas nacionalizações na resposta à crise capitalista; e sobre as atoardas espalhadas pela comunicação social dominante em torno do processo revolucionário em curso na Venezuela.

E não podia ser mais claro:
«As nacionalizações resultam da luta de classes na Venezuela. Estamos a implementar um processo revolucionário com o objectivo de garantir o bem-estar do povo trabalhador e, assim, alguém tem de ser sacrificado.
Esse alguém é o capital, as grandes empresas nacionais e multinacionais que hoje são obrigadas a cumprir normas tão básicas como o pagamento de impostos - que antes não pagavam -, a melhorar os salários e as condições laborais.
Obviamente que o capital, cujo objectivo e razão única é o lucro, resiste a essas medidas e orientações estratégicas. Muitos optaram pela sabotagem ou pelo não cumprimento da lei. Os casos mais evidentes são os das empresas do sector alimentar, que não aceitam as novas condições impostas pelo Estado. Algumas declaram-se em lockout ou tratam de vender a produção no exterior, o que implica com a segurança alimentar do país. Foi por isso que o governo se viu obrigado a intervir, a tomar conta de empresas que não produziam ou que violavam constantemente a legislação.
Temos que recordar que nos anos 80 e 90 do século passado, as políticas neoliberais privatizaram tudo com o argumento da ineficiência do Estado. Agora, empresas fundamentais dos sectores da comunicação, energia ou alimentar tiveram que sair das mãos privadas.

Não se nacionaliza porque sim, como se quer fazer crer. Decide-se tendo em conta as empresas que se recusam a colaborar com o desenvolvimento do país; que rejeitam cumprir a prioridade do fornecimento de bens e serviços aos venezuelanos; que especulam nos preços, como no sector alimentar.
Neste último caso, primeiro adverte-se a empresa, e só depois se avança para a nacionalização, a qual se processa através da compra, e não da expropriação, como também se diz.

Tudo isto tem subjacente uma linha política de resposta às investidas contra-revolucionárias, como as que se passaram igualmente no sector financeiro.
Muitos bancos davam sinais de poderem destruir o sistema na Venezuela. Há cerca de uma semana, foi nacionalizado o 6º maior banco venezuelano, e a razão foi simples: estava totalmente falido porque os proprietários sacaram os recursos existentes, os depósitos das pessoas, e levaram esse capital para fora do país.
No que diz respeito aos bancos e às empresas nacionalizadas, deixa-me sublinhar um outro aspecto. Actualmente, os responsáveis por fraudes ou operações danosas são levados perante a justiça, como deveria acontecer em qualquer país democrático. Acabou a impunidade. Está claro que muitos fogem para os EUA e para a Europa, onde enocntram cobertura face aos pedidos de extradição solicitados pelas nossas autoridades judiciais.»

Se procurarmos semelhanças e diferenças entre o que se passa na Venezuela e o que acontece em Portugal, é fácil concluir que:
1 - o grande capital de lá é igualzinho ao de cá - e vice-versa;
2 - o que faz a diferença é a existência,, de um Governo ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País; e a existência, , de um Governo ao serviço dos interesses exclusivos do grande capital.

POEMA

HERÓICAS


VI

(Garcia Lorca foi fuzilado.)


Terra:
endurece mais!

Recusa a abrir-te em cova
para esconder o Poeta
no rumor das raízes.

Deixa-o apodrecer no chão
como uma bandeira de carne de remorsos.


José Gomes Ferreira

EIS A DIFERENÇA

Carolus Wimmer, dirigente do Partido Comunista da Venezuela (PCV) esteve em Portugal, a convite do PCP.
Em entrevista ao Avante! abordou questões várias relacionadas com a situação na Venezuela.

Sobre a crise do capitalismo, começou por referir que ela afecta, naturalmente, a América Latina, mas que o seu impacto na Venezuela não assume as proporções verificadas nos outros países - e isso deve-se «ao processo bolivariano, que começou há 11 anos e procura tornar-nos mais soberanos face às grandes potências capitalistas».

E explicou: «antes do processo revolucionário, vivíamos em dependência económica, científica e comercial quase completa face aos EUA. Em pouco tempo redireccionámos a nossa política externa para a integração latino-americana, isto é, orientámo-nos para a diversificação das relações com o objectivo de consolidar uma política económica e comercial multipolar» - e foi isso que «atenuou o impacto da crise, o qual seria seguramente bem maior caso mantivéssemos a dependência face aos EUA».

Quanto às medidas de austeridade tomadas por efeito da crise, disse: «evidentemente que também tivemos que aplicar as chamadas medidas de austeridade, mas estas recaíram, na sua esmagadora maioria, sobre o aparelho burocrático. Todos os ministérios tiveram que cortar nos gastos desnecessários, nas despesas de representação, nos luxos e nas festas».
E explicou: «no essencial, o PCV apoia estas medidas uma vez que o o garrote na despesa dos Estado fica por aqui».

Ainda sobre as medidas de austeridade, que o PCV apoia, esclareceu: «desde logo ficou claro que não se mexia em nada que dissesse respeito à despesa com a política social. Por isso, ao contrário do que aconteceu na maioria dos países capitalistas avançados, este ano na Venezuela os salários aumentaram, bem como as pensões e reformas. E aumentámos o investimento na educação, na saúde, na cultura e no desporto».

E sublinhou: «tudo isto foi decidido num ano em que a crise também nos afecta, demonstrando que na Venezuela se implementa de facto uma política progressista cujo objectivo é melhorar as condições de vida e de trabalho dos venezuelanos».


Eis a diferença entre um Governo que tem como prioridade primeira a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País e esta coisa que, desde há 34 anos, com diferentes máscaras (PS/Sócrates; PSD/Barroso; PS/Guterres, PSD/Cavaco... PS/Soares), tem como prioridade primeira a defesa dos interesses do grande capital.

POEMA

HERÓICAS

V

(Guerra Civil em Espanha: Sofro por sentir inúteis as armas das palavras.)



A alma arde-me o corpo. Posso lá dormir! Levanto-me.
Outro cigarro. Abro a janela. Pasmo...
Oh! que luar suspenso! Oh! que mulher sem corpo! Oh! tanta alma inútil!
E eu para aqui sozinho com um fantasma a bradar-me nos olhos:
Irmãos! Irmãos que combateis contra todos os Destinos Mutilados
nas árvores, nas ruas, nas esquinas,
nas teias de aranha, nos esgotos,
nas covas, nas trincheiras, no outro mundo,
nos patíbulos, na lua, nas estrelas!
Irmãos! eis o que eu posso dar à vossa luta:
um cinzeiro com dez pontas de cigarros
e uma noite de insónia insubmissa...

Que rancor de vergonha!

(e a esta hora
na planície dos voos parados nos olhos
os mortos apodrecem
- sonâmbulos de trapos...)


José Gomes Ferreira

VAMOS A ISSO!

«Ruptura estrutural no relacionamento entre a banca e o actual Governo»: eis como o DN classifica a reacção do presidente do BES, Ricardo Salgado, à utilização, pelo Governo, da golden share no chumbo da aquisição, pela Telefónica (espanhola), da participação da Portugal Telecom na Vivo (brasileira).

«Ruptura estrutural» porquê?
Porque, para o DN, com isto, José Sócrates «perdeu o seu maior aliado político-económico, Ricardo Salgado» - o qual, «não inocentemente, nos bastidores também é tratado por "primeiro-ministro"»...

«Ruptura estrutural» com que consequências?
Segundo o DN, este «virar de costas» ao Governo por parte «do banco sem o apoio do qual nenhum Governo sobreviveu» é a prova provada de que o todo-poderoso BES não só «já não defende este comando para o País», como «parece não estar disposto a que a situação se arraste por mais nove longos meses»...

Não se pode ser mais claro na confirmação do domínio absoluto do poder económico-financeiro sobre o poder político - traço característico essencial da ditadura do grande capital, ao serviço da qual sucessivos governos PS/PSD/CDS-PP flagelam impiedosamente, há longos 34 anos, os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

Aguardemos para ver se o grande capital dominante pensa ter chegado a altura de dar o pontapé no devido sítio ao Governo PS/Sócrates...

Entretanto - e isso é o mais importante! - preparemo-nos para intensificar e ampliar a luta de massas.
Luta contra a política de direita - seja ela praticada pelo PS/Sócrates ou pelo PSD/Coelho - e por uma política de esquerda que defenda os interesses da imensa maioria dos portugueses.

Dia 8 é dia de luta em todo o País.
É dia de paralisações, greves, concentrações e desfiles.
É dia de mobilização geral.
É dia de darmos as mãos dando mais força à nossa força.
Vamos a isso!

POEMA

HERÓICAS

I

Que me importa cantar!
Eu não sou poeta de canções
para embalar
ninhos nos corações.

Sou este ímpeto de gelo de lâmina
que se levanta mudo
diante de tudo.

(E quem me impede
de ter alma e sede?)

Mas quando canto
- as minhas canções ásperas
de vagabundo
sabem ao espanto
de rio sem foz...

E na minha voz
sangra o desespero do mundo.


José Gomes Ferreira

O SALÁRIO DO CRIME

Os proventos dos ex-governantes são cada vez mais tema de notícias.
Já aqui escrevi várias vezes que a profissão de ex-governante é uma das mais rentáveis - especialmente quando se trata de profissionais que, enquanto governantes, foram criados para todo o serviço do grande capital, não hesitando, quando isso foi necessário, em dar ordem para matar centenas de milhares de inocentes.

São esses, então, os mais bem remunerados de todos os ex-governantes. E ganham que se fartam.
O caso de Blair tem sido muito citado: em três anos de ex-governante - e após 10 anos de governação - Blair acumulou uma fortuna que o Sunday Mirror estima em 55 milhões de euros - certamente na proporção directa dos crimes de guerra em que esteve envolvido...
Estes milhões têm várias origens (EUA, Iraque, Koweit, Coreia do Sul...) e decorrem de «negócios» só possíveis de concretizar porque Blair foi o principal aliado da política criminosa de Bush.
Parte grande desses milhões provém dos «discursos» (também lhes chamam «conferências») que Blair profere por esse mundo fora e por cada um dos quais recebe entre 60 e 20o mil euros - o salário do crime é elevado...

Outro criminoso de guerra que fez fortuna à custa das atrocidades que cometeu é o ex-presidente Clinton.
Este, desde que abraçou a profissão de ex-governante, já participou em 365 «conferências», por cada uma das quais recebeu, em média, 200 mil dólares.

Como não podia deixar de ser - modernidade oblige... - vários destes criminosos de guerra já «conferenciaram» em Portugal.
Entre eles Blair, Clinton, Colin Powell, Aznar...
Quem cá os trouxe foi a «empresa consultora de Comunicação, Cunha Vaz e Associados», cujo presidente informa que «uma boa conferência pode custar 400 mil dólares», sublinhando, no entanto, que as «conferências» dão lucro a quem as organiza.
Ou seja: o crime compensa quem o pratica e quem o propagandeia...

A «Cunha Vaz e Associados» está agora a envidar esforços para juntar em Portugal os quatro facínoras responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque e pelo assassinato de centenas de milhares de iraquianos: Bush, Blair, Aznar e Barroso.
Se um criminoso dá lucro, quatro criminosos dão pelo menos quatro vezes mais lucro...

Tudo isto dando razão a M. Verdoux, personagem de Chaplin, quando dizia, incisivo: se um indivíduo mata uma pessoa, é um criminoso; se mata um milhão de pessoas, é um herói.

POEMA

COMÍCIO


Vivam, apenas.

Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.

Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.

Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.

E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só
são belos
quando se desenham na terra em flores.

Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos.


José Gomes Ferreira

ISTO VAI, MEUS AMIGOS, ISTO VAI

Por toda a Europa, os trabalhadores lutam contra a ofensiva anti-social dos vários governos da União Europeia, os quais, à pala da «crise», investem brutalmente sobre os salários, as pensões e reformas, os direitos sociais, e enchem de angústia os lares da imensa maioria das famílias - ao mesmo tempo que enchem os bolsos dos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros.

Na França, foram cerca de dois milhões os que, há dias, se manifestaram nas ruas e (ou) protagonizaram importantes greves.
Na Itália, mais de um milhão de trabalhadores seguiu igual caminho.

Um exemplo digno de especial registo é o da Grécia, onde as greves gerais se sucedem, com êxito, a um ritmo invulgar e onde, uma vez mais, há dias, os trabalhadores dos sectores público e privado voltaram a paralisar massivamente.
À greve geral, complementada por manifestações de massas em 60 cidades, respondeu o governo com as medidas intimidatórias e repressivas características da ditadura do grande capital.
No porto do Pireu, onde a paralisação foi total, os marinheiros enfrentaram corajosamente a proibição da greve decretada pelos tribunais: durante 24 horas nenhum navio saiu do porto.
Acusados pelas forças dominantes de «desrespeito pela lei», os trabalhadores responderam com uma palavra de ordem bem elucidativa sobre a agudeza que a luta de classes está a atingir naquele país: «A lei são os direitos dos trabalhadores».

Grande resposta! - digo eu.
E vem-me à memória o grito do Zé Carlos: «Isto vai, meus amigos, isto vai»...