HERÓICAS
XIV
(Comício. Mais vale morrer de pé do que viver de «rodillas».)
Oh! esta comoção
de me sentir sozinho
no meio da multidão
- a ouvir o meu coração
no peito do vizinho.
Oh! esta solidão
quente como a camaradagem do vinho!
José Gomes Ferreira
O ESPECTÁCULO COMEÇOU
Os partidos da política de direita preparam-se para dar mais um golpe na Constituição da República Portuguesa.
Mais um a juntar aos sete golpes que foram as anteriores sete revisões.
Registe-se que a Constituição Portuguesa ocupa o 1º lugar no ranking europeu (ou mundial?) das constituições mais vezes revistas.
Registe-se igualmente que as sete revisões cometidas até agora caracterizaram-se, todas, por dois traços essenciais:
1 - todas foram o resultado de acordos entre o PS e o PSD; e
2 - todas roubaram significativos pedaços de Abril à Lei Fundamental do País.
E é isso que PS e PSD se preparam para fazer uma vez mais.
O espectáculo começou: os actores deram início às habituais representações burlescas com que usam anteceder as revisões.
Como sempre, começaram por exibir «divergências» e «desacordos», cada um fingindo não querer o que, de facto, ambos querem.
Ontem, Sócrates «desafiou o PSD a apresentar de imediato uma proposta concreta de revisão constitucional».
Grande desafio! - ou seja: grande estímulo a que o PSD avance com o trabalho de casa para o PS, depois, aprovar...
Isto, não obstante a veemência de Sócrates ao «exigir» que a proposta do PSD não seja para pôr o neo-liberalismo na Constituição - porque, para isso, declamou Sócrates em voz de falsete, «para isso não contem comigo nem com o PS». - expressão que, traduzida à luz do que aconteceu nas anteriores revisões, significa: «Para isso contem comigo e com o PS»...
Passos Coelho, também ele cumprindo fielmente o guião estabelecido - e enfarpelado qual manequim de montra da Rua dos Fanqueiros - respondeu garantindo a Sócrates que... qual neo-liberalismo qual coisa!, nem pensar nisso!, nem ele nem o PSD têm ideias neo-liberais, eles são é sociais-democratas e mais nada.
E, sabendo que pode contar com Sócrates e com o PS tanto quanto Sócrates e o PS podem contar com ele, lembrou, cirúrgico, que nas anteriores revisões o PS esteve sempre de acordo com as propostas apresentadas pelo PSD - concluindo triunfante: e com isso «foi o país que ganhou».
O país do grande capital, obviamente, que é o único que PS/Sócrates e PSD/Coelho conhecem.
Mais um a juntar aos sete golpes que foram as anteriores sete revisões.
Registe-se que a Constituição Portuguesa ocupa o 1º lugar no ranking europeu (ou mundial?) das constituições mais vezes revistas.
Registe-se igualmente que as sete revisões cometidas até agora caracterizaram-se, todas, por dois traços essenciais:
1 - todas foram o resultado de acordos entre o PS e o PSD; e
2 - todas roubaram significativos pedaços de Abril à Lei Fundamental do País.
E é isso que PS e PSD se preparam para fazer uma vez mais.
O espectáculo começou: os actores deram início às habituais representações burlescas com que usam anteceder as revisões.
Como sempre, começaram por exibir «divergências» e «desacordos», cada um fingindo não querer o que, de facto, ambos querem.
Ontem, Sócrates «desafiou o PSD a apresentar de imediato uma proposta concreta de revisão constitucional».
Grande desafio! - ou seja: grande estímulo a que o PSD avance com o trabalho de casa para o PS, depois, aprovar...
Isto, não obstante a veemência de Sócrates ao «exigir» que a proposta do PSD não seja para pôr o neo-liberalismo na Constituição - porque, para isso, declamou Sócrates em voz de falsete, «para isso não contem comigo nem com o PS». - expressão que, traduzida à luz do que aconteceu nas anteriores revisões, significa: «Para isso contem comigo e com o PS»...
Passos Coelho, também ele cumprindo fielmente o guião estabelecido - e enfarpelado qual manequim de montra da Rua dos Fanqueiros - respondeu garantindo a Sócrates que... qual neo-liberalismo qual coisa!, nem pensar nisso!, nem ele nem o PSD têm ideias neo-liberais, eles são é sociais-democratas e mais nada.
E, sabendo que pode contar com Sócrates e com o PS tanto quanto Sócrates e o PS podem contar com ele, lembrou, cirúrgico, que nas anteriores revisões o PS esteve sempre de acordo com as propostas apresentadas pelo PSD - concluindo triunfante: e com isso «foi o país que ganhou».
O país do grande capital, obviamente, que é o único que PS/Sócrates e PSD/Coelho conhecem.
POEMA
HERÓICAS
XII
(Balada duma heroína que eu inventei.)
Vais morrer com a saia rota,
sem flores nos cabelos...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da terra
hão-de florescê-los?
Vais morrer de blusa no fio,
sem laços nas tranças...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos do frio
penteiam crianças?
Vais morrer espantada na rua,
sem fitas nos caracóis...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da lua
enfeitam os heróis?
Vais morrer a cantar numa esquina,
de sapatos velhos...
- Mas isso que importa
se depois de morta
continuarás a ser a menina
que nunca teve espelhos?
Vais morrer com olhos de águia presa
e meias de algodão...
- Mas isso que importa
se depois de morta
a tua beleza
não caberá num caixão.
E há-de rasgar a terra
e romper o chão
como uma primavera
de lágrimas acesa
que os homens atiram, em vão,
para a natureza?
José Gomes Ferreira
XII
(Balada duma heroína que eu inventei.)
Vais morrer com a saia rota,
sem flores nos cabelos...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da terra
hão-de florescê-los?
Vais morrer de blusa no fio,
sem laços nas tranças...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos do frio
penteiam crianças?
Vais morrer espantada na rua,
sem fitas nos caracóis...
- Mas isso que importa
se depois de morta
até as mãos da lua
enfeitam os heróis?
Vais morrer a cantar numa esquina,
de sapatos velhos...
- Mas isso que importa
se depois de morta
continuarás a ser a menina
que nunca teve espelhos?
Vais morrer com olhos de águia presa
e meias de algodão...
- Mas isso que importa
se depois de morta
a tua beleza
não caberá num caixão.
E há-de rasgar a terra
e romper o chão
como uma primavera
de lágrimas acesa
que os homens atiram, em vão,
para a natureza?
José Gomes Ferreira
SEMELHANÇAS E DIFERENÇAS
Na entrevista ao Avante! referida no post de ontem, o dirigente comunista Carolus Wimmer falou sobre as nacionalizações de sectores estratégicos que o Governo da Venezuela tem vindo a efectuar; sobre as consequências positivas dessas nacionalizações na resposta à crise capitalista; e sobre as atoardas espalhadas pela comunicação social dominante em torno do processo revolucionário em curso na Venezuela.
E não podia ser mais claro:
«As nacionalizações resultam da luta de classes na Venezuela. Estamos a implementar um processo revolucionário com o objectivo de garantir o bem-estar do povo trabalhador e, assim, alguém tem de ser sacrificado.
Esse alguém é o capital, as grandes empresas nacionais e multinacionais que hoje são obrigadas a cumprir normas tão básicas como o pagamento de impostos - que antes não pagavam -, a melhorar os salários e as condições laborais.
Obviamente que o capital, cujo objectivo e razão única é o lucro, resiste a essas medidas e orientações estratégicas. Muitos optaram pela sabotagem ou pelo não cumprimento da lei. Os casos mais evidentes são os das empresas do sector alimentar, que não aceitam as novas condições impostas pelo Estado. Algumas declaram-se em lockout ou tratam de vender a produção no exterior, o que implica com a segurança alimentar do país. Foi por isso que o governo se viu obrigado a intervir, a tomar conta de empresas que não produziam ou que violavam constantemente a legislação.
Temos que recordar que nos anos 80 e 90 do século passado, as políticas neoliberais privatizaram tudo com o argumento da ineficiência do Estado. Agora, empresas fundamentais dos sectores da comunicação, energia ou alimentar tiveram que sair das mãos privadas.
Não se nacionaliza porque sim, como se quer fazer crer. Decide-se tendo em conta as empresas que se recusam a colaborar com o desenvolvimento do país; que rejeitam cumprir a prioridade do fornecimento de bens e serviços aos venezuelanos; que especulam nos preços, como no sector alimentar.
Neste último caso, primeiro adverte-se a empresa, e só depois se avança para a nacionalização, a qual se processa através da compra, e não da expropriação, como também se diz.
Tudo isto tem subjacente uma linha política de resposta às investidas contra-revolucionárias, como as que se passaram igualmente no sector financeiro.
Muitos bancos davam sinais de poderem destruir o sistema na Venezuela. Há cerca de uma semana, foi nacionalizado o 6º maior banco venezuelano, e a razão foi simples: estava totalmente falido porque os proprietários sacaram os recursos existentes, os depósitos das pessoas, e levaram esse capital para fora do país.
No que diz respeito aos bancos e às empresas nacionalizadas, deixa-me sublinhar um outro aspecto. Actualmente, os responsáveis por fraudes ou operações danosas são levados perante a justiça, como deveria acontecer em qualquer país democrático. Acabou a impunidade. Está claro que muitos fogem para os EUA e para a Europa, onde enocntram cobertura face aos pedidos de extradição solicitados pelas nossas autoridades judiciais.»
Se procurarmos semelhanças e diferenças entre o que se passa na Venezuela e o que acontece em Portugal, é fácil concluir que:
1 - o grande capital de lá é igualzinho ao de cá - e vice-versa;
2 - o que faz a diferença é a existência, lá, de um Governo ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País; e a existência, cá, de um Governo ao serviço dos interesses exclusivos do grande capital.
E não podia ser mais claro:
«As nacionalizações resultam da luta de classes na Venezuela. Estamos a implementar um processo revolucionário com o objectivo de garantir o bem-estar do povo trabalhador e, assim, alguém tem de ser sacrificado.
Esse alguém é o capital, as grandes empresas nacionais e multinacionais que hoje são obrigadas a cumprir normas tão básicas como o pagamento de impostos - que antes não pagavam -, a melhorar os salários e as condições laborais.
Obviamente que o capital, cujo objectivo e razão única é o lucro, resiste a essas medidas e orientações estratégicas. Muitos optaram pela sabotagem ou pelo não cumprimento da lei. Os casos mais evidentes são os das empresas do sector alimentar, que não aceitam as novas condições impostas pelo Estado. Algumas declaram-se em lockout ou tratam de vender a produção no exterior, o que implica com a segurança alimentar do país. Foi por isso que o governo se viu obrigado a intervir, a tomar conta de empresas que não produziam ou que violavam constantemente a legislação.
Temos que recordar que nos anos 80 e 90 do século passado, as políticas neoliberais privatizaram tudo com o argumento da ineficiência do Estado. Agora, empresas fundamentais dos sectores da comunicação, energia ou alimentar tiveram que sair das mãos privadas.
Não se nacionaliza porque sim, como se quer fazer crer. Decide-se tendo em conta as empresas que se recusam a colaborar com o desenvolvimento do país; que rejeitam cumprir a prioridade do fornecimento de bens e serviços aos venezuelanos; que especulam nos preços, como no sector alimentar.
Neste último caso, primeiro adverte-se a empresa, e só depois se avança para a nacionalização, a qual se processa através da compra, e não da expropriação, como também se diz.
Tudo isto tem subjacente uma linha política de resposta às investidas contra-revolucionárias, como as que se passaram igualmente no sector financeiro.
Muitos bancos davam sinais de poderem destruir o sistema na Venezuela. Há cerca de uma semana, foi nacionalizado o 6º maior banco venezuelano, e a razão foi simples: estava totalmente falido porque os proprietários sacaram os recursos existentes, os depósitos das pessoas, e levaram esse capital para fora do país.
No que diz respeito aos bancos e às empresas nacionalizadas, deixa-me sublinhar um outro aspecto. Actualmente, os responsáveis por fraudes ou operações danosas são levados perante a justiça, como deveria acontecer em qualquer país democrático. Acabou a impunidade. Está claro que muitos fogem para os EUA e para a Europa, onde enocntram cobertura face aos pedidos de extradição solicitados pelas nossas autoridades judiciais.»
Se procurarmos semelhanças e diferenças entre o que se passa na Venezuela e o que acontece em Portugal, é fácil concluir que:
1 - o grande capital de lá é igualzinho ao de cá - e vice-versa;
2 - o que faz a diferença é a existência, lá, de um Governo ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País; e a existência, cá, de um Governo ao serviço dos interesses exclusivos do grande capital.
POEMA
HERÓICAS
VI
(Garcia Lorca foi fuzilado.)
Terra:
endurece mais!
Recusa a abrir-te em cova
para esconder o Poeta
no rumor das raízes.
Deixa-o apodrecer no chão
como uma bandeira de carne de remorsos.
José Gomes Ferreira
VI
(Garcia Lorca foi fuzilado.)
Terra:
endurece mais!
Recusa a abrir-te em cova
para esconder o Poeta
no rumor das raízes.
Deixa-o apodrecer no chão
como uma bandeira de carne de remorsos.
José Gomes Ferreira
EIS A DIFERENÇA
Carolus Wimmer, dirigente do Partido Comunista da Venezuela (PCV) esteve em Portugal, a convite do PCP.
Em entrevista ao Avante! abordou questões várias relacionadas com a situação na Venezuela.
Sobre a crise do capitalismo, começou por referir que ela afecta, naturalmente, a América Latina, mas que o seu impacto na Venezuela não assume as proporções verificadas nos outros países - e isso deve-se «ao processo bolivariano, que começou há 11 anos e procura tornar-nos mais soberanos face às grandes potências capitalistas».
E explicou: «antes do processo revolucionário, vivíamos em dependência económica, científica e comercial quase completa face aos EUA. Em pouco tempo redireccionámos a nossa política externa para a integração latino-americana, isto é, orientámo-nos para a diversificação das relações com o objectivo de consolidar uma política económica e comercial multipolar» - e foi isso que «atenuou o impacto da crise, o qual seria seguramente bem maior caso mantivéssemos a dependência face aos EUA».
Quanto às medidas de austeridade tomadas por efeito da crise, disse: «evidentemente que também tivemos que aplicar as chamadas medidas de austeridade, mas estas recaíram, na sua esmagadora maioria, sobre o aparelho burocrático. Todos os ministérios tiveram que cortar nos gastos desnecessários, nas despesas de representação, nos luxos e nas festas».
E explicou: «no essencial, o PCV apoia estas medidas uma vez que o o garrote na despesa dos Estado fica por aqui».
Ainda sobre as medidas de austeridade, que o PCV apoia, esclareceu: «desde logo ficou claro que não se mexia em nada que dissesse respeito à despesa com a política social. Por isso, ao contrário do que aconteceu na maioria dos países capitalistas avançados, este ano na Venezuela os salários aumentaram, bem como as pensões e reformas. E aumentámos o investimento na educação, na saúde, na cultura e no desporto».
E sublinhou: «tudo isto foi decidido num ano em que a crise também nos afecta, demonstrando que na Venezuela se implementa de facto uma política progressista cujo objectivo é melhorar as condições de vida e de trabalho dos venezuelanos».
Eis a diferença entre um Governo que tem como prioridade primeira a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País e esta coisa que, desde há 34 anos, com diferentes máscaras (PS/Sócrates; PSD/Barroso; PS/Guterres, PSD/Cavaco... PS/Soares), tem como prioridade primeira a defesa dos interesses do grande capital.
Em entrevista ao Avante! abordou questões várias relacionadas com a situação na Venezuela.
Sobre a crise do capitalismo, começou por referir que ela afecta, naturalmente, a América Latina, mas que o seu impacto na Venezuela não assume as proporções verificadas nos outros países - e isso deve-se «ao processo bolivariano, que começou há 11 anos e procura tornar-nos mais soberanos face às grandes potências capitalistas».
E explicou: «antes do processo revolucionário, vivíamos em dependência económica, científica e comercial quase completa face aos EUA. Em pouco tempo redireccionámos a nossa política externa para a integração latino-americana, isto é, orientámo-nos para a diversificação das relações com o objectivo de consolidar uma política económica e comercial multipolar» - e foi isso que «atenuou o impacto da crise, o qual seria seguramente bem maior caso mantivéssemos a dependência face aos EUA».
Quanto às medidas de austeridade tomadas por efeito da crise, disse: «evidentemente que também tivemos que aplicar as chamadas medidas de austeridade, mas estas recaíram, na sua esmagadora maioria, sobre o aparelho burocrático. Todos os ministérios tiveram que cortar nos gastos desnecessários, nas despesas de representação, nos luxos e nas festas».
E explicou: «no essencial, o PCV apoia estas medidas uma vez que o o garrote na despesa dos Estado fica por aqui».
Ainda sobre as medidas de austeridade, que o PCV apoia, esclareceu: «desde logo ficou claro que não se mexia em nada que dissesse respeito à despesa com a política social. Por isso, ao contrário do que aconteceu na maioria dos países capitalistas avançados, este ano na Venezuela os salários aumentaram, bem como as pensões e reformas. E aumentámos o investimento na educação, na saúde, na cultura e no desporto».
E sublinhou: «tudo isto foi decidido num ano em que a crise também nos afecta, demonstrando que na Venezuela se implementa de facto uma política progressista cujo objectivo é melhorar as condições de vida e de trabalho dos venezuelanos».
Eis a diferença entre um Governo que tem como prioridade primeira a defesa dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País e esta coisa que, desde há 34 anos, com diferentes máscaras (PS/Sócrates; PSD/Barroso; PS/Guterres, PSD/Cavaco... PS/Soares), tem como prioridade primeira a defesa dos interesses do grande capital.
POEMA
HERÓICAS
V
(Guerra Civil em Espanha: Sofro por sentir inúteis as armas das palavras.)
A alma arde-me o corpo. Posso lá dormir! Levanto-me.
Outro cigarro. Abro a janela. Pasmo...
Oh! que luar suspenso! Oh! que mulher sem corpo! Oh! tanta alma inútil!
E eu para aqui sozinho com um fantasma a bradar-me nos olhos:
Irmãos! Irmãos que combateis contra todos os Destinos Mutilados
nas árvores, nas ruas, nas esquinas,
nas teias de aranha, nos esgotos,
nas covas, nas trincheiras, no outro mundo,
nos patíbulos, na lua, nas estrelas!
Irmãos! eis o que eu posso dar à vossa luta:
um cinzeiro com dez pontas de cigarros
e uma noite de insónia insubmissa...
Que rancor de vergonha!
(e a esta hora
na planície dos voos parados nos olhos
os mortos apodrecem
- sonâmbulos de trapos...)
José Gomes Ferreira
V
(Guerra Civil em Espanha: Sofro por sentir inúteis as armas das palavras.)
A alma arde-me o corpo. Posso lá dormir! Levanto-me.
Outro cigarro. Abro a janela. Pasmo...
Oh! que luar suspenso! Oh! que mulher sem corpo! Oh! tanta alma inútil!
E eu para aqui sozinho com um fantasma a bradar-me nos olhos:
Irmãos! Irmãos que combateis contra todos os Destinos Mutilados
nas árvores, nas ruas, nas esquinas,
nas teias de aranha, nos esgotos,
nas covas, nas trincheiras, no outro mundo,
nos patíbulos, na lua, nas estrelas!
Irmãos! eis o que eu posso dar à vossa luta:
um cinzeiro com dez pontas de cigarros
e uma noite de insónia insubmissa...
Que rancor de vergonha!
(e a esta hora
na planície dos voos parados nos olhos
os mortos apodrecem
- sonâmbulos de trapos...)
José Gomes Ferreira
VAMOS A ISSO!
«Ruptura estrutural no relacionamento entre a banca e o actual Governo»: eis como o DN classifica a reacção do presidente do BES, Ricardo Salgado, à utilização, pelo Governo, da golden share no chumbo da aquisição, pela Telefónica (espanhola), da participação da Portugal Telecom na Vivo (brasileira).
«Ruptura estrutural» porquê?
Porque, para o DN, com isto, José Sócrates «perdeu o seu maior aliado político-económico, Ricardo Salgado» - o qual, «não inocentemente, nos bastidores também é tratado por "primeiro-ministro"»...
«Ruptura estrutural» com que consequências?
Segundo o DN, este «virar de costas» ao Governo por parte «do banco sem o apoio do qual nenhum Governo sobreviveu» é a prova provada de que o todo-poderoso BES não só «já não defende este comando para o País», como «parece não estar disposto a que a situação se arraste por mais nove longos meses»...
Não se pode ser mais claro na confirmação do domínio absoluto do poder económico-financeiro sobre o poder político - traço característico essencial da ditadura do grande capital, ao serviço da qual sucessivos governos PS/PSD/CDS-PP flagelam impiedosamente, há longos 34 anos, os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Aguardemos para ver se o grande capital dominante pensa ter chegado a altura de dar o pontapé no devido sítio ao Governo PS/Sócrates...
Entretanto - e isso é o mais importante! - preparemo-nos para intensificar e ampliar a luta de massas.
Luta contra a política de direita - seja ela praticada pelo PS/Sócrates ou pelo PSD/Coelho - e por uma política de esquerda que defenda os interesses da imensa maioria dos portugueses.
Dia 8 é dia de luta em todo o País.
É dia de paralisações, greves, concentrações e desfiles.
É dia de mobilização geral.
É dia de darmos as mãos dando mais força à nossa força.
Vamos a isso!
«Ruptura estrutural» porquê?
Porque, para o DN, com isto, José Sócrates «perdeu o seu maior aliado político-económico, Ricardo Salgado» - o qual, «não inocentemente, nos bastidores também é tratado por "primeiro-ministro"»...
«Ruptura estrutural» com que consequências?
Segundo o DN, este «virar de costas» ao Governo por parte «do banco sem o apoio do qual nenhum Governo sobreviveu» é a prova provada de que o todo-poderoso BES não só «já não defende este comando para o País», como «parece não estar disposto a que a situação se arraste por mais nove longos meses»...
Não se pode ser mais claro na confirmação do domínio absoluto do poder económico-financeiro sobre o poder político - traço característico essencial da ditadura do grande capital, ao serviço da qual sucessivos governos PS/PSD/CDS-PP flagelam impiedosamente, há longos 34 anos, os interesses dos trabalhadores, do povo e do País.
Aguardemos para ver se o grande capital dominante pensa ter chegado a altura de dar o pontapé no devido sítio ao Governo PS/Sócrates...
Entretanto - e isso é o mais importante! - preparemo-nos para intensificar e ampliar a luta de massas.
Luta contra a política de direita - seja ela praticada pelo PS/Sócrates ou pelo PSD/Coelho - e por uma política de esquerda que defenda os interesses da imensa maioria dos portugueses.
Dia 8 é dia de luta em todo o País.
É dia de paralisações, greves, concentrações e desfiles.
É dia de mobilização geral.
É dia de darmos as mãos dando mais força à nossa força.
Vamos a isso!
POEMA
HERÓICAS
I
Que me importa cantar!
Eu não sou poeta de canções
para embalar
ninhos nos corações.
Sou este ímpeto de gelo de lâmina
que se levanta mudo
diante de tudo.
(E quem me impede
de ter alma e sede?)
Mas quando canto
- as minhas canções ásperas
de vagabundo
sabem ao espanto
de rio sem foz...
E na minha voz
sangra o desespero do mundo.
José Gomes Ferreira
I
Que me importa cantar!
Eu não sou poeta de canções
para embalar
ninhos nos corações.
Sou este ímpeto de gelo de lâmina
que se levanta mudo
diante de tudo.
(E quem me impede
de ter alma e sede?)
Mas quando canto
- as minhas canções ásperas
de vagabundo
sabem ao espanto
de rio sem foz...
E na minha voz
sangra o desespero do mundo.
José Gomes Ferreira
O SALÁRIO DO CRIME
Os proventos dos ex-governantes são cada vez mais tema de notícias.
Já aqui escrevi várias vezes que a profissão de ex-governante é uma das mais rentáveis - especialmente quando se trata de profissionais que, enquanto governantes, foram criados para todo o serviço do grande capital, não hesitando, quando isso foi necessário, em dar ordem para matar centenas de milhares de inocentes.
São esses, então, os mais bem remunerados de todos os ex-governantes. E ganham que se fartam.
O caso de Blair tem sido muito citado: em três anos de ex-governante - e após 10 anos de governação - Blair acumulou uma fortuna que o Sunday Mirror estima em 55 milhões de euros - certamente na proporção directa dos crimes de guerra em que esteve envolvido...
Estes milhões têm várias origens (EUA, Iraque, Koweit, Coreia do Sul...) e decorrem de «negócios» só possíveis de concretizar porque Blair foi o principal aliado da política criminosa de Bush.
Parte grande desses milhões provém dos «discursos» (também lhes chamam «conferências») que Blair profere por esse mundo fora e por cada um dos quais recebe entre 60 e 20o mil euros - o salário do crime é elevado...
Outro criminoso de guerra que fez fortuna à custa das atrocidades que cometeu é o ex-presidente Clinton.
Este, desde que abraçou a profissão de ex-governante, já participou em 365 «conferências», por cada uma das quais recebeu, em média, 200 mil dólares.
Como não podia deixar de ser - modernidade oblige... - vários destes criminosos de guerra já «conferenciaram» em Portugal.
Entre eles Blair, Clinton, Colin Powell, Aznar...
Quem cá os trouxe foi a «empresa consultora de Comunicação, Cunha Vaz e Associados», cujo presidente informa que «uma boa conferência pode custar 400 mil dólares», sublinhando, no entanto, que as «conferências» dão lucro a quem as organiza.
Ou seja: o crime compensa quem o pratica e quem o propagandeia...
A «Cunha Vaz e Associados» está agora a envidar esforços para juntar em Portugal os quatro facínoras responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque e pelo assassinato de centenas de milhares de iraquianos: Bush, Blair, Aznar e Barroso.
Se um criminoso dá lucro, quatro criminosos dão pelo menos quatro vezes mais lucro...
Tudo isto dando razão a M. Verdoux, personagem de Chaplin, quando dizia, incisivo: se um indivíduo mata uma pessoa, é um criminoso; se mata um milhão de pessoas, é um herói.
Já aqui escrevi várias vezes que a profissão de ex-governante é uma das mais rentáveis - especialmente quando se trata de profissionais que, enquanto governantes, foram criados para todo o serviço do grande capital, não hesitando, quando isso foi necessário, em dar ordem para matar centenas de milhares de inocentes.
São esses, então, os mais bem remunerados de todos os ex-governantes. E ganham que se fartam.
O caso de Blair tem sido muito citado: em três anos de ex-governante - e após 10 anos de governação - Blair acumulou uma fortuna que o Sunday Mirror estima em 55 milhões de euros - certamente na proporção directa dos crimes de guerra em que esteve envolvido...
Estes milhões têm várias origens (EUA, Iraque, Koweit, Coreia do Sul...) e decorrem de «negócios» só possíveis de concretizar porque Blair foi o principal aliado da política criminosa de Bush.
Parte grande desses milhões provém dos «discursos» (também lhes chamam «conferências») que Blair profere por esse mundo fora e por cada um dos quais recebe entre 60 e 20o mil euros - o salário do crime é elevado...
Outro criminoso de guerra que fez fortuna à custa das atrocidades que cometeu é o ex-presidente Clinton.
Este, desde que abraçou a profissão de ex-governante, já participou em 365 «conferências», por cada uma das quais recebeu, em média, 200 mil dólares.
Como não podia deixar de ser - modernidade oblige... - vários destes criminosos de guerra já «conferenciaram» em Portugal.
Entre eles Blair, Clinton, Colin Powell, Aznar...
Quem cá os trouxe foi a «empresa consultora de Comunicação, Cunha Vaz e Associados», cujo presidente informa que «uma boa conferência pode custar 400 mil dólares», sublinhando, no entanto, que as «conferências» dão lucro a quem as organiza.
Ou seja: o crime compensa quem o pratica e quem o propagandeia...
A «Cunha Vaz e Associados» está agora a envidar esforços para juntar em Portugal os quatro facínoras responsáveis pela invasão e ocupação do Iraque e pelo assassinato de centenas de milhares de iraquianos: Bush, Blair, Aznar e Barroso.
Se um criminoso dá lucro, quatro criminosos dão pelo menos quatro vezes mais lucro...
Tudo isto dando razão a M. Verdoux, personagem de Chaplin, quando dizia, incisivo: se um indivíduo mata uma pessoa, é um criminoso; se mata um milhão de pessoas, é um herói.
POEMA
COMÍCIO
Vivam, apenas.
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.
Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.
E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só
são belos
quando se desenham na terra em flores.
Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos.
José Gomes Ferreira
Vivam, apenas.
Sejam bons como o sol.
Livres como o vento.
Naturais como as fontes.
Imitem as árvores dos caminhos
que dão flores e frutos
sem complicações.
Mas não queiram convencer os cardos
a transformar os espinhos
em rosas e canções.
E principalmente não pensem na Morte.
Não sofram por causa dos cadáveres
que só
são belos
quando se desenham na terra em flores.
Vivam, apenas.
A Morte é para os mortos.
José Gomes Ferreira
ISTO VAI, MEUS AMIGOS, ISTO VAI
Por toda a Europa, os trabalhadores lutam contra a ofensiva anti-social dos vários governos da União Europeia, os quais, à pala da «crise», investem brutalmente sobre os salários, as pensões e reformas, os direitos sociais, e enchem de angústia os lares da imensa maioria das famílias - ao mesmo tempo que enchem os bolsos dos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros.
Na França, foram cerca de dois milhões os que, há dias, se manifestaram nas ruas e (ou) protagonizaram importantes greves.
Na Itália, mais de um milhão de trabalhadores seguiu igual caminho.
Um exemplo digno de especial registo é o da Grécia, onde as greves gerais se sucedem, com êxito, a um ritmo invulgar e onde, uma vez mais, há dias, os trabalhadores dos sectores público e privado voltaram a paralisar massivamente.
À greve geral, complementada por manifestações de massas em 60 cidades, respondeu o governo com as medidas intimidatórias e repressivas características da ditadura do grande capital.
No porto do Pireu, onde a paralisação foi total, os marinheiros enfrentaram corajosamente a proibição da greve decretada pelos tribunais: durante 24 horas nenhum navio saiu do porto.
Acusados pelas forças dominantes de «desrespeito pela lei», os trabalhadores responderam com uma palavra de ordem bem elucidativa sobre a agudeza que a luta de classes está a atingir naquele país: «A lei são os direitos dos trabalhadores».
Grande resposta! - digo eu.
E vem-me à memória o grito do Zé Carlos: «Isto vai, meus amigos, isto vai»...
Na França, foram cerca de dois milhões os que, há dias, se manifestaram nas ruas e (ou) protagonizaram importantes greves.
Na Itália, mais de um milhão de trabalhadores seguiu igual caminho.
Um exemplo digno de especial registo é o da Grécia, onde as greves gerais se sucedem, com êxito, a um ritmo invulgar e onde, uma vez mais, há dias, os trabalhadores dos sectores público e privado voltaram a paralisar massivamente.
À greve geral, complementada por manifestações de massas em 60 cidades, respondeu o governo com as medidas intimidatórias e repressivas características da ditadura do grande capital.
No porto do Pireu, onde a paralisação foi total, os marinheiros enfrentaram corajosamente a proibição da greve decretada pelos tribunais: durante 24 horas nenhum navio saiu do porto.
Acusados pelas forças dominantes de «desrespeito pela lei», os trabalhadores responderam com uma palavra de ordem bem elucidativa sobre a agudeza que a luta de classes está a atingir naquele país: «A lei são os direitos dos trabalhadores».
Grande resposta! - digo eu.
E vem-me à memória o grito do Zé Carlos: «Isto vai, meus amigos, isto vai»...
POEMA
POEMA DO AUTOCARRO
Quantos biliões de homens! Quanto gritos
de pânico terror!
Quantos ventres aflitos!
Quantos milhões de litros
de movediço amor!
Quantos!
Quantas revoluções na cósmica viagem!
Quantos deuses erguidos! Quantos ídolos de barro!
Quantos!
até eu estar aqui nesta paragem
à espera do autocarro.
E aqui estou, realmente.
Aqui estou encharcado em sangue de inocente,
no sangue dos homens que matei,
no sangue dos impérios que fiz e que desfiz,
no sangue do que sei e que não sei,
no sangue do que quis e que não quis.
Sangue.
Sangue.
Sangue.
Sangue.
Amanhã, talvez nesta paragem de autocarro,
numa hora qualquer, H ou F ou G,
uns homens hão-de vir cheios de medo e sede
e me hão-de fuzilar aqui contra a parede,
e eu nem sequer perguntarei porquê.
«Mas...»
Não há mas.
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
«Mas eu só faço o bem, eu só desejo o bem,
o bem universal,
sem distinguir ninguém»
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro
e sem lhes perguntar porque maltratam.
Eu sei por que é que morro.
Eles é que não sabem porque matam.
Eles são pedras roladas no caos,
são ecos longínquos num búzio de sons.
Os homens nascem maus.
Nós é que havemos de fazê-los bons.
Procuro um rosto neste pequeno mundo do autocarro,
um rosto onde possa descansar os olhos olhando,
um rosto como um gesto suspenso
que me estivesse esperando.
Mas o rosto não existe. Existem caras,
caras triunfantes de vícios,
soberbamente ignaras
com desvergonhas dissimuladas nos interstícios.
O rosto não existe.
«Procura-o»
Não existe-
«Procura-o.
Procura-o como a garganta do emparedado
procura o ar;
como os dedos do homem afogado
buscam a tábua para se agarrar»
Não existe.
«Vês aquele par sentado além ao fundo?
Vês?
Alheio a tudo quanto vai pelo mundo,
simboliza o amor.
Podia o céu ruir e a terra abrir-se,
uma chuva de lodo e sangue arrasar tudo
que eles continuariam a sorrir-se.
Não crês no amor?»
?
«Não ouves?»
?
«Não ouves?»
«Não crês no amor?»
Cala-te, estupor.
Tenho vergonha de existir.
Vergonha de aqui estar simplesmente pensando,
colaborando
sem resistir.
Disso, e do resto.
Vergonha de sorrir para quem detesto,
de responder pois é
quando não é.
Vergonha de me ofenderem,
vergonha de me explorarem,
vergonha de me enganarem,
de me comprarem,
de me venderem.
Homens que nunca vi anseiam por resolver o meu problema concreto.
Oferecem-me automóveis, frigoríficos, aparelhos de televisão.
É só estender a mão
e aceitar o prospecto.
A vida é bela. Eu é que devia ser banido,
expulso da sociedade para que a não prejudique.
Hã?
Ah! Desculpe. Estava distraído.
Um de quinze tostões. Campo de Ourique.
António Gedeão
(Este Poema do Autocarro encerra o ciclo de poesia de António Gedeão.
O próximo Poeta será José Gomes Ferreira, visita frequente do Cravo de Abril mas cuja presença está sempre justificada pela qualidade da sua poesia - desta vez também por que este é o ano do 110º aniversário do seu nascimento)
Quantos biliões de homens! Quanto gritos
de pânico terror!
Quantos ventres aflitos!
Quantos milhões de litros
de movediço amor!
Quantos!
Quantas revoluções na cósmica viagem!
Quantos deuses erguidos! Quantos ídolos de barro!
Quantos!
até eu estar aqui nesta paragem
à espera do autocarro.
E aqui estou, realmente.
Aqui estou encharcado em sangue de inocente,
no sangue dos homens que matei,
no sangue dos impérios que fiz e que desfiz,
no sangue do que sei e que não sei,
no sangue do que quis e que não quis.
Sangue.
Sangue.
Sangue.
Sangue.
Amanhã, talvez nesta paragem de autocarro,
numa hora qualquer, H ou F ou G,
uns homens hão-de vir cheios de medo e sede
e me hão-de fuzilar aqui contra a parede,
e eu nem sequer perguntarei porquê.
«Mas...»
Não há mas.
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
«Mas eu só faço o bem, eu só desejo o bem,
o bem universal,
sem distinguir ninguém»
Todos temos culpa, e a nossa culpa é mortal.
Eles virão e eu morrerei sem lhes pedir socorro
e sem lhes perguntar porque maltratam.
Eu sei por que é que morro.
Eles é que não sabem porque matam.
Eles são pedras roladas no caos,
são ecos longínquos num búzio de sons.
Os homens nascem maus.
Nós é que havemos de fazê-los bons.
Procuro um rosto neste pequeno mundo do autocarro,
um rosto onde possa descansar os olhos olhando,
um rosto como um gesto suspenso
que me estivesse esperando.
Mas o rosto não existe. Existem caras,
caras triunfantes de vícios,
soberbamente ignaras
com desvergonhas dissimuladas nos interstícios.
O rosto não existe.
«Procura-o»
Não existe-
«Procura-o.
Procura-o como a garganta do emparedado
procura o ar;
como os dedos do homem afogado
buscam a tábua para se agarrar»
Não existe.
«Vês aquele par sentado além ao fundo?
Vês?
Alheio a tudo quanto vai pelo mundo,
simboliza o amor.
Podia o céu ruir e a terra abrir-se,
uma chuva de lodo e sangue arrasar tudo
que eles continuariam a sorrir-se.
Não crês no amor?»
?
«Não ouves?»
?
«Não ouves?»
«Não crês no amor?»
Cala-te, estupor.
Tenho vergonha de existir.
Vergonha de aqui estar simplesmente pensando,
colaborando
sem resistir.
Disso, e do resto.
Vergonha de sorrir para quem detesto,
de responder pois é
quando não é.
Vergonha de me ofenderem,
vergonha de me explorarem,
vergonha de me enganarem,
de me comprarem,
de me venderem.
Homens que nunca vi anseiam por resolver o meu problema concreto.
Oferecem-me automóveis, frigoríficos, aparelhos de televisão.
É só estender a mão
e aceitar o prospecto.
A vida é bela. Eu é que devia ser banido,
expulso da sociedade para que a não prejudique.
Hã?
Ah! Desculpe. Estava distraído.
Um de quinze tostões. Campo de Ourique.
António Gedeão
(Este Poema do Autocarro encerra o ciclo de poesia de António Gedeão.
O próximo Poeta será José Gomes Ferreira, visita frequente do Cravo de Abril mas cuja presença está sempre justificada pela qualidade da sua poesia - desta vez também por que este é o ano do 110º aniversário do seu nascimento)
O NECESSÁRIO PONTAPÉ
Dois apontamentos sobre o dia de ontem:
1 - A Espanha viveu ontem um dia memorável.
Não me refiro ao facto de a sua selecção de futebol ter vencido e eliminado a selecção portuguesa no jogo realizado na Cidade do Cabo.
Refiro-me, sim, a um acontecimento muito mais relevante do que esse e que é o seguinte: o Metro de Madrid esteve parado, completamente parado!, durante todo o dia, por efeito de uma greve de protesto contra as medidas anti-laborais e anti-sociais do Governo de Zapatero (medidas que, aliás, são no essencial as mesmas que o Governo de Sócrates tem vindo a levar à prática).
O facto é tanto mais significativo quanto esta foi a primeira vez que uma greve paralisou totalmente o Metro da capital espanhola - razão pela qual os comentadores a denominam de «greve histórica».
Por isso, aqui fica a saudação do Cravo de Abril aos trabalhadores do Metro de Madrid.
2 - Comentando a derrota da selecção portuguesa de futebol frente à sua congénere espanhola, Rui Madeira (Administrador do Teatro Circo de Braga) disse, entre outras coisas, que Portugal perdeu «e se calhar ainda bem» - e explicou porquê: «Assim podemos voltar a concentrar-nos na crise, nas portagens das SCUT, nos cortes na cultura».
Não está mal visto, não senhor.
A propósito: dia 8 temos aí à nossa espera a jornada de luta da CGTP, óptima oportunidade para nos concentrarmos na crise e nas suas coinsequências todas - e para darmos o necessário pontapé na política de direita.
1 - A Espanha viveu ontem um dia memorável.
Não me refiro ao facto de a sua selecção de futebol ter vencido e eliminado a selecção portuguesa no jogo realizado na Cidade do Cabo.
Refiro-me, sim, a um acontecimento muito mais relevante do que esse e que é o seguinte: o Metro de Madrid esteve parado, completamente parado!, durante todo o dia, por efeito de uma greve de protesto contra as medidas anti-laborais e anti-sociais do Governo de Zapatero (medidas que, aliás, são no essencial as mesmas que o Governo de Sócrates tem vindo a levar à prática).
O facto é tanto mais significativo quanto esta foi a primeira vez que uma greve paralisou totalmente o Metro da capital espanhola - razão pela qual os comentadores a denominam de «greve histórica».
Por isso, aqui fica a saudação do Cravo de Abril aos trabalhadores do Metro de Madrid.
2 - Comentando a derrota da selecção portuguesa de futebol frente à sua congénere espanhola, Rui Madeira (Administrador do Teatro Circo de Braga) disse, entre outras coisas, que Portugal perdeu «e se calhar ainda bem» - e explicou porquê: «Assim podemos voltar a concentrar-nos na crise, nas portagens das SCUT, nos cortes na cultura».
Não está mal visto, não senhor.
A propósito: dia 8 temos aí à nossa espera a jornada de luta da CGTP, óptima oportunidade para nos concentrarmos na crise e nas suas coinsequências todas - e para darmos o necessário pontapé na política de direita.
POEMA
AMOSTRA SEM VALOR
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para o infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
António Gedeão
Eu sei que o meu desespero não interessa a ninguém.
Cada um tem o seu, pessoal e intransmissível;
com ele se entretém
e se julga intangível.
Eu sei que a Humanidade é mais gente do que eu,
sei que o Mundo é maior do que o bairro onde habito,
que o respirar de um só, mesmo que seja o meu,
não pesa num total que tende para o infinito.
Eu sei que as dimensões impiedosas da Vida
ignoram todo o homem, dissolvem-no, e, contudo,
nesta insignificância, gratuita e desvalida,
Universo sou eu, com nebulosas e tudo.
António Gedeão
LÁ COMO CÁ
Diz o Diário Económico que a taxa de desemprego em Espanha atingiu os 20,5%.
Para isso muito contribuíram os 1,3 milhões de trabalhadores despedidos no ano de 2009 - dos quais cerca de meio milhão foram despedidos sem justa causa, ou seja por decisão tomada pelos patrões à margem da lei e de acordo apenas com os seus interesses particulares.
Perante isto, entendeu o governo de Zapatero - o maior amigo de Sócrates na Europa - apresentar ao Parlamento uma proposta de reforma das leis laborais - uma proposta carregada de «modernidade», como não podia deixar de ser...
A proposta foi aprovada e, a partir de agora, tudo será diferente.
Diferente como?
Assim: com a nova legislação vai ser «mais fácil e mais barato despedir, reduzindo os custos para os patrões».
Como se vê, é simples.
E não há como um governo «socialista» para governar ao sabor dos interesses do grande capital.
Lá como cá.
Para isso muito contribuíram os 1,3 milhões de trabalhadores despedidos no ano de 2009 - dos quais cerca de meio milhão foram despedidos sem justa causa, ou seja por decisão tomada pelos patrões à margem da lei e de acordo apenas com os seus interesses particulares.
Perante isto, entendeu o governo de Zapatero - o maior amigo de Sócrates na Europa - apresentar ao Parlamento uma proposta de reforma das leis laborais - uma proposta carregada de «modernidade», como não podia deixar de ser...
A proposta foi aprovada e, a partir de agora, tudo será diferente.
Diferente como?
Assim: com a nova legislação vai ser «mais fácil e mais barato despedir, reduzindo os custos para os patrões».
Como se vê, é simples.
E não há como um governo «socialista» para governar ao sabor dos interesses do grande capital.
Lá como cá.
POEMA
TROVAS PARA SEREM VENDIDAS
NA TRAVESSA DE S. DOMINGOS
O repórter fotográfico
foi ver a fuzilaria.
Ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.
Notícias não confirmadas
informam, de origens várias,
que as tropas revolucionárias
recentemente cercadas
acabam de ser esmagadas
com perdas extraordinárias.
Na redacção do jornal
corre tudo em sobressalto.
A hora é sensacional.
Toda a gente dormiu mal,
gesticula e fala alto.
Passageiros recém-chegados
do lugar da revolução
viram dúzias de soldados
prontos a ser fuzilados
e muitos já arrumados
e amontoados no chão.
Agora que se anuncia
já estar regulado o tráfico,
inda mal rompera o dia
foi ver a fuzilaria
o repórter fotográfico.
Vá lá, vá lá, felizmente,
felizmente que ao chegar
inda havia muita gente
que estava por fuzilar.
Numa ridente campina
de papoilas salpicada,
um sol de lâmina fina
cortava a densa neblina
da metralha disparada.
Berrando como vitelos
a malta dos condenados
avançava aos atropelos
e arrepanhava os cabelos
com gestos alucinados.
O repórter já suava,
não tinha mãos a medir;
ora a máquina carregava,
apontava e disparava,
ora no chão se agachava,
pulava e gesticulava
com afanosa presteza.
Há empregos, com franqueza,
nem haviam de existir.
A um tipo de mãos nojentas
que aos berros sobressaía
gritando frases violentas,
focou-o mesmo nas ventas
no momento em que caía.
Mas o melhor não foi isso.
O melhor foi uma velhota
que pôs tudo em rebuliço.
Rápida como um rastilho,
em convulsivos soluços,
foi estatelar-se de bruços
sobre o corpo do seu filho.
- Meu menino, meu menino!
Valha-me a Virgem Maria!
Que vai ser o meu destino
sem a tua companhia?
Mataram-me o meu menino!
Filho do meu coração!
Que vai ser o meu destino
sem a tua protecção?!
Nunca uma cena de horror,
uma tragédia tão viva,
tão grande e expressiva dor,
alguém teve ao seu dispor
defronte de uma objectiva.
Era uma face crispada,
um olhar perdido e louco,
uma boca de xarroco
em lágrimas ensopada.
Foi uma sorte, realmente.
Um desses casos notáveis,
bestiais e formidáveis
que acontecem raramente.
Aquelas faces crispadas
correram pelo mundo inteiro
nas revistas ilustradas,
em tiragens esgotadas
que deram muito dinheiro.
Com aquele sentido humano
da justiça e da harmonia,
o repórter, todo ufano,
ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.
António Gedeão
NA TRAVESSA DE S. DOMINGOS
O repórter fotográfico
foi ver a fuzilaria.
Ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.
Notícias não confirmadas
informam, de origens várias,
que as tropas revolucionárias
recentemente cercadas
acabam de ser esmagadas
com perdas extraordinárias.
Na redacção do jornal
corre tudo em sobressalto.
A hora é sensacional.
Toda a gente dormiu mal,
gesticula e fala alto.
Passageiros recém-chegados
do lugar da revolução
viram dúzias de soldados
prontos a ser fuzilados
e muitos já arrumados
e amontoados no chão.
Agora que se anuncia
já estar regulado o tráfico,
inda mal rompera o dia
foi ver a fuzilaria
o repórter fotográfico.
Vá lá, vá lá, felizmente,
felizmente que ao chegar
inda havia muita gente
que estava por fuzilar.
Numa ridente campina
de papoilas salpicada,
um sol de lâmina fina
cortava a densa neblina
da metralha disparada.
Berrando como vitelos
a malta dos condenados
avançava aos atropelos
e arrepanhava os cabelos
com gestos alucinados.
O repórter já suava,
não tinha mãos a medir;
ora a máquina carregava,
apontava e disparava,
ora no chão se agachava,
pulava e gesticulava
com afanosa presteza.
Há empregos, com franqueza,
nem haviam de existir.
A um tipo de mãos nojentas
que aos berros sobressaía
gritando frases violentas,
focou-o mesmo nas ventas
no momento em que caía.
Mas o melhor não foi isso.
O melhor foi uma velhota
que pôs tudo em rebuliço.
Rápida como um rastilho,
em convulsivos soluços,
foi estatelar-se de bruços
sobre o corpo do seu filho.
- Meu menino, meu menino!
Valha-me a Virgem Maria!
Que vai ser o meu destino
sem a tua companhia?
Mataram-me o meu menino!
Filho do meu coração!
Que vai ser o meu destino
sem a tua protecção?!
Nunca uma cena de horror,
uma tragédia tão viva,
tão grande e expressiva dor,
alguém teve ao seu dispor
defronte de uma objectiva.
Era uma face crispada,
um olhar perdido e louco,
uma boca de xarroco
em lágrimas ensopada.
Foi uma sorte, realmente.
Um desses casos notáveis,
bestiais e formidáveis
que acontecem raramente.
Aquelas faces crispadas
correram pelo mundo inteiro
nas revistas ilustradas,
em tiragens esgotadas
que deram muito dinheiro.
Com aquele sentido humano
da justiça e da harmonia,
o repórter, todo ufano,
ganhou o prémio do ano
da melhor fotografia.
António Gedeão
PALAVRAS PARA QUÊ?
Dizem os jornais que Mário Soares recusou pronunciar-se sobre o candidato que apoiará nas eleições presidenciais.
Fê-lo, certamente, naquele tom categórico e definitivo que lhe é habitual, género: não digo nada sobre o assunto, nem uma palavra, assunto arrumado...
Também como é seu hábito, de imediato começou a pronunciar-se sobre o que jurara não se pronunciar- sempre recusando pronunciar-se, obviamente...
«O mais importante num político é o respeito pelos outros»: começou por dizer, qual Frei Tomás...
E como, por acaso, tinha ali mesmo ao seu lado um candidato às presidenciais, Soares - sempre recusando pronunciar-se sobre o candidato que apoiará... - proclamou: «Fernando Nobre dedicou toda a vida aos outros sem pedir nada em troca».
Depois, e ainda continuando a recusar pronunciar-se sobre o candidato que apoiará, acrescentou que o exemplo de «respeito pelos outros» dado por Fernando Nobre «não tem paralelo».
A terminar, Soares, categórico e definitivo, como é seu hábito, recusou pronunciar-se sobre o candidato que apoiará nas eleições presidenciais...
Palavras para quê?: é um homem de palavra em acção...
Fê-lo, certamente, naquele tom categórico e definitivo que lhe é habitual, género: não digo nada sobre o assunto, nem uma palavra, assunto arrumado...
Também como é seu hábito, de imediato começou a pronunciar-se sobre o que jurara não se pronunciar- sempre recusando pronunciar-se, obviamente...
«O mais importante num político é o respeito pelos outros»: começou por dizer, qual Frei Tomás...
E como, por acaso, tinha ali mesmo ao seu lado um candidato às presidenciais, Soares - sempre recusando pronunciar-se sobre o candidato que apoiará... - proclamou: «Fernando Nobre dedicou toda a vida aos outros sem pedir nada em troca».
Depois, e ainda continuando a recusar pronunciar-se sobre o candidato que apoiará, acrescentou que o exemplo de «respeito pelos outros» dado por Fernando Nobre «não tem paralelo».
A terminar, Soares, categórico e definitivo, como é seu hábito, recusou pronunciar-se sobre o candidato que apoiará nas eleições presidenciais...
Palavras para quê?: é um homem de palavra em acção...
POEMA
AMADOR SEM COISA AMADA
Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.
Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.
Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
António Gedeão
Resolvi andar na rua
com os olhos postos no chão.
Quem me quiser que me chame
ou que me toque com a mão.
Quando a angústia embaciar
de tédio os olhos vidrados,
olharei para os prédios altos,
para as telhas dos telhados.
Amador sem coisa amada,
aprendiz colegial.
Sou amador da existência,
não chego a profissional.
António Gedeão
CARLOS PATO
UM NOME E UM EXEMPLO A FIXAR
Carlos Pato nasceu em São João dos Montes, Vila Franca de Xira, em 21 de Dezembro de 1920.
Oriundo de uma família antifascista - era irmão de Octávio Pato, que viria a ser um destacado dirigente do PCP - Carlos Pato, aos 17 anos de idade, aderiu ao PCP - integrando, logo a seguir, o Comité Local do Partido e, um pouco mais tarde, o Comité Regional do Ribatejo.
Paralelamente à actividade partidária, participou intensamente no movimento associativo do concelho e fez parte do «Grupo Neo-Realista de Vila Franca».
Foi duas vezes preso pela PIDE.
Na última dessas prisões, em 1949, foi submetido a brutais torturas, incluindo 111 horas consecutivas de «estátua».
Após uma cruel agonia, resultante das torturas e da recusa da polícia fascista em lhe facultar tratamento médico, viria a sucumbir às 6H35 do dia 26 de Junho de 1950, no Reduto Norte do Forte de Caxias - faz hoje precisamente 60 anos.
Tinha 29 anos de idade.
O seu funeral, que a PIDE quis ocultar, constituiu uma expressiva manifestação de pesar e de protesto da população do concelho de Vila franca de Xira.
Uma manifestação que Alves Redol descreveu assim, no Prefácio ao livro «Alguns Contos», de Carlos Pato, publicado um ano após a sua morte, por iniciativa de um grupo de amigos:
«Só quem viu mulheres e meninos do povo levarem-te raminhos de flores silvestres, numa homenagem que nunca conheci igual, e os teus amigos, e os teus companheiros de trabalho, e uma população inteira, todos sofrendo a essa separação, numa angústia que estava mais no nosso sangue do que nos rostos torturados por esse golpe, é que saberá compreender e testemunhar que chorámos um Homem. Um Homem de que nos cumpre honrar o exemplo de dignidade e a lição de coerência»
Sobre Carlos Pato, escreveu José Gomes Ferreira:
Volta-te e olha para a terra.
- a carne da tua sombra
de flores acesa.
Céu para quê?
O céu é para os que esperam.
E tu morreste por uma certeza!
E Carlos de Oliveira:
Mais vivo porque sofreste,
a morte não veio, foi-se.
A eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.
E Sidónio Muralha:
Largos versos irrompem do teu silêncio de granito.
E tu vives inteiro em cada grito,
tu que foste maior que todas as poesias.
(Esta tarde, a Comissão Concelhia de Vila Franca de Xira do PCP prestou homenagem a Carlos Pato, com uma sessão no Clube Vilafranquense - em que interveio Armindo Miranda, da Comissão Política do PCP - seguida de uma romagem ao Cemitério de Vila Franca de Xira)
Carlos Pato nasceu em São João dos Montes, Vila Franca de Xira, em 21 de Dezembro de 1920.
Oriundo de uma família antifascista - era irmão de Octávio Pato, que viria a ser um destacado dirigente do PCP - Carlos Pato, aos 17 anos de idade, aderiu ao PCP - integrando, logo a seguir, o Comité Local do Partido e, um pouco mais tarde, o Comité Regional do Ribatejo.
Paralelamente à actividade partidária, participou intensamente no movimento associativo do concelho e fez parte do «Grupo Neo-Realista de Vila Franca».
Foi duas vezes preso pela PIDE.
Na última dessas prisões, em 1949, foi submetido a brutais torturas, incluindo 111 horas consecutivas de «estátua».
Após uma cruel agonia, resultante das torturas e da recusa da polícia fascista em lhe facultar tratamento médico, viria a sucumbir às 6H35 do dia 26 de Junho de 1950, no Reduto Norte do Forte de Caxias - faz hoje precisamente 60 anos.
Tinha 29 anos de idade.
O seu funeral, que a PIDE quis ocultar, constituiu uma expressiva manifestação de pesar e de protesto da população do concelho de Vila franca de Xira.
Uma manifestação que Alves Redol descreveu assim, no Prefácio ao livro «Alguns Contos», de Carlos Pato, publicado um ano após a sua morte, por iniciativa de um grupo de amigos:
«Só quem viu mulheres e meninos do povo levarem-te raminhos de flores silvestres, numa homenagem que nunca conheci igual, e os teus amigos, e os teus companheiros de trabalho, e uma população inteira, todos sofrendo a essa separação, numa angústia que estava mais no nosso sangue do que nos rostos torturados por esse golpe, é que saberá compreender e testemunhar que chorámos um Homem. Um Homem de que nos cumpre honrar o exemplo de dignidade e a lição de coerência»
Sobre Carlos Pato, escreveu José Gomes Ferreira:
Volta-te e olha para a terra.
- a carne da tua sombra
de flores acesa.
Céu para quê?
O céu é para os que esperam.
E tu morreste por uma certeza!
E Carlos de Oliveira:
Mais vivo porque sofreste,
a morte não veio, foi-se.
A eternidade constrói-se
na beleza com que viveste.
E Sidónio Muralha:
Largos versos irrompem do teu silêncio de granito.
E tu vives inteiro em cada grito,
tu que foste maior que todas as poesias.
(Esta tarde, a Comissão Concelhia de Vila Franca de Xira do PCP prestou homenagem a Carlos Pato, com uma sessão no Clube Vilafranquense - em que interveio Armindo Miranda, da Comissão Política do PCP - seguida de uma romagem ao Cemitério de Vila Franca de Xira)
TELHADOS DE VIDRO
Manuel Alegre arrancou ontem, em Setúbal, com a sua pré-campanha.
Na presença de 223 pessoas, o candidato do PS/BE, desferiu um forte ataque ao actual Presidente.
«Um Presidente da República não pode nunca dizer que um país vive uma situação insustentável» - proclamou Alegre, repetindo, por palavras suas, a ideia de Sócrates sobre o assunto.
E por que é que um PR não pode dizer o que Cavaco disse?
Alegre, sempre na linha do pensamento socratista, explicou: «Ao Presidente da República não cabem palavras de depressão, nem palavras que desmobilizem os portugueses, mas palavras de confiança».
No que lhe diz respeito, Alegre reconhece que «Portugal está de facto numa situação difícil», considerando, no entanto, que «o termo insustentável cria dificuldades ao próprio país».
«Difícil»?
«Insustentável»?
Estou em crer que essa é uma questão irrelevante para a imensa maioria dos portugueses sobre os quais caem - difíceis e insustentáveis - as consequências da política que os partidos de Alegre e de Cavaco - ora um; ora outro; ora os dois de braço dado - têm vindo a praticar há 34 anos.
A dada altura, elevando o tom do ataque a Cavaco Silva, o candidato de Louçã/Sócrates perguntou, acutilante: «O que fez ele para impedir que a situação fosse insustentável?» - e, garantindo que não tem «memória curta», lembrou que Cavaco foi primeiro-ministro durante dez anos...
Bem lembrado, sem dúvida.
Só que, como muito bem diz a sabedoria popular, quem tem telhados de vidro não deve atirar pedradas...
E a verdade é que Cavaco, se quisesse, podia perguntar com igual acutilância: «O que fez ele para impedir que a situação fosse difícil?»- e, provando que também não tem «memória curta», lembrar que Alegre está ligado, há 34 anos, à política que conduziu Portugal à situação «difícil» ou «insustentável» em que se encontra.
Na presença de 223 pessoas, o candidato do PS/BE, desferiu um forte ataque ao actual Presidente.
«Um Presidente da República não pode nunca dizer que um país vive uma situação insustentável» - proclamou Alegre, repetindo, por palavras suas, a ideia de Sócrates sobre o assunto.
E por que é que um PR não pode dizer o que Cavaco disse?
Alegre, sempre na linha do pensamento socratista, explicou: «Ao Presidente da República não cabem palavras de depressão, nem palavras que desmobilizem os portugueses, mas palavras de confiança».
No que lhe diz respeito, Alegre reconhece que «Portugal está de facto numa situação difícil», considerando, no entanto, que «o termo insustentável cria dificuldades ao próprio país».
«Difícil»?
«Insustentável»?
Estou em crer que essa é uma questão irrelevante para a imensa maioria dos portugueses sobre os quais caem - difíceis e insustentáveis - as consequências da política que os partidos de Alegre e de Cavaco - ora um; ora outro; ora os dois de braço dado - têm vindo a praticar há 34 anos.
A dada altura, elevando o tom do ataque a Cavaco Silva, o candidato de Louçã/Sócrates perguntou, acutilante: «O que fez ele para impedir que a situação fosse insustentável?» - e, garantindo que não tem «memória curta», lembrou que Cavaco foi primeiro-ministro durante dez anos...
Bem lembrado, sem dúvida.
Só que, como muito bem diz a sabedoria popular, quem tem telhados de vidro não deve atirar pedradas...
E a verdade é que Cavaco, se quisesse, podia perguntar com igual acutilância: «O que fez ele para impedir que a situação fosse difícil?»- e, provando que também não tem «memória curta», lembrar que Alegre está ligado, há 34 anos, à política que conduziu Portugal à situação «difícil» ou «insustentável» em que se encontra.
POEMA
PARA ALÉM DA TRAFARIA
- Minha mãe, haverá mundo
para além da Trafaria?
- Não sei, meu filho. Não sei.
Tudo aquilo que sabia
já no meu sangue te dei.
- Que serras são estas, mãe,
que não nos deixam ver nada?
- São rugas que a Terra tem.
Não maces a tua mãe.
Deixa-me estar descansada.
- Ó mãe, que rio é aquele?
Onde nasce e onde morre?
- Ó filho, é Deus que o impele.
Entretem-te a olhar para ele.
É um rio. Tem água. Corre.
- Quando eu for crescido, mãe,
quero saber e entender.
- Ó filho, o supremo bem
é cada qual, com o que tem,
resignar-se e agradecer.
Deus faz tudo pelo melhor.
Não se engana nem se esquece.
De todo o mal, o maior,
seria sempre peor
se Deus assim o quisesse.
Ninguém foge ao seu destino.
Está tudo determinado.
Não penses com desatino.
Dorme, dorme, meu menino,
um soninho descansado.
António Gedeão
- Minha mãe, haverá mundo
para além da Trafaria?
- Não sei, meu filho. Não sei.
Tudo aquilo que sabia
já no meu sangue te dei.
- Que serras são estas, mãe,
que não nos deixam ver nada?
- São rugas que a Terra tem.
Não maces a tua mãe.
Deixa-me estar descansada.
- Ó mãe, que rio é aquele?
Onde nasce e onde morre?
- Ó filho, é Deus que o impele.
Entretem-te a olhar para ele.
É um rio. Tem água. Corre.
- Quando eu for crescido, mãe,
quero saber e entender.
- Ó filho, o supremo bem
é cada qual, com o que tem,
resignar-se e agradecer.
Deus faz tudo pelo melhor.
Não se engana nem se esquece.
De todo o mal, o maior,
seria sempre peor
se Deus assim o quisesse.
Ninguém foge ao seu destino.
Está tudo determinado.
Não penses com desatino.
Dorme, dorme, meu menino,
um soninho descansado.
António Gedeão
BASTA FAZER AS CONTAS
No ano de 2008, havia em Portugal 10 400 milionários (indivíduos com fortunas superiores a um milhão de dólares).
No ano de 2009, esse número subiu para 11 000 - mais 600, portanto, o que corresponde a um aumento de 5,5%.
Assim sendo, também o número de pobres vai aumentando: segundo a Eurostat, existem em Portugal cerca de 2,5 milhões de pobres, dos quais mais de 200 mil em situação de miséria extrema.
Posto isto, basta fazer as contas e encontraremos a resposta à pergunta formulada há mais de um século por Almeida Garrett:
«E eu pergunto aos economistas, aos políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria (...) para produzir um rico?»
No ano de 2009, esse número subiu para 11 000 - mais 600, portanto, o que corresponde a um aumento de 5,5%.
Assim sendo, também o número de pobres vai aumentando: segundo a Eurostat, existem em Portugal cerca de 2,5 milhões de pobres, dos quais mais de 200 mil em situação de miséria extrema.
Posto isto, basta fazer as contas e encontraremos a resposta à pergunta formulada há mais de um século por Almeida Garrett:
«E eu pergunto aos economistas, aos políticos, aos moralistas, se já calcularam o número de indivíduos que é forçoso condenar à miséria (...) para produzir um rico?»
POEMA
ESTATÍSTICA
Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.
António Gedeão
Quando eu nasci havia em Portugal
(em Portugal continental
e nas ridentes,
verdes e calmas
ilhas adjacentes)
uns seis milhões e umas tantas mil almas.
Assim se lia
no meu livrinho de Corografia
de António Eusébio de Morais Soajos.
Hoje, graças aos progressos da Higiene e da Pedagogia,
já somos quase dez milhões de gajos.
António Gedeão
COINCIDÊNCIAS
Juan Manuel Santos foi eleito presidente da Colômbia, numas eleições em que mais de 57% dos eleitores se abstiveram e, dos que votaram, 750 mil recorreram ao voto em branco.
Por coincidência, Juan Manuel Santos era ministro da Defesa do Governo do narco-fascista Uribe.
As eleições foram organizadas por uma empresa privada: a Unión Temporal Disporel, a qual «controlou todo o processo eleitoral»: «fabricou os boletins de voto e os demais materiais eleitorais, transportou os formulários e boletins para as assembleias de voto e, depois, recolheu os boletins».
Por coincidência, Juan Manuel Santos é um dos principais accionistas dessa empresa.
Por coincidência, Juan Manuel Santos, no seu discurso pós-eleições, declarou que vai prosseguir a política de Álvaro Uribe - que ele considera ser «o melhor presidente em dois séculos de República».
Por coincidência, no decorrer da campanha eleitoral foi assassinado mais um dirigente sindical - elevando para 31 o número de sindicalistas assassinados este ano na Colômbia.
Por coincidência, Juan Manuel Santos foi notificado pela justiça equatoriana - e pedida a sua extradição - pela sua responsabilidade, enquanto ministro da Defesa de Uribe, no assassinato de 25 pessoas, em Março de 2008, na sequência de um bombardeamento da força aérea colombiana sobre o Equador.
Por coincidência, a Colômbia é o mais fiel e incondicional aliado dos EUA no continente americano.
Por coincidência, a Colômbia é considerada, pelos EUA, como um modelo de democracia.
Por coincidência, Juan Manuel Santos era ministro da Defesa do Governo do narco-fascista Uribe.
As eleições foram organizadas por uma empresa privada: a Unión Temporal Disporel, a qual «controlou todo o processo eleitoral»: «fabricou os boletins de voto e os demais materiais eleitorais, transportou os formulários e boletins para as assembleias de voto e, depois, recolheu os boletins».
Por coincidência, Juan Manuel Santos é um dos principais accionistas dessa empresa.
Por coincidência, Juan Manuel Santos, no seu discurso pós-eleições, declarou que vai prosseguir a política de Álvaro Uribe - que ele considera ser «o melhor presidente em dois séculos de República».
Por coincidência, no decorrer da campanha eleitoral foi assassinado mais um dirigente sindical - elevando para 31 o número de sindicalistas assassinados este ano na Colômbia.
Por coincidência, Juan Manuel Santos foi notificado pela justiça equatoriana - e pedida a sua extradição - pela sua responsabilidade, enquanto ministro da Defesa de Uribe, no assassinato de 25 pessoas, em Março de 2008, na sequência de um bombardeamento da força aérea colombiana sobre o Equador.
Por coincidência, a Colômbia é o mais fiel e incondicional aliado dos EUA no continente americano.
Por coincidência, a Colômbia é considerada, pelos EUA, como um modelo de democracia.
POEMA
COMO SERÁ ESTAR CONTENTE?
Como será estar contente?
Lançar os olhos em volta,
moderado e complacente,
e tratar com toda a gente
sem tristeza nem revolta?
Sentir-se um homem feliz,
satisfeito com o que sente,
com o que pensa e com o que diz?
Como será estar contente?
Deve haver qualquer mecânica,
qualquer retesada mola
que se solta e desenrola
no próprio instante preciso,
para que um homem de carne,
de olhos pregados no rosto,
possa olhar e rir com gosto
sem estranhar o som do riso.
Na minha tosca engrenagem,
de ferrugenta sucata,
há qualquer mola de lata
que não se distende bem,
qualquer dessorada glândula
ou nervo que não se enfeixa,
qualquer coisa que não deixa
deflagrar essa girândola
de timbres que o riso tem.
Não ter riso e não ter casa,
nem dinheiro nem saúde,
não se conta por virtude
que a miséria é ferro em brasa.
Mas ter casa, ter dinheiro,
ter saúde e não ter riso,
flagelar-se o dia inteiro
como se o sangrar primeiro
fosse um tormento preciso,
tê-lo sempre forte e vivo,
espantado a todo o momento,
isso sim, será motivo
de grande contentamento.
António Gedeão
Como será estar contente?
Lançar os olhos em volta,
moderado e complacente,
e tratar com toda a gente
sem tristeza nem revolta?
Sentir-se um homem feliz,
satisfeito com o que sente,
com o que pensa e com o que diz?
Como será estar contente?
Deve haver qualquer mecânica,
qualquer retesada mola
que se solta e desenrola
no próprio instante preciso,
para que um homem de carne,
de olhos pregados no rosto,
possa olhar e rir com gosto
sem estranhar o som do riso.
Na minha tosca engrenagem,
de ferrugenta sucata,
há qualquer mola de lata
que não se distende bem,
qualquer dessorada glândula
ou nervo que não se enfeixa,
qualquer coisa que não deixa
deflagrar essa girândola
de timbres que o riso tem.
Não ter riso e não ter casa,
nem dinheiro nem saúde,
não se conta por virtude
que a miséria é ferro em brasa.
Mas ter casa, ter dinheiro,
ter saúde e não ter riso,
flagelar-se o dia inteiro
como se o sangrar primeiro
fosse um tormento preciso,
tê-lo sempre forte e vivo,
espantado a todo o momento,
isso sim, será motivo
de grande contentamento.
António Gedeão
«A CRISE TOCA A TODOS»
«A crise toca a todos»: eis uma frase repetida todos os dias por todos os governantes do mundo capitalista.
E enquanto isto dizem, vão aumentando o desemprego, aprovam leis que facilitam ainda mais os despedimentos, roubam nos salários e nas reformas, aumentam o custo de vida, enfim, aumentam a exploração de quem trabalha e vive do seu trabalho.
Entretanto, e porque estas medidas incidem sobre a imensa maioria dos cidadãos de cada país, a ideia de que «a crise toca a todos» generaliza-se como verdade absoluta - verdade que todos podemos confirmar, aliás...
Senão vejamos: experimente cada um de vocês olhar para as pessoas que conhece (familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho):
entre essas pessoas há alguma que não seja «tocada» pela «crise»?
Não há, pois não?:
então, está confirmado: «a crise toca a todos»...
É claro que do outro lado desta imensa maioria brutalmente flagelada pela «crise», há uma imensa minoria, também «tocada pela crise», mas neste caso, pela varinha mágica da crise: são os ricaços, os multimilionários, os senhores do grande capital, cujas fortunas aumentam, aumentam, aumentam sempre...
E os dados não deixam margem para dúvidas: de acordo com um estudo publicado há dias pelo Boston Consulting Group (BCG), «a riqueza em mãos privadas atingiu no ano passado 111 biliões e 500 mil milhões de dólares, o que representa um aumento de 11,5 por cento em relação a 2008».
Estou em crer que se o BCG fizesse as contas até ao fim, concluiria que os aumentos das fortunas da imensa minoria, correspondem, mais coisa menos coisa, ao resultado da exploração da imensa maioria acrescido dos roubos praticados à pala da «crise»...
E como (sempre segundo o estudo do BCG) o aumento dessas fortunas «irá continuar a progredir até 2014, a um ritmo de 6 por cento ao ano», preparemo-nos para o que aí vem - e para os continuar a ouvir dizer, todos os dias, que «a crise toca a todos»...
Preparemo-nos, especialmente, para dar o nosso contributo no sentido de tornar mais forte a luta contra «crise».
Tendo sempre presente que onde está «crise» deve ler-se: capitalismo.
E tendo sempre o socialismo no horizonte.
E enquanto isto dizem, vão aumentando o desemprego, aprovam leis que facilitam ainda mais os despedimentos, roubam nos salários e nas reformas, aumentam o custo de vida, enfim, aumentam a exploração de quem trabalha e vive do seu trabalho.
Entretanto, e porque estas medidas incidem sobre a imensa maioria dos cidadãos de cada país, a ideia de que «a crise toca a todos» generaliza-se como verdade absoluta - verdade que todos podemos confirmar, aliás...
Senão vejamos: experimente cada um de vocês olhar para as pessoas que conhece (familiares, amigos, vizinhos, colegas de trabalho):
entre essas pessoas há alguma que não seja «tocada» pela «crise»?
Não há, pois não?:
então, está confirmado: «a crise toca a todos»...
É claro que do outro lado desta imensa maioria brutalmente flagelada pela «crise», há uma imensa minoria, também «tocada pela crise», mas neste caso, pela varinha mágica da crise: são os ricaços, os multimilionários, os senhores do grande capital, cujas fortunas aumentam, aumentam, aumentam sempre...
E os dados não deixam margem para dúvidas: de acordo com um estudo publicado há dias pelo Boston Consulting Group (BCG), «a riqueza em mãos privadas atingiu no ano passado 111 biliões e 500 mil milhões de dólares, o que representa um aumento de 11,5 por cento em relação a 2008».
Estou em crer que se o BCG fizesse as contas até ao fim, concluiria que os aumentos das fortunas da imensa minoria, correspondem, mais coisa menos coisa, ao resultado da exploração da imensa maioria acrescido dos roubos praticados à pala da «crise»...
E como (sempre segundo o estudo do BCG) o aumento dessas fortunas «irá continuar a progredir até 2014, a um ritmo de 6 por cento ao ano», preparemo-nos para o que aí vem - e para os continuar a ouvir dizer, todos os dias, que «a crise toca a todos»...
Preparemo-nos, especialmente, para dar o nosso contributo no sentido de tornar mais forte a luta contra «crise».
Tendo sempre presente que onde está «crise» deve ler-se: capitalismo.
E tendo sempre o socialismo no horizonte.
POEMA
CHUVA NA AREIA
Terça-feira,
quarta-feira,
quinta,
sexta,
tanto faz.
Ou desta ou doutra maneira,
domingo ou segunda-feira,
nenhuma esperança me traz.
Que eu nem sei bem pelo que espero.
Se aprender o que não sei,
se esquecer o que aprendi,
se impor meu sou e meu quero
se, num ti que eu inventei,
nenúfares boiar em ti.
Que esta coisa que se espera
é no dobrar de uma esquina.
Um clarão que dilacera,
a explosão de uma cratera,
vida, ou morte, repentina.
António Gedeão
Terça-feira,
quarta-feira,
quinta,
sexta,
tanto faz.
Ou desta ou doutra maneira,
domingo ou segunda-feira,
nenhuma esperança me traz.
Que eu nem sei bem pelo que espero.
Se aprender o que não sei,
se esquecer o que aprendi,
se impor meu sou e meu quero
se, num ti que eu inventei,
nenúfares boiar em ti.
Que esta coisa que se espera
é no dobrar de uma esquina.
Um clarão que dilacera,
a explosão de uma cratera,
vida, ou morte, repentina.
António Gedeão
O DIÁRIO DA MANHÃ VOLTOU
Relembro: o Diário da Manhã era órgão oficial do fascismo salazarista.
Recordo: Diário da Manhã é o título escolhido por António Ribeiro Ferreira (ARF) para uma rubrica por ele assinada no Correio da Manhã.
Insisto: o título da rubrica condiz plenamente com o conteúdo reaccionário, ultradireitista, fascista, das prosas que ARF ali verte.
Concluo: o Diário da Manhã voltou.
Ontem, ARF disparou duas rajadas raivosas: uma sobre José Saramago, outra sobre os que criticaram a ausência de Cavaco Silva no funeral do Prémio Nobel.
Sobre Saramago, ARF alerta os seus correligionários: «é preciso não esquecer que o homem sempre defendeu os massacres cometidos pela União Soviética, as piores ditaduras e nunca esteve ao lado da liberdade» - e há que reconhecer que nenhum escriba do Diário da Manhã fascista desempenharia melhor o papel de sentinela vigilante da defesa do regime.
Quanto aos que criticaram Cavaco por não ter ido ao funeral... se me permitem, abro aqui um parêntesis para fazer uma confissão: pela primeira vez, estive de acordo, digamos assim, com uma atitude de Cavaco; ou seja: gostei de não o ver no funeral de José Saramago - tanto quanto não gostei de ver outros que, hipócrita e oportunisticamente, lá foram...
Voltando à prosa de ARF. Escreve ele, dirigindo-se aos que criticaram o Cavaco: «Vivemos num País de homens e mulheres livres. Gostem ou não. Se não gostarem têm bom remédio. Comam menos. E deixem-nos em paz» - assim escreviam também, e também no Diário da Manhã, os ARF's nascidos, criados e alimentados no País de homens e mulheres livres que Salazar chefiava.
Uma coisa é certa: o Diário da Manhã voltou.
Que mais nos irá acontecer?
Recordo: Diário da Manhã é o título escolhido por António Ribeiro Ferreira (ARF) para uma rubrica por ele assinada no Correio da Manhã.
Insisto: o título da rubrica condiz plenamente com o conteúdo reaccionário, ultradireitista, fascista, das prosas que ARF ali verte.
Concluo: o Diário da Manhã voltou.
Ontem, ARF disparou duas rajadas raivosas: uma sobre José Saramago, outra sobre os que criticaram a ausência de Cavaco Silva no funeral do Prémio Nobel.
Sobre Saramago, ARF alerta os seus correligionários: «é preciso não esquecer que o homem sempre defendeu os massacres cometidos pela União Soviética, as piores ditaduras e nunca esteve ao lado da liberdade» - e há que reconhecer que nenhum escriba do Diário da Manhã fascista desempenharia melhor o papel de sentinela vigilante da defesa do regime.
Quanto aos que criticaram Cavaco por não ter ido ao funeral... se me permitem, abro aqui um parêntesis para fazer uma confissão: pela primeira vez, estive de acordo, digamos assim, com uma atitude de Cavaco; ou seja: gostei de não o ver no funeral de José Saramago - tanto quanto não gostei de ver outros que, hipócrita e oportunisticamente, lá foram...
Voltando à prosa de ARF. Escreve ele, dirigindo-se aos que criticaram o Cavaco: «Vivemos num País de homens e mulheres livres. Gostem ou não. Se não gostarem têm bom remédio. Comam menos. E deixem-nos em paz» - assim escreviam também, e também no Diário da Manhã, os ARF's nascidos, criados e alimentados no País de homens e mulheres livres que Salazar chefiava.
Uma coisa é certa: o Diário da Manhã voltou.
Que mais nos irá acontecer?
POEMA
ANTI-ANNE FRANK
Esta criança esquálida,
de riso obsceno e olhares alucinados,
nunca apertou nas mãos a fria face pálida,
nunca sentiu, na escada, as botas dos soldados,
nunca enxugou as lágrimas que aniquilam e esgotam,
nunca empalideceu com o metralhar de um tanque,
nem rastejou num sótão,
nem se chama Anne Frank.
Nunca escreveu diário nem nunca foi à escola,
nem despertou o amor dos editores piedosos.
Nunca estendeu as mãos em transes dolorosos
a não ser nos primores da técnica da esmola.
Batem-lhe, pisam-na, insultam-na, sem que ninguém se importe.
E ela, raivosa e pálida,
morde, estrebucha, cospe, odeia até à morte.
Pobre criança esquálida!
Até no sofrimento é preciso ter sorte.
António Gedeão
Esta criança esquálida,
de riso obsceno e olhares alucinados,
nunca apertou nas mãos a fria face pálida,
nunca sentiu, na escada, as botas dos soldados,
nunca enxugou as lágrimas que aniquilam e esgotam,
nunca empalideceu com o metralhar de um tanque,
nem rastejou num sótão,
nem se chama Anne Frank.
Nunca escreveu diário nem nunca foi à escola,
nem despertou o amor dos editores piedosos.
Nunca estendeu as mãos em transes dolorosos
a não ser nos primores da técnica da esmola.
Batem-lhe, pisam-na, insultam-na, sem que ninguém se importe.
E ela, raivosa e pálida,
morde, estrebucha, cospe, odeia até à morte.
Pobre criança esquálida!
Até no sofrimento é preciso ter sorte.
António Gedeão
UMA CONQUISTA DE ABRIL
«SARAMAGO, A LUTA CONTINUA!»: gritavam muitas pessoas, hoje, no Cemitério do Alto de São João.
Algumas dessa pessoas, levantavam o braço, não de punho fechado, como é hábito, mas empunhando um livro: A Viagem do Elefante, Caim, Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento, Levantado do Chão...
E essa foi, a meu ver, a mais expressiva homenagem feita ao Prémio Nobel da Literatura - e certamente aquela que mais lhe agradaria.
Era gente de Abril que ali estava.
(Falo da maioria das pessoas, porque também por lá andava quem nada tem a ver com Abril, antes pelo contrário...).
Na verdade, só gente de Abril sabe gritar assim. Só gente de Abril grita de livros na mão...
José Saramago disse um dia, falando dos seus livros: «Nada ou quase nada do que fiz depois do 25 de Abril podia ter sido feito antes».
É verdade.
Por isso, a Obra de José Saramago é, também ela, uma conquista de Abril.
Algumas dessa pessoas, levantavam o braço, não de punho fechado, como é hábito, mas empunhando um livro: A Viagem do Elefante, Caim, Ensaio sobre a Cegueira, Memorial do Convento, Levantado do Chão...
E essa foi, a meu ver, a mais expressiva homenagem feita ao Prémio Nobel da Literatura - e certamente aquela que mais lhe agradaria.
Era gente de Abril que ali estava.
(Falo da maioria das pessoas, porque também por lá andava quem nada tem a ver com Abril, antes pelo contrário...).
Na verdade, só gente de Abril sabe gritar assim. Só gente de Abril grita de livros na mão...
José Saramago disse um dia, falando dos seus livros: «Nada ou quase nada do que fiz depois do 25 de Abril podia ter sido feito antes».
É verdade.
Por isso, a Obra de José Saramago é, também ela, uma conquista de Abril.
POEMA
POEMA DO VERDE PRADO
Enquanto a Lua sobe, o alaúde
soa, ressoa, pertinaz, plangente.
Passa de negro o espectro da virtude
movendo os lábios fervorosamente.
Bale o cordeiro manso, e a voz ecoa
tímida e branda, sonolenta e mole.
Dos prados desce às ruas de Lisboa.
Nem uma aragem na folhagem bole.
Silêncio.
Apurando o ouvido sobre a loisa,
e forcejando o fecho,
parece ouvir-se ao longe qualquer coisa.
É a Terra girando no seu eixo.
António Gedeão
Enquanto a Lua sobe, o alaúde
soa, ressoa, pertinaz, plangente.
Passa de negro o espectro da virtude
movendo os lábios fervorosamente.
Bale o cordeiro manso, e a voz ecoa
tímida e branda, sonolenta e mole.
Dos prados desce às ruas de Lisboa.
Nem uma aragem na folhagem bole.
Silêncio.
Apurando o ouvido sobre a loisa,
e forcejando o fecho,
parece ouvir-se ao longe qualquer coisa.
É a Terra girando no seu eixo.
António Gedeão
O ESPELHO DO SISTEMA
No passado sábado - dia 12 de Junho - passou, quase sem se dar por ele, mais um Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil.
Percebe-se que o Dia não tenha sido notícia: os média estavam todos virados para a celebração, nesse mesmo dia, da entrada de Portugal e da Espanha na União Europeia, ocorrência que, na opinião do Presidente Cavaco e do ex-Presidente Soares, salvou o País da «bancarrota» e o lançou na senda do «desenvolvimento, do progresso e da modernidade» - como a situação actual exemplifica abundantemente...
Mas voltemos ao Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil:
A Organização Mundial do Trabalho (OIT) aproveitou a ocasião para sublinhar a gravidade da situação em matéria de exploração do trabalho infantil, que afecta cerca de «215 milhões de crianças», mais de metade das quais «são forçadas a executar labores de risco ou sujeitas a outras formas de exploração».
Dito de outro modo: a exploração de mão de obra infantil atinge uma em cada sete crianças no mundo - e cerca de 70% dessas crianças trabalhadoras estão no sector agrícola; 22% no sector de serviços; e 9% no sector industrial (incluindo minas, construção e produção).
A OIT acentua, ainda, que «esta situação não ocorre apenas nos países ditos subdesenvolvidos, é, antes, cada vez mais notada em países com economias avançadas».
É claro que, tanto os «países subedesenvolvidos» como os «países com economias avançadas», são países onde o capitalismo é dominante, e onde, portanto, tudo funciona tendo como base essencial a exploração do trabalho alheio: exploração desenfreada, brutal, selvagem, impiedosa, sem contemplações nem limites - e em que, portanto, nem as crianças são poupadas.
Pode dizer-se, por isso, que a exploração do trabalho infantil é bem o espelho do sistema capitalista dominante.
Percebe-se que o Dia não tenha sido notícia: os média estavam todos virados para a celebração, nesse mesmo dia, da entrada de Portugal e da Espanha na União Europeia, ocorrência que, na opinião do Presidente Cavaco e do ex-Presidente Soares, salvou o País da «bancarrota» e o lançou na senda do «desenvolvimento, do progresso e da modernidade» - como a situação actual exemplifica abundantemente...
Mas voltemos ao Dia Mundial Contra o Trabalho Infantil:
A Organização Mundial do Trabalho (OIT) aproveitou a ocasião para sublinhar a gravidade da situação em matéria de exploração do trabalho infantil, que afecta cerca de «215 milhões de crianças», mais de metade das quais «são forçadas a executar labores de risco ou sujeitas a outras formas de exploração».
Dito de outro modo: a exploração de mão de obra infantil atinge uma em cada sete crianças no mundo - e cerca de 70% dessas crianças trabalhadoras estão no sector agrícola; 22% no sector de serviços; e 9% no sector industrial (incluindo minas, construção e produção).
A OIT acentua, ainda, que «esta situação não ocorre apenas nos países ditos subdesenvolvidos, é, antes, cada vez mais notada em países com economias avançadas».
É claro que, tanto os «países subedesenvolvidos» como os «países com economias avançadas», são países onde o capitalismo é dominante, e onde, portanto, tudo funciona tendo como base essencial a exploração do trabalho alheio: exploração desenfreada, brutal, selvagem, impiedosa, sem contemplações nem limites - e em que, portanto, nem as crianças são poupadas.
Pode dizer-se, por isso, que a exploração do trabalho infantil é bem o espelho do sistema capitalista dominante.
POEMA
POEMA DA TERRA ADUBADA
Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.
As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.
Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.
O brilho súbito não é dos limbos das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.
As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.
Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.
Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.
António Gedeão
Por detrás das árvores não se escondem faunos, não.
Por detrás das árvores escondem-se os soldados
com granadas de mão.
As árvores são belas com os troncos dourados.
São boas e largas para esconder soldados.
Não é o vento que rumoreja nas folhas,
não é o vento, não.
São os corpos dos soldados rastejando no chão.
O brilho súbito não é dos limbos das folhas verdes reluzentes.
É das lâminas das facas que os soldados apertam entre os dentes.
As rubras flores vermelhas não são papoilas, não.
É o sangue dos soldados que está vertido no chão.
Não são vespas, nem besoiros, nem pássaros a assobiar.
São os silvos das balas cortando a espessura do ar.
Depois os lavradores
rasgarão a terra com a lâmina aguda dos arados,
e a terra dará vinho e pão e flores
adubada com os corpos dos soldados.
António Gedeão
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