POEMA

O SONÂMBULO E O OUTRO

Durante a noite não pregou olho.
Seguia os passos do sonâmbulo sobre o tecto.
Cada passo, pesado e ôco,
ressoava infindamente num canto
vazio de si próprio.
Fica à janela, esperando
apará-lo nos braços, se viesse a cair.
Mas se o outro o arrastasse na queda?
Era a sombra de um pássaro na parede?
Uma estrela? Era o outro? As suas mãos?


Ouviu-se um baque surdo no pavimento.
Amanhecia.
Abriram-se janelas. Os vizinhos acorreram.
O sonâmbulo descia rapidamente
as escadas de serviço
para acudir àquele que tombara da janela.

Yannis Ritsos

O ARGUEIRO E A TRANCA...

Título de 1ª página de «Le Monde»:
«No Zimbabwe é preciso votar "Mugabe", senão...»

Cravo de Abril: Na União Europeia é preciso votar «Sim» ao Tratado, senão...

Obviamente, o que está aqui em causa não é o atropelo democrático, o desprezo pelo sufrágio universal que, quer no Zimbabwe quer na União Europeia transformam as eleições numa farsa.
O que está em causa é a dualidade de critérios dos média europeus, condenando no Zimbabwe aquilo que aplaudem na Europa.

Trata-se de, como há dois mil anos dizia S. Mateus, «ver o argueiro no olho alheio e não ver a tranca no seu».

POEMA

ENSAIO DE CÂNTICO NO TEMPLO

Ah, que farto que eu estou da minha
cobarde e velha terra, tão selvagem,
e como gostaria de abalar
para o norte
onde dizem que a gente é
limpa e nobre, culta e rica,
viva, livre, feliz!
Então, na confraria, os irmãos diriam
reprovando: «Como pássaro que deixa o ninho,
assim o homem que deixa o lugar»,
enquanto eu, bem longe, riria
da lei, da sabedoria
antiga desta terra tão ávida.

Porém de que me serve prosseguir um sonho -
aqui hei-de ficar até morrer,
pois cobarde e selvagem também eu o sou,
e além disso amando
com dor desesperada
esta pobre,
suja, triste, desgraçada pátria minha.

Salvador Espriu

ISTO ANDA TUDO LIGADO

Diz o DN que Durão Barroso «tem passado por Lisboa nos últimos tempos para pôr algumas coisas em dia».
Que tipo de coisas?
Por exemplo: na segunda-feira recebeu um grupo de estudantes universitários norte-americanos, vindos da famosa Universidade de Georgetown - mais do que famosa, aliás, já que se trata de uma universidade que, segundo se diz sem desmentidos, «é completamente dominada pelas altas esferas norte-americanas, incluindo a CIA».

Obviamente, a recepção de Durão Barroso aos jovens estudantes norte-americanos nada tem a ver com essas características ciáticas, digamos assim, da famosa universidade.
Tem tudo a ver, isso sim!, com o facto de Durão Barroso ter passado pela Universidade de Georgetown «algumas temporadas entre 1996 e 1999 para preparar um doutoramento».
Doutoramento que, diga-se em abono da verdade, não chegou a concluir.
Não por falta de capacidades do actual Presidente da Comissão Europeia, mas por... falta de tempo: como estamos lembrados, Barroso foi chamado ao clube Bilderberg em 1994, era então ministro dos Negócios Estrangeiros de Cavaco Silva - essa primeira presença no clube que escolhe os governantes do grande capital, parece ter sido decisiva na carreira deste assanhado ex-esquerdista. Em 1995 candidatou-se a líder do PSD, as coisas não lhe correram de feição e foi então que tomou a decisão suprema de passar umas «temporadas» na universidade da CIA - que, ao que tudo indica, funcionou neste caso mais como apêndice do clube de Bilderberg do que como local onde as pessoas vão doutorar-se...
E a verdade é que Barroso deixou Georgetown para passar a líder do PSD e, logo a seguir, a primeiro-ministro. Nestas funções, fez três dias de criado de Bush/Blair/Aznar nas Lages, e recebeu como paga o cargo de Presidente da Comissão Europeia.
A comprovar que... isto anda tudo ligado.

POEMA

CONFIANÇA


O que é bonito neste mundo, e anima,
é ver que na vindima
de cada sonho
fica a cepa a sonhar outra aventura...
E que a doçura
que se não prova
se transfigura
numa doçura
muito mais pura
e muito mais nova...

Miguel Torga

AGUARDEMOS

A Comissão Nacional Justiça e Paz solicitou ao Parlamento que reconheça a pobreza como uma violação dos direitos humanos.
A questão vai ser debatida na próxima quinta-feira e há naturais expectativas sobre a decisão que será tomada.

Em princípio, os partidos da política de direita deveriam estar preocupados com tal debate: por razões várias, a mais importante das quais reside no facto de serem esses partidos os executores da política responsável pela existência em Portugal de mais de 2 milhões de pobres.
Ora, se a pobreza passar a ser considerada como violação dos direitos humanos, é imperioso concluir igualmente que esses partidos violam os direitos humanos desde há, pelo menos, 32 anos.
E, porque os responsáveis têm nome, há que escrever na lista negra dos violadores dos direitos humanos... todos os nomes - desde Mário Soares a José Sócrates, passando por Pinto Balsemão/Freitas do Amaral, Cavaco Silva, António Guterres, Durão Barroso/Santana Lopes, isto para falar apenas de primeiros-ministros, porque se, como é justo fazer, incluirmos os nomes dos ministros, secretários e sub-secretários de Estado, enfim de todos os membros de todos os governos, então a lista é infindável...

É claro que, independentemente do que, na próxima quinta-feira, o Parlamento decidir sobre a matéria, a pobreza é, de facto, uma brutal violação dos mais elementares direitos humanos.
E o facto de até agora não ter sido considerada como tal (aqui, em Portugal como no resto da Europa!...) é bem revelador do conceito de direitos humanos que povoa as cabeças dessa longa lista de governantes que, ao serviço dos aumentos das fortunas de uns escassos milhares de exploradores, atiram para a pobreza e para a miséria milhões e milhões de humilhados, ofendidos, explorados.

Em todo o caso, aguardemos por quinta-feira...

POEMA

A ÚLTIMA MOEDA

Gasta a última moeda, companheiro,
e avança contra o vento contrário,
homem despedaçado mas inteiro,
nem tu, nem ninguém escreve o teu diário,

- mas se o entusiasmo fosse dinheiro
serias milionário.

Sidónio Muralha

RICOS, SUPER-RICOS E SOBRAS...

Sabem o que é um «homem rico»?
E um «homem super-rico»?
Não pergunto se sabem por experiência própria... pergunto se conhecem a definição internacional estabelecida por quem de direito e por todos aceite.
Não?: então aqui está ela:
«homem rico» é todo aquele que tem mais de um milhão de dólares;
«Homem super-rico» é aquele cuja fortuna ultrapassa os 30 milhões de dólares.

Segundo dados agora vindos a público, o número destas duas espécies de homem continua a aumentar por esse mundo fora: no último ano, os primeiros aumentaram em 6% e os segundos em 8,8%.
Em Portugal, os «homens ricos», que eram 11. 400 em 2007, são hoje 11. 6oo.
Nada mau, embora a subida seja um pouco inferior à média mundial. Mas atenção: há que estarmos atentos e não nos deixarmos atrasar demasiado.
Quanto aos «super-ricos», nada nos é dito no que respeita a compatriotas nossos. Será que não há por cá ninguém que tenha, até agora, superado a gloriosa barreira dos 30 milhões?
Se assim é, espero bem que, um dia destes, um qualquer portuguesito valente mostre a sua raça (aquela de que falou o Prof. Cavaco, pois claro...) e suba ao pódio dos 30 milhões - para que a nossa auto-estima, tão maltratada no recente Europeu de futebol, volte a subir às alturas atingidas com a EXPO, o 2º lugar no Euro 2008 e a assinatura do Tratado, Porreiro, pá!

É digno de nota, o facto de este aumento de homens «ricos» e «super-ricos» se verificar num tempo por todos reconhecido como de grande crise (global, regional, local...), assim se confirmando que não há crise - por maior, mais grave e mais ampla que seja - que trave o aumento grande das grandes riquezas - podendo até dizer-se que quanto mais crise, mais ricos.
E mais pobres, também - que, sendo as sobras dessas riquezas todas, são, por isso mesmo, indispensáveis...

Ou seja:
com crise ou sem crise, os ricos aumentam e as riquezas também;
com crise ou sem crise, os pobres aumentam e as pobrezas também.

E é assim que deve ser. Como dizia um célebre pensador, homem de vasta cultura e profunda humanidade: «é preciso que os ricos sejam cada vez mais ricos para poderem dar esmolas maiores aos pobres».
Louvemos, então, esta harmoniosa relação dialéctica entre riqueza e pobreza que alimenta o sistema capitalista e faz dele um exemplo perfeito de democracia, de liberdade e de justiça social.
E, especialmente, de caridade.

POEMA

O PREGUIÇOSO

Continuarão a viajar coisas
de metal entre as estrelas,
subirão homens extenuados,
violentarão a Lua suave
e ali abrirão farmácias,

Neste tempo de uva cheia
o vinho começa a viver
entre o mar e as cordilheiras.

No Chile bailam as cerejas,
cantam as moças morenas
e nas violas brilha a água.

O sol bate a todas as portas
e faz milagres com o trigo.

O primeiro vinho é rosado,
doce como um menino pequeno,
o segundo vinho é robusto
como a voz de um marinheiro
e o terceiro é um topázio,
uma papoila e um incêndio.

A minha casa tem mar e terra,
a minha mulher tem grandes olhos
da cor da avelã silvestre,
quando chega a noite o mar
veste-se de branco e de verde
e depois a Lua na espuma
sonha como noiva marinha.

Não quero mudar de planeta.

Pablo Neruda

O BASTONÁRIO VOLTA A ATACAR

Marinho Pinto, Bastonário da Ordem dos Advogados, voltou a atacar.
Não pára, este Bastonário!
Infelizmente, regra geral ataca mal.
Como, regra geral, acontece com todos os populistas.

Desta vez deu-lhe para proclamar que a actual onda de criminalidade se deve à «influência perniciosa do sindicalismo entre as forças policiais»
Quer isto dizer que o sindicalismo com os seus malefícios continua a ser alvo preferencial da veemente oratória do Bastonário.
Ele lá sabe porquê...

Face à situação da criminalidade, o homem avançou com a proposta de criação de um sistema interno de fiscalização da polícia - à semelhança, explicou ele, do que existe nos EUA.
Com tal sistema, é que os polícias vão ver como é... e acabam logo com essas perniciosas veleidades sindicalistas...

A esta proposta do Bastonário, respondeu o dirigente sindical da PSP, António Ramos, nos seguintes termos:
«A PSP não é a Legião Portuguesa nem nós estamos nos tempos da Outra Senhora»

Ora toma!

POEMA

(Stockausen. Música eletrónica. Viagem espacial.)

Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo...

(Para os pobres é a Terra.)

José Gomes Ferreira

SINAIS DOS TEMPOS

Clinton veio a Portugal fazer uma Conferência sobre... não me lembro nem isso interessa, mas há-de ter sido sobre tema tão relevante como os das muitas outras conferências que o homem, desde que deixou de ser Presidente dos EUA, tem andado a fazer em todo o mundo - e que constituem parte grande do seu actual ganha-pão declarado.
As despesas do evento foram pagas por quem cá o trouxe, obviamente.
E quem cá o trouxe, e o foi ouvir ao Museu da Electricidade, foram uns quantos empresários florescentes. Aliás, a Conferência realizou-se no âmbito das comemorações de uma empresa: «Cunha Vaz $ ... », perdão: Cunha Vaz & Associados» - mas, dado o custo elevado da deslocação do conferencista, esta empresa angariou uns tantos patrocinadores para dividir o bem pelas aldeias.

São assim os tempos que vivemos: os ex-governantes do grande capital passam a caixeiros viajantes do grande capital e nessa nova profissão, além de serem bem pagos pelos favores prestados enquanto governaram, governam-se continuando a servir os mesmos interesses que serviram quando foram governantes.

Em resumo: Clinton, veio cá e fez o que sabe: falou para capitalistas. Estes, trazendo-o cá, fizeram o que lhes competia: investiram - sabendo que um personagem de tal gabarito traz sempre consigo, na mala da conferência, ricas propostas de negócios...


Quanto ao custo da conferência, os seus organizadores não quiseram divulgá-lo. No entanto, dizem os entendidos que conferencistas deste calibre não se deslocam por verbas inferiores a 1 milhão de dólares.

POEMA

ESTIO

Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerro gretado
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas...
(...Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!...)

Manuel da Fonseca

ANTES PELO CONTRÁRIO

Sem princípios nem ponta de vergonha, a ofensiva ideológica capitalista corre à rédea solta por todos os esgotos que alimentam a política de direita.
Sinais escandalosos dessa ofensiva marcaram presença nos testes dos exames de História do 12º ano. Trata-se de grosseiras provocações, de uma abjecta manipulação de consciências, de torpes insultos à inteligência e à sensibilidade dos cidadãos.

Na Prova de História A - num grupo significativamente designado por «o estalinismo e a afirmação do expansionismo soviético» - os alunos devem «interpretar» textos de Stáline e de Kennedy.
No texto de Stáline, é-lhes exigido que procedam à «identificação de três práticas políticas do estalinismo», sendo-lhes indicado um volumoso rol de exemplos, género: «campanhas de depuração/purgas», «trabalhos forçados», etc...
Do texto de Kennedy devem, primeiro, concluir que o pobre e bom homem «agia preocupado com o expansionismo soviético» e , a seguir, devem proceder a uma «análise profunda sobre o expansionismo soviético».
No grupo designado «integração e participação de Portugal no projecto europeu» é o inevitável Mário Soares quem dá as cartas. No texto escolhido, Soares ensina as muitas bondades da União Europeia, designadamente no que respeita a «assegurar um equilibrio cuidadoso entre a prosperidade económica, a justiça social e um ambiente saudável» - aos alunos é exigido que «identifiquem três aspectos positivos da entrada de Portugal na União Europeia»...

Na Prova de História B, a partir de um texto de Sá Carneiro, escrito na altura em que este era membro da Assembleia Nacional fascista, os alunos devem demonstrar que «a revolução do 25 de Abril de 1974 operou mudança de regime preconizada por Sá Carneiro»...
Vejam bem!: do que eles se lembram!...

Perante exemplos destes, invenções como a do «milagre» da Prova de Matemática, não passam de brincadeiras de crianças...
E é caso para dizer que os ideólogos da política de direita destacados para a área do Ensino não fazem nada para esconder aquilo que são. E, ao que parece, não têm vergonha de exibir tamanha desvergonha.

É este o Ensino prodigalizado pelo Sócrates excelentíssimo e pela sua excelentíssima ministra...
No tempo do fascismo era pior? Era melhor?
Ou nem pior nem melhor, antes pelo contrário?

POEMA

MEDITATIO

Ao estudar com atenção
os curiosos hábitos dos cães
sou forçado a concluir
que o homem é o animal superior.
Ao estudar
os curiosos hábitos do homem
confesso, meu amigo, que fico perplexo.

Ezra Pound

CONTINUANDO A REGISTAR...

Prossigo com os registos que trazem à ordem do dia, aquilo a que aqui chamei O CASO DO IRÃO, ou seja, a possibilidade real de, de um dia para o outro, o Irão ser bombardeado por Israel, ou pelos EUA, ou...
A razão invocada para o bombardeamento será, como estamos lembrados, o facto de o Irão se recusar a acatar a proibição decretada pelos EUA e por Israel, de produzir armas nucleares.

No Público de hoje, José Manuel Fernandes, entusiástico admirador dos EUA e de Israel, avisa, satisfeito:
«Israel não tolerará que o Irão construa armas nucleares. É melhor todos perceberem isso para ninguém ficar surpreendido se e quando surgir um ataque israelita».

Claro que percebemos, JMF, ó se percebemos...

POEMA

CICLO

O molar solitário duma prostituta
que morrera no anonimato
tinha uma aplicação de ouro.
Os restantes, como por mudo acordo tácito,
tinham caído.
O funcionário da morgue arrancou-o,
pô-lo no prego e foi dançar.
É que, dizia ele,
só o que é terra à terra deve voltar.

Gottfried Benn

UM HERÓI DO NOSSO TEMPO

Chama-se Salter Cid, tem 54 anos de idade e é vereador do PSD na Câmara Municipal de Lisboa.
Por detrás deste presente vulgar e banal, esconde-se, no entanto, um notabilíssimo currículo:
Em 1990, entrou na Marconi e, logo a seguir, foi chamado a secretário de Estado das Comunicações do Governo de Cavaco Silva; em 1994, passou a secretário de Estado da Segurança Social, no segundo Governo do mesmo Cavaco Silva; em 1997, regresssou à PT; em 2003, Durão Barroso chamou-o a presidente da Companhia das Lezírias (sem contrato e com o ordenado de 27,5 mil euros mensais); em 2006, regressou à PT; em 2007, sai da PT com suspensão de contrato e uma pensão de 17,9 mil euros mensais.

Releve-se, desde já, a vastidão de conhecimentos, capacidades e valências deste homem - e anote-se que tal vastidão de competências é por demais justificativa das altas remunerações que acompanharam o seu multifacetado currículo.
Face a isso, é fácil de perceber que o homem se sinta lesado com a mísera pensão de 17,9 mil euros mensais que, agora, lhe foi atribuída. E é compreensível que a indignação perante tamanha injustiça o tenha levado a avançar com um processo contra a EP, exigindo uma pensão maior, muito maior, e mais consentânea com a elevada qualidade do trabalho que ali desenvolveu durante os longos seis anos que por lá passou, nos intervalos dos tachos com que os sucessivos governos do PSD o iam presenteando.
Salter Cid é um herói do nosso tempo - um produto acabado, saído das tripas da política de direita que há 32 anos vem flagelando os trabalhadores, o povo e o País.

POEMA

ORGULHOSAS...

Orgulhosas, por toda a parte,
a carvão, a zarcão, a ocre,
se lêem palavras de esperança,
sóbrias, serenas, sem ódio.
O ódio é com os agrários
e os guardas-republicanos,
uns e outros bem alimentados,
uns e outros cruéis e inúteis.

Armindo Rodrigues

23/6/1958

No dia 23 de Junho de 1958, cerca de trezentos operários agrícolas concentraram-se junto à Câmara Municipal de Montemor-o-Novo.
Tinham iniciado nesse dia uma greve que, para além da exigência de melhores salários, era um protesto assumido contra a fraude eleitoral que havia roubado a vitória ao candidato antifascista general Humberto Delgado nas «eleições» de 8 de Junho desse ano.

José Adelino dos Santos, operário agrícola de 46 anos de idade, era um dos presentes.
Numa altura em que falava com outros trabalhadores, de costas para o edifício da Câmara, foi atingido por um tiro, disparado do interior do edifício, e assassinado.
Não foi um tiro de acaso: foi um tiro dirigido: dirigido a José Adelino dos Santos.
Porquê a ele?

Militante do PCP desde o início dos anos 40, José Adelino dos Santos teve um papel destacado no desenvolvimento da organização do PCP no Concelho de Montemor-o-Novo. Ele era, desde a sua juventude, um corajoso lutador antifascista, um organizador da luta de todos os dias pela democracia, pela liberdade, pela justiça social.
Por isso, e pela sua postura fraterna e solidária, era altamente prestigiado junto dos seus companheiros de trabalho - e por tudo isso, ele era também um alvo permanente da PIDE.
Foi preso pela primeira vez, em 1945; e, pela segunda, em 1949 - e de ambas as vezes barbaramente torturado. Cumpriu um total de três anos de prisão.
Estas as razões pelas quais, naquele dia 23 de Junho de 1958 aquele tiro mortal foi dirigido José Adelino dos Santos.

Uma multidão de cinco mil pessoas - que a PIDE e a GNR tentaram inutilmente impedir de entrar no cemitério - acompanhou o corpo do militante comunista à sua última morada.

Hoje, precisamente no local onde, há 50 anos, foi assassinado pelo fascismo, José Adelino dos Santos foi homenageado pelos seus camaradas e amigos - uma homenagem que foi, ao mesmo tempo, a afirmação do compromisso de continuar a luta por ele travada: pela democracia, pela liberdade, pela justiça social , pelo socialismo e pelo comunismo.

POEMA

A VIDA

Povo sem outro nome à flor do seu destino;
Povo substantivo masculino,
seara humana à mesma intensa luz;
Povo vasco, andaluz,
galego, asturiano,
catalão, português:
O caminho é saibroso e franciscano
do berço à sepultura;
Mas a grande aventura
não é rasgar os pés
e chegar morto ao fim;
É nunca, por nenhuma razão
descrer do chão
duro e ruim!

Miguel Torga

PROPAGANDEIROS...

«O maior partido da oposição»: é assim que o Público de hoje, na sua primeira página, designa o PSD.
A habilidade não é nova - tem, no mínimo 32 anos, ora aplicada ao PSD ora ao PS - e quem a ela recorre fá-lo com a consciência plena de que está a deturpar, a falsificar e a esconder a realidade.

Trata-se de alimentar no subconsciente dos leitores a ideia, falsa, de que entre o PS e o PSD existe uma oposição em matéria de política governamental e que, assim, em tempo de eleições, são alternativa um ao outro.
O facto de o Público e os seus gémeos mediáticos saberem que assim não é - que estes dois partidos se revezam há mais de três décadas na execução da mesma política de direita - e insistirem na mentira, é bem revelador da desvergonha informativa reinante.

O recurso a esse truque baixo, serve-lhes ainda para assobiar para o lado e fingir que não sabem que é o PCP que protagoniza, de facto, a oposição à política de direita - seja ela praticada pelo PS ou pelo PSD.

Não há dúvida: a política de direita tem na generalidade dos média nacionais os seus mais fiéis propagandistas - ou propagandeiros...

POEMA

DIREMOS A VERDADE, SEM DESCANSO

Diremos a verdade, sem descanso,
pela honra de servir, sob os pés de todos.
Detestamos os grandes ventres, as grandes palavras,
a indecente ostentação do ouro,
as cartas mal distribuídas pela sorte,
o denso fumo do incenso a quem é potente.
Agora é a vil raça dos senhores,
agacha-se no seu ódio como um cão,
ladra de longe, ao pé usa cacete,
segue, para além da lama, caminhos de morte.

Com a canção construamos no escuro
altas paredes de sonho, defesa deste turbilhão.
Pela noite chega o rumor de muitas fontes:
estamos fechando as portas do medo.

Salvador Espriu

SÓ PARA IR REGISTANDO...

Prossigo o registo de notícias sobre aquilo a que podemos chamar (provisoriamente) o Caso do Irão - ou seja e em resumo: a proibição decretada pelos EUA (e religiosamente seguida por Israel) de proibir o «plano nuclear» daquele país; o não acatamento da proibição pelos iranianos; as sanções económicas decretadas contra o Irão; e os desenvolvimentos vários da situação com cescentes ameaças de intervenção militar vindas dos EUA e de Israel, seu filho dilecto.

A meu ver, trata-se de um caso explosivo (na verdadeira acepção da palavra), e este registo dos seus principais passos vai-nos mantendo ao corrente da sua evolução até à eventual explosão final.
Que, a verificar-se, há-de ser, certamente, uma explosão humanitária e em defesa da democracia e dos direitos humanos...

Desta vez, trata-se de anotar que, como nos diz o Público de hoje, «Israel já ensaiou o ataque para impedir bomba nuclear iraniana», isto é: Israel prepara-se para cumprir a ameaça de bombardear o Irão.

O chefe da Agência Internacional para a Energia Atómica, ameaçou demitir-se no caso de haver um ataque militar contra o Irão e acrescentou que tal ataque «seria o pior possível», já que «transformaria toda a região numa bola de fogo».


Quanto às razões que conferem aos EUA o poder supremo e universal de decidir quem pode (ou não) ter armas nucleares, elas são óbvias: os EUA são o país com maior experiência nesta matéria já que foram, até agora, o único país do mundo que lançou bombas atómicas sobre populações... bombas humanitárias, evidentemente, e em defesa da democracia e dos direitos humanos...

POEMA

UM RAIO DE SOL É A ESPERANÇA

Um raio de sol é a esperança
do prisioneiro, que passeia em silêncio
nas celas do subterrâneo;
um barco à vela o seu sonho;
as pancadas e gritos
que ecoam pelos muros,
o seu horror.
Se ninguém escrevesse tudo o que se sabe,
enchiam-se montanhas e montanhas
de justiças violadas,
dedos apontados, acusadores,
de violências e repressões organizadas.
Então talvez o mar atacasse a cidade
e as estradas ficariam cheias de lama, de sal,
e as verdades das nossas mãos afogariam,
assim se espera,
todos os carrascos.

Isidre Molas

ESTES JORNAIS!...

Mugabe diz que a oposição jamais chegará ao poder - e marca novas eleições.
Os jornais dizem-nos, todos os dias, que assim, «não» - isto não é democracia!

Os governantes da União Europeia dizem que o «não» jamais vencerá - e pensam marcar novo referendo.
Os jornais dizem-nos, todos os dias, que assim, «sim» - isto, sim, é democracia!

Estes jornais!...

Construção da Festa!

POEMA

E AGORA DIREI

E agora direi,
como homem do povo,
o que quer
a gente do meu país:

queremos a liberdade.

Queremos que esta nossa terra
se acalme na paz,
sem angústia ou medo,
sem roubos nem dor.
Queremos chegar ao segredo,
subir por veredas e caminhos
à terra prometida,
onde a alegria dos pássaros,
o perfume das flores
e o olhar de um amigo
se fundem finalmente.

E todos,
por um mesmo caminho,
debaixo da sombra compacta
das bandeiras e canções
avançaremos unidos:
os da velha Catalunha,
os d'além-mar,
e os do país valenciano.
E nos subúrbios
deste país nascente
levantaremos um novo templo
onde o homem catalão
se sentirá, apenas,
trabalhador do seu país.
Sentir-se-á seguro,
guiado pelos deuses
da justiça e do amor,
e oferecerá, se for preciso,
a vida da sua canção,
descalço sobre a terra,
de alfaia bem segura
na mão,
enquanto a voz
dos mortos em sacrifício
dirá
uma palavra de perdão.

Joan Colomines

PASOLINI

Por três vezes - com dois poemas do Autor e um fotograma do filme Teorema - o Cravo de Abril recordou essa figura maior da cultura italiana (e europeia) que foi Pier Paolo Pasolini.

Hoje, partilhamos com os nossos visitantes parte da intervenção proferida por Pasolini no comício realizado no Verão de 1974, em Milão, no decorrer da Festa do Unitá (então órgão central do então Partido Comunista Italiano).

«Eis a angústia de um homem da minha geração, que viveu a guerra, os nazis, as SS, de que sofreu um traumatismo nunca totalmente vencido.
Quando vejo à minha volta os jovens que estão perdendo os antigos valores populares e absorvem os novos modelos impostos pelo capitalismo, arriscando assim uma forma de desumanidade, uma forma de afasia atroz, uma brutal ausência de capacidade crítica, uma facciosa passividade, recordo que estas eram precisamente as formas típicas das SS: e vejo assim estender-se sobre as nossas cidades a sombra horrenda da cruz gamada.
Uma visão apocalíptica, certamente, a minha.
Mas se ao lado dela e da angústia que a produz, não existisse em mim, também, um elemento de optimismo, isto é, o pensamento de que existe a possibilidade de lutar contra tudo isto, simplesmente eu não estaria aqui, convosco, a falar».

POEMA

NÃO DIREI

Não direi maçãs rosadas,
nem limões, nem laranjas.

Direi que me gela
o sangue nas mãos
e me enoja viver neste tempo
e neste país.

Não direi maçãs rosadas,
nem limões, nem laranjas;
Gritarei ainda mais alto
e lutarei pela nossa liberdade.

Carles-Jordi Guardiola
(In Poetas Catalães de Hoje)

E SE SE FUNDISSEM?

Dizem as notícias do dia que o PS e o PSD pensam fazer uma coligação após as eleições de 2009.
Ao que parece, dirigentes dos dois partidos têm trocado opiniões sobre o assunto estando o processo bem encaminhado.
A hipótese desta coligação é bem vista pelo inevitável Marcelo.
Mais importante do que isso: ela é muito bem vista pelos chefes dos grandes grupos económicos e financeiros - e a opinião destes é de peso, como se sabe...

Por mim, acho bem a coligação.
Por razões várias, a mais importante das quais é a da poupança de esforços dos dois na dificílima tarefa de fingir que são oposição um ao outro, procurando esconder a total consonância de opiniões em relação à política que, ora um ora outro, leva por diante - a política de direita comum aos dois, e com a qual ambos têm vindo, ao longo dos últimos 32 anos, a flagelar os trabalhadores, o povo, o País e a democracia de Abril.

Aliás, e pensando melhor, talvez fosse, até, preferível os dois partidos fundirem-se. Um ao outro, um e outro, como melhor lhes aprouvesse.
O aborto que resultasse dessa fusão seria sempre menos horroroso à vista do que esta aberração bicéfala com que hoje nos horrorizam.

POEMA

QUEM...

Quem tem a consciência para ter coragem
Quem tem a força de saber que existe
e no centro da própria engrenagem
inventa a contra-mola que resiste

Quem não vacila mesmo derrotado
Quem já perdido nunca desespera
e envolto em tempestade decepado
entre os dentes segura a primavera.

João Apolinário

UM PÉ LÁ, OUTRO CÁ...

Como a realidade exuberantemente nos mostra, Manuel Alegre é um exímio praticante da arte conhecida por «um pé lá, outro cá» - sendo que o «pé cá» é em jeito de faz-de-conta, enquanto que o «pé lá» é pé-da-casa, pé instalado.

O DN , na sua primeira página de hoje, incita-nos à leitura de um artigo de Alegre, intitulado «Viva a Irlanda! Não há Europa contra os cidadãos».
Confesso a minha estupefacção ao ler tal coisa!
Pensei para mim: será que a actual onda de esquerda de Alegre o levou a deixar de ser entusiástico apoiante do Tratado de Lisboa e a instalar definitivamente os dois pés cá? Será que ele passou a ver no referido Tratado aquilo que é, ou seja: um gigantesco passo em frente na construção da União Europeia do Grande Capital (UE do GC) e na perda de soberania de Portugal?
Se assim é, continuei a pensar, tenho que dar a mão à palmatória e reconhecer o erro da minha tese de «um pé lá, outro cá» - e saudar o ingresso de Alegre nas fileiras dos que lutam contra o Tratado Porreiro, pá, a política de direita, etc, etc.
E apressei-me a ler o artigo.

Bom: li, li, li... e a verdade é que, no longo texto, não encontrei fosse o que fosse - uma ideia, uma frase, um parágrafo, uma palavra, uma vírgula... - diferente do que Alegre, por hábito e vocação, diz nestas ocasiões: o habitual blá-blá-blá democratóide usado como música de fundo para melhor instalar o «pé lá».
Isto é: Alegre continua a pensar o que sempre pensou sobre o Tratado e o referendo; continua a apoiar a UE do GC; continua a achar bem a venda ao desbarato da soberania e da independência nacional - o que indicia a continuação do apoio, de facto, à política de direita.

Perguntar-se-á: então porquê esta espampanância de artigo?, porquê o tonitroante brado de «Viva a Irlanda»?, porquê esta declamação a fingir que «não»?
E a resposta é: este tempo de vitória histórica do «não» na Irlanda; este tempo de alegria justificadíssima da Esquerda; este tempo de recarregar de baterias entre a malta para a luta contra o Tratado, e contra a política de direita - é, naturalmente, tempo de Alegre estar com um «pé cá»: junto aos que comemoram a vitória do «não».
Mas que o «pé lá» continua instalado, não há dúvida. Como pode depreender-se lendo o penúltimo parágrafo do artigo, o qual, nas suas 33 breves palavras, diz TUDO.
Leiam, por favor:
«É preciso respeitar a vontade popular, gritava-se em 1975 nas ruas de Portugal. Pois é. E é por isso que, ainda que sendo a favor do "sim", hoje me apetece dizer: Viva a Irlanda».


Pois é: Alegre o diz: gritar, hoje, «Viva a Irlanda», tem o mesmo significado que tinha, em 1975, intervir activamente na organização da contra-revolução.

Chega para lá o pé, pá.

Sá Fernandes, o capacho

Sobre a presença de Sá Fernandes numa reunião do PS - comentário do (Rei Mago) Belchior ao blog Troll Urbano

Escuta companheiro Baltazar,
O Fernandes trai sempre sua classe.
Sabia-se, mesmo antes de se falar,
Bastava que o PS lhe acenasse.

O PS já lhe deu tacho
E o Sá Fernandes já se conhece:
Vende-se por 2 € e uma prece,
Ele não passa dum capacho.

É imensamente triste
A sua (in)consciência política.
Mas como tu já viste
A sua sensibilidade é lítica.

POEMA

APONTAMENTO PARA UM POEMA EM LAPÃO


Se a civilização do consumo pôs o problema
da falta de espaços verdes
ou da solidão da velhice,
por que é que um presidente de município comunista se sente
na obrigação de resolvê-lo?
De que se trata?
Da aceitação de uma realidade fatal?
E, uma vez que as coisas se apresentam deste modo,
o dever histórico é o de procurar melhorá-las
atavés do entusiasmo comunista?
O «modelo de desenvolvimento» é
o preconizado pela sociedade capitalista
que está para alcançar a máxima maturidade.
Propor outros modelos de desenvolvimento
significa aceitar o primeiro modelo de desenvolvimento.
Significa querer melhorá-lo,
modificá-lo, corrigi-lo.
Não: é preciso não aceitar tal «modelo de desenvolvimento».
E nem sequer basta rejeitar tal «modelo de desenvolvimento».
É preciso rejeitar o «desenvolvimento».
Este «desenvolvimento»: porque é um desenvolvimento capitalista.
Este parte de princípios não só errados
mas também malditos.
Triunfantes, pressupõem uma sociedade melhor e portanto burguesa.
Os comunistas que aceitem este «desenvolvimento»,
considerando o facto que a industrialização total
e a forma de vida que daí resulta é irreversível,
seriam sem dúvida realistas colaborando,
se a diagnose fosse absolutamente justa e segura.
E, pelo contrário, não é verdade -
e existem já as provas -
que tal «desenvolvimento» deva continuar
como começou.
Há, em vez disso, a possibilidade de uma «regressão».
Cinco anos de «desenvolvimento» tornaram os italianos
um povo de nevróticos idiotas,
cinco anos de miséria podem reconduzi-los
à sua mísera humanidade.
E então -
pelo menos os comunistas -
poderão ter em conta a experiência vivida:
e visto que se deverá voltar ao princípio
com um «desenvolvimento»,
este «desenvolvimento» deverá ser totalmente diferente
do que tem sido.
Coisa diversa do que propor
novos «modelos»
ao «desenvolvimento» tal como ele é agora.

Pier Paolo Pasolini