"HÁ COMPROMISSOS E COMPROMISSOS"


Gil C. Santos
(Centro de Filosofia das Ciências da Universidade de Lisboa)


1. Da importância dos compromissos contra todos os esquerdismos

No contexto da luta dos comunistas, Lénine (1920a: 70) defendeu, consistentemente, a importância e a necessidade da realização de compromissos com outras forças proletárias e, até mesmo, burguesas e capitalistas.
Os voluntarismos esquerdistas, os sectarismos e as impaciências subjectivas não constituem uma atitude marxista. Recorde-se a crítica que Engels, em 1874, endereçou aos 33 communards blanquistas que queriam “saltar por cima de estações intermediárias e de compromissos”, pretendendo ‘introduzir’ o comunismo “depois de amanhã” (Lénine 1920b: 126-127).
Nesta óptica, “negar os compromissos ‘por princípio’, negar a admissibilidade dos compromissos em geral, quaisquer que sejam, é uma criancice que até é difícil de levar a sério” (Lénine 1920b: 101). Aliás, recorda Lenine (op. cit.: 129), “toda a história do bolchevismo, antes e depois da Revolução de Outubro, está cheia de casos de manobra, de conciliação e de compromissos com outros partidos, incluindo os partidos burgueses!”.
Daí, também a importância de se adoptar, conscientemente, uma flexibilidade táctica: “É necessário unir a fidelidade mais estrita às ideias do comunismo com a capacidade de estabelecer todos os compromissos práticos, as manobras, a conciliação, os ziguezagues, as retiradas, etc. (...): que todos os comunistas tenham consciência, em toda a parte e até ao fim, da necessidade da máxima flexibilidade na sua táctica.” (Lénine 1920b: 151-157).
Todavia, “[p]reparar uma receita, ou uma regra geral (“nenhuns compromissos!”) para todos os casos é absurdo” (Lénine 1920b: 128). Aliás, “todas as linhas divisórias na natureza e na sociedade são móveis e, até certo ponto, convencionais” (Lénine 1920b: 129).
Por esta razão, “[é] preciso saber analisar a situação e as condições concretas de cada compromisso ou de cada variedade de compromissos” (Lénine 1920b: 102), pois “[é] claro que se dão casos isolados extraordinariamente difíceis e complexos, em que só com os maiores esforços se consegue determinar correctamente o verdadeiro carácter de um ou outro ‘compromisso’” (op. cit.: 128).

2. Da importância da condição leninista para todos os compromissos

Compreendendo as inegáveis dificuldades que este tipo de análises sempre suscitam, estaremos, assim, condenados a avaliações exclusivamente circunscritas à relatividade de cada contexto, e susceptíveis de acomodar, por essa via, todos os tipos de relativismos oportunistas?
Não. “Há compromissos e compromissos.” (Lénine 1920b: 102). Apesar das especificidades dos diferentes momentos históricos e das tácticas respectivas que se lhes impõem, é possível identificar um critério transversal a todos os tempos, contextos e lugares. Um critério que nos permite avaliar se um dado acordo ou compromisso se impõe por condições objectivas, ou se, pelo contrário, constitui (ou conduz a) uma capitulação e a uma traição à classe trabalhadora.
Ei-lo: qualquer compromisso deverá ser realizado à luz exclusiva de uma “táctica para elevar, e não para diminuir, o nível geral de consciência proletária, de espírito revolucionário e de capacidade de luta e de vitória do proletariado” (Lénine 1920b: 133). Em circunstância alguma deverá ser defendido um compromisso que “limite os comunistas na sua luta ideológica e política contra a ala direita, oportunista” (idem), e que diminua “a disposição para continuar a luta” dos trabalhadores (Lénine 1920b: 127).
Nesta ordem de ideias, a flexibilidade táctica impõe-se, sim, mas sempre com condições que limitem a possibilidade de serem gerados movimentos oportunistas – sejam estes, de direita, ou de esquerda. Por isso é que há que assumir um ponto de vista dialéctico, fazendo muito pouco sentido (a não ser como recurso de uma táctica meramente retórica e sofística num contexto de polémica) perguntar: devemos aceitar acordos e compromissos com forças capitalistas ou, pelo contrário, recusá-los a todo o custo? Devemos reconhecer a necessidade de programas de medidas reformistas, ou rejeitá-los sumariamente?
Como escreveu Engels (1883: 493), o pensamento “dos ‘ou..., ou...’ incondicionais e universalmente válidos” é produto de uma lógica de disjunções exclusivas que a dialéctica marxista sempre rejeitou. A dialéctica “não conhece linhas de distinção rígidas e imutáveis” (hard and fast lines) entre oposições concebidas como diferenças metafísicas entre si independentes, imutáveis e absolutas.
Tudo depende, por isso, dialéctica e materialisticamente, de qual compromisso ou acordo, etapa ou programa de reforma se pretende (designadamente, quais os seus objectivos), em que circunstâncias eles são defendidos (cf. Lénine 1920a: 70), bem como as consequências que as formas da sua persecução e implementação podem acarretar. No caso particular dos compromissos é, por isso, importante não esquecer o critério leninista de avaliação: promove, este ou aquele compromisso, a “elevação” ou a “diminuição” do “nível geral de consciência proletária, de espírito revolucionário e de capacidade de luta e de vitória do proletariado”? Com efeito, a natureza de um compromisso não se esgota nos termos do próprio compromisso e no texto que os enuncia. A sua natureza integra também as formas como os partidos comunistas se comportam e posicionam durante todo o processo de vigência desses mesmos compromissos, e os efeitos que delas decorrem.
Quando os partidos comunistas assumem o seu papel de vanguarda, criando condições para a luta de massas e, após o estabelecimento de compromissos com partidos da burguesia, se demitem do seu papel, chegando mesmo a gerir a luta à luz desses mesmos compromissos, e não elevando, por essa via, a consciencialização e a mobilização para a luta, então, estamos perante o abandono da perspectiva leninista dos compromissos.
Embora este seja, certamente, um processo de análise complexa, o desvio social-democratizante dos partidos comunistas é uma realidade cujos traços característicos são bem conhecidos:
1) um comportamento essencialmente adaptativo às circunstâncias e aos interesses conjunturais, atento às putativas vantagens e aos eventuais sucessos do momento presente, negligenciando ou esquecendo, por isso, os interesses fundamentais do proletariado (cf. Engels 1891: 227; Lénine 1908: 344);
2) uma promoção exclusiva das formas institucionais e parlamentares de luta, tendo como objectivo fundamental o sucesso nos actos eleitorais, com base na “ilusão” de que é possível realizar todas as reivindicações por via “cordial” e “pacífica” (Engels 1891: 227); e
3) a legitimação teórica (e a posteriori) de tais atitudes, pela elaboração de uma concepção gradualista do processo histórico da luta de classes, por uma nova teoria do Estado (entre outras) e, consequentemente, pela defesa de uma doutrina reformista. A táctica dos compromissos, acordos, desvios e recuos tácticos é, então, separada do objectivo de uma consciencialização e mobilização dos trabalhadores para a necessidade de uma revolução socialista. Compromissos, acordos e programas de reformas são defendidos como ingredientes de etapas postuladas como necessárias e que, bem sucedidas, conduzirão, como que por si mesmas, ao ideal utopista da chegada do momento propício para uma transição para o socialismo. Como escrevia Engels (1891: 226), procuram convencer-se a si mesmos e ao Partido que a sociedade dos nossos dias está já a rumar para o socialismo. O progresso far-se-á, assim, paulatinamente, como que teleologicamente orientado pela lógica interna da economia capitalista, e pelo destino a que os seus desgastes e as suas crises inevitavelmente conduzirão.
É, em suma, a história que a História está ‘do nosso lado’ e fará o seu caminho regida pelas suas próprias leis, não obstante, esta reificação e esta visão determinística da História tenha sido tão energicamente criticada por Marx e Engels – em A Sagrada Família, onde se escreve: “A História não faz nada” (1845: 93), ou em A Ideologia Alemã, onde se critica a transformação idealista da História numa “pessoa a par de outras pessoas” com objectivos que lhe são próprios (1845-6: 50) –, bem como, mais tarde, por Gramsci (1932): se as bolotas tivessem uma ideologia, esta dir-lhes-ia estarem grávidas de carvalhos, quando, na realidade, “999 bolotas em 1000 servem de ração para porcos, contribuindo, quando muito, para fazer salsichas e mortadela”.
Finalmente, e por outra via, no seio de todos quantos resolveram abraçar (mais, ou menos, explicitamente) alguma versão do que se convencionou chamar eurocomunismo, assiste-se a uma “multiplicação programática das etapas – a democracia avançada do PCF, concebida como ‘transição para a transição’ (Claudín) – que renova, pela sua parte, os pressupostos do socialismo utópico, relegando o comunismo para uma insondável idade do Ouro” (Thiry 1998: 1174).
Face a todos estes tipos de riscos, é compreensível que Lénine tenha sentido a necessidade de evitar, quer os infantis e sectários voluntarismos revolucionários esquerdistas, quer as derivas oportunistas e capitulantes de direita – designadamente, procurando determinar critérios objectivos que permitam distinguir os diferentes tipos de compromissos que os partidos comunistas podem estabelecer com forças políticas burguesas e capitalistas.
Numa palavra: é contra os esquerdistas que Lénine nega o não incondicional a qualquer tipo de compromisso, assim como é contra os oportunistas de direita que Lénine nega o seu sim incondicional.
Há compromissos e compromissos. E por isso, se é verdade que devemos sempre avaliar cada compromisso individual em função do seu contexto respectivo, não é menos verdade que tornarmo-nos reféns dos interesses dos parceiros dos nossos compromissos, moderando ou silenciando as críticas, e abrandando, senão mesmo bloqueando, certas formas de luta, representaria uma atitude de capitulação e traição. Como alertou Lénine (1920a: 70), “através de todos os compromissos que, por vezes, se impõem de modo necessário”, “o que é importante é saber (...) conservar, reforçar, temperar, desenvolver a táctica e a organização revolucionária, a consciência revolucionária, o espírito de decisão, a preparação da classe operária e da sua vanguarda organizada, o partido comunista”.
Com efeito, sem o cumprimento desta condição leninista de permanência e reforço da consciencialização e mobilização dos explorados para a sua luta, já não estaríamos perante a defesa da concepção anti-esquerdista de Lénine sobre os compromissos que todos os partidos comunistas deverão sempre considerar. Aí estaríamos já perante uma outra coisa com outro nome. Um desvio oportunista de direita para um processo de social-democratização.


Referências bibliográficas
Marx e Engels [1845], The Holy Family, or Critique of Critical Criticism. In: Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 4, New York: International Publishers/Moscow: Progress Publishers, 1975.
Marx e Engels [1845-6], The German Ideology. In: Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 5, New York: International Publishers/Moscow: Progress Publishers, 1975.
Engels [1883], Dialectics of Nature [‘Notes and Fragments: Dialectics, a) General Questions of Dialectics. The Fundamental Laws of Dialectics’], In: Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 25, New York: International Publishers/Moscow: Progress Publishers, 1987.
Engels [1891], A Critique of the Draft Social-Democratic Programme of 1891, In: Karl Marx and Frederick Engels, Collected Works, vol. 27, New York: International Publishers/Moscow: Progress Publishers, 1990.
Gramsci [1932], Quaderno 9, “Passato e presente”, §131 (URL: http://dl.gramsciproject.org/quaderno/9/nota/131.html).
Lénine [1908], “Marxismo e Revisionismo”, Obras Escolhidas em Seis Tomos, t. 1, Lisboa/Moscovo, Edições Avante!/Edições Progresso, 1984, pp. 338-346.
Lénine [1920a], “Sobre os Compromissos” (Março-Abril de 1920), In: V. I. Lénine, Obras Escolhidas em Seis Tomos, t. 5, Lisboa/Moscovo, Edições Avante!/Edições Progresso, 1986, pp. 69-71.
Lénine [1920b], A Doença Infantil Do ‘Esquerdismo’ no Comunismo (Abril-Maio de 1920), In: V. I. Lénine, Obras Escolhidas em Seis Tomos, t. 5, Lisboa/Moscovo, Edições Avante!/Edições Progresso, 1986.
Thiry, B. [1998], “Transition socialiste”, Dictionnaire critique du marxisme (Gérard Bensuassan e Georges Labica, dir.), Paris, Quadrige/PUF, 1998 (3ª ed.), pp. 1171-1175.

OS OPORTUNISMOS SEGUNDO LENINE

                            Por Catarina Casanova



Porque não se pode, na realidade, confundir o Partido, destacamento de vanguarda da classe operária, com toda a classe. E é exatamente essa a confusão (própria de todo economismo oportunista, em geral) em que cai o camarada Axelrod (...)

(in “Um passo em frente, dois passos atrás”, Lenine, 1904)1


Em O oportunismo e a falência da II Internacional (1916)2, Lenine afirma que o oportunismo é primeiro um estado de espírito, depois uma tendência e numa fase final, um grupo ou camada da burocracia operária a que se juntam companheiros pequeno-burgueses. Refere Lenine (op. cit.) que este grupo de personagens, os oportunistas, enganam e submetem o movimento operário reconhecendo em palavras os objectivos revolucionários e a táctica revolucionária. Os oportunistas conquistam a confiança das massas através da afirmação solene de que todo o trabalho “pacífico” constitui apenas uma “preparação para a revolução proletária” (op. cit.). Lenine chega mesmo a comparar este problema a um abcesso ao referir que: esta contradição é “um abcesso que alguma vez haveria de rebentar, e rebentou” (op. cit.). Em Radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista (1971)3, Álvaro Cunhal defende que a corrente ideológica do radicalismo pequeno-burguês “manifesta-se, por um lado, na criação de grupos ou partidos pequeno-burgueses de «opção socialista» e de verbalismo esquerdista; por outro, em tendências revisionistas no seio do próprio movimento operário”, ou seja, o oportunismo pode ser esquerdista, ou revisionista.
O oportunismo pode ser visto como uma espécie de prática política que se define pela acomodação às circunstâncias, que busca retirar proveito destas não respeitando normas, regras ou estatutos.
Num partido comunista, o oportunismo é inerente à luta de classes que se desenvolve dentro deste (Lenine, 1904)1. Sendo uma manifestação da ideologia e política pequeno-burguesas, o oportunismo pode ser de direita ou de esquerda embora na pratica ambos sejam inimigos dos comunistas. Enquanto o oportunismo de direita se pode ver na política de conciliação de classes e de cooperação do proletariado com a burguesia, o oportunismo de esquerda engloba um conjunto de posições ultra-revolucionárias e aventureiras que se apoiam em voluntarismo respeitante à sobrevalorização da violência revolucionária. Ambos os oportunismos são inimigos do marxismo-leninismo.

O oportunismo evoluiu na sua forma e conteúdo embora a sua natureza tenha permanecido intacta. Até se pode vestir de “renovador” ou “ortodoxo” mas na realidade a caraterização da sua natureza é fundamentalmente a mesma desde o 6º congresso da Internacional Comunista (IC): “A «esquerda» social-democrata, usando de bom grado a frase pacifista e por vezes mesmo a frase revolucionária, age na realidade contra os operários, sobretudo nas horas mais críticas (....) e constitui por essa razão a fracção mais perigosa dos partidos sociais-democratas. Servindo no seio da classe operária os interesses da burguesia e colocando-se inteiramente no terreno da colaboração de classes e da coligação com a burguesia, a social-democracia é, em certos momentos, constrangida a passar à oposição e mesmo a simular a defesa dos interesses da classe do proletariado na sua luta económica; fá-lo com a única finalidade de adquirir a confiança de uma parte da classe operária e de trair os seus interesses permanentes, tanto mais vergonhosamente na hora das batalhas decisivas”4.

Há um conjunto de expedientes empregues por esta ala esquerda da social-democracia para obter a confiança parcial da classe. O primeiro é o filistinismo, desde logo o da redução de todo o debate a “rótulos” e a argumentos falaciosos. O trabalho político é fundamentalmente tarefista, numa transposição da lógica capitalista para o interior das organizações do proletariado em várias medidas: primeiro, no produtivismo das metas e objectivos; segundo, no contrabando ideológico de ideias e conceitos legalistas, democratistas, e conciliatórios; terceiro, num desprezo pelo trabalho de discussão e direcção colectiva e formação teórica, fruto de uma desconfiança na capacidade das massas para serem agentes conscientes da sua emancipação.

A este respeito, veja-se este exemplo, retirado do Manifesto de Champigny do PCF (1968)5: “como sublinharam as Declarações dos partidos comunistas de 1957 e 1960, nas condições atuais, numa série de países capitalistas, a classe operária, conduzida pela sua vanguarda, tem a possibilidade de, unindo a si a maioria do povo no combate contra o domínio do capital monopolista e isolando a grande burguesia, apoiando-se na colaboração política dos partidos democráticos e das organizações operárias, conquistar o poder e assegurar a passagem dos principais meios de produção para as mãos do povo sem guerra civil.”  A linguagem legalista e conciliatória surge aqui sem qualquer disfarce, bem como a negação do princípio, nunca negado por nenhum dos clássicos do marxismo-leninismo, da natureza violenta da revolução socialista pelo seu corte com o regime capitalista e a burguesia. A natureza de classe do Estado, a experiência histórica recentíssima na altura (1968: com as derrotas do legalismo no Brasil e o triunfo da luta armada em Cuba) foram inteiramente ignoradas. Trata-se de um exercício desonesto por desconsiderar a experiência histórica, servido com fraseologia revolucionária, como é acima referido.  E como a história veio a demonstrar, esta lógica só se repercutiu na centralização absoluta da via parlamentar, no tarefismo das campanhas eleitorais e na busca incessante de mais votos e mandatos assente na ideia anti-leninista de “voto a voto, deputado a deputado, rumo ao socialismo” (sendo que, nos dias de hoje, nem esse progresso eleitoral se verifica). A então direção do PCF, enquanto traia a linha marxista-leninista, não poupava esforços no discurso do perigo da desagregação do partido e na importância da unidade, desde que à volta do seu projecto claudicante. Todos sabemos onde está e quem é o PCF de hoje.

Em suma, oportunismo, que também cavalga no reformismo, é uma consequência da degenerescência ideológica que afecta o movimento operário quando a sua dinâmica engendra elementos de uma burocracia que gere e tutela esse movimento, encaminhando-o, como no exemplo que dou, para a luta estritamente legal, parlamentar, alimentando expectativas na “colaboração política dos partidos democráticos”, perspectiva essa anti-leninista.  A permanente formação ideológica dos elementos das massas e a sua vigilância revolucionária sobre a sua direção é o único método que pode levar ao impedimento  destas dinâmicas oportunistas. Devolvendo a palavra a Lenine (1916): O oportunismo mais do que amadureceu, passou definitivamente para o campo da burguesia, transformando-se em social-chauvinismo: ele rompeu espiritual e politicamente com a social-democracia. Romperá com ela também organizativamente. Os operários reclamam já uma imprensa "sem censura" e reuniões "não autorizadas", isto é, organizações clandestinas para apoiar o movimento revolucionário das massas. Só uma tal "guerra à guerra" é uma causa social-democrata e não uma frase. E a despeito de todas as dificuldades, das derrotas temporárias, dos erros, dos enganos, essa causa levará a humanidade à revolução proletária vitoriosa.




Referências:

1Lenine, V. 1904. Um passo em frente, dois passos atrás.
https://www.marxists.org/portugues/lenin/livros/sindicato/07.htm

2Lenine, V. 1916. O oportunismo e a falência da II Internacional.
https://www.marxists.org/portugues/lenin/1916/01/falencia.htm

3Cunhal, A. 1970. Radicalismo pequeno-burguês de fachada socialista. Edições Avante!

4Programa da Internacional Comunista adoptado pelo VI Congresso, Moscovo, Setembro de 1928.
http://www.hist-socialismo.com/docs/ProgramaIC1928.pdf

5Manifesto de Champigny, 1968.
http://aaweb.org/pelosocialismo/components/com_booklibrary/ebooks/2013-08-16%20-%20Manifesto%20Champigny.pdf


Privilégio e Divisão da Classe ou A Propósito do Burkini



A imagem de dois polícias armados de espingarda a obrigar uma mulher muçulmana a despir o seu burkini em plena praia correu mundo, não pelas melhores razões. Aparentemente, avultam as pessoas que consideram  normais duas coisas extremamente perigosas: primeiro, que a civilização burguesa ocidental (sim, é relevante marcar, porque aparentemente a malta anda esquecida, o carácter de classe da cultura dominante no ocidente) e o seu corpo de valores e crenças tem legitimidade para ser sobreposto, ao das «civilizações inferiores». Segundo, que a melhor metodologia para «civilizar» os «primitivos», cegos que são para a cultura e a luz do progresso, é a multa do fiscal e o casse-tête da polícia. A única diferença entre estes raciocínios e os do «fardo do homem branco», o selvagem longínquo cuja educação e civilização, na época da corrida às colónias, era usado como pretexto para a invasão e a rapina, é que agora o tal «selvagem» é um imigrante magrebino, asiático, africano, ou de outro lado qualquer, que deambula pelas praias do Sul de França ou pelas ruas de Inglaterra. Mas não deixa de ser uma pobre alma perdida, que precisa da generosa ajuda do ocidente evangelizador, para sair das garras do atavismo e do estádio metafísico do desenvolvimento. Se revelar inflexibilidade, e, verdadeiramente, ingratidão perante tão nobre propósito, a pedagógica pancada policial ali estará para o educar melhor.

O mais chocante é o pormenor, que de pormenor tem muito pouco, de esta ser uma luta lançada contra um (pretenso) símbolo da opressão feminina no Islão, em nome da libertação da mulher do seu estatuto de subalternidade. Faria rir, se não fosse tão infamante, esta pretensão do aparelho repressivo do Estado burguês de libertar seja lá o que for, quanto mais agora as mulheres muçulmanas, a quem, nos arames farpados da costa europeia, nas «pateras» onde elas vêm apinhadas com filhos que morrem no mar,  nos centros de acolhimento que pouco devem aos campos de concentração, nos bairros sociais dos subúrbios, e nos gabinetes das repartições públicas, destrata com toda a sorte de perfídias, vexames, agressões e rebaixamentos que conceber se pode. Mas o mais curioso nesta discussão é precisamente a tese de que a mulher muçulmana precisa do concurso da polícia branca, europeia, e já agora masculina, para poder confrontar aquilo que a oprime (sendo escusado dizer que a tal polícia europeia, masculina, e branca, sabe muito melhor do que a mulher muçulmana aquilo que a oprime): a admissão da livre vontade na adesão ao código de vestuário islâmico, ou alternativamente admissão da possibilidade de essa ruptura, a ter de se operar, ser obra das próprias mulheres muçulmanas, surge como um discurso em mandarim perante uma plateia que só fala português. Discurso esse que tem mais de parecido com a justificação de Bush para a invasão do Afeganistão do que muitos gostariam de admitir.

Ou seja, tudo na foto em questão revela o que de mais abstruso o pensamento hegemónico ocidental inventou: a evangelização libertadora do selvagem sem civilização, a libertação feminina a golpes de bastão, a igualdade sob pena de multa, a «integração» coerciva numa sociedade tolerante. Quanto aos que considerem estranho que a liberdade seja uma coisa tão repressiva e autoritária, é a cereja em cima do bolo, revelam uma mentalidade eivada de pensamento politicamente correcto que expõe o «nosso» modo de vida às agressões de uma comunidade islâmica sanguinária e semi-animalesca, em permanente tensão para bater em alguém,

Pouco há a dizer sobre a função social que esta divisão entre pobres de tez escura e véu na cabeça e pobres de pele clara e francês escorreito, entre pobres que vivem nos bairros sociais e pobres que vivem nos quarteirões sem estigma, entre pobres que ganham mais por terem barba e pobres que ganham menos por serem mulheres, entre pobres que podem apanhar um táxi às quatro da manhã e pobres perante os quais o taxista mete o táxi prego a fundo. Ela é um dos elementos mais poderosos do melhor aliado de que o capitalismo dispõe na luta de classes: a desunião dos sectores explorados da sociedade, a sua divisão e o seu asco, em torno da conservação de privilégios que, quanto mais triviais, melhor. Mais importante que fazer coro com os desafios ao «politicamente correcto» dos Paulos Portas e dos Marinhos Pintos deste mundo, fundamental é abandonar a naturalização da sociedade burguesa como «o nosso modo de vida», a repressão policial como «a protecção dos cidadãos», a fascização da sociedade como «a nossa segurança», a segregação chauvinista da classe como «eles se quiserem que se adaptem ao nosso [porque o burguês nos ensinou que era nosso, na escola e nos jornais dele] modo de vida». E sim, fazê-lo é aderir ao politicamente correcto: é aderir ao que, politicamente, corresponde aos interesses da unidade da classe, da sua organização, e da luta pelo socialismo. Estando correcto por isso. E estando errado o oposto.

AS "PITADAS" DO CAMPEÃO, OU O "VAI TODAS" SEM EXCEPÇÃO....

Por Luís Piçarra

O campeão está sempre na berra. Não perde pitada. Corra para cima, corra para baixo, o campeão lá está. Sempre na primeira linha. Ele não gasta tempo desnecessário a pensar. Há sempre alguém que pensa por ele. Mas sempre na crista da onda, dê lá por onde der. Ele é versátil. Muda o discurso consoante a onda. Diz de si próprio, que é dialético. Entusiasma-se e usa os argumentos da onda que está a dar e põe mais umas pitadas para um "novo impulso". Mas só naquela parte em que se criam (criaram) vedetas eleitas, muito fotografadas. A tal malta que queria modernizar a coisa com uma nova e impulsante onda. Acha muito bem, e até deveria haver a obrigação de haver muito mais, dizia. que seria necessário mais programas e projectos próprios de cada um dos eleitos para a máxima coordenação. Ele estava (está)de alma e coração com esse "impulso". Furada a onda, ele, de novo lá está lá está outra vez. Mas desta feita, contra a degenerescência. E não perde pitada. Acha mesmo, que deveria ser proibido, tudo o que é vedeta à procura de luz na ribalta. Ele, o campeão, agiganta-se. Ganha a dianteira. Ataca em todas as frentes. Está de novo na crista da onda. Na que vai ganhar, como é óbvio. Ele veste a camisola do vencedor. Pouco se importa se antes esteve a cavalgar outras ondas. O que é preciso é que se sinta bem. O campeão das pitadas, não se incomoda. É preciso, é que o que está a dar, saiba que ele lá está pronto para pôr mais umas pitadas. O campeão das pitadas não tem memória. Ou melhor, prescinde dela e afirma-se coerente sempre. Deixou de usar a expressão de outras ondas, do "penso pela minha cabeça". A coerência, coisa que desconhece, é a sua nova roupagem. Ele não fala daquilo que incomoda a nova vaga de fundo. Se não é para usar a memória, ele não usa. E até acrescenta a pitada especial, quando diz que esse tempo já lá vai. Que temos de ter confiança e até nos sentirmos agradecidos com os pequenos remendos. E claro, que falar no passado de outras ondas, é sectarismo que pode pôr em causa a nova onda. Ele e generoso consigo próprio. Foi fundamental o seu contributo para que a onda se espraiasse na praia certa. Diz de si próprio, que sempre esteve no lado certo. Que é firme e convicto, e sobretudo coerente. Não perde pitada. O campeão das pitadas não gosta de rupturas radicais. Está na onda. Ele atravessa o tubo completo. E até acrescenta mais uma pitada. Uma pitada especial claro está: mais vale um pássaro na crista da onda, do que dois a afogar-se. Ele, o campeão das pitadas, ali está pronto para acrescentar mais qualquer pitada, se a onda mudar. E sempre na crista da onda, porque é isso que continua a dar...

Reformismo, Doença Infantil do Fascismo




O desaparecimento das teses do VI Congresso da Internacional Comunista significou uma perda histórica para o movimento revolucionário aos mais variados títulos. Não seria possível elencar todos os aspectos em que tal perda se repercutiu. Um que é particularmente relevante é o da linha recta entre o pensamento reformismo e o fascismo.

O Programa da Internacional Comunista saído desse Congresso - e cuja tradução seria fundamental - começa por recordar o comportamento da fase final (e mais insuportavelmente reaccionária e traidora) da Segunda Internacional aquando da eclosão da I Guerra Mundial: a adopção de teses social-chauvinistas, isto é, o encarrilamento dos trabalhadores para a adesão ao esforço de guerra da sua burguesia nacional, e não à sua luta contra a guerra mundial; a traição às sublevações proletárias da Hungria, da Baviera, da Alemanha, com o esmagamento das mesmas pelas armas dos próprios partidos social-democratas (a morte dos espartaquistas alemães pelos Freikorps subvencionados por um Governo do SPD é o exemplo maior); a adesão às campanhas militares do imperialismo contra o País dos Sovietes, em formação; as posições racistas para com os trabalhadores das colónias, em defesa da sua burguesia nacional, como, muito particularmente, fez o Partido Trabalhista britânico; a lista é infindável. Mas mais do que um extenso requisitório contra a social-democracia, importava perceber os motivos dessa atitude por parte dela.

O Programa levanta uma pista curiosa quando afirma que «[n]o processo de desenvolvimento da social-democracia, esta revela tendências fascistas que não a impedem, contudo, de noutras situações políticas se comportar como uma espécie de Fronda contra o Governo burguês na condição de partido da oposição». Isto porque «na sua condução sistemática de uma política contra-revolucionária, a social-democracia opera em dois flancos: a ala direita da social-democracia, descaradamente contra-revolucionária, é essencial para negociar e manter contacto directo com a burguesia; a ala esquerda é essencial para uma burla subtil da classe operária. Jogando com slogans pacifistas, e por vezes até com palavras de ordem revolucionárias, a «esquerda» da social-democracia age, na prática, contra os trabalhadores, particularmente em situações agudas de crise (...), pelo que é a mais perigosa facção social-democrata. Servindo os interesses da burguesia dentro da classe operária e sendo totalmente favorável à conciliação de classes, a social-democracia, em determinados períodos, é compelida a a representar o papel de um partido de oposição, e até a fingir que defende os interesses de classe do proletariado na sua luta nas fábricas. Tenta, deste modo, ganhar a confiança de uma secção da classe trabalhadora e posicionar-se de forma a poder trair o mais vergonhosamente os interesses fundamentais da classe, particularmente durante batalhas decisivas».

Ou seja, nos termos do Programa, a social-democracia serviu, naquele então, como uma charneira: um fracção dos seus elementos alinharam decididamente com os interesses da burguesia, tomando partido por posições retinta e indisfarçadamente antipopulares. Ao mesmo tempo, outro sector ficou junto dos trabalhadores com o objectivo de encarrilar as suas lutas para becos sem saída, traindo-os à última da hora. Como surge, daqui, o fascismo? Dois pontos são levantados pelo Programa: primeiro, o fascismo é descrito como «um sistema de ditadura directa, ideologicamente marcado pela 'ideia nacional'», que não pode deixar de nos remeter para o social-chauvinismo apresentado acima. Mas muito mais que isso: É indicado que «o fascismo faz um esforço para permear a classe operária recrutando entre os seus estratos mais recuados para as suas fileiras, explorando o seu descontentamento e aproveitando-se da inacção social democrata». Mais se indica que «a combinação de social-democracia, corrupção activa, e terror branco, em conjunção com agressividade imperialista extremada no plano da política externa, são as características fundamentais do fascismo».

Quer isto dizer: a emergência do fascismo, nos termos do VI Congresso da IC, está intimamente relacionada com com o capitulacionismo social-democrata, o exaspero por ele gerado entre os trabalhadores, e com as ilusões de tipo chauvinista que a social-democracia semeou junto da classe. Ao que se soma um detalhe especialmente relevante: o Congresso identifica como causas materiais do surgimento do fascismo «a instabilidade das relações de produção capitalistas, a existência de elementos sociais desclassizados em número significativo, a pauperização de largos sectores da pequena burguesia urbana e da intelectualidade, o descontentamento do minifúndio, e, finalmente, a ameaça de acção proletária», situação em que se impunha a já citada «ditadura directa» com características demagogicamente antiparlamentares e corportativas. Isto significa o abandono das ficções pretensamente representativas do Estado burguês e a assunção, plena e sem rebuço, da sua única a exclusiva função de repressão do proletariado e garantia do domínio capitalista. Ora, este fenómeno ocorria diante de uma social-democracia que tinha sido artífice da «prática da pretensa "democracia industrial", que de facto significa a completa subordinação ao capital concentrado; adoração do Estado imperialista e particularmente dos seus falsos rótulos de democrata; participação activa na construção de órgãos policiais do Estado imperialista, exército, gendarmeria, e judicatura de classe». Mais: de uma social-democracia que tinha aceite «a defesa do Estado contra o assalto do proletariado comunista revolucionário, e o papel de carrasco em períodos revolucionários». A social-democracia que, para defender a ordem pública (burguesa), as instituições (burguesas), e as conquistas no plano parlamentar e demoliberal (também burguês) das organizações de classe dos trabalhadores, não tinha qualquer armamento crítico para sequer perceber o problema do fortalecimento do aparelho de Estado para defesa de um «interesse nacional» nunca explicado (mas muito facilmente alicerçado em sentimentos chauvinistas). O reformismo democratista, com a sua neutralização idealista do Estado e a atribuição de poderes  mágicos supraclassistas à sua estrutura, diante do fascismo, vê-se diante de uma vaga indefensável.O fascismo nasce, também, do desarmamento que a social-democracia promovera neste âmbito.

É pois difícil de não admitir a tese de que há um papel fortíssimo do reformismo no surgimento do fascismo: tendo semeado o chauvinismo na cabeça das massas, a tese da neutralidade do aparelho de Estado, e a ficção da existência de nações; tendo ainda guiado os trabalhadores e as suas lutas por um trajecto fadado a derrotas consecutivas, que expuseram sobretudo os elementos menos preparados ideologicamente, no seio das massas, à demagogia fascista; tendo depois de tudo isto participado activamente no sufoco de insurreições populares por toda a parte, a social-democracia deixou terreno humoso e fértil para que fascismo nele crescesse, e não foram raros os casos em que o exerceu, sem pudor nem rebuço, contra o proletariado em ascensão. O reformismo é um elemento extraordinariamente perigoso para a humanidade, porque ele gera, uma a uma, as condições que tornam o fascismo possível. A luta contra ele não é apenas uma querela teórica. É uma luta pela sobrevivência.

A Culpa dos Incêndios é do Capitalismo

Acostumado que estou a acusações de radicalismo e exageração - que me honram! -, às quais geralmente tenho de redarguir denunciando a superficialidade intelectual e sobretudo política dos meus adversários, colho da fama o proveito: a situação, que anualmente se repete, dos fogos que lavram de norte a sul do país tem como causa única e exclusiva não a má índole e súbita aparição de malfeitores incendiários (deixemos essa explicação justicialista para o Paulo Portas), não o surto psicótico  mais ou menos colectivo que desencadeia crises de piromania nas aldeias do país (reservemos essa explicação para os psicologistas de pacotilha), mas, prosaica embora radicalmente, o modo de produção dominante. Não encarar isto é, simplesmente, não querer resolver o problema.

É por vivermos sob capitalismo e por haver uma divisão internacional do trabalho que liquidou o tecido agrícola português que a população se amontoa hoje em cidades atulhadas, deixando ao abandono extensas áreas das regiões do interior. É por haver essa divisão internacional do trabalho que temos intermináveis eucaliptais da Portucel, que secam os solos à volta e criam barris de pólvora nos meses de Verão (perante o silêncio de toda a gente). É por existir modo de produção capitalista que as terras deixadas ao abandono nessas zonas rurais, cujos proprietários nem sabem que são deles muitas das vezes ou, quando sabem, não podem ou não querem trabalhá-las, que vigora um modelo de propriedade privada absolutamente caquético e incompaginável com o bem-estar elementar, impeditivo de que se deite mão às terras maninhas para as limpar, as pôr a produzir, as dividir convenientemente em talhões e parcelas cujo aproveitamento e cuidado não seja um suplício, sem passar por trâmites exasperantes que só lembram à mentalidade doente de um jurista burguês. É por vivermos sob capitalismo e termos este mesmo modelo de propriedade que prédios devolutos, em risco de derrocada, de curto-circuito, residência de colónias de ratos, depósitos de lixo e doença, permeiam as cidades portuguesas, enquanto quem quer residência tem de ir para confins, viver em casas construídas a eito, sem planeamento, sem conforto, sem segurança em caso de catástrofe (como se vê na Madeira). A lista podia prosseguir indefinidamente.

Portanto, é tempo de deixarmos os paninhos quentes, sim. Mas não para cairmos em cima incendiários e criminosos de delito comum, que constituem o último e mais irrelevante dos elos desta cadeia. Chega de paninhos quentes com os proprietários displicentes, com os madeireiros e industriais da celulose, com o direito burguês, com tudo o que, transformando a terra e a habitação numa mercadoria, nos expõe a estes riscos e a estas calamidades. É espantoso como o dogma ideológico da propriedade capitalista (sim, espantem-se todos!, também há dogmas ideológicos foram da extrema-esquerda...) se sobrepõe ao bom senso e à evidência, mas de facto sobrepõe. Enquanto deixarmos. E vai sendo tempo de deixarmos de deixar.

Encomendaram-me Uma Revolução - Por Luís Piçarra


Encomendaram-me uma Revolução, mas não sei se tenho tempo...
Vou ver na minha Agenda!...
-Não pode ser assim!... Diz o entendido na matéria. Aquele que sabe tudo, e é especialista em fases e “condições”, para tudo, até mesmo de Revoluções,e acrescenta:
- “isto só vali lá. “evoluindo”... Assim ditam as “condições”!... Tu não sabes, mas isso stá postulado nos clássicos”...
-Se calhar em algum texto que nunca li... Respondi-lhe, na minha santa ignorância, e penalizando-me por não ter iguais conhecimentos, e acrescentei:
-Quer dizer, que isto de Revoluções, já está “demodé”, já não se usam, excepto as promovidas pela NATO, UE, e toda a sorte de golpistas e fascistas!... E as que marcaram o combate milenar contra a exploração e a opressão, são apenas referências históricas irrepetíveis, é assim?
-Claro! Responde ele, e acrescenta, peremptório, ancorado nas suas certezas e vivência, que apesar da sua jovialidade, aparenta uma experiência de séculos:
-No nosso tempo, isto vai lá com os votos!... Repara, disse-me, com ar grave próprio de um entendido na matéria: "em todas as eleições, vamos subindo... Subindo, vamos sempre somando mais votos e mais mandatos, portanto teremos as mesmas possibilidades que os outros!... Estás a perceber?... É assim: Evolução! Evolução! Isso de Revolução já não dá!... É coisa de outros tempos!
Com estes ensinamentos, senti-me mais confortado e aliviado, e fui mesmo buscar a Agenda, e lá marquei, - de acordo com o calendário eleitoral -, o dia e a hora de chegada ao Socialismo, sem a chatice das Revoluções!...