MÃOS LIMPAS
Do gesto de matar a ambas mãos
o jeito de amassar não é diferente.
(Que bom este progresso, que descanso:
o botão da direita dá o pão,
com o botão da esquerda, facilmente,
disparo, sem olhar, o foguetão,
e o inimigo alcanço).
José Saramago
O MEU APELO
Quando José Mourinho foi considerado o maior do mundo, Cavaco Silva apressou-se a felicitá-lo e a expressar a enorme admiração que tinha por ele.
Mourinho agradeceu, sublinhando que a «admiração é mútua» e acrescentando que «partilhava a visão de Cavaco para Portugal».
É claro que tais demonstrações de admirações e de partilhas de visões - expressas em tempo de campanha eleitoral - têm um significado inequívoco.
Por mim, lamento que Mourinho ande em tão má companhia em matéria de «admirações» e «visões» - mas confesso que isso não me surpreende por aí além.
Surpreender-me-ia, sim, e muito, o contrário (por razões que não vêm agora ao caso).
Entretanto, chega a notícia de que Mourinho não vai votar no dia 23.
Porquê não sei e a notícia não esclarece.
Apenas sei - porque a notícia o diz - que Mourinho se absterá nas eleições presidenciais.
Por mim, fico satisfeito com esta abstenção.
Porque sou partidário da abstenção?
Não: porque, neste caso, é menos um voto na «visão de Cavaco para Portugal», ou seja, no afundamento do País - e quanto menos votos essa «visão» tiver, melhor para Portugal e para os portugueses.
À parte isto, bato-me contra a abstenção.
E a confirmar o que digo, aqui fica o meu apelo dirigido a todos os eventuais abstencionistas:
«Não se abstenham: votem em Francisco Lopes».
POEMA
ACIDENTE DE VIAÇÃO
Vago, secreto, alheio e disfarçado
no conforme cortejo da cidade,
dobro esquinas e paro separado,
à espera de mim mesmo ou da metade
que ficou sem saber do outro lado.
Ponho letras bastardas a deslado
das palavras cruzadas do jornal,
dou um grito de aviso, arrepiado,
contra a luz encarnada do sinal
e piso, como brasa, o chão molhado.
Fica atrás o meu fato amarrotado,
a sangrar das costuras esgarçadas,
acode o alfaiate convocado,
enquanto vou pensando em gargalhadas,
vivo, secreto, alheio e disfarçado.
José Saramago
Vago, secreto, alheio e disfarçado
no conforme cortejo da cidade,
dobro esquinas e paro separado,
à espera de mim mesmo ou da metade
que ficou sem saber do outro lado.
Ponho letras bastardas a deslado
das palavras cruzadas do jornal,
dou um grito de aviso, arrepiado,
contra a luz encarnada do sinal
e piso, como brasa, o chão molhado.
Fica atrás o meu fato amarrotado,
a sangrar das costuras esgarçadas,
acode o alfaiate convocado,
enquanto vou pensando em gargalhadas,
vivo, secreto, alheio e disfarçado.
José Saramago
TEM A PALAVRA FRANCISCO LOPES
Cinco afirmações do candidato dos trabalhadores:
1 - «A minha candidatura é a única que não tem responsabilidades ou quaisquer compromissos com as políticas que estão na base da actual situação e que protagoniza uma ruptura com a destruição da produção nacional, a exploração dos trabalhadores, a abdicação nacional, as injustiças sociais».
2 - «A verdadeira opção eleitoral é entre a minha candidatura, que denunciou e combateu um Orçamento do Estado destinado a impor mais sacrifícios, mais dificuldades e mais pobreza - e os outros candidatos que o patrocinaram, toleraram ou justificaram em nome dos interesses dos mercados, da acumulação dos lucros, das inevitabilidades ou de um alegado mal menor».
3 - «A verdadeira opção é entre os que, como nós, erguem os valores da solidariedade e da dignidade humana inseparáveis do direito ao emprego, de uma mais justa distribuição do rendimento, da valorização dos salários e pensões de reforma pelos quais lutamos - e os que, refugiados em discursos caritativos e encenada comiseração, exploram a pobreza que eles próprios promovem, instrumentalizando os sentimentos de solidariedade, iludindo as razões e responsabilidades pelo aumento sem fim do número de pobres».
4 - «Nesta candidatura e neste projecto não há lugar para o comprometimento com a política de direita, não mora a mínima promiscuidade com a especulação e os interesses do capital. Esta candidatura é expressão de um projecto e vontade colectivas, da coerência, da determinação, da identificação com os interesses dos trabalhadores e do povo».
5 - «O voto no dia 23 é uma oportunidade de mudança, uma opção entre dois caminhos e projectos distintos: aquele que a minha candidatura representa - a perspectiva de uma nova política capaz de livrar o País e os portugueses das dificuldades que a política de sucessivos governos têm imposto - ou a aceitação do rumo de injustiças e desigualdades que qualquer uma das outras candidaturas constitui».
A pergunta é:
algum dos outros candidatos está em condições de fazer sua qualquer destas afirmações de Francisco Lopes?
POEMA
PROCESSO
As palavras mais simples, mais comuns,
as de trazer por casa e dar de troco,
em língua doutro mundo se convertem:
basta que, de sol, os olhos do poeta,
rasando, as iluminem.
José Saramago
As palavras mais simples, mais comuns,
as de trazer por casa e dar de troco,
em língua doutro mundo se convertem:
basta que, de sol, os olhos do poeta,
rasando, as iluminem.
José Saramago
É BOM LEMBRAR
No Diário de Notícias de hoje, a propósito da morte de Vítor Alves, Mário Soares confessa-se deste jeito:
«Depois do caso República - e no período mais agudo do PREC - conspirei activamente, em nome do PS, com o chamado Grupo dos Nove, no restaurante Bordalo, onde me encontrava praticamente todas as semanas com Victor Alves, Vasco Lourenço, Melo Antunes, Victor Crespo, Costa Brás e com o saudoso comandante Gomes Mota, entre outros. E mais tarde em casa do Jorge Campinos, contra o golpe que os comunistas e os esquerdistas preparavam para impor o "poder popular". Foram vencidos em 25 de Novembro de 1975, do qual resultou a normalização democrática da Revolução».
Já se sabia que Soares conspirou com o Grupo dos Nove com o objectivo de travar e liquidar a Revolução de Abril, pelo que a confissão agora produzida apenas o confirma como... o conspirador contra-revolucionário que foi - e que continua a ser.
Já em relação ao aludido «golpe dos comunistas», Soares continua a fugir com a bochecha à seringa, assim escondendo, com um golpe inventado, a série ininterrupta de golpes a que ele e os seus correligionários e afins, a mando dos seus patrões, estiveram ligados.
Designadamente o 25 de Novembro, do qual resultou esta «normalização democrática» em que vivemos hoje: com a independência do País nas patas dos grandes da Europa e do mundo, com a aparelho produtivo destruído... com o desemprego, a precariedade, os salários em atraso, os cortes nos salários, o congelamento das pensões e reformas... com os PEC's todos, o OE, a pobreza, a miséria, a fome... e com o FMI a preparar-se para invadir e ocupar Portugal.
E é bom lembrar que Soares é um dos principais responsáveis - talvez o principal responsável - pela situação actual.
É bom lembrar que Soares, enquanto homem de mão da CIA, de Carlucci, dos serviços secretos da RFA, França, Grã-Bretanha, Suécia, etc, etc, foi o chefe local da contra-revolução - e que cumpriu tal tarefa, patrióticamente, a troco de milhões de dólares, marcos, francos, libras, coroas, etc, etc.
É bom lembrar que Soares foi o iniciador, em 1976, desta política de direita que, entregando o poder ao grande capital, afundou Portugal.
É bom lembrar que Soares foi - é - o mais destacado representante político e defensor, em Portugal, dos interesses do capitalismo internacional.
É bom lembrar, enfim, o que Soares foi e é - para que (pelo menos) a História o julgue e condene com justiça.
POEMA
HISTÓRIA ANTIGA
Compromissos, não tinha, mas faltei:
não prestei juramento, mas traí:
sentir-se réu alguém, não depende
do juízo dos outros, mas de si.
É fácil companhia a consciência
se mansamente aceita e concilia,
difícil é calá-la quando somos
mais rectos afinal do que se cria.
Um dia tornarei às dores do mundo,
à luta onde talvez já não me esperam,
antes, seja diferente outra mulher,
companheira, não ferros que me ferram.
José Saramago
Compromissos, não tinha, mas faltei:
não prestei juramento, mas traí:
sentir-se réu alguém, não depende
do juízo dos outros, mas de si.
É fácil companhia a consciência
se mansamente aceita e concilia,
difícil é calá-la quando somos
mais rectos afinal do que se cria.
Um dia tornarei às dores do mundo,
à luta onde talvez já não me esperam,
antes, seja diferente outra mulher,
companheira, não ferros que me ferram.
José Saramago
PELO FUTURO
Cavaco Silva pergunta: «O que sucederia a Portugal se a Presidência da República fosse ocupada por radicais ou extremistas ou por aqueles que insultam os que nos emprestam dinheiro?».
Francisco Lopes pega-lhe na palavra: «Haverá maior radicalismo ou extremismo do que a prática (de Cavaco) que conduz à liquidação de Portugal como nação soberana e independente?; do que a acção (de Cavaco) na imposição de sacrifícios ao povo português, ao serviço dos interesses, da gestão fraudulenta e criminosa, das mordomias, dos lucros e do poder dos grandes grupos económicos e financeiros?» - e responde: «Não, não há».
A notícia diz: «A Alemanha e a França querem que Portugal aceite a ajuda financeira» - ou seja: querem a invasão e ocupação de Portugal pelo FMI.
Cavaco Silva «acha mal»... «acha mal» o quê?: que Portugal seja o que a Alemanha e a França querem que seja?.
Não: ele «acha mal que a notícia tenha vindo a público sem o caso ter sido discutido no palco próprio».
E qual é, para Cavaco Silva, o «palco próprio»?: Portugal?, o Parlamento português?
Não:«as instâncias comunitárias», as quais, como ele sabe, «querem» o que a Alemanha e a França «querem»...
Destas afirmações e notícias, emergem dois projectos opostos para Portugal:
um, o de Francisco Lopes, assente na defesa da independência e da soberania nacionais e dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País - de acordo com o que diz a Constituição da República Portuguesa.
Outro, o de Cavaco Silva, assente na entrega da independência e da soberania nacionais nas garras do capitalismo internacional, com a submissão canina aos ditames dos grandes da Europa e do mundo, e esmagando os interesses dos trabalhadores, do povo e do País - no desrespeito e na violação frontais da Lei Fundamental do País, que, recorde-se, ele jurou pela sua honra cumprir e fazer cumprir...
No dia 23, optar pelo projecto de Cavaco Silva significa optar pelo passado, por mais do mesmo, por mais deste mesmo que há 34 anos vem afundando Portugal no imenso buraco económico e social em que se encontra.
E optar por Francisco Lopes significa optar, com confiança, pela ruptura e pela mudança - pelo futuro.
POEMA
DECLARAÇÃO
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
nem morto está o fruto que tombou:
dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
respiram na cadência do meu sangue,
do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
na memória doutra mão perdurará,
como a boca guardará caladamente
o sabor das bocas que beijou.
José Saramago
Não, não há morte.
Nem esta pedra é morta,
nem morto está o fruto que tombou:
dá-lhes vida o abraço dos meus dedos,
respiram na cadência do meu sangue,
do bafo que os tocou.
Também um dia, quando esta mão secar,
na memória doutra mão perdurará,
como a boca guardará caladamente
o sabor das bocas que beijou.
José Saramago
CRITÉRIOS INFORMATIVOS...
O Diário de Notícias de hoje dedica duas páginas à campanha eleitoral - melhor dizendo: ao último dia da pré-campanha eleitoral.
Ali ficámos a saber que o candidato Cavaco Silva esteve, ontem, no distrito de Setúbal, onde «pôs o BPN fora da campanha» (pudera!...);
onde se fartou de falar na «pobreza» e nas «preocupações» que sempre teve com a dita;
onde se fartou de elogiar o primeiro-ministro Cavaco Silva pelos «êxitos» do seu consulado - esquecendo-se, naturalmente, de referir que nesse tempo Portugal foi o País com maior índice de desemprego na Comunidade Europeia e que os 100 mil novos postos de trabalho por ele prometidos em campanha eleitoral se traduziram, no fim do mandato, em mais 100 mil desempregados, etc, etc, etc.
Ali ficámos a saber que o candidato Manuel Alegre, também esteve no distrito de Setúbal - «terras do PCP», sublinha o DN - onde afirmou que a sua candidatura «representa os valores progressistas e de Abril» - esquecendo-se, naturalmente, de referir que o seu partido, o PS, é desde há mais de três décadas o líder da contra-revolução que tudo tem feito para liquidar precisamente os valores progressistas e de Abril.
Ali ficámos a saber que os candidatos Fernando Nobre e Defensor Moura estiveram ontem não sei onde, disseram não sei o quê, e estarão hoje não sei onde.
Só do candidato Francisco Lopes nada ficámos a saber: nem onde esteve, nem o que disse, nem onde estará hoje.
E no entanto, Francisco Lopes esteve todo o dia precisamente no distrito de Setúbal: na Baixa da Banheira, em Sesimbra, na Moita, no Barreiro..., onde confirmou a singularidade da sua candidatura, o facto por demais relevante de, no conjunto das candidaturas em presença, ela ser, de facto, a única alternativa - e foi certamente por isso que o DN - obedecendo aos seus mui democráticos «critérios informativos» - silenciou a passagem de Francisco Lopes pelo distrito de Setúbal e destacou as passagens pelo mesmo distrito de Cavaco e Alegre...
Sobre onde vai estar Francisco Lopes nos próximos dias, o DN não disse, mas o Cravo de Abril informa:
O candidato de Abril e dos trabalhadores estará, hoje, às 15H30, no Porto - no grande comício do Palácio de Cristal: amanhã, novamente no distrito de Setúbal; terça-feira, em Lisboa; quarta-feira, no Algarve; quinta-feira, em Coimbra e em Leiria; sexta-feira, em Aveiro; sábado, em Beja e em Évora; domingo, às 16 horas, em Lisboa, no grande comício do Campo Pequeno.
POEMA
PESADELO
Há um terror de mãos na madrugada,
um rangido de porta, uma suspeita,
um grito perfurante como espada,
um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
um doente que rasga uma receita,
uma criança que chora sufocada,
um juramento que ninguém aceita,
uma esquina que salta de emboscada,
um riso negro, um braço que rejeita,
um resto de comida mastigada,
uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
doze provas mortais para vencer,
mas nasce o dia, e o dia recomponho:
tinha de ser, amor, tinha de ser.
José Saramago
Há um terror de mãos na madrugada,
um rangido de porta, uma suspeita,
um grito perfurante como espada,
um olho exorbitado que me espreita.
Há um fragor de fim e derrocada,
um doente que rasga uma receita,
uma criança que chora sufocada,
um juramento que ninguém aceita,
uma esquina que salta de emboscada,
um riso negro, um braço que rejeita,
um resto de comida mastigada,
uma mulher espancada que se deita.
Nove círculos de inferno teve o sonho,
doze provas mortais para vencer,
mas nasce o dia, e o dia recomponho:
tinha de ser, amor, tinha de ser.
José Saramago
«DECIDAM BEM»
«Decidam bem, punindo quem vos puniu, castigando quem vos castigou e apoiando quem vos apoia»: eis um apelo à inteligência, à sensibilidade, ao bom senso, à consciência dos eleitores.
Um apelo que é uma proposta aos que, no próximo dia 23, vão eleger o futuro Presidente da República: a proposta de utilizarem o seu voto em defesa dos seus próprios interesses.
É para isso, aliás - para que cada cidadão defenda, democraticamente, os seus interesses - que servem (deveriam servir...) as eleições.
É para isso que serve (deveria servir...) o voto de cada cidadão.
E é isso que define o conteúdo democrático de um acto eleitoral.
Vistas as coisas assim, nestas eleições presidenciais o apelo acima citado poderia (e deveria...) ser feito por qualquer dos candidatos - ou por qualquer apoiante de qualquer dos candidatos.
Mas não é.
E sabemos bem porquê.
Imaginam, por exemplo, Cavaco Silva ou Manuel Alegre (ou qualquer dos seus apoiantes) a dizer aos eleitores, como disse, ontem, Jerónimo de Sousa: «Decidam bem, punindo quem vos puniu, castigando quem vos castigou e apoiando quem vos apoia»?...
Na verdade, se qualquer deles fizesse tal apelo estaria a apelar ao voto em Francisco Lopes...
A confirmar que a candidatura de Francisco Lopes é a única que pode apelar à inteligência, à sensibilidade, ao bom senso, à consciência dos eleitores.
Porque é a única que pode dizer, dizendo a verdade, que nasceu da luta dos trabalhadores e do povo e que é parte integrante dessa luta.
Porque é a única que pode dizer, dizendo a verdade, que é patriótica e de esquerda.
Porque é a única que pode dizer, dizendo a verdade, que está vinculada aos valores de Abril.
Um apelo que é uma proposta aos que, no próximo dia 23, vão eleger o futuro Presidente da República: a proposta de utilizarem o seu voto em defesa dos seus próprios interesses.
É para isso, aliás - para que cada cidadão defenda, democraticamente, os seus interesses - que servem (deveriam servir...) as eleições.
É para isso que serve (deveria servir...) o voto de cada cidadão.
E é isso que define o conteúdo democrático de um acto eleitoral.
Vistas as coisas assim, nestas eleições presidenciais o apelo acima citado poderia (e deveria...) ser feito por qualquer dos candidatos - ou por qualquer apoiante de qualquer dos candidatos.
Mas não é.
E sabemos bem porquê.
Imaginam, por exemplo, Cavaco Silva ou Manuel Alegre (ou qualquer dos seus apoiantes) a dizer aos eleitores, como disse, ontem, Jerónimo de Sousa: «Decidam bem, punindo quem vos puniu, castigando quem vos castigou e apoiando quem vos apoia»?...
Na verdade, se qualquer deles fizesse tal apelo estaria a apelar ao voto em Francisco Lopes...
A confirmar que a candidatura de Francisco Lopes é a única que pode apelar à inteligência, à sensibilidade, ao bom senso, à consciência dos eleitores.
Porque é a única que pode dizer, dizendo a verdade, que nasceu da luta dos trabalhadores e do povo e que é parte integrante dessa luta.
Porque é a única que pode dizer, dizendo a verdade, que é patriótica e de esquerda.
Porque é a única que pode dizer, dizendo a verdade, que está vinculada aos valores de Abril.
POEMA
«NÃO ME PEÇAM RAZÕES...»
Não me peçam razões, que não as tenho,
ou darei quantas queiram: bem sabemos
que razões são palavras, todas nascem
da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
a força da maré que me enche o peito,
este estar mal no mundo e nesta lei:
não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
deste modo de amar e destruir:
quando a noite é de mais é que amanhece
a cor da primavera que há-de vir.
José Saramago
Não me peçam razões, que não as tenho,
ou darei quantas queiram: bem sabemos
que razões são palavras, todas nascem
da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
a força da maré que me enche o peito,
este estar mal no mundo e nesta lei:
não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
deste modo de amar e destruir:
quando a noite é de mais é que amanhece
a cor da primavera que há-de vir.
José Saramago
PR´Ó QUE ME HAVIA DE DAR!
P´ró que me havia de dar!: hoje dei comigo a pensar em resultados eleitorais.
E dei comigo a concluir que se «eles» não tivessem previamente assegurada a vitória de um candidato do sistema, não havia eleições.
E, palavra puxa palavra, dei comigo a dizer para mim mesmo que o «sistema» tem tudo previsto...
E com tudo isto veio à baila o estado da democracia em casa da senhora sua mãe.
O Congresso dos EUA - «pátria da democracia» - prepara-se para aprovar uma decisão no sentido de «a Venezuela ser incluída na lista dos países que patrocinam o terrorismo».
Porquê?: porque, segundo o autor da proposta (um congressista que dá pelo nome de Connie Mack), «o Governo da Venezuela mantém relações fraternas com Cuba».
Percebe-se: «relações fraternas», só por si, é expressão (e conceito) que os governantes dos EUA - «pátria da democracia» - desconhecem de todo; e «relações fraternas com Cuba» é coisa democraticamente intolerável, é crime grave a exigir severa punição democrática...
Está também em vias de aprovação, pelo mesmo Congresso da mesma «pátria da democracia», a decisão de pôr na lista negra do terrorismo todos os países que «os EUA considerem seus inimigos».
«Países inimigos» são, como é sabido, todos os que consideram que os interesses dos seus povos estão à frente dos interesses dos EUA...
Ora, um país que ponha em causa a vontade, os desejos, os interesses e as ordens da «pátria da democracia», não é um país: é um paiol de armas de destruição massiva, um coio de terroristas, que urge invadir, destruir e ocupar - a bem da democracia...
Entretanto, já está em vigor, segundo me dizem, a decisão que impede a entrada nos EUA - «pátria da democracia» - de qualquer indivíduo que, em qualquer parte do mundo, tenha tomado posições públicas (artigos, livros, intervenções) de defesa de «países que «patrocinam o terrorismo» ou que «os EUA consideram seus inimigos»...
(vou terminar o post: estão ali a bater à porta aos murros, aos pontapés... vou ver se consigo escapar pela janela...)
E dei comigo a concluir que se «eles» não tivessem previamente assegurada a vitória de um candidato do sistema, não havia eleições.
E, palavra puxa palavra, dei comigo a dizer para mim mesmo que o «sistema» tem tudo previsto...
E com tudo isto veio à baila o estado da democracia em casa da senhora sua mãe.
O Congresso dos EUA - «pátria da democracia» - prepara-se para aprovar uma decisão no sentido de «a Venezuela ser incluída na lista dos países que patrocinam o terrorismo».
Porquê?: porque, segundo o autor da proposta (um congressista que dá pelo nome de Connie Mack), «o Governo da Venezuela mantém relações fraternas com Cuba».
Percebe-se: «relações fraternas», só por si, é expressão (e conceito) que os governantes dos EUA - «pátria da democracia» - desconhecem de todo; e «relações fraternas com Cuba» é coisa democraticamente intolerável, é crime grave a exigir severa punição democrática...
Está também em vias de aprovação, pelo mesmo Congresso da mesma «pátria da democracia», a decisão de pôr na lista negra do terrorismo todos os países que «os EUA considerem seus inimigos».
«Países inimigos» são, como é sabido, todos os que consideram que os interesses dos seus povos estão à frente dos interesses dos EUA...
Ora, um país que ponha em causa a vontade, os desejos, os interesses e as ordens da «pátria da democracia», não é um país: é um paiol de armas de destruição massiva, um coio de terroristas, que urge invadir, destruir e ocupar - a bem da democracia...
Entretanto, já está em vigor, segundo me dizem, a decisão que impede a entrada nos EUA - «pátria da democracia» - de qualquer indivíduo que, em qualquer parte do mundo, tenha tomado posições públicas (artigos, livros, intervenções) de defesa de «países que «patrocinam o terrorismo» ou que «os EUA consideram seus inimigos»...
(vou terminar o post: estão ali a bater à porta aos murros, aos pontapés... vou ver se consigo escapar pela janela...)
POEMA
RECEITA
Tome-se um poeta não cansado,
uma nuvem de sonho e uma flor,
três gotas de tristeza, um tom dourado,
uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
deita-se a luz dum corpo de mulher,
duma pitada de morte se reforce,
que um amor de poeta assim requer.
José Saramago
Tome-se um poeta não cansado,
uma nuvem de sonho e uma flor,
três gotas de tristeza, um tom dourado,
uma veia sangrando de pavor.
Quando a massa já ferve e se retorce
deita-se a luz dum corpo de mulher,
duma pitada de morte se reforce,
que um amor de poeta assim requer.
José Saramago
OS PONTOS NOS IS...
Em relação a tudo o que é essencial - e de forma mais visível em relação ao PCP - os «politólogos» de serviço nos média do grande capital (ou nos «públicos» o que, para o caso é o mesmo) são ecos: ecos de si próprios e ecos uns dos outros...
Ler ou ouvir um, é ler ou ouvir todos - sejam eles da extrema direita, da direita, do centro ou da extrema esquerda - ou, até, independentes, como (quase) todos gostam de se intitular...
Assim, as «perguntas» que Judite de Sousa fez a Francisco Lopes, ontem, na «entrevista» (as aspas têm a ver com o facto daquilo mais parecer um interrogatório policial do que uma entrevista...) foram, em grande parte, repetições (acrescentadas da interrogação) do que os seus colegas «politólogos» têm vindo a escrever a propósito (ou a despropósito) do candidato comunista.
Um exemplo disso é o da «pergunta» sobre se a candidatura de Francisco Lopes é uma «prova de vida» para o PCP e para o próprio candidato - ao qual os referidos «politólogos» já decretaram a intenção oculta de vir a ser secretário-geral do PCP...
Se a memória me não falha, quem começou por pôr as coisas desse jeito foi o ex-esquerdista José António Lima (JAL), no Sol, logo que a candidatura de Francisco Lopes foi anunciada - candidatura que, segundo JAL, era «para desistir» porque «levar a votos» tal candidato - «com o seu perfil apagado e aparelhístico»... - seria «eleitoralmente suicidário para o PCP»...
E nessa mesma edição do Sol, um outro «politólogo» garantia que Francisco Lopes «está na calha para líder»...
De então para cá, foram vários os «politólogos» que pegaram no tema - cada um apresentando-o como se se tratasse de descoberta sua, como é uso entre eles.
A semana passada, o ex-comunista Daniel Oliveira (DO), no Expresso, sentenciou que «a votação em Francisco Lopes é determinante para o futuro dos comunistas», não hesitando em proclamar que «se o candidato não conseguir uma votação aproximada à do PCP, morre na praia» - e, embalado na «análise» necrológica, DO acrescentou (repetindo, sem citar, outros colegas «politólogos»): «E essa morte precoce pode ser trágica para os duros que, há dez anos, tomaram de assalto a Soeiro Pereira Gomes»...
(este DO se não provocasse asco metia dó...)
Ora foi tudo isto que esteve presente na tal «pergunta» de Judite de Sousa sobre a «prova de vida».
«Pergunta» à qual Francisco Lopes, pondo os pontos nos is, deu a resposta necessária - à Judite, ao JAL, ao DO e a toda a politóloga família.
Registe-se, entretanto, outro momento alto da notável prestação de Francisco Lopes, ontem.
A propósito do BPN, disse, outra vez pondo os pontos nos is:
«Há a responsabilidade de quem fez a fraude e há outra responsabilidade, que envolve Cavaco, o Governo PS e Alegre, de trazer para o erário público o prejuízo do BPN» - o que faz com que, tanto Cavaco como Alegre, queiram «desviar as atenções» dessa questão crucial.
Digam lá: que outro candidato poderia fazer tal afirmação?
Ler ou ouvir um, é ler ou ouvir todos - sejam eles da extrema direita, da direita, do centro ou da extrema esquerda - ou, até, independentes, como (quase) todos gostam de se intitular...
Assim, as «perguntas» que Judite de Sousa fez a Francisco Lopes, ontem, na «entrevista» (as aspas têm a ver com o facto daquilo mais parecer um interrogatório policial do que uma entrevista...) foram, em grande parte, repetições (acrescentadas da interrogação) do que os seus colegas «politólogos» têm vindo a escrever a propósito (ou a despropósito) do candidato comunista.
Um exemplo disso é o da «pergunta» sobre se a candidatura de Francisco Lopes é uma «prova de vida» para o PCP e para o próprio candidato - ao qual os referidos «politólogos» já decretaram a intenção oculta de vir a ser secretário-geral do PCP...
Se a memória me não falha, quem começou por pôr as coisas desse jeito foi o ex-esquerdista José António Lima (JAL), no Sol, logo que a candidatura de Francisco Lopes foi anunciada - candidatura que, segundo JAL, era «para desistir» porque «levar a votos» tal candidato - «com o seu perfil apagado e aparelhístico»... - seria «eleitoralmente suicidário para o PCP»...
E nessa mesma edição do Sol, um outro «politólogo» garantia que Francisco Lopes «está na calha para líder»...
De então para cá, foram vários os «politólogos» que pegaram no tema - cada um apresentando-o como se se tratasse de descoberta sua, como é uso entre eles.
A semana passada, o ex-comunista Daniel Oliveira (DO), no Expresso, sentenciou que «a votação em Francisco Lopes é determinante para o futuro dos comunistas», não hesitando em proclamar que «se o candidato não conseguir uma votação aproximada à do PCP, morre na praia» - e, embalado na «análise» necrológica, DO acrescentou (repetindo, sem citar, outros colegas «politólogos»): «E essa morte precoce pode ser trágica para os duros que, há dez anos, tomaram de assalto a Soeiro Pereira Gomes»...
(este DO se não provocasse asco metia dó...)
Ora foi tudo isto que esteve presente na tal «pergunta» de Judite de Sousa sobre a «prova de vida».
«Pergunta» à qual Francisco Lopes, pondo os pontos nos is, deu a resposta necessária - à Judite, ao JAL, ao DO e a toda a politóloga família.
Registe-se, entretanto, outro momento alto da notável prestação de Francisco Lopes, ontem.
A propósito do BPN, disse, outra vez pondo os pontos nos is:
«Há a responsabilidade de quem fez a fraude e há outra responsabilidade, que envolve Cavaco, o Governo PS e Alegre, de trazer para o erário público o prejuízo do BPN» - o que faz com que, tanto Cavaco como Alegre, queiram «desviar as atenções» dessa questão crucial.
Digam lá: que outro candidato poderia fazer tal afirmação?
POEMA
APRENDAMOS O RITO
Põe na mesa a toalha adamascada,
traz as rosas mais frescas do jardim,
deita o vinho no copo, corta o pão,
com a faca de prata e de marfim.
Alguém se veio sentar à tua mesa,
alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes:
nas perguntas que fazes é que mentes.
Prova depois o vinho, come o pão,
rasga a palma da mão no caule agudo,
leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
cumpriste o ritual e sabes tudo.
José Saramago
Põe na mesa a toalha adamascada,
traz as rosas mais frescas do jardim,
deita o vinho no copo, corta o pão,
com a faca de prata e de marfim.
Alguém se veio sentar à tua mesa,
alguém a quem não vês, mas que pressentes.
Cruza as mãos no regaço, não perguntes:
nas perguntas que fazes é que mentes.
Prova depois o vinho, come o pão,
rasga a palma da mão no caule agudo,
leva as rosas à fronte, cobre os olhos,
cumpriste o ritual e sabes tudo.
José Saramago
DE ALTO A BAIXO
A Igreja Católica anda em alvoroço - e não é caso para menos: João Paulo II vai ser beatificado.
FINALMENTE!
(O cardeal português José Saraiva Martins, especialista em beatificações, santificações & correlativos, não cabe em si de felicidade e alegria - e não é caso para menos: não se trata apenas de mais uma beatificação; trata-se, ele o diz, da beatificação do seu amigo do peito)
Porquê só agora João Paulo II é beatificado, sabendo-se, há tanto tempo, de tantas e tão poderosas razões para a beatificação?
Porque uma pessoa para ser beatificada precisa de ter feito um milagre - um milagre autenticado por quem de direito e que não deixe a mínima dúvida sobre a sua autenticidade.
Ora, João Paulo II fez, de facto, um milagre: tratou-se da «milagrosa cura de uma freira francesa, de 44 anos, que sofria de Parkinson».
Não sei bem como é que as coisas se passaram, mas não há-de ter andado longe disto: João Paulo, o Papa, passou, viu a freira a tremer de Parkinson, estendeu-lhe uma bênção e... pronto: levanta-te e caminha, que é como quem diz, toma e vai-te curar - e a freira assim fez.
(registe-se o facto notável de João Paulo II, sofrendo do mesmo mal, ter optado por curar a freira, certamente sabendo que só tinha um milagre em carteira)
Assim terão sido os factos, mas só agora - após aturadas investigações e averiguações e considerações - é que o milagre foi reconhecido como tal.
Por isso, João Paulo II merece a beatificação.
E não só por isso.
Na verdade há que premiar os esforços que o Santo Padre dedicou, durante todo o seu papado, na procura de milagres beatificadores: o homem correu mundo e pôs os seus homens de mão a correr mundo.
E os resultados estão à vista: no seu reinado, João Paulo II «beatificou 1 350 pessoas e canonizou 483 santos. Mais do que todos os seus antecessores nos últimos cinco séculos».
É OBRA!
Por tudo isso, como acima se disse, João Paulo II merece a beatificação.
Por mim, santificava-o, até.
Por tudo o que fez - e tanto foi: pela sua arrebatada e exuberante paixão por Maria; pelos casos de pedofilia que arquivou; pelos pedófilos que abrigou no seu seio; pela rédea toda que deu aos marcinkus/banqueiros de Deus, Lda.; pelos estímulos dados aos ambrosianos negócios e aos ambrosianos financiamentos a gente pia e a pias instituições, como Anastásio Somoza e o sindicato Solidariedade... - por tudo isso, e por muito mais que, por desnecessário, aqui se não diz, eu santificava-o bem santificado.
De alto a baixo.
(já agora, registe-se também o facto de a riquíssima experiência ambrosiana - com os seus riquíssimos negócios que tornaram riquíssima tanta gente: venda de empresas inexistentes, financiamentos de campanhas eleitorais, venda de acções pela porta do cavalo, compra das mesmas acções pela mesma porta do cavalo, mas pelo dobro do preço, etc, etc - ter servido de inspiração - divina, obviamente - a muita gente por esse mundo fora...)
FINALMENTE!
(O cardeal português José Saraiva Martins, especialista em beatificações, santificações & correlativos, não cabe em si de felicidade e alegria - e não é caso para menos: não se trata apenas de mais uma beatificação; trata-se, ele o diz, da beatificação do seu amigo do peito)
Porquê só agora João Paulo II é beatificado, sabendo-se, há tanto tempo, de tantas e tão poderosas razões para a beatificação?
Porque uma pessoa para ser beatificada precisa de ter feito um milagre - um milagre autenticado por quem de direito e que não deixe a mínima dúvida sobre a sua autenticidade.
Ora, João Paulo II fez, de facto, um milagre: tratou-se da «milagrosa cura de uma freira francesa, de 44 anos, que sofria de Parkinson».
Não sei bem como é que as coisas se passaram, mas não há-de ter andado longe disto: João Paulo, o Papa, passou, viu a freira a tremer de Parkinson, estendeu-lhe uma bênção e... pronto: levanta-te e caminha, que é como quem diz, toma e vai-te curar - e a freira assim fez.
(registe-se o facto notável de João Paulo II, sofrendo do mesmo mal, ter optado por curar a freira, certamente sabendo que só tinha um milagre em carteira)
Assim terão sido os factos, mas só agora - após aturadas investigações e averiguações e considerações - é que o milagre foi reconhecido como tal.
Por isso, João Paulo II merece a beatificação.
E não só por isso.
Na verdade há que premiar os esforços que o Santo Padre dedicou, durante todo o seu papado, na procura de milagres beatificadores: o homem correu mundo e pôs os seus homens de mão a correr mundo.
E os resultados estão à vista: no seu reinado, João Paulo II «beatificou 1 350 pessoas e canonizou 483 santos. Mais do que todos os seus antecessores nos últimos cinco séculos».
É OBRA!
Por tudo isso, como acima se disse, João Paulo II merece a beatificação.
Por mim, santificava-o, até.
Por tudo o que fez - e tanto foi: pela sua arrebatada e exuberante paixão por Maria; pelos casos de pedofilia que arquivou; pelos pedófilos que abrigou no seu seio; pela rédea toda que deu aos marcinkus/banqueiros de Deus, Lda.; pelos estímulos dados aos ambrosianos negócios e aos ambrosianos financiamentos a gente pia e a pias instituições, como Anastásio Somoza e o sindicato Solidariedade... - por tudo isso, e por muito mais que, por desnecessário, aqui se não diz, eu santificava-o bem santificado.
De alto a baixo.
(já agora, registe-se também o facto de a riquíssima experiência ambrosiana - com os seus riquíssimos negócios que tornaram riquíssima tanta gente: venda de empresas inexistentes, financiamentos de campanhas eleitorais, venda de acções pela porta do cavalo, compra das mesmas acções pela mesma porta do cavalo, mas pelo dobro do preço, etc, etc - ter servido de inspiração - divina, obviamente - a muita gente por esse mundo fora...)
POEMA
FALA DO VELHO DO RESTELO AO ASTRONAUTA
Aqui, na Terra, a fome continua,
a miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
e dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
e também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
de mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
as vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
onde come, brincando, só a fome,
só a fome, astronauta, só a fome,
e são brinquedos as bombas de napalme.
José Saramago
Aqui, na Terra, a fome continua,
a miséria, o luto, e outra vez a fome.
Acendemos cigarros em fogos de napalme
e dizemos amor sem saber o que seja.
Mas fizemos de ti a prova da riqueza,
e também da pobreza, e da fome outra vez.
E pusemos em ti sei lá bem que desejo
de mais alto que nós, e melhor e mais puro.
No jornal, de olhos tensos, soletramos
as vertigens do espaço e maravilhas:
Oceanos salgados que circundam
ilhas mortas de sede, onde não chove.
Mas o mundo, astronauta, é boa mesa
onde come, brincando, só a fome,
só a fome, astronauta, só a fome,
e são brinquedos as bombas de napalme.
José Saramago
A «INTEGRIDADE» É QUE ESTÁ A DAR
Nas eleições presidenciais, Cavaco Silva é o candidato do grande capital.
O grande capital é, também, proprietário dos média dominantes.
Logo, os média dominantes tratam Cavaco Silva como o candidato dos seus patrões.
É certo que qualquer dos restantes candidatos - à excepção de Francisco Lopes - podia ser o candidato do grande capital.
Mas nas circunstâncias actuais, e por razões óbvias, Cavaco foi o escolhido.
Os média, obedientes e diligentes, seguem à risca a voz do dono: para eles, Cavaco é, desde já, «o vencedor», e é «o mestre», e é «o professor» - é, enfim, «o maior».
E não importa se têm que mentir - e têm; se têm que desinformar - e têm; se têm que ocultar a verdade - e têm.
A «imagem» do «vencedor», do «mestre», do «professor» - enfim, do «maior», essa é que conta, essa é que é a «verdade»...
O caso do BPN perturbou Cavaco - e perturbou, por arrasto, os média.
Daí a azáfama em que andam, todos: uns, procurando riscar esse tema da agenda eleitoral; outros, mais ousados, procurando transformá-lo em factor favorável ao candidato Cavaco.
E para isso não olham a meios...
Assim, pela leitura dos jornais de hoje, fiquei a «saber» que «o caso BPN surgiu na campanha das presidenciais lançado, primeiro, por Defensor de Moura e, depois, por Manuel Alegre, nos debates televisivos com Cavaco Silva»...
Vejam bem!: julgava eu que fora Francisco Lopes o primeiro a colocar a questão e, por sinal, a pôr Cavaco KO...
Mas estava enganado, pronto: os «politólogos» dizem que não e os «politólogos» é que sabem...
E sobre as consequências do caso BPN nos resultados eleitorais?
Sobre isso, os «politólogos» dizem, em coro afinado, que o caso «não tira votos a Cavaco».
Porquê?
Os «politólogos» explicam:
em primeiro lugar, porque «o tema BPN é demasiado técnico».
Claro que é: imagine-se a técnica a que os favoritos de Cavaco tiveram que recorrer para concretizar todas aquelas fraudes, vigarices, golpes e golpaças!...
em segundo lugar, porque «o caso BPN não põe em causa a integridade do Presidente da República».
Claro que não: quer o estreito e amigável relacionamento do PR com os autores da fraude, quer o negócio das (boas) acções da SLN, não só não põem em causa como atestam abundantemente a «integridade» do PR...
Ou seja, e como muito bem dizem os «politólogos»: a «integridade» é que está a dar...
Para eles, «politólogos», e para o candidato dos patrões deles.
O grande capital é, também, proprietário dos média dominantes.
Logo, os média dominantes tratam Cavaco Silva como o candidato dos seus patrões.
É certo que qualquer dos restantes candidatos - à excepção de Francisco Lopes - podia ser o candidato do grande capital.
Mas nas circunstâncias actuais, e por razões óbvias, Cavaco foi o escolhido.
Os média, obedientes e diligentes, seguem à risca a voz do dono: para eles, Cavaco é, desde já, «o vencedor», e é «o mestre», e é «o professor» - é, enfim, «o maior».
E não importa se têm que mentir - e têm; se têm que desinformar - e têm; se têm que ocultar a verdade - e têm.
A «imagem» do «vencedor», do «mestre», do «professor» - enfim, do «maior», essa é que conta, essa é que é a «verdade»...
O caso do BPN perturbou Cavaco - e perturbou, por arrasto, os média.
Daí a azáfama em que andam, todos: uns, procurando riscar esse tema da agenda eleitoral; outros, mais ousados, procurando transformá-lo em factor favorável ao candidato Cavaco.
E para isso não olham a meios...
Assim, pela leitura dos jornais de hoje, fiquei a «saber» que «o caso BPN surgiu na campanha das presidenciais lançado, primeiro, por Defensor de Moura e, depois, por Manuel Alegre, nos debates televisivos com Cavaco Silva»...
Vejam bem!: julgava eu que fora Francisco Lopes o primeiro a colocar a questão e, por sinal, a pôr Cavaco KO...
Mas estava enganado, pronto: os «politólogos» dizem que não e os «politólogos» é que sabem...
E sobre as consequências do caso BPN nos resultados eleitorais?
Sobre isso, os «politólogos» dizem, em coro afinado, que o caso «não tira votos a Cavaco».
Porquê?
Os «politólogos» explicam:
em primeiro lugar, porque «o tema BPN é demasiado técnico».
Claro que é: imagine-se a técnica a que os favoritos de Cavaco tiveram que recorrer para concretizar todas aquelas fraudes, vigarices, golpes e golpaças!...
em segundo lugar, porque «o caso BPN não põe em causa a integridade do Presidente da República».
Claro que não: quer o estreito e amigável relacionamento do PR com os autores da fraude, quer o negócio das (boas) acções da SLN, não só não põem em causa como atestam abundantemente a «integridade» do PR...
Ou seja, e como muito bem dizem os «politólogos»: a «integridade» é que está a dar...
Para eles, «politólogos», e para o candidato dos patrões deles.
POEMA
OUVINDO BEETHOVEN
Venham leis e homens de balanças,
mandamentos daquém e dalém mundo,
venham ordens, decretos e vinganças,
desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
para sujar nas fichas dos arquivos,
não respeitem mistérios nem segredos,
que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta,
não aceitem nem votem outra arte
que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de cair em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.
José Saramago
Venham leis e homens de balanças,
mandamentos daquém e dalém mundo,
venham ordens, decretos e vinganças,
desça o juiz em nós até ao fundo.
Nos cruzamentos todos da cidade,
brilhe, vermelha, a luz inquisidora,
risquem no chão os dentes da vaidade
e mandem que os lavemos a vassoura.
A quantas mãos existam, peçam dedos,
para sujar nas fichas dos arquivos,
não respeitem mistérios nem segredos,
que é natural nos homens serem esquivos.
Ponham livros de ponto em toda a parte,
relógios a marcar a hora exacta,
não aceitem nem votem outra arte
que a prosa de registo, o verso data.
Mas quando nos julgarem bem seguros,
cercados de bastões e fortalezas,
hão-de cair em estrondo os altos muros
e chegará o dia das surpresas.
José Saramago
LUTAR SEMPRE
Na última semana de Dezembro, o Governo grego fez passar no Parlamento um orçamento que constitui um novo e brutal ataque contra salários e direitos dos trabalhadores.
As medidas contidas nesse orçamento correspondem a condições exigidas pela União Europeia e pelo FMI para desbloquear uma «ajuda» de 110 mil milhões de euros.
Isto é: lá como cá, quem paga as «ajudas» - que o mesmo é dizer: quem paga a «crise»... - são os trabalhadores.
Quanto aos responsáveis pela «crise», esses vão fornecendo «ajudas» - «ajudas» que, engordando-os a eles, vão provocar mais desemprego, mais exploração, mais miséria.
É assim o capitalismo: lá como cá - como em qualquer país onde ele domine.
Este orçamento da Grécia, surge após um ano marcado por fortíssimas lutas levadas a cabo pelos trabalhadores gregos - entre elas as históricas 14 greves gerais.
Quer isto dizer que «não vale a pena lutar»?
Não: isso é o que propalam os ideólogos do capitalismo, assim procurando desanimar e desmotivar os trabalhadores; levá-los a descrer nas suas capacidades de resistência e de luta; torná-los espectadores passivos (gratos, até...) da exploração a que são submetidos; convencê-los de que não há alternativa à exploração e à opressão capitalistas, que o capitalismo dominante é o «fim da história», que o socialismo e o comunismo estão «definitivamente mortos e enterrados»...
Ora, o que as lutas dos trabalhadores gregos (como as dos trabalhadores portugueses, franceses, espanhóis, etc. - em cada caso específico de acordo com muito específicas condições concretas) mostram claramente é que não só vale a pena como é indispensável lutar.
E que a luta - caminho necessário para fazer frente à política de direita e às suas consequências - é caminho certo para o futuro, se tiver sempre o socialismo e o comunismo no horizonte.
Lutar sempre!
Com a consciência das enormes, das gigantescas dificuldades da luta.
Com a consciência de que, por vezes, somos derrotados.
Com a consciência de que, muitas vezes, os resultados da luta não são imediatamente visíveis.
Com a consciência de que cada luta, seja qual for o seu resultado imediato, é uma semente das lutas do futuro.
Com a consciência de que quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre.
As medidas contidas nesse orçamento correspondem a condições exigidas pela União Europeia e pelo FMI para desbloquear uma «ajuda» de 110 mil milhões de euros.
Isto é: lá como cá, quem paga as «ajudas» - que o mesmo é dizer: quem paga a «crise»... - são os trabalhadores.
Quanto aos responsáveis pela «crise», esses vão fornecendo «ajudas» - «ajudas» que, engordando-os a eles, vão provocar mais desemprego, mais exploração, mais miséria.
É assim o capitalismo: lá como cá - como em qualquer país onde ele domine.
Este orçamento da Grécia, surge após um ano marcado por fortíssimas lutas levadas a cabo pelos trabalhadores gregos - entre elas as históricas 14 greves gerais.
Quer isto dizer que «não vale a pena lutar»?
Não: isso é o que propalam os ideólogos do capitalismo, assim procurando desanimar e desmotivar os trabalhadores; levá-los a descrer nas suas capacidades de resistência e de luta; torná-los espectadores passivos (gratos, até...) da exploração a que são submetidos; convencê-los de que não há alternativa à exploração e à opressão capitalistas, que o capitalismo dominante é o «fim da história», que o socialismo e o comunismo estão «definitivamente mortos e enterrados»...
Ora, o que as lutas dos trabalhadores gregos (como as dos trabalhadores portugueses, franceses, espanhóis, etc. - em cada caso específico de acordo com muito específicas condições concretas) mostram claramente é que não só vale a pena como é indispensável lutar.
E que a luta - caminho necessário para fazer frente à política de direita e às suas consequências - é caminho certo para o futuro, se tiver sempre o socialismo e o comunismo no horizonte.
Lutar sempre!
Com a consciência das enormes, das gigantescas dificuldades da luta.
Com a consciência de que, por vezes, somos derrotados.
Com a consciência de que, muitas vezes, os resultados da luta não são imediatamente visíveis.
Com a consciência de que cada luta, seja qual for o seu resultado imediato, é uma semente das lutas do futuro.
Com a consciência de que quem luta nem sempre ganha, mas quem não luta perde sempre.
POEMA
SALMO 136
Nem por abandonadas se calavam
as harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
o vento de Sião, nas cordas tensas,
a música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
na lembrança Sião e no futuro,
até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
mais do que os corpos, as almas e as vontades,
que nem sentimos já o ferro duro,
se do que fomos deixarem as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.
José Saramago
Nem por abandonadas se calavam
as harpas dos salgueiros penduradas.
Se os dedos dos hebreus as não tocavam,
o vento de Sião, nas cordas tensas,
a música da memória repetia.
Mas nesta Babilónia em que vivemos,
na lembrança Sião e no futuro,
até o vento calou a melodia.
Tão rasos consentimos nos pusessem,
mais do que os corpos, as almas e as vontades,
que nem sentimos já o ferro duro,
se do que fomos deixarem as vaidades.
Têm os povos as músicas que merecem.
José Saramago
ENTREGUES AOS BICHOS?
Diz a notícia que o Governo dos EUA vai ter acesso aos dados pessoais de todos nós, cidadãos portugueses - e não só: o Governo dos EUA, como super-polícia que é, quer fichar todos os cidadãos de todos os países do mundo...
Esta pretensão do boss insere-se na chamada « luta contra o terrorismo» - expressão que, como é sabido, foi inventada pelos EUA, com dois objectivos essenciais: justificar a política criminosa do imperialismo norte-americano visando o domínio do planeta; e
esconder que os EUA são, de facto, o principal centro do terrorismo internacional.
Diz ainda a notícia que, «para já, Portugal disse que sim»...
Isto é: o Governo português disse que sim.
O que não surpreende: se o Governo dos EUA (seja ele Bush ou Obama) manda... o Governo português (seja ele PS ou PSD) obedece...
E pronto: «o acordo com o Governo português está feito e só falta ser ratificado na Assembleia da República»- sendo de prever que, a curto prazo, a história da vida de cada um de nós fique na posse do mais perigoso e poderoso bando de criminosos alguma vez existente.
Em nome da «luta contra o terrorismo», o Governo de Sócrates entregará ao FBI as «bases de dados biométricas e biográficas dos portugueses que constam no Arquivo de identificação Civil e Criminal»- e o Governo dos EUA pode, se assim o entender, «entregar os dados portugueses a outros países»...
Isto para começar, porque, segundo as autoridades norte-americanas, o projecto visa «prevenir e lidar com o terrorismo internacional e deve abranger a cooperação na identificação atempada de indivíduos conhecidos por estarem, ou terem estado, envolvidos em actividades que sejam consideradas terroristas» - e, como mandam as regras do mando arrogante e da obediência canina, é ao boss que compete definir o que são «actividades terroristas»...
Estamos, então, entregues aos bichos?...
Estaremos... até que, num sobressalto de dignidade e de brio patriótico, o povo e os trabalhadores portugueses, corram de vez com a cambada que há 34 anos vem afundando Portugal e depositando a independência e a soberania nacionais nas garras do imperialismo norte-americano e da sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia.
Esta pretensão do boss insere-se na chamada « luta contra o terrorismo» - expressão que, como é sabido, foi inventada pelos EUA, com dois objectivos essenciais: justificar a política criminosa do imperialismo norte-americano visando o domínio do planeta; e
esconder que os EUA são, de facto, o principal centro do terrorismo internacional.
Diz ainda a notícia que, «para já, Portugal disse que sim»...
Isto é: o Governo português disse que sim.
O que não surpreende: se o Governo dos EUA (seja ele Bush ou Obama) manda... o Governo português (seja ele PS ou PSD) obedece...
E pronto: «o acordo com o Governo português está feito e só falta ser ratificado na Assembleia da República»- sendo de prever que, a curto prazo, a história da vida de cada um de nós fique na posse do mais perigoso e poderoso bando de criminosos alguma vez existente.
Em nome da «luta contra o terrorismo», o Governo de Sócrates entregará ao FBI as «bases de dados biométricas e biográficas dos portugueses que constam no Arquivo de identificação Civil e Criminal»- e o Governo dos EUA pode, se assim o entender, «entregar os dados portugueses a outros países»...
Isto para começar, porque, segundo as autoridades norte-americanas, o projecto visa «prevenir e lidar com o terrorismo internacional e deve abranger a cooperação na identificação atempada de indivíduos conhecidos por estarem, ou terem estado, envolvidos em actividades que sejam consideradas terroristas» - e, como mandam as regras do mando arrogante e da obediência canina, é ao boss que compete definir o que são «actividades terroristas»...
Estamos, então, entregues aos bichos?...
Estaremos... até que, num sobressalto de dignidade e de brio patriótico, o povo e os trabalhadores portugueses, corram de vez com a cambada que há 34 anos vem afundando Portugal e depositando a independência e a soberania nacionais nas garras do imperialismo norte-americano e da sua sucursal que dá pelo nome de União Europeia.
POEMA
«HÁ-DE HAVER...»
Há-de haver uma cor por descobrir,
um juntar de palavras escondido,
há-de haver uma chave para abrir
a porta deste muro desmedido.
Há-de haver uma ilha mais ao sul,
uma corda mais tensa e ressoante,
outro mar que nade noutro azul,
outra altura de voz que melhor cante.
Poesia tardia que não chegas
a dizer nem metade do que sabes:
não calas, quanto podes, nem renegas
este corpo de acaso em que não cabes.
José Saramago
Há-de haver uma cor por descobrir,
um juntar de palavras escondido,
há-de haver uma chave para abrir
a porta deste muro desmedido.
Há-de haver uma ilha mais ao sul,
uma corda mais tensa e ressoante,
outro mar que nade noutro azul,
outra altura de voz que melhor cante.
Poesia tardia que não chegas
a dizer nem metade do que sabes:
não calas, quanto podes, nem renegas
este corpo de acaso em que não cabes.
José Saramago
UM ANO NOVO
Há uma semana, na sua «mensagem de Natal», Sócrates anunciou, triunfante:
«Nos últimos dias, negociámos com os parceiros sociais os termos do aumento do salário mínimo nacional para os 500 euros no próximo ano».
Quem não soubesse que «negociação» foi essa e que «parceiros sociais» foram esses, ficaria pensar que hoje, dia 1 de Janeiro de 2011, o salário mínimo nacional passaria de 475 para 500 euros - como, aliás, fora previamente acordado.
Mentira: Sócrates e os seus «parceiros sociais» - para o caso, os patrões e a UGT - acharam que um aumento de 25 euros/mês, 80 cêntimos/dia, era demais...
E decidiram que, para já, o «aumento» seria de 10 euros/mês... 33 cêntimos/dia.
Assim, os cerca de 600 mil trabalhadores abrangidos pelo salário mínimo nacional, passarão a receber ao fim do mês, feitos os descontos, cerca de 404 euros: um rendimento que os coloca abaixo do limiar da pobreza - sendo que os aumentos dos bens essenciais, todos muito acima do aumento do salário e todos em vigor desde hoje, os vão enterrar bem para lá do limiar do pobreza: na miséria e na fome.
Ora, de um país onde o salário mínimo nacional é inferior ao limiar da pobreza, há que dizer que é um país onde os governantes - que são os mesmos há 34 anos - vêem a miséria e a fome como «direitos humanos»... e onde, portanto, a democracia entrou em estado de acelerada putrefacção.
E dar a volta a isto é a grande tarefa que se coloca aos trabalhadores e ao povo português no ano hoje iniciado - para que ele seja, de facto, um ano novo.
«Nos últimos dias, negociámos com os parceiros sociais os termos do aumento do salário mínimo nacional para os 500 euros no próximo ano».
Quem não soubesse que «negociação» foi essa e que «parceiros sociais» foram esses, ficaria pensar que hoje, dia 1 de Janeiro de 2011, o salário mínimo nacional passaria de 475 para 500 euros - como, aliás, fora previamente acordado.
Mentira: Sócrates e os seus «parceiros sociais» - para o caso, os patrões e a UGT - acharam que um aumento de 25 euros/mês, 80 cêntimos/dia, era demais...
E decidiram que, para já, o «aumento» seria de 10 euros/mês... 33 cêntimos/dia.
Assim, os cerca de 600 mil trabalhadores abrangidos pelo salário mínimo nacional, passarão a receber ao fim do mês, feitos os descontos, cerca de 404 euros: um rendimento que os coloca abaixo do limiar da pobreza - sendo que os aumentos dos bens essenciais, todos muito acima do aumento do salário e todos em vigor desde hoje, os vão enterrar bem para lá do limiar do pobreza: na miséria e na fome.
Ora, de um país onde o salário mínimo nacional é inferior ao limiar da pobreza, há que dizer que é um país onde os governantes - que são os mesmos há 34 anos - vêem a miséria e a fome como «direitos humanos»... e onde, portanto, a democracia entrou em estado de acelerada putrefacção.
E dar a volta a isto é a grande tarefa que se coloca aos trabalhadores e ao povo português no ano hoje iniciado - para que ele seja, de facto, um ano novo.
POEMA
PORTUGAL, CRAVO VERMELHO
Em vinte e cinco de Abril,
em Portugal, de repente,
no ermo da madrugada,
floriram cravos vermelhos.
Já quarenta e oito anos
a treva nos tinha cegos,
quando da treva rasgada
floriram cravos vermelhos.
Veio a manhã que tardava.
Estava a longa noite finda.
Num rumor de asas de pombas,
floriram cravos vermelhos.
Desde os peitos dos soldados
aos peitos dos marinheiros,
nas próprias metralhadoras,
floriram cravos vermelhos.
Mal rompeu o dia novo,
logo por ruas e praças,
das cidades às aldeias,
floriram cravos vermelhos.
Quer nas mãos dos operários,
quer nas mãos dos camponeses,
no tempo de um pensamento,
floriram cravos vermelhos.
Nos olhos baços dos velhos,
na gralhada das crianças,
no enlevo das mulheres,
floriram cravos vermelhos.
Nas páginas dos escritores,
na atenção dos estudantes,
nas comoções da razão,
floriram cravos vermelhos.
Era um povo renascido
da morte em que estava morto,
em cujos gestos e gritos
floriram cravos vermelhos.
No sol, na lua, no vento,
nas searas, nos montados,
nos olivais, nas charnecas,
floriram cravos vermelhos.
Na voz das fontes e rios,
nas ondas do mar amigo,
nas penedias dos montes,
floriram cravos vermelhos.
No pão, no vinho, nos frutos,
de sangue e suor nutridos,
mais na fome e sede deles,
floriram cravos vermelhos.
No azul do céu profundo,
no branco leve das nuvens,
no canto alegre das aves,
floriram cravos vermelhos.
Na sombra vil das prisões
abertas de par em par,
dos irmãos delas libertos,
floriram cravos vermelhos.
Mas no Primeiro de Maio,
foi que, em todo Portugal,
Portugal todo floriu
num mesmo cravo vermelho.
Armindo Rodrigues
(Termina aqui o ciclo de poesia dedicado a Armindo Rodrigues. O próximo poeta será José Saramago)
Em vinte e cinco de Abril,
em Portugal, de repente,
no ermo da madrugada,
floriram cravos vermelhos.
Já quarenta e oito anos
a treva nos tinha cegos,
quando da treva rasgada
floriram cravos vermelhos.
Veio a manhã que tardava.
Estava a longa noite finda.
Num rumor de asas de pombas,
floriram cravos vermelhos.
Desde os peitos dos soldados
aos peitos dos marinheiros,
nas próprias metralhadoras,
floriram cravos vermelhos.
Mal rompeu o dia novo,
logo por ruas e praças,
das cidades às aldeias,
floriram cravos vermelhos.
Quer nas mãos dos operários,
quer nas mãos dos camponeses,
no tempo de um pensamento,
floriram cravos vermelhos.
Nos olhos baços dos velhos,
na gralhada das crianças,
no enlevo das mulheres,
floriram cravos vermelhos.
Nas páginas dos escritores,
na atenção dos estudantes,
nas comoções da razão,
floriram cravos vermelhos.
Era um povo renascido
da morte em que estava morto,
em cujos gestos e gritos
floriram cravos vermelhos.
No sol, na lua, no vento,
nas searas, nos montados,
nos olivais, nas charnecas,
floriram cravos vermelhos.
Na voz das fontes e rios,
nas ondas do mar amigo,
nas penedias dos montes,
floriram cravos vermelhos.
No pão, no vinho, nos frutos,
de sangue e suor nutridos,
mais na fome e sede deles,
floriram cravos vermelhos.
No azul do céu profundo,
no branco leve das nuvens,
no canto alegre das aves,
floriram cravos vermelhos.
Na sombra vil das prisões
abertas de par em par,
dos irmãos delas libertos,
floriram cravos vermelhos.
Mas no Primeiro de Maio,
foi que, em todo Portugal,
Portugal todo floriu
num mesmo cravo vermelho.
Armindo Rodrigues
(Termina aqui o ciclo de poesia dedicado a Armindo Rodrigues. O próximo poeta será José Saramago)
MILITANTES DA ESPERANÇA
Todos os anos, nos últimos dias do ano, os jornais relembram acontecimentos, ocorrências e pessoas que, de acordo com os critérios de cada jornal, marcaram os doze meses passados.
Lá vem, todos os anos, a lembrança das (dez) tragédias ocorridas, dos (dez) feitos desportivos mais relevantes, dos (dez) mais assombrosos fenómenos acontecidos, tudo...
Tudo, excepto as lutas dos trabalhadores, obviamente.
Essas são para esquecer: assim mandam os donos dos jornais e assim obedecem os que, nos jornais, são a voz dos donos.
O Diário de Notícias de hoje destaca «dez personalidades que, este ano, disseram adeus».
Personalidades (quase) todas respeitáveis - ou, pelo menos, (quase) todas não desrespeitáveis.
Entre os «dez» está, naturalmente, o Nobel do nosso contentamento - e registe-se, positivamente, o facto de o DN não se ter esquecido de referir que «José Saramago foi militante do PCP desde 1969».
Por mim, se tivesses que escolher «dez», também não hesitaria em Saramago - o nosso Nobel Levantado do Chão.
E optaria, também, como fez o DN, por Rosa Coutinho - ao qual acrescentaria, no entanto, outro militar de Abril: Costa Martins.
Mas lembro-me de outros que a morte me (nos) roubou neste ano de 2010.
Outros que, não sendo «personalidades» para os média dominantes, marcaram o tempo que viveram com o seu exemplo de fraterna coragem, de solidária dignidade, de inquebrantável verticalidade.
No poema de Armindo Rodrigues que antecede este post, o Poeta faz o julgamento do monstro salazarento que durante quatro décadas oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses - e recorda esse tempo sombrio, «os dias tristes/de miséria e cobardia/ apenas iluminados/pela teimosia heróica/dos militantes da esperança/ousados e clandestinos».
São três desses «militantes da esperança», este ano desaparecidos do nosso convívio, que o Cravo de Abril hoje recorda:
SOFIA FERREIRA, ANTÓNIO DIAS LOURENÇO E JOAQUIM GOMES.
Personalidades maiores da nossa história colectiva, pelo seu exemplo de coragem, de dignidade, de entrega total à luta pela liberdade, pela justiça social, pela paz, pelo socialismo, pelo comunismo.
Para eles o nosso imenso adeus.
Lá vem, todos os anos, a lembrança das (dez) tragédias ocorridas, dos (dez) feitos desportivos mais relevantes, dos (dez) mais assombrosos fenómenos acontecidos, tudo...
Tudo, excepto as lutas dos trabalhadores, obviamente.
Essas são para esquecer: assim mandam os donos dos jornais e assim obedecem os que, nos jornais, são a voz dos donos.
O Diário de Notícias de hoje destaca «dez personalidades que, este ano, disseram adeus».
Personalidades (quase) todas respeitáveis - ou, pelo menos, (quase) todas não desrespeitáveis.
Entre os «dez» está, naturalmente, o Nobel do nosso contentamento - e registe-se, positivamente, o facto de o DN não se ter esquecido de referir que «José Saramago foi militante do PCP desde 1969».
Por mim, se tivesses que escolher «dez», também não hesitaria em Saramago - o nosso Nobel Levantado do Chão.
E optaria, também, como fez o DN, por Rosa Coutinho - ao qual acrescentaria, no entanto, outro militar de Abril: Costa Martins.
Mas lembro-me de outros que a morte me (nos) roubou neste ano de 2010.
Outros que, não sendo «personalidades» para os média dominantes, marcaram o tempo que viveram com o seu exemplo de fraterna coragem, de solidária dignidade, de inquebrantável verticalidade.
No poema de Armindo Rodrigues que antecede este post, o Poeta faz o julgamento do monstro salazarento que durante quatro décadas oprimiu e reprimiu Portugal e os portugueses - e recorda esse tempo sombrio, «os dias tristes/de miséria e cobardia/ apenas iluminados/pela teimosia heróica/dos militantes da esperança/ousados e clandestinos».
São três desses «militantes da esperança», este ano desaparecidos do nosso convívio, que o Cravo de Abril hoje recorda:
SOFIA FERREIRA, ANTÓNIO DIAS LOURENÇO E JOAQUIM GOMES.
Personalidades maiores da nossa história colectiva, pelo seu exemplo de coragem, de dignidade, de entrega total à luta pela liberdade, pela justiça social, pela paz, pelo socialismo, pelo comunismo.
Para eles o nosso imenso adeus.
POEMA
O MONSTRO JULGADO
Desenterremos o monstro
e, mesmo morto, o julguemos.
Mais nojento o foi em vida.
Mais nojento o foi em vida,
com as suas falas mansas,
os seus melífluos gestos,
o seu perfil de navalha,
o seu sonho imperial.
Julguemo-lo pela vergonha
com que nos enlameou.
Julguemo-lo pelos ladrões
que à sua sombra roubaram.
Pois roubaram, prestem contas.
Pois roubaram prestem contas.
Julguemo-lo pelos bandidos
que mataram a seu soldo.
Pois mataram, não mais tenham
ocasião de matar.
Erguei-vos, assassinados,
para o frio julgamento,
em que é forçoso que soe
a vossa condenação.
Julguemo-lo pelos assaltos
às nossas casas quietas,
às horas do nosso sono
merecido e sem remorso.
Julguemo-lo pela traição
que a nós próprios nos impunha
de nos pautarmos por ele,
sob pena de punição.
Julguemo-lo pela suspeita
a que nos habituou
de em tudo espreitarem perigos,
de todos serem espiões.
Julguemo-lo pela incerteza
de cada dia futuro,
no curso dos dias tristes
de miséria e cobardia,
apenas iluminados
pela teimosia heróica
dos militantes da esperança,
ousados e clandestinos.
Julguemo-lo pelas torturas
dos seus carrascos cruéis,
os seus juízes submissos,
os seus campos de concentração.
Julguemo-lo pela maldade.
Julguemo-lo pela frieza.
Julguemo-lo pela mentira,
sua única paixão.
Julguemo-lo pela fé falsa
de antigo seminarista,
com que aos fiéis iludidos
iludia a boa fé.
Julguemo-lo pela herança
de abandono e esgotamento
em que nos deixou os campos,
em que nos deixou as fábricas,
em que nos deixou a pródiga
e vasta leira do mar,
a que nos levou as escolas,
cuja cultura tolheu,
vazias de camponeses,
operários, pescadores,
professores e alunos,
que obrigou a emigrar.
Julguemo-lo pelo cuidado
de guarda-livros mesquinho,
com que serviu os interesses
só da grande burguesia,
a nação espezinhando
com os seus pés descomunais.
Julguemo-lo pela perfídia.
Julguemo-lo pela vaidade.
Julguemo-lo pelos palhaços
que escolheu para ministros,
que nomeou deputados,
que de pobres tornou ricos,
e diante dele tremiam,
e lhe lambiam o cu.
Para sempre o apaguemos
de nosso compatriota,
e até de homem simplesmente,
visto que nunca homem foi.
Armindo Rodrigues
Desenterremos o monstro
e, mesmo morto, o julguemos.
Mais nojento o foi em vida.
Mais nojento o foi em vida,
com as suas falas mansas,
os seus melífluos gestos,
o seu perfil de navalha,
o seu sonho imperial.
Julguemo-lo pela vergonha
com que nos enlameou.
Julguemo-lo pelos ladrões
que à sua sombra roubaram.
Pois roubaram, prestem contas.
Pois roubaram prestem contas.
Julguemo-lo pelos bandidos
que mataram a seu soldo.
Pois mataram, não mais tenham
ocasião de matar.
Erguei-vos, assassinados,
para o frio julgamento,
em que é forçoso que soe
a vossa condenação.
Julguemo-lo pelos assaltos
às nossas casas quietas,
às horas do nosso sono
merecido e sem remorso.
Julguemo-lo pela traição
que a nós próprios nos impunha
de nos pautarmos por ele,
sob pena de punição.
Julguemo-lo pela suspeita
a que nos habituou
de em tudo espreitarem perigos,
de todos serem espiões.
Julguemo-lo pela incerteza
de cada dia futuro,
no curso dos dias tristes
de miséria e cobardia,
apenas iluminados
pela teimosia heróica
dos militantes da esperança,
ousados e clandestinos.
Julguemo-lo pelas torturas
dos seus carrascos cruéis,
os seus juízes submissos,
os seus campos de concentração.
Julguemo-lo pela maldade.
Julguemo-lo pela frieza.
Julguemo-lo pela mentira,
sua única paixão.
Julguemo-lo pela fé falsa
de antigo seminarista,
com que aos fiéis iludidos
iludia a boa fé.
Julguemo-lo pela herança
de abandono e esgotamento
em que nos deixou os campos,
em que nos deixou as fábricas,
em que nos deixou a pródiga
e vasta leira do mar,
a que nos levou as escolas,
cuja cultura tolheu,
vazias de camponeses,
operários, pescadores,
professores e alunos,
que obrigou a emigrar.
Julguemo-lo pelo cuidado
de guarda-livros mesquinho,
com que serviu os interesses
só da grande burguesia,
a nação espezinhando
com os seus pés descomunais.
Julguemo-lo pela perfídia.
Julguemo-lo pela vaidade.
Julguemo-lo pelos palhaços
que escolheu para ministros,
que nomeou deputados,
que de pobres tornou ricos,
e diante dele tremiam,
e lhe lambiam o cu.
Para sempre o apaguemos
de nosso compatriota,
e até de homem simplesmente,
visto que nunca homem foi.
Armindo Rodrigues
DIREITOS QUÊ?
Enquanto, na Colômbia, foi descoberta mais uma vala comum, nas Honduras a violação dos direitos humanos continua a ser a imagem de marca do governo fascista.
A nova vala comum agora descoberta situa-se no departamento de Meta e contém mais de 1 500 corpos de «falsos positivos» - assim são designados os jovens que o governo colombiano apresenta como «combatentes das FARC abatidos em combate», mas que, na realidade, são jovens recrutados pelo exército com promessas de trabalho e a seguir executados e enterrados nessas valas.
(Como o Cravo de Abril já denunciou, neste mesmo departamento de Meta, foram descobertos, há um ano, 2 000 cadáveres naquela que é, tanto quanto se sabe, a maior vale comum do continente americano).
Comentando a mais recente descoberta, um dos advogados das vítimas e familiares, resumiu assim a situação:
«A Colômbia pode ser uma gigantesca vala comum. O exército colombiano converteu-se num autêntico exército ocupante contra o seu próprio povo».
A Colômbia é, como se sabe, a menina dos olhos do governo de Obama no continente: um modelo de democracia, de liberdade, de respeito pelos direitos humanos...
A situação nas Honduras após o golpe organizado pelo governo dos EUA e por fascistas hondurenhos, tem sido, também, tema frequentemente abordado no Cravo de Abril.
Registe-se, então, que a violenta repressão desencadeada pelo governo fascista contra os trabalhadores e o povo hondurenhos - e que a Frente Nacional de Resistência Popular tem corajosamente denunciado - foi agora confirmada por um grupo de representantes de 28 organizações suíças, alemãs e austríacas.
E, já agora, registe-se também o Programa de Apoio da União Europeia ao governo fascista das Honduras - o Programa Paz!...
Esse Apoio - no valor de 44 milhões de euros - é toda ele canalizado para a Defesa, a Administração Interna e o Supremo Tribunal de Justiça - ou seja: para o aparelho repressivo, com o qual o governo golpista leva por diante a brutal ofensiva de violação dos direitos humanos.
Que dizer destes direitos humanos made in USA /UE feitos de repressão, de crime, de valas comuns?...
A nova vala comum agora descoberta situa-se no departamento de Meta e contém mais de 1 500 corpos de «falsos positivos» - assim são designados os jovens que o governo colombiano apresenta como «combatentes das FARC abatidos em combate», mas que, na realidade, são jovens recrutados pelo exército com promessas de trabalho e a seguir executados e enterrados nessas valas.
(Como o Cravo de Abril já denunciou, neste mesmo departamento de Meta, foram descobertos, há um ano, 2 000 cadáveres naquela que é, tanto quanto se sabe, a maior vale comum do continente americano).
Comentando a mais recente descoberta, um dos advogados das vítimas e familiares, resumiu assim a situação:
«A Colômbia pode ser uma gigantesca vala comum. O exército colombiano converteu-se num autêntico exército ocupante contra o seu próprio povo».
A Colômbia é, como se sabe, a menina dos olhos do governo de Obama no continente: um modelo de democracia, de liberdade, de respeito pelos direitos humanos...
A situação nas Honduras após o golpe organizado pelo governo dos EUA e por fascistas hondurenhos, tem sido, também, tema frequentemente abordado no Cravo de Abril.
Registe-se, então, que a violenta repressão desencadeada pelo governo fascista contra os trabalhadores e o povo hondurenhos - e que a Frente Nacional de Resistência Popular tem corajosamente denunciado - foi agora confirmada por um grupo de representantes de 28 organizações suíças, alemãs e austríacas.
E, já agora, registe-se também o Programa de Apoio da União Europeia ao governo fascista das Honduras - o Programa Paz!...
Esse Apoio - no valor de 44 milhões de euros - é toda ele canalizado para a Defesa, a Administração Interna e o Supremo Tribunal de Justiça - ou seja: para o aparelho repressivo, com o qual o governo golpista leva por diante a brutal ofensiva de violação dos direitos humanos.
Que dizer destes direitos humanos made in USA /UE feitos de repressão, de crime, de valas comuns?...
POEMA
PRISÃO DE CAXIAS, 1949
Como fantasmas, sem repouso,
no corredor andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Nuvens vazias lhes pesam.
Um vinho azedo os corrompe.
O corredor é longo e estreito,
longo e sujo,
longo e escuro.
Do tecto baixo as lâmpadas exaustas
dir-se-ia que de remorso lhe põem mais sombras
na atmosfera sombria de remorso.
Só nas salas, fechados, os presos falam,
os presos riem,
os presos cantam.
Não há remorso na lembrança deles.
Na desgraça deles não há remorso.
O remorso ficou lá fora,
no corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite,
a manchar de vergonha a vida
e a fazer nojo aos escarradores
alinhados contra a parede.
O remorso ficou lá fora,
na felicidade e na cobardia
dos que se alheiam do combate.
Na minha sala há treze presos.
Treze são as salas que dão
para o corredor onde andam os guardas,
de pistola è cinta, dia e noite.
Maldita seja a maldição
com que à honra se responde.
Cada sala tem uma janela
que nem finge de fingimento,
porque além da barreira das grades
em frente um talude nos cobre
a despreocupação de ave
do horizonte desdobrado,
e lá fora andam outros guardas,
de carabina oa ombro, dia e noite.
Na minha sala há treze presos,
com treze protestos erguidos,
mas erguida uma só bandeira.
São criminosos de querer,
num tempo torpe de prisões,
as torpes prisões arrasadas.
Os outros presos, as outras salas,
sangram das mesmas feridas,
ardem de desejo igual.
Estão aqui presos, mas são livres,
porque neles a justiça
sopra como os vendavais.
A prisão ficou lá fora,
nos felizes e nos cobardes.
Armindo Rodrigues
Como fantasmas, sem repouso,
no corredor andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite.
Nuvens vazias lhes pesam.
Um vinho azedo os corrompe.
O corredor é longo e estreito,
longo e sujo,
longo e escuro.
Do tecto baixo as lâmpadas exaustas
dir-se-ia que de remorso lhe põem mais sombras
na atmosfera sombria de remorso.
Só nas salas, fechados, os presos falam,
os presos riem,
os presos cantam.
Não há remorso na lembrança deles.
Na desgraça deles não há remorso.
O remorso ficou lá fora,
no corredor onde andam os guardas,
de pistola à cinta, dia e noite,
a manchar de vergonha a vida
e a fazer nojo aos escarradores
alinhados contra a parede.
O remorso ficou lá fora,
na felicidade e na cobardia
dos que se alheiam do combate.
Na minha sala há treze presos.
Treze são as salas que dão
para o corredor onde andam os guardas,
de pistola è cinta, dia e noite.
Maldita seja a maldição
com que à honra se responde.
Cada sala tem uma janela
que nem finge de fingimento,
porque além da barreira das grades
em frente um talude nos cobre
a despreocupação de ave
do horizonte desdobrado,
e lá fora andam outros guardas,
de carabina oa ombro, dia e noite.
Na minha sala há treze presos,
com treze protestos erguidos,
mas erguida uma só bandeira.
São criminosos de querer,
num tempo torpe de prisões,
as torpes prisões arrasadas.
Os outros presos, as outras salas,
sangram das mesmas feridas,
ardem de desejo igual.
Estão aqui presos, mas são livres,
porque neles a justiça
sopra como os vendavais.
A prisão ficou lá fora,
nos felizes e nos cobardes.
Armindo Rodrigues
GOSTEI
Realiza-se hoje um desafio de futebol amigável entre as selecções do País Basco e da Venezuela.
O embaixador venezuelano em Madrid, Isaías Rodriguez, assistirá ao jogo em representação do seu País.
Provocatoriamente, o presidente do PP basco, Antonio Basagoiti - que também assistirá ao jogo - declarou que não quer encontrar-se com o embaixador venezuelano, porque «no seu Governo há gente da ETA».
O embaixador venezuelano respondeu:
«Também não é do meu interesse falar com o presidente do PP basco. Na minha opinião, ele faz parte da corporação da TETA (órgão dos mamíferos que, na fome, serve para secrecção de leite e nas corporações bancárias serve para dar de mamar a dirigentes políticos sem maturidade e sem preparação social nem humanística)».
E prosseguindo:
(a esses indivíduos) na Venezuela destetamo-los, isto é, damos-lhes um curso para que percam a sua condição de "senhoritos, filhos de banqueiros" e aprendam que a política e a educação não se manejam da mesma forma que o dinheiro».
E, mais adiante:
«Os não-destetados têm causado bastantes danos ao Euskadi e vem agora este senhorito graças à pasta que o seu pai tem, pretender utilizar um encontro de futebol cordial para agredir a Venezuela...»
E rematou, certeiro:
«No meu Governo não há gente da ETA. E no PP há gente da TETA».
Gostei.
O embaixador venezuelano em Madrid, Isaías Rodriguez, assistirá ao jogo em representação do seu País.
Provocatoriamente, o presidente do PP basco, Antonio Basagoiti - que também assistirá ao jogo - declarou que não quer encontrar-se com o embaixador venezuelano, porque «no seu Governo há gente da ETA».
O embaixador venezuelano respondeu:
«Também não é do meu interesse falar com o presidente do PP basco. Na minha opinião, ele faz parte da corporação da TETA (órgão dos mamíferos que, na fome, serve para secrecção de leite e nas corporações bancárias serve para dar de mamar a dirigentes políticos sem maturidade e sem preparação social nem humanística)».
E prosseguindo:
(a esses indivíduos) na Venezuela destetamo-los, isto é, damos-lhes um curso para que percam a sua condição de "senhoritos, filhos de banqueiros" e aprendam que a política e a educação não se manejam da mesma forma que o dinheiro».
E, mais adiante:
«Os não-destetados têm causado bastantes danos ao Euskadi e vem agora este senhorito graças à pasta que o seu pai tem, pretender utilizar um encontro de futebol cordial para agredir a Venezuela...»
E rematou, certeiro:
«No meu Governo não há gente da ETA. E no PP há gente da TETA».
Gostei.
POEMA
ENTRE PATRÃO E OPERÁRIO
Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.
Armindo Rodrigues
Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.
Armindo Rodrigues
METEM NOJO
Quando, um dia, se fizer a história da ofensiva contra o PCP ao longo dos tempos, constataremos que ela constitui parte grande da história lusitana da pulhice humana.
Estou em crer que o conteúdo odiento e a forma desavergonhada dessa ofensiva têm a ver com a raiva que se apossa dos seus protagonistas ao verem frustradas, sucessivamente, as suas previsões necrológicas sobre o PCP...
Salazar e os seus jornais anunciaram repetidas vezes a morte do Partido, na convicção de que os comunistas não resistiriam às perseguições, às prisões, aos assassinatos, a toda a brutal repressão fascista.
Obviamente, enganaram-se.
O grande capital actual e os seus média, não se cansam de decretar a morte do PCP, na convicção de que, fazendo dos comunistas o seu alvo preferencial, utilizando contra eles toda a espécie de mentiras, de falsidades, de calúnias e difundindo-as massivamente, os desejos que têm de ver o PCP morto serão concretizados.
Obviamente, enganam-se.
Mas lá que lhes custa enganarem-se, custa, ó se custa!...
E lá que lhes causa raivas, causa, ó se causa!...
Vem isto a propósito da «notícia» do Público de ontem, sobre as coimas nas contas dos partidos.
O texto - assinado pelo inevitável Nuno Sá Lourenço (NSL) - como todos os escarros, mete nojo.
Partindo da premissa de que «é a partir das despesas que o Estado calcula a subvenção concedida aos partidos», NSL chega à conclusão de que, «ao incluir as coimas nessas despesas, os partidos acabam por receber de volta, mais tarde, o valor monetário das coimas que lhes foram aplicadas».
Ora, porque a premissa é falsa, a conclusão também o é.
Na verdade, as subvenções do Estado aos partidos são decididas, não a partir das despesas, mas a partir dos votos que cada partido obtém na mais recente eleição à AR - e, portanto, é falso tudo o que NSL escreve sobre os partidos receberem de volta o valor das coimas.
Mas NSL não é só isto... não esqueçamos que ele é um jornalista-tipo da nova ordem comunicacional, um daqueles a quem Serge Halimi chamou certeiramente os novos cães de guarda...
Pelo que, pegando na falsidade produzida, NSL virou-a... contra quem havia de ser?: contra o PCP, pois claro - o PCP que, diz ele, porque pagará de coimas não os 3 mil euros que os restantes partidos pagam, mas 30 mil euros, é o grande beneficiado!...
Esclareça-se que o facto de o PCP pagar 30 mil euros em vez dos 3 mil que deveria pagar, resulta de uma atitude claramente persecutória contra o Partido - mas isso que interessa?: NSL não tem nada contra atitudes persecutórias se elas forem contra o PCP...
E, já agora, sublinhe-se que quem vai pagar esses injustos 30 mil euros são os militantes e simpatizantes comunistas.
Depois, não querendo ficar sozinho com a patranha que engendrou, NSL foi ouvir o habitual «especialista», que desta vez dá pelo nome de Luís de Sousa; que é «investigador» não sei de quê; e que, fazendo sua a patranha de NSL, sentenciou que «as multas têm que ser sentidas na pele, têm que ser subtraídas à subvenção»...
(ó sr. investigador, em vez de cagar sentenças por ouvir dizer, não seria melhor investigar primeiro e depois falar?...)
Posto isto - patranha escrita e devidamente avalizada pelo «investigador» - a mentira correu célere por todos os telejornais como se se tratasse de verdade incontestável.
E para que fosse, também, incontestada, o comunicado emitido pelo PCP e repondo a verdade foi cirurgicamente silenciado por todos os telejornais.
É a isto que eles chamam informação isenta, imparcial e independente...
Metem nojo.
Estou em crer que o conteúdo odiento e a forma desavergonhada dessa ofensiva têm a ver com a raiva que se apossa dos seus protagonistas ao verem frustradas, sucessivamente, as suas previsões necrológicas sobre o PCP...
Salazar e os seus jornais anunciaram repetidas vezes a morte do Partido, na convicção de que os comunistas não resistiriam às perseguições, às prisões, aos assassinatos, a toda a brutal repressão fascista.
Obviamente, enganaram-se.
O grande capital actual e os seus média, não se cansam de decretar a morte do PCP, na convicção de que, fazendo dos comunistas o seu alvo preferencial, utilizando contra eles toda a espécie de mentiras, de falsidades, de calúnias e difundindo-as massivamente, os desejos que têm de ver o PCP morto serão concretizados.
Obviamente, enganam-se.
Mas lá que lhes custa enganarem-se, custa, ó se custa!...
E lá que lhes causa raivas, causa, ó se causa!...
Vem isto a propósito da «notícia» do Público de ontem, sobre as coimas nas contas dos partidos.
O texto - assinado pelo inevitável Nuno Sá Lourenço (NSL) - como todos os escarros, mete nojo.
Partindo da premissa de que «é a partir das despesas que o Estado calcula a subvenção concedida aos partidos», NSL chega à conclusão de que, «ao incluir as coimas nessas despesas, os partidos acabam por receber de volta, mais tarde, o valor monetário das coimas que lhes foram aplicadas».
Ora, porque a premissa é falsa, a conclusão também o é.
Na verdade, as subvenções do Estado aos partidos são decididas, não a partir das despesas, mas a partir dos votos que cada partido obtém na mais recente eleição à AR - e, portanto, é falso tudo o que NSL escreve sobre os partidos receberem de volta o valor das coimas.
Mas NSL não é só isto... não esqueçamos que ele é um jornalista-tipo da nova ordem comunicacional, um daqueles a quem Serge Halimi chamou certeiramente os novos cães de guarda...
Pelo que, pegando na falsidade produzida, NSL virou-a... contra quem havia de ser?: contra o PCP, pois claro - o PCP que, diz ele, porque pagará de coimas não os 3 mil euros que os restantes partidos pagam, mas 30 mil euros, é o grande beneficiado!...
Esclareça-se que o facto de o PCP pagar 30 mil euros em vez dos 3 mil que deveria pagar, resulta de uma atitude claramente persecutória contra o Partido - mas isso que interessa?: NSL não tem nada contra atitudes persecutórias se elas forem contra o PCP...
E, já agora, sublinhe-se que quem vai pagar esses injustos 30 mil euros são os militantes e simpatizantes comunistas.
Depois, não querendo ficar sozinho com a patranha que engendrou, NSL foi ouvir o habitual «especialista», que desta vez dá pelo nome de Luís de Sousa; que é «investigador» não sei de quê; e que, fazendo sua a patranha de NSL, sentenciou que «as multas têm que ser sentidas na pele, têm que ser subtraídas à subvenção»...
(ó sr. investigador, em vez de cagar sentenças por ouvir dizer, não seria melhor investigar primeiro e depois falar?...)
Posto isto - patranha escrita e devidamente avalizada pelo «investigador» - a mentira correu célere por todos os telejornais como se se tratasse de verdade incontestável.
E para que fosse, também, incontestada, o comunicado emitido pelo PCP e repondo a verdade foi cirurgicamente silenciado por todos os telejornais.
É a isto que eles chamam informação isenta, imparcial e independente...
Metem nojo.
POEMA
MALDIÇÃO
Maldito seja o que busca
matar o sonho dos homens.
Maldita seja a vergonha.
Maldito seja o pesar.
Maldito seja o silêncio
que nos cala antes da morte.
Maldito seja o que é falso,
ou induz em confusão.
Malditos sejam os bons
que o são só por piedosos.
Maldito seja o cruel
por ódio ou por piedade.
Maldito seja o que aceita
argumentos que não pesa.
Maldito seja o que força
alguém a acreditá-lo.
Maldito seja o orgulho
do que o alheio despreza.
Maldito seja o que faz
dos desejos maldição.
Maldito seja o desejo
de só nada desejar.
Maldito seja o que inveja
o pão de que não precisa.
Maldito seja o que encontra
na fome conformação.
Maldito seja o que é feio
por gosto de fealdade.
Maldita seja a beleza
que à vida seja traição.
Maldita seja a riqueza
que de fartura não serve.
Maldita seja a fartura
quando a todos não chegar.
Maldito seja o saber
arvorado em tirania.
Maldito seja o que ignora
e não dá por ignorar.
Maldito seja o que impõe
o que para si não quer.
Maldito seja o que jura
contra a sua convicção.
Maldito seja o que alcança
sem o esforço de colher.
Maldito seja o temor
de luz de mais nos cegar.
Armindo Rodrigues
Maldito seja o que busca
matar o sonho dos homens.
Maldita seja a vergonha.
Maldito seja o pesar.
Maldito seja o silêncio
que nos cala antes da morte.
Maldito seja o que é falso,
ou induz em confusão.
Malditos sejam os bons
que o são só por piedosos.
Maldito seja o cruel
por ódio ou por piedade.
Maldito seja o que aceita
argumentos que não pesa.
Maldito seja o que força
alguém a acreditá-lo.
Maldito seja o orgulho
do que o alheio despreza.
Maldito seja o que faz
dos desejos maldição.
Maldito seja o desejo
de só nada desejar.
Maldito seja o que inveja
o pão de que não precisa.
Maldito seja o que encontra
na fome conformação.
Maldito seja o que é feio
por gosto de fealdade.
Maldita seja a beleza
que à vida seja traição.
Maldita seja a riqueza
que de fartura não serve.
Maldita seja a fartura
quando a todos não chegar.
Maldito seja o saber
arvorado em tirania.
Maldito seja o que ignora
e não dá por ignorar.
Maldito seja o que impõe
o que para si não quer.
Maldito seja o que jura
contra a sua convicção.
Maldito seja o que alcança
sem o esforço de colher.
Maldito seja o temor
de luz de mais nos cegar.
Armindo Rodrigues
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