POEMA

A ESPANHA


Entre nós, uns atingem os sessenta;
outros vão um pouco mais longe,
outros há que são apenas uma mancheia de ossos.

A Espanha, nossa juventude,
a Espanha é uma rosa ensanguentada que desabrochou em nossos peitos.
A Espanha, nossa amizade na penumbra da morte,
a Espanha, nossa amizade à luz da nossa esperança invencível.
E as velhas oliveiras, com talhos, e a terra amarela e a terra vermelha esburacadas.
Entre nós, uns atingem os sessenta;
outros vão um pouco mais além,
outros há muito que são apenas uma mancheia de ossos.

Madrid caiu em 39:
quantas coisas, boas ou amargas, aconteceram aos homens de então!
A Espanha caiu em 39.
Em 62 vem-nos das minas das Astúrias a sua voz colérica e fraterna,
vem-nos do fundo da nossa esperança invencível, de Bilbao.
A Espanha era a nossa juventude,
a Espanha é a vossa juventude.
A Espanha é na palma da mão a linha da vida de todos nós.


Nâzim Hikmet

CHIÇA!

Foi Deus, certamente - só pode ter sido... - que conferiu a Cavaco Silva todos aqueles atributos que exibe sempre que abre a boca.
Cavaco é inculto, pretensioso, ignorante, petulante... - atributos que, aliados ao facto de se julgar um génio, fazem dele um ser tristemente ridículo.

É claro que pior - muito pior - do que isso é que Cavaco é um dos mais implacáveis executantes da política de direita: em dez anos de primeiro-ministro devastou o País e os cinco anos de PR passou-os a contemplar a devastação que fez e a incitar os governos que sucederam aos seus a prosseguir a devastação - com êxito, reconheça-se.

Sempre que fala, Cavaco desnuda-se.
Ontem, Cavaco falou.

Disse que «o país precisa de um orçamento»; que isso exige consensos partidários e que a negociação PS/PSD «se desenvolve com bons resultados».
Ele lá sabe...

Sobre si próprio, Cavaco informou estar « a fazer tudo aquilo que deve ser feito por um PR que conhece bem a situação, que tem bom senso e que é ponderado».
Ele o diz: qualidades não lhe faltam...

Mas como se tudo isso não bastasse, Cavaco - com aquele ar enfático e naquele jeito pernóstico que são sua imagem de marca - acrescentou que, em caso de crise grave, «o PR é a última reserva do país».
A última?
Chiça!

POEMA

OS CANTOS DOS HOMENS


Os cantos dos homens são mais belos que os homens,
mais densos de esperança,
mais tristes,
com uma vida mais longa.

Mais do que os homens eu amei os seus cantos.
Consegui viver sem os homens
nunca sem os cantos;
aconteceu-me ser infiel
à minha bem amada
mas nunca ao canto que para ela cantei;
nunca também os cantos me enganaram.

Qualquer que fosse a sua língua
sempre compreendi os cantos.

Neste mundo,
de tudo o que pude beber e comer,
de todos os países por onde andei,
de tudo o que pude ver e ouvir,
de tudo o que pude compreender,
nada, nada
conseguiu fazer-me tão feliz como os cantos...


Nâzim Hukmet

VIVA A GREVE GERAL!

A proposta de Orçamento de Estado chegou tarde e incompleta.
Mas chegou, essencialmente, a más horas para a imensa maioria dos portugueses, ou seja para os que trabalham e vivem do seu trabalho; para os que já trabalharam e deveriam ter, mas não têm, pensões e reformas dignas; para os jovens que querem começar a trabalhar e só vêem à sua frente espessos muros e pesadas portas fechadas.


Entretanto, uma sondagem encomendada pela SIC, Expresso e Rádio Renascença (olha que três!...), informa que a maioria dos portugueses apoia o OE... isto porque essa maioria considera que «as medidas de austeridade são inevitáveis»...
Integrando essa «maioria» estão, naturalmente, os habituais «especialistas», «comentadores» e «analistas», cuja tarefa principal, nos últimos tempos, tem sido precisamente a de espalhar a ideia de que «as medidas de austeridade são inevitáveis» - repetindo-a tantas vezes quantas as necessárias para ela passar de opinião publicada a opinião pública...

São várias as razões que levam os apoiantes do OE a dizer que sim ao dito.
Assim:
Há os que dizem que sim e explicam porquê:
«As reduções salariais vão contagiar o sector privado e melhorar a competitividade externa do país», proclama o editorial do Público (pudera!...).

Há os que dizem que sim, por «realismo»:
«A proposta de Orçamento do Governo é dura mas realista» (Paulo Pinto de Albuquerque).

Há os que dizem que sim, por hábito que vem de longe:
«Adriano Moreira apela ao «consenso partidário» a bem do «interesse nacional».

Há os que dizem que sim porque... sim:
«O candidato presidencial Fernando Nobre, considera o OE um brutal ataque aos mais necessitados», mas... «apela ao consenso» para que ele seja aprovado.
«Carlos Brito, antigo dirigente do PCP, diz discordar das medidas avançadas», mas... «deseja que o OE passe na Assembleia da República».

Tudo isto a confirmar... o que já sabíamos: para derrotar a política de direita e os seus OE's não há outro caminho que não seja o da luta de massas.
Uma luta que tem que ser cada vez mais participada e mais forte.
Uma luta à altura das gigantescas batalhas travadas pelos trabalhadores portugueses nas últimas décadas - sem dúvida as maiores e as mais fortes travadas em toda a Europa.

Por isso: VIVA A GREVE GERAL!

POEMA

O MORTO NA PRAÇA DE BEYAZIT


Um morto está deitado,
um jovem de dezoito anos,
ao sol dos dias,
à noite com as estrelas,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado:
segura numa mão o seu livro de estudo,
na outra o sonho interrompido antes de ter começado
em Abril no ano de mil novecentos e sessenta,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto está deitado.
Foi abatido,
e a ferida da bala
abre-se-lhe na fronte como um cravo vermelho,
na Praça de Beyazit em Istambul.

Um morto continuará deitado,
o sangue a cair na terra, gota a gota,
até ao dia em que o meu povo em armas
com cantos de liberdade
vier tomar de assalto a praça grande.


Nâzim Hikmet

ATÉ AS ROSAS, SENHOR?...

A propósito do Orçamento de Estado, pode ler-se na primeira página do Diário de Notícias de hoje:
«IRS triplica nos escalões mais baixos».
Outra coisa não seria de esperar: trata-se do OE da política de direita e esta, como sabemos há longos 34 anos, é tão implacável a flagelar a maioria dos portugueses - os que trabalham e vivem do seu trabalho -como é generosa a beneficiar a minoria - os que vivem à custa de quem trabalha.

Mais adiante, diz-nos o DN que «subida do IVA vai pesar na carteira», ou seja, que «a factura do supermercado vai engordar a partir de Janeiro, com o IVA de vários bens alimentares hoje com a taxa reduzida a saltar para 23%», ou seja, que tudo, tudo vai aumentar (excepção feita aos salários, pensões, reformas,etc...)
Pelas razões acima aduzidas, outra coisa não seria de esperar.

O que eu não esperava, confesso, é que entre os muitos produtos cujos preços o OE vai fazer saltar, estivesse incluído o símbolo do partido do governo responsável pela tragédia que é este OE: a rosa.
Mas é verdade: a partir de agora, «uma dúzia de rosas na florista Romeira» passa de 40 para 43,54 euros...

Que tudo, tudo aumente, vá lá, mas... até as rosas, senhor?...

POEMA

QUADRA


Como sementes deitadas à terra espalhei os meus mortos.
Alguns repousam em Odessa, alguns em Istambul, outros ainda em Praga.
O país que eu prefiro é toda a terra.
Quando chegar a minha hora, cubram-me com a terra inteira.


Nâzim Hikmet

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

Estava escrito que assim seria e assim foi: mal a CGTP anunciou a convocação da Greve Geral, os analistas de serviço pagos à peça passaram ao ataque.
Sindicatos e sindicalistas começaram desde logo a ser objecto de sucessivas rajadas de ódio de classe - e de então para cá, não passou um dia sem que um (às vezes mais do que um) desses propagandistas da ideologia dominante exibisse as suas credenciais...

Logo a seguir, entraram em cena os bonzos - tipo Mário Soares e outros escalrachos semelhantes - a dizer por palavras suas o mesmo que os analistas de serviço disseram por palavras deles...

Seguiram-se as chamadas «cartas do leitor» - e é raro o dia em que não aparece um «leitor» (às vezes mais do que um) a repetir o que os analistas de serviço e os bonzos debitaram.

E assim continuará a ser até ao dia 24 de Novembro.
Depois, a partir do dia 25, mudam o disco... e tocam o mesmo: a Greve Geral foi um fracasso, porque não pararam todos, mas mesmo todos, todos, os trabalhadores...

Hoje foi a vez (outra vez...) de um escriba com lugar cativo na Correio da Manhã fazer o seu número.
Sem ponta de vergonha, escreveu: «É difícil entender a adesão à greve geral de trabalhadores que têm o emprego seguro e o ordenado, pouco ou muito, garantido ao fim do mês»
E, desavergonhado, rematou: «Tenham vergonha, por favor».

O desavergonhado é um tal António Ribeiro Ferreira que, no Correio da Manhã, assina uma rubrica para a qual escolheu o título do pasquim oficial do fascismo salazarista: «Diário da Manhã» - a confirmar que isto anda tudo ligado...

POEMA

A MAIORIA DAS PESSOAS


A maioria das pessoas viaja na coberta dos navios
na terceira classe dos comboios
a pé pelas estradas.
A maioria das pessoas.

A maioria das pessoas começa a trabalhar aos oito anos
casa aos vinte
morre aos quarenta.
A maioria das pessoas.

Para todos há pão, salvo para a maioria das pessoas.
Arroz também
açúcar também
roupas também
livros também
Há para todos, salvo para a maioria das pessoas.

Não há sombra na terra para a maioria das pessoas
não há candeeiros nas ruas
não há vidros nas janelas.
Mas a maioria das pessoas tem a esperança.
Não se pode viver sem esperança.


Nâzim Hikmet

UM FUTURO NOBEL DA PAZ

Uma revista fascista de Espanha publicou, há uma semana, um artigo assinado por Jesús Gómez Ruiz, dirigente do PP espanhol e fascista.
Pronunciando-se sobre o que são (e não são) direitos humanos fundamentais, o homem decretou que:
1 - «os verdadeiros direitos fundamentais são dois: o direito à propriedade e o direito à liberdade»; e que:
2 - «a educação universal e gratuita não é um verdadeiro direito fundamental».
(registe-se, a propósito, a semelhança entre esta opinião e a de António Barreto, comentada aqui no Cravo de Abril há umas duas semanas...)

Em matéria de «educação gratuita», no entanto, o fascista do PP abre uma excepção: os filhos de pais comunistas!
Nem mais!: os filhos de pais comunistas, esses sim, devem ter direito a uma «educação gratuita», clama o fascistão.
Porquê?
Ele explica: «os comunistas pertencem à seita mais criminosa que a história jamais viu» e «inculcam nos filhos uma representação teórica da realidade absolutamente falsa que lhes provocará no futuro sérios problemas de adaptação social e um agudo sentimento de infelicidade».
Portanto, e por isso, espuma o animal, «é necessário, quanto antes, retirar aos pais comunistas a tutela dos seus filho e, de imediato, enviá-los para campos de reeducação» - «e aos pais também» acrescentou, certamente a pensar numa «solução final» adequada aos tempos actuais, com fornos crematórios topo de gama e... naturalmente, em defesa dos «dois verdadeiros direitos fundamentais»: a propriedade e a liberdade...

Fixem o nome da besta: Jesús Gómez Ruiz - mais ano menos ano, vamos vê-lo distinguido com o Prémio Nobel da Paz.


POEMA

EM PARIS, A 28 DE MAIO DE 1958



Por sorte que vi, por sorte que vi,
por sorte que vi esse dia.
Esse dia, por sorte que o vi em Paris.
Paris correu como um rio.
O verdadeiro Paris,
o grande Paris,
todo azul e vermelho,
e o Reno e o Ródano e o Garona e o Sena correram;
Paris correu como as águas em cascata.
Paris desfilou em 1958
a 28 de Maio.
Por sorte que vi, por sorte que vi
esse dia, por sorte que o vi em Paris.
O homem transpôs as portas.
De um momento para o outro o homem encheu a praça.
Como gaiola aberta para o pássaro sair,
os muros libertaram o homem.
De repente um homem confundiu-se
com quinhentos mil homens.
Quinhentos mil homens
confundiram-se
com um único homem:
Ivry, Saint-Denis, Belleville,
todos os arrabaldes de Paris
chegaram
de bicicleta.
As pedras animaram-se para se transformarem em homens.
Ah este coração! Ah este coração! Ah este coração!
Coração doente, maldito coração!
Este coração que impede que eu me misture com eles:
à cabeça, os deputados, cingidos com as
suas faixas,
à minha direita, Pierre, o torneiro de olhos de água;
à minha esquerda, o professor da Sorbonne,
de barba branca;
à minha direita, um
baixo e moreno,
explosivo;
os seios da rapariga de azul ao meu lado
são bombas,
e os saltos dos sapatos, agulhas.
Ah este coração! Ah este coração!
que me impede de integrar a corrente,
de uma praça para outra.

Escrevo tudo isto
a 29 de Maio de 1958.
Sei que há traidores entre nós,
conheço alguns.
Quem sabe? É talvez um pouco
por nossa causa
que as águas, em sucessivas vagas,
de azul e vermelho,
não conseguem destroçar
o navio negro do corsário.


Nâzim Hikmet

A «PAZ» QUE O JÚRI PREMIOU

A atribuição do Prémio Nobel da Paz ao chinês Liu Xiaobo, foi estrondosamente festejada por quem a tarefa de festejar estas coisas - e ainda agora a procissão vai no adro.
Percebe-se...
Aliás, o júri responsável pela decisão não esperava outra coisa...

Ora, é óbvio que, como diz a nota do Gabinete de Imprensa do PCP,
1º: a atribuição deste Prémio Nobel da Paz «é inseparável da pressão económica e política dos EUA à República Popular da China»; e,
2º: tal atribuição constitui «mais um golpe na credibilidade» daquele Prémio - a somar-se a muitos outro golpes com objectivos semelhantes ocorridos ao longo dos anos, um dos quais - por demais significativo - foi a atribuição do Nobel da Paz a Obama, em 2009.

A razão que levou o júri do Nobel a escolher Liu Xiaobo, este ano, é a mesma que esteve na origem da escolha de Obama, há um ano, e insere-se na permanente ofensiva propagandística e ideológica visando apresentar os EUA como exemplo supremo «da democracia, da liberdade e dos direitos humanos» e, assim, legitimar a sua ambição de domínio absoluto do mundo, custe o que custar.
Com efeito, nem Obama nem Liu Xiaobo fizeram fosse o que fosse a favor da paz e da fraternidade entre os povos - no caso de Obama, bem pelo contrário até, como o demonstram as guerras de ocupação do Iraque e do Afeganistão; os golpes ou tentativas de golpes fascistas no continente americano; o seu apoio incondicional às práticas do governo fascista de Israel, enfim, toda a política belicista levada a cabo pelo imperialismo norte-americano.
E foi essa a «paz» que, uma vez mais, o júri do Nobel premiou.

POEMA

ADIVINHAS SOBRE PARIS


Qual a cidade que se parece com o vinho?
Paris.
Bebes o primeiro copo.
Sabe mal.
Ao segundo,
sobe-te à cabeça.
Ao terceiro,
impossível ires-te embora:
Rapaz, outra garrafa!
A seguir, estejas onde estiveres,
vás onde fores,
estás amarrado a Paris, meu velho.

Qual a cidade
que se mnatém bela mesmo depois de
quarenta dias de chuva?
Paris...

Filho de Hikmet, em que cidade
gostarias de morrer?
Em Istambul,
em Moscovo,
e também em Paris...

Em que momento Paris se torna feia?
Quando as tipografias são saqueadas
e se queimam os livros.
O que é que destoa em Paris?
Os carros pretos de grades nas janelas.

Em que cidade comeste
o pão
mais puro?
Em Paris.
Sobretudo os "croissants" com manteiga.
Nada que se pareça
com os da padaria de Chehzadébachi.

O que mais amaste em Paris?
Foi Paris.

A quem ofereceste flores, camarada?
Aos do Muro dos Federados,
e também a uma bela, esbelta como uma vergôntea.
Entre os teus, quem encontraste em Paris?
Namik Kemal, Ziya Pacha, Mustafa Sufi,
e também a juventude da minha mãe:
faz pintura,
fala francês,
é a mais bela do mundo.
E também encontrei
a juventude de Mimi.

Bom: com quem se parece Paris?
Com o Parisiense...

Acreditas em Paris, filho do homem?
Acredito em Paris.


Nâzim Hikmet

ARQUIVE-SE A QUEIXA

Quando, aqui há uns tempos, foi chamado à Comissão de Inquérito da Assembleia da República para ser ouvido sobre o caso PT/TVI (lembram-se?...), Rui Pedro Soares (lembram-se?...) recusou-se a responder a qualquer pergunta dos deputados, invocando aquilo a que chamou o «direito a não se autoincriminar».
Pelo facto, a Assembleia da República apresentou, então, uma queixa.

O Ministério Público pegou na queixa, analisou-a dos pés à cabeça, estudou-a da cabeça aos pés... e arquivou-a.
Porquê?: porque considera válido o argumento utilizado por Rui Pedro Soares...

Para mim, que não percebo nada, nadinha, destas coisas das leis (digamos assim), isto de um indivíduo ter o «direito» de se recusar a responder quando sabe que as respostas que vai dar o incriminam... é um grande «direito» - e um «direito» que dá muito jeito...
E tudo isto me leva a pensar que, na outra face deste «direito», está aquilo a que provavelmente os especialistas na matéria chamam um «dever» - o «dever» de, quando o indivíduo sabe que as respostas que vai dar não o incriminam, responder a todas as perguntas que lhe façam...


Arquive-se, então, a queixa.

POEMA

ACERCA DE UMA VIAGEM


Abrimos portas,
fechamos portas,
franqueamos portas
e no termo da viagem única
nem cidade
nem porto.

O comboio descarrila,
o barco naufraga,
o avião cai.
Há uma inscrição gravada no gelo.
Se eu pudesse escolher
recomeçar ou não esta viagem
recomeçá-la-ia.


Nâzim Hikmet

UM CONTO

CÁRCERE


«Na cela há cinco polícias fortes e um preso. Os polícias dispõem de meios que tudo alcançam e sabem que o obrigarão a confessar.
Como feras esfaimadas, atiram-se ao preso, às cegas, numa fúria. No fundo, sentem-se mal, porque a cela é demasiado pequena para tanta gente. Além disso, os fatos pesados são um estorvo e os colarinhos duros incomodam terrivelmente.
Os polícias transpiram, rosnam e praguejam. As matracas erguem-se e baixam-se sobre o homem sem liberdade.
Na cela há cinco polícias fortes e um preso.

Para principiar, torceram-lhe os braços até estalarem as articulações. Bateram-lhe na cabeça com as matracas. Depois, deram-lhe valentes pontapés, ao acaso. Pisaram-no e amassaram-lhe o nariz.
Na cela há cinco polícias e um preso e os polícias sabem que o obrigarão a falar.

No céu distante entremostra-se a Lua, branca e inocente, para desaparecer de seguida, sabendo que não faz falta.
Passa um automóvel na rua e uma rapariga ri-se para o homem ao seu lado.
No corredor da prisão, enquanto o bico de gás solta no espaço a sua monótono e triste melopeia, o carcereiro brinca com as chaves.
Saudosamente, os presos do mundo inteiro sonham com os lares perdidos, com carícias já esquecidas.
Entretanto, na cela, os cinco polícias sovam e interrogam o preso e gritam-lhe que há-de falar...
As duras matracas e os rudes sapatos martirizam o preso e induzem-no a falar.
O coração opresso sugere-lhe que fale. Como criança amedrontada, o pobre corpo já sangrento soluça:
- Fala!
Em torturante agonia, o cérebro arde-lhe e clama:
- Fala!
E o sangue latejante segreda-lhe:
«A tua mulher está à tua espera... é só falares...»
E em todo ele um milhão de vozes grita:
- Fala... Fala!
... Mas o preso não quer falar.
Ao longe, na cidade, a noite é calma e silenciosa. Nas ruas dormentes, homens e mulheres deslizam em idílios. Os agentes balouçam os bastões e bocejam sonolentos.
No sossego das suas casas, depois de um dia enervante nos tribunais, os juízes lêem versos às esposas. No escuro dos cinemas há pares de namorados que, em contacto furtivo, vibram de desejo.
Em quieta paz, as mães aconchegam ao seio os filhos pequeninos, enquanto o pai, descuidado, fuma num cachimbo velho.
E é tão tranquilo e calado o conjunto dos milhares de casas, que o bater dum relógio parece voz gigantesca.

Na cela há cinco polícias fortes que espancam um preso. E sabem que ele falará!
Sem dó, as matracas erguem-se e baixam. Impiedosos, os pés trituram a cara do preso.
Os polícias, como amantes em espasmo, roncam alto. Os colarinhos estão amarrotados, viscosos, nojentos.
O prisioneiro cerra os olhos por instantes, e vê miríades de estrelas que refulgem no seu mundo de dor.
Cerra os dentes, garante que não falará e morde os lábios.
Com a boca sangrenta, jura que jamais soltará uma só palavra.
Com a boca sangrenta, jura que os cinco fortes polícias nunca o obrigarão a falar»


Michael Gold

POEMA

DA VIDA


No caso de estarmos doentes
e tão gravemente
que seja preciso recorrer ao bisturi,
isso significa que porventura
não vamos mais erguer-nos do bilhar branco.
Então, embora sentindo uma grande tristeza
por ir embora demasiado cedo
vamos rir à mesma
ao ouvir uma anedota,
vamos olhar pela janela
para ver se o tempo está de chuva
ou vamos guardar, ansiosamente,
as notícias da última hora.

No caso de estarmos na frente de batalha
a lutar por uma causa que valha a pena,
logo desde o primeiro dia e desde o primeiro embate
podemos cair de nariz no chão e morrer.
Sabemo-lo, é intensa a nossa amargura,
mas apeasr disso
somos ainda ansiosos e apaixonados,
gostávamos de ter uma saída para essa guerra
que ainda pode durar anos.

No caso de estarmos na prisão
prestes a fazer os cinquenta
e devendo ainda esperar dezoito anos
pelo abrir das grades,
mesmo então
não deixaremos de viver com o mundo lá de fora,
com seus homens, seus animais, suas lutas e seus ventos
Com o mundo além-muros.
Assim, onde quer que estejas e sejam quais forem as circunstâncias
deves viver
como se nunca houvesses de morrer.


Nâzim Hikmet

SERÁ?

Neste tempo de duelos verbais entre os líderes do PS e do PSD, cada um responsabilizando o outro pela situação dramática em que se encontra o País - e ambos assobiando para o lado em relação à responsabilidade comum aos dois - é bom não esquecermos o que eles querem que esqueçamos.

A saber:
- PS e PSD estão no poder, ora um ora outro, há 34 anos sucessivos.
- Eles e só eles.
- Fazendo, alternadamente, a mesma política: a política da contra-revolução ao serviço dos interesses do grande capital.
- Balsemão, Cavaco e Barroso/Lopes cumpriram a tarefa pelo PSD.
- Soares, Guterres e Sócrates cumpriram-na pelo PS.
- Os duelos verbais do momento têm como objectivo, por um lado, criar condições para o prosseguimento da política de direita e, por outro lado, esconder a grande conclusão a tirar de tudo isto: PS e PSD tiveram 34 anos para mostrar que não prestam e que deles nada de bom (e tudo de mau) há a esperar para Portugal e para os portugueses.

Dir-se-á que tudo isto é por demais conhecido dos portugueses...
Será?...

POEMA

A MENINA


Sou eu que bato às portas,
às portas, umas após outras.
Sou invisível aos vossos olhos.
Os mortos são invisíveis.

Morta em Hiroxima
há mais de dez anos,
sou uma menina de
sete anos.
As crianças mortas não crescem.

Primeiro arderam os meus cabelos,
também os olhos arderam, ficaram calcinados.
Num instante fiquei reduzida a um punhado de cinzas
que se espalharam
ao vento.

No que diz respeito
a mim,
nada vos imploro:
a criança que ardeu como papel
não podia comer, nem sequer bombons.

Bato à vossa porta, tio, tia:
uma assinatura.
Não matem as crianças
e deixem-nas também
comer bombons.


Nâzim Hikmet

UMA EQUIPA PREDESTINADA

O cardeal Tarcisio Bertone - primeiro-ministro do Vaticano, «braço direito de Bento XVI», «número 2 do Vaticano» - é, actualmente, uma das figuras maiores da Igreja Católica.
Já aqui vos falei dele - quando o cardeal, comentando as notícias sobre as vagas de casos de padres e bispos pedófilos, veio dizer que se tratava de «uma campanha visando minar a confiança na Igreja», ao mesmo tempo que garantia ter provas científicas de que «há uma relação entre a homossexualidade e a pedofilia»...

Hoje, o cardeal Bertone volta a ser notícia.
Ei-la: certamente por vontade de Deus, o cardeal é um entusiástico adepto do futebol, a ponto de um dos seus sonhos ser, desde há muito, a constituição de uma equipa de futebol do Vaticano.
Ora, o sonho do cardeal foi agora concretizado: a selecção de futebol do Vaticano é uma realidade.
Ela aí está, acabadinha de formar e - com os jogadores alinhando de«amarelo e branco, as cores oficiais do Vaticano» - a iniciar a preparação rumo às grandes competições futebolísticas urbi et orbi.
Essa preparação passa por uma série de jogos «particulares», ou «amigáveis», que darão à equipa do cardeal o indispensável «calo» e a necessária experiência para se lançar à conquista... quiçá da próxima Taça do Mundo...

E é aqui que a notícia é... NOTíCIA: o primeiro jogo «amigável» da «selecção de futebol do Vaticano» vai ser com uma equipa que dá pelo nome de «Guarda di Finanza», nome que seria algo bizarro para uma equipa de futebol, não fosse ela aquilo que é: a equipa da polícia financeira italiana - precisamente a polícia que está a investigar o Banco do Vaticano por suspeita de lavagem de dinheiro...

Não há dúvida: o cardeal Bertone não dorme em serviço - e a sua equipa de futebol está predestinada a grandes êxitos... em todos os campos...

POEMA

TALVEZ A MINHA ÚLTIMA CARTA A MÉMET



Por um lado
os carrascos entre nós
como uma parede a separar-nos
e por outro lado
este coração mal comportado
que me armou uma partida reles.
Meu pequenino, meu Mémet,
o destino vai talvez impedir-me
de voltar a ver-te.
Sei-o
serás um rapaz parecido
com uma espiga de trigo
eu próprio era assim ao tempo da minha juventude,
louro, esbelto e de boa estatura;
os teus olhos serão vastos como os da tua mãe
por vezes com um traço de amargura
de tristeza,
a fronte será clara até ao infinito.
Terás também uma bela voz
a minha era horrível
as canções que cantares
partirão corações.
E serás um conversador brilhante
eu também era mestre em tal matéria
quando não me punham com os nervos em franja.
O mel fluirá da tua boca
Ah Mémet
que devastador de corações
tu vais ser!
É difícil criar um filho sem a presença do pai
não magoes a tua mãe,
se eu não pude dar-lhe alegrias
dá-lhas tu.
A tua mãe
forte e branda como a seda
a tua mãe
ainda será bela quando tiver idade para ser avó,
como no primeiro dia em que a vi
na margem do Bósforo
tinha ela dezassete anos.
Ela era o luar
e a luz do dia
fazia lembrar uma rainha-cláudia,
a tua mãe,
uma manhã como de costume
separou-se de mim: Até logo!
Nunca mais nos vimos.
A tua mãe
na sua bondade a melhor das mães
que viva cem anos
e que Deus a proteja.
Eu, meu filho, não tenho medo de morrer,
mas não obstante
por vezes quando estou a trabalhar
de repente
estremeço
ou então na solidão que precede o sono.
É difícil contar os dias
não podemos saciar-nos do mundo
Mémet
não podemos saciar-nos.
Não vivas na terra
à maneira de um locatário
ou em vilegiatura
na natureza,
vive neste mundo
como se ela fosse a casa do teu pai,
acredita nas sementes
na terra, no mar,
mas em primeiro lugar ama o homem,
sente a tristeza
da árvore que seca
do planeta que se extingue
do animal enfermo,
mas em primeiro lugar a tristeza do homem.
Que todos os bens terrestres
te dêem alegria em profusão,
que a sombra e a claridade
te dêem alegria em profusão,~
mas em primeiro lugar que o homem
te dê alegria em profusão.
A nossa pátria, a Turquia,
é um belo país
entre os demais países
e os seus homens,
aqueles que não se turvaram,
são trabalhadores
meditativos e corajosos,
mas horrivelmente miseráveis.
Já sofremos e havemos de sofrer mais
mas no fim a conclusão será esplêndida.

Tu, neste país, com o teu povo,
construirás o comunismo,
vê-lo-ás com os olhos
tocá-lo-ás com as mãos.

Mémet, morrerei talvez
longe da minha língua
longe das minhas canções
longe do meu sal e do meu pão,
com a nostalgia da tua mãe e de ti,
do meu povo e dos meus camaradas.
Mas não no exílio
não no estrangeiro.
Morrerei no país dos meus sonhos
na cidade branca dos meus melhores dias.
Mémet, meu pequeno,
confio-te
ao Partido comunista turco.
Vou-me embora mas estou calmo
a vida que em mim se apaga
continuará em ti por muito tempo
e no meu povo eternamente.


Nâzim Hikmet

VIVA A GREVE GERAL

As notícias são como são: umas grandes, outras pequenas, umas más, outras boas...

Esta - de apenas dezassete palavras - é pequena:
«A UGT confirmou hoje a adesão à greve geral marcada pela CGTP para o dia 24 de Novembro».

Pequena, mas boa - para já.
Nas circunstâncias actuais, pode dizer-se, até, que esta adesão da UGT constitui um primeiro êxito da Greve Geral.

Entretanto, continuemos a trabalhar no sentido de fazermos da Greve Geral uma muito grande e muito forte jornada de luta dos trabalhadores portugueses.
Porque é nesse trabalho preparatório - de esclarecimento e de mobilização dos trabalhadores - que está a chave do êxito.

VIVA A GREVE GERAL!

POEMA

UMA HORA DA MANHÃ


A toalha é de algodão azul
e em cima dela os nossos livros
risonhos, sinceros, corajosos.

Cheguei do cativeiro
minha bela,
do baluarte
do meu inimigo
no meu próprio país.
É uma hora da manhã.
Ainda não apagámos a luz,
a minha mulher está deitada ao meu lado
está no seu quinto mês
e quando lhe toco ao de leve
quando lhe pouso a mão no ventre
o bebé dá voltas e mais voltas,
tal como a folha no ramo
o peixe na água
o filho do homem na matriz
o meu filho.
A primeira camisola do meu filho
em lã cor de rosa,
foi tricotada pela mãe.
O corpo, um palmo da minha mão.
E os braços - assim grandes!
Quero que o meu filho,
se for menina,
seja parecido com a mãe da cabeça aos pés,
se for menino,
que saia a mim em altura,
se for menina,
que olhe com uns olhos cor de avelã,
se for menino,
que o seu olhar seja de um azul imenso.
Ao meu pequenino,
não quero que o matem aos vinte anos,
se for rapaz, com um tiro na fronte,
se for menina,
nos abrigos, em plena noite.
Ao meu pequenino,
seja rapariga seja rapaz,
e qualquer que seja a sua idade,
não quero que o levem para a prisão
por ser a favor da beleza, da justiça e da paz.
Mas não há dúvida
meu filho e minha filha
que se o dia tardar
tu vais ter mesmo
que te bater...

É um duro ofício, no nosso país, nos nossos fias,
ser pai.
É uma hora da manhã.
Ainda não apagámos a luz,
talvez dentro de momentos,
com a aurora, talvez,
vão entrar em casa à força
e prender-me e levar-me
e aos meus livros,
ladeado pelos membros da polícia política.
Vou olhar para trás e tornar a olhar
a minha mulher imóvel na soleira da porta
e no seu ventre cheio e pesado
o bebé dará voltas e mais voltas.


Nâzim Hikmet

O ABOMINÁVEL HOMEM DAS NEVES

«Perseguição religiosa»: é assim que João César das Neves, reaccionarão e beato - também conhecido por Abominável Homem das Neves - na sua homilia semanal no DN, classifica as notícias sobre a suspeita de branqueamento de dinheiro por parte do Banco do Vaticano e sobre os casos dos padres e bispos pedófilos.

Procedendo a um resumo da história das «perseguições religiosas» de que, diz ele, a Igreja tem sido vítima, Neves esclarece que tudo começou no século XIX com a «acusação de violência», ou seja: com «o mito da Igreja sangrenta da Inquisição e das Cruzadas».
Ora, Neves considera «ridículo (...) atacar pessoas pacíficas e serenas por histórias de séculos antigos», tanto mais que, esclarece, «os católicos actuais não pretendem tribunais ou invasões» - além de que, observa, a Inquisição e as Cruzadas não foram exactamente como se diz...
É certo e sabido que, um dia destes, o Abominável virá demonstrar-nos que os autos de fé não passavam de festivas fogueiras de S. João e que os cruzados eram grupos excursionistas que percorriam o mundo em busca de novas paisagens.

Mais tarde, a «perseguição religiosa» centrou-se naquilo a que Neves chama «o triplo cânone da injúria»: «dinheiro, sexo e poder» - coisa esta «irónica» na pia visão do Abominável, já que «a Igreja sempre foi a principal promotora da virtude» tanto em matéria de dinheiro, como de sexo, como de poder... E para quem duvide, Neves ensina que «a perfeição evangélica baseia-se nos votos de pobreza, castidade e obediência»...
É certo e sabido que, um dia destes, a fértil imaginação do Abominável virá mostrar-nos exemplos muitos da forma como os príncipes da Igreja cumprem à risca «a perfeição evangélica»...

Mas, pergunta Neves, «não serão graves e reais as acusações, como no caso dos padres pedófilos?» - e responde que a polícia e os tribunais é que decidirão... e que tudo isso se passou há muito, muito tempo, nalguns casos há tanto tempo que «a morte ou a prescrição tornam já impossível fazer justiça»... e só por «perseguição religiosa» é que se volta agora a falar nisso...
É certo e sabido que, um dia destes, o Abominável virá dizer-nos: «eu não vos disse?: todos os casos de pedofilia foram arquivados por prescrição»...

Finalmente, Neves explica a razão pela qual os «inimigos» lançaram agora esta «perseguição»: «o sucesso do pontificado de Bento XVI» - um «sucesso» tão, tão, tão grande - diz Neves - que os «inimigos», para o diminuir, tiveram que recorrer ao «cânone da injúria»...
É certo e sabido que, um dia destes, o Abominável virá demonstrar-nos que o pastor alemão é a única raça pura do planeta...

POEMA

O DESPERTAR


Acordaste.
Onde estás?
Na tua casa.

Ainda não ganhaste o hábito
de estar em casa
ao acordar.
É um dos males
resultante de treze anos de prisão.

Quem está deitado ao teu lado?
Não é a solidão.
É a tua mulher.
Dorme como um anjo.
Fica-lhe bem, à minha bela, a gravidez.

Que horas são?
Oito horas.
Isso quer dizer
que até à noite estaremos em segurança.
Segundo o costume,
enquanto for dia
a polícia não faz buscas.


Nâzim Hikmet

A BANCA GANHA SEMPRE

A Banca é, de facto, uma grande, anafada e próspera criatura.
Quer chova quer faça sol - isto é, quer o tempo seja de crise quer seja de retoma... - a Banca ganha sempre.
Porquê?: porque, como deste tempos imemoriais nos é dito, a Banca tem que ganhar sempre. E pronto.

Atente-se neste exemplo: a propósito do PEC3 e das suas consequências nos bolsos dos portugueses, alguém fez as contas e concluiu que os muitos milhões de euros que o Estado vai arrecadar serão assim distribuídos: os consumidores (isto é, a malta) entram com 93% e a Banca entra com 7%.
Mas isto é uma maneira de dizer, já que, como fez questão de nos informar um dos senhores 7% (neste caso o inevitável Faria de Oliveira, presidente da CGD) quem, de facto, vai pagar esses 7% são «os clientes da Banca» (isto é, a malta).
E assim se cumpre o sagrado princípio: a Banca ganha sempre.

Outro exemplo: o dinheiro com o qual o Estado salvou de falências fraudulentas o BPP e o BPN - dinheiro que era (deveria ser...) de todos nós - seria suficiente para baixar o défice de 7, 3 para 4, 6 %... e, portanto, os impostos não teriam que aumentar.
Mas vejamos: se os referidos bancos não tivessem sido salvos dariam uma má imagem da Banca em geral - o que acarrateria elevados prejuízos para a Banca em particular.
Ora, a Banca não pode ter prejuízos, a Banca tem que ganhar sempre...


Para que a Banca ganhe sempre, os «governos», os «mercados», «Bruxelas», a «Comissão»... não se poupam a esforços.
E chega a ser comovente o zelo, o enlevo, o desvelo com que essas instituições cumprem a sagrada tarefa de que estão incumbidas.
Por exemplo: o Banco Central Europeu - que, por razões óbvias, decidiu não fazer empréstimos directamente aos Estados - elegeu a Banca como intermediária nas suas relações com esses Estados, ou seja: empresta à Banca que, por sua vez, empresta aos Estados.
Mas atenção: como a Banca tem que ganhar sempre, o BCE cobra-lhe um juro de 1% de forma a que ela - a Banca - possa depois emprestar aos Estados cobrando-lhes um juro de 6% e, assim, cumprir o sagrado destino de ganhar sempre.

Até que a malta troque as voltas a esse destino...

POEMA

NO QUINTO DIA DE UMA GREVE DA FOME



Meus irmãos,
se eu não conseguir dizer correctamente o que tenho para vos dizer,
desculpar-me-eis, irmãos.
Estou levemente embriagado, a cabeça um pouco a andar à roda,
não de aguardente,
de fome, um nadinha.

Meus irmãos
da Europa, da Ásia, da América,
não estou na prisão, em greve da fome,
é como se estivesse deitado na relva, à noite, neste mês de Maio,
os vossos olhos brilham como estrelas à minha beira.
E as vossas mãos, uma só dentro da minha
como a da minha mãe,
como a mão da minha amada,
como a de Mémet,
como a de Mémet.

Meus irmãos,
convosco eu nunca estive sozinho:
não apenas eu,
mas também o meu país e o meu povo.
Porque vós amais os meus tanto quanto eu os vossos,
obrigado, irmãos, meus irmãos,
obrigado.

Meus irmãos,
não faço tenção de morrer.
Meus irmãos, continuarei e viver junto de vós, sei que sim:
estarei no verso de Aragon,
no seu verso
que fala dos belos dias que hão-de vir.
Estarei na pomba branca de Picasso,
estarei nas canções de Robeson.
E sobretudo
e melhor que tudo,
entre os estivadores de Marselha,
estarei no riso vitorioso dos meus camaradas.

Numa palavra, meus irmãos,
sou feliz, feliz a mais não poder.


Nâzim Hikmet

O QUE DAVA, SEI EU...

Quem está a viver momentos de dramática aflição e de pungente angústia com as medidas do PEC3 - especialmente no que respeita aos cortes nos salários - é o deputado Ricardo Gonçalves, do PS...
Não que esteja em desacordo com as ditas medidas. Pelo contrário: acha-as todas inevitáveis; acha até que já deviam ter sido tomadas há mais tempo; e acha, ainda, que é necessário que sejam muito bem explicadas ao povo.

A questão é que com o anunciado corte nos salários, ele, Ricardo Gonçalves, deputado do PS, «quase fica sem dinheiro para comer» - e isso é intolerável...
E é com a ameaça da fome a toldar-lhe a razão e o raciocínio que explica: «Estamos todos a apertar o cinto, mas os deputados são de longe os mais atingidos na carteira» - especialmente os «deputados da província», como é o seu caso, que têm que «pagar viagens, alojamento e comer fora».

E sempre a explicar... explica-se: «Ganho 3 700 euros por mês. E tenho mais 60 euros de ajudas de custo por dia»
E pergunta: «Acha que dá para tudo?»
E responde: «Não dá».

Claro que «não dá»...
O que dava, sei eu: era pôr o senhor Gonçalves a ganhar o mesmo que ganha a imensa maioria dos portugueses, ou seja: menos de um décimo do salário do deputado Gonçalves - e com efeitos retroactivos.
Ele bem o merecia - tanto mais que não só está de acordo com as medidas tomadas, como acha que vieram tarde....

POEMA

NÃO NOS DEIXAM CANTAR


Não nos deixam cantar, Robeson*,
meu canário com asas de águia,
meu irmão negro com dentes de pérola,
não nos deixam cantar as nossas canções.
Têm medo, Robeson,
medo da aurora, medo de olhar,
medo de ouvir, medo de tocar.
Têm medo de amar,
medo de amar como amou Ferhat, apaixonadamente.
(Decerto que também vocês, irmãos negros,
têm um Ferhat, como é que lhe chamas, Robeson?)
Têm medo da semente e da terra,
medo da água que corre,
medo da lembrança.
A mão de um amigo que não deseja
nem desconto nem moratória,
igual a um pássaro quente,
não apertou nunca a sua mão.
Têm medo da esperança, Robeson, medo da esperança!
Têm medo, meu canário com asas de águia,
têm medo das nossas canções, Robeson...



Nazim Hikmet


-----------------------------------------------------------

* Paul Robeson - cantor negro americano já falecido. Do seu repertório faima parte cantos espirituais negros e outras canções tradicionais e de combate. (N.T)

NO DIA 24 DE NOVEMBRO FALAMOS...

Nada mete mais medo ao grande capital - e, por dever de ofício, aos seus serventuários e propagandistas - do que a luta dos trabalhadores em defesa dos seus direitos e interesses.
Se essa luta atinge formas superiores - Greve Geral, por exemplo - então o medo transforma-se em pavor e o habitual vale-tudo mostra o que vale: redobram as pressões, chantagens, ameaças e represálias todos os dias exercidas sobre os trabalhadores em milhares de empresas, proibindo-os de exercer direitos consagrados na Constituição da República, entre eles, e especialmente, o direito à greve.
Em simultâneo, ao toque da campainha pavloviana, os propagandistas de serviço começam a salivar... e, repetindo-se e repetindo o que os seus antepassados vêm escrevendo desde tempos imemoriais, disparam as tradicionais rajadas de velharias ideológicas travestidas de modernidade.


Desta vez, o primeiro propagandista de serviço a entrar em cena (tanto quanto me apercebi) foi um tal Alberto Gonçalves - sociólogo com tabuleta para a rua e uma página dominical no Diário de Notícias.
À primeira vista, a arruaceira prosa de Gonçalves parece ser dirigida contra a poderosa Greve Geral recentemente erguida pelos trabalhadores espanhóis, mas, de facto, ela é produzida a pensar essencialmente no dia 24 de Novembro...
Com efeito, é com os temores apontados para essa data que o dominical sociólogo - que, a avaliar pelo conteúdo do que escreve, deve andar pelos 160 anos de idade - dispara raivosas rajadas contra os piquetes de greve: «essa instituição que se dedica a exercer violência sobre alguns trabalhadores»; essa «brutalidade»; essa «visão totalitária da humanidade»; essa coisa «protagonizada por indivíduos com o privilégio de um emprego estável que tentam obrigar os restantes a perderem o seu»...
Não há dúvida: o sociólogo sabe a velha lição na ponta da língua.

Tudo isso para chegar à «conclusão» habitual nestas ocasiões: que «a greve geral, alegada "demonstração de força" é, afinal uma confissão de impotência».
O que, a ser verdade, seria motivo para o sociólogo dos domingos fazer a festa, deitar os foguetes e apanhar as canas...
Em vez da festa, contudo, ele faz uma exibição dos receios que lhe vão naialma, da impotência que, de facto, o invade.
E, incomodado, provocador e com força de viagra, remata assim: «Incómoda e com frequência criminosa, mas impotência de qualquer modo, a qual será exibida a 24 de Novembro nas ruas do nosso país»...

Então, sendo assim, no dia 24 de Novembro falamos...

POEMA

A VIAGEM


A viagem fazemo-la num qualquer modesto cargueiro.
Existe ainda um porto onde não tivéssemos tocado?
Existe alguma espécie de tristeza que ainda não tivéssemos cantado?
O horizonte que a cada manhã tínhamos pela frente
não era igual ao que à noite deixávamos para trás?
Quantas estrelas desfilaram à nossa frente
roçando as águas?
Não era cada aurora o reflexo
da nossa grande nostalgia?

Mas é em frente que vamos, não é verdade?,
é em frente que vamos.


Nâzim Hikmet

A LUTA CONTINUA

A CGTP-IN comemorou o seu 40º aniversário.
Fê-lo da forma mais apropriada: realizando uma grande Assembleia de dirigentes e activistas sindicais - ou seja: em luta.

Os mais de 1300 sindicalistas presentes relembraram o 1 de Outubro de 1970, dia em que foi criada a Intersindical, que viria a transformar-se na Confederação Geral dos Trabalhadores Portugueses - Intersindical Nacional. A CGTP-IN.

Nos seus quarenta anos de vida, a CGTP-IN - unitária, de classe, democrática e de massas - afirmou-se como a grande central sindical dos trabalhadores portugueses, desempenhando um papel decisivo em momentos vários da nossa história colectiva.
Por isso tem sido alvo, por parte das forças do grande capital, de fortes e permanentes ofensivas tendo como objectivo - eles o disseram... - «quebrar a espinha à Intersindical»...

Objectivo fracassado - como o comprova o conteúdo da acção todos os dias desenvolvida pela CGTP-IN e, de forma particular, a Assembleia de ontem.
Em especial quando os 1 300 sindicalistas presentes aplaudiram entusiásticamente - e gritando «A Luta Continua» - a decisão de convocar uma Greve Geral para o dia 24 de Novembro.

É isso: A Luta Continua - e, na situação actual, a linha fundamental dessa luta é a criação de condições para que a Greve Geral se traduza num grande êxito da acção organizada e da luta dos trabalhadores.

POEMA

O LIVRO COM CAPA DE COURO


Na noite passada
à luz
fo luar
li, durante horas,
como um derviche louco
cuja vela se tivesse apagado,
li o livro com imagens a cores,
o grande livro da capa de couro dourado, já rasgada.

Cada página amarelecida
do livro que dorme
por baixo da capa rasgada
de couro dourado
espalhava
um odor a bafio.

As suas linhas animaram-se uma a uma
e diante da mesa de leitura
ergueram-se sob a forma
que lhe dão as fábulas:
O Diabo
tomou o aspecto de uma serpente,
Adão
sucumbiu
à atracção de Eva.
Vi Abel matar Caim como um danado,
um grande navio em madeira singrou no Oceano do sonho.
No horizonte vi Noé
à espera de uma pomba.
Então pareceu-me estar a calcar
a terra de um túmulo.
No alto do Monte Sinai vi Moisés
levantar os braços para Deus, que o ouviu
e a um sinal da sua vara o mar abriu-se.
Os filhos de Israel
encontraram o caminho da Terra Prometida...
A oração de Zacarias
trasnformou-se num suspiro infinito.
Jesus nasceu e Maria
fez Dom da sua virgindade a Deuas...

Medina ofereceu a morada
a Mahomé o chorichita,
e Kerbela para Husseyin
tornou-se uma sepultura de fogo.
Sim, pouco a pouco tudo isso
se levantava e despenhava através das idades,
à medida que eu virava as páginas
do livro que espalhava odor a bafio.
Desapareceu a lua, o sol ergueu-se
uma chama nova nasceu
no meu coração.
E depois
com um gesto profundo e solene
atirei-o para o fundo de um poço
de forma a poder dormir lá o sono eterno -
o livro das páginas amarelas
com capa de couro dourado, já rasgada!...

Pobres, pobres de nós que fomos enganados
durante séculos.
Que rastejámos
como répteis.
Que ardemos
como tochas
para lobrigar na escuridão
os sinais que lá foram traçados,
para vê-los
na noite escura
e prosternar-nos diante deles.
Tudo mentiras,
o céu não concedeu
nem a misericórdia nem a salvação
aos escravos que sofrem até mais não poderem,
Moisés, Mahomé, Jesus
concederam tão-só uma prece vã, um incenso mentiroso
com os seus infernos e os seus diabos,
apontaram-nos o caminho do paraíso das fábulas,
continuamos a ser escravos e a ter senhores,
e há sempre um muro,
um muro de pedras malditas cobertas de musgo,
que atribuiu dois destinos diferentes
aos filhos da terra,
chamando senhores a uns e escravos a outros!
Que todos os seus donos, santos e eremitas
desapareçam nos profundezas das trevas eternas
cujo caminho até agora nos fizeram seguir.

Nos caminhos da luz
só existe
uma única religião,
uma única lei, uma única fé, um único direito,
igual aqui como em toda a parte:
O TRABALHO DO TRABALHADOR!


Nâzim Hikmet

GREVE GERAL!

Lá fora:
«As medidas foram bem recebidas em Bruxelas»
«Os mercados estão satisfeitos com as medidas»
Pronto: o Governo pode dormir descansado...

Cá dentro:
Teixeira dos Santos, actual ministro das Finanças: «Devo dizer-vos que para tomar estas medidas dormi mal, mas, se não as tomasse, eu acho que não era capaz de dormir»
Está visto: o sono do ministro faz parte do «interesse nacional».

Vários ex-ministros das Finanças (uns do PS, outros do PSD, outros dos dois) acham bem, mas acham que é pouco.
Não percam o sono por causa disso: durmam um bocadinho que quando acordarem há mais.

Na reunião de Sócrates com o secretariado, a comissão política e o grupo parlamentar do PS, realizada após o anúncio das medidas: «ninguém atacou directamente as medidas em si. A ala esquerda (...) alinhou na defesa das medidas e na tese de que é preciso serem explicadas»
Com uma ala esquerda assim, o PS pode dormir tranquilo: nem precisa de ala direita.


Foi neste cenário de cambada bem dormida que o Conselho Nacional da CGTP aprovou ontem, por unanimidade, a realização de uma GREVE GERAL.
Vai ser no dia 24 de Novembro.
E estou em crer que, mal foi anunciada, a GREVE GERAL começou logo a tirar o sono à cambada.

POEMA

D. QUIXOTE


O cavaleiro da eterna juventude
ao atingir os cinquenta foi atrás
da razão que batia no seu coração.
Uma bela manhã de Julho partiu
à conquista da beleza, da verdade e da justiça.
Diante dele estava o mundo
com os seus gigantes absurdos e abjectos
e por baixo o Rocinante
triste e heróico.

Bem o sei,
uma vez que essa paixão se apodere de nós
e se tenha um coração de um peso respeitável
não há nada a fazer, meu D. Quixote, nada a fazer.
Há que enfrentar os moinhos de vento.

Tens razão,
Dulcineia é a mulher mais bela do mundo.
Claro que era preciso lançar tudo isto
à cara dos pequenos comerciantes de ninharias.
Claro que eles iam atirar-se a ti
e moer-te de pancadaria.
Mas tu és o invencível cavaleiro da sede.
Tu continuarás a viver como uma chama
dentro da pesada armadura de ferro.
E Dulcineia será cada dia mais bela.


Nâzim Hikmet