Para sempre

"Uma palavra. Disse-a. Amo-te - uma palavra breve. Quantos milhões de palavras eu disse durante a vida. E ouvi. E pensei. Palavras com inteira significação em si, o professor devia ter razão. Palavras que remetiam umas para as outras e se encostavam umas às outras para se aguentarem na sua rede aérea de sons. Mas houve uma palavra - meu Deus. Uma palavra que eu disse e repercutiu em ti, palavra cheia, quente de sangue, palavra vinda das vísceras, da minha vida inteira, do universo que nela se conglomerava, palavra total. Todas as outras palavras estavam a mais e dispensavam-se e eram uma articulação ridícula de sons e mobilizavam apenas a parte mecânica de mim, a parte frágil e vã. Palavra absoluta no entendimento profundo do meu olhar no teu, palavra infinita como o verbo divino. Recordo-a agora - onde está? Como se desfez? Ou não desfez mas se alterou e resfriou e absorveu apenas a fracção de mim onde estava a ternura triste, o conforto humilde, a compaixão. Não haverá então uma palavra que perdure e me exprima todo para a vida inteira? E não deixe de mim um recanto oculto que não venha à sua chamada e vibre nela desde os mais finos filamentos de si? Uma palavra. Recupero-a agora na minha imaginação doente. Amo-te. Na intimidade exclusiva e ciumenta do nosso olhar mútuo e encantado. Fecha-nos o lençol na claridade difusa do amanhecer, estás perto de mim no intocável da tua doçura. Frágil de névoa. Fímbria de sorriso e de receio, de pavor, no meu olhar embevecido. Uma palavra. A primeira que em toda a minha vida me esgotou o ser. A que foi tão completa e absorvente, que tudo o mais foi um excesso na criação. Deus esgotou em mim, na minha boca, todo o prodígio do seu poder. Ao princípio era a palavra. Eu a soube. E nada mais houve depois dela."

Vergílio Ferreira - Para Sempre (excerto)

HOJE NÃO HÁ POST

Hoje estou sem tema.

Primeiro, pensei escrever sobre o livro de Obama acabado de publicar: «Dez Discursos sobre a Paz e uma Mensagem às Crianças».
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar o Obama - e muito menos os seus discursos sobre a Paz, escritos e lidos nos intervalos das guerras mortíferas por ele decididas; e muito menos, ainda, a sua «mensagem às crianças», mensagem que, como ele sabe, nunca chegará aos milhares e milhares de crianças assassinadas pelas bombas lançadas pelos bombardeiros dos EUA, em nome da «paz».

Depois, lembrei-me da petição a favor das touradas, posta a correr pelo presidente da Câmara de Santarém, Moita Flores - que chama aos que não gostam de touradas «bando de senhores» que não respeitam «a tradição e a cultura nacionais», e outras coisas que tais...
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar o Moita Flores - personagem que, em matéria de opções políticas e ideológicas, já correu em todas e é, ele próprio, uma grande tourada.

Lembrei-me, ainda, de voltar ao Durão Barroso que, ontem, ameaçou que «um dia, se tiver saúde», também irá escrever as suas memórias, à semelhança do Blair, e contar a sua versão sobre o crime de que foi cúmplice.
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar o Durão Barroso. Pronto. (Ah!: e desejo-lhe que não tenha saúde para, um dia, escrever as suas memórias)

Em último recurso, pensei comentar o último Prós e Contras (que não vi mas que me foi relatado por quem viu) onde o «caso Casa Pia» foi tema.
Mas desisti: não estou com pachorra para aturar a Fátima Campos Ferreira disfarçada de jornalista - e muito menos os seus convidados: Carlos Cruz (condenado por práticas pedófilas); Marinho Pinto (que fez saber que, há tempos atrás, a pedofilia não era crime...); e Daniel Oliveira (igual a si próprio e é quanto basta).

Portanto, hoje não há post.

POEMA

COMBOIO


II


(A PIDE prendeu o meu filho, no Porto.)


A voz do telefone riu para tornar o mundo mais triste:
«O teu filho está preso.»

E riu.

Rimos
com lágrimas de dentes de esqueleto.

As outras ficaram
para a luz líquida das noites
dos olhos sepultos
(e oxalá ninguém as ouça chorar
aqui debaixo deste cobertor de lã...)

Lágrimas
-aquecimento secreto
à espera do rumor moribundo da manhã.


José Gomes Ferreira

Quotidianos III



"Não sei ler nem escrever mas não me ralo
alguns há que até a caneta lhes faz calo
é só assinar despachos e decretos
p'ra nos dar a ler a nós, analfabetos

E saúde, eu tenho p'ra dar e vender
não preciso de um ministro para ter
tudo o que ele anda a ver se me pode dar
pode ir ele p'ro hospital em meu lugar"

Sérgio Godinho - Coro das Velhas (Excerto)

EU PAGO PARA VER

Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, anunciou discurso no Parlamento Europeu.
E anunciou mais: fez saber que «vai utilizar pela primeira vez o modelo americano do discurso do Estado da Nação» - que é aquele discurso que o Presidente dos EUA profere todos os anos, perante as duas câmaras do Congresso e no qual apresenta as linhas mestras da sua política para os 12 meses seguintes.

Temos, assim, Barroso em bicos de pés, disfarçado de presidente dos estados unidos da Europa, na modalidade voz do dono, naturalmente acrescida do lusitaníssimo Porreiro, pá!...
E tamanho é o entusiasmo do homenzinho com o discurso anunciado - e com a suposta superior qualidade do dito - que deu ordens para que todos os deputados o vão ouvir.
Mais: exigiu a todos os deputados que picassem o ponto, para confirmar presença.
Mais ainda: ameaçou multar os deputados que não o fossem ouvir - anunciando, até, o valor da multa: 150 euros.


É claro que o presidente Barroso foi obrigado a desistir das exigências e a recuar nas medidas punitivas anunciadas: já não há ponto picado nem multas...
Mas fica o registo da predisposição do homenzinho, do que ele é capaz de fazer se o deixarem.

Portanto, cuidado com ele!
Não esqueçamos que o animal foi premiado com o cargo de Presidente da Comissão Europeia pelos serviços prestados no decorrer da reunião do bando dos quatro, onde foi decidida a invasão e ocupação do Iraque - invasão e ocupação que, concretizada, se saldou pela destruição do país e pelo assassinato de centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes.

E o facto de, na Cimeira dos Açores, o homenzinho apenas ter feito de porteiro e de criado de serviço às bebidas, não diminui em nada as suas responsabilidades no crime contra a humanidade que ali foi decidido e, posteriormente, cometido.

Tal como Bush, Blair e Aznar, o presidente da Comissão Europeia é um criminoso.
Que um dia será julgado. E condenado.
E nesse dia, não será necessário cobrar multas a quem não for assistir ao julgamento...
Eu pago para ver...

POEMA

ÁLBUM


XXIV


(Já anda!)


Se caíres
do arco-íris
a tua sombra abre-te os braços
para não te magoares no chão.

A indecisão
dos primeiros passos
na ponte dos séculos
leva agora minutos...

De pé
colhem-se melhor nas árvores
os astros iluminados nos frutos.


José Gomes Ferreira

Quotidianos II


«Eram tão lindos, tão suaves os dias ao teu lado. Nesse teu rosto moreno, que me é agora estrangeiro e onde longamente batem as pestanas desses teus embaraços que bem conheço, que são silêncios a eternizar-se entre nós, movem-se sombras, ideias furtivas que não consigo captar.Quando amassávamos o barro vermelho e ecoavam na tarde sons de lume e o vento cheirava a pão, quando olhávamos juntos, do nosso quarto andar, as estradas cor-de-rosa do crepúsculo, parecia, parecia apenas, que não havia segredos entre nós.»

Urbano Tavares Rodrigues - Violeta e a Noite (excerto)

DIAS DO FUTURO

Aquela Festa é assim: nós, os que lá vamos todos os anos, todos os anos sabemos que vamos voltar.

Ou, dito de outra forma: quem vai à Festa, seja ou não militante ou simpatizante comunista, gosta. E, no ano seguinte, volta - e, em muitos casos, traz outro amigo consigo...

Quem lá vai pela primeira vez, desde logo fica a conhecer as razões desta capacidade de atracção da Festa:
Os concertos?: claro.
A cultura?: sem dúvida.
As exposições?: não perco uma...
Os comícios e os debates?: obviamente.

Tudo isso. Mas, acima de tudo isso, o «convívio» - dizem uns; o «ambiente» - dizem outros; o «espírito da Festa» - dizem terceiros.
E, com isso, todos querem dizer o mesmo...


Numa excelente reportagem sobre a Festa, saída no Público de domingo, a jornalista Cláudia Sobral, em três dezenas de palavras disse tudo:
«Vêm velhos, vêm novos, papás e mamãs com bebés, comunistas ou nem por isso. Uns vêm pela política, outros pelos concertos ou pelo convívio» - e conclui: «Ainda não há festa como esta».

E um jovem visitante vindo do Porto - Telmo Parreira, de 21 anos - ouvido pela jornalista, deu as sua razões, naquela que é uma das mais belas e mais profundas definições da Festa:

«Posso não ser comunista mas aqui encontro um espírito que não encontro em mais lado nenhum. Só neste festival consigo sentar-me à mesa com pessoas trinta anos mais velhas do que eu e falar com elas como se fôssemos iguais».


Tudo isto a confirmar que aqueles três dias na Atalaia são dias de outro tempo que não o tempo presente: são dias do futuro.

Do futuro que conquistaremos através da luta - luta de que a Festa é, ela própria, uma expressão concreta.

POEMA

ÁLBUM


XXIII


(O instantâneo do menino na praia, a olhar para as mãos.)


Sentado no vento
vejo-o a olhar para a areia que escorre
por entre os dedos
- dez ponteiros
de um relógio atento.

As mãos dos homens
pensam o tempo.


José Gomes Ferreira

Quotidianos - Da maneira mais simples

A partir de hoje partilharei fotografias com maior regularidade. Urge-me denunciar a pobreza e a miséria, a fome e a exploração. Mas também, e não menos importante, os instantes vertiginosos de alegria e comoção transcendente, a paixão - como a foto abaixo -, os desencontros, a solidão, também o amor e o ódio, a raiva e a luta, a esperança, a condição humana. Digo: todos aqueles instantes que fazem os nossos quotidianos. E assim dou nome ao álbum: (caminhos) quotidianos da nossa esperança.



É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo. Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

Eugénio de Andrade - Apenas o começo

ENTÃO, ATÉ LOGO

Daqui por meia dúzia de horas, a Festa começa.
É uma maneira de dizer, dado que, de facto, a Festa começou no dia em que milhares de militantes e simpatizantes do PCP começaram a construí-la - com o seu trabalho voluntário, com a sua inteligência, com as suas capacidades, com os valores e princípios de que é feita a sua militância.

Militância revolucionária, pois claro, a única capaz de construir a Cidade do Futuro que é a Festa do Avante! - essa militância que faz da Festa o que ela é, desde o seu processo de construção, ao seu conteúdo político e cultural, ao ambiente solidário e fraterno que nela se vive durante três dias - o mesmo ambiente que, afinal, esteve presente em todo o processo de construção.

É por isso que nenhum dos restantes partidos políticos nacionais é capaz de construir uma Festa como esta - nem os restantes partidos nacionais todos juntos...
Na verdade, como poderiam eles construir uma Festa na base do trabalho voluntário e na qual estão sempre presentes os ideais e os valores de Abril apontando para o futuro socialista de Portugal?

É por isso que a Festa é o que é: três dias de Abril rumo ao Futuro.


Então, até logo.

POEMA

ÁLBUM


XIX


(Acordo. Noite alta. Sozinho na escuridão, o menino palra.)


O menino ri na sombra
contente de ver os pés nus.

Ver?

Sim, ver.
Na treva.

Ainda confunde as palavras
com a luz.


José Gomes Ferreira

É PRECISO AVISAR TODA A GENTE...

Nome: Israel Zelaya.
Idade: 62 anos.
Profissão: jornalista da Rádio Internacional de São Pedro Sula.
País: Honduras.

Nos últimos meses, à semelhança do que acontece com milhares de compatriotas seus, Israel Zelaya foi várias vezes ameaçado de morte.
Em Maio, a sua casa foi incendiada por «desconhecidos».

No dia 24 de Agosto foi assassinado com três tiros na cabeça.

É, tanto quanto se sabe, o 10º jornalista assassinado após o golpe fascista nas Honduras.

Sobre estes crimes, os média dominantes internacionais, os portugueses incluídos - sempre tão zelosos da defesa daquilo a que chamam «liberdade de informação», da qual se proclamam eméritos praticantes... - continuam a nada dizer: nem uma nota crítica, nem um apontamento solidário, nem, sequer, a simples notícia dos factos: nada.

No mundo, Portugal incluído, haverá certamente jornalistas que condenam esses crimes e , como cidadãos e como profissionais, desejariam denunciá-los e apelar à solidariedade para com as vítimas.
Por que não o fazem, então?

Voltamos à questão da «liberdade de informação» em vigor nos média propriedade do grande capital - uma «liberdade de informação» superiormente definida por aquele proprietário de um grande jornal britânico, que dizia:
«No meu jornal, os jornalistas têm toda a liberdade de escrever o que eu penso»...


O povo hondurenho continua, heroicamente, a resistir, a lutar: contra o fascismo, pela democracia, pela liberdade.
Pela liberdade de informação.
E essa resistência e essa luta serão tanto mais fortes quanto maior e mais ampla for a nossa solidariedade - designadamente denunciando os crimes praticados pelos fascistas e fazendo chegar essa denúncia ao maior número possível de pessoas.

É preciso avisar toda a gente...

POEMA

ÁLBUM


XVI


(«Ó papoilas da vingança/a nova cor da esperança/é a vossa cor». A mãe cantava-lhe estes versos. Entretanto consta que no Baleizão mataram uma camponesa: Catarina Eufémia.)


Toda a noite cantaste em voz baixa,
para adormecer o menino,
a canção do Graça:
«Ó papoilas dos trigais...»

Canta, canta,
para o acordares mais.

(Transforma-lhe os dedos
em pátrias de punhais.)


José Gomes Ferreira

A FONTE DE FORÇA ESSENCIAL

A candidatura comunista às presidenciais perturbou visivelmente o rebanho de comentadores de serviço nos média dominantes à direita e à «esquerda» (digamos assim...)
Percebe-se: eles não queriam que o candidato do PCP fosse um comunista - ou, como é uso dizerem no seu centenário linguajar, um «ortodoxo» - e, mal a notícia foi dada, correram ao baú de velharias, sacaram do habitual argumentário e dispararam.
Todos: à direita e à «esquerda» (digamos assim...)

(Daniel Oliveira, comentador com lugar cativo no Expresso, resumiu lapidarmente o pensamento (digamos assim...) dos restantes colegas, ao sublinhar que o candidato do PCP é «um obscuro dirigente (...) sem qualquer carisma e de uma ortodoxia perturbante» - isto no meio daquele luzido foguetório estrelejando velhas provocações, com o qual as pessoas desta condição exibem as suas qualidades e valências a quem utiliza os seus serviços e lhos paga).

Mas adiante: através das prosas dos comentadores à direita e à «esquerda» (digamos assim...), ficámos a saber, numa primeira fase, que o candidato do PCP - «ortodoxo», obviamente... - só era conhecido «na Soeiro Pereira Gomes» (o que, feitas as contas, daria, no dia das eleições, umas escassas dezenas de votos...).
Posteriormente, fomos informados que, afinal, o obviamente «ortodoxo» era conhecido «em todo o partido» (nada mal: podemos começar a contar a votação por dezenas de milhares...).

E, como a seguir se verá, as perspectivas são de crescimento da votação: a agência Lusa informa-nos que «Francisco Lopes é fenómeno de popularidade na terra natal» - Vinhó, concelho de Arganil - onde um jornalista da Lusa se deslocou para saber como era, e nos diz que «todas as pessoas contactadas pela reportagem se desfizeram em elogios ao filho da terra que entrou na corrida a Belém».

Registe-se, então, esta curiosidade:
todos os que conhecem o candidato comunista - «na Soeiro Pereira Gomes», «em todo o Partido», na «terra natal» - gostam dele... (coisa que não sei se acontecerá com qualquer dos candidatos presidenciais já anunciados, mais o que ainda não se anunciou...)

Posto isto, afigura-se-me que a grande tarefa que se coloca aos comunistas nesta campanha eleitoral é fazer com que mais e mais portugueses conheçam o seu candidato - já que conhecendo-o (e comparando-o com os restantes candidatos...), não hesitarão na escolha...

É claro que, neste caso, conhecer significa, fundamentalmente, saber o que cada candidatura e cada candidato representam.
No que diz respeito à candidatura de Francisco Lopes, tudo é claro como água: trata-se de uma candidatura patriótica e de esquerda; assumidamente integrada na luta contra a política de direita seja ela praticada por que partido, ou partidos, for; portadora de um projecto de ruptura e de mudança - enfim, vinculada aos valores de Abril.
No que diz respeito às restantes candidaturas... bom, nenhuma delas pode dizer o mesmo, nem nada que se pareça...

E é nesta singularidade da candidatura do PCP que está a sua fonte de força essencial.

POEMA

ÁLBUM


XV


(O meu filho foi hoje registado com o nome de Alexandre. Assim também se chamava o meu pai.)



A tua sombra arrasta agora uma palavra,
um nome,
manto branco,
lágrimas ao colo,
peso de bandeira,
comício nos olhos,
deixai vir a mim os velhos com crianças dentro
- voo de archote...

Oxalá lhe herdes o Sonho
como herdaste de todos nós a morte.


José Gomes Ferreira

CARTEIRISTAS

Diz o Diário Notícias que «há mil carteiristas identificados pela polícia só em Lisboa» - o que faz da Capital a «capital dos carteiristas»...
Na sua maioria são portugueses, mas já há mais de duas centenas de profissionais oriundos dos países de Leste e do Brasil.

É uma profissão bem paga - «roubar carteiras pode render mil euros num dia» - e com pouco risco - «não costuma dar cadeia».

Actuam em zonas específicas, respeitando cada um a área de intervenção dos outros colegas de profissão.
Fazem intervalos para almoçar e para conviver, sendo a Praça da Figueira um dos pontos de encontro preferidos para as horas de lazer.

No Verão, quando a cidade fica quase deserta, rumam a lugares mais concorridos: Algarve, Sul de Espanha e Fátima - neste caso para uma breve aparição no dia 13 de Agosto...



Posto isto, aqui fica o tradicional (e pelos vistos inócuo) aviso: cuidado com as carteiras!
E com os carteiristas.
Todos, mas especialmente os que não se assumem e que, designando-se por «governantes», todos os dias nos roubam nos salários, nas pensões e reformas, nos subsídios, na saúde, na educação...

POEMA

SALA DE CONCERTOS


LIII


(«Concerto nº 4» de Paganini: Espectáculo em que a peça principal foi a «música concreta» das palmas.)


O arco
do violinista
apareceu de súbito enfeitado
com fitas, bandeirinhas, cores de música,
laços, harmónicas, faúlhas...

E entre foguetes de pizzicatos
e apoteoses de faíscas
romperam dos subterrâneos da rabeca,
enroladas em serpentinas
de carnaval,
pombas com caudas em leque
e aplausos nos bicos
misturados com suor e cabelos
do acorde perfeito
final.

(Bravo! Bravo! Bis!)


José Gomes Ferreira

O SALÁRIO DO CRIME

Venho falar-vos, uma vez mais, da fortuna de Blair - mais precisamente, da fortuna obtida por Blair desde que deixou de ser primeiro-ministro da Grã- Bretanha.

A verdade é que, em consequência da podridão que foi a sua vida enquanto primeiro-ministro, o homem está podre de rico - o que, certamente, o leva a concluir, não apenas que o crime compensa, mas também que quanto mais massivo, mais violento, mais brutal, mais desumano for o crime cometido, maiores serão os proventos financeiros...
Com efeito, a co-responsabilidade de Blair no assassinato de centenas de milhares de pessoas inocentes fez dele um homem cheio de dinheiro.

E agora não sabe o que há-de fazer aos milhões e milhões de euros pagos por matar: gasta milhões e milhões e restam-lhe sempre milhões e milhões...
Por exemplo: o seu património imobiliário - avaliado em 18 milhões de euros - vai agora ser consideravelmente reforçado com a compra de uma mansão na ilha de Barbados, «para passar férias com a família» - e com a compra de uma casa para a filha, uma jovem estudante de 22 anos, por 1,2 milhões de euros.

Estas compras, dizem os «observadores», «relançam o debate sobre quanto dinheiro ganhou Blair desde que deixou de ser primeiro-ministro».
Sendo certo que «só em conferências ganhou uns 25 milhões de euros», não será menos certo que essa é apenas uma pequena fatia da recompensa total pelos crimes cometidos.
E as contas são fáceis de fazer: centenas de milhares de pessoas assassinadas?: centenas de milhões de euros de recompensa.

Já aqui sublinhei várias vezes que a profissão de ex-governante é, no mundo actual, uma das mais rentáveis.
Se esse ex-governante é, como no caso de Blair, um sanguinário criminoso de guerra, os proventos sobem na proporção directa da sangueira provocada.
É assim o salário do crime.

POEMA

SALA DE CONCERTOS


XLVI


(Stockausen. Música electrónica. Viagem espacial.)


Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo...

(Para os pobres é a Terra.)


José Gomes Ferreira

POR ISSO

A forma como a Festa do Avante! é tratada pelos média dominantes é talvez o exemplo mais flagrante do silenciamento a que esses média submetem toda a actividade do PCP - uma actividade que, recorde-se, é maior do que a soma das actividades de todos os restantes partidos...


A Festa, sem dúvida a mais relevante iniciativa política, artística, cultural, de massas,convivial realizada no nosso País, é o resultado do trabalho voluntário de milhares e milhares de militantes e simpatizantes comunistas - o tal colectivo partidário que tantas azias provoca aos patrões dos desinformadores de serviço...



Por isso, a Festa é um «perigo» que há que sujeitar aos tratos de polé dos «critérios» em voga nos média do grande capital.

Por isso, a construção da Festa é silenciada.

Por isso, ao Programa da Festa, anunciado em conferências de imprensa, são concedidas - quando são... - meia dúzia de linhas.


... Por isso, não surpreenderá se, um dia destes, a Festa aparecer nas primeiras páginas dos jornais como a «grande notícia»do dia.
Por exemplo, uma notícia a informar que a tal Entidade das Contas - que parece existir tendo como objectivo único acabar com a Festa do Avante! - considera que... os comunistas estão errados quando dizem que o lucro da Festa é a diferença entre as receitas e as despesas... ora, a Entidade é que sabe e como a Entidade diz é que é: o lucro da Festa é a soma de todas as receitas...


E é por tudo isso que - como no próximo fim-de-semana confirmaremos - NÃO HÁ FESTA COMO ESTA.

POEMA

SALA DE CONCERTOS


XLII


(Falla.)


Um anjo cigano
inventou um instrumento novo
- viola de sol e nevoeiro
com cordas de nervos de touro.

Para o tocar
é preciso
ouvir missa primeiro.


José Gomes Ferreira

POEMA

SALA DE CONCERTOS


XXXIII


(Lápide.)


Mozart morreu. E no meio da tempestade
de neve e abandono,
dois gatos-pingados
de rendas de luto
e vénias de minuete
lançaram o caixão
na vala comum,
a assobiar.

Todo o planeta
passou a ser a cova viva de Mozart.


José Gomes Ferreira

TUDO NOS CONFORMES

A turba canora que, sob os mais diversos pseudónimos - «comentador», «analista», «politólogo», «jornalista»... - propagandeia a política de direita, todos os dias, em todos os média dominantes, reagiu à candidatura comunista de Francisco Lopes nos moldes esperados.

Hoje, o DN, em meia dúzia de linhas, faz uma síntese rigorosa dos argumentos até agora utilizados pelos colegas de ofício na ofensiva contra o candidato do PCP.
Na sua rubrica «Elevador», o DN coloca Francisco Lopes a «descer».
E explica as razões - que são três, qual delas a mais poderosa:
1ª: é «um homem dos bastidores»;
2ª: tem «um discurso velho, ortodoxo»;
3ª: «e só fala no colectivo».

Devidamente traduzidas, dizem-nos estas razões que o candidato comunista, para estar a «subir», precisaria de:
1º: ter uma prática de defesa da política de direita - condição indispensável para atingir a ribalta medática;
2º: ter um discurso de defesa da política de direita -condição indispensável para que o dito discurso seja considerado «novo»; mais do que isso: «moderno».
3º: nunca esquecer que «colectivo» há só um: o do grande capital e mais nenhum - condição indispensável para uma noção de «colectivo» integrada na defesa da política de direita.


Ora, a candidatura de Francisco Lopes apresenta-se inequivocamente integrada na luta contra a política de direita;
o discurso de Francisco Lopes fala de um novo rumo para Portugal, «assente numa política patriótica e de esquerda, vinculada aos valores de Abril, capaz de realizar os direitos e as aspirações dos trabalhadores e do povo, de assegurar o desenvolvimento económico e o progresso social e afirmar a identidade cultural, a soberania e a independência nacionais»;
e o «colectivo» referido por Francisco Lopes é (utilizando as palavras de Álvaro Cunhal) «o nosso grande colectivo partidário».

Assim sendo, está tudo nos conformes:
os média do grande capital dizem o que lhes compete dizer sobre a candidatura comunista;
a candidatura comunista dará mais força à luta contra a política de direita, até a derrotar e substituir por uma política de esquerda - e «tendo sempre no horizonte o socialismo».

POEMA

SALA DE CONCERTOS


XXX


(«Requiem» de Mozart.)


Ímpeto de rasgar o tecto com as mãos
para gritarmos aos astros,
cá de baixo das labaredas do nosso poste:

«O mistério somos nós.

Fomos nós, os homens,
que criámos a morte.»


José Gomes Ferreira

UMA NOTÍCIA DIFERENTE

Das vidas dos jogadores de futebol muito nos é dito, sendo certo que Ronaldo - com os seus ganhos, os seus gastos, os seus automóveis, os seus relógios, as suas casas, as suas namoradas, a sua mãe, a sua irmã, o seu filho, os seus amuos... - é, de todos, o mais falado.
Acontece que, de vez em quando - muito de vez em quando - surge uma notícia diferente, em que a tradicional coscuvilhice é substituída por algo que vale a pena saber.
É o caso da notícia divulgada pelo Público (a pretexto do recente jogo entre o Sevilha e o Braga) sobre Frédéric Oumar Kanouté, o franco-malinês jogador do Sevilha.

Ali ficamos a saber que Kanouté é um homem que pensa e que, agindo de acordo com a sua consciência, diz o que pensa.
Para ele, «não ser indiferente ao que se passa no mundo é uma obrigação moral».
Assim, o jornal recorda que, há uns tempos atrás, Kanouté festejou a marcação de um golo mostrando uma t-shirt com a palavra «Palestina» - em solidariedade com o povo palestino e denunciando os crimes cometidos pelo governo israelita.

Pelo seu acto solidário, o jogador foi castigado com o imediato cartão amarelo acrescido de uma multa - «por ter veículado uma mensagem política durante um jogo de futebol» - dizia a acusação...
Pois...

Pronunciando-se sobre o que fez e sobre os castigos de que foi alvo, Kanouté afirmou:
«Se recuasse no tempo faria tudo igual. Continuarei a apontar o dedo a todos aqueles que continuam a matar na Palestina. Não posso pactuar com uma injustiça tão grande».


Que marque muitos golos é o que lhe desejo.
E que não desista de «apontar o dedo» - ou a t-shirt ... - a todos os criminosos.

POEMA

SALA DE CONCERTOS


XIV


(«Tristão e Isolda no Teatro de S. Carlos. Vejo mal o palco, por causa da coroa. Maldita Coroa Real! Vontade de derrubá-la e esmagar alguns parvos da plateia. Atrás de mim o escultor Dias Coelho, mais tarde assassinado pela PIDE, ao lado de uma rapariga.)


Atrás de mim na Geral
dois jovens efémeros da mãos dadas,
Filtros de Suor na pele ardente,
aproveitam esta melodia
para fingir que se amam
na mentira de se amarem eternamente...

Enquanto eu continuo na minha ilusão com musgo
de amar ninguém em toda a gente.


José Gomes Ferreira

HONDURAS: O FASCISMO

Nas Honduras, os fascistas - no poder graças ao apoio do Governo de Obama - prosseguem a sua acção criminosa.
Bastaria o que acima é dito para ficarmos com uma ideia aproximada da situação existente naquele país.
Ou seja: sabendo-se o que é o fascismo, as práticas brutais a que recorre, oe métodos terroristas que utiliza, não é difícil imaginar as consequências dessas práticas e desses métodos.
No entanto, todos os dias chegam notícias com exemplos concretos da repressão, da violência, da brutalidade que pesam sobre o martirizado povo hondurenho.

Notícias que os média dominantes ocultam, como lhes compete - e como os seus «critérios informativos» impõem: na verdade, se esses média informassem sobre a repressão, a brutalidade, os crimes cometidos, como é que poderiam continuar a «informar» sobre a «democracia» exemplar existente naquele país?...


Eis a mais recente notícia chegada das Honduras:
Berta Oliva, presidente do Comité de Familiares de Detidos e Desaparecidos, acaba de anunciar a descoberta de uma vala comum com mais de 100 cadáveres de pessoas assassinadas nos últimos três meses.


Entretanto, a luta do povo hondurenho pela liberdade e pela democracia continua.
E continuará.
Até que os fascistas locais e os seus chefes superiores instalados na Casa Branca sejam definitivamente escorraçados das Honduras - o que acontecerá, mais tarde ou mais cedo.

POEMA

SALA DE CONCERTOS


X


(Primeiro intervalo no Teatro de S. Carlos. Sorrimos uns para os outros. «Então como está?» «Há muito que não o via!»... Musgo. Teias de aranha nos ouvidos. Fascismo de «smoking». Passo pelos corredores escondido atrás de mim mesmo.)


Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.

E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos.

Mas vivos que são?
Mortos incompletos.


José Gomes Ferreira

NO CAMINHO DE ABRIL

Já havia quatro candidatos: três anunciados (Manuel Alegre, Fernando Nobre e Defensor de Moura) e um por anunciar (Cavaco Silva).
No entanto, nenhum dos quatro se posiciona como opositor da política de direita - essa política que há 34 anos vem devastando Portugal e os portugueses; flagelando as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e do povo; destruindo Abril, as suas conquistas históricas, a sua democracia avançada, a sua Constituição; entregando a soberania e a independência de Portugal nas garras do grande capital internacional.

Assim sendo, que esperar destes candidatos?
De Cavaco - que durante dez anos, enquanto primeiro-ministro, foi um implacável executor dessa política e enquanto PR foi um seu fidelíssimo apoiante - o que há a esperar é mais do mesmo.

De Alegre - que durante mais de três décadas, enquanto deputado e dirigente do PS, disse que sim ao essencial dessa política e que, enquanto candidato, é apoiado pelo partido que, no Governo, aplica implacavelmente essa política - o que há que esperar é mais do mesmo.

É claro que há diferenças entre estes dois candidatos: Cavaco não é Alegre e Alegre não é Cavaco...
O que quero dizer é que, no que respeita à questão essencial e que tem que ocupar o centro do debate destas eleições presidenciais - a política praticada há 34 anos por sucessivos governos PS/PSD/CDS-PP - as diferenças são mínimas, irrelevantes, insignificantes.

É deste cenário «mais do mesmo» que emerge, frotalmente contra o «mais do mesmo» e por um novo rumo para Portugal, a candidatura do PCP, protagonizada por Francisco Lopes, membro do Secretariado e da Comissão Política do Comité Central do PCP.

Trata-se de uma candidatura que, sem rodeios nem ambiguidades de qualquer espécie, diz ao que vem e o que quer: uma candidatura que se afirma inequivocamente contra a política de direita e que integra e se insere na luta das massas populares; que defende uma política patriótica e de esquerda vinculada aos valores de Abril, aos direitos e aspirações dos trabalhadores e do povo, ao desenvolvimento e progresso social, à nossa identidade cultural, à nossa independência e soberania.

Trata-se da candidatura que faltava: de esquerda e ao serviço dos valores da esquerda.
Ou seja: uma candidatura que visa dar um contributo para a derrota da política de direita e a conquista de uma política de esquerda - no caminho de Abril.

POEMA

SALA DE CONCERTOS


IX


(Visão de Mahler. Improviso durante a audição na Rádio da Primeira Sinfonia. Sim, Abelaira: gosto muito do Mahler - que me soa às vezes como uma espécie de Schubert trágico.)


Marcha fúnebre
com os vivos todos em caixões
e o cadáver atrás, a pé, sozinho,
ao som da filarmónica
que marca o passo a fingir vida
na poeira morta
do caminho.

Filarmónica transcendente
que afinal
só toca a valsa banal
da morte nua de toda a gente.


José Gomes Ferreira

OFERTA AO SR. MINISTRO

O ministro da Defesa - o inimitável Santos Silva - acaba de proceder a uma das mais bizarras representações alguma vez protagonizadas por qualquer governante de qualquer país do Planeta: disse ele que o Governo português vai «enviar espiões militares para o Afeganistão e para o Líbano».

Podia tratar-se de uma daquelas estórias que se contam no Dia das Mentiras.
Mas não: o ministro Santos Silva informou mesmo.
E teve a preocupação de o fazer em entrevista a um jornal - certamente para garantir que a informação chegue a todo o mundo, inclusive aos países onde os anunciados espiões vão exercer a anunciada espionagem...

Falta agora que o ministro, em nova entrevista ou através de um comunicado, complete a informação, divulgando currículos e outros dados importantes sobre os espiões que vai enviar.

Aqui fica, como oferta minha ao ministro Santos Silva, a sugestão sobre o tipo de informação a divulgar:
Fulano de tal, de X anos de idade, natural de..., morador em..., de profissão espião, chegará ao aeroporto de tal, no Afeganistão (ou no Líbano), no dia tal, às tantas horas, no voo nº Y da companhia de aviação Z.

POEMA

SALA DE CONCERTOS


II


(«Sonata a Kreutzer» tocada por Menuhin, no Tivoli.)


Que crime confessa Beethoven
nesta sonata?

Matou talvez em sonhos
a Sempre-Apetecida
com mãos de quem não mata.

E agora confessa o crime
- farto do amor eternamente sublime.

(Beethoven:
ai de quem não ama
como quem morre
- na cama.)


José Gomes Ferreira

O PRECONCEITO

A pretexto da aproximação da data do seu 90º aniversário natalício, Nadir Afonso - nome grande da pintura portuguesa - foi entrevistado por João Céu e Silva, para o Diário de Notícias.

Para além de grande pintor, Nadir Afonso é um personagem excêntrico até dizer chega e com um complexo de superioridade que o faz apresentar-se, entre outras coisas, como o supra-sumo do saber universal em matéria de arte e estética (e não só) - imagem que perpassa por toda a entrevista, repetidamente, exaustivamente, até ao incómodo...

A dada altura, na sequência de uma desenfreada manifestação de saber por parte do entrevistado (no desenvolvimento da ideia, que é a dele, de que aquilo que há de perpétuo e imutável na obra de arte são as suas raizes matemáticas), o entrevistador perguntou-lhe se leu «o Estudo de Álvaro Cunhal, A Arte, o Artista e a Sociedade».
Responde Nadir Afonso: «Não li, mas posso acrescentar que para ele os bons pintores eram os do seu partido»...

O homem podia ter dito apenas a verdade, só a verdade e nada mais do que a verdade: «Não li» - e ninguém lhe levaria a mal por isso.
Todavia, optando por pronunciar-se sobre o que não leu, e deixando-se levar pelo preconceito estúpido, fez figura de... fez má figura, pronto...

Não deixa de ser interessante, no entanto, que com a sua afirmação preconceituosa, Nadir Afonso «recrutou» para militantes do PCP figuras como Giotto, Da Vinci, Miguel Ângelo, Tintoretto, Rubens, Mantegna, Hoblein, Murillo, Goya, Miró, Velásquez, Rembrandt, Chagall... - isto para citar (de memória) apenas alguns dos artistas que, porque apreciados por Álvaro Cunhal, terão que ser, segundo Nadir Afonso, «do seu partido»...

Procurei - e encontrei - uma afirmação de Nadir Afonso, proferida há tempos numa outra entrevista:
«Sou uma competência em arte, mas sou um analfabeto, um atrasado mental em muitas disciplinas»...
Admita-se-lhe a «competência» e perdoe-se-lhe o resto...

POEMA

CINZAS


XXVI


(Derrocada.)


Vale-me, orgulho,
ou lá o que és
deste chão peninsular
- e ata-me aos pés
o pedregulho
dos cadáveres hirtos lançados ao mar.

Vem com mãos de metal
endireitar-me a espinha
e ordena que se cale
esta voz a chorar dentro da minha.

Ergue-me da lama onde o céu atola
os corações dos sapos caídos da lua
e leva-me pela gola
de rua em rua.

Abre
na súplica deste meu olhar de desprezo
um clarão de desafio de sabre
ao mundo em peso.

E dá depois um destino de asas pretas
à sombra dos meus passos
- cabeça erguida, a atirar planetas
para os espaços.

Eu, o poeta militante,
que por ódio à dor que se mascara
desci do meu mirante
e vim para a rua de lágrimas na cara.

Não lágrimas de mãos postas
ao luar gemebundo
(a fingir que trago às costas
a dor do mundo)...

...Mas estas - vede -
lágrimas de cicatriz
que correm no sangue da sede
dos homens viris.

Lágrimas que só ostento
para as guardar secretas
(o eterno tormento
de todos os poetas).

Ah! mas que nenhum Sonho, nenhuma Voz me embale
- nem a tua, orgulho, que possuis
a limpidez de um punhal
em mãos azuis.

Não me tragas penugens de regaços
quando me deito,
nem me leves nos braços
para outro leito.

Não me persuadas
de que há nos meus versos palavras de magia
que vão à frente, de lâmpadas atadas,
a iluminarem a morte que nos guia.

Nem me iludas de que posso transformar a Terra
e arrancar os mortos das mortalhas
com os meus versos de tremor de terra
- afinal pássaros de nuvens a cantar nas muralhas.

Não, orgulho. Dá-me apenas esta lâmina de olhos nus
com lágrimas por dentro a rasgarem a realidade
-para poderem ver bem o fel, o suor, o pus
e a solidão da Verdade.


José Gomes Ferreira