POEMA

CANÇÃO DA MÃE DE UM SOLDADO
DE PARTIDA PARA A BÓSNIA


É muito jovem, sem tempo ainda
de ser triste. Demora-se nos meus olhos
enquanto leva a maçã à boca.

Nenhuma fala obscura escurece a tarde,
a cabeleira solta é a sua bandeira;
o pés brancos, irmãos
da chuva de verão, anunciam a paz.

Suplico à estrela da manhã
que lhe guie os passos, agora que partiu;
que tenha em conta a sua ignorância,
não só da morte, também da vida.


Eugénio de Andrade
(«Os Lugares do Lume» - 1998)


(Com este poema termina o ciclo Eugénio de Andrade que, de há semanas a esta parte, o Cravo de Abril tem vindo a oferecer aos seus visitantes, e com o qual se pretendeu acompanhar - através de uma, inevitavelmente discutível, selecção de poemas - os caminhos poéticos percorridos, ao longo de cerca de sessenta anos, por um dos maiores nomes de sempre da Poesia portuguesa)

DEMOCRACIA COMEZINHA

«Um problema comezinho»: eis como Mário Soares considera este caso de corrupção, tráfico de influências & etc, conhecido por Face Oculta.
Há que reconhecer a pertinência e a oportunidade desta opinião do pai da política de direita - aliás, a confirmar esta realidade comezinha: Soares está sempre, sempre em cima da jogada...

A verdade é que, neste cadaveroso reyno da política de direita, a degradação e a abjecção são de tal ordem que não há bandalheira, por maior e mais grave que seja, que não seja «um problema comezinho»...

Comezinha é a multiplicação das «faces ocultas» - e a consequente multiplicação das «faces ocultas arquivadas».
Comezinhos são, por esta ordem: 1 - o surgimento do nome do primeiro-ministro ligado a muitos desses «casos»; 2 - o surgimento de uma branqueadora «campanha negra» que resolve tudo; 3 - e, adeus, até ao meu regresso.

O «problema comezinho» é um filho da mãe danado e todos os dias temos temos notícias dele, já que, sendo o filho querido da política de direita, pulula em todas as divisões da casa familiar: veja-se, por exemplo, o «caso» desta senhora que, porque não integrou as listas do PS para a AR, e tendo sido derrotada na sua candidatura à Câmara de Alpiarça, foi agora compensada com o cargo de Governadora Civil de Santarém. Ou este outro «problema comezinho» de um colega da dita senhora que, porque não foi eleito para a Assembleia da República na lista do PS em Lisboa, vai ser agora premiado com o cargo de Governador Civil de Lisboa. Ou, ainda nesta mesma área do «comezinho», este colega dos dois anteriores premiados, que, derrotado na eleição para a Câmara de Espinho, acaba de ganhar a nomeação para Governador Civil de Aveiro.

Isto para não falarmos do «problema comezinho» que é a engorda constante dos lucros dos grandes grupos económicos e financeiros - e, na outra face do «comezinho», o aumento constante do desemprego, da precariedade, dos salários em atraso, da pobreza, da miséria...

Enfim, coisas da democracia comezinha, filha de Mário Soares e de não sei que mãe... ou mães...

POEMA

O SACRIFÍCIO


Não gostaria de falar desse primeiro
encontro com as dificuldades do corpo.
Ou não seriam do corpo? Fora
do corpo haverá alguma coisa?
Foi há tantos anos, que espanta
que dure ainda na memória.
A extrema juventude guarda melhor
o tempo. Idade da flor, assim
lhe chamam. Idade de ser homem,
dizem também. O que é então
ser homem? Ou ser mulher?, se poderá
perguntar. Aqui, era ser homem: idade
de ir às putas. Entrava-se na sala
envergonhado, depois de se bater
à porta. Elas lá estavam: num salto
uma apalpou-o: Que cheiro a cueiros,
exclamou, olhando o cordeiro
do sacrifício. Ao fim, com dez escudos
pagavas o seres homem.
Não era caro, provares a ti mesmo
que pertencias ao rebanho.


Eugénio de Andrade
(«Os Lugares do Lume» - 1998)

ARY SEMPRE!

Intelectual que, desde muito cedo, fez a sua opção política e de classe - e a essa opção permaneceu fiel durante toda a sua vida - o Zé Carlos foi o Poeta das lutas da classe operária e dos restantes trabalhadores e foi o Poeta do seu Partido - o Partido Comunista Português.

Quando, a dada altura, o PCP levou por diante uma campanha de recrutamento de 10 mil novos militantes e, para assinalar o fim dessa campanha e o êxito alcançado, realizou um comício que encheu a deitar por fora o Campo Pequeno, o Partido pediu ao Zé Carlos que fizesse um poema alusivo a esse acontecimento.

Ele escreveu e foi ler, no comício, este poema:



E CADA VEZ SOMOS MAIS


Pela espora da opressão
pela carne maltratada
mantendo no coração
a esperança conquistada.
Por tanta sede de pão
que a água ficou vidrada
nos nossos olhos que estão
virados à madrugada.
Por sermos nós o Partido
Comunista e Português
por isso é que faz sentido
sermos mais de cada vez.

Por estarmos sempre onde está
o povo trabalhador
pela diferença que há
entre o ódio e o amor.
Pela certeza que dá
o ferro que malha a dor
pelo aço da palavra
fúria fogo força flor
por este arado que lavra
um campo muito maior.
Por sermos nós a cantar
e a lutar em português
é que podemos gritar:
Somos mais de cada vez.

Por nós trazermos a boca
colada aos lábios do trigo
e por nunca acharmos pouca
a grande palavra amigo
é que a coragem nos toca
mesmo no auge do perigo
até que a voz fique rouca
e destrua o inimigo.
Por sermos nós a diferença
que torna os homens iguais
é que não há quem nos vença
cada vez seremos mais.

Por sermos nós a entrega
a mão que aperta outra mão
a ternura que nos chega
para parir um irmão.
Por sermos nós quem renega
o horror da solidão
por sermos nós quem se apega
ao suor do nosso chão
por sermos nós quem não cega
e vê mais clara a razão
é que somos o Partido
Comunista e Português
aonde só faz sentido
sermos mais de cada vez.

Quantos somos? Como somos?
novos e velhos: iguais.
Sendo o que nós sempre fomos
seremos cada vez mais!

POEMA

À ENTRADA DA NOITE


Fogem agora, os olhos: fogem
da luz latindo.
Estão doentes, ou velhos, coitados,
defendem-se do que mais amam.
Tenho tanto que lhes agradecer:
as nuvens, as areias, as gaivotas,
a cor pueril dos pêssegos,
o peito espreitando entre o linho
da camisa, a friorenta
claridade de abril, o silêncio
branco sem costura, as pequenas
maçãs verdes de Cézanne, o mar.
Olhos onde a luz tinha morada,
agora inseguros, tropeçando
no próprio ar.


Eugénio de Andrade
(«Os Lugares do Lume» - 1998)

«A PÁTRIA DA DEMOCRACIA»

Em todo o lado onde os EUA se metem há sempre democracia à fartazana - ou não fossem os EUA, como os média dominantes nos dizem todos os dias, «A PÁTRIA DA DEMOCRACIA»...

Não vou falar do Afeganistão, nem do Iraque, nem do Médio Oriente, nem da ex-Jugoslávia (Kosovo incluído), nem da Colômbia...
E muito menos falarei de Portugal, cuja modelar democracia vigente tanto deve ao «amigo americano» do Dr. Mário Soares...

Falo apenas, das Honduras e de Guantánamo.

No primeiro caso, para assinalar que o golpe militar fascista vai de vento em popa, graças a um notável serviço combinado entre os democratas que governam os EUA e os seus gémeos que governam as Honduras.
Como estava previsto, dentro de dias vão realizar-se as «eleições» que «elegerão» o futuro «presidente» e... pronto: se há «eleições», há «democracia», não é verdade?...

É claro que a quase totalidade dos países do mundo não reconhece essas «eleições», antes as considera mais um golpe - mas de que vale a opinião do mundo quando não coincide com a opinião do dono do mundo?...
Acresce que, para dar à coisa, o necessário toque insolente e provocatório que é alimento básico da «democracia made in USA», o Presidente do Congresso hondurenho anunciou que o dito Congresso vai finalmente reunir para decidir se sim ou não restitui o poder a Manuel Zelaya - decisão que, como estamos lembrados, fazia parte do célebre «acordo» perpetrado pelos governos de Obama e do fascista Micheletti - «acordo histórico», assim lhe chamou a buliçosa Hillary Clinton.
Ora, a dita reunião do dito Congresso foi marcada para o dia... 2 de Dezembro - isto é: para três dias depois das «eleições presidenciais» convocadas pelos golpistas e apoiadas pelo Governo de Obama.

Ah!, já me esquecia: não obstante o seu apoio aos golpistas, o Governo de Obama considera que Manuel Zelaya é o «presidente legítimo das Honduras»... - cá está o tal toque insolente e provocatório que é pão de cada dia da «democracia made in USA».


Quanto à prisão de Guantánamo, esse moderníssimo centro de tortura - tortura democrática, obviamente - cujo objectivo primeiro é levar os presos a confessar tudo o que os torturadores queiram: como estamos lembrados, a primeira decisão anunciada (e assinada) por Obama, após a tomada de posse como Presidente dos EUA, foi a do encerramento da prisão de Guantánamo, até Janeiro de 2010.
Foi a primeira grande «promessa» de Obama.

E é, também, a primeira a não ser cumprida: ontem, Obama anunciou o adiamento do fecho da prisão de Guantánamo - e recusou comprometer-se com uma nova data.
É caso para dizer que à primeira cavadela, minhoca.

Mas não há problema: em Guantánamo como nas Honduras, como no resto do mundo, a «democracia» está a salvo: a «pátria» dela zela por ela.
E por nós...

POEMA

DAI-ME UM NOME


Dai-me um nome, um só nome
para tudo quanto voa:
cardo pedra romã.

Um só nome para o desejo
ser na manhã corola
de cal, cotovia,

chama subindo
baixando até ser incêndio
de amor rente ao chão.

Um só nome para que tudo,
rosa excremento mar,
possa entrar numa canção.


Eugénio de Andrade
(«Os Lugares do Lume» - 1998)

ARY SEMPRE!

O funeral do Zé Carlos - impressionante cortejo de dezenas de milhares de pessoas, caminhando sob a chuva - foi uma inesquecível manifestação de massas, com o carácter e o conteúdo de tantas outras em que o Poeta participara, pessoalmente ou através dos seus poemas de luta.

Gente vinda de todo o País:
homens e mulheres; rapazes e raparigas; intelectuais e estudantes; camponeses e empregados; construtores da Reforma Agrária e das Nacionalizações.
Operários: da Lisnave e da Siderurgia, da Mague e das OGMA, da Sorefame e da Cometna, da Covina e da Fábrica da Loiça, dos Cabos Ávila e da Cel-Cat..., muitos vindo directamente do trabalho, com os seus fatos de ganga e os punhos erguidos, todos sabendo que, como o Zé Carlos cantou,
«Ser operário é apenas saber dar
mais um pouco de nós ao que nós somos»



A FÁBRICA


Da alavanca ao tear da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.

Da prensa que se fez para esmagar
à tupia no corpo da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta de uma britadeira.

Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solde
às luz da luta e não do acetileno

nasce este canto imenso e universal
sincopado enérgico fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.

Transformar a matéria é transformar
a própria sociedade que nós fomos
ser operário é apenas saber dar
mais um pouco de nós ao que nós somos.

Um braço é muito mas por si não chega
por trás da nossa mão há uma razão
que faz de cada gesto sempre a entrega
de um pouco mais de força. De mais pão.

Estamos todos num único universo
e não há uns abaixo outros acima
pois se um poema é uma obra em verso
um parafuso é uma obra-prima.

Operários das palavras ou do aço
da terra do minério do cimento
em cada um de nós há um pedaço
da força que só tem o sofrimento.

Vamos cavá-la com a pá das mãos
provar que em cada um nós somos mil
é tempo de alegria meus irmãos
é tempo de pegarmos por Abril.

POEMA

OS PEQUENOS PRAZERES


O copo de água fresca
sobre a mesa,
a réstea de luz incendiando
ainda a mão,

as palavras que dão sentido à arte
dos dias a caminho do fim,
"a beleza
é o esplendor da verdade",

o sol
que dos flancos do muro sobe
ao olhar do gato,
o silêncio de ramo em ramo,

a chuva em surdina
na folhagem do jardim
- a chuva e a cumplicidade
de Gieseking e Debussy.


Eugénio de Andrade
(«Os Lugares do Lume» - 1998)

QUESTÃO DE PRINCÍPIO

É sabido que, para os média dominantes - propriedade do grande capital - o silenciamento, a deturpação, a falsificação, a manipulação das posições do PCP, é uma questão de princípio.
Por razões que nem vale a pena referir, tão óbvias são - e que são as mesmas que levam esses mesmos média dominantes a desdobrarem-se na super-valorização, no elogio, no panegírico, na louvação das posições do BE...

Há cerca de um mês, chamei a atenção para um exemplo concreto:
na primeira sessão da actual Legislatura - em 15 de Outubro - o PCP entregou na mesa nove diplomas, em torno de matérias do interesse daquela imensa maioria de portugueses que todos os dias é flagelada pela política de direita imposta pelo governo PS/Sócrates, enquanto conselho de administração dos interesses do grande capital.

Os média deram pouca (ou nenhuma) relevância a essa iniciativa do Grupo Parlamentar do PCP.
Em contrapartida, trouxeram para as suas primeiras páginas... um tema «fracturante»: as propostas que o BE iria apresentar sobre «casamentos "gay" e uniões de facto»...


Mais recentemente, no dia 2 de Novembro, o Grupo Parlamentar do PCP anunciou a entrega de um Projecto de Lei sobre a corrupção, visando designadamente a criminalização do enriquecimento ilícito.
A proposta do PCP teve pouca (ou nenhuma) repercussão nos média dominantes - talvez por não ser «fracturante», sei lá...

Mas eis que, hoje, dia 16, o Diário de Notícias dá grande destaque (e meia página) à notícia de que o BE anunciou, ontem, que vai apresentar na AR «quatro propostas anticorrupção», visando designadamente a «criação do crime de enriquecimento ilícito»...

Sobre a iniciativa do PCP, anunciada em 2 de Novembro, nem uma palavra.
Percebe-se: é a tal questão de princípio.

POEMA

HÁ DIAS


Há dias em que julgamos
que todo o lixo do mundo nos cai
em cima. Depois
ao chegarmos à varanda avistamos
as crianças correndo no molhe
enquanto cantam.
Não lhes sei o nome. Uma
ou outra parece-se comigo.
Quero eu dizer: com o que fui
quando cheguei a ser
luminosa presença da graça,
ou da alegria.
Um sorriso abre-se então
num verão antigo.
E dura, dura ainda.


Eugénio de Andrade
(«Os Lugares do Lume» - 1998)

ARY SEMPRE!

A Revolução de Abril estava à beirinha de comemorar o seu 20º aniversário, quando o seu Poeta morreu: no dia 19 de Janeiro de 1984. Há 25 anos.
Nunca um Poeta teve tanta gente a acompanhá-lo no dia da sua morte.

«O corpo do Poeta ficou em câmara ardente na Sociedade Portuguesa de Autores e, durante toda a noite, uma fila ininterrupta de pessoas desfilou junto à urna, sobre a qual, de acordo com a sua vontade, fora estendida a bandeira do Partido - a bandeira comunista, que ele cantara em versos carregados de futuro, por ocasião do ataque terrorista ao Centro de Trabalho do PCP, em Braga».



A BANDEIRA COMUNISTA


Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
a falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta a nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.




Dia 4 de Dezembro, às 21H30, no Coliseu, em Lisboa

Homenagem do PCP ao Poeta da Revolução,
no 25º ano sobre o seu desaparecimento.

Espectáculo com Carlos do Carmo.


ARY SEMPRE!

POEMA

TEATRO DOS DIAS


Ninguém cheira melhor
nestes dias
do que a terra molhada: é outono.
Talvez por isso a luz,
como quem gosta de falar
da sua vida, se demora à porta,
ou então passa as tardes à janela
confundindo o crepúsculo
com as ruínas
da cal mordidas pelas silvas.
Quando se vai embora o pano desce
rapidamente.


Eugénio de Andrade
(«Ofício de Paciência» - 1004)

É «A CRISE», NÃO É VERDADE?...

Um estudo efectuado por «Nuno Alves, investigador do Banco de Portugal», revela que
«em 21% das famílias que enfrentam situações de desemprego, há duas pessoas à procura de trabalho», na maioria dos casos o marido e a mulher.
Estes números são os mais elevados desde há, pelo menos, 20 anos.

Segundo o investigador do BP, «quando o desemprego afecta os dois membros do casal, a incidência da pobreza sobe para 48%», contra os 18,5 % registados na população em geral».
Esta situação é agravada pelo facto de mais de metade dos desempregados não receber subsídio de desemprego (ao contrário do que dizem dados do Ministério do Trabalho, segundo os quais cerca de 68% dos desempregados recebem subsídio).

Infelizmente, o investigador do BP não teve tempo para «estudar pormenorizadamente as razões que levaram a este aumento»... Por dificuldades de agenda, certamente...
E, em vez disso, ofereceu-nos duas conclusões... sensacionais:
a de que «o desemprego também contribui para as desigualdades» - quem diria! -
e a de que «as famílias pobres são as mais penalizadas com o desemprego»- quem diria!

É claro que, como todos os dias nos é dito pelos média do grande capital, «as dificuldades tocam a todos»...
É «a crise», não é verdade?...

Veja-se a situação dramática de Américo Amorim, o dono da Corticeira Amorim: por causa da «crise», viu-se obrigado a despedir, em Fevereiro passado, cerca de 200 trabalhadores - recorde-se que com a conivência do então ministro do Trabalho, Vieira da Silva.
E ainda há dias o próprio Amorim nos veio dizer que «o ano tem sido difícil para a Corticeira, já que a empresa tem desenvolvido a sua actividade num quadro de recessão económica grave e generalizada».
É «a crise» não é verdade?...

Valha-nos, no entanto, a excelência da governação Sócrates/PS na aplicação da política de direita - e valha-nos igualmente a excelência da gestão dos grandes gestores...
Graças a essa governação e a essa gestão, nem tudo vai mal neste nosso reino da Dinamarca...
Ou, melhor dizendo: tudo vai bem...
Que o diga o supra-citado Américo Amorim que no terceiro trimestre deste ano viu a sua Corticeira arrecadar um lucro líquido de 5,7 milhões de euros - o que corresponde a um aumento de 60,7% em relação ao lucro obtido em igual período do ano passado.

É «a crise», não é verdade?...

Homenagem ao poeta da Revolução «Ary Sempre!»

Passados 25 anos sobre o seu desaparecimento, o PCP vai promover, no dia 4 de Dezembro, pelas 21h30, no Coliseu, em Lisboa, o espectáculo «Ary Sempre!», de homenagem a José Carlos Ary dos Santos (1937-1984), poeta português e militante comunista.

Este grande momento musical terá um preço único de 20 euros, sem lugares marcados, e conta com a participação de
Carlos do Carmo, que interpretará poemas de Ary dos Santos, do pianista Bernardo Sassetti e dos músicos Ricardo Rocha (guitarra portuguesa), Carlos Manuel Proença (viola) e Fernando Araújo (baixo).

POEMA

OS TRABALHOS DA MÃO


Começo a dar-me conta: a mão
que escreve os versos
envelheceu. Deixou de amar as areias
das dunas, as tardes de chuva
miúda, o orvalho matinal
dos cardos. Prefere agora as sílabas
da sua aflição.
Sempre trabalhou mais que sua irmã,
um pouco mimada, um pouco
preguiçosa, mais bonita.
A si coube sempre
a tarefa mais dura: semear, colher,
coser, esfregar. Mas também
acariciar, é certo. A exigência,
o rigor, acabaram por fatigá-la.
O fim não pode tardar: oxalá
tenha em conta a sua nobreza.


Eugénio de Andrade
('Ofício de Paciência» - 1994)

A ORDEM NATURAL DO CAPITALISMO

Segundo um relatório da UNICEF ontem divulgado, «no mundo, mais de 200 milhões de crianças de menos de cinco anos de idade passam fome».

Este número é, por si só, elucidativo do estado actual do mundo - e, portanto, do carácter do sistema político, económico, social e cultural que, porque é dominante, é o responsável por este estado do mundo: o capitalismo.

No entanto, para além do horror deste número, há outros horrores.
O relatório diz respeito a «crianças com menos de cinco anos de idade», mas...
e as crianças irmãs mais velhas dessas crianças?: é mais do que previsível que, em casas onde os mais pequeninos passam fome, o mesmo aconteça aos maiorzinhos...
E quantos milhões são esses maiorzinhos?

E os pais dessas crianças com menos e com mais de cinco anos de idade?: certamente, ninguém - nem o mais assanhado dos propagandistas do capitalismo - os imagina a banquetear-se diante dos filhos a morrerem de fome...
E quantos milhões são esses pais?

Com esta simples reflexão, pretendo chamar a atenção para o facto de estes números revelados pela UNICEF - sem dúvida elucidativos da brutal desumanidade que caracteriza o sistema capitalista - ficarem muito aquém da realidade

Na verdade, em cada casa onde há uma criança que passa fome, há uma família, um núcleo de seres humanos, cercados por um espesso muro de ausência de direitos humanos.
De ausência de justiça.
De ausência de liberdade.

E, ao contrário do que diz a ideologia capitalista, esta não é uma «ordem natural das coisas»: é, isso sim, a ordem natural do capitalismo.

O capitalismo para o qual a única alternativa é o socialismo.

POEMA

LUGAR DO SOL


Há um lugar na mesa onde a luz
abdicou do seu ofício.
Já foi do sol
e do trigo esse lugar - agora
por mais que escutes, não voltarás
a ouvir a voz de quem,
há muitos anos, era a delicadeza
da terra a falar: «Não sujes
a toalha»; «Não comes a maçã?»
Também já não há quem se debruce
na janela para sentir
o corpo atravessado pela manhã.
Talvez só um ou outro verso
consiga juntar no seu ritmo
luz, voz, maçã.


Eugénio de Andrade
(«Ofício de Paciência» - 1994)

A PROPÓSITO DE UM CASTIGO INJUSTO

Há 70 anos, por esta altura, viviam-se momentos dramáticos: Hitler, apoiado pelo grande capital alemão - ou, dizendo com mais rigor: apoiado pelo grande capital internacional - punha em marcha a sua poderosa máquina de guerra, numa ofensiva que parecia imparável e que tinha como objectivo o domínio absoluto do mundo e a instauração de um regime nazi-fascista, com a liquidação da democracia e da liberdade.
A ofensiva nazi tinha como alvo primeiro e principal a União Soviética, onde duas décadas atrás se iniciara, pela primeira vez na História, a construção de uma sociedade nova, sem exploradores nem explorados, livre, socialista.

Em Setembro de 1939, Bento de Jesus Caraça, escrevia:
«Esta Europa entrou na fase central da carreira louca da morte; começou a descida aos infernos. E a Europa nova há-de surgir (daqui a quanto tempo?) aquecida pelo sol do oriente, aquele longínquo oriente onde se estão jogando os verdadeiros destinos do mundo».

Seis anos depois, o mundo respirava de alívio: o projecto nazi-fascista fora derrotado e para essa derrota fora fundamental e decisiva a acção do «longínquo oriente» a que aludia Bento de Jesus Caraça, ou seja: a acção da União Soviética, do seu heróico povo, do seu glorioso Exército Vermelho.
Abriam-se perspectivas promissoras e a «Europa nova» parecia prestes a surgir...

Mas outro projecto de domínio do mundo estava em marcha: antes mesmo da capitulação da Alemanha nazi, os EUA deram sinais inequívocos dos seus objectivos e do vale-tudo a que iriam recorrer para os alcançar - igualmente ao serviço do grande capital internacional que apoiara Hitler; igualmente tendo a União Soviética socialista como alvo primeiro e principal...


Com a derrota do socialismo e o desaparecimento da União Soviética e da comunidade socialista do Leste da Europa, o caminho ficou extremamente facilitado para o imperialismo norte-americano, o qual, no mundo unipolar que é o de hoje, tem vindo a assumir crescentemente - em palavras, em arrogância e, sobretudo, em actos - o papel que se auto-atribuiu de dono do mundo, deixando marcas dilacerantes das suas garras espalhadas por todo o planeta - mas também, e isso é o mais importante, deparando com uma crescente resistência dos povos, uma resistência que, hoje como há 70 anos, conta com os comunistas na sua primeira fila.

Quer isto dizer que a situação dramática que hoje se vive no mundo, se assemelha, em aspectos essenciais, à que se vivia há 70 anos atrás.
Em ambas as situações a questão central é a do objectivo de domínio absoluto do mundo pelo grande capital:
antes, invadindo e ocupando países à custa de milhões de mortos;
hoje, invadindo e ocupando países à custa de milhões de mortos.


Tudo isto me veio à ideia, ao ler, hoje, uma notícia sobre três soldados checos que, integrando as forças de ocupação do Afeganistão, foram castigados pelo facto de terem enfeitado os seus capacetes com símbolos das divisões das SS nazis.
A meu ver, trata-se de um castigo profundamente injusto, já que, na realidade, usando os símbolos nazis, os três soldados checos mostraram ter percebido o carácter exacto da guerra para onde os enviaram...

POEMA

BALANÇA



No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.



Eugénio de Andrade

(«Ofício de Paciência» - 1994)

IGUALDADE DE OPORTUNIDADES

Há um ano, o sistema financeiro norte-americano entrou em colapso: sucederam-as as falências de bancos e o pânico espalhou-se no capital financeiro do país e do mundo.
O Governo - na sua função de conselho de administração dos interesses do grande capital - safou esses bancos da falência, utilizando para isso dinheiros públicos: milhares e milhares de milhões de dólares, portanto à custa de enormes sacrifícios da imensa maioria dos norte-americanos.

Um ano depois, esses bancos salvos pelo Governo apresentam lucros fabulosos - e preparam-se para distribuir prémios fabulosos aos seus quadros superiores.
É assim que os três maiores desses bancos - insisto: safos há um ano com dinheiros públicos - vão distribuir em prémios a maior verba alguma vez utilizada com este objectivo: nada mais nada menos do que cerca de 30 mil milhões de dólares.

Mais ano menos ano, estes mesmos bancos voltarão a falir, o Governo voltará a safá-los recorrendo aos dinheiros públicos, à custa da maioria dos norte-americanos - e assim acontecerá enquanto o capitalismo dominar.

Tudo isto a mostrar-nos por que é que os EUA são conhecidos como o país da igualdade de oportunidades...

POEMA

BREAKFAST EM MASPALOMAS


Das coisas que menos esperava
num hotel de cinco estrelas
era encontrar um gato
no meu prato de torradas.
Como num dos poemas últimos de Montale,
enquanto o chá arrefecia,
foi-se afastando pelo muro do terraço
em leves e femininos passos de dança,
como o faria Nureiev se tivesse
tomado comigo o pequeno almoço.


Eugénio de Andrade
(«Rente ao Dizer» - 1992)

VINTE ANOS DEPOIS, COMO É?

Há mais de uma semana que a «queda do muro» tem sido notícia em tudo quanto se apelida de órgão de comunicação social.
Com uma criatividade notável, os média dominantes nacionais repetem-se e repetem-se na difusão da leitura-chapa-um sobre os acontecimentos ocorridos há vinte anos - com a preocupação, comum a todos, de diabolizar o socialismo e santificar o capitalismo.
Hoje, dia 9, como era previsível, os jornais repetem tudo o que disseram na última semana - e fazem-no, como era previsível, em sensacionais primeiras páginas e dezenas de sensacionais páginas interiores.

A noite de 9 de Novembro de 1989 é-nos contada nos seus mais ínfimos pormenores: no quadro da tal leitura-chapa-um, ficamos a saber que a «queda do muro» foi a «libertação do povo da RDA»; foi a «democracia, enfim!»; foi a «liberdade, enfim!»; foi, enfim, a felicidade e a bem-aventurança...
(curiosamente, nenhuma notícia nos fala de uma outra faceta dessa «noite libertadora»: enquanto a enorme multidão festejava a suposta libertação, uma pequeníssima multidão - composta pelos homens de mão dos grandes senhores do capital da então República Federal Alemã, apropriava-se das mais importantes fábricas e empresas da então RDA, numa daquelas operações de rapina em que o capitalismo é mestre)

Também como era previsível, as notícias fogem a estabelecer comparações entre o antes e o depois da queda do muro.
Percebe-se: se o fizessem dificilmente poderiam deixar de reconhecer que o que marca as mudanças registadas nestes vinte anos é um profundo retrocesso económico e social que instituiu o desemprego como inevitabilidade, que decretou como velharias totalmente destituídas de modernidade, o direito à saúde, à educação, á infância, à velhice - e que, assim, atirou para a miséria amplas camadas da população.

Recorde-se que, um estudo a que o Cravo de Abril fez referência há uns meses atrás, dava conta que, vinte anos passados sobre a queda do muro, «57 por cento da população da ex-RDA continua a defender o socialismo» e considera que o seu antigo país tinha «mais aspectos positivos do que negativos».
A opinião destes 57 por cento, vem confirmar as declarações proferidas pelo antigo chefe de Estado da RDA, Erich Honecker, no decorrer do julgamento a que foi submetido pelas autoridades alemãs, no tribunal de Berlim, em 1992 - declarações que (retiradas do Avante!; aqui se recordam:

«Cada vez mais alemães de Leste constatarão que tinham as condições de vida menos deformadas na RDA do que os alemães ocidentais com a economia "social" de mercado;
que as crianças da RDA, nas creches, jardins-de-infância e escolas, cesciam mais felizes, menos preocupadas, mais bem formadas e mais livres do que as crianças da RFA (...);
«Os doentes constatarão que, apesar dos seus atrasos técnicos, o sistema de saúde da RDA os considerava como pacientes e não como objectos comerciais (...);
«Os artistas compreenderão que a censura da RDA, real ou imaginária, não era tão hostil aos artistas como a censura do mercado (...);
«Reconhecerão que na vida quotidiana, em particular no local de trabalho, tinham na RDA uma liberdade inigualável».

«E a liberdade»?: gritam, em coro síncrono, os média do grande capital, repetidos e repetidos pelo extenso cortejo de especialistas em matéria de «liberdade» forma(ta)dos por esses mesmos média.
Um dia destes abordarei aqui esse tema.

Até lá, deixo-vos esta breve observação de Lénine sobre o assunto:
«Os capitalistas sempre chamaram "liberdade" à liberdade de obter lucros para os ricos, à liberdade dos operários de morrerem de fome.»

POEMA

O SORRISO, OUTRA VEZ


Tu partiste nos quatro versos
que antecederam estas linhas;
ou partiu o teu sorriso, porque tu
sempre moraste no teu sorriso,
chuva verde nas folhas, o teu sorriso,
bater de asas no pulso, o teu sorriso,
e esse sabor, esse ardor da luz
sobre os lábios, quando os lábios são
rumor de sol nas ruas, o teu sorriso.


Eugénio de Andrade
(«Rente ao Dizer» - 1992)

A REVOLUÇÃO DE OUTUBRO

Os média dominantes não disseram (nem vão dizer) que o 92º aniversário da Revolução de Outubro foi comemorado em dezenas de iniciativas do mais diverso tipo - convívios, almoços, debates públicos, envolvendo milhares de pessoas - realizadas por todo o País e promovidas por organizações do PCP.
Com tal silêncio, pretendem esses média - propriedade do grande capital - que a sua seja a única versão disponível sobre o assunto, isto é: que desse acontecimento maior da história da humanidade que foi a Revolução de Outubro se saiba, apenas, o que os proprietários desses média querem que se saiba.

É natural que a tal gente não convenha que se saiba que com «a constituição do primeiro Estado operário; com as conquistas civilizacionais - políticas, sociais, económicas e culturais - alcançadas na União Soviética nascida da Revolução de Outubro; com o processo de construção do socialismo então iniciado e os seus êxitos; com as múltiplas repercussões no mundo de todo esse exaltante processo, dando nova dimensão à luta de libertação nacional dos trabalhadores e dos povos e à luta pela paz» - que, com tudo isso (e muito mais), «o mundo mudou num sentido e com um conteúdo jamais verificados até então».

É natural que a tal gente não convenha que se saiba que, ao contrário do que propalam os «historiadores» do sistema e os seus média difundem, a derrota do nazi-fascismo na II Guerra Mundial foi obra essencialmente da União Soviética e do seu glorioso Exército Vermelho - da mesma forma que a URSS desempenhou papel decisivo na luta libertadoras dos povos e na liquidação do colonialismo.

É natural que a tal gente não convenha que se saiba que a ditadura salazarista/caetanista contou, até ao seu último dia de vida, com o apoio dos EUA e das democracias burguesas europeias - e que os que resistiram ao fascismo contaram sempre com o apoio solidário da União Soviética.

É natural que a tal gente só interesse falar da derrota do socialismo, apresentando-a como um «acto libertador» e não como aquilo que, da facto foi: uma tragédia para toda a humanidade - uma tragédia cujas consequências são visíveis nos graves retrocessos civilizacionais verificados nos últimos vinte anos.

É natural que a tal gente não interesse que se saiba... o essencial: que a Revolução de Outubro foi o primeiro grande passo da mais humana e progressista experiência alguma vez tentada; foi a primeira demonstração concreta de que o socialismo é, de facto, a única alternativa ao capitalismo - e que o socialismo é, não apenas possível, mas inevitável.
Com tudo isso evidenciando que a derrota dessa experiência não foi a derrota dos ideais que a sustentaram, os quais, 92 anos depois, permanecem vivos, actuais e carregados de futuro.

A confirmar que «não é ao capitalismo mas ao comunismo que o futuro pertence».

POEMA

RENTE AO CHÃO


1.

Era azul e tinha os olhos de deus,
o meu pequeno persa
- agora rente ao chão onde iria?,
a voz quebrada,
o peso da terra sobre os flancos,
a luz deserta na pupila.


2.

Chamo por ti; digo o teu nome
tropeçando sílaba
a sílaba; repito o teu nome
para que voltes com a lua
nova, o sol de março,
o pão de cada dia:
o rigor do frio, a sua teia branca,
por companhia.


Eugénio de Andrade
(«Rente ao Dizer» - 1992)

ALTERNATIVA ÓBVIA

A evolução da situação nas Honduras justifica inteiramente as «desconfianças» manifestadas pelo Cravo de Abril logo que foi aprovado o «acordo» que, supostamente, iria repor a legalidade constitucional naquele país - «acordo» que previa, designadamente, a formação de um «governo de unidade e reconciliação nacional» (?) e a «possível» (?) restituição do poder ao presidente legítimo, Manuel Zelaya.

As «desconfianças» decorriam (decorrem) de dois factores essenciais: o conteúdo do «acordo» (envolvendo uma insólita paridade entre os golpistas e as vítimas do golpe) e, mesmo assim, o mais do que duvidoso cumprimento desse «acordo» por parte dos golpistas.

Quanto à «possível» restituição do poder a Zelaya... o Congresso Nacional ainda não reuniu nem dá sinais disso: muitos membros do Congresso «estão de férias»... muitos outros «estão em campanha eleitoral visando a reeleição»... e, como não têm o dom da ubiquidade, não podem estar em dois lados ao mesmo tempo...
Aliás, os representantes dos golpistas insistem em que «não foi estabelecido um prazo» para isso - e, paralelamente, insistem em que «foi estabelecido um prazo», isso sim, «para a formação do governo de unidade e reconciliação nacional»...
Sobre o assunto, pronunciou-se também a ministra do Trabalho dos EUA, Hilda Solis, declarando que «estão a ser desenvolvidos todos os esforços para a formação do governo»... - «governo» do qual o golpista Micheletti - o filho querido do imperialismo norte-americano - se assumiu, já, como líder...

Quer isto dizer que é cada vez mais clara a suja manobra congeminada e posta em prática pelo governo dos EUA e pelos seus homens de mão nas Honduras.

Postas as coisas assim - e confirmado que está que não há acordos possíveis com os golpistas e os seus mandantes... - não há muitas alternativas para Manuel Zelaya e os seus apoiantes...

Para a classe operária, para os trabalhadores, para o povo hondurenho a alternativa é óbvia: continuar a luta até à derrota dos golpistas e à reposição, de facto, da legalidade constitucional e democrática.
Luta para a qual poderão contar com a solidariedade de todos os homens, mulheres e jovens progressistas do mundo.
Luta que vencerão.

POEMA

O PEQUENO PERSA


É um pequeno persa
azul o gato deste poema.
Como qualquer outro, o meu
amor por esta alminha é materno:
uma carícia minha lambe-lhe o pêlo,
outra põe-lhe o sol entre as patas
ou uma flor à janela.
Com unhas e dentes e obstinação
transforma em festa a minha vida.
Quer-se dizer, o que resta dela.


Eugénio de Andrade
(«O Outro Nome da Terra» - 1988)

CURIOSO, ESTE TRATADO

Agora que o presidente da República Checa o assinou, o Porreiro, pá! entra em vigor em 1 de Dezembro.

Curioso, este Tratado que dependia apenas de uma assinatura - mas que sem essa assinatura iria em frente na mesma, como não se cansaram de dizer os tratantes-mores...

Curioso, este Tratado que só passou porque os tratantes trataram de proibir terminantemente a realização de referendos que o iriam chumbar - e no único caso em que houve referendo e o respectivo povo disse «não» repetiram o referendo para o povo dizer «sim»...

Curioso, este Tratado que cria o cargo de «Presidente do Conselho Europeu» - cargo cuja natureza democrática é visível no facto de a ele ser candidato um criminoso de guerra chamado Blair...

Curioso, este Tratado, sobre cujo processo de «aprovação» José Sócrates disse: «Foi um largo caminho para as ratificações, mas valeu a pena» - «largo caminho em matéria de desprezo pelas mais elementares normas democráticas», diria Sócrates se quisesse dizer a verdade...

Curioso, este Tratado de cujo dia da «ratificação final» o mesmo Sócrates disse ser «Um dia feliz para a Europa» - «para a Europa do grande capital» diria Sócrates se quisesse dizer a verdade...

Curioso, este Tratado, o seu processo de elaboração e de aprovação - um processo perfeitamente integrado nas normas democráticas que têm presidido a todo o processo de construção desta União Europeia: sempre à revelia da opinião dos povos e sempre em total sintonia com a opinião dos grandes grupos económicos e financeiros.

POEMA

O SORRISO


Creio que foi o sorriso,
o sorriso foi quem abriu a porta.
Era um sorriso com muita luz
lá dentro, apetecia
entrar nele, tirar a roupa, ficar
nu dentro daquele sorriso.
Correr, navegar, morrer naquele sorriso.


Eugénio de Andrade
(«O outro Nome da Terra» - 1988)

PRAGMATISMO...

Notável, o pragmatismo que presidiu à solução do (aparentemente) complexo problema das eleições presidenciais no Afeganistão.

A primeira volta das ditas, realizada em Agosto, ficou marcada por uma FRAUDE de todo o tamanho - e tão FLAGRANTE que até o Governo dos EUA ficou sem condições para a defender.
Na altura, chegou a ser anunciada a vitória de Karzai, o grande organizador da fraude, com mais de 50% dos votos, mas também essa manobra, de tão escandalosa e obscena, não teve pés para andar.
Assim, houve que recorrer a uma segunda volta com os dois candidatos mais votados: Karzai e Abdulah.

Há dias, Abdulah anunciou a sua desistência pelo facto de, em matéria de fraudes, se manter a situação existente quando da primeira volta.
Esta desistência caíu como sopa no mel dos planos dos ocupantes que logo começaram a opinar sobre o que deveria ser feito - e a denominada comissão eleitoral independente assim fez: anulou as eleições e proclamou Karzai «presidente eleito» do Afeganistão.

Tudo isto a confirmar que o crime compensa e que a fraude é o caminho mais curto para se ser «eleito» presidente num país ocupado pelos EUA.
Por isso o Governo de Obama felicitou Karzai pela «vitória nesta eleição histórica»...

Tudo nos conformes, como se vê - e tudo desnudando o conceito de democracia em vigor em todo o lado onde os EUA, pela força das armas, estão instalados.

POEMA

COM ESSA NUVEM


Para que estrela estás crescendo,
filho, para que estrela matutina?
Diz-me, diz-me ao ouvido,
se é tempo ainda,
eu e essa nuvem, essa nuvem alta,
de irmos contigo.


Eugénio de Andrade
(«O Outro Nome da Terra» - 1988)

PS&PSD, Lda.

«Quem passou mais tempo no Governo?» - pergunta o Expresso.
E, feitas as contas, responde: Durão Barroso, com 4474 dias lidera, logo seguido de vários colegas do PSD, aos quais se seguem vários colegas do PS e, depois, uns tantos colegas do CDS/PP.

Esta liderança nominal do PSD não tem qualquer significado especial ou, pelo menos, não quer dizer que o PSD tenha desempenhado um papel mais relevante do que o desempenhado pelo PS nestas três décadas de governação.
Não: PS & PSD, Lda. constituem uma sociedade perfeita enquanto executante fiel da política de direita ao serviço dos interesses do grande capital - sendo certo que o PS tem sido o chefe de fila dessa política de direita, beneficiando do facto de, fraudulentamente, se apresentar como um partido de esquerda.
E a verdade é que se o actual Governo PS/José Sócrates se mantiver no poder até finais do próximo ano, o ranking passará a ser comandado, nominalmente, por três actuais governantes do PS: Mariano Gago, Luís Amado e José Sócrates.

Aliás, neste caso os nomes nada contam: o que conta é a política e a família que executa essa política.
Vistas as coisas nesta perspectiva, facilmente concluiremos que quem está no poder há 33 anos é uma família - uma família política e ideologicamente unida, mas que, às vezes, por razões tácticas (e estratégicas), tem que fingir divergências para melhor levar a água ao moinho familiar da política de direita.

POEMA

COMO NO POEMA


A chuva cai na poeira como no poema
de Li Po. No sul
os dias têm olhos grandes
e redondos; no sul o trigo ondula,

as suas crinas dançam no vento,
são a bandeira
desfraldada da minha embarcação;

no sul a terra cheira a linho branco,
a pão na mesa,
o fulvo ardor da luz invade a água,
caindo na poeira, leve, acesa.

Como no poema.


Eugénio de Andrade
(«Branco no Branco» - 1984)

O QUE ELES DIZEM

Eis o que eles dizem, lá nas Honduras.

Sobre a tarefa que lhe cabe de apresentar ao presidente do Congresso o «acordo» que prevê o «possível regresso» de Manuel Zelaya ao cargo de Presidente das Honduras, o congressista Ramón Velásquez, disse:
«Só farei a entrega na próxima terça-feira, porque este fim-de-semana estou em campanha eleitoral para a minha reeleição como congressista e porque segunda-feira é Dia de Finados e tenho que cumprir compromissos na minha localidade».
E mais não disse.

Sobre a data da reunião do Congresso para decidir o «possível regresso» de Manuel Zelaya à presidência das Honduras, o presidente do Congresso, José Alfredo Saavedra, disse:
«Não adianto uma data específica para convocar os congressistas, fá-lo-ei logo que possível».
E mais não disse.

Sobre a situação de Manuel Zelaya, o fascista Micheletti disse:
«A situação do senhor Zelaya é a de visitante na casa do Brasil»
E mais não disse.

Sobre a data da reunião do Congresso para decidir do «possível regresso» do Presidente Manuel Zelaya, um jornal disse:
«Os congressistas estão de férias e muitos deles ocupados em actividades eleitorais, tendo em vista as eleições de 29 de Novembro»
E mais não disse.

Pronto: ao que parece está tudo dito - pelo menos até terça-feira.
Depois veremos.

Do outro lado disto tudo, o povo hondurenho diz:
A LUTA CONTINUA!