FRACTURAR OU NÃO FRACTURAR

Eis a grande notícia do Diário de Notícias (DN) de hoje, gritada na sua primeira página:

«Bloco abre Parlamento com temas fracturantes»
«Louçã apresenta hoje leis para casamentos "gay" e uniões de facto»

Depois, em página interior o DN desenvolve a notícia à maneira...
A dada altura, talvez tocado por não sei que remoto problema não sei de que consciência, o DN sente-se obrigado a dizer - para não se dizer que não disse... - que «ontem, o PCP apresentou um pacote de nove diplomas que proporá no Parlamento» - e por aí se fica em relação aos «nove diplomas» do PCP, logo voltando ao seu objecto de estimação: «hoje o Bloco de Esquerda toma idêntica iniciativa».
Recorde-se que, neste caso, «idêntica iniciativa» significa «casamentos "gay"» e «uniões de facto»...

Como é sabido, o DN pela-se por «temas fracturantes» - como são os do BE - e não suporta temas não fracturantes - como são os do PCP.
E estou em crer que o dono do DN tem a mesma opinião...

E têm razão: na verdade é muito mais divertido fracturar do que não fracturar.
E, francamente, aquelas questões chatas que os comunistas querem pôr à discussão já chateiam: é sempre a velha cassete, não sabem falar de outra coisa, não percebem nada de modernidade...
Digam lá se faz algum sentido, se tem alguma piada, pôr à discussão no Parlamento coisas como estas que o Avante! anuncia:

«Alargamento dos critérios de acesso e prolongamento do período de atribuição do subsídio de desemprego»;
«alteração dos aspectos negativos do Código do Trabalho e da legislação laboral da Administração Pública»;
«aumento dos salários, nomeadamente do salário mínimo nacional»;
«combate à precariedade»;
«valorização das pensões de reforma, salvaguarda do direito à reforma aos 65 anos e possibilidade da sua antecipação sem penalizações para carreiras contributivas de 40 anos»; «revogação do Estatuto da Carreira Docente, alteração do modelo de avaliação dos professores e revogação da lei de financiamento do Ensino Superior»;
«alteração do regime tributário das grandes empresas, bem como das micro, pequenas e médias empresas, no sentido de uma maior justiça fiscal»...

Como se vê, tudo temas chatos, chatérrimos, não fracturantes - e que, por isso mesmo, não merecem ser «notícia», e muito menos de primeira página...
Os «temas fracturantes», esses sim: são divertidos, dão bagunçada... - e, acima de tudo, não tocam em nada de estruturante...

POEMA

CANÇÃO


Tinha um cravo no meu balcão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Sentada, bordava um lenço de mão;
veio um rapaz e pediu-mo
- mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
só não dei o coração;
mas se o rapaz o pedir
- mãe, dou-lho ou não?


Eugénio de Andrade
(«Primeiros Poemas» - 1940-1944)


(Tal como os outros poetas aqui homenageados, Eugénio de Andrade é um visitante assíduo do Cravo de Abril.
A selecção de poemas de que hoje se inicia a publicação seguirá o percurso poético do Autor desde os seus «Primeiros Poemas», pelo que poderá vir a ser um pouco mais extensa do que as anteriores)

A LUTA CONTINUA!

A fome é uma das imagens de marca do capitalismo - a par do desemprego, da exploração, das desigualdades e injustiças sociais, da guerra, do crime... - e o aumento crescente do número dos que passam fome é uma consequência inevitável da evolução do capitalismo.

Daí que não haja razões para surpresas face aos números ontem apresentados pelo relatório da FAO (Organização da ONU para a Agricultura e a Alimentação), que nos fala da existência no mundo de «mais de mil milhões de esfomeados» - e que nos diz que «o número de pessoas que passa fome é hoje o mais elevado de sempre».
Ou seja: nunca, como hoje, houve tantas pessoas - homens, mulheres, jovens, crianças - a passar fome.
Nunca, como hoje, tantos seres humanos viram ser-lhes negado o mais elementar de todos os direitos humanos: o direito à alimentação.

E se à negação deste direito humano juntarmos a negação de um outro - o direito à saúde - também não há razões para surpresas com os números:
todos os dias morrem, à fome e por falta de cuidados básicos de saúde, cerca de 60 mil pessoas, em grande parte crianças.

Enquanto isto, a poderosa máquina mediática de propaganda apresenta-nos o sistema capitalista como o supra sumo da organização económica e social, o reino da democracia, da liberdade e dos direitos humanos... o fim da história...

E o grande drama, a grande tragédia, é que há milhares de milhões de cidadãos, incluindo muitos dos que passam fome, que acreditam nessa propaganda - e que, nos dias em que são chamados a votar, votam em quem, todos os dias, lhes rouba todos os direitos a que têm direito: o direito ao pão, à saúde, ao emprego, às reformas e pensões dignas, à justiça social...

Tudo isto a confirmar que é grande, difícil e complexa a tarefa que se coloca aos comunistas e aos seu aliados, no seu objectivo maior de liquidar o capitalismo e construir uma sociedade sem exploradores nem explorados, livre, justa, fraterna, solidária, pacífica - e, por isso, socialista, comunista.
Tudo isto a confirmar, também, que essa é uma tarefa imperiosa para todos os que consideram que cada ser humano, pelo simples facto de existir, tem direitos que ninguém tem o direito de lhe roubar.
E tudo isto a confirmar, ainda, o significado, o rigor, a justeza, o alcance da mais bela de todas as palavras de ordem: A LUTA CONTINUA!

POEMA

O MINEIRO E O DIAMANTE


Mineiro pobre e viúvo.
De volta do turno da noite,
ao descalçar as botas, encontrou,
em uma delas,
um pequeno diamante.
Tão breve no tamanho que alembrava
a mais pequena das estrelas
na escuridão da noite.
Não se conteve. Chamou a filha.
E no azul dos olhos dela viu
o pequeno diamante mais crescido que a estrela,
que a estrela de alva.
De repente, mergulhou a cabeça entre as mãos
e pensou: Entregá-lo à empresa das minas? Não.
Ninguém devolve uma estrela.
Sobretudo, uma estrela que fugiu da Via Láctea
e na bota de um mineiro se escondeu.


Luís Veiga Leitão

ACEITAM-SE SUGESTÕES

«A notícia caiu como um raio e iluminou o mundo inteiro»: é assim, nesta prosa carregada de reminiscências bíblicas, que Mário Soares inicia a sua oração de louvor a Obama-Prémio-Nobel-da-Paz.
O texto é um autêntico ditirambo ao Presidente norte-americano, em cuja «capacidade política para conduzir e liderar não só os Estados Unidos, mas também o mundo» o pai da contra-revolução de Abril deposita toda «a sua confiança».
Logrando ver em Obama o que mais ninguém vê - e envolvendo-o em tanta luz, tanta luz... - Soares afirma-se como um autêntico vidente, porventura com direito às prerrogativas que a tal condição são devidas.

Temos, então, segundo Soares, o mundo inteiro iluminado pelo raio do Nobel da Paz...
O mundo inteiro?
Não!
Há, pelo menos, um pequeno recanto - algures ali para os lados do Zambujal... - onde, pelo menos até agora, o frémito de luz soarista não chegou: Fátima.
Fátima?: Nem mais nem menos: Fátima!.
Fátima, onde decorreu nos últimos dias a Peregrinação Internacional Aniversária com a presença de 100 mil pessoas - mas onde os vendedores de artigos de religião estão mergulhados em cerrada escuridão, sem que uma luz, fraquinha que seja, surja ao fundo do túnel da sua desventura.
Fátima, onde, sabe-se lá por que raio de contra-milagre, a ausência de luz - das luzes: a anunciada por Soares e a anunciada pelos videntes - teima em fazer a vida negra aos vendedores de religiosidades, cujos lamentos ecoam assim: «Isto está fraco»; «Está a ser muito difícil vender a imagem da irmã Lúcia»; «A imagem mais idosa não se vende, porque as pessoas preferem ver a irmã Lúcia com os pastorinhos, quando todos eram crianças»; «E as imagens do Papa Bento XVI», essas, então, «não têm mesmo saída».

Posto isto, que fazer?
Aceitam-se sugestões. De preferência luminosas.
Por mim, acho que os vendedores de artigos de religião deveriam acrescentar ao seu stock de vendas a imagem desse vidente dos tempos actuais que é Mário Soares.
Com a certeza de que, sendo o dito o que é - e dada a sua longa experiência de vendilhão de si próprio - a sua imagem rapidamente atingirá o top de vendas.

POEMA

UMA GOTA NO CAUDAL


Sozinhos, que somos nós?
Gota de água diminuta
sumida da terra enxuta.
Nem a sede de uma boca
pode assim ser saciada,
porque sós não somos nada,
nem fonte de nenhum rio,
nem onda do mar ou espuma,
maré de coisa nenhuma.

Gota a gota a terra bebe,
rompe o ventre e verte um fio,
cresce a fonte e faz-se rio.
Quantas rotas tem o mar?
Quantas vagas a maré?
Quem as conta perde o pé.
Gota a gota. Cada é pouca.
Mas se a vida é una e vária
cada gota é necessária.

Mesmo sós sejamos sempre
uma gota no caudal,
diminuta, fraternal.


Carlos Aboim Inglês

O NEGATIVO E O POSITIVO

Com as autárquicas de ontem chegámos ao fim deste ciclo de três eleições que, realizadas no espaço de quatro meses, nos exigiram um ano (pelo menos) de intenso trabalho.
Acrescente-se a isto, o facto de estas batalhas eleitorais comportarem exigências particulares para os activistas da CDU - exigências que não se colocam aos activistas de qualquer das outras forças políticas e que decorrem essencialmente do facto de as forças que integram a CDU, e em especial o PCP, serem vistas como o alvo a abater pelo grande capital, pelos partidos que o representam e pelos média de que ele é dono.
Acresce, ainda, que paralelamente a esta exigente intervenção eleitoral, os militantes comunistas deram a resposta que se impunha à política de direita, organizando e participando nas muitas lutas dos trabalhadores e das populações - e, nos intervalos disto tudo, ainda construíram a Festa do Avante!...


Para quem tanto luta pela defesa dos interesses dos trabalhadores e do povo, é óbvio que os resultados que obtivemos nestas três eleições ficam muito, muito aquém do que seria justo - se é que a noção de justiça tem cabimento em eleições realizadas em democracia burguesa...
Para quem nos fustiga todos os dias e tem como objectivo principal liquidar-nos social, política e eleitoralmente, é óbvio que esses resultados foram muito, muito além... do que eles queriam, esperavam e se fartaram, até, de anunciar...

Negativo, nas autárquicas de ontem foi, essencialmente, a perda pela CDU de 6 câmaras .
Positivo, foi termos ganho três câmaras - entre muitas outras coisas positivas como, por exemplo, os resultados que, num quadro dificílimo, obtivemos em Lisboa e no Porto.

Em relação às câmaras perdidas: regra geral, perdemo-las sem que tivéssemos perdido votos, tendo até aumentado as votações. E esse é um dado sobre o qual importa reflectir.
Em Beja, por exemplo, a CDU aumentou cerca de quatro centenas de votos, e perdeu a câmara para o PS que viu aumentada a sua votação em cerca de 2 mil votos - tantos quantos o PSD «perdeu»...
Ou seja: tantos quantos se transferiram do PSD para o PS por efeito de uma espécie de entendimento tácito entre os partidos da política de direita visando derrotar a força que, de facto, combate a política de direita.
Isto faz com que a CDU, para ganhar, tenha que obter sempre mais de 50% dos votos - sendo este um grande desafio que se nos coloca no futuro.

Positivo, foi, também, o facto de a CDU se ter confirmado inequivocamente como a grande força autárquica da Esquerda - reforçando, assim, a sua condição de grande força nacional.

Quanto ao futuro... A LUTA CONTINUA!

POEMA

JURO NUNCA ME RENDER


Pela minha terra clara
e o povo que nela habita
e fala a língua que eu falo,
juro nunca me render.

Pelo menino que fui
e o sossego que desejo
para o velho que serei,
juro nunca me render.

Pelas árvores fecundas
que nos dão frutos gostosos
e as aves que nelas cantam,
juro nunca me render.

Pelo céu que não tem margens
e as suas nuvens boiando
sem remorsos nem receio,
juro nunca me render.

Pelas montanhas e rios
e mares que os rios buscam,
com o seu murmúrio fundo,
juro nunca me render.

Pelo sol e pela chuva
e pelo vento disperso
e pela plácida lua,
juro nunca me render.

Pelas flores delicadas
e as borboletas irmãs
que nos livros espalmei,
juro nunca me render.

Pelo riso que me alegra,
com a sua nitidez
de guizos e de alvorada,
juro nunca me render.

Pela verdade que afirmo,
dos que a verdade demandam
até à contradição,
juro nunca me render.

Pela exaltação que estua
nos protestos que não escondo
e a justiça que os provoca,
juro nunca me render.

Pelas lágrimas dos pobres
e o pão escasso que comem
e o vinho rude que bebem,
juro nunca me render.

Pelas prisões em que estive
e os gritos que lá esmaguei
contra as mãos enclavinhadas,
juro nunca me render.

Pelos meus pais e meus avós
e os avós dos avós deles,
com o seu suor antigo,
juro nunca me render.

Pelas balas que vararam
tantos peitos de homens justos,
por amarem muito a vida,
juro nunca me render.

Pelas esperanças que tenho,
pelas certezas que traço,
pelos caminhos que piso,
juro nunca me render.

Pelos amigos queridos
e os companheiros de ideias,
que são amigos também,
juro nunca me render.

Pela mulher a quem amo,
pelo amor que me tem,
pela filha que é dos dois,
juro nunca me render.

E até pelos inimigos,
que odeiam a liberdade,
e por isso não são livres,
juro nunca me render.


Armindo Rodrigues


(«Juro nunca me render» encerra o ciclo de poesia dedicado a Armindo Rodrigues, com o qual o Cravo de Abril prestou a sua homenagem ao militante comunista de todos os momentos e ao grande Poeta, cuja Obra marca impressivamente a História da Poesia Portuguesa - não obstante o silenciamento a que foi condenada pelos que não toleram quem jura nunca se render... especialmente se, como é o caso de Armindo Rodrigues, quem o jura cumpre, com dignidade e coragem, o juramento)

ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS

Já sabemos que é assim, mas, mesmo assim, vale a pena repetir:
votar na CDU é votar no TRABALHO, na HONESTIDADE e na COMPETÊNCIA - e nenhum outro voto serve iguais valores e princípios.

Já sabemos que é assim, mas, mesmo assim, vale a pena repetir:
votar na CDU é dar mais força à Esquerda na sua luta contra a política de direita - e, seja em Lisboa, seja em qualquer outro concelho ou freguesia, nenhum outro voto serve igual objectivo.

É por isso que os homens, mulheres e jovens que votam na CDU são os únicos que, em verdade e em consciência, podem dizer - e dizem: AMANHÃ, DIA 12, A LUTA CONTINUA!

Por isso, mais uma vez, ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS.

POEMA

QUEM TEM MEDO DA PAZ


Quem tem medo da paz
tem medo do amor,
tem medo do que faz,
tem medo do que pensa,
tem medo de saber,
tem medo de supor,
tem medo de deixar
que um entusiasmo o vença,
tem medo de perder,
tem medo de ganhar,
tem medo de ofender
sem intenção de ofensa,
tem medo de pesar,
tem medo do prazer,
tem medo até de estar
na sua só presença.


Armindo Rodrigues

AINDA SOBRE O NOBEL DA PAZ

Cerca de 30 cidadãos e instituições norte-americanas foram, até agora, agraciadas com o Prémio Nobel da Paz - o que coloca os EUA em destacado primeiro lugar nesta matéria.
Quer isto dizer que, segundo os critérios do Comité Nobel ao longo dos tempos, os EUA são os campeões da paz no mundo...
Pronto: são critérios...

Assim sendo, é natural que o dito Comité nunca se tenha sentido vocacionado para premiar gente e instituições de outras áreas e de outros lugares, por exemplo, gente comunista, por exemplo gente do povo soviético, cujo papel foi decisivo para a conquista da paz no mundo, derrotando o objectivo nazi-fascista de domínio do planeta...

Corrijo-me: uma vez houve em que o Comité abriu uma excepção e - vejam bem! - atribuiu o Nobel da Paz a um comunista.
Que, aliás, com a dignidade de quem não participa em fantochadas, o recusou.

O Cravo de Abril recorda, hoje, Le Duc Tho - que foi um dos fundadores do Partido Comunista do Vietname e que chefiou a delegação do seu país nas conversões que conduziram ao Acordo de Paz no Vietname, assinado em Paris, em 1973.
Le Duc Tho foi, até hoje, o único comunista a quem foi atribuído o Prémio Nobel de Paz - mesmo assim, ex aequo com o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger, conhecido pacifista ligado a muitas e terríveis guerras...
Esse Prémio de 1973 ficou, todo, para o carniceiro Kissinger, porque Le Duc Tho recusou recebê-lo - entre outras razões porque a guerra do Vietname estava longe de ter terminado.
E estava.

Para medir a justeza da atribuição do Nobel da Paz a Kissinger, recorde-se que os EUA fizeram tudo para evitar a assinatura do Acordo de Paz de Paris.
Pouco tempo antes da assinatura, o Governo norte-americano, numa última e desesperada tentativa de virar o sentido da guerra a seu favor, desencadeou sobre o Vietname do Norte o mais intenso e bárbaro bombardeamento da história das guerras, até então: durante onze dias, a aviação dos EUA lançou sobre as cidades de Hanoi e Haiphong mais de 100 mil bombas - com um poder de destruição cinco vezes superior ao da bomba atómica lançada sobre Hiroshima.

Mesmo assim, Nixon, Kissinger & Cia. foram obrigados a assinar o Acordo de Paz - e, após a assinatura, prosseguiram a guerra...
Guerra que só viria a terminar em 1975, com a entrada do exército revolucionário em Saigão - recorde-se a fuga em pânico dos soldados norte-americanos (os «soldados de Cristo» como lhes chamava o cardeal Spelmann...), empurrando-se, agredindo-se, pisando-se uns aos outros na busca desesperada de um lugar nos helicópteros....

Atrás de si deixavam a tradicional mensagem de paz made in USA: mais de um milhão e meio de mortos, mais de três milhões de feridos, um país devastado, com terras mortas por efeito das bombas químicas e biológicas - e seres humanos que ainda hoje, mais de trinta anos passados, continuam a sofrer as consequências dessas bombas.

De então para cá - até hoje, dia 11 de Outubro de 2009 - essa mensagem de paz dos EUA fez-se sentir, de forma directa ou indirecta, por todo o Mundo, espalhando centenas de milhares de mortos.

São, portanto, razões históricas as que explicam a atribuição do Nobel da Paz ao presidente dos EUA, Barack Obama.

POEMA

PAZ


Paz de pão,
de alegria
e de fraternidade,
é a única inteira, é a única livre
e só ela merece o combate comum.


Armindo Rodrigues

UMA BOMBA!

Ao que parece a atribuição do Nobel da Paz a Obama caiu como uma BOMBA.
E no entanto talvez a coisa não seja tão inesperada como à primeira vista pode parecer.

Com efeito, lendo as justificações do presidente do Comité Nobel, percebe-se a «lógica» da decisão: segundo o tal presidente, o Nobel da Paz foi para Obama «porque queríamos apoiar aquilo que ele está a tentar fazer».
Aí está: o prémio não é pelo que Obama fez, mas pelo que «está a tentar fazer».

E o que é que Obama «está a tentar fazer»?
Muita coisa, designadamente: assegurar a ocupação do Iraque; enviar mais 40 mil soldados para que os EUA assegurem a ocupação do Afeganistão; dar a ajuda habitual ao governo fascista de Israel; assentar a pata imperialista na América Latina e, a partir da Colômbia ocupada, desencadear golpes militares e o mais que se verá contra os países que se libertaram do jugo imperialista; assegurar a continuação do criminoso embargo a Cuba e a continuação de Guantánamo; assegurar que os EUA - o único país que até hoje lançou bombas atómicas sobre populações - seja quem decide quem pode ou não pode ter... armas atómicas...

Enfim, o que Obama «está a tentar fazer» é - com um sorriso de outra cor - exactamente o mesmo que todos os seus antecessores na presidência dos EUA tentaram fazer: impor o imperialismo norte-americano como dono incontestado e senhor absoluto do Mundo.
E foi isso que o Comité Nobel premiou...

Aliás, Obama captou de imediato a intenção do Comité Nobel e fez questão de o sublinhar de forma incisiva. Disse ele que via este Nobel da Paz como «uma afirmação da liderança da América em nome das aspirações partilhadas pelos povos de todas as nações».
Não se pode ser mais claro.

POEMA

PAZ


Paz a não há na morte.
Na morte não há nada.
Paz a não há senão
no que é próspero e farto.
Paz é a aplicação
no trabalho salubre.
Paz é a segurança
da amizade na luta.


Armindo Rodrigues

SOCIALITES, SOCIALISTES...

Aquela antidemocrática e estúpida manifestação de prepotência do presidente da Câmara de Évora, José Ernesto Oliveira, fez-me lembrar uma notícia há tempos publicada numa dessas revistas de socialites.
A notícia mostrava-nos um Oliveira bem diferente do tiranete que, há dias, impediu os eleitos e candidatos da CDU de entrar nas instalações da Câmara - o que torna legítimo pensar que estamos perante uma pessoa de várias caras...

A tal notícia começava assim: «Num modelo Lanvin de seda natural verde, Lili Caneças, de 60 anos, foi a estrela de mais uma edição do Évora Moda» - e uma enorme fotografia mostrava-nos «a mais famosa das socialites portuguesas» de braço dado com o presidente da Câmara de Évora, ambos sorridentíssimos: ela, a aborratar de plásticas, feliz por ter sido tão bem recebida; ele, também muito socialite, feliz por ter recebido tão bem.
«Foram duas noites muito divertidas», confidenciou Lili Caneças.
E no mais puro dialecto socialite explicou o divertimento: «Já vim a este evento três vezes e sempre a convite do dr. José Ernesto d'Oliveira, o presidente da Câmara de Évora, que é um querido. Fui recebida como a Cleópatra, rainha do Egipto, com direito a carro com motorista e tudo. Deu-me a melhor suite do hotel Cartuxa, com mais de 200 metros quadrados e banheira com jacuzzi».

Domingo, o querido da Lili vai a votos.
E se houvesse uma «justiça eleitoral», no sentido de cada candidato obter os votos que merece - nem mais um nem menos um - José Ernesto Oliveira teria direito a dois votos: o seu e o da socialite Caneças.

Também muito socialite - mas mais na versão socialiste... - é Elisa Ferreira, desde há dias conhecida por Elisa da Gamela.
Mostrando até onde o desejo da gamela pode fazer chafurdar uma pessoa, a candidata do PS à Câmara do Porto, disparou deste jeito: «Rui Rio tem o apoio de 6 milhões de benfiquistas» - assim procurando atiçar ânimos clubistas, regionalistas, provincianos, e transformá-los em votos a seu favor.
É uma querida, esta Elisa.
Neste caso, a tal «justiça eleitoral» deveria dar-lhe direito a dois votos, no domingo: o dela e o do sr. Pinto da Costa.

POEMA

NA MINHA COURELA...


Na minha courela, enquanto a lavro,
é sempre manhã, mesmo se já noite.
O meu ofício farto
é o de cultivar sonhos.
Deito trigo à terra e nasce-me luz.
Deito luz à terra e nasce-me trigo.
Nem há mais exacta semente que esta,
que dá a colheita ao sabor da fome.


Armindo Rodrigues

O CHÁ

Manuel Alegre foi a Oeiras beber um chá com o candidato do PS à Câmara.
Nas declarações aos jornalistas, referiu-se ao «caso Isaltino» e, no seu estilo solene e grave, declamou que «a ética democrática e a decência política são essenciais à democracia».
Pergunto-me: se Alegre fosse a Felgueiras com quem é que beberia o chá?...

Em relação à formação do próximo Governo, questionado pelos jornalistas sobre «se Sócrates deveria negociar à esquerda ou à direita», Alegre, sem papas na língua, respondeu: «deve negociar com todos».
Pergunto-me: será que este «negociar com todos» se insere nos conceitos de «ética democrática e de «decência política» enunciados em Oeiras à hora do chá?...

POEMA

IDEIAS BOAS OU MÁS


Ideias boas ou más,
actos maus ou actos bons,
é a vida quem os faz,
ou são os seus próprios dons?
A quem negue a liberdade
vá-se ao extremo de a impor.
Não é com meia verdade
que uma verdade dá flor.
E não se tenha receio
de perder para ganhar.
A liberdade é um meio
de a vida se libertar.


Armindo Rodrigues

ELE HÁ COISAS!

POEMA

QUEM SE DÁ AO QUE SE DEVE


Quem se dá ao que se deve
nada deve ao que se dá.
Não raro a distância é breve
da decisão boa à má.
A simples espinha sugere
à razão um peixe inteiro.
Para a pobreza entender
há que sofrê-la primeiro.
O mal é que algo se acate
apenas por boa fé.
Se mau for, má morte o mate.
Se for bom, prove que o é.


Armindo Rodrigues

TRABALHO, HONESTIDADE, COMPETÊNCIA

A Lusa informou que Manuel Carvalho da Silva (MCS), secretário-geral da CGTP-IN, «desejou hoje uma vitória do socialista António Costa, em Lisboa» - considerando que tal vitória «é importante para Lisboa e para os lisboetas».
Diz ainda a Lusa que o «desejo» de MCS foi expresso esta manhã quando o líder da CGTP-IN «se cruzou» com António Costa, «no Chiado».
Sempre segundo a Lusa, MCS aproveitou o «cruzamento» - certamente ocasional, género: «Olha o Manel!», «Olha o António!» e, em coro: «Então o que fazes por aqui?»... - para informar que se mostra «favorável ao entendimento entre partidos da Esquerda».

Não sei o que pensam destas declarações os activistas da CDU na cidade de Lisboa - essas muitas centenas de mulheres, homens e jovens que desenvolvem intensos esforços no sentido de conseguir uma boa votação.
Não sei, também, o que de tais declarações pensam os muitos milhares de activistas da CDU que, em centenas de concelhos e em milhares de freguesias, desenvolvem idênticos esforços com idênticos objectivos.

No que me diz respeito, penso que se trata de declarações lastimáveis e lamentáveis (e fico-me por aqui, para já...), e sublinho que
importante para Lisboa e para os lisboetas seria, isso sim, a vitória da CDU, com a eleição de Ruben de Carvalho para presidente da Câmara -
e importante para Lisboa e para os lisboetas é, se tal vitória não for possível, uma votação quanto mais forte melhor na CDU.

Em qualquer dos casos, o voto na CDU é o que, de facto, serve os interesses de Lisboa e dos lisboetas - pela simples razão de que é o voto no Trabalho, na Honestidade e na Competência.

POEMA

ARRANCA DA CABEÇA O PENSAMENTO...


Arranca da cabeça o pensamento,
esvazia o coração de simpatia,
e, morto, viverás com alegria,
neste triste lugar, neste momento.
Mas se a isto preferes o tormento
de uma luta constante, amarga e fria,
da tua noite romperá o dia
em que à afronta a levará o vento.
Não te importe se à voz te não responde
sempre outra voz ardente como a tua,
nem te importe sequer porque se esconde.
Crê só que no silêncio a raiva estua,
e amanhã, sem saberes como e donde,
ela virá bradar em cada rua.


Armindo Rodrigues

GENTE SÉRIA É OUTRA COISA...

O bastonário Marinho Pinto - este homem não pára!... - deslocou-se ontem à Figueira da Foz, em visita a um «antigo colega da faculdade e amigo de há muitos anos», de seu nome João Ataíde - que, por coincidência, é «candidato do PS à autarquia local».
Os dois amigos mataram saudades passeando pela baixa da cidade, acompanhados por jornalistas que, certamente por coincidência, também por ali passeavam...

Para quem estivesse tentado a considerar tal passeio pela baixa figueirense como uma «acção de apoio eleitoral», o bastonário esclareceu desde logo que não se tratava de nada disso, nem pensar, tanto mais que, informou, «não faço campanha, não sou candidato».

E foi a não fazer campanha que o bastonário, referindo-se ao seu «amigo de há muitos anos» - e agora candidato do PS - saudou «a entrada de gente séria na política» - isto porque, explicou, «a política está muito desprestigiada, está muito degradada, e é bom que apareçam pessoas como o dr. João Ataíde».

Por seu lado, o candidato do PS - para o qual o passeio pela baixa figueirense com o amigo bastonário e os jornalistas, decorreu, certamente, num momento de pausa da sua campanha eleitoral - fez o elogio das muitas qualidades que vê no bastonário e esclareceu que o encontro e o passeio decorreram no «plano estrito da amizade entre ambos». Nada de campanha eleitoral, nem pensar...


Não há dúvida: gente séria é outra coisa...

POEMA

O LACRAU


Couraçado como um guerreiro antigo,
o lacrau de orgulhoso e esbelto porte,
no chão, quieto, espreita o inimigo,
para num brusco abraço lhe dar morte.

Não se lhe chame traiçoeiro e ruim.
É da condição dele ser assim.


Armindo Rodrigues

COMO MATAR UMA NOTÍCIA

Das formas de matar uma notícia pode dizer-se que são tantas quantas as maneiras de cozinhar bacalhau...
O crime assume as formas mais diversificadas, desde o puro e simples silenciamento da notícia, até à sua pura e simples falsificação, passando pela pura e simples manipulação do acontecido.

Encontra exemplos muitos de todas essas modalidades, quem acompanhe, nos jornais, rádios e televisões, as «notícias» referentes ao PCP.
Para essas, há todo um esquema montado, aplicável a todas as situações e, por isso, de fácil utilização para qualquer analfabeto.
Ou seja: o matador de serviço ao PCP não precisa de se preocupar - e muito menos de pensar - em como cumprir a tarefa. Quer se trate da vida interna do PCP, do seu projecto, da sua ideologia, da sua actividade, para todos os casos há munições em stock: é só escolher e disparar.

Mas atenção: dada a longa experiência adquirida pelos matadores profissionais, com frequência a morte da notícia é feita de forma tão natural que até parece que não é morte...
E assim matam que se fartam.

Um exemplo: Estremoz é um concelho onde, há quatro anos, a CDU perdeu (por 70 votos) a maioria para o PS; os activistas da CDU batem-se agora pela recuperação dessa maioria; ontem realizaram um jantar no qual participaram mais de 450 pessoas e no decorrer do qual usou da palavra Jerónimo de Sousa, que disse...

Bastaria escrever o que acima está escrito, acrescentando uma frase - só uma! - tirada do discurso do secretário-geral do PCP, e estava feita a notícia - uma notícia.

E bastaria, para quem quisesse matar a notícia, começar assim: «Em Estremoz, Jerónimo de Sousa não disse nada de novo».
Foi, diz-me uma amiga, o que fez a Antena 1, ontem, num dos seus «noticiários».


POEMA

PAUTA


O que do intento à acção
for capaz de se mover,
com mais ou menos alarde,
soberba, ou despretensão,
sem a prudência o tolher,
sem a consciência perder,
podem-lhe os joelhos tremer,
podem-lhe os dentes bater.
O que não é é cobarde.


Armindo Rodrigues

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Na noite de 27 de Setembro, os pêcêpólogos de serviço às televisões, analisando os resultados da CDU nas legislativas, proclamaram a «morte do PCP».
E tão convincentes foram uns para os outros, que um deles, num misto de alívio e de raiva, desabafou um sentido «Finalmente!», assim como quem diz: «chiça, já não era sem tempo!»...

Nos dias seguintes, a brigada de pêcêpólogos de serviço à imprensa escrita, composta por cangalheiros cheios de experiência na matéria, corroborou efusivamente a necrológica notícia. E os semanários, com a sua particular apetência para a arte da cangalha, passaram e assinaram a certidão de óbito comprovativa, assim sintetizada por um deles: «Sobre o PCP já disse tudo o que tinha a dizer em crónicas anteriores. Está morto».
Pronto, se eles o dizem...

Neste momento solene, vale a pena lembrar, ainda que resumidamente, a história das mortes do PCP - e muitas foram elas, como estamos lembrados.
Quem primeiro matou o PCP foi um senhor chamado Salazar: e matou-o pelo menos meia dúzia de vezes, seguindo um método que aqui se recorda: começando por proclamar que «Em Portugal os comunistas não têm passado e não terão futuro», passou ao anúncio sistemático do óbito, repetido na tal meia dúzia de vezes... enquanto mandava perseguir, prender, torturar, matar milhares de comunistas... até que Salazar morreu e Abril nasceu...
E de então para cá, o PCP já morreu uma dúzia de vezes, numa repetida sequência necrológica que aqui se recorda: os cangalheiros pós-Abril, começam por condenar o PCP ao «definhamento inexorável», à «perda irreversível de influência» - e, naturalmente, ao «envelhecimento imparável» - e terminam, depois, em glória, com o anúncio do óbito... enquanto utilizam todos os muitos meios de que dispõem visando liquidar, de facto, o... «morto»...

Quer isto dizer que, nas semanas e meses que aí vêm, os cangalheiros voltarão à carga com o anúncio do «definhamento inexorável» etc, etc, etc - a que se seguirá, na devida altura, o anúncio da morte já anunciada uma dúzia de vezes.


(Entretanto, dezenas de milhares de candidatos e activistas da CDU participam intensamente na campanha das autárquicas, construindo um resultado eleitoral através do qual confirmarão, na noite do próximo domingo, que a CDU avança com toda a confiança).

POEMA

A CADA UM CHEGA UM POUCO


A cada um chega um pouco
do que para todos chega.
Quem o quer diz-se que é louco.
Mas por que é que se lho nega?
É porque a verdade assusta
que a mentira persuade.
A unidade mais justa
nasce da variedade.
Querer só, não é querer.
Não há querer sem acção.
O próprio pão, para o ser,
primeiro rebenta o chão.


Armindo Rodrigues

TUDO E MAIS ALGUMA COISA

Francisco Louçã queixou-se do tratamento dado pelos jornais à campanha do BE para as legislativas - destacando o Sol e o Público como os que pior o trataram...
Curiosamente, quem informa sobre a queixa é o próprio Sol, em peça curiosamente assinada pelo inevitável Manuel Agostinho Magalhães - que ao BE tem vindo a dedicar todo o seu talento de propagandista.

E lembrar-me eu que os dois jornais de que Louçã agora se queixa - Sol e Público - foram os que, logo a seguir às eleições para o Parlamento Europeu, deram o pontapé de saída para a colossal campanha de propaganda ao BE levada a cabo pelo conjunto dos média propriedade do grande capital...

Confesso que por esta eu não esperava. Mas serve-me de emenda: de hoje em diante, dessa gente eu espero tudo - e mais alguma coisa.

POEMA

DA CONTRADIÇÃO


Por contradições se avança.
Na constante contradança
de negar e ser negado,
mudança atrás de mudança,
nunca a mudança se cansa,
nada está nunca acabado.


Armindo Rodrigues

Freguesia da Unidade


freguesia da unidade. com maiúsculas que não pus, mas que lá estão, na memória de todos que fizeram da unidade o lema da sua freguesia na mais bonita de todas as belas conquistas de Abril. este foi o nome escolhido, imagino a comoção em que a lembrança surgiu, pelos trabalhadores para a sua UCP, durante a Reforma Agrária. O lagar ainda hoje trabalha, se bem que já não sejam dos trabalhadores as terras de onde extraem o fruto, luz prometida no fio de azeite à força de muita pedra em mós. nos casões ( assim chamam, no Alentejo, às arrecadações) nasceu um centro cultural que foi hoje inaugurado. De todos os caminhos e estradas da aldeia vieram camponeses, operários, desempregados, reformados... em todos uma luz tremeluzente no olhar, fazendo lembrar tempos cantados pelo adriano, em que os olhos dos camponeses eram fogos na madrugada. mais de cem encheram o auditório. outros tantos ficaram de fora, ouvindo ecos na esperança que dentro e fora se multiplicava. a obra, a excelente obra, admirou a todos. e um orgulho quase inexplicável invadiu os peitos dos ervidelenses que ali estavam. para umas palavras subiram ao palco os «principais» representantes dos órgãos autárquicos. a primeira palavra coube ao presidente da junta. No nobre, assim se chama o meu bom amigo e grande camarada, tudo se resume à beleza profundíssima do seu coração de homem bom. foi impressionante ver no rosto dos seus conterrâneos, na minha gente, a alegria pueril ... reflexo de uma bem mais madura de se saberem detentores de uma junta de freguesia onde a honestidade e a força de vontade fazem destas coisas. belas. como só as aves sabem pintar nos vôos rasantes a algum sonho. o manuel camacho, depois do luis - presidente da assembleia municipal , nos ter lembrado que nestas coisas se marca a diferença entre nós comunistas e os outros, oportunistas-veio tocar fundo em qualquer consciência mais dura que ainda restasse. da sua boca se soltaram três palavras. e o novo centro cultural de ervidel ficou «baptizado». Freguesia da Unidade ... e logo lágrimas correntes, de quatro em quatro, em muitos dos que enchiam a sala, pequena demais para a alegria raiante nas memórias. Freguesia da Unidade! e eu vi, eu vi, eu vi e venho aqui contar... daqueles corações, nesta gente que facilmente aprendi a amar, como se amam as coisas mais profundas e simples, ergueram-se com mais força ainda, os sonhos de Abril que não esquecemos e que, dia para dia, se tornam mais vermelhos, como as bandeiras do meu Partido. Freguesia da Unidade. nome bonito de UCP. e agora de centro cultural, na revolução que é preciso fazer (ainda) na consciência de muitos elementos deste povo que tarda em acordar, para a clara madrugada que se anuncia... num qualquer mês, num qualquer ano, para que se cumpra Abril! e a Reforma Agrária. Unidos. como bem anuncia esta freguesia. ervidel. do alentejo. que tem a cor dos camponeses e operários em luta.

POEMA

A VIDA É FEITA DE INSTANTES


A vida é feita de instantes
em constante oposição.
Nenhum é como foi dantes.
Foram-se uns, outros virão.
Em que é o homem igual,
a não ser em nunca o ser?
Quem sabe o que o mundo vale
mais tem de que se valer.
Uma esperança se quebranta?
Outra toma a dianteira.
O que mais na vida espanta
é a própria vida inteira.


Armindo Rodrigues

O «SIM» VENCEU!

Os irlandeses votam hoje, pela segunda vez, «sim» ou «não» ao Tratado Porreiro, pá.
Na primeira vez, o «não» foi o vencedor. Desta vez... os resultados serão conhecidos amanhã à tarde.

No entanto, o Cravo de Abril - graças a uma aturada e minuciosa investigação e a informações provenientes de fontes altamente fidedignas - está em condições de, desde já, fornecer aos seus visitantes os resultados do referendo.

Aqui fica, então - em exclusivo, em rigorosa primeira mão - a notícia que os média europeus só a partir de amanhã à tarde farão chegar aos seus utentes:

O «SIM» VENCEU O REFERENDO IRLANDÊS SOBRE O TRATADO PORREIRO, PÁ!

Isto digo eu, muitas horas antes de contados os votos, mas sem a mínima dúvida sobre o que digo - permitindo-me, mesmo, acrescentar que se amanhã, inesperadamente, viéssemos a saber que o «não» tinha vencido, mesmo assim o «sim» seria o vencedor... no próximo referendo.

Porque é assim que a «democracia» funciona desde que, por decisão do grande capital europeu, os seus homens de mão nos vários governos «eleitos democraticamente», iniciaram o processo de construção deste modelo de «democracia» a que chamam União Europeia.
E em matéria de referendos, as regras «democráticas» estão claramente definidas, desde que os eleitores da Dinamarca - numa manifestação de insensatez,quiçá com contornos terroristas - votaram maioritariamente «não» ao Tratado de Maastricht.
Na altura, o então Presidente da União Europeia - o «socialista» Jacques Delors (mon ami desse outro grandecíssimo «socialista» que é Mário Soares) - sem papas na língua, decretou assim: «far-se-ão tantos referendos quantos os necessários para o "sim" ganhar»

E assim se fez.
E o «sim» ganhou.
E assim ficou estabelecido fazer-se sempre que necessário.

E foi assim que o Cravo de Abril soube que o «sim» foi o grande vencedor do referendo de hoje na Irlanda - cujos resultados só serão conhecidos amanhã à tarde....

POEMA

CERNE


Constantemente me interrogo.
E, se não me interrogasse,
como saberia eu
o meu certo rumo?
Como poderia eu, portanto,
negar com tanta segurança,
por hipótese,
sobre as mentiras fáceis,
as dificílimas verdades?


Armindo Rodrigues

À ESQUERDA?

Os jornais dão notícia de um documento ontem divulgado, intitulado «Compromisso à Esquerda» e subscrito por mais de uma centena de pessoas.
É intenção declarada dos subscritores pressionar um entendimento entre «os partidos de esquerda» visando «encontrar uma solução estável de governo».

Isto porque, dizem os mesmos subscritores, «o resultado das eleições legislativas permite afirmar com clareza que os portugueses recusaram a hegemonia neo-liberal, dando o seu voto maioritariamente à esquerda» - entendendo por «esquerda» o PS, o BE e o PCP/CDU.

Esse entendimento poderia, sempre segundo os referidos subscritores, assumir a forma de «coligação ou de acordo de incidência parlamentar» - modalidades que «são muito comuns na Europa Ocidental», enquanto que em Portugal, «há mais de 30 anos que as esquerdas continuam incapazes de se entender para gerarem soluções de governo».


A meu ver, este «Compromisso à Esquerda» padece de uma sucessão de equívocos, a começar por aquele que é o pai de todos os que se lhe seguem: considerar o PS um partido de esquerda.
Partir dessa premissa profundamente errada só pode conduzir a conclusões profundamente erradas - e não há malabarismos de linguagem que iludam essa realidade, como a leitura do «Compromisso» evidencia.

Só quem queira fechar os olhos (ou deixar que lhos fechem) ao que tem sido a prática do PS desde há, pelo menos, 33 anos , é que pode olhar para o partido de Soares, Guterres, Sócrates... e ver um partido de esquerda.
Basta recordar o papel por ele desempenhado enquanto líder da contra-revolução; a sua entusiástica acção pioneira na implementação da política de direita contra Abril; a sua constante disponibilidade para entendimentos com os partidos da direita e a sua constante indisponibilidade para entendimentos à esquerda - num caso e noutro, sublinhe-se, para melhor levar por diante a política de direita ao serviço do grande capital nacional e internacional.

A meu ver, considerar o PS um partido de esquerda é, na situação actual, o pior serviço que pode ser feito à Esquerda - e o melhor serviço que pode ser feito ao PS-executante-da-política-de-direita.