POEMA

ARRANCA DA CABEÇA O PENSAMENTO...


Arranca da cabeça o pensamento,
esvazia o coração de simpatia,
e, morto, viverás com alegria,
neste triste lugar, neste momento.
Mas se a isto preferes o tormento
de uma luta constante, amarga e fria,
da tua noite romperá o dia
em que à afronta a levará o vento.
Não te importe se à voz te não responde
sempre outra voz ardente como a tua,
nem te importe sequer porque se esconde.
Crê só que no silêncio a raiva estua,
e amanhã, sem saberes como e donde,
ela virá bradar em cada rua.


Armindo Rodrigues

GENTE SÉRIA É OUTRA COISA...

O bastonário Marinho Pinto - este homem não pára!... - deslocou-se ontem à Figueira da Foz, em visita a um «antigo colega da faculdade e amigo de há muitos anos», de seu nome João Ataíde - que, por coincidência, é «candidato do PS à autarquia local».
Os dois amigos mataram saudades passeando pela baixa da cidade, acompanhados por jornalistas que, certamente por coincidência, também por ali passeavam...

Para quem estivesse tentado a considerar tal passeio pela baixa figueirense como uma «acção de apoio eleitoral», o bastonário esclareceu desde logo que não se tratava de nada disso, nem pensar, tanto mais que, informou, «não faço campanha, não sou candidato».

E foi a não fazer campanha que o bastonário, referindo-se ao seu «amigo de há muitos anos» - e agora candidato do PS - saudou «a entrada de gente séria na política» - isto porque, explicou, «a política está muito desprestigiada, está muito degradada, e é bom que apareçam pessoas como o dr. João Ataíde».

Por seu lado, o candidato do PS - para o qual o passeio pela baixa figueirense com o amigo bastonário e os jornalistas, decorreu, certamente, num momento de pausa da sua campanha eleitoral - fez o elogio das muitas qualidades que vê no bastonário e esclareceu que o encontro e o passeio decorreram no «plano estrito da amizade entre ambos». Nada de campanha eleitoral, nem pensar...


Não há dúvida: gente séria é outra coisa...

POEMA

O LACRAU


Couraçado como um guerreiro antigo,
o lacrau de orgulhoso e esbelto porte,
no chão, quieto, espreita o inimigo,
para num brusco abraço lhe dar morte.

Não se lhe chame traiçoeiro e ruim.
É da condição dele ser assim.


Armindo Rodrigues

COMO MATAR UMA NOTÍCIA

Das formas de matar uma notícia pode dizer-se que são tantas quantas as maneiras de cozinhar bacalhau...
O crime assume as formas mais diversificadas, desde o puro e simples silenciamento da notícia, até à sua pura e simples falsificação, passando pela pura e simples manipulação do acontecido.

Encontra exemplos muitos de todas essas modalidades, quem acompanhe, nos jornais, rádios e televisões, as «notícias» referentes ao PCP.
Para essas, há todo um esquema montado, aplicável a todas as situações e, por isso, de fácil utilização para qualquer analfabeto.
Ou seja: o matador de serviço ao PCP não precisa de se preocupar - e muito menos de pensar - em como cumprir a tarefa. Quer se trate da vida interna do PCP, do seu projecto, da sua ideologia, da sua actividade, para todos os casos há munições em stock: é só escolher e disparar.

Mas atenção: dada a longa experiência adquirida pelos matadores profissionais, com frequência a morte da notícia é feita de forma tão natural que até parece que não é morte...
E assim matam que se fartam.

Um exemplo: Estremoz é um concelho onde, há quatro anos, a CDU perdeu (por 70 votos) a maioria para o PS; os activistas da CDU batem-se agora pela recuperação dessa maioria; ontem realizaram um jantar no qual participaram mais de 450 pessoas e no decorrer do qual usou da palavra Jerónimo de Sousa, que disse...

Bastaria escrever o que acima está escrito, acrescentando uma frase - só uma! - tirada do discurso do secretário-geral do PCP, e estava feita a notícia - uma notícia.

E bastaria, para quem quisesse matar a notícia, começar assim: «Em Estremoz, Jerónimo de Sousa não disse nada de novo».
Foi, diz-me uma amiga, o que fez a Antena 1, ontem, num dos seus «noticiários».


POEMA

PAUTA


O que do intento à acção
for capaz de se mover,
com mais ou menos alarde,
soberba, ou despretensão,
sem a prudência o tolher,
sem a consciência perder,
podem-lhe os joelhos tremer,
podem-lhe os dentes bater.
O que não é é cobarde.


Armindo Rodrigues

CRÓNICA DE UMA MORTE ANUNCIADA

Na noite de 27 de Setembro, os pêcêpólogos de serviço às televisões, analisando os resultados da CDU nas legislativas, proclamaram a «morte do PCP».
E tão convincentes foram uns para os outros, que um deles, num misto de alívio e de raiva, desabafou um sentido «Finalmente!», assim como quem diz: «chiça, já não era sem tempo!»...

Nos dias seguintes, a brigada de pêcêpólogos de serviço à imprensa escrita, composta por cangalheiros cheios de experiência na matéria, corroborou efusivamente a necrológica notícia. E os semanários, com a sua particular apetência para a arte da cangalha, passaram e assinaram a certidão de óbito comprovativa, assim sintetizada por um deles: «Sobre o PCP já disse tudo o que tinha a dizer em crónicas anteriores. Está morto».
Pronto, se eles o dizem...

Neste momento solene, vale a pena lembrar, ainda que resumidamente, a história das mortes do PCP - e muitas foram elas, como estamos lembrados.
Quem primeiro matou o PCP foi um senhor chamado Salazar: e matou-o pelo menos meia dúzia de vezes, seguindo um método que aqui se recorda: começando por proclamar que «Em Portugal os comunistas não têm passado e não terão futuro», passou ao anúncio sistemático do óbito, repetido na tal meia dúzia de vezes... enquanto mandava perseguir, prender, torturar, matar milhares de comunistas... até que Salazar morreu e Abril nasceu...
E de então para cá, o PCP já morreu uma dúzia de vezes, numa repetida sequência necrológica que aqui se recorda: os cangalheiros pós-Abril, começam por condenar o PCP ao «definhamento inexorável», à «perda irreversível de influência» - e, naturalmente, ao «envelhecimento imparável» - e terminam, depois, em glória, com o anúncio do óbito... enquanto utilizam todos os muitos meios de que dispõem visando liquidar, de facto, o... «morto»...

Quer isto dizer que, nas semanas e meses que aí vêm, os cangalheiros voltarão à carga com o anúncio do «definhamento inexorável» etc, etc, etc - a que se seguirá, na devida altura, o anúncio da morte já anunciada uma dúzia de vezes.


(Entretanto, dezenas de milhares de candidatos e activistas da CDU participam intensamente na campanha das autárquicas, construindo um resultado eleitoral através do qual confirmarão, na noite do próximo domingo, que a CDU avança com toda a confiança).

POEMA

A CADA UM CHEGA UM POUCO


A cada um chega um pouco
do que para todos chega.
Quem o quer diz-se que é louco.
Mas por que é que se lho nega?
É porque a verdade assusta
que a mentira persuade.
A unidade mais justa
nasce da variedade.
Querer só, não é querer.
Não há querer sem acção.
O próprio pão, para o ser,
primeiro rebenta o chão.


Armindo Rodrigues

TUDO E MAIS ALGUMA COISA

Francisco Louçã queixou-se do tratamento dado pelos jornais à campanha do BE para as legislativas - destacando o Sol e o Público como os que pior o trataram...
Curiosamente, quem informa sobre a queixa é o próprio Sol, em peça curiosamente assinada pelo inevitável Manuel Agostinho Magalhães - que ao BE tem vindo a dedicar todo o seu talento de propagandista.

E lembrar-me eu que os dois jornais de que Louçã agora se queixa - Sol e Público - foram os que, logo a seguir às eleições para o Parlamento Europeu, deram o pontapé de saída para a colossal campanha de propaganda ao BE levada a cabo pelo conjunto dos média propriedade do grande capital...

Confesso que por esta eu não esperava. Mas serve-me de emenda: de hoje em diante, dessa gente eu espero tudo - e mais alguma coisa.

POEMA

DA CONTRADIÇÃO


Por contradições se avança.
Na constante contradança
de negar e ser negado,
mudança atrás de mudança,
nunca a mudança se cansa,
nada está nunca acabado.


Armindo Rodrigues

Freguesia da Unidade


freguesia da unidade. com maiúsculas que não pus, mas que lá estão, na memória de todos que fizeram da unidade o lema da sua freguesia na mais bonita de todas as belas conquistas de Abril. este foi o nome escolhido, imagino a comoção em que a lembrança surgiu, pelos trabalhadores para a sua UCP, durante a Reforma Agrária. O lagar ainda hoje trabalha, se bem que já não sejam dos trabalhadores as terras de onde extraem o fruto, luz prometida no fio de azeite à força de muita pedra em mós. nos casões ( assim chamam, no Alentejo, às arrecadações) nasceu um centro cultural que foi hoje inaugurado. De todos os caminhos e estradas da aldeia vieram camponeses, operários, desempregados, reformados... em todos uma luz tremeluzente no olhar, fazendo lembrar tempos cantados pelo adriano, em que os olhos dos camponeses eram fogos na madrugada. mais de cem encheram o auditório. outros tantos ficaram de fora, ouvindo ecos na esperança que dentro e fora se multiplicava. a obra, a excelente obra, admirou a todos. e um orgulho quase inexplicável invadiu os peitos dos ervidelenses que ali estavam. para umas palavras subiram ao palco os «principais» representantes dos órgãos autárquicos. a primeira palavra coube ao presidente da junta. No nobre, assim se chama o meu bom amigo e grande camarada, tudo se resume à beleza profundíssima do seu coração de homem bom. foi impressionante ver no rosto dos seus conterrâneos, na minha gente, a alegria pueril ... reflexo de uma bem mais madura de se saberem detentores de uma junta de freguesia onde a honestidade e a força de vontade fazem destas coisas. belas. como só as aves sabem pintar nos vôos rasantes a algum sonho. o manuel camacho, depois do luis - presidente da assembleia municipal , nos ter lembrado que nestas coisas se marca a diferença entre nós comunistas e os outros, oportunistas-veio tocar fundo em qualquer consciência mais dura que ainda restasse. da sua boca se soltaram três palavras. e o novo centro cultural de ervidel ficou «baptizado». Freguesia da Unidade ... e logo lágrimas correntes, de quatro em quatro, em muitos dos que enchiam a sala, pequena demais para a alegria raiante nas memórias. Freguesia da Unidade! e eu vi, eu vi, eu vi e venho aqui contar... daqueles corações, nesta gente que facilmente aprendi a amar, como se amam as coisas mais profundas e simples, ergueram-se com mais força ainda, os sonhos de Abril que não esquecemos e que, dia para dia, se tornam mais vermelhos, como as bandeiras do meu Partido. Freguesia da Unidade. nome bonito de UCP. e agora de centro cultural, na revolução que é preciso fazer (ainda) na consciência de muitos elementos deste povo que tarda em acordar, para a clara madrugada que se anuncia... num qualquer mês, num qualquer ano, para que se cumpra Abril! e a Reforma Agrária. Unidos. como bem anuncia esta freguesia. ervidel. do alentejo. que tem a cor dos camponeses e operários em luta.

POEMA

A VIDA É FEITA DE INSTANTES


A vida é feita de instantes
em constante oposição.
Nenhum é como foi dantes.
Foram-se uns, outros virão.
Em que é o homem igual,
a não ser em nunca o ser?
Quem sabe o que o mundo vale
mais tem de que se valer.
Uma esperança se quebranta?
Outra toma a dianteira.
O que mais na vida espanta
é a própria vida inteira.


Armindo Rodrigues

O «SIM» VENCEU!

Os irlandeses votam hoje, pela segunda vez, «sim» ou «não» ao Tratado Porreiro, pá.
Na primeira vez, o «não» foi o vencedor. Desta vez... os resultados serão conhecidos amanhã à tarde.

No entanto, o Cravo de Abril - graças a uma aturada e minuciosa investigação e a informações provenientes de fontes altamente fidedignas - está em condições de, desde já, fornecer aos seus visitantes os resultados do referendo.

Aqui fica, então - em exclusivo, em rigorosa primeira mão - a notícia que os média europeus só a partir de amanhã à tarde farão chegar aos seus utentes:

O «SIM» VENCEU O REFERENDO IRLANDÊS SOBRE O TRATADO PORREIRO, PÁ!

Isto digo eu, muitas horas antes de contados os votos, mas sem a mínima dúvida sobre o que digo - permitindo-me, mesmo, acrescentar que se amanhã, inesperadamente, viéssemos a saber que o «não» tinha vencido, mesmo assim o «sim» seria o vencedor... no próximo referendo.

Porque é assim que a «democracia» funciona desde que, por decisão do grande capital europeu, os seus homens de mão nos vários governos «eleitos democraticamente», iniciaram o processo de construção deste modelo de «democracia» a que chamam União Europeia.
E em matéria de referendos, as regras «democráticas» estão claramente definidas, desde que os eleitores da Dinamarca - numa manifestação de insensatez,quiçá com contornos terroristas - votaram maioritariamente «não» ao Tratado de Maastricht.
Na altura, o então Presidente da União Europeia - o «socialista» Jacques Delors (mon ami desse outro grandecíssimo «socialista» que é Mário Soares) - sem papas na língua, decretou assim: «far-se-ão tantos referendos quantos os necessários para o "sim" ganhar»

E assim se fez.
E o «sim» ganhou.
E assim ficou estabelecido fazer-se sempre que necessário.

E foi assim que o Cravo de Abril soube que o «sim» foi o grande vencedor do referendo de hoje na Irlanda - cujos resultados só serão conhecidos amanhã à tarde....

POEMA

CERNE


Constantemente me interrogo.
E, se não me interrogasse,
como saberia eu
o meu certo rumo?
Como poderia eu, portanto,
negar com tanta segurança,
por hipótese,
sobre as mentiras fáceis,
as dificílimas verdades?


Armindo Rodrigues

À ESQUERDA?

Os jornais dão notícia de um documento ontem divulgado, intitulado «Compromisso à Esquerda» e subscrito por mais de uma centena de pessoas.
É intenção declarada dos subscritores pressionar um entendimento entre «os partidos de esquerda» visando «encontrar uma solução estável de governo».

Isto porque, dizem os mesmos subscritores, «o resultado das eleições legislativas permite afirmar com clareza que os portugueses recusaram a hegemonia neo-liberal, dando o seu voto maioritariamente à esquerda» - entendendo por «esquerda» o PS, o BE e o PCP/CDU.

Esse entendimento poderia, sempre segundo os referidos subscritores, assumir a forma de «coligação ou de acordo de incidência parlamentar» - modalidades que «são muito comuns na Europa Ocidental», enquanto que em Portugal, «há mais de 30 anos que as esquerdas continuam incapazes de se entender para gerarem soluções de governo».


A meu ver, este «Compromisso à Esquerda» padece de uma sucessão de equívocos, a começar por aquele que é o pai de todos os que se lhe seguem: considerar o PS um partido de esquerda.
Partir dessa premissa profundamente errada só pode conduzir a conclusões profundamente erradas - e não há malabarismos de linguagem que iludam essa realidade, como a leitura do «Compromisso» evidencia.

Só quem queira fechar os olhos (ou deixar que lhos fechem) ao que tem sido a prática do PS desde há, pelo menos, 33 anos , é que pode olhar para o partido de Soares, Guterres, Sócrates... e ver um partido de esquerda.
Basta recordar o papel por ele desempenhado enquanto líder da contra-revolução; a sua entusiástica acção pioneira na implementação da política de direita contra Abril; a sua constante disponibilidade para entendimentos com os partidos da direita e a sua constante indisponibilidade para entendimentos à esquerda - num caso e noutro, sublinhe-se, para melhor levar por diante a política de direita ao serviço do grande capital nacional e internacional.

A meu ver, considerar o PS um partido de esquerda é, na situação actual, o pior serviço que pode ser feito à Esquerda - e o melhor serviço que pode ser feito ao PS-executante-da-política-de-direita.

POEMA

ENTRE PATRÃO E OPERÁRIO


Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.


Armindo Rodrigues

A BATALHA NAVAL

Procuradores do Ministério Público procederam a buscas em três escritórios de advogados, à procura de provas sobre o negócio da compra dos dois submarinos, feita pelo então ministro da Defesa, Paulo Portas - que foi um dos grandes vencedores das eleições de domingo passado e, por isso, sabe-se lá se futuro ministro outra vez...

Registe-se o pormenor curioso que é o de um destes escritórios de advogados - Vieira de Almeida & Associados - já ter sido objecto de buscas semelhantes no âmbito do caso Freeport - o que pode indiciar uma, digamos assim, vocação do dito escritório para este tipo de... buscas...

Nas buscas a estes três escritório, os procuradores procuravam o rasto dos 30 milhões de euros que o negócio dos submarinos de Paulo Portas rendeu a alguém - que eu juro não saber quem foi.

A notícia não diz se os procuradores encontraram ou não o rasto que procuravam - se é que os 30 milhões deixaram algum rasto fosse onde fosse, já que este pode muito bem ser um daqueles casos de que é uso dizer-se: desapareceu sem deixar rasto...

Assim, tudo indica estarmos perante uma divertida batalha naval - mais divertida ainda, agora que entrou em cena o Bastonário Marinho Pinto, o qual, com uma saraivada de disparos parece ter passado ao lado dos dois submarinos e ainda mais ao lado dos 30 milhões.
Disse o Bastonário, irado, que as buscas realizadas pelo Ministério Público são «terrorismo judicial».
Porquê?: porque, explica o Bastonário, «é absolutamente ilegal ir aos escritórios para procurar elementos para incriminar os clientes» - explicação que, ou muito me engano ou quer dizer que «os escritórios» são, ou devem ser, locais seguros para todas as eventuais negociatas dos «clientes»...

POEMA

POVO SEM LEI E SEM PÃO


Povo sem lei e sem pão
que desesperado esperas,
se te respeitas deveras,
levanta a face do chão.

Tempos houve em que falaste
aos reis de igual para igual.
O próprio rumo real
muita vez o apontaste.

Agora, pávido e frio,
atado de mãos e pés,
nada ouves, nada vês,
tens o coração vazio?

Que destino te vergou
que não poderás vergar,
se vergaste até o mar
quando era negro e só?

Povo sem lei e sem pão
que desesperado esperas,
sê ao menos, como eras,
rebelde na servidão.


Armindo Rodrigues

OS INTERESSES DO POVO HONDURENHO

A situação nas Honduras agrava-se.
Eis, em meia dúzia de factos, o que ali se passa.

A repressão aumenta - «repressão selvagem, proveniente de selvagens», como foi caracterizada.

O governo fascista decretou o estado de sítio por 45 dias e suspendeu cinco direitos constitucionais:
- liberdade pessoal
- liberdade de expressão
- liberdade de associação
- livre circulação
- direitos dos detidos.
Direitos escolhidos a dedo, como se vê, e bem elucidativos do carácter fascista do poder instalado.

Ao mesmo tempo, tropas às ordens do governo golpista tomaram de assalto e encerraram a Rádio Globo e a televisão Canal 36 - os dois órgãos de informação que davam notícias sobre o que se passa no país.

A Embaixada do Brasil, onde se encontra o Presidente Manuel Zelaya, continua cercada pelas tropas e prosseguem as ameaças de invasão e os cortes de electricidade e de água e a proibição da entrada de víveres.

Entretanto, o Comité para a Defesa dos Direitos Humanos nas Honduras tornou público um comunicado sobre outros aspectos concretos da repressão: cargas sobre manifestantes, centenas de pessoas nas prisões, feridos, desaparecidos - e responsabiliza o fascista Micheletti pelas mais de 100 pessoas que foram assassinadas desde o golpe fascista de 28 de Junho.

Por seu lado, o Governo dos EUA, cuja preocupação maior parece ser a de assegurara a manutenção dos golpistas no poder, declarou que o regresso clandestino do Presidente Zelaya às Honduras era um acto «irracional e idiota que não serve os interesses do povo hondurenho»
Assim se confirma que para o Governo de Obama, na boa tradição dos governos norte-americanos de todos os tempos, «os interesses do povo hondurenho» são os interesses dos EUA...

Como a realidade tem vindo a demonstrar, os verdadeiros interesses do povo hondurenho defende-os o próprio povo na sua luta heróica - há três meses e sem um dia de pausa - exigindo a reposição da legalidade democrática e o regresso ao País do seu Presidente legítimo, Manuel Zelaya.

E o povo hondurenho vencerá!

POEMA

BIOGRAFIA


Protesto contra a vida,
mas amo-a com furor,
e odeio a paz traída
que me querem impor.

Qual dos homens sou eu,
de quantos posso ser?
Que foi que me venceu?
Ou é isto vencer?

Ás vezes, de tardar
a esperança em que cismo,
sinto-me soçobrar
num negro niilismo.

Não há ira nem pejo
que exprimam tanto nojo
com que aviltados vejo
tantos homens de rojo.

Ilusões e tristezas
quem é que nunca as teve?
Soltem-se as nuvens presas.
Faça-se a treva leve.

Cada homem só o é
porque outros homens há.
Sofre-se para quê?
Sempre dores haverá?

Acaso nada valha
viver-se vertical.
Mas cortem-me à navalha
e eu jurarei que vale.


Armindo Rodrigues

A CDU AVANÇA

A CDU aumentou em número de votos e de deputados e em percentagem.
Aumentou pouco. Mas aumentou.
Queríamos e merecíamos mais votos, mais deputados e mais percentagem?: claro que queríamos e, sobretudo, merecíamos. Mas esse querer e esse merecer não correspondidos, de forma alguma anulam o carácter positivo do resultado obtido - um resultado que confirma o crescimento sustentado registado nos sucessivos actos eleitorais dos últimos anos.
E esse é um dado fundamental a ter em conta.
Razão tinham, por isso, os activistas da CDU que ontem à noite, no Centro de Trabalho Vitória, gritavam: a CDU avança com toda a confiança.

Os comentadores do costume, fartaram-se de badalar sobre a «queda para 5º lugar», apresentando-a como uma tragédia para a CDU.
Como esses comentadores sabem - mas não querem que se saiba... - não é tragédia nenhuma. Nem deve ser, sequer, motivo de apreensão: a meu ver, tal «queda» só seria motivo de apreensão se ela resultasse da perda de eleitorado da CDU para os partidos que ficaram em 3º e 4º lugares. Ora isso, não só não não aconteceu como, pelo contrário, a CDU aumentou a sua votação.

O PS teve uma quebra acentuada em relação às últimas legislativas, uma quebra que, significativamente, lhe retirou a maioria absoluta - no entanto, ouvindo e vendo, ontem, Sócrates e outros dirigentes do PS, dir-se-ia que acontecera o contrário do que aconteceu...
O PSD/Manuela Ferreira Leite portou-se mais ou menos à altura do PSD/Santana Lopes - e com isto se diz tudo.
O CDS/PP e o BE registaram assinaláveis subidas - surpreendentes, talvez, no primeiro caso, muito aquém das previsões no caso do BE.

Avaliando estes resultados, poder-se-á dizer, como me disse um amigo (membro do PS) em mensagem que hoje recebi, que eles traduzem uma viragem eleitoral à esquerda?
Nem de longe nem de perto.
Aliás, não percebo que contas podem levar a tal conclusão - e muito menos percebo e aceito que, para que essas contas dêem certas, se considere o PS um partido de esquerda, quando, na realidade, ele há muito que deixou de ser um partido de esquerda (se é que alguma vez o foi).
Pergunto: como é possível considerar de esquerda um partido que é, há 33 anos, o principal protagonista da política de direita e o líder assumido da contra-revolução?


E agora, como vai ser?
Veremos...
O PS perdeu a maioria absoluta mas, estou em crer, não lhe hão-de faltar apoios parlamentares, às claras ou camuflados, para continuar a política de direita...
É certo que os deputados que elegeu não dão para, acrescentando-lhe os do BE, levar por diante uma política de direita com pequenos retoques de esquerda...
É certo, também, que com o CDS/PP há deputados que cheguem para o PS/Sócrates continuar no velho «rumo» seguido até aqui - e um casamento entre os dois não seria mais do que a repetição de uma boda de ambos conhecida...

Uma coisa é certa, no entanto: por parte das forças que integram a CDU - com destaque para o PCP - a luta contra a política de direita vai prosseguir.
E mesmo sendo esta uma conclusão que podíamos ter tirado ontem, antes da contagem dos votos, não deixa de ser relevante reafirmá-la de forma inequívoca um dia após as eleições.
Para que conste...

Entretanto, já estão aí as autárquicas, a exigir-nos muito esforço, muita dedicação, muita militância, muita confiança - condições indispensáveis para, no dia 11 de Outubro, darmos mais força ao trabalho, à honestidade e à competência dos eleitos da CDU no poder local.

POEMA

PROGRAMA


Esta ânsia de indagar,
de analisar, de propor,
de discutir, de negar,
de afirmar só duvidando,
para a cada dúvida erguida
sempre outras razões opor,
de por igual estar presente
onde estou e onde não estou,
é o caminho mais puro
que vale a pena trilhar.

Este prazer de arrasar,
para de novo construir,
de imaginar que sou aço,
sem me esquecer de que sou,
irremediavelmente,
mísero, frágil, comum,
de pele, músculos, ossos,
sangue, nervos, desatinos,
é o destino mais claro
que vale a pena sonhar.

Este orgulho de não querer
nada para mim apenas,
para ter os braços mais livres,
para mais livre pensar,
para ser mais de direito
dono do que necessito,
para a quanto me rodeia
não o achar nunca estreito,
é a riqueza maior
que vale a pena ganhar.


Armindo Rodrigues

ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS

Assim passei o meu dia de ontem, dia de reflexão:
De manhã fui ao café, tomei o pequeno almoço, li jornais, reflecti...
Depois, dei uma volta pela blogosfera, postei uns posts, visitei os meus blogs preferidos, em alguns dos quais deixei comentários. Almocei. Reflecti...

A seguir, ouvi música. Música recorrente: o Adriano («Gente de Aqui e de Agora» e «Que Nunca Mais»); e «Trovas do Tempo que Passa - Samuel Canta Adriano» - cd que me foi oferecido aqui há uns meses e que me confirma inequivocamente que Adriano «foi um dos homens que fizeram cantar» bem. Reflecti...
Seguiram-se alguns daqueles «clássicos» a que recorro com frequência - por isso lhes chamo recorrentes...: Beethoven (a recorrentíssima Quinta); Mahler (a Nº 2, a da Ressurreição, que Jorge de Sena ouviu assim:
«Ante este ímpeto de sons e de silêncio
Ante tais gritos de furiosa paz
Ante um furor tamanho de existir-se eterno
Há portas no infinito que resistam?»
Não há: reflecti.

E por aqui andei, saltitando recorrentemente do Jorge de Sena para o Armindo, deste para o Zé Gomes... - sempre reflectindo...

Á noite fui ao futebol - pela primeira vez, este ano.
Ver a Luz a (quase) encher é um espectáculo. Ver o Benfica ganhar é O espectáculo. Ouvir os cânticos e os gritos da multidão - «Assim se vê a força do SLB!» - dá para... reflectir...

De regresso a casa - obviamente, em estado de reflexão... - vi dois filmes, tirados à sorte do meio de uma dezena de recorrentes...: «O Mundo a seus pés» que me proporcionou demorada reflexão...; e o «Cinema Paraíso», que cumpriu o seu destino de me fazer chorar - lágrimas boas: de ternura, de tristeza, de alegria, de amargura, de felicidade... - e reflecti.

.............................................................................

Agora, vou votar.
Com a convicção profunda de que o meu voto será um dos que contribuirão para que a CDU atinja o seu objectivo principal: uma votação maior do que a obtida nas anteriores legislativas.
Com a certeza de que - independentemente de esse objectivo ser ou não alcançado - amanhã, segunda-feira, A LUTA CONTINUA.

Até amanhã, camaradas.

POEMA

POSIÇÃO DE GUERRA


Crescem em mim milhões de punhos
cerrados,
bandeiras desfraldadas,
horizontes.
Soam em mim milhões de brados
resolutos,
protestos brutos,
queixumes.
Abrem-se em mim milhões de chagas,
como crateras de fogo.
Rompem de mim vendavais.
Sou eu que me interrogo,
a tudo atento,
sobranceiro ao gozo ou ao sofrimento,
com pensamentos verticais.


Armindo Rodrigues

(com este poema, o Cravo de Abril inicia um novo ciclo de poesia, com o qual presta homenagem ao Poeta Armindo Rodrigues)

LEVADOS E BEM LEVADOS...

Pelo que tem sido dito e escrito estamos perante a iminência de uma tragédia que atingirá muitos milhões de pessoas em todo o planeta e roubará a vida a um número indeterminado, mas elevado, dos atingidos.
É este, em resumo desdramatizado, o aviso que nos chega sobre as consequências da gripe A - para combater a qual estão a ser produzidas e vendidas milhões e milhões de vacinas, de máscaras, de etc, etc...

Eis senão quando, segundo o Sol, o Bastonário da Ordem dos Médicos de Espanha, pede a palavra e diz:
«Estamos perante uma epidemia de medo causada por uma doença fantasma que só serve interesses económicos e políticos».

E o Bastonário da Ordem dos Médicos de Portugal, acrescenta:
«Isto tudo é um absurdo. Estão a gastar-se milhões com uma doença banal. Esta gripe é menos perigosa do que a gripe sazonal».

Quer isto dizer que estamos, uma vez mais, a ser levados... e bem levados...

POEMA

A PORTUGAL


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser's minha, não.


Jorge de Sena


(com este «A Portugal» - poema escrito no exílio, em 1962, poema amargo, amargo... - encerra-se este ciclo dedicado a Jorge de Sena, com o qual o Cravo de Abril homenageou o Poeta cujos restos mortais foram - finalmente! - trasladados para Portugal)

EM JEITO DE BALANÇO...

Hoje é dia de reflexão - dia em que, de acordo com a lei, não se deve fazer propaganda eleitoral...
Isto julgava eu, mas lendo o Diário de Notícias de hoje, vi que estava enganado: lá estão, em jeito de «balanço da campanha», oito-páginas-oito de propaganda eleitoral...
Propaganda aos mesmos que o referido jornal propagandeou durante o tempo legal da campanha: o PS (muito, muito propagandeado); o PSD (não tanto, mas enfim...); o BE (sempre o filho querido, o menino bonito, do DN e de todos os gémeos do DN); o CDS/PP (propagandeado qb).
E, é claro, para mostrar o pluralismo reinante no matutino, a CDU: tratada de acordo com a tradição - uma tradição laboriosamente construída ao longo de muitos dias, de muitas semanas, de muitos meses, de muitos anos...
Com uma curiosidade: de passagem é feita uma breve, brevíssima alusão a um tal «comício de Lisboa que contou com a participação de cerca de sete mil pessoas». Pronto!: a partir de agora ninguém mais pode dizer que os jornais - todos! - silenciaram a mais participada iniciativa da campanha eleitoral...

Posto isto, e também em jeito de «balanço da campanha», passo a reflectir o seguinte:
todos os média propriedade do grande capital fizeram da CDU o alvo exclusivo dos seus ataques - ataques que se traduziram, com frequência, num desavergonhado vale-tudo;
todos esses média fizeram de todos os restantes partidos os alvos exclusivos dos seus elogios - elogios que se traduziram, com frequência, num desavergonhado vale-tudo.

Refletir sobre as razões de tudo isto, é o caminho certo para, amanhã, se encontrar o quadradinho certo no boletim de voto.

POEMA

VAI INAUGURAR-SE O MUSEU DA CARIDADE


Aceitam-se récitas da dita.
Aceitam-se chás dançantes.
Aceitam-se confessionários.
Aceitam-se misericórdias.
Aceitam-se subscrições públicas.
Aceitam-se esmolas ao sábado.
Aceitam-se valas comuns.
Aceitam-se bairros económicos.
Aceitam associações de protecção às raparigas.
Aceitam-se conferências de S.Vicente de Paula.
Aceitam-se consultas grátis.
Aceitam-se hospitais.
Aceitam-se dispensários.
Aceitam-se necrológios.
Aceitam-se artigos de fundo.
Aceitam-se discursos patrióticos.
Aceitam-se sugestões para acrescentar esta lista.

E também se aceitam poemas sociais como este.


Jorge de Sena

QUE GRANDE CAMBADA!

Sou um daqueles «militantes tradicionais do PCP» que criticam a forma miserável como a comunicação social dominante tem tratado a campanha da CDU - mais do que «tradicional» devo ser, mesmo, tradicionalíssimo, já que a minha crítica se estende à forma miserável como essa comunicação social trata o PCP/CDU durante os 365 (ou 366) dias do ano.

E já agora, aproveito para dizer que critico, apenas, porque não posso fazer mais nada. Se pudesse, submetia esses média a um castigo que, para eles, seria dolorosíssimo, uma autêntica tortura : obrigava-os a transformarem-se em verdadeiros órgãos de informação.

Mas vamos ao que interessa: ontem à noite, a CDU realizou um comício, no Campo Pequeno, no qual participaram sete mil pessoas.
Trata-se, sem dúvida, da maior de todas as iniciativas desta campanha eleitoral - porventura maior, até, do que a soma das maiores iniciativas promovidas por todos os restantes partidos...

Pois bem: os jornais de hoje - todos! - silenciaram absolutamente o referido comício: nem uma palavra, nem uma foto, nem uma referência, nem uma alusão a qualquer das intervenções lá proferidas (mesmo que fosse, como é hábito, para deturpar o que foi dito).
NADA! SILÊNCIO TOTAL!

Percebe-se: anunciando todos os dias a CDU a descer, não lhes convém mostrar a CDU a crescer...
Que grande cambada!

POEMA

«DEIXEM-SE DE FINGIR...»


Deixem-se de fingir de heróis de esquerda,
com bancos e bancas de advogados, redacções,
editoriais, automóvel, bolsas e cátedras,
quintas herdadas, páginas literárias.
Deixem-se de uivar em defesa de ismos
que nenhum vos pertence ou a que pertenceis
a não ser para dançar a dança desnalgada
dos que não têm vergonha do povo português.
O único ismo em consonância com os arrotos
de bem comidos, e os rosnidos de instalados
naquilo que criticam disfarçando-se,
é o relismo - de reles. Nada mais.


Jorge de Sena

ATENÇÃO, MUITA ATENÇÃO

Os jornais todos os dias registam o que, segundo cada um deles, é «negativo» e «positivo» nas campanhas eleitorais de cada partido.
Com frequência, as justificações apresentadas para a classificação negativa ou positiva são de bradar aos céus. Especialmente no que respeita à CDU.
(Só um exemplo: a abertura da campanha da CDU foi «negativa» porque durante parte do comício no Templo de Diana... choveu - certamente por culpa da CDU que não tomou as medidas necessárias para impedir que a chuva caísse...)

Hoje, o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias entenderam-se na justificação da nota atribuída à campanha da CDU - nota negativa porque, acusa o DN, «o militante tradicional do PCP continua a queixar-se dos jornais»;
e porque, acusa o JN, «alguns militantes têm criticado o trabalho da comunicação social em relação à campanha da CDU».

Atenção «militantes» e «militantes tradicionais do PCP», muita atenção: nada de «queixas» nem de «críticas» aos jornais, façam como os «militantes» dos outros partidos que aplaudem e agradecem os favores dos jornais...
Tanto mais que, como se vê, quem se mete com os jornais, leva...

POEMA

FESTA ALEGÓRICA


O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte de soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas:
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.


Jorge de Sena

A CAMBADA MEDIÁTICA

Os chamados órgãos de informação - fórmula pomposa utilizada para designar os média dominantes, propriedade do grande capital - todos os dias nos mostram o que valem enquanto tal.

Desinformar organizadamente é a sua profissão: quer em matéria de noticiário nacional e internacional; quer no que respeita a «opinião»; quer em relação a títulos, fotos e legendas, programas de entretenimento, entrevistas, debates, reportagens...
Acresce que, estando ao serviço de quem estão - que é quem lá põe dinheiro forte, como diz o engenheiro Belmiro no seu linguajar característico- todos eles imitam as poses e gestos e arrogância e insolência dos patrões, num ostensivo desprezo pela inteligência, pela sensibilidade e pelos direitos dos seus consumidores/pagadores.
E o descaro vai ao ponto de todos eles se auto-designarem «independentes», «isentos», «imparciais», «plurais» e de se auto-apresentarem como exemplos e garantes da «liberdade de informação, pilar essencial da democracia»...

Vem isto a propósito da primeira página do Diário de Notícias de hoje, onde um dos destaques vai para as Honduras.
E diz assim:
«O regresso louco de Zelaya às Honduras.
Presidente deposto em pijama voltou ontem de surpresa.
Após 15 horas de viagem, refugiou-se dos tumultos na embaixada brasileira»

Aí está a «informação» típica da cambada mediática: insultuosa, humilhante, mentirosa.

POEMA

DOENÇA URGENTE


Sentes uma dor?
A dor aumenta?
Os médicos na América não são chamados,
não visitam ninguém. O teu médico
de família, se lhe pedires que te acuda,
responde-te que vás para o hospital.
Vais para o hospital.
Ninguém te conhece,
ninguém te ouve,
ninguém te pergunta nada.
Sentes uma dor?
Continuarás a senti-la
enquanto os exames, as análises, as conferências
(previamente verificado o valor dos teus
seguros de saúde e a tua conta bancária)
se sucedem.
A dor aumenta?
Gritas?
Acabas por calar-te?
Morres?
Os exames deram um diagnóstico correcto
que tecnicamente não poderia ter sido dado antes
- e a tua família não pode processar
ninguém pelo facto de teres morrido.
Apenas poderá mandar a conta à
companhia de seguros.


Jorge de Sena

HONDURAS - SOLIDARIEDADE

O Presidente Manuel Zelaya regressou ontem às Honduras.
Fê-lo clandestinamente, como é óbvio, e perante a incredulidade do fascista Micheletti.
Este, começou por negar, com a arrogância provocatória que lhe é característica, a presença do Presidente legítimo nas Honduras, assegurando que Manuel Zelaya - que designou como «terrorista mediático» - se encontrava «numa suite de um hotel da Nicarágua».
Depois, foi obrigado a reconhecer a presença do Presidente Manuel Zelaya nas Honduras, na Embaixada do Brasil - às imediações da qual começaram a acorrer milhares de pessoas manifestando o seu apoio ao Presidente legítimo.

Dirigindo-se aos seus apoiantes, o Presidente Zelaya afirmou:
«Quero dizer-vos que estou comprometido com o povo hondurenho e que não descansarei nem um dia, nem um minuto, até afastar a ditadura do poder. A partir de agora ninguém me tirará daqui, pelo que a minha posição é: pátria, restituição do poder, ou morte».
E aludindo à resistência heróica do povo hondurenho, o Presidente disse: «Somos um povo unido e somos, por isso, um povo vencedor»

Entretanto, o fascista Micheletti decretou o estado de sítio e forças militares à sua ordem intimaram os manifestantes a afastar-se quer das imediações da Embaixada do Brasil quer da sede da ONU, onde também estão concentradas milhares de pessoas.
Os manifestantes recusaram-se a cumprir as ordens e declararam que vão manter-se ali.

Quer isto dizer que a luta do povo das Honduras pelo restabelecimento da democracia entrou agora numa nova e mais avançada fase - só possível, recorde-se, porque o povo resistiu e não parou de se manifestar um único dos 86 dias passados desde o golpe fascista.

Quer isto dizer, também, que a solidariedade com a luta do povo hondurenho é agora ainda mais necessária e premente.

POEMA

«É IMPOSSÍVEL DISCUTIR...»


É impossível discutir seja o que for.
Se se tem razão, ou não tem
é totalmente indiferente:
ou se aceitam as regras do jogo, ou se muda de vida e de lugar.


Jorge de Sena