POEMA

A BANDEIRA COMUNISTA


Foi como se não bastasse
tudo quanto nos fizeram
como se não lhes chegasse
todo o sangue que beberam
como se o ódio fartasse
apenas os que sofreram
como se a luta de classe
não fosse dos que a moveram.
Foi como se as mãos partidas
ou as unhas arrancadas
fossem outras tantas vidas
outra vez incendiadas.

À voz de anticomunista
o patrão surgiu de novo
e com a miséria à vista
tentou dividir o povo.
E falou à multidão
tal como estava previsto
usando sem ter razão
falsa ideia de Cristo.

Pois quando o povo é cristão
também luta ao nosso lado
nós repartimos o pão
não temos o pão guardado.
Por isso quando os burgueses
nos quiserem destruir
encontram os portugueses
que souberam resistir.

E a cada novo assalto
cada escalada fascista
subirá sempre mais alto
a bandeira comunista.


José Carlos Ary dos Santos

O MAIS BELO DE TODOS OS IDEAIS

Os militantes comunistas foram - são - sempre os alvos preferenciais da repressão capitalista. É assim em todo o mundo.
Em Portugal, a repressão aos comunistas começou logo que o Partido foi criado, em 1921.
Assumindo proporções maiores e mais graves no quase meio século de ditadura fascista, há sinais bem visíveis da repressão na acção anti-operária dos governos republicanos, que funcionavam, aliás, como autênticos conselhos de administração dos interesses do grande capital de então.

Nesses anos da Iª República, que antecederam a instauração da ditadura fascista, muitos foram os militantes comunistas presos, nalguns casos deportados sem julgamento para as colónias, noutros casos assassinados.

O registo das primeiras prisões de comunistas portugueses remonta precisamente ao dia 1 de Setembro de 1921 - faz hoje 88 anos.

Foi em Lisboa.
Nesse dia - então Dia Mundial da Juventude - a organização da Juventude Comunista, recentemente criada, promoveu uma colagem de cartazes alusivos à data, nas ruas e fábricas da capital.
12 desses jovens comunistas foram presos na zona de Alcântara e enviados para a Cadeia do Limoeiro e para o Forte de São Julião da Barra.
Foram eles, tanto quanto se sabe, os primeiros militantes comunistas portugueses a ser presos.

Por isso o Cravo de Abril os homenageia hoje - recordando o acontecimento e divulgando os seus nomes:

ARMANDO DOS SANTOS
ARMANDO RAMOS
GUILHERME DE CASTRO
JOAQUIM JOSÉ GODINHO
JOAQUIM RODRIGUES
JORGE DA SILVA PINHEIRO
JOSÉ MADEIRA RODRIGUES
MANUEL DA SILVA COSTA
MANUEL FRANCISCO ROQUE JÚNIOR
SEBASTIÃO LOURENÇO
JOSÉ DE SOUSA
MATIAS JOSÉ SEQUEIRA.

Certamente haverá diferenças várias entre os jovens que hoje integram a JCP e esses jovens que há 88 anos foram presos.
Há, no entanto - seguramente - uma característica comum a todos eles: é que os jovens presos em 1921 e os jovens que 88 anos depois dão continuidade à luta então iniciada, eram - são - todos eles, portadores do mesmo ideal de liberdade, de justiça social, de paz, de solidariedade, de fraternidade, de camaradagem, de amizade - o mais justo, o mais humano, o mais belo de todos os ideais: o ideal comunista.
E é nesse ideal que residia - há 88 anos; que reside - hoje; e que residirá - amanhã - a fonte de força essencial que há-de construir o mundo novo a que a Humanidade tem direito - um mundo liberto de todas as formas de opressão e de exploração.

POEMA

(-Concerto nº 4» de Paganini.
Espectáculo em que a peça principal foi
a «música concreta» das palmas)


O arco
do violinista
apareceu de súbito enfeitado
com fitas, bandeirinhas, cores de música,
laços, harmónicas, faúlhas...

E entre foguetes de pizzicatos
e apoteoses de faíscas
romperam dos subterrâneos da rabeca,
enroladas em serpentinas
de carnaval,
pombas com caudas em leque
e aplausos nos bicos
misturados com suor e cabelos
de acorde perfeito
final.

(bravo! Bravo! Bis!)


José Gomes Ferreira

A OPÇÃO

Manuel António Pina (MAP) escreve todos os dias no Jornal de Notícias. As suas crónicas são, regra geral, de qualidade. De vez em quando, no entanto, não sei se por ignorância se por qualquer outro motivo, alinha na desinformação organizada que hoje domina o universo mediático. E quando assim é... é uma desgraça.

Na sua crónica de hoje, MAP atira-se a Hugo Chávez utilizando os «argumentos» em voga nos média dominante quando se trata da Venezuela: a mentira - mentira tantas vezes repetida quantas as necessárias para ser tomada como verdade e utilizada até por um cronista da craveira de MAP...

MAP, que até simpatizou com Chávez quando este, «em 1992, se levantou contra a plutocracia de Andrés Perez», está agora preocupado com o Chávez actual e com a evolução da situaçao na Venezuela.
E que preocupações são as de MAP?
Ele explica: «crescentemente a "revolução bolivariana" parece assumir, com a progressiva redução das liberdades (a última, depois da liberdade de informação, é a liberdade de manifestação) aspectos do "socialismo real".

Impressiona como, em tão poucas palavras, MAP consegue sintetizar o essencial da campanha em curso contra a Revolução Bolivariana (sem aspas e com maiúsculas) organizada a partir dos EUA e propagada por todo o planeta pelos média dominantes.
E a verdade é que, se MAP se desse ao trabalho de fazer o trabalho de casa que lhe compete, ficaria a saber que na Venezuela a liberdade de informação é uma realidade observável e de fácil constatação.
Fcaria a saber que, na Venezuela, os média propriedade do grande capital desenvolvem todos os dias uma intensa actividade em que o vale-tudo é lei e colaboraram, até - e activamente - na preparação do golpe militar que há sete anos tentou derrubar o governo legítimo (recorde-se o caso da revista Boémia, que até já tinha uma edição a anunciar o êxito do golpe, com «reportagens» recheadas de pormenores...)
Ficaria a saber, igualmente, que a grande diferença em matéria de liberdade de informação, entre a Venezuela e Portugal, é que lá existe uma outra informação, alternativa à informação do grande capital, uma informação revolucionária.
E ficaria a saber que o mesmio se passa com a liberdade de manifestação e com todas as liberdades (políticas, económicas, sociais, culturais) que fazem uma democracia - e sem as quais o que existe é uma imitação de democracia.
Como MAP pode constatar olhando para a realidade portuguesa.

É fácil, muito fácil, alinhar na operação imperialista contra a Venezuela Bolivariana.
É difícil, muito difícil - e arriscado - combater essa operação.
Todavia, nesta como em muitas outras situações, «a barricada só tem dois lados: o nosso e o deles».
E não há outra opção.

POEMA

(Pequenos enredos para as pessoas,
sem imaginação nem ouvidos para gozos tímbricos,
ouvirem Schonberg e os seus descendentes.)


1

Naquela roseira do jardim geométrico
nasceu uma rosa de metal
a cheirar a gumes...

E ali ficou
à espera que um príncipe,
hirto de amor,
a arrebate
com delicadeza de dedos de alicate.

2

(Esta música também já tem os seus lugares-comuns.)

Mistério evidente com tantãs
e o breve sopro
que deixa na cara
o lençol da agonia...

Mas eu prefiro o outro,
o mistério difícil
em que ninguém repara
das rosas cansadas do dia a dia.


José Gomes Ferreira

SEM CAROÇOS...

O Público de hoje dá notícia do comício organizado pela Juventude Socialista, em Santa Cruz, Torres Vedras.
Pelo relato dos acontecimentos, Carolina Patrocínio foi a grande revelação da noite: de entre os vários oradores só ela disse coisas que até então ninguém lhe ouvira dizer - ao contrário de Sócrates, que repetiu tudo o que anda por aí a dizer e do Presidente da Câmara de Torres Vedras e do secretário-geral da JS que repetiram tudo o que Sócrates anda por aí a dizer.

De Carolina Patrocínio, enquanto mandatária do PS para a juventude, até agora apenas conhecíamos a sua aversão a cerejas com caroços e a sua predisposição ganhadora, traduzida na frase: «prefiro fazer batota a perder».
Ora, em Santa Cruz ela revelou-se uma profunda conhecedora da realidade nacional actual, de tal forma que, ouvindo-a, dir-se-ia que alguém se encarregou de lhe limpar o discurso de caroços...

«Na condição de cidadã atenta e preocupada com o seu país» - e se ela o diz quem se atreve a negá-lo?... - Carolina Patrocínio pegou num papel e leu assim: «Portugal foi objectivamente dos primeiros países a sair da recessão técnica e isto assinala o início da retoma económica». Se ela o leu...
Continuando a ler - e sempre cheia de pensamento positivo - elogiou Sócrates pela sua «determinação» e pelos seus «êxitos», designadamente na «redução do insucesso escolar»...
Finalmente, num tom e num jeito cheios de fervor guerreiro, proclamou: «Combateremos ao lado de José Sócrates os cépticos e os bota-abaixo».
Enfim, um discurso sem... caroços...

Após o comício, a jornalista tentou colocar algumas questões à eloquente oradora, mas ela - «aconselhada a não dar entrevistas», segundo o Público - limitou-se a dizer que «quer vencer».
Perder é que nunca.
Nem que seja necessário «fazer batota»...

POEMA

(Lápide.)


Mozart morreu. E no meio da tempestade
de neve e abandono,
dois gatos-pingados
de rendas de luto
e vénias de minuete
lançaram o caixão
na vala comum,
a assobiar.

Todo o planeta
passou a ser a cova viva de Mozart.


José Gomes Ferreira

PALAVRAS JUSTAS

O Presidente da Assembleia Geral da ONU, Miguel D'Escoto, entregou hoje a medalha de «Herói Mundial da Mãe Terra» àquele que considera ser «o maior expoente e paradigma de amor á Mãe Terra»: o Presidente da Bolívia, Evo Morales.

Recorde-se que Evo Morales foi eleito em Dezembro de 2005, tendo tomado posse em Janeiro de 2006.
De então para cá, muita coisa mudou naquele país, designadamente:
os recursos naturais da Bolívia passaram a ser propriedade da nação;
foram modificados todos os contratos com as empresas petrolíferas estrangeiras;
milhões de hectares de terras foram entregues a camponeses e a indígenas;
foi criado um serviço de saúde para os pobres;
foi atribuída aos idosos uma pensão mínima;
acabou-se com o analfabetismo;
melhoraram sensívelmente as condições de vida do povo -
- além de a Bolívia ter passado a ser um país soberano, livre do domínio do imperialismo norte-americano.

Por caminhos semelhantes optaram, na última década, vários países da região: a Venezuela, o Equador, a Nicarágua, as Honduras, o Paraguai... - caminhos naturalmente com as suas diferenças, mas convergindo todos no esforço de melhorar as condições de vida dos seus povos, na postura de defesa das suas soberania e independência, e numa inequívoca afirmação anti-imperialista.
Razões mais do que suficientes para que o império afiasse as garras e passasse ao ataque - como está a acontecer.

Também sobre isso se pronunciou Miguel D'Escoto, ao afirmar que «a América Latina deve ser declarada território livre de bases militares estrangeiras».
Disse ainda que a "mudança" prometida por Barack Obama, tem-se traduzido até agora em «acções que não abonam nem a segurança nem a paz», como o comprova a intenção do Governo dos EUA de «converter a Colômbia no Israel da América Latina».

Palavras justas, estas de Miguel D'Escoto, a confirmar que muita coisa está a mudar - não obstante os perigos e as ameaças que o imperialismo norte-americano continua a fazer pesar sobre os povos do mundo.

Registe-se ainda o facto, por demais significativo - e também anunciado pelo Presidente da Assembleia Geral da ONU - de Fidel Castro ter sido considerado «Herói Mundial da Solidariedade».

POEMA

(Stockausen. Música electrónica. Viagem espacial.)


Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo...

(Para os pobres é a Terra.)


José Gomes Ferreira

«AVANÇOS SOCIAIS»...

O primeiro-ministro José Sócrates, em campanha eleitoral, não pára de propagandear as benesses da sua governação - benesses que só ele conhece e que a imensa maioria dos portugueses desconhece absolutamente.
Nos últimos dias, Sócrates bateu exaustivamente a estafada tecla dos «avanços sociais», de tal forma que, ouvindo-o, dir-se-ia que estamos à beirinha de entrar no reino da justiça social e da abastança - melhor do que o célebre «oásis» inventado por Cavaco Silva ou o não menos célebre «paraíso» saído da imaginação de António Guterres...


Entretanto, dados recentemente divulgados pelo INE dizem que 40% dos trabalhadores portugueses - ou seja: mais de 1 milhão e meio de mulheres e homens - ganham abaixo de 600 euros mensais - e, isto digo eu, na imensa maioria dos casos, ganham muito abaixo dessa verba...

Segundo esses mesmos dados, há um ano os trabalhadores nessa situação eram mais 157 mil do que são hoje.
Assim, à primeira vista, estamos perante uma evolução positiva...
Mas só à primeira vista, já que esses 157 mil hoje estão desempregados - e, na maior parte dos casos, nem subsídio de desemprego recebem, com o acontece a cerca de metade dos mais de 600 mil desempregados existentes.

Se a isto acrescentarmos os salários em atraso, as pensões e reformas de miséria, a saúde e a educação cada vez mais caras, o aumento silencioso mas constante do custo de vida, etc, etc, ficamos com uma noção aproximada dos «avanços sociais» de que fala Sócrates e de que falaram todos os seus antecessores dos governos PS e PSD ao longo dos últimos longos 33 anos...

POEMA

(Chopin mal tocado por um pianista de
olhos esvaídos no tecto... Muitos suspiros
das meninas sentadas no lado esquerdo
da plateia para verem bem as mãos do
pianista-assassino, donde pinga o sangue
do cadáver da «Balada nº 4 em fá menor»)


A menina chorou, chorou, chorou, chorou
até encher o copo de lágrimas
que depois bebeu
no destrambelho
de se envenenar com os próprios olhos
- ao espelho.


José Gomes Ferreira

REGISTO POSITIVO

De vez em quando - muito de vez em quando... - surge-nos, num qualquer representante dos média dominantes, uma notícia, uma informação, um texto de opinião, desenquadrados do critério de pensamento único em vigor.
Quando isso acontece... festeja-se o acontecimento, registando-o como positivo.

É o caso de um texto publicado na última edição do Expresso, intitulado «Tensão na América do Sul - Os Estados Unidos entram no coração da América do Sul gerando um clima de guerra fria», e assinado por «Márcio Resende, correspondente em Buenos Aires».

O texto em questão debruça-se sobre a situação decorrente dos acordos Obama/Uribe com vista à utilização de sete bases militares colombianas pelos EUA, e sobre as reacções de protesto contra esses acordos por parte dos líderes governamentais daquela região - reacções que os propagandistas do império identificam com «paranóia»...

Sobre o assunto, Márcio Resende foi ouvir a opinião de «Juan Gabriel Takatlian, Professor de Relações Internacionais da Universidade argentina Di Tela», que começou por dizer:

«Não há nem paranoia nem ignorância nos países da região. A preocupação é genuína. Tudo é possível, a componente militar não mudou na política dos Estados Unidos que voltam a estar presentes na região, desta vez no coração da América do Sul».

E sobre o texto do acordo, alertou:

«O governo colombiano promete que (a utilização das bases) será para a luta contra o narcotráfico e contra o terrorismo, mas o texto do documento refere-se a uso para operações contingentes, logísticas e de treinamento. Isso é muito mais do que a luta contra o narcotráfico».

E alertou:

«Estamos diante de um cenário opaco e confuso que leva a que tudo seja possível. Uma tensão na fronteira pode dar início a algum tipo de conflito que se sabe como começa, mas não como termina».


As declarações de Juan Gabriel Takatlian confirmam a intensificação e o agravamento da ofensiva do imperialismo norte-americano na Améria Latina, tendo como alvos os países que nos últimos anos se têm libertado do domínio dos EUA.
Acrescente-se que é neste quadro que deve ser visto o golpe militar das Honduras - que contou com a inequívoca intervenção do Governo de Obama, tanto na sua preparação como em todo o processo em curso visando a manutenção no poder dos golpistas.

POEMA

(«Requiem» de Verdi.)


Verdi
- Garibaldi dos mortos...

... que não deixaram apodrecer as bocas
nem transformá-las em flores,
para poderem cantar o entusiasmo da morte
num coro de vermes
que roem os pulmões dos tenores.



(Muito tempo passado, em Setembro de 1975,
em Leninegrado, ouvi este «Requiem»
tocado e cantado por uma orquestra da Arménia
numa noite que me encheu de glória.)


José Gomes Ferreira

A LIÇÃO

Uns tempos após o 25 de Abril, Mário Soares deu uma entrevista, na sua casa de Nafarros.
A palavra do entrevistado era complementada com fotografias da casa, dos campos em volta, de pormenores da sala, da biblioteca - uma biblioteca composta por, informava o entrevistado, 11 mil livros.
Perante tão volumoso número de livros, alguém comentou ironicamente: «as 11 mil virgens»...

Vem esta relembrança a propósito do artigo de Mário Soares sobre Marx, publicado no último número da Visão.
O texto é... Soares a falar, à sua maneira trapalhona, cheio daquelas aldrabices rascas com as quais fundamenta, quer o seu anticomunismo doentio, quer a sua condição de fervoroso defensor do capitalismo - ao qual usa chamar «socialismo democrático»...
No artigo, Soares exibe um profundo conhecimento de Marx e dá aos leitores da Visão... a lição que eles merecem: uma lição sobre a obra de Marx; sobre o pensamento de Marx; sobre a deturpação do pensamento de Marx levada a cabo por uns tantos totalitários; sobre o que é que Marx queria (ou não queria) dizer quando disse o que disse...

Finalmente, a encerrar a lição, confessa:
«Nunca consegui ler o Capital, de que, aliás, tenho duas edições, uma em português do Brasil e outra em francês» - ou seja: mais duas, a juntar às 11 mil virgens de Nafarros...

POEMA

(Primeiro intervalo no Teatro de S. Carlos.
Sorrimos uns para os outros.
«Então como está?» «Há muito que não o via!»...
Musgo. Teias de aranha nos ouvidos. Fascismo de smoking.
Passo pelos corredores escondido atrás de mim mesmo.)


Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.

E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos.

Mas vivos que são?
Mortos incompletos.


José Gomes Ferreira

TUDO SINCRONIZADO

O órgão central da Sonae oferece todas as semanas cerca de uma página do seu precioso espaço a Vital Moreira (VM). Oferece o espaço e, é claro, paga - bem pagas - as prosas do autor.
Não o faz, obviamente, por qualquer simpatia pessoal pela figura de VM: fá-lo, obviamente, porque sabe que VM utiliza aquele espaço na defesa dos interesses da Sonae, ou, dizendo o mesmo de outra forma: na defesa da política de direita praticada pelo PS.
Por iguais razões, igual espaço (e paga) é oferecido a outras figuras que ali defendem a mesma política de direita, mas praticada pelo PSD.

Os textos de VM primam, regra geral, por uma clamorosa cegueira sectária, por um primarismo pateta e têm como preocupação única aplaudir e propagandear tudo o que o Governo PS faz, sendo que, agora, com a aproximação das legislativas, o tema abordado é o apelo ao voto no PS.
Assim, hoje VM escreve - e o Público publica - um panfleto de propaganda eleitoral no qual, de mistura com imprecisões, falsidades históricas, leituras vesgas e outros disparates, proclama que, nas legislativas,
«há duas maneiras de levar a água ao moinho da direita. Uma, directa, é votar nos respectivos partidos. Outra, indirecta, é votar no PCP e no BE».

Confesso que me falta paciência, pachorra, etc., etc., para tratar tal prosa como ela merecia.
Em todo o caso, não quero deixar de trocar por miúdos o pensamento miúdo de VM, cujo é: quem não quiser levar a água ao moinho da direita só tem uma solução: votar no PS.

E também não quero deixar de dizer o que VM sabe mas não lhe convém dizer: quem votar no PS está, com esse voto, a levar a água ao moinho da política de direita - essa política que o PS (em nome da esquerda) e o PSD (em seu nome próprio) têm vindo a praticar há 33 anos consecutivos.
Para mal, muito mal, da imensa maioria dos portugueses.
E para bem, muito bem, da imensa minoria dos portugueses - minoria entre a qual se encontra o patrão da Sonae que, em paga, põe o seu órgão à disposição de VM...
Como se vê, isto está tudo sincronizado...

POEMA

(«Requiem de Mozart».)


Ímpeto de rasgar o tecto com as mãos
para gritarmos aos astros,
cá de baixo das labaredas do nosso poste:

«O mistério somos nós.

Fomos nós, os homens,
que criámos a morte.»


José Gomes Ferreira

A VERDADE...

A história é conhecida.
Mesmo assim, vale a pena voltar a ela, tanto mais que foi relembrada na recente entrevista de Jerónimo de Sousa ao Jornal de Negócios.
Uma criança, filha de um deputado do PS, tem uma admiração particular pelo secretário-geral do PCP - de tal modo que sempre que o vê na televisão, grita: «Jerónimo, Jerónimo, PCP!».
O pai da criança levou-a um dia ao Parlamento para que ela conhecesse pessoalmente «o Jerónimo».
A criança sentou-se ao colo dele, fez perguntas, respondeu a perguntas, brincou, brincaram - assim confirmando, na prática, as razões pelas quais gostava «do Jerónimo».
Depois, o pai levou-a a conhecer Francisco Louçã, frente ao qual a criança emudeceu: nem uma palavra, nem um sorriso...
«Então, por que é que não gostas do Louçã?» - perguntou-lhe o pai.
E ela: «Porque ele é muito alto»...

Ora, Jerónimo e Louçã são sensivelmente da mesma altura... pelo que outras serão as razões da empatia por um e da antipatia por outro manifestadas pela criança...
Ela lá sabe... e é bem possível que aquela tenha sido a forma que encontrou de dizer das suas razões...
E, como é sabido, «a verdade sai espontaneamente da boca das crianças»...

POEMA

(Falla.)


Um anjo cigano
inventou um instrumento novo
- viola de sol e nevoeiro
com cordas de nervos de touro.

Para o tocar
é preciso ouvir missa primeiro.


José Gomes Ferreira

Que VIVA CUBA!


hoje o alentejo foi ainda mais bonito, ainda que ardente na canícula de dia fervente de agosto! cada quilómetro percorrido ameaçava um abraço de solidariedade que o meu coração de comunista há muito ansiava. mas expliquemos que alegria me estilhaçou o dia, em pensamentos bonitos e acrobatas, para que, quem sabe, ela se torne contagiante... isto que vos conto, isto que lerão, é o materializar da musicalissima - será bach? - com que hoje - faz minutos - cheguei a casa. estas são as letras do meu coração:

sete da manhã, e num pulo de anunciada alegria, saltei da cama e logo um banho rápido - para que alisasse a pele e os olhos da minha feliz insónia! aí estava o dia, o grande dia. em alegria pueril rumei a casa da joaquina, camarada que amo como mãe que me vai faltando neste sul, para que juntos, bebendo um café que nunca mais acabava, esperássemos a alice - a minha linda alice - que haveria de passar vinda de mil fontes. connosco, dois ou três sacos de guloseimas e mimos para alguém que nos aguardava - quem sabe se desde o principio dos tempos?! Dali, beja, hoje como desvio, ficava agora a uma distância inimaginável, mesmo para caminho ampla e vastas vezes percorrido. uma da tarde e finalmente santiago do cacém. minutos depois - terão sido horas na minha ânsia? - e uma porta aberta anunciando um abraço comunista e solidário. Rosell e Cecília, cubanos, recebiam-nos nos braços. rosel, primeiro tímido e logo festivo! cecilia transportando uma alegria mestiça que nunca esquecerei. dois dos quarenta e dois médicos que cuba, CUBA, CUBA, CUBA, enviou rumo à população abandonada do meu alentejo e algarve. e logo risos e lágrimas como se nos conhecessemos desde o principio dos tempos, unidos no sonho de um mundo justo, fraterno e solidário. Lá estavam eles, provando, em gestos e em palavras, aquilo que há muito sabia de CUBA e dos CUBANOS, mas que, como tomé, precisava de ouvir e ver, como que prova provada que são calúnias tudo o que o capitalismo faz da ilha e do povo livre que hoje, neles dois, visitei em pinotes e cambalhotas na minha alegria que nunca consegui conter! lá me falaram da sua gente! do seu sistema de saúde, da sua educação, da sua DEMOCRACIA, da sua vida. fomos, os cinco, íntimos amigos em confidências. das nossas alegrias, das nossas dificuldades. lá os espantámos com as limitações da nossa tão apregoada «democracia»! abriram em espanto as bocas incrédulas quando lhes relatámos dos nossos mais de dois milhões de pobres. dos nossos compatriotas, outros tantos, que estão privados de médico de familia. da elitização da nossa educação. da privatização do serviço nacional de saúde. da nossa carestia de vida e dos salários de fome. Lá nos contaram da sua revolução, do seu governo popular, do povo e ao serviço do povo, dos seus avanços sociais, políticos, culturais, mesmo perante o criminoso bloqueio capitalista! falámos do Ché - que o Rosell trazia na t-shirt com um orgulho arrepiante! - do Fidel, da américa latina, do futuro. Falámos dos nossos baptistas e salazares. contámos dos nossos resistentes, do nosso Partido e dos nossos heróicos clandestinos! comovemo-nos juntos, rimos despregando as bandeiras que alguns querem fazer como raia intransponivel. e o dia passou. marcámos outros encontros. traçámos projectos! partilhámos o sonho. e a certeza que, mais cedo que tarde, todos os povos do mundo - seguindo o exemplo do heróico povo cubano - também um dia tomarão os quarteis e as praças que houver que tomar! também nós, cumprindo ABRIL, espalharemos flores em cada rua onde habitar a memória de cada um dos homens livres que tiver tombado pela liberdade! esse dia chegará. sempre o soube, confirmei-o hoje. obrigado cecilia, rosell, alice e joaquina.
saímos de olhos vermelhos e uma alegria estonteante que embaciava os pararelos da estrada.
passos depois, antes mesmo de olhar sabia-os olhando-me. ergui o punho direito, voltei-me e sorrindo gritei ao mundo: E QUE VIVA CUBA!
VIVA CUBA, gritaram-me, aos mais intimos sentidos.

um dia alentejo, povo do meu país, a reforma agrária sairá portas fora. novamente! connosco, um povo inteiro do lado de lá do atlântico, repetirá o grito: E QUE VIVA PORTUGAL!

foi um dia tão bonito... e deu-me tanta força. mas tanta...

POEMA

(Visão de Mahler. Improviso durante
a audição na Rádio da Primeira Sinfonia.
Sim, Abelaira: gosto muito do Mahler
- que me soa às vezes como uma espécie
de Schubert trágico.)


Marcha fúnebre
com os vivos todos em caixões
e o cadáver atrás, a pé, sozinho,
ao som da filarmónica
que marca o passo a fingir vida
na poeira morta
do caminho...

Filarmónica transcendente
que afinal
só toca a valsa banal
da morte nua de toda a gente.


José Gomes Ferreira

COISAS DA ÉTICA...

Caso típico da prática dos políticos da política de direita é o de Moita Flores.
Nas últimas autárquicas, concorrendo como «independente» na lista do PSD, foi eleito Presidente da Câmara de Santarém.
Nas próximas autárquicas será candidato ao mesmo cargo, igualmente na lista do PSD, igualmente como «independente».
Entretanto virou-se publicamente contra Manuel Ferreira Leite, a pretexto das inclusões e exclusões por ela decididas nas listas do PSD para as legislativas - verberando a falta de «ética» que presidiu a essas decisões.
Em simultâneo - e exibindo o seu conceito de «ética» - declarou peremptoriamente que não vai votar no PSD - para as legislativas, é claro, porque para as autárquicas não apenas vota como apela ao voto no PSD.
(E com tudo isto, à líder do PSD faltou... a dignidade de correr com o tratante da lista do seu partido para a Câmara de Santarém.
Continuando a exibir a sua «ética», Moita Flores - candidato pelo PSD à Câmara de Santarém - fez questão de afirmar que, nas legislativas, «talvez vote no PS».
E a coroar tão feérica exibição de «ética», na próxima terça-feira Moita Flores fará entrega da «medalha de ouro da cidade de Santarém» ao primeiro-ministro José Sócrates - assim dando início... à campanha eleitoral do PS para as legislativas...

Não há dúvida: Moita Flores - por tudo o que disse e tudo o que vai fazer; e Manuela Ferreira Leite - pelo que não fez e deveria ter feito, pedem meças um ao outro em matéria de «ética»...

POEMA

(Uníssono de cordas arrebatadas duma Sinfonia -
russa, claro)


Ah! as bandeiras vermelhas desfraldadas
nos olhos das mães aos soluços.

Ah! a Revolução
com todos os filhos dos inimigos ressuscitados
nos romances russos.


José Gomes Ferreira

LIÇÃO DE ESTÒRIAS...

Há seis meses, foram divulgados, na Alemanha, os resultados de uma sondagem realizada na ex-República Democrática Alemã (RDA), na qual se pedia aos inquiridos que comparassem as suas vidas antes e depois da queda do Muro.
A resposta dada por 57% dos inquiridos foi a de que «a antiga RDA tinha mais aspectos positivos do que negativos», sendo que, desses, 8% consideram que «na RDA havia sobretudo aspectos positivos e vivíamos felizes e melhor do que na Alemanha reunificada de hoje» e 49% consideram que «na RDA havia alguns problemas, mas globalmente vivíamos melhor».

Perante isto, o governo alemão viu-se obrigado a vir a público desvalorizar os resultados da sondagem, explicando que eles decorriam do facto de o inquiridos estarem mal informados sobre o que era a RDA - explicação no mínimo estranha, se tivermos em conta que os inquiridos viveram na RDA e vivem, agora, na ex-RDA...
De qualquer forma - e porque vale mais prevenir do que remediar... - o governo alemão decidiu lançar uma «campanha de informação» sobre a «história da RDA» - campanha que tem vindo a ser levada à prática nas escolas, nas ruas, nos média, etc, etc.
E os sinais da «campanha de informação» cedo começaram a surgir: um grupo de «artistas plásticos» começou a ensinar «história da RDA» através de pinturas nas paredes, designadamente no que resta do Muro; os média começaram a leccionar a mesma história, etc, etc.

Não sei se integrando esta campanha se por iniciativa própria, o Público enviou à Alemanha uma jornalista - Alexandra Prado Coelho (APC) - com o objectivo de ver e, depois, ensinar aos leitores como é que era antes e como é que é 20 anos depois da queda do Muro, ou seja, com o objectivo de, tal como os seus colegas alemães, ensinar a «história da RDA».
APC esmerou-se e, em 6-reportagens-6, distribuídas por 18-páginas-18, proporcionou aos leitores do Público uma soberba lição de estórias.

Lendo as 18-páginas-18 - pecado que eu confesso ter cometido - a primeira conclusão a tirar é que APC, quando partiu da redacção do Público, já levava consigo as conclusões a que iria chegar, pelo que, chegada lá, foi só procurar, e encontrar, quem lhe confirmasse o que ela já sabia...

Para bom cumprimento da tarefa, APC começou por pegar pelos cornos, salvo seja, os resultados da tal sondagem. Para o efeito logo encontrou um estoriador que lhe disse que a opinião desses 57% «não faz zentido» - o que «faz sentido», isso sim, é a opinião contrária...
E ali mesmo ao lado, à mão de semear, estava outro estoriador, gémeo do primeiro, que alertou APC - e ela alerta os leitores do Público - para o gravíssimo risco que todos corremos de as opiniões desses 57% «se transformarem em rejeição da democracia»...
Depois, APC foi encontrando mais pessoas, tudo gente bem informada, tudo estoriadores especializados em «história da RDA», tudo gente escolhida a dedo - de tal forma que até parece que quando APC partiu da redacção do Público já tinha encontro marcado, em Berlim, com quem era necessário encontrar-se para o bom cumprimento da sua tarefa...

E registe-se o facto notável de, nestas andanças todas, neste contacto com pessoas e mais pessoas, Alexandra Prado Coelho não ter encontrado uma só pessoa do grupo daqueles 57% que têm uma opinião contrária à que ela já levava consigo quando partiu da redacção do Público...

POEMA

(«Sonata a Kreutzer» tocada por Menuhin,
no Tivoli.)


Que crime confessa Beethoven
nesta sonata?

Matou talvez em sonhos
a Sempre-Apetecida
com mãos de quem não mata.

E agora confessa o crime
- farto do amor eternamente sublime.

(Beethoven:
ai de quem não ama
como quem morre
- na cama.)


José Gomes Ferreira

VELHOS TRUQUES

Ainda a propósito dos recentes «dados» sobre a «economia» e o desemprego: disse Sócrates que as «melhorias na economia» se deviam à sábia política do seu Governo e que o aumento de desemprego era culpa da «crise internacional».
Ou seja: o que é bom fizemos nós, o que é mau veio de fora...

O truque é velho e tem sido utilizado por todos os primeiros ministros da política de direita - inimigos de Abril e homens de mão do grande capital - em especial por aqueles que levaram mais longe essa política e mais danos causaram a Portugal e aos portugueses: Soares, Cavaco, Guterres, Barroso e, agora, Sócrates.
A única diferença é que para Soares e Cavaco, por exemplo, as culpas eram da «conjuntura internacional» enquanto para Sócrates a culpada é a «crise internacional»...

Outro truque comum aos governantes PS/PSD ao longo dos últimos 33 anos, é o das promessas - promessas muitas, feitas em tempo da caça ao voto, e que depois, não apenas não são cumpridas como... antes pelo contrário...
Tomemos dois exemplos relacionados com o desemprego: Cavaco, no início do último mandato da longa década em que flagelou os trabalhadores, o povo e o País, prometeu a criação de 100 mil postos de trabalho - no final do mandato, o número de desempregados tinha aumentado em 100 mil...; mais perto da nossa memória estão os 150 mil empregos prometidos por Sócrates - tantos quantos os que, só no último ano, vieram aumentar o exército de desempregados...

É destes truques, velhos e sujos, que se alimentam os governantes da política de direita - homens de mão do grande capital e inimigos de Abril.

POEMA

ROMANCE DE FEDERICO

«El crimen fué en Granada: en su Granada!»

António Machado


I
Num pueblo de Espanha
la Barraca se levanta:
num pueblo de Espanha,
numa praça de Castela...

Mas não se ouvem poemas,
nem guitarras, nem canções
- que la Barraca é deserta...
Morreram vozes e risos
(no chão, com as folhas arrancadas,
D. Quijote de Cervantes)
e calaram-se as canções,
geladas no oiro frio
das cordas dos violões
-que la Barraca está deserta,
como uma alma... deserta.

Correi ventos de Espanha!
Chamai vozes de Espanha!
Mirad olhos de Espanha!
- Aonde está Federico?

Chorai corações de Espanha!

- No acampamento cigano
uma virgem desmaiou:
romance da «pena negra»
a feiticeira agoirou.
Romance da «pena negra»,
romance da negra sorte,
como uma bala na fronte
e outra no coração
morto para sempre ficou...
(No veludo dos estojos,
as cordas das guitarras estalaram
com um ai grave e profundo...)
as mãos estendidas, sem raiva,
os olhos cheios de terra,
morto ficou.

Chorai corações de Espanha!

Com os olhos cheios de terra,
sob o céu de su Granada,
morto ficou...

Cavalos negros da noite
encobriram as estrelas.
De Cádis até Navarra,
de Badajoz ao Levante.


II

A noite desceu sobre o corpo da Espanha...
A noite das águias carniceiras
desceu sobre o corpo da Espanha...

Ferem o chão fúrias soltas
- ruínas foram cidades e vilas,
escolas, lares e catedrais;
incêndios foram celeiros e searas;
ódio foi amor,
lágrimas foram riso...
A noite poisou seus dedos de treva
no coração da Espanha...

Espanha,
em teus braços de Mãe,
em teus braços de terra,
apodrecem os corpos
de teus filhos inocentes...
Espanha,
na sombra que desceu
as feridas dos cadáveres abrem-se
como flores roxas de agonia...

Espanha,
noites de serenata,
sob os balcões floridos, nunca mais:
que os corações não batem já para o amor,
só para o aço dos punhais...

Espanha,
Carmen, cigana,
corpo de bronze, olhos de lume,
não mais amante...
Espanha,
na noite das catedrais,
correm lágrimas de marfim
pelas faces dos crucificados
- na tua face
são de sangue, Espanha!
Espanha!,
no silêncio das catedrais
sorrisos seráficos da Virgem
- na tua boca
sangue e fel, Espanha!


Joaquim Namorado

SEGURANÇA - INSEGURANÇA

Eis uma frase típica dos presidentes dos EUA, ao longo dos tempos:

«Esta guerra será demorada e difícil. Mas a vitória é fundamental para a segurança norte-americana».

Quem a proferiu, desta vez, foi Barack Obama, referindo-se à ocupação do Afeganistão - mas poderia ter sido Truman, ou Eisenhower, ou Kennedy. ou Johnson, ou Nixon, ou Carter, ou qualquer dos Bush's, ou Clinton.
E tantas vezes ela foi proferida que bem podia passar a figurar como refrão do Hino Nacional dos EUA...

Como mostra a história, sempre que tal frase foi proferida, morreram milhares - por vezes centenas de milhares - de pessoas inocentes.
O que significa que «a segurança norte-americana» tem atrás de si um infindável rasto de morte, de terror, de crime, de sangue - já que «a segurança» do império é a insegurança do resto do mundo.

POEMA

UM DIA...


Um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar Silva Porto
e os pretos irem embora.
Vai entrar a lua e meninos sem cor,
a Domingas quitata, o sô Floriano do talho,
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola,
os batuques da Cidrália e dos Invejados,
os batalhões do «Treze» e do «Setenta e Quatro»,
o bêbado Rebocho, o velho Salambió,
a Joana Maluca da garotada.
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de Fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao mundo!


António Cardoso

SAUDAÇÃO À RESISTÊNCIA

Persiste o silêncio dos média portugueses sobre a situação das Honduras: nem notícias, nem artigos de opinião, nada.
E são cada vez mais e mais óbvias as razões que estão na origem desse silêncio.

Hugo Chávez revelou, no domingo, que o golpe militar das Honduras foi organizado a partir da base de Palmerola - a base militar dos EUA nas Honduras - e que a ordem de enviar o Presidente Manuel Zelaya para a Costa Rica proveio de militares norte-americanos dessa base.

Chávez respondeu, também, às declarações hipócritas do Presidente dos EUA:
«Obama, não te pedimos para intervir nas Honduras. Pelo contrário, pedimos-te é que o império tire as mãos das Honduras e as garras da América Latina».

Por tudo isto, o cerco imperialista aos países da América Latina que se libertaram do seu domínio, vai-se adensando e assumindo expressões cada vez mais inquietantes: o secretário-greal do Partido Comunista da Venezuela, Óscar Figuera, denunciou a entrada na Venezuela de 150 mercenários colombianos e alertou para o facto de, no sábado passado, três helicópteros colombianos terem sido detectados na zona fronteiriça, tendo um deles violado o espaço venezuelano durante dez minutos.

Apesar disso, nas Honduras a resistência ao golpe cumpriu hoje o seu 52º dia e fê-lo com uma manifestação em Tegucigalpa - uma manifestação a partir de concentrações organizadas nos bairros da capital até à Universidade Pedagógica Nacional.
Para amanhã está prevista uma caravana automóvel - com «tudo o que roda e faz barulho» - também na capital, onde domingo terá lugar um concerto.

E é essa resistência heróica do povo hondurenho que o Cravo de Abril saúda e à qual manifesta a sua total solidariedade.

POEMA

ESPERA


Nesta longa e fluctígera espera
se transmudam os dias
de desespero, luta e coerência.
Mas é tão certo a flor
do sonho florir na terra amada,
que já bebo alegrias antecipadas
- exausto de silêncio e de calor!


António Cardoso

VAI UMA APOSTA?

O Sol, na sexta-feira, e o Expresso, no sábado, levaram à prática uma forma curiosa de anunciar o Programa Eleitoral do PCP - Programa de Ruptura, Patriótico e de Esquerda.
O primeiro, produziu uma peça intitulada «O que separa PCP e BE», na qual faz a comparação entre os dois programas.
O segundo, produziu uma peça intitulada «Descubra as diferenças entre PCP e BE», na qual faz a comparação entre os dois programas.
Ou seja: até a apresentação do Programa do PCP serve a estes dois jornais para fazer propaganda ao BE...

Entretanto, vários jornais anunciaram o local e a data do arranque (mais um...) da campanha eleitoral do PS: Coliseu dos Recreios de Lisboa, dia 6 de Setembro.
Quer isto dizer que a coisa ocorrerá no dia em que, na Festa do Avante, se realizará o grande comício de encerramento, com Jerónimo de Sousa.
É uma coincidência, obviamente.
No entanto, pela propaganda feita ao anúncio da ocorrência, estou convencido que a ocorrência propriamente dita será a grande notícia desse dia 6.
Ou seja: no dia 6 de Setembro, os média dominantes - jornais, rádios e televisões - vão dedicar a parte maior do seu tempo e do seu espaço à iniciativa do PS, relegando o comício da Festa para a categoria das coisas secundárias...
Vai uma aposta?

POEMA

COMBOIO DE MALANGE


Prisioneiro no meu escritório
sonho as distâncias do mato
que me traz o apito do comboio
que arfa
Grande
e Livre
quando passa.

MINHA TERRA, MINHA TERRA, MINHA TERRA
VENHO-DE-LONGE, VOU-PRA-LONGE,
VENHO-DE LONGE, VOU-PRA-LONGE.

Ainda um dia vou partir
nesse comboio do mato
que tem dor no vagão J
e vou ser como ele
que arfa
Grande
e Livre
quando passa.

Depois
todo povo vai dizer:
MINHA TERRA, MINHA TERRA, MINHA TERRA!


António Cardoso

HONDURAS - SOLIDARIEDADE

Num quadro em que a repressão dos golpistas e a mentira dos que os sustentam se intensificam, a resistência do povo das Honduras continua - todos os dias e por todo o país, na capital e no interior.
Grandes manifestações em Tegucigalpa, em San Pedro Sula e em várias outras cidades marcaram o dia de sexta-feira. Na cidade de Choloma, a 250 quilómetros da capital, as forças repressivas carregaram sobre os manifestantes e fizeram muitos feridos.

Entretanto, os média locais, em estreita ligação com os seus gémeos da América Latina e dos EUA, prosseguem a campanha de silenciamento sobre a situação real vivida nas Honduras e, simultanemente, de deturpação, manipulação e mentira sobre o que ali, e em toda a América Latina, se passa - uma campanha fielmente seguida pelos média dominantes no resto do mundo, aí incluídos os média portugueses propriedade do grande capital.

Trata-se de uma operação mediática típica dos «cães de guarda» do imperialismo norte-americano e que, ao seu serviço, tem como objectivo, no que respeita às Honduras, «legalizar» e perpetuar o golpe fascista e, em relação à região, dar novos passos em frente na ofensiva do governo de Obama contra os países e povos que têm vindo a libertar-se do domínio dos EUA.
É nesse sentido que se desenvolve a campanha de mentiras sobre a Venezuela, com a proliferação de notícias que apresentam o Presidente Hugo Chávez como um «ditador» que «encerra rádios, jornais e televisões», que é «apoiante das FARC» - e que, por isso, e em nome da democracia, tem que ser definitivamente varrido... - ao mesmo tempo que sobre os presidentes Daniel Ortega, Evo Morales e Rafael Correia são inventadas iguais patranhas.
Nos últimos dias, a Venezuela tem tido presença constante nos média dominantes no mundo, todos dizendo o mesmo, todos procurando fabricar verdades através da repetição exaustiva da mentira - método que utilizam igualmente para a glorificação do governo do narco-fascista Uribe como modelo de governo democrático...
Tudo bem ao estilo do vale-tudo que sempre caracterizou a acção criminosa dos EUA na região, ao longo dos tempos.

A cada dia que passa, parece ser mais evidente que o golpe militar das Honduras, juntamente com a instalação das novas bases dos EUA na Colômbia, constituem peças fundamentais da ofensiva com a qual a administração Obama pretende liquidar os processos de mudança, libertadores e emancipadores, em curso em diversos países da América Latina.

Daí a importância acrescida da solidariedade com o povo das Honduras na sua luta corajosa contra os golpistas e pela reposição da legalidade democrática.

POEMA

É INÚTIL CHORAR


É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.

Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»


António Cardoso