VELHOS TRUQUES

Ainda a propósito dos recentes «dados» sobre a «economia» e o desemprego: disse Sócrates que as «melhorias na economia» se deviam à sábia política do seu Governo e que o aumento de desemprego era culpa da «crise internacional».
Ou seja: o que é bom fizemos nós, o que é mau veio de fora...

O truque é velho e tem sido utilizado por todos os primeiros ministros da política de direita - inimigos de Abril e homens de mão do grande capital - em especial por aqueles que levaram mais longe essa política e mais danos causaram a Portugal e aos portugueses: Soares, Cavaco, Guterres, Barroso e, agora, Sócrates.
A única diferença é que para Soares e Cavaco, por exemplo, as culpas eram da «conjuntura internacional» enquanto para Sócrates a culpada é a «crise internacional»...

Outro truque comum aos governantes PS/PSD ao longo dos últimos 33 anos, é o das promessas - promessas muitas, feitas em tempo da caça ao voto, e que depois, não apenas não são cumpridas como... antes pelo contrário...
Tomemos dois exemplos relacionados com o desemprego: Cavaco, no início do último mandato da longa década em que flagelou os trabalhadores, o povo e o País, prometeu a criação de 100 mil postos de trabalho - no final do mandato, o número de desempregados tinha aumentado em 100 mil...; mais perto da nossa memória estão os 150 mil empregos prometidos por Sócrates - tantos quantos os que, só no último ano, vieram aumentar o exército de desempregados...

É destes truques, velhos e sujos, que se alimentam os governantes da política de direita - homens de mão do grande capital e inimigos de Abril.

POEMA

ROMANCE DE FEDERICO

«El crimen fué en Granada: en su Granada!»

António Machado


I
Num pueblo de Espanha
la Barraca se levanta:
num pueblo de Espanha,
numa praça de Castela...

Mas não se ouvem poemas,
nem guitarras, nem canções
- que la Barraca é deserta...
Morreram vozes e risos
(no chão, com as folhas arrancadas,
D. Quijote de Cervantes)
e calaram-se as canções,
geladas no oiro frio
das cordas dos violões
-que la Barraca está deserta,
como uma alma... deserta.

Correi ventos de Espanha!
Chamai vozes de Espanha!
Mirad olhos de Espanha!
- Aonde está Federico?

Chorai corações de Espanha!

- No acampamento cigano
uma virgem desmaiou:
romance da «pena negra»
a feiticeira agoirou.
Romance da «pena negra»,
romance da negra sorte,
como uma bala na fronte
e outra no coração
morto para sempre ficou...
(No veludo dos estojos,
as cordas das guitarras estalaram
com um ai grave e profundo...)
as mãos estendidas, sem raiva,
os olhos cheios de terra,
morto ficou.

Chorai corações de Espanha!

Com os olhos cheios de terra,
sob o céu de su Granada,
morto ficou...

Cavalos negros da noite
encobriram as estrelas.
De Cádis até Navarra,
de Badajoz ao Levante.


II

A noite desceu sobre o corpo da Espanha...
A noite das águias carniceiras
desceu sobre o corpo da Espanha...

Ferem o chão fúrias soltas
- ruínas foram cidades e vilas,
escolas, lares e catedrais;
incêndios foram celeiros e searas;
ódio foi amor,
lágrimas foram riso...
A noite poisou seus dedos de treva
no coração da Espanha...

Espanha,
em teus braços de Mãe,
em teus braços de terra,
apodrecem os corpos
de teus filhos inocentes...
Espanha,
na sombra que desceu
as feridas dos cadáveres abrem-se
como flores roxas de agonia...

Espanha,
noites de serenata,
sob os balcões floridos, nunca mais:
que os corações não batem já para o amor,
só para o aço dos punhais...

Espanha,
Carmen, cigana,
corpo de bronze, olhos de lume,
não mais amante...
Espanha,
na noite das catedrais,
correm lágrimas de marfim
pelas faces dos crucificados
- na tua face
são de sangue, Espanha!
Espanha!,
no silêncio das catedrais
sorrisos seráficos da Virgem
- na tua boca
sangue e fel, Espanha!


Joaquim Namorado

SEGURANÇA - INSEGURANÇA

Eis uma frase típica dos presidentes dos EUA, ao longo dos tempos:

«Esta guerra será demorada e difícil. Mas a vitória é fundamental para a segurança norte-americana».

Quem a proferiu, desta vez, foi Barack Obama, referindo-se à ocupação do Afeganistão - mas poderia ter sido Truman, ou Eisenhower, ou Kennedy. ou Johnson, ou Nixon, ou Carter, ou qualquer dos Bush's, ou Clinton.
E tantas vezes ela foi proferida que bem podia passar a figurar como refrão do Hino Nacional dos EUA...

Como mostra a história, sempre que tal frase foi proferida, morreram milhares - por vezes centenas de milhares - de pessoas inocentes.
O que significa que «a segurança norte-americana» tem atrás de si um infindável rasto de morte, de terror, de crime, de sangue - já que «a segurança» do império é a insegurança do resto do mundo.

POEMA

UM DIA...


Um dia eu vou fazer um romance
com as histórias da minha rua
antes de se chamar Silva Porto
e os pretos irem embora.
Vai entrar a lua e meninos sem cor,
a Domingas quitata, o sô Floriano do talho,
com muita mistura de amor
e muito suor de trabalho.
Vou meter as cabras e os cães vadios da velha Espanhola,
os batuques da Cidrália e dos Invejados,
os batalhões do «Treze» e do «Setenta e Quatro»,
o bêbado Rebocho, o velho Salambió,
a Joana Maluca da garotada.
cajueiros, cubatas, lixeiras,
capim e piteiras,
e mesmo no fim da história,
quando os homens estão desesperados
e as fardas passam em fila,
acendo um sol de Fevereiro,
semeio algumas esperanças
e parto com o meu veleiro
a dar uma volta ao mundo!


António Cardoso

SAUDAÇÃO À RESISTÊNCIA

Persiste o silêncio dos média portugueses sobre a situação das Honduras: nem notícias, nem artigos de opinião, nada.
E são cada vez mais e mais óbvias as razões que estão na origem desse silêncio.

Hugo Chávez revelou, no domingo, que o golpe militar das Honduras foi organizado a partir da base de Palmerola - a base militar dos EUA nas Honduras - e que a ordem de enviar o Presidente Manuel Zelaya para a Costa Rica proveio de militares norte-americanos dessa base.

Chávez respondeu, também, às declarações hipócritas do Presidente dos EUA:
«Obama, não te pedimos para intervir nas Honduras. Pelo contrário, pedimos-te é que o império tire as mãos das Honduras e as garras da América Latina».

Por tudo isto, o cerco imperialista aos países da América Latina que se libertaram do seu domínio, vai-se adensando e assumindo expressões cada vez mais inquietantes: o secretário-greal do Partido Comunista da Venezuela, Óscar Figuera, denunciou a entrada na Venezuela de 150 mercenários colombianos e alertou para o facto de, no sábado passado, três helicópteros colombianos terem sido detectados na zona fronteiriça, tendo um deles violado o espaço venezuelano durante dez minutos.

Apesar disso, nas Honduras a resistência ao golpe cumpriu hoje o seu 52º dia e fê-lo com uma manifestação em Tegucigalpa - uma manifestação a partir de concentrações organizadas nos bairros da capital até à Universidade Pedagógica Nacional.
Para amanhã está prevista uma caravana automóvel - com «tudo o que roda e faz barulho» - também na capital, onde domingo terá lugar um concerto.

E é essa resistência heróica do povo hondurenho que o Cravo de Abril saúda e à qual manifesta a sua total solidariedade.

POEMA

ESPERA


Nesta longa e fluctígera espera
se transmudam os dias
de desespero, luta e coerência.
Mas é tão certo a flor
do sonho florir na terra amada,
que já bebo alegrias antecipadas
- exausto de silêncio e de calor!


António Cardoso

VAI UMA APOSTA?

O Sol, na sexta-feira, e o Expresso, no sábado, levaram à prática uma forma curiosa de anunciar o Programa Eleitoral do PCP - Programa de Ruptura, Patriótico e de Esquerda.
O primeiro, produziu uma peça intitulada «O que separa PCP e BE», na qual faz a comparação entre os dois programas.
O segundo, produziu uma peça intitulada «Descubra as diferenças entre PCP e BE», na qual faz a comparação entre os dois programas.
Ou seja: até a apresentação do Programa do PCP serve a estes dois jornais para fazer propaganda ao BE...

Entretanto, vários jornais anunciaram o local e a data do arranque (mais um...) da campanha eleitoral do PS: Coliseu dos Recreios de Lisboa, dia 6 de Setembro.
Quer isto dizer que a coisa ocorrerá no dia em que, na Festa do Avante, se realizará o grande comício de encerramento, com Jerónimo de Sousa.
É uma coincidência, obviamente.
No entanto, pela propaganda feita ao anúncio da ocorrência, estou convencido que a ocorrência propriamente dita será a grande notícia desse dia 6.
Ou seja: no dia 6 de Setembro, os média dominantes - jornais, rádios e televisões - vão dedicar a parte maior do seu tempo e do seu espaço à iniciativa do PS, relegando o comício da Festa para a categoria das coisas secundárias...
Vai uma aposta?

POEMA

COMBOIO DE MALANGE


Prisioneiro no meu escritório
sonho as distâncias do mato
que me traz o apito do comboio
que arfa
Grande
e Livre
quando passa.

MINHA TERRA, MINHA TERRA, MINHA TERRA
VENHO-DE-LONGE, VOU-PRA-LONGE,
VENHO-DE LONGE, VOU-PRA-LONGE.

Ainda um dia vou partir
nesse comboio do mato
que tem dor no vagão J
e vou ser como ele
que arfa
Grande
e Livre
quando passa.

Depois
todo povo vai dizer:
MINHA TERRA, MINHA TERRA, MINHA TERRA!


António Cardoso

HONDURAS - SOLIDARIEDADE

Num quadro em que a repressão dos golpistas e a mentira dos que os sustentam se intensificam, a resistência do povo das Honduras continua - todos os dias e por todo o país, na capital e no interior.
Grandes manifestações em Tegucigalpa, em San Pedro Sula e em várias outras cidades marcaram o dia de sexta-feira. Na cidade de Choloma, a 250 quilómetros da capital, as forças repressivas carregaram sobre os manifestantes e fizeram muitos feridos.

Entretanto, os média locais, em estreita ligação com os seus gémeos da América Latina e dos EUA, prosseguem a campanha de silenciamento sobre a situação real vivida nas Honduras e, simultanemente, de deturpação, manipulação e mentira sobre o que ali, e em toda a América Latina, se passa - uma campanha fielmente seguida pelos média dominantes no resto do mundo, aí incluídos os média portugueses propriedade do grande capital.

Trata-se de uma operação mediática típica dos «cães de guarda» do imperialismo norte-americano e que, ao seu serviço, tem como objectivo, no que respeita às Honduras, «legalizar» e perpetuar o golpe fascista e, em relação à região, dar novos passos em frente na ofensiva do governo de Obama contra os países e povos que têm vindo a libertar-se do domínio dos EUA.
É nesse sentido que se desenvolve a campanha de mentiras sobre a Venezuela, com a proliferação de notícias que apresentam o Presidente Hugo Chávez como um «ditador» que «encerra rádios, jornais e televisões», que é «apoiante das FARC» - e que, por isso, e em nome da democracia, tem que ser definitivamente varrido... - ao mesmo tempo que sobre os presidentes Daniel Ortega, Evo Morales e Rafael Correia são inventadas iguais patranhas.
Nos últimos dias, a Venezuela tem tido presença constante nos média dominantes no mundo, todos dizendo o mesmo, todos procurando fabricar verdades através da repetição exaustiva da mentira - método que utilizam igualmente para a glorificação do governo do narco-fascista Uribe como modelo de governo democrático...
Tudo bem ao estilo do vale-tudo que sempre caracterizou a acção criminosa dos EUA na região, ao longo dos tempos.

A cada dia que passa, parece ser mais evidente que o golpe militar das Honduras, juntamente com a instalação das novas bases dos EUA na Colômbia, constituem peças fundamentais da ofensiva com a qual a administração Obama pretende liquidar os processos de mudança, libertadores e emancipadores, em curso em diversos países da América Latina.

Daí a importância acrescida da solidariedade com o povo das Honduras na sua luta corajosa contra os golpistas e pela reposição da legalidade democrática.

POEMA

É INÚTIL CHORAR


É inútil mesmo chorar
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
por todos os que tombam pela verdade
ou que julgam tombar.
O importante neles é já sentir a vontade
de lutar por ela.
Por isso é inútil chorar.

Ao menos se as lágrimas
dessem pão,
já não haveria fome.
Ao menos se o desespero vazio
das nossas vidas
desse campos de trigo...

Mas o que importa é não chorar.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»
Mesmo quando já não se sinta calor
é bom pensar que há fogueiras
e que a dor também ilumina.

Que cada um de nós
lance a lenha que tiver,
mas que não chore
embora tenha frio.
«Se choramos aceitamos, é preciso não aceitar»


António Cardoso

SIMPLESMENTE UM TELEFONEMA

Obama chamou «hipócritas» aos que exigem ao governo dos EUA a condenação inequívoca do golpe de Estado das Honduras e a reposição da legalidade democrática naquele país.
«Hipócritas» porque, diz ele, os que, agora, lhe exigem uma intervenção nas Honduras são os mesmos que condenaram todas as intervenções militares dos EUA noutros países...

Não creio que os que fazem essas exigências ao presidente norte-americano, estejam a pensar numa típica intervenção militar dos EUA, com as tropas especiais a entrarem por ali fora, arrasando, destruindo, matando - e, especialmente, ocupando.
No que me diz respeito, não só não defendo como abomino tal coisa - e a intervenção que exijo a Obama é outra e bem diferente.

Obama não é visitante do Cravo de Abril e, portanto, nunca terá conhecimento da minha opinião sobre este assunto...
Mesmo assim, aqui fica, em quatro pontos, o que penso sobre o que deveria ser a sua intervenção nas Honduras.
É fácil, não tem nada que errar:

1 - sente-se na sua secretária da Casa Branca;
2 - pegue no telefone e ligue para Micheletti;
3 - ordene-lhe que devolva imediatamente o poder ao Presidente legítimo das Honduras, Manuel Zelaya;
4 - aguarde uns minutos - e constatará que Micheletti obedecerá com a mesma prontidão com que obedeceu à ordem de executar o golpe militar de 28 de Junho.

Como se vê, a intervenção que exijo ao Presidente Obama é simples, não lhe rouba mais do que uns minutos e não implica mais do que o custo de uma chamada telefónica...

POEMA

FÉNIX


Não seriam palavras o meu canto
nem seria assim quieta a minha morte,
se à viva sorte, um mar de desencanto,
não me tivesse adiado certo norte...

E no acto de viver, se a vida canto,
pura, a este coração lúcido e forte
o devo, mas com temor e já quebranto
na carne agora mais perto da morte;

Entre grades não corre qualquer rio,
nem pode a vida florescer sem luto,
se no exílio até o sol é um astro frio...

Mas das cinzas renasço resoluto,
(Meu canto é já sereno desafio):
Se o presente dói, pelo futuro, luto!...


António Cardoso

CONSELHO DE AMIGO

Leonardo Bernstein - que, além de um grande compositor, foi chefe da Orquestra Filarmónica de Nova Iorque - foi objecto de cerrada vigilância por parte do FBI durante vários anos, por supostas actividades comunistas.
O volumoso dossier (800 páginas) elaborado pela polícia dá nota de que as escutas e a vigilância a Bernstein começaram nos anos 40 (era de Truman) e prologaram-se pelo menos até à presidência de Nixon - tendo atingido maior intensidade no tempo da demencial «caça aos comunistas» dirigida pelo sinistro McCarthy.

Em 1953, o departamento de Estado recusou renovar o passaporte de Bernstein, apesar de este ter assinado uma declaração em que negava pertencer, ou ter pertencido, ao Partido Comunista dos EUA.
Mas tal declaração não convenceu os seus vigilantes: o então director do FBI - o famosíssimo (por múltiplas razões...) J. Edgar Hoover, «sabia» que Bernstein estava «ligado, filiado ou de alguma maneira associado a várias associações comunistas» - a besta não fazia a coisa por menos...
Esse «saber» de Hoover advinha-lhe, certamente, das informações que lhe chegavam através da vasta rede de bufos ao seu serviço - bufos que, por vezes, baseavam as suas informações em «factos» como este: «Sei que Bernstein é membro do PC. Não tenho provas, mas sei pela maneira como ele fala» - e quem podia duvidar de um «saber» assim adquirido?

Assim funcionavam as coisas, no tempo da guerra-fria, no «país da liberdade, da democracia e dos direitos humanos» - a fazer-nos lembrar o que por cá se passava na mesma altura.

E hoje, como funcionam as coisas lá e cá?...

Seja como for, amigos visitantes do Cravo de Abril, aconselho-vos a terem muito cuidado com a maneira como falam...

POEMA

AMIZADE


Passam anos - passa a dor;
passa a dor - passam enganos...
Só nunca passa o calor
dos amigos que ganhamos...


António Cardoso

FASCISMO NUNCA MAIS

O poder dominante não gosta de ouvir gritar «25 de Abril Sempre» - porque odeia ABRIL.
Nem gosta de ouvir dizer e ver que «A Luta Continua» - precisamente porque sabe que na luta, tenha ela que objectivos imediatos tiver, ABRIL é sempre uma referência maior.
Muito menos gosta que lhe digam que «Fascismo Nunca Mais» - porque quem odeia ABRIL não pode antipatizar por aí além com o fascismo que ABRIL venceu...

Por isso, ABRIL - as suas conquistas históricas, os seus ideais de liberdade e de justiça social - tem sido o alvo principal dos ataques da política de direita levada a cabo por sucessivos governos PS e PSD ao longo dos últimos 33 anos - durante os quais se têm sucedido os casos de perseguições, chantagens, repressão sobre os que não desistem, nem desistirão, de lutar por ABRIL.

Agora foi a vez de quatro jovens do núcleo da Amadora da União dos Resistentes Antifascistas Portugueses (URAP) que, naquela localidade - na Avenida Salvador Allende... - procederam à pintura de um mural com o símbolo da URAP e a inscrição «LUTA E RESISTE - FASCISMO NUNCA MAIS».
A polícia foi lá proibir, identificando e ameaçando prender os quatro jovens - os quais, concretizando o que tinham acabado de escrever, lutaram e resistiram.

E o mural lá está.
A confirmar que ABRIL RESISTE.
E a incitar-nos a lutar para que FASCISMO NUNCA MAIS.

POEMA

RATICIDA


Os ratos são covardes.
Os ratos mordem, pela calada,
correm,
saltam,
fogem,
mijam
- Têm medo da Madrugada.

Os ratos têm ratas
que não parem
- «Dão à luz»
Mas vivem na escuridão...

E também têm filhos,
coitados dos filhos!
- Têm de ser ratos à força.

Há ratos felpudos, carnudos,
de conselhos de administração...
Há ratos amarelos, pés-de-lã,
de corredores de prisões...

Há ratos sanguíneos, róseos, taurinos,
linfáticos, atebrínicos, fleumáticos,
e de todos os tamanhos, feitios e cores...

Os ratos são finos:
quando a água entra,
até fogem dos vapores...

Os ratos são muitos!
Os ratos são demais!
Mas não tantos, assim,
que a Madrugada não rompa!!!


António Cardoso

A FERRO E FOGO

José Manuel Fernandes (JMF), director do Público, desnudou-se, hoje, uma vez mais, em editorial - e o que exibe é o habitual mete-nojo de provocar vómitos.
A pretexto das Honduras - finalmente!... - debita um texto abjecto sobre a América Latina. Trata-se de uma daquelas prosas típicas dos propagandistas assumidos do imperialismo norte-americano e no qual JMF se confirma como falcão sedento de crime e de sangue.
O que não espanta, tratando-se de quem se trata, mas que não pode passar sem registo... para que fique registado...

Como é habitual neste tipo de práticas, o Director do Público socorre-se de igual trabalho sujo de dois colegas - um «prestigiado intelectual mexicano» e uma «especialista em assuntos sul-americanos» - e conclui, com eles, tudo o que, de facto, ao imperialismo norte-americano interessa que os seus propagandistas concluam e divulguem.
Diz JMF, de braço dado com o «prestigiado intelectual mexicano», que em relação às Honduras, é preciso «separar as águas e regressar, de forma coerente, aos princípios democráticos» - vejam bem!...
Ou seja: «não se deve condenar o golpe como se este tivesse ocorrido "num vazio", mas ter em consideração que ocorreu para impedir um outro "golpe constitucional",
ou seja: «os "golpistas" actuaram ilegalmente, só que o fizeram para repor a legalidade».
Ou seja: viva o golpe fascista, viva a repressão fascista, viva o encerramento de órgãos de informação, viva o governo golpista, vivam o crime, os presos e os assassinados: viva a morte!

Diz ainda JMF que os presidentes dos EUA, do Canadá e do México, presentes na actual Cimeira dos líderes da América do Norte, não podem deixar-se ir «a reboque de Chávez e dos seus aliados mais ou menos autoritários, como Daniel Ortega (Nicarágua), Rafael Correia (Equador) ou Evo Morales (Bolívia), alguns deles no poder graças ao apoio dos petrodólraes venezuelanos» - e não diz mas sente e pressente que o melhor é mandar lá uns marines e umas tropas especiais para, à boa maneira dos EUA, repôr a legalidade democrática, a liberdade e os direitos humanos...
Tanto mais que, informa JMF, a colega «especialista em assuntos sul-americanos» revelou «novos documentos sobre a ligação entre os apoiantes de Manuel Zelaya e as FARC» - os tais «documentos» que a CIA fabrica e manda revelar através das suas agências e agentes espalhadas pelo mundo, género Público e JMF - e que estão fartos de revelar idênticas ligações às FARC por parte da Nicarágua, do Equador e da Bolívia...

E era essa a grande questão a que JMF queria chegar: a guerra santa que tem como protagonistas, de um lado, Uribe que JMF vê como «o presidente determinado (que) combate o terrorismo guerrilheiro e o narcotráfico», e do outro lado, as FARC e todos os que não apoiam o narco-fascista...
Isto é: de um lado os sacrossantos interesses do imperialismo norte-americano; do outro lado os povos que assumem o direito humano de decidirem sobre os seus destinos - e que é necessário arrasar, liquidar, eliminar de uma vez por todas. A ferro e fogo.

POEMA

INVENCIBILIDADE


Os braços desfaleçam, jorre o sangue, o último grito
fira, agónico, o silêncio da noite petrificada...
Ainda no corpo morto ficará, como granito,
imperecível certeza da mais rubra madrugada!...


António Cardoso

MAS HÃO-DE VOLTAR

Hillary Clinton está em Angola e encontrar-se-á hoje com o Presidente José Eduardo dos Santos.
Ontem, numa conferência de imprensa realizada em Luanda, a secretária de Estado norte-americana disse, a dada altura:
«Esperamos com impaciência que Angola aproveite esta etapa positiva para adoptar uma nova Constituição, para investigar e levar a tribunal as pessoas culpadas, no passado, por violações aos direitos humanos e para organizar a tempo uma eleição presidencial livre e justa».

Trata-se de uma ordem bem ao estilo do imperialismo norte-americano de sempre, desde o Truman ao Obama, passando pelo Reagan, pelos bush's, pelo Clinton e pelos outros todos.
Uma ordem que é para cumprir já, porque a senhora está impaciente.
Uma ordem dada ao presidente de um país soberano, na capital desse país e antes de se encontrar com esse presidente - ou seja: informando o presidente, através dos média, sobre o que lhe irá ordenar no encontro oficial.
Uma ordem dada no tom insolente e arrogante dos grandes patrões quando, impacientes, falam aos criados.

Do ponto de vista diplomático, estamos perante um verdadeiro escândalo.
Do ponto de vista político, estamos perante uma ofensa, um insulto, uma provocação miserável..
Do ponto de vista político-diplomático estamos perante um caso para o qual a única solução digna seria: acompanhar a senhora ao avião, despachá-la para o país de origem - e, por delicadeza, desejar-lhe boa viagem.
Claro que não foi isso que se passou: o mais provável é que, neste preciso momento, o presidente ofendido e a ministra que o ofendeu, estejam, sorridentes, a posar para os média - os mesmos média que, ontem, divulgaram as ordens da patroa...

Estão longe - muito, muito longe... - os tempos do MPLA e do Presidente AGOSTINHO NETO: os tempos da verticalidade e da coragem patriótica: os tempos da DIGNIDADE.
Estão longe... mas hão-de voltar.

POEMA

FUGA DA CELA DISCIPLINAR


Está uma noite
com lua, tão lua,
que quase endoidece.

Que até apetece
desertar da cela,
cair numa rua,
prender uma bela,
deitá-la no chão
tão nua, tão nua,
em beijos tão longos,
tão longos, tão longos,
que quase endoidece.


António Cardoso

HONDURAS VENCERÁ!

O Cravo de Abril insiste na divulgação de notícias sobre a situação nas Honduras.
Não tendo a pretensão de furar o cerrado cerco mediático montado pelos pasquins do grande capital - que, ao serviço dos golpistas e do governo de Obama que os apoia, silenciam tudo o que ali se passa - continuaremos a partilhar com os nossos visitantes as notícias a que formos tendo acesso.
É esta a forma de o Cravo de Abril expressar a sua total solidariedade com a resistência do povo hondurenho.

A partir das aldeias e comunidades do interior das Honduras, prossegue e aumenta o seu caudal a Marcha Nacional de Resistência Popular. A Marcha segue em duas direcções: Tegucigalpa e San Pedro Sula, a segunda maior cidade do país.
Prosseguem, igualmente, as greves e paralisações de trabalho e várias outras formas de luta contra o governo fascista apoiado, de facto, pelos EUA.

Entretanto, a repressão acentua-se: segundo o Comité dos Familiares dos Detidos e Desaparecidos, sucedem-se as prisões, cresce a violência e aumenta o número de «desaparecidos» - o recolher obrigatório é imposto pelos golpistas em várias regiões.

Em Tegucigalpa, milhares de pessoas revezam-se numa vigília contínua frente aos edifícios da embaixada da Venezuela e da Rádio Globo Honduras, com o objectivo de defender estes dois edifícios das forças policiais.
Como é sabido, a Rádio Globo Honduras é a principal fonte de informação sobre o que se passa no país e tem sido alvo de ameaças e represálias. Quanto aos diplomatas venezuelanos, eles rejeitaram corajosamente a ordem de expulsão de que foram alvo, alegando que a Venezuela não reconhece o governo golpista.

Numa entrevista colectiva, realizada na via pública, na capital, perante milhares de pessoas, dirigentes da Fente Nacional Contra o Golpe denunciaram a «duplicidade» do Governo dos EUA:
«por um lado diz que reconhece Manuel Zelaya como presidente (embora recusando-se a qualificar os acontecimentos de 28 de Junho como um golpe de Estado), por outro lado desenvolve uma estratégia para que a situação actual se prolongue e os golpistas se consolidem» - e concluiram incisivos:

«Só a resistência do povo conseguirá derrotar os golpistas. O que nós não fizermos, ninguém o fará por nós».


A LUTA CONTINUA!
HONDURAS VENCERÁ!

POEMA

PONHO A MÃO SOBRE ESPANHA


Ponho a mão sobre Espanha e juro
que nunca escreverei seu nome em vão.
Se me sabeis alguma vez perjuro
de Espanha e do seu povo,
decepai-me esta mão.


Jesus Lopez Pacheco

AVANTE !



O Manel tem três dentes hiantes na memória da fome que carrega: e quarenta anos de militante do nosso Partido, no orgulho vertical que carrega todos os dias. hoje, como muitas vezes, almocei na sua companhia. na sede do meu Partido, as pataniscas com arroz de tomate, foram pretexto para a mais bela conversa de que me lembro. o Manel tem 84 anos e uma vida feita de misérias, e nelas de alegria. mineiro, e comunista, muitas vezes sofreu na pele a repressão do fascismo que lhe roubava o pão e a saúde num trabalho penoso que nem as bestas... o Manel é meu amigo. tem a quarta classe feita em adulto e o gosto singelo das palavras que aprendeu pela paixão que nutre pelo saber, que a dureza da vida lhe quis proibir mas que nunca permitiu. aprendeu com os Avantes! as palavras que lhe faltavam para dizer dos seus dias. e hoje, quem entrar no centro de trabalho do Partido, encontra-o ao fundo, escrevendo em cadernos mensagens bonitas às pessoas de quem gosta. o Manel tem o coração a transbordar de vermelho. gosta da Liberdade e da Camaradagem. todo ele é feito das lutas que travou e da amizade que tem a todos os camaradas, mesmo que os não conheça. o Manel, oitenta e quatro anos vencidos ao fascismo e ao capitalismo, como muitos da sua idade, tem uma reforma de vergonha, muitos anos após árduo trabalho. talvez por isso, me encha de prazer pagar-lhe uma refeição e um café. os olhos pequeninos de que já pouco se serve (é cego de um olho e de outro apenas vê 60 por cento, na organização que a medicina sempre necessita para informar o Estado da deficiência) brilham sempre que da minha boca se solta uma palavra que considere bonita e, na sua extrema humildade, se considere indigno. o Manel, desde a morte do meu tio, com 90 anos, é o amigo mais velho que tenho. hoje descobri que nunca foi à festa do Avante! não que se tivesse queixado ou soltado lamento. Mas soube-o. e enfrentei-o com a dura pergunta: Manel, nunca foste ao Avante? os olhos do meu amigo entristeceram... neles vi o reflexo da magra reforma e a perna manca que o impossibilita de caminhadas maiores que alguns metros, antes de ter de parar para a descansar. nunca fui, disse-me. mas tenho pena. vou morrer antes de conhecer a mais bonita festa do mundo. Justificou dizendo que sabe muito de bailaricos, e que não falha um em Aljustrel.
chorei. embora disfarçando, correram lágrimas dos meus olhos. mas disse-lhe: este ano vais comigo! olhou-me como nunca ninguém até então. camarada, disse-me, não posso ir contigo. estou velho e as pernas obrigam-me ao descanso.
vais sentado no carro ate la. paramos para um café a meio caminho. comprar-te-ei uma cadeirinha e lá, sempre que precisares, de cinquenta em cinquenta metros, no domingo, pararemos para conhecer camaradas do país todo, para que possas descansar. os seus olhos humedeceram... marcámos encontro para domingo de manhã, mesmo que muitas vezes almocemos juntos até então. este ano, desculpem os camaradas da rotina de três dias seguidos, domingo regressarei a Aljustrel logo pela madrugada. o Manel espera-me e eu leva-lo-ei até à mais bela festa de todas. almoçaremos onde o cansaço das pernas mancas o exigir. às três, lá estaremos em frente ao palco 25 de Abril, para reforçarmos a LIBERDADE. passearemos no recinto espalhando a alegria de estar vivos e de sonharmos. numa qualquer tasquinha beberemos a amizade num brinde em que lembramos o sonho comunista. depois de jantar viremos embora. assim será até a morte levar um de nós... todos os anos. o Manel, resistente anti-fascista e militante comunista, não falhará mais nenhuma festa. a FESTA MAIS BONITA DO MUNDO!, nas suas ternas e sábias palavras. enquanto um de nós for vivo, os domingos da festa serão vividos entre a multidão, pelos dois, como verdadeiros camaradas. ele disse-me que não quer dar trabalho! eu disse-lhe que nunca lhe poderei agradecer a LIBERDADE, por mais que faça. gosto do Manel. ele gosta de mim! somos camaradas! temos festa! temos PARTIDO.

Nunca mais é domingo de AVANTE?

POEMA

OS MENINOS NASCEM


Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera
sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre o nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis;

Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas
para Buchenvald,

inutilmente o fareis:

Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga de sua mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.


Papiniano Carlos

HONDURAS RESISTE

A resistência do povo das Honduras continua.
Todos os dias e em alguns dias com participação redobrada.
Foi o que aconteceu na passada quarta-feira, em que centenas de milhares de hondurenhos ocuparam as ruas das principais cidades do país, exigindo o regresso do Presidente Manuel Zelaya.

Em todo o lado, as manifestações foram brutalmente reprimidas.
Na capital, Tegucigalpa, a polícia invadiu a Universidade Nacional Autónoma das Honduras (UNAH) e carregou violentamente sobre os três mil estudantes que ali se manifestavam, agredindo igualmente jornalistas e a própria reitora da Universidade.

Sublinhe-se o facto, bem elucidativo do carácter repressivo da ditadura instalada no país, de esta ser a primeira vez que a UNAH é invadida por forças policiais - não o tendo sido mesmo no tempo da cruel ditadura de Álvarez Martinez que, nos anos 80, às ordens da CIA, não apenas instalou o terror no país, como transformou as Honduras numa base de formação de terroristas, designadamente os 15 mil Contra que dali partiram para a Nicarágua com o objectivo de derrubar o governo revolucionário da Frente Sandinista.

Entretanto, registaram-se mais dois assassinatos: Roger Vallejo, professor, morto com um tiro na cabeça no decorrer de uma manifestação e outro professor, este dirigente sindical, assassinado com 25 punhaladas quando regressava a casa, depois de ter assistido ao velório de Vallejo.

Os média portugueses, fiéis a si próprios e aos seus selectivos critérios de desinformação organizada - e fechando nas gavetas de directores e chefes de redacção a liberdade de informação conquistada com o 25 de Abril - continuam a silenciar o que se passa nas Honduras, seguindo à risca as orientações do governo dos EUA.
Assim, nenhum jornal de ontem fez a mínima referência às manifestações de quarta-feira passada - e sobre elas o Diário de Notícias de hoje fornece uma «informação» que faz lembrar as «informações» do tempo do fascismo. Diz o jornal, em menos de meia dúzia de linhas, que «continuam as manifestações a favor e contra o líder deposto» e que «estudantes apoiantes de Zelaya atiraram pedras e paus contra a polícia, tendo os agentes respondido com gás lacrimogéneo»...

Já no que toca às posições dos EUA sobre as Honduras, os média portugueses não deixam os seus créditos por mãos alheias.
O Público de ontem e o Diário de Notícias de hoje realçam e louvam a «imparcialidade dos EUA na crise política das Honduras»...
E que «imparcialidade» é essa?
O Governo de Obama explica:
«A política norte-americana nas Honduras não é de apoio a ninguém em particular»;
e, por isso, continua a explicar o Governo Obama, «Os EUA recusam considerar a hipótese de avançar com sanções económicas»;
além disso, o Governo Obama classifica de «acções provocatórias», as tentativas de Zelaya de regressar às Honduras...

Mais palavras para quê?: é o Governo Obama a confirmar o seu papel de direcção no golpe fascista das Honduras; e são os média portugueses, à semelhança dos seus gémeos internacionais, a confirmar o seu apoio a esse golpe fascista.

Apesar disso, HONDURAS RESISTE! - e, resistindo, VENCERÁ!

POEMA

OS GRANDES


Os Grandes
reuniram-se numa sala.
Homem da rua,
abandona toda a esperança.

Os governos
escrevem pactos de não-agressão.
Homem pequeno,
escreve o teu testamento.


Brecht

SINAL DOS TEMPOS

Faz hoje 64 anos - 6 de Agosto de 1945 - que foi lançada a primeira bomba atómica contra populações. Foi em Hiroxima.
Três dias depois, segunda bomba seria lançada sobre Nagasaqui.
As explosões provocaram, de imediato, centenas de milhares de mortos e feridos - e, os seus efeitos perduraram pelos tempos, até hoje, sempre ceifando vidas.

Os jornais, as rádios e as televisões lembram hoje esse acontecimento.
À sua maneira, é claro: blá-blá-blá e lágrimas de crocodilo.
E assim fizeram, igualmente, para vergonha deles (se é que ainda lhes resta alguma) o secretário-geral da ONU e o primeiro-ministro japonês.

Ou seja: falam das bombas, alguns (nem todos) referem, de passagem, o número de mortos, mas nenhum diz aquilo que era, é, indispensável dizer, designadamente:
que essas duas bombas atómicas, as primeiras - e, até hoje, felizmente, únicas - lançadas contra homens, mulheres e crianças inocentes - foram lançadas por decisão do Governo dos EUA, na altura chefiado por um criminoso e chefe de gangsteres, de nome Truman;
que nada pode justificar esse acto bárbaro, nem mesmo o «argumento» de pôr termo à guerra, já que, de facto, a guerra tinha acabado três meses antes, com a entrada do Exército Vermelho em Berlim e com a capitulação da Alemanha nazi.


Ocultando factos como estes, o que se faz é justificar a barbárie ocorrida há 64 anos e abrir caminho para a sua repetição quando os «interesses dos EUA» o exigirem...
Sinal dos tempos que vivemos, e dos perigos que este tempo comporta, é o facto de serem os EUA - único país que utilizou armas atómicas contra populações- a decidir que países podem, ou não, ter armas atómicas...

POEMA

CANÇÃO DE LÍDICE


Irmão, é a hora,
apronta-te agora,
passa a outras mãos a invisível bandeira!
No morrer, não diferente do que na vida inteira,
não irás render-te a estes, companheiro bravo.
Estás hoje vencido, e és por isso escravo,
mas a guerra só acaba com a última batalha,
a guerra não acaba antes da última batalha.

Irmão, é a hora,
apronta-te agora,
passa a outras mãos a invisível bandeira!
Violência ou Justiça e a balança vacila,
mas, passada a servidão, outro dia cintila.
Estás hoje vencido, mas a coragem não te falha.
Que a guerra só acaba com a última batalha
que a guerra não acaba antes da última batalha


Brecht

A FESTA

Os jornais - todos - têm vindo a dedicar grande atenção aos festivais do Verão: notícias sobre quem lá vai cantar, desenvolvidas reportagens sobre os espectáculos, tudo, por vezes enchendo duas e mais páginas.
Ainda bem que assim é.

É pena, no entanto, que o critério dos dois pesos e duas medidas a que recorrem os tenha levado a dar tão pouca (em alguns casos, nenhuma) atenção à conferência de imprensa onde foram anunciados os espectáculos (e não só) da Festa do Avante.
Há, certamente, razões para que os média do grande capital, silenciem a Festa do Avante - que, organizada pelo PCP, é apenas, a maior e mais importante iniciativa musical, cultural, política, convivial, realizada no nosso País... E a mais bela, também.

Será que os média estão a reservar o seu precioso espaço para abordarem a Festa de outro ângulo?
Isto é: será que dentro de uma ou duas semanas vão encher páginas a falar... das FARC?
É bem provável.

Entretanto, a construção da Festa avança. E, como sempre, avança essencialmente na base das jornadas de trabalho voluntário e num ambiente de camaradagem, de amizade, de solidariedade - o tal ambiente que faz com que, durante os três dias da sua duração, a Festa do Avante seja «o espaço com maior índice de fraternidade por metro quadrado existente em Portugal».

E esta é uma realidade concreta que o grande capital e os seus média não conseguem impedir. Por muita força que tenham - e têm. Por muito que o desejem - e desejam.
Porque, por muito que eles não queiram, NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!

POEMA

ROMPER DO DIA


Não é em vão
que o romper de cada novo dia
se inaugura p'lo canto do galo
denunciando já de antigos tempos
uma traição.


Brecht

QUE GRANDE PANTOMINEIRO

Mário Soares dedica o seu habitual artigo no Diário de Notícias ao Programa Eleitoral do PS - programa que ele aplaude, aplaude e aplaude.
Porquê?: porque é um programa «voltado para o futuro» - e isso, o futuro, «é que interessa».

Soares acha que seria «um erro» virar «o debate para o passado». Isto porque, explica ele, «não é agora o momento» de discutir, por exemplo, a política que fez o Governo PS/Sócrates que, ainda por cima, é tema que gera «polémica»...
Soares garante, mesmo, que «o que interessa à maioria dos eleitores não é discutir o passado mas discutir o futuro» - ele não diz onde é que apurou este interesse da «maioria dos eleitores», mas há-de ter sido por palpite...
E insiste sempre: «o que é preciso é ignorar a polémica sobre o que se fez ou errou no passado e voltarmo-nos resolutamente para o futuro».

Ou seja: o que Soares quer é que não se fale da política que o Governo PS, de facto, fez: mas da política que o PS diz que vai fazer...

Estão a perceber, não estão?

POEMA

ALEMANHA


Em noite de vento, em noite escura,
um raminho floriu.
Com medos acordei na noite escura
e vi que o raminho floriu.

O espantalho de Hitler, o espantalho sangrento,
o vento um dia o dissipará:
«Hitlers vêm e Hitlers vão,
mas o povo alemão ficará» (1)

O Hitler será escorraçado
se nós nos soubermos unir,
e a nossa Alemanha querida
outra vez há-de florir.


Brecht

(1) A citação é de um discurso de Estáline.

A FACA O QUEIJO E O GOVERNO...

A Sonae decidiu baixar os salários dos trabalhadores do Público - isto é, da maioria dos trabalhadores, pois os chefes, esses, não foram atingidos pela drástica decisão...
Para o efeito, a empresa seguiu uma prática muito ao jeito democrático do engenheiro Belmiro: ou aceitam a redução dos salários ou são despedidos.
Os trabalhadores, colocados entre a espada e a parede, «aceitaram» a imposição.

Dir-se-á: fizeram bem, entre perder o emprego e perder uma parte do salário... do mal o menos.
E muito provavelmente não teriam outra hipótese: o patrão é que tem o poder, faz o que quer e lhe apetece - além de que, como se sabe, o Governo é do patrão, ao qual obedece fielmente.

Mas atenção: dizendo o que acima se diz, estar-se-á a dizer o mesmo que os belmiros dizem... pelo que há que acrescentar alguma coisa mais.
É imperioso dizer que se tivéssemos um governo democrático, a funcionar no respeito pela democracia, outro galo cantaria: os belmiros não poderiam impor a sua ditadura e, no caso concreto, o Governo democrático imporia à Sonae o respeito pelos direitos humanos e constitucionais dos trabalhadores e impediria a redução dos salários.
E é esse governo democrático que os trabalhadores e o povo têm que conquistar. Para já, votando bem nas próximas legislativas, rejeitando os partidos representantes do grande capital que há 33 anos destroem o País e votando em quem defende, de facto, sempre e em todas as circunstâncias, os seus interesses e direitos: a CDU.
E lutando. Lutando sempre, seja qual for a situação - mesmo quando, por vezes, a luta que se trava não conduza a uma vitória imediata e se traduza, até, numa derrota imediata.

E foi isso, a meu ver, que faltou aos trabalhadores do Público, aos quais o patrão roubou parte dos salários. E lutar, neste caso, poderia ser apenas isto: uma declaração dizendo que consideravam a diminuição de salários uma medida injusta e que só a aceitavam porque a isso eram obrigados, porque o patrão tem a faca, o queijo e o Governo na mão.

Isso não lhes resolveria o problema da redução de salários?: não, não resolveria, mas era um sinal carregado de futuro, porque se tratava da não aceitação passiva de uma injustiça - e teria sido, acima de tudo, um sinal de disponibilidade para a luta.

Como escreveu João Cabral de Melo Neto, no seu fabuloso «Morte e Vida Severina»,

«Muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás».

POEMA

À MORTE DE UM LUTADOR PELA PAZ


O que não se rendeu
foi abatido.
O que foi abatido
não se rendeu.

A boca que admoestava
foi tapada com terra.
A aventura sangrenta
começa.
Sobre a cova do amigo da paz
calcam os canhões.

Foi então vã a luta?

Se aquele que não lutou sozinho, foi abatido
o inimigo
ainda não venceu.


Brecht

POBREZA, MISÉRIA, FOME

Os números são por demais elucidativos:
Menos de 410 euros mensais é quanto recebem mais de 85% dos idosos portugueses, ou seja, cerca de 1. 150. 000 pessoas - das quais cerca de 200 mil recebem 224, 60 euros e cerca de 34 mil recebem 187,18 euros.

Elucidativas são, também, as perspectivas futuras:
Com as alterações - introduzidas pelo Governo PS/Sócrates - no cálculo das pensões e na fórmula para a sua actualização, as condições de vida da imensa maioria dos pensionistas agravar-se-ão drasticamente.

Pobreza, miséria, fome: eis a pena a que foram condenados estes portugueses e portuguesas.
Mas não só estes: a pobreza, a miséria e a fome estendem-se a centenas de milhares de outros portugueses e portuguesas não idosos, designadamente aos mais de 600 mil desempregados (dos quais cerca de metade não recebe qualquer subsídio) e aos milhares e milhares de trabalhadores com salários que não dão para comer ou com salários em atraso.

Do outro lado desta dramática realidade, estão os grandes grupos económicos e financeiros, obesos de lucros e sempre a engordar, quer a situação do País seja de «crise«, de «retoma» ou de «desenvolvimento económico» - a confirmar o conteúdo de classe da política de direita.

E é esta a situação (parte da situação...) a que 33 anos sucessivos de política de direita - praticada pelo PS e pelo PSD (às vezes com o CDS/PP atrelado) - conduziram o País.
Pelo que, as recorrentes «promessas» eleitorais de Sócrates &Cia., de Manuela Ferreira Leite &Cia. (e do Portas atrelado &Cia.) só podem ser entendidas como um insulto à inteligência dos portugueses e como uma ofensa brutal aos milhões de homens e de mulheres a quem eles negam todos os dias os mais elementares direitos humanos, a quem eles condenam à pobreza, à miséria, à fome.

Correr com esta cambada é uma necessidade imperiosa e urgente.
As próximas eleições legislativas podem dar um contributo importante para alcançar esse objectivo - e dá-lo-ão se a CDU reforçar significativamente a sua expressão eleitoral.
Daí a importância da batalha a travar desde agora até ao dia 27 de Setembro.
Daí a importância decisiva da participação nessa batalha do maior número possível de pessoas.