SINAL DOS TEMPOS

Faz hoje 64 anos - 6 de Agosto de 1945 - que foi lançada a primeira bomba atómica contra populações. Foi em Hiroxima.
Três dias depois, segunda bomba seria lançada sobre Nagasaqui.
As explosões provocaram, de imediato, centenas de milhares de mortos e feridos - e, os seus efeitos perduraram pelos tempos, até hoje, sempre ceifando vidas.

Os jornais, as rádios e as televisões lembram hoje esse acontecimento.
À sua maneira, é claro: blá-blá-blá e lágrimas de crocodilo.
E assim fizeram, igualmente, para vergonha deles (se é que ainda lhes resta alguma) o secretário-geral da ONU e o primeiro-ministro japonês.

Ou seja: falam das bombas, alguns (nem todos) referem, de passagem, o número de mortos, mas nenhum diz aquilo que era, é, indispensável dizer, designadamente:
que essas duas bombas atómicas, as primeiras - e, até hoje, felizmente, únicas - lançadas contra homens, mulheres e crianças inocentes - foram lançadas por decisão do Governo dos EUA, na altura chefiado por um criminoso e chefe de gangsteres, de nome Truman;
que nada pode justificar esse acto bárbaro, nem mesmo o «argumento» de pôr termo à guerra, já que, de facto, a guerra tinha acabado três meses antes, com a entrada do Exército Vermelho em Berlim e com a capitulação da Alemanha nazi.


Ocultando factos como estes, o que se faz é justificar a barbárie ocorrida há 64 anos e abrir caminho para a sua repetição quando os «interesses dos EUA» o exigirem...
Sinal dos tempos que vivemos, e dos perigos que este tempo comporta, é o facto de serem os EUA - único país que utilizou armas atómicas contra populações- a decidir que países podem, ou não, ter armas atómicas...

POEMA

CANÇÃO DE LÍDICE


Irmão, é a hora,
apronta-te agora,
passa a outras mãos a invisível bandeira!
No morrer, não diferente do que na vida inteira,
não irás render-te a estes, companheiro bravo.
Estás hoje vencido, e és por isso escravo,
mas a guerra só acaba com a última batalha,
a guerra não acaba antes da última batalha.

Irmão, é a hora,
apronta-te agora,
passa a outras mãos a invisível bandeira!
Violência ou Justiça e a balança vacila,
mas, passada a servidão, outro dia cintila.
Estás hoje vencido, mas a coragem não te falha.
Que a guerra só acaba com a última batalha
que a guerra não acaba antes da última batalha


Brecht

A FESTA

Os jornais - todos - têm vindo a dedicar grande atenção aos festivais do Verão: notícias sobre quem lá vai cantar, desenvolvidas reportagens sobre os espectáculos, tudo, por vezes enchendo duas e mais páginas.
Ainda bem que assim é.

É pena, no entanto, que o critério dos dois pesos e duas medidas a que recorrem os tenha levado a dar tão pouca (em alguns casos, nenhuma) atenção à conferência de imprensa onde foram anunciados os espectáculos (e não só) da Festa do Avante.
Há, certamente, razões para que os média do grande capital, silenciem a Festa do Avante - que, organizada pelo PCP, é apenas, a maior e mais importante iniciativa musical, cultural, política, convivial, realizada no nosso País... E a mais bela, também.

Será que os média estão a reservar o seu precioso espaço para abordarem a Festa de outro ângulo?
Isto é: será que dentro de uma ou duas semanas vão encher páginas a falar... das FARC?
É bem provável.

Entretanto, a construção da Festa avança. E, como sempre, avança essencialmente na base das jornadas de trabalho voluntário e num ambiente de camaradagem, de amizade, de solidariedade - o tal ambiente que faz com que, durante os três dias da sua duração, a Festa do Avante seja «o espaço com maior índice de fraternidade por metro quadrado existente em Portugal».

E esta é uma realidade concreta que o grande capital e os seus média não conseguem impedir. Por muita força que tenham - e têm. Por muito que o desejem - e desejam.
Porque, por muito que eles não queiram, NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!

POEMA

ROMPER DO DIA


Não é em vão
que o romper de cada novo dia
se inaugura p'lo canto do galo
denunciando já de antigos tempos
uma traição.


Brecht

QUE GRANDE PANTOMINEIRO

Mário Soares dedica o seu habitual artigo no Diário de Notícias ao Programa Eleitoral do PS - programa que ele aplaude, aplaude e aplaude.
Porquê?: porque é um programa «voltado para o futuro» - e isso, o futuro, «é que interessa».

Soares acha que seria «um erro» virar «o debate para o passado». Isto porque, explica ele, «não é agora o momento» de discutir, por exemplo, a política que fez o Governo PS/Sócrates que, ainda por cima, é tema que gera «polémica»...
Soares garante, mesmo, que «o que interessa à maioria dos eleitores não é discutir o passado mas discutir o futuro» - ele não diz onde é que apurou este interesse da «maioria dos eleitores», mas há-de ter sido por palpite...
E insiste sempre: «o que é preciso é ignorar a polémica sobre o que se fez ou errou no passado e voltarmo-nos resolutamente para o futuro».

Ou seja: o que Soares quer é que não se fale da política que o Governo PS, de facto, fez: mas da política que o PS diz que vai fazer...

Estão a perceber, não estão?

POEMA

ALEMANHA


Em noite de vento, em noite escura,
um raminho floriu.
Com medos acordei na noite escura
e vi que o raminho floriu.

O espantalho de Hitler, o espantalho sangrento,
o vento um dia o dissipará:
«Hitlers vêm e Hitlers vão,
mas o povo alemão ficará» (1)

O Hitler será escorraçado
se nós nos soubermos unir,
e a nossa Alemanha querida
outra vez há-de florir.


Brecht

(1) A citação é de um discurso de Estáline.

A FACA O QUEIJO E O GOVERNO...

A Sonae decidiu baixar os salários dos trabalhadores do Público - isto é, da maioria dos trabalhadores, pois os chefes, esses, não foram atingidos pela drástica decisão...
Para o efeito, a empresa seguiu uma prática muito ao jeito democrático do engenheiro Belmiro: ou aceitam a redução dos salários ou são despedidos.
Os trabalhadores, colocados entre a espada e a parede, «aceitaram» a imposição.

Dir-se-á: fizeram bem, entre perder o emprego e perder uma parte do salário... do mal o menos.
E muito provavelmente não teriam outra hipótese: o patrão é que tem o poder, faz o que quer e lhe apetece - além de que, como se sabe, o Governo é do patrão, ao qual obedece fielmente.

Mas atenção: dizendo o que acima se diz, estar-se-á a dizer o mesmo que os belmiros dizem... pelo que há que acrescentar alguma coisa mais.
É imperioso dizer que se tivéssemos um governo democrático, a funcionar no respeito pela democracia, outro galo cantaria: os belmiros não poderiam impor a sua ditadura e, no caso concreto, o Governo democrático imporia à Sonae o respeito pelos direitos humanos e constitucionais dos trabalhadores e impediria a redução dos salários.
E é esse governo democrático que os trabalhadores e o povo têm que conquistar. Para já, votando bem nas próximas legislativas, rejeitando os partidos representantes do grande capital que há 33 anos destroem o País e votando em quem defende, de facto, sempre e em todas as circunstâncias, os seus interesses e direitos: a CDU.
E lutando. Lutando sempre, seja qual for a situação - mesmo quando, por vezes, a luta que se trava não conduza a uma vitória imediata e se traduza, até, numa derrota imediata.

E foi isso, a meu ver, que faltou aos trabalhadores do Público, aos quais o patrão roubou parte dos salários. E lutar, neste caso, poderia ser apenas isto: uma declaração dizendo que consideravam a diminuição de salários uma medida injusta e que só a aceitavam porque a isso eram obrigados, porque o patrão tem a faca, o queijo e o Governo na mão.

Isso não lhes resolveria o problema da redução de salários?: não, não resolveria, mas era um sinal carregado de futuro, porque se tratava da não aceitação passiva de uma injustiça - e teria sido, acima de tudo, um sinal de disponibilidade para a luta.

Como escreveu João Cabral de Melo Neto, no seu fabuloso «Morte e Vida Severina»,

«Muita diferença faz
entre lutar com as mãos
e abandoná-las para trás».

POEMA

À MORTE DE UM LUTADOR PELA PAZ


O que não se rendeu
foi abatido.
O que foi abatido
não se rendeu.

A boca que admoestava
foi tapada com terra.
A aventura sangrenta
começa.
Sobre a cova do amigo da paz
calcam os canhões.

Foi então vã a luta?

Se aquele que não lutou sozinho, foi abatido
o inimigo
ainda não venceu.


Brecht

POBREZA, MISÉRIA, FOME

Os números são por demais elucidativos:
Menos de 410 euros mensais é quanto recebem mais de 85% dos idosos portugueses, ou seja, cerca de 1. 150. 000 pessoas - das quais cerca de 200 mil recebem 224, 60 euros e cerca de 34 mil recebem 187,18 euros.

Elucidativas são, também, as perspectivas futuras:
Com as alterações - introduzidas pelo Governo PS/Sócrates - no cálculo das pensões e na fórmula para a sua actualização, as condições de vida da imensa maioria dos pensionistas agravar-se-ão drasticamente.

Pobreza, miséria, fome: eis a pena a que foram condenados estes portugueses e portuguesas.
Mas não só estes: a pobreza, a miséria e a fome estendem-se a centenas de milhares de outros portugueses e portuguesas não idosos, designadamente aos mais de 600 mil desempregados (dos quais cerca de metade não recebe qualquer subsídio) e aos milhares e milhares de trabalhadores com salários que não dão para comer ou com salários em atraso.

Do outro lado desta dramática realidade, estão os grandes grupos económicos e financeiros, obesos de lucros e sempre a engordar, quer a situação do País seja de «crise«, de «retoma» ou de «desenvolvimento económico» - a confirmar o conteúdo de classe da política de direita.

E é esta a situação (parte da situação...) a que 33 anos sucessivos de política de direita - praticada pelo PS e pelo PSD (às vezes com o CDS/PP atrelado) - conduziram o País.
Pelo que, as recorrentes «promessas» eleitorais de Sócrates &Cia., de Manuela Ferreira Leite &Cia. (e do Portas atrelado &Cia.) só podem ser entendidas como um insulto à inteligência dos portugueses e como uma ofensa brutal aos milhões de homens e de mulheres a quem eles negam todos os dias os mais elementares direitos humanos, a quem eles condenam à pobreza, à miséria, à fome.

Correr com esta cambada é uma necessidade imperiosa e urgente.
As próximas eleições legislativas podem dar um contributo importante para alcançar esse objectivo - e dá-lo-ão se a CDU reforçar significativamente a sua expressão eleitoral.
Daí a importância da batalha a travar desde agora até ao dia 27 de Setembro.
Daí a importância decisiva da participação nessa batalha do maior número possível de pessoas.

POEMA

O NOVO SUDÁRIO


Quando o Grande das chagas em sangue caminhava
culpado de o ter tolerado
vindo de um esbirro para outro esbirro,
chegou-se a ele sacudindo a cabeça um senhor anafado
a cheirar um pouco a almíscar da Índia.
Tirou da carteira recheada um papel
e diante do povo estendeu-o ao das chagas em sangue.
E diante do povo que aclamava
o das chagas limpou paciente
o seu suor, e o anafado
tirou-lhe de novo o papel em que agora
estava retratada a face do Chagado,
agitou-o perante a turba
e mandou-o
para a Casa da Moeda.


Brecht

POR QUE SERÁ?

Há umas semanas atrás, o Público noticiou e o Cravo de Abril registou que Louçã e Portas (Paulo) eram os únicos políticos que, porque não tinham férias, iriam «para a estrada» correr Portugal de ponta a ponta em intensa campanha eleitoral.
Entretanto, o PCP levava por diante um vasto conjunto de iniciativas políticas - que o Público silenciava sistematicamente e que, portanto, era como se não existissem...

Dias depois outros média repetiram a notícia do Público, até que a coisa foi dada como certa...
Entretanto, o PCP levava por diante um vasto conjunto de iniciativas - que esses jornais silenciavam sistematicamente e que, portanto, era com se não existissem...

Agora foi a vez de a revista Sábado entrar na festa, dedicando nada mais nada menos do que 6-páginas-6 a uma reportagem sobre a campanha dos «dois que se anteciparam à concorrência e já estão na estrada».
É claro que a Sábado não diz uma palavra sobre o vasto conjunto de iniciativas políticas que o PCP está a levar cabo - «na estrada», na rua, em salas, ao ar-livre... e portanto tais iniciativas é como se não existissem...

A reportagem da Sábado constitui uma peça de propaganda eleitoral a favor do CDS/PP e do BE, que pode resumir-se assim: Portas é o máximo e Louçã upa-upa...
Como é hábito nestas ocasiões, a Sábado encontrou, por acaso..., primeiro, um «jovem adolescente» que lhe disse, referindo-se a Louçã: »Ainda não voto mas quando o fizer o meu voto é dele»; e logo a seguir, um «homem de 40 anos» que fez questão de informar a Sábado: «Sou um apoiante dele» - e logo acrescentou oportuníssimo: «É pena a CDU não ter um gajo destes»...
Estão a ver como as pessoas dizem exactamente as coisas que ao BE interessava que dissessem? E como a Sábado teve a sorte de encontrar exactamente as pessoas que ao BE interessava que encontrasse?
E a Sábado enche mais 2-páginas-2 com uma reportagem sobre a história da Sede do BE...

Assim sendo, terei que repetir a pergunta já várias vezes aqui formulada:
Por que será que os média dominantes - que são propriedade do grande capital - fazem tanta propaganda ao BE?

POEMA

ENTERRO DO AGITADOR NO CAIXÃO DE ZINCO


Aqui, neste caixão de zinco,
jaz um homem morto.
Ou as suas pernas e a cabeça
ou ainda menos
ou nada, pois ele era
um agitador.

Foi reconhecido como causa primeira do Mal.
À vala com ele! O melhor é
que só a mulher o acompanhe à esterqueira,
pois quem quer que o acompanhe
fica também marcado.

Isso aí no caixão de zinco
instigou-vos a muitas coisas:
a comer a fartar
e a morar debaixo de telha
e a alimentar os filhos
e a exigir o salário até ao último vintém
e à solidariedade com todos
os oprimidos vossos iguais e
a pensar.

Isso aí no caixão de zinco disse
que era preciso um outro sistema de produção
e que vós, as massas de milhões do trabalho,
tínheis que tomar conta do mando.
E que antes disso nada melhoraria para vós.

E porque isso que aí está no caixão de zinco disse isso
por isso acabou no caixão de zinco e vai ser atirado à cova
como um agitador que vos incitou.
E quem quer que fale de comer a fartar
e quem quer de entre vós que queira morar debaixo de telha
e quem quer de entre vós que exija o último vintém do salário
e quem quer de entre vós que queira sustentar os filhos
e quem quer que pense e se declare solidário
com todos os que são oprimidos,
esse virá, desde agora até à eternidade,
a acabar no caixão de zinco como esse,
como um agitador, e será atirado à vala.


Brecht

ESTÚPIDO!

O caso foi muito falado há coisa de uma semana: um velho professor norte-americano, negro, preparava-se para entrar em sua casa; um polícia que passava perto, desconfiou tratar-se de um assaltante e toca de prender o professor; as explicações dadas pelo professor - de que aquela era a sua casa, tinha ali a chave, os documentos, etc - de nada valeram: o homem, devidamente algemado, foi levado para a esquadra da polícia.
Comentando o sucedido, o Presidente Obama, indignado, considerou que o polícia se havia «comportado estupidamente».

Até aqui, tudo dentro da normalidade: nos EUA, a prisão de cidadãos negros porque um polícia branco desconfia, é o pão deles de cada dia - e também não surpreende a reacção de Obama, homem da «mudança», não é verdade?, do respeito pelos «direitos dos cidadãos», não é verdade?...

Acontece que, nos EUA, a normalidade tem que se lhe diga: a corporação policial, indignada com a indignação de Obama e com o facto de ele ter considerado «estúpido» o comportamento do polícia, exigiu que o Presidente pedisse desculpa.
E Obama, obediente, pediu desculpa ao polícia.

Perante isto, pergunto-me se Obama tem a noção de que, ao pedir desculpa ao «estúpido», estava a chamar estúpido ( e muito mais do que isso...) a si próprio...

POEMA

EXPULSO, E COM RAZÃO


Eu cresci como filho
de gente abastada. Os meus pais puseram-me
um colarinho ao pescoço e criaram-me
nos costumes de ser servido
e ensinaram-me a arte de mandar. Mas
quando era já crescido e olhei à minha roda,
não me agradou a gente da minha classe,
nem o mandar nem o ser servido.
E eu abandonei a minha classe e juntei-me
à gente pequena.

Assim
criaram eles um traidor, educaram-no
nas suas artes, e ele
atraiçoa-os ao inimigo.

Sim, eu divulgo segredos. Entre o povo
estou eu e explico
como eles enganam, e predigo o que vai vir,
pois eu estou iniciado nos seus planos.
O latim dos seus padres corruptos
traduzo-o palavra a palavra para a língua comum,
e então se descobre que é tudo pantomina.
A balança da sua justiça
tiro-a para baixo e mostro
os pesos falsos. E os seus informadores vão dizer-lhes
que eu estou com os roubados quando conjuram
a revolta.

Admoestaram-me e tiraram-me
o que ganhei com o meu trabalho.
E quando não melhorei,
deram-me caça,
porém já só havia
escritos em minha casa, que descobriam
os seus conluios contra o povo. E assim
perseguiram-me com um mandato de captura
que me acusava de opiniões baixas, isto é:
de opiniões dos de baixo.

Aonde chego, fico marcado
para todos os possidentes, mas os que nada têm
lêem o mandato e
dão-me abrigo. «A ti» - ouço eu dizer -
«Expulsaram-te eles,
e com razão».


Brecht

«O CASO PARPÚBLICA»

No reino da política de direita é difícil, para não dizer impossível, acontecer qualquer coisa que nos surpreenda pela positiva.
Para a imensa maioria da população, tudo o que acontece é, sem surpresa, mau.
Para a imensa minoria, tudo é - também sem surpresa - bom.

E é neste cenário de previsibilidades que todos os dias acontecem «casos»... previsíveis: o «caso Casa Pia», o «caso BPN», o «caso Freeport», o «caso BPP», «o caso Liscont», etc, etc - e os «casos» do desemprego, dos salários em atraso, da pobreza, da miséria, etc, etc.
Trata-se de «casos» filhos da mesma mãe e do mesmo pai, mas a confirmar o dito popular de que uns são filhos, outros são enteados...

Entre os «casos» surgidos nos últimos dias está o «caso Parpública», que pode resumir-se assim:
a Parpública é uma empresa pública que gere empresas do Estado - gere à distância, digamos assim, já que essas empresas têm, elas próprias, as suas gerências...; os três administradores executivos da Parpública - o presidente e dois vogais - recebem salários mensais de 9 699 euros (o presidente) e 7 759 euros (cada um dos dois vogais), o que não é nada mau...; para além disso, se gerirem bem têm direito a «prémios de gestão» - embora não conste que paguem multas se gerirem mal...; esses «prémios de gestão» são anuais e os primeiros, respeitantes a sete meses do ano de 2007, foram agora pagos: 67 896 euros para o presidente e 54 317 euros para cada um dos vogais; feitas as contas verifica-se que
estes «prémios de gestão» correspondem exactamente a um segundo salário para cada administrador executivo.

Se isto não é um insulto à imensa maioria dos portugueses, não sei o que seja.

POEMA

O CÃO


Diz-me o meu jardineiro: O cão
é robusto e esperto e foi comprado
para guardar hortas. Mas eles
fizeram dele o amigo do homem.
P'ra que é
que lhe dão de comer?


Brecht

SER OU NÃO SER DEPUTADO

Diz a notícia que um actual deputado do PS na Assembleia da República, «reagiu mal» à possibilidade de deixar de ser deputado na próxima legislatura.
Isto porque o seu nome figurava na lista do seu partido «em lugar não elegível» - coisa para ele inadmissível e impensável e que, visivelmente, não se enquadrava nos seus projectos de futuro.
Ora - e isto é que é espantoso - de tal forma a possibilidade de deixar de ser deputado o afectou que, «desgastado», teve que ser «transportado de urgência para o hospital».

Mas ao que parece tudo acabou em bem.
Felizmente para a saúde do actual deputado, após uma série de «exames e análises», regressou a casa.
Felizmente para o futuro deputado, quando saíu do hospital verificou que tinha subido na lista os lugares suficientes para ficar «em lugar elegível».

Isto de (querer) ser deputado tem muito que se lhe diga...

Saúde, muita saúde, é o que, sinceramente, desejo ao actual deputado - tanto quanto lhe desejo, com a mesma sinceridade, que, mesmo «em lugar elegível», não venha a ser eleito.

POEMA

(AO DEIXAR NOVA IORQUE)


Escapei aos tigres,
alimentei percevejos,
fui devorado
pelas mediocridades.


Brecht

TAREFA NOSSA

Faz hoje um mês que os militares fascistas se apoderaram do poder nas Honduras.
De então para cá, todos os dias têm sido dias de povo nas ruas, em luta pela reposição da democracia.
De então para cá, todos os dias têm sido dias de repressão brutal, sobre a qual vão chegando notícias - notícias que furam o cerrado cerco noticioso dos média dominantes de todo o mundo, propriedade do grande capital internacional.
De então para cá, todos os dias têm sido dias de solidariedade, à escala mundial, com a luta do povo das Honduras.

No domingo, a sala de um hotel de Tegucigalpa, onde se realizava uma conferência de imprensa de uma insuspeitíssima Missão Internacional dos Direitos Humanos, foi invadida pela polícia fascista e por civis não identificados que procuraram impedir a distribuição de um Relatório Preliminar sobre a Violação dos Direitos Humanos nas Honduras.

Através da TeleSUR, da Rádio Globo Honduras e de outros órgãos de informação dignos desse nome, sabe-se que o povo hondurenho resiste e que os golpistas reprimem, prendem, torturam, assassinam.

Nomes de assassinados:
Isis Obed Mencias - de 19 anos.
Gabriel Fino Noriega - jornalista.
Ramón Garcia - dirigente do partido União Democrática.
Roger Iván Bados - dirigente sindical.
Vicky Hernandés Castillo - da comunidade LGTB.
Pedro Mandiel - jovem cujo cadáver, com sinais de tortura, apareceu num terreno baldio.

Entretanto, o Governo do democrata Obama, com os os seus lacaios de serviço - presidente da Costa Rica, secretário-geral da OEA, etc - tudo fazem para que os golpistas permaneçam no poder.

Denunciar esta situação e manifestar a solidariedade com a luta do povo hondurenho é tarefa nossa - dos democratas, dos antifascistas, dos homens e mulheres de esquerda.
Tarefa a cumprir logo à tarde, às 19 horas, junto ao Consulado das Honduras, no Rossio.

POEMA

HOLLYWOOD


Todas as manhãs, pra ganhar o pão,
vou ao mercado onde se compram mentiras.
Cheio de esperança
meto-me na bicha dos vendedores.


Brecht

SEM ASPAS

As «guerras» entre políticos burgueses constituem um dos pratos fortes dos média dominantes.
São frequentes, especialmente em tempo de campanha eleitoral e, regra geral, têm lugar garantido nas primeiras páginas de todos os «noticiários».
De há uns dias a esta parte há três «guerras» em curso:
1 - a «guerra» - a propósito não sei de quê - entre Manuela e Sócrates, em que a primeira chama «mentiroso» ao segundo e o segundo chama «mentirosa» à primeira;
2 - a «guerra» - a propósito de não me lembro o quê - entre Costa e Santana, em que ambos se acusam de «mentirosos»;
3 - a «guerra» entre Louçã e Sócrates - a propósito do mesmo - em que cada um demonstra que «mentiroso é ele».

Estas «guerras» terminarão um dia destes: por um lado, porque o tema em debate - «Mentiroso!», «Mentiroso és tu!» - não dá para «batalhas» longas - além de que os intervenientes estão todos cheios de razão; por outro lado, e essa é a questão essencial, porque há que passar às «guerras» seguintes, de forma a assegurar todos os dias as primeiras páginas dos «noticiários», mais a respectiva «crónica» do escriba de serviço.
E cada primeira página, como as «sondagens» virão explicar, corresponde a um consensual «tantos votos para ti», «tantos votos para mim»... que é, ao fim e ao cabo, o que os faz correr a todos: aos «guerreiros», aos «sondageiros», aos «noticiareiros» e aos «croniqueiros» - ou, sem aspas, trapaceiros.

POEMA

RESOLUÇÃO DOS COMUNEIROS


Considerando a nossa debilidade,
fazeis leis para nos avassalar.
No futuro as leis não serão cumpridas
considerando que não queremos continuar ser vassalos.

Considerando pois que
nos ameaçais com fuzis e canhões,
concordámos em temer, mais do que à morte,
esta vida amarga que levamos.

Considerando que ficamos com fome
enquanto permitimos que nos roubem,
vamos comprovar que só as montras
no separam do bom pão que nos falta.

Considerando pois que
nos ameaçais com fuzis e canhões,
concordámos em temer, mais do que à morte,
esta vida amarga que levamos.

Considerando que estão aqui a casas
enquanto nos deixais sem abrigo,
concordámos em mudar-nos para elas
porque não estamos cómodos nestes casebres.

Considerando pois que
nos ameaçais com fuzis e canhões,
concordámos em temer, mais do que à morte,
esta vida amarga que levamos.

Considerando que existe demasiado carvão
enquanto nós, sem carvão, gelamos,
concordámos em ir buscá-lo agora mesmo
considerando que assim podemos aquecer-nos.

Considerando pois que
nos ameaçais com fuzis e canhões,
concordámos em temer, mais do que à morte,
a vida amarga que levamos.

Considerando que não conseguis
oferecer-nos um bom salário,
tomámos a nosso cargo as fábricas
considerando que sem vós podemos bastar-nos.

Considerando pois que
nos ameaçais com fuzis e canhões,
concordámos em temer, mais do que à morte,
a vida amarga que levamos.

Considerando que não confiamos
no que sempre promete o governo,
acordámos, sob nossa própria direcção,
tornar a nossa vida feliz a partir deste momento.

Considerando que só obedeceis aos canhões
- e não conseguis compreender outra linguagem -
vemo-nos obrigados, e isso sim, valerá a pena,
a assestar contra vós os canhões!


Brecht

DIA 28, ÀS 19 HORAS, NO ROSSIO!

A situação nas Honduras continua marcada por três traços essenciais: a luta do povo hondurenho pela democracia e pela liberdade - que, neste caso, é a luta pelo regresso do Presidente Manuel Zelaya; a solidariedade internacional com essa luta; e as manobras do Governo dos EUA para que os golpistas continuem a usurpar o poder, a liquidar a democracia, a cercear a liberdade.
Tudo está, portanto, claramente definido.

Ontem, o Presidente Manuel Zelaya entrou em território hondurenho, tendo sido depois obrigado a regressar à Nicarágua.
Hillary Clinton considerou «imprudente» esta atitude de Manuel Zelaya, porque pode provocar «violência» - e as manifestações dos hondurenhos são também «imprudentes» porque podem provocar a «violência»... (e a derrota dos fascistas, claro...)
Aliás, Hillary continua muito «preocupada com a violência»... em concreto, com a «violência no Irão» - há dias voltou a falar da «violência tremenda, brutal» aquando das manifestações na sequência das eleições naquele país.
Em contrapartida, a ministra dos Negócio Estrangeiros dos EUA não disse ainda uma palavra sobre a repressão nas Honduras, as prisões, os assassinatos, a violência, enfim...

Fidel Castro, num texto ontem divulgado, propôs em tom irónico, que o Prémio Nobel da Paz seja atribuído a Hillary Clinton pelo seu papel no golpe das Honduras - e, no mesmo tom, classificou de «genial» a «ideia yankee» de ir buscar o Presidente da Costa Rica para mediador, de forma a ganhar tempo e a permitir que os golpistas continuem a usurpar o poder.

Entretanto, o homem de mão dos EUA nas Honduras, o fascista Micheletti desdobra-se em declarações provocatórias, bem indiciadoras de que tem «as costas quentes».

A organização e concretização do golpe fascista nas Honduras, e as manobras posteriormente desenvolvidas no sentido de, contra a vontade de (quase) todo o mundo, manter os golpistas no poder, é o exemplo mais claro da «mudança» introduzida por Obama na política externa dos EUA - uma «mudança» que confirma o carácter antidemocrático, criminoso, terrorista, do imperialismo norte-americano.

A solidariedade concreta com a luta do povo hondurenho é um imperativo para todos os democratas, para todos os homens, mulheres e jovens de esquerda, para todos os trabalhadores.
Assim o entende, também, a CGTP-IN que convocou uma acção de solidariedade com a luta dos trabalhadores e do povo das Honduras.

É no dia 28 de Julho, às 19 horas, frente ao Consulado das Honduras, no Rossio.

Lá nos encontraremos.

POEMA

DIFICULDADE DE GOVERNAR


1
Todos os dias os ministros dizem ao povo
como é difícil governar. Sem os ministros
o trigo cresceria para baixo em vez de crescer para cima.
Nem um pedaço de carvão sairia das minas
se o chanceler não fosse tão inteligente.
Sem o ministro da Propaganda
mais nenhuma mulher podia ficar grávida.
Sem o ministro da Guerra nunca mais haveria guerra.
E atrever-se-ia a nascer o sol
sem autorização do Fuhrer?
Não é nada provável e, se o fosse,
nasceria por certo fora do lugar.

2
É também difícil, ao que nos é dito,
dirigir uma fábrica. Sem o patrão
as paredes cairiam
e as máquinas enchiam-se de ferrugem.
Se algures fizessem um arado
ele nunca chegaria ao campo sem
as palavras avisadas do industrial aos camponeses: quem,
senão ele, lhes poderia falar na existência de arados?
E que seria da propriedade rural sem o lavrador?
Não há dúvida nenhuma que se semearia centeio
onde já havia batatas.

3
Se governar fosse fácil
não havia necessidade de espíritos tão esclarecidos
como o do Fuhrer.
Se o operário soubesse usar a sua máquina
e se o camponês soubesse distinguir um campo
de uma forma para tortas,
não haveria necessidade de patrões
nem de proprietários.
É só porque toda a gente é tão estúpida
que há necessidade de alguns tão inteligentes.

4
Ou será que
governar só é assim tão difícil porque
a exploração e a mentira
são coisas que custam a aprender?


Brecht

«O CASO LISCONT/MOTA-ENGIL»

É (mais um) caso curioso... e conta-se em meia dúzia de linhas.
O Governo tinha um acordo com a Liscont (empresa do grupo Mota-Engil/Jorge Coelho), sobre o parque de contentores do porto de Lisboa - acordo que terminava em 2015.
Todavia, não se sabe porquê (ou sabe?...), o Governo e a referida empresa entenderam fazer um novo acordo, dando a esse objectivo, não se sabe porquê (ou sabe?...), o carácter de «urgência».
Devido ao carácter de «urgência» - o novo contrato não foi sujeito a concurso público e ganhou o único «concorrente» que era a Liscont/Mota Engil.

Entre o acordo inicial - que, repito, só terminaria em 2015 - e o agora assinado, há diferenças significativas - diferenças que o Tribunal de Contas diz serem todas «contra os interesses do Estado» e, por isso, todas a favor dos interesses da Liscont/Mota-Engil.
Uma dessas diferenças tem a ver com a questão central de qualquer negócio: a questão dos lucros e dos prejuízos.
Após porfiadas negociações, os negociantes concordaram, passaram a escrito e assinaram mais ou menos isto: se houver lucros são para a Liscont/Mota-Engil; se houver prejuízos são para o Estado.
Digam lá: foi ou não foi um bom negócio?
Com governantes destes só quem trabalha é que está tramado...

POEMA




Era mão de obra.
Ocupavam uma praça de Chicago
com o coração na boca
por oito horas de trabalho.

De repente na terra prometida
rebenta uma bomba
(só) anunciada nos jornais.
De repente a polícia dispara
de repente a mão de obra também
de repente morreram dez ou pouco mais.
O resto da gente fugiu...
Na rua silente
ficaram os mortos e os cães.
Depois julgaram e enforcaram
quatro terroristas de coração na boca.

seis anos depois
foram absolvidos de terem sido enforcados.

Afinal
tanto faz hoje dizer que foram cinco ou vinte e cinco
foi o usual
o retado ritual
de quem pode inventar uma bomba
anunciá-la nos jornais
e matar logo uns tantos
e julgar e enforcar depois
quatro escolhidos
que queriam oito horas de trabalho.

Passados cem anos eles dizem
que foi um erro...
Nós
aqui em Portugal
temos a certeza
infinitesimal
duma vadia bandeira vermelha a flutuar.
Nós cá estaremos
contra eles
até isto mudar.


Manuel Videira

É DE HOMEM...

Entrevistado pelo Diário de Notícias a propósito da sua saída do Parlamento, Manuel Alegre disse: «Parto com pena». E logo acrescentou: «Não quer dizer que esta saída seja definitiva» - escusando-se a dizer o que é que isso queria dizer e, portanto, deixando no ar a ideia de voltar, um dia...
Estamos assim perante mais um daqueles tabus em que Alegre é mesttre - e neste caso um tabu do qual, por não ter data de esclarecimento no horizonte, se pode dizer que está para durar...

Aliás, Alegre é um autêntico gerador de tabus. Tabus de todos os feitios e géneros: a curto, médio ou longo prazo e para todas as situações. De tal modo que, por vezes, acontece o tabu estar com Alegre, mesmo quando Alegre parece não estar com o tabu: é o caso da notícia divulgada pelo Jornal de Notícias que nos diz: que «Alegre anunciou para hoje um discurso de despedida do Parlamento» e que esse «é o momento mais aguardado para hoje».
Ora, na acima referida entrevista ao DN, Alegre informa que não tenciona discursar na sua última (até ver...) sessão na Assembleia da República.
Lá para o fim do dia, o tabu será desvendado...

Como é sobejamente sabido, a saída de Alegre do Parlamento deve-se ao facto de ele ter recusado integrar as listas do PS para as próximas legislativas. As razões dessa recusa são, também, sobejamente conhecidas: ele só faria parte das listas se o PS desistisse do Código do Trabalho e se o Programa Eleitoral do PS não fosse elaborado por quem é: António Vitorino.
Portanto, Alegre excluiu-se das listas.

Mas, curiosamente, não se excluiu da campanha eleitoral na qual vai participar activamente - a colar cartazes, até, se for necessário.
E cá estamos perante mais um exemplo da fecunda criatividade interventiva do Poeta: apesar de o Programa Eleitoral ter sido feito por quem foi e apesar de o Código do Trabalho persistir, ele vai apelar ao voto... nesse Programa e nesse Código.
Ou seja: na sua qualidade de «homem de esquerda», Alegre vai apelar ao voto na política de direita.
É de homem... de esquerda.

POEMA

COMEI VOSSOS PERUS


Comei vossos perus
burgueses anafados
e dai esmolinhas aos pobres
que tendes esfomeados.
Um dia há-de chegar
em que sereis assados
não para subir ao céu.


Jorge de Sena

SINAIS DOS TEMPOS...

Uma senhora que dá pelo nome de Filipa e pelo acompanhante apelido de Vacondeus - e que tem a profissão assumida de «Cozinheira e comunicadora» - deu entrevista ao Sol.
A dada altura, a cozinheira comunicou que gosta muito de política e que tal gosto se deve à educação bebida e comida no lar paterno - isto no tempo de Salazar, homem do qual a entrevistada sente saudades, já que, comunica, era um homem profundamente honesto e sério, como já não há...
Estranhou o entrevistador que a entrevistada falasse da honestidade e da seriedade de um indivíduo que tinha uma polícia política que prendia e torturava.
E logo a comunicadora esclareceu. Assim:
«Vamos pôr as coisas de forma muito clara: a polícia política só fazia isso a pessoas do Partido Comunista».

Pronto: assim, fica a PIDE de Salazar não apenas desculpada mas sobretudo candidata a uma medalha de mérito democrático...talvez a entregar por Cavaco Silva no próximo «dia da raça»...

De facto, nestes tempos que vivemos, nunca é demais alertar: eles andam por aí...

POEMA

«DE CADA VEZ QUE UM GOVERNO...»


De cada vez que um governo necessita de segredos,
por segurança do Estado, ou para melhor êxito
de negociações internacionais, é o mesmo que negar,
como negaram sempre desde que o mundo é mundo,
a liberdade.

Sempre que um povo aceita que o seu governo,
ainda que eleito com quantas tricas já se sabe,
invoque a lei e a ordem para calar alguém,
como fizeram sempre desde que o mundo é mundo,
nega-se
a liberdade.

Porque, se há algum segredo na vida pública,
que todos não podem saber, é porque alguém,
sem saber, é o preço do negócio feito.
E, se há uma ordem e uma lei que não inclua
mesmo que seja o último dos asnos ou dos pulhas
e o seu direito a ser como nasceu ou fizeram,
a liberdade
é uma farsa
a segurança
é uma farsa
a ordem
é uma farsa,
não há nada que não seja uma farsa,
a mesma farsa representada sempre
desde que o mundo é mundo,
por aqueles que se arrogam ser
empresários dos outros e nem pagam
decentemente senão aos maus actores.


Jorge de Sena

E VÃO TRÊS...

Arlindo Carvalho foi «indiciado por burla, fraude fiscal e abuso de confiança num negócio que envolve 74 milhões de euros».
É o terceiro ex-ministro de Cavaco Silva a contas com a justiça no «caso BPN».
Primeiro foi o ex-ministro das Finanças, Oliveira e Costa - entretanto preso e entretanto libertado; seguiu-se o ex-ministro da Administração Interna, Dias Loureiro - que tem vindo a revelar curiosos e oportunos sintomas de perda selectiva de memória; finalmente - até ver... - foi a vez de Arlindo Carvalho - que pela sua prestação na pasta da Saúde ficou conhecido por «Arlindo Coveiro».

É caso para reflectirmos sobre os critérios utilizados pelo então primeiro-ministro Cavaco Silva na escolha do seu elenco governamental.
Já se sabia que todos eles foram exímios executores da política de direita então chefiada por Cavaco e que tantos e tão graves golpes desferiu na democracia de Abril.
Agora, com o «caso BPN» ficamos a conhecer outras qualidades desses escolhidos.
(e sabe-se lá que outras facetas virão ainda a revelar!...)
Se a tudo isto juntarmos o facto de o nome do Chefe também ter aparecido ligado ao «caso BPN» - através de um rentável negócio de compra/venda de acções e de um generoso financiamento para a campanha eleitoral das presidenciais - é legítimo concluir que os critérios que presidiram à escolha dos ministros por Cavaco Silva assentavam, em primeiro lugar, na exigência de um inequívoco ódio à Revolução de Abril e, em segundo lugar, na exigência de inequívocas capacidades para a prática de burlas, fraudes, gatunices & golpaças...

Não se pense, no entanto, que o governo de Cavaco Silva foi uma excepção: se formos ver o que são, hoje, os ex-governantes de todos os governos dos últimos 33 anos, verificaremos que são, regra geral, ex-governantes muito bem governados...
Nem de outra forma podia ser, tratando-se de praticantes de uma política frontalmente contrária aos interesses e aos direitos dos trabalhadores, do povo e do País.

POEMA

RONDA DOS RÉPTEIS


Rastejam nas leitarias, rastejam entre os trapos
das lojas de fanqueiro, e nos cinemas, e nas conferências,
e nas faculdades, nas fábricas, nos comboios, no futebol, nas touradas,
rastejam, rastejam em toda a parte viscosos como sapos,
e abrem as bocas verdes com dentes verdes de excremências,
e cospem palavras torpes contra as janelas fechadas.

Rastejam nos cafés, nas livrarias e nos portos,
rastejam e envenenam as noites, rastejam e empeçonham os dias,
raivosos babam-se quando falamos, quando lemos,
e olham os vivos de olhos vidrados como mortos,
e rastejam nos hotéis, nas pensões, nas padarias
e mãos de lama tocam o pão que nós comemos.

E as bocas verdes e imundas bafejam, bafejam,
e as rosas fenecem, as rosas são mortas,
e os dedos de lama acusam no escuro,
e eles rastejam, rastejam, rastejam,
colados à sombra, colados às portas,
como cartazes de infâmia colados ao muro.


Sidónio Muralha

ISTO ANDA TUDO LIGADO...

O previsível Alberto Gonçalves - que todos os domingos enche de reacionarices cavernícolas uma página do prestimoso Diário de Notícias - escreveu ontem sobre o outro: o da Madeira.
Começando por fingir (mal e porcamente) que está em desacordo com a proposta de acabar com o PCP, acabou a argumentar que a única ideologia que, na situação actual, ameaça a democracia portuguesa é a ideologia comunista.
Portanto...

A título de curiosidade, recorde-se que este argumento de Alberto Gonçalves - exactamente assim formulado - foi utilizado durante décadas por Salazar - esse outro democrata cujos discursos o Diário de Notícias de então publicava na íntegra...

Não há dúvida: isto anda tudo ligado...

POEMA

ENTRA-ME EM CASA...


Entra-me em casa o dia.
Entra-me em casa noite.
Sntra-me em casa o vento.
Entra-me em casa só
quem eu gosto que entre.


Armindo Rodrigues