«O DIÁLOGO CONTINUA»

Prosseguem as «negociações» sobre as Honduras, mediadas pelo Presidente da Costa Rica, Oscar Arias.
As «negociações» são patrocinadas pelo Presidente Obama - «homem do diálogo» - e adivinham-se infindáveis... a não ser que o Presidente Manuel Zellaya vá na conversa de Obama e aceite um «casamento de conveniência» com os golpistas...

Ontem, os jornais falavam de uma «proposta» que tinha como eixo fundamental a «formação de um governo de união nacional, liderado por Zelaya, com Micheletti como primeiro-ministro e composto por ministros escolhidos por Micheletti»...

Hoje, as «negociações» continuam, na base de uma outra «proposta» - que inclui o regresso de Zelaya às Honduras até 24 de Julho (entre outras coisas menos boas...).
Sobre esta «proposta», os representantes de Micheletti disseram: «não há acordo em relação a nenhum dos pontos propostos por Arias» - e, também eles «homens do diálogo», apressaram-se a acrescentar: «mas o diálogo continua»...
Com isto querendo dizer que o «diálogo» continuará... eternamente...

Entretanto, enquanto este «diálogo continua», os EUA inciaram a sua retirada da base de Manta (Equador), depois de o Presidente Rafael Correia ter recusado renovar a licença para ali continuarem.
E foram fazer o inferno... perdão, o «diálogo», para outro lado: para a Colômbia, cujo governo do narcofascista Uribe, pôs à disposição de «800 militares norte-americanos, pelo prazo de dez anos», não uma, mas três bases...
Os amigos são para as ocasiões, não é verdade?...

E como era de esperar, na sequência da decisão de Rafael Correia de correr com a base norte-americana do seu país, logo os EUA e o seu aliado colombiano abriram outra frente de «diálogo»: ontem mesmo, a serviçal Colômbia «acusou o Presidente Rafael Correia de ter recebido dinheiro das FARC, nomeadamente para o financiamento da campanha eleitoral que o levou ao poder»...

É este, então, o «diálogo», graças ao qual - na América Latina como no Afeganistão, no Iraque e em todo o mundo - os EUA salvaguardam a paz, a democracia, a liberdade, os direitos humanos...

POEMA

ESTIO


Horizonte
todo de roda
caiado de sol.
Ao meio
do cerco gretado,
esguia cabeça de cobra
olha assobios de lume
sobre espigas amarelas...
(... Campaniços degredados
na vastidão das searas
sonham bilhas de água fria!...)


Manuel da Fonseca

resistir


São lobos de fome no xisto lascado na dor dos dias, os Pássaros assustados no olhar longiquo do horizonte dificil. Depois das Ceifas feitas, trabalho acabado, fome certa nos longos dias que sobram até nova empreitada. Esta é a fome operária dos homens da planicie. Calos certos nas mãos sem nada, escravas de outras maciezas de bolsos cheios. Manel ganhão, porta voz mandatado pelo rancho de 60 homens e 39 mulheres, vasculha as algibeiras buscando algum suporte para a tarefa que lhe legaram. Enfrentar o patrão – e nele o imenso latifundio roubado- pedindo a caridade de um pão para a ceia dos trabalhadores. Eles juntam-se no átrio cheio de boganvilias, onde um fio de água vigia a cal e o sono dos meninos ricos na brasa canicular do inferno dos ceifeiros. Há homens que lavam a testa e o suor do pescoço no tanque onde nadam alguns peixes, mais frescos que qualquer infância dos meninos homens que já levaram um carreiro na empreitada. E o senhor que não vem. Torreira do sol e um espaço que não dominam. Como um chão que não lhes pertence e que não conhecem, a gravilha morde-lhes os pés calejados onde o restolho já não bica. Demorará muito? Que sombra detêm ele que lhe guarde a pele frágil do abrasador suão que os fere de morte?


  • Sr engenhêro, o pessoal vem aqui pedir-lhe o favor de rancho melhorado, hoje que é o primeiro dia da empreitada. E que assim se mantenha até à última espiga derrubada. E mais uma migalhinha que dar aos muitos filhos, coitadinhos, que em casa choram com fome e não há mãe que os console.somos gente trabalhadora e honrada, que apenas quer matar a fome cada vez que arrasa uma seara.

  • Saiba você manel ganhão, homem honrado, que a hora não é de caridades, pois a honra não corta mais espigas que qualquer foice malina. Sabia o manel e todos os que aqui estão as normas com que acederam à empreitada. Elas se mantêm. E nenhum lavrador dos arredores lhes fará contrato melhor ou diferente. Também tenho filhos cá em casa. E vós não sabeis o que custa manter uma Casa destas.

  • Vossa senhoria permitirá: casa destas não sei, não senhor, que se esta tem sombra das belas flores no pátio, a de algum que aqui esteja, se pátio tem, o deve ao facto de telhado caído e meninos ao relento. Mas a empreitada é dura e o rancho escasso. Convirá vossa senhoria que homens melhor alimentados melhor cuidarão da sua empreitada.

  • Ora meu caro ganhão, é por vós pois que eu zelo. Empreitada mais rápida, mais dias de taverna e menos toucinho lá na casa. Vá, joguem-se ao trigo e no fim talvez me sobre um cartucho de moedas para distribuir pela malta.


Rodados os pés descalços, a planicie levantava ondas de calor lembrando aos homens as lágrimas dos filhos. Uma manhã perdida e menos essa no salário magro ainda apenas prometido. De onde agora a coragem, Sorvedora de todas as forças ainda não gastas mas prometidas? para amanhã está marcada a reunião com o camarada da bicicleta. virá com os avantes!, discutir com os trabalhadores da aldeia a alternativa de luta para o caso se desse de esta falhar. o sangue ferve junto das cigarras anunciando a luta. manel ganhão, na esperança posta na organização dos trabalhadores levanta a moda: «o pão que sobra à riqueza, distribuído pela razão, matava a fome à pobreza e ainda sobrava pão. » e a polifonia foi testemunha da vontade popular e operária. era a reminiscência da vitória que estava certa, ainda que distante!


POEMA

UNO


Não creias senão em ti e naquilo que te cerca.
Porque aquilo que te cerca és tu.
E, por mais que te pareça estranho e primitivo,
tu és apenas aquilo que te cerca.
Não creias senão em ti.
Bem sei que há: o eco das montanhas e o mistério das sombras.
Mas o que é o eco das montanhas senão a tua voz?
E o mistério das sombras mais que uma ausência de luz?
Bem sei que para além da ilusão do horizonte
há ainda mais coisas.
Mas não as creias diferentes e superiores a ti,
crê antes que são longe e, sobretudo, coisas como tu.
Não creias no não sei quê:
o não sei quê é sempre qualquer coisa.
O papão do oó das histórias de menino
era afinal um pobre inofensivo
ou uma velha vassoura atrás duma vidraça.
E a palavra do morto estendido no caixão
era apenas a ruptura duma artéria qualquer.
Os teus braços, tam curtos, estão na terra toda,
e a terra, tam pequena, está em todo o universo.
Não creias em existências para além ou para aquém.
Nem que tu estás aquém ou que tu estás além.

Tu que estás em toda a parte e tudo está em ti.


Mário Dionísio

JARDIM & JARDINS...

Jardim declarou que quer acabar com o PCP.
Espero que não se caia na tentação de ver tais declarações como «mais uma do Jardim», «mais uma do bêbedo, do boçal, do populista, etc»

Em primeiro lugar porque Jardim não é só isso: ele foi um indefectível apoiante do regime fascista no qual desempenhou funções importantes.
Em segundo lugar, porque tais opiniões de Jardim não são apenas dele: vimos como elas foram imediatamente secundadas por Lobo Xavier ou pelo editorialista do Diário de Notícias - e sabemos que gente a pensar o que Jardim pensa há por aí aos pontapés.
Em terceiro lugar, porque como é sabido, a Juventude Comunista foi proibida na República Checa há cerca de três anos e, na mesma altura, o Conselho da Europa esteve em vias de aprovar uma resolução geral no mesmo sentido - e já ameaçou voltar à carga.
Nestes casos, as coisas são postas assim: os partidos comunistas poderão existir se reformularem os seus programas, por exemplo: se deixarem de utilizar expressões que incitam à violência, como por exemplo «luta de classes»; se deixarem de ter como objectivo a conquista do poder e a construção de uma sociedade sem exploradores nem explorados...
Como se vê, é grande a generosidade democrática destes cavalheiros: os partidos comunistas podem existir se deixarem de ser comunistas e passarem a integrar o rebanho dos partidos do sistema dominante - ou, dito de outra forma: os partidos comunistas podem existir se... deixarem de ser comunistas.

E é bom, nestas circunstâncias, não esquecermos aquele poema que nos diz que «primeiro levaram os comunistas...» - porque é assim que sempre se instalam as ditaduras fascistas.
E é bom termos sempre presente que o anticomunismo é sempre antidemocrático - ou, dito de outra forma: que o ataque ao comunismo é sempre um ataque à democracia - como o exemplo de Jardim tão claramente nos mostra.

POEMA

LAST POEM
(ditado pelo poeta no dia da sua morte)


É talvez o último dia da minha vida.
Saudei o sol, levantando a mão direita.
Mas não o saudei, dizendo-lhe adeus.
Fiz sinal de gostar de o ver ainda, mais nada.


Alberto Caeiro

SOLIDARIEDADE

Multiplicam-se os sinais de que o imperialismo norte-americano pôs em movimento uma operação organizada visando liquidar oa processos democráticos em curso em vários países da América Latina.
Parece não haver dúvidas sobre o envolvimento do Governo dos EUA, desde o início, no golpe dos militares fascistas nas Honduras - e são evidentes os seus esforços para que os golpistas se mantenham no poder.
Ao mesmo tempo, acentuam-se as pressões (e mais sabe-se lá o quê...) sobre países como a Venezuela, a Nicarágua, a Bolívia, o Equador, o Paraguai...
Isto para não falar do criminoso embargo a Cuba e do financiamento aos homens de mão do Império no interior e no exterior da Ilha.

A atitude dos EUA sobre os acontecimentos das Honduras é bem elucidativa.
Sabe-se que, ao «apelo à insurreição» feito pelo Presidente Zelaya, as ruas da capital hondurenha voltaram a encher-se de povo - e que os manifestantes ocuparam e ergueram barricadas nos principais acessos a Tegucigalpa.

Ora, perante isto, logo o Governo dos EUA se apressou a pedir «a todos os intervenientes sociais e políticos das Honduras para encontrarem uma solução pacífica»... Pois...
E logo o Presidente Obama, «preocupado» com a situação, «aconselhou o Presidente Manuel Zelaya a ter paciência e a dar ao governo de Roberto micheletti uma oportunidade de diálogo»... Pois... a continuação do tal «diálogo» de inspiração obamista que muito tem contribuído para manter os golpistas no poder.

Paralelamente a tudo isto, um relatório do Congresso dos EUA, acusa a Venezuela (no relatório sintomaticamente designada por «o narco-estado venezuelano»...), de ser «o principal centro de distribuição de cocaína» - facto que, diz o relatório, exige «no mínimo uma revisão profunda da política dos EUA para com a Venezuela»...
A História da América Latina (e não só) está cheia de exemplos trágicos do que significam estas «revisões profundas»...

É bem possível que esta ofensiva imperialista se acentue nos tempos que aí vêm.
Que, por isso mesmo, serão tempos de luta para os povos latino-americanos.
Que, por isso mesmo, serão tempos de solidariedade de todos os povos do mundo com essa luta.

POEMA

PROBLEMA


A não ser
perante alguma decisiva opção,
como há-de alguém saber
se o que é o é integralmente ou não?


Armindo Rodrigues

LASTIMÁVEL CRIATURA

Repita-se a afirmação para avivar a memória: ««O que se está a passar em Tróia, no concelho de Grândola (CDU), é uma operação imobiliária de grande escala que coloca em causa, de facto, o interesse nacional».
Quem tal escreveu, como sabemos, foi o Coordenador Nacional Autárquico do BE, Pedro Soares. E fê-lo com a intenção óbvia de responsabilizar a CDU pelo «negócio» - não hesitando em mentir já que, como ele sabe, a Câmara de Grândola é de maioria PS e não CDU.
Aliás, não se trata apenas de uma mentira: trata-se, de facto, de uma mentira com intenção caluniadora e difamatória.

Entretanto, um dirigente do PCP, Jorge Cordeiro, em carta enviada ao JN, esclareceu a situação, repondo a verdade e remetendo a difamação do dirigente do BE para o devido destino.

Perante isto, esperava eu que Pedro Soares, no seu artigo de hoje no JN, dissesse qualquer coisa sobre o assunto: que se enganou, que fez confusão, quiçá pedir desculpa, sei lá...
Mas não: nem uma palavra!

Assim sendo, há que dizer - e aqui se diz - que o dirigente do BE é mentiroso, caluniador, difamador - e tudo o mais que apeteça chamar a tão lastimável criatura.

POEMA

CANÇÃO INFANTIL


Era um amieiro.
Depois uma azenha.
E junto
um ribeiro.

Tudo tão parado.
Que devia fazer?
Meti tudo no bolso
para os não perder.


Eugénio de Andrade

vizinhança de boa gente


abro a porta e a alegria pueril dos meus vizinhos meninos invade o meu dia nos carrinhos e nos bonecos amontoados pela lama. zureida, tito, michel e um rol sem fim de primos, sobrinhos, irmãos... tenra idade que me alcunhou de palhaço e me pergunta porque vivo sozinho. faz-lhes confusão a minha (aparente) solidão. mas logo esquecem as perguntas dificeis quando das minhas mãos - do palhaço que sempre nasce no soriso deles - saem balões enfeitados de objectos da sua imaginação. a zureida sempre quer flores e coroas de fadas. o tito pede-me cães e bichos que povoam o seu sentir e lhe fazem adivinhar um futuro junto da bicharada. quando me ponho a caminho do trabalho, fica a criançada dedicada a ser infância nas varinhas mágicas com que polvilham o burburinho da sua idade. ao regressar, se acaso ainda estão pela escola ou ausentes noutras alegrias, abro a janela da cozinha, antevendo a sua estridente chegada. lugar mais que marcado pela nossa cumplicidade, é ve-los debruçados, daí a nada, fazendo entrar a sua companhia... rachando o meu ser sozinho, ocupado com afazeres laborais ou domésticos. se preparo o jantar, pedem-me bolachas ou qualquer guloseima que sabem que lhe guardo. e lá ficam, aos magotes (às vezes apenas a zureida aparece, rosto iluminado pelo sorriso cigano e fácil) pendurados na minha janela, que assim se torna na mais bela do mundo. homenageiam as origens (que se calhar ainda ninguém lhes explicou) fazendo contorcionismos no corpo que mais tarde (talvez assombrados pela mesma solidão que me acusam) conhecerão como sendo primata e dolorosamente finito. às vezes confundem a minha vaidade, fazendo-me crer que o cozinhado cheira bem ou que gostam daqueles bocadinhos comigo. sei hoje que cheiram a flores, a searas vermelhas os seus cabelos de gente brava, criados que foram, que são, a amar a planicie de que são malteses. amantes profundos das entranhas. quando a mãe ou outra mulher lá de casa os chama para a janta, anoitece repentinamente na minha casa. amanhã haverá novamente a lama e os balões. o sorriso cumplice de me saberem um deles. na minha janela arderá novamente a planicie nos potros livres no seu riso. e eu, ainda que por vezes sozinho, sou feliz. obrigado vizinhança... de boa gente.

POEMA

ARTE POÉTICA


A poesia não está nas olheiras de Ofélia
nem no jardim dos lilases.

A poesia está na vida.
Nas artérias imensas cheias de gente em todos os sentidos,
nos ascensores constantes,
na bicha de automóveis rápidos, de todos os feitios e de todas as cores,
nas máquinas da fábrica
e nos operários da fábrica
e no fumo da fábrica.
A poesia está no grito do rapaz apregoando jornais,
no vai-vem de milhões de pessoas ou falando ou praguejando ou rindo.
Está no riso da loira da tabacaria,
vendendo um maço de tabaco e uma caixa de fósforos.
Está nos pulmões de aço cortando o espaço e o mar.
A poesia está na doca,
nos braços negros dos carregadores de carvão,
no beijo que se trocou no minuto entre o trabalho e o jantar
- e só durou esse minuto.
A poesia está em tudo quanto vive, em todo o movimento,
nas rodas dos comboios a caminho, a caminho, a caminho
de terras sempre mais longe,
nas mãos sem luvas que se estendem para seios sem véus,
na angústia da vida.

A poesia está na luta dos homens,
está nos olhos rasgados abertos para amanhã.


Mário Dionísio

IGUAL A SI PRÓPRIO

Manuel Alegre - sempre ele! - fez saber que a sua principal preocupação do momento é «impedir a direita de, nas próximas legislativas, concretizar o sonho de Sá Carneiro: um Governo, uma maioria, um presidente» - um «sonho» que, informa Alegre, «até hoje não foi concretizado».
Quer isto dizer que, para Alegre, o que é bom para a «esquerda» é votar no PS e manter a situação actual, ou seja: um presidente que se assume de direita e um Governo e uma maioria que, dizendo-se de esquerda e socialistas, praticam, de facto, uma política de direita - situação que, isto digo eu, não está nada longe da realização do «sonho de Sá Carneiro»...
Como é óbvio, esta «preocupação» de Alegre corresponde inteiramente aos desejos de Sócrates e da direcção do PS - que são, afinal, os desejos dele...

Depois, proclama, grandíloquo, que «é da responsabilidade da esquerda portuguesa, apesar das suas contradições e das suas divisões, impedir a concretização do sonho de Sá Carneiro».
Quer isto dizer que, para Alegre, «a esquerda portuguesa» deve votar em massa no PS... para derrotar «a direita» e assim, isto digo eu, permitir que um Governo PS prossiga a política de direita do actual Governo PS...

E tamanhas são as suas «preocupações» que até corrigiu o tiro em matéria de apelo ao voto do eleitorado do PS descontente com a política do Governo de Sócrates: como estamos lembrados, no comício Alegre/BE, no Teatro da Trindade, ele apelou a esses descontentes para votarem BE (ou, mais rigorosamente: para não votarem CDU); agora apela «ao eleitorado que se zangou com o Governo» para votar... no Governo e na política de direita por este praticada...

Trata-se, então, do esperado re-alinhamento de Alegre com o PS, o Governo PS e a política de direita por esta praticada - dos quais fingiu demarcar-se a dada altura... para dar mais força ao apoio que agora lhes dá...

E, ainda em postura de malabarista sem rede - e recorrendo a um estribilho que de tanto usado bem poderia ser considerado lema da sua vida - proclamou que «não recebe lições de ninguém, nem de António Vitorino nem de nenhum membro desta direcção do PS» - declaração altissonante com a qual esconde o facto, bem concreto, de apelar ao voto nesses de quem finge ser adversário e e quem diz «não receber lições»...

Enfim, é Manuel Alegre igual a si próprio: pantomineiro, hipócrita, aldrabão, sem-vergonha.
É Manuel Alegre na sua plenitude, a cumprir a sua missão de seguro de vida de esquerda do PS - missão que muito tem contribuído para que o PS da contra-revolução de Abril e da política de direita seja ainda visto por alguns incautos ou distraídos como um partido de esquerda...

POEMA

A CRIANÇA


Aberta, discreta
ou desatenta
é como o poeta:
não mente, inventa.


Luís Veiga Leitão

O PORMENOR

Chama-se Pedro Soares, é membro da Comissão Política e Coordenador Nacional Autárquico do Bloco de Esquerda. Para além disso, «escreve no JN, semanalmente, à quinta-feira».

Na última quinta-feira, ocupou o seu lugar cativo no JN com um texto intitulado «A Lei de Tróia», no qual a dada altura escreve:
«O que se está a passar em Tróia, no Concelho de Grândola (CDU), é uma operação imobiliária de grande escala que coloca em causa, de facto, o interesse nacional».
Registe-se o «pormenor» que são aquelas simples três letras entre parêntesis e os objectivos de quem as escreveu...

Isto porque, como sabe qualquer cidadão medianamente informado, a força autárquica maioritária no Concelho de Grândola é, não a CDU, mas o PS - para mal dos munícipes grandolenses, diga-se.
E assim sendo, de duas uma: ou o Coordenador Nacional Autárquico do BE ignora o que qualquer cidadão medianamente informado sabe; ou, sabendo a verdade, optou pela mentira, na linha da tradicional prática eleitoralista do BE, caracterizada por um desavergonhado vale-tudo.

Num caso ou noutro, o que não oferece dúvidas é que Pedro Soares está onde deve estar:
no BE, como membro da Comissão Política e no JN, como escriba semanal...

POEMA

(Mais uma definição de poeta num carro
eléctrico para Almirante Reis.)


Poeta o que é?
Um homem que leva
o facho da treva
no fundo da mina
- mas apenas vê
o que não ilumina.


José Gomes Ferreira

A LUTA CONTINUA!

As equipas da TeleSUR e da VTV (Venezoelana de Televisión) foram expulsas das Honduras.
Os jornalistas das duas cadeias de televisão foram presos na noite de sábado e posteriormente obrigados a abandonar o país.
Para os média internacionais - que têm silenciado e manipulado desavergonhadamente os acontecimentos das Honduras - também esta notícia não é... notícia.
Na verdade, a expulsão da TeleSUR e da VTV é uma medida que se integra no conceito de liberdade de informação dominante, que consiste em só informar o que ao grande capital internacional interessar - e a esse grande capital não interessava, obviamente, a informação verdadeira que aquelas duas televisões asseguravam.

Entretanto, prosseguem as tais «negociações» com os golpistas, apadrinhadas pelo governo de Obama - «negociações» que, cada vez mais, se revelam como uma forma de manter os golpistas no poder... ou não fossem elas inspiradas por quem são...

Os jornais de hoje anunciam que «o recolher obrigatório foi levantado» e que «a situação no país está calma»...

Mas a verdade é que, «em Tegucigalpa prosseguem as manifestações populares exigindo o regresso do Presidente Manuel Zelaya».
Ou seja: A LUTA CONTINUA!

POEMA

VIAGEM


I

Capitão, aqui estou.

Comigo, a bagagem:
No saco de marujo trago um naco de pão
dentro do peito a ânsia da viagem.

II

Venho de longe, sabes, de tão longe
de países que não existem nos mapas.
Percorri rotas, cortei a nado os mares mais temerosos
e cheguei
cansada e desperta da viagem.

Aqui estou
inteira.

Na intimidade do chão, da comida saboreada,
porque não é apenas comida
mas um pretexto para fazer gestos em comum
Para sentir o prazer de os repetir - os repartir

Até quando...
prefiro não pensar

Por agora
fico-me
no imenso prazer de partilhar.

III

Lá fora
no frio da noite sei que a lua nasceu
sei que no cais há barcos que esperam
e gente, como nós, a aguardar a hora impossível da partida.


Maria Eugénia Cunhal

ESCALRACHOS DA DEMOCRACIA

A Irlanda vai repetir, em Outubro, o referendo sobre o tratado porreiro, pá.
E as inevitáveis sondagens garantem já a vitória folgada do «sim».
Trata-se, obviamente, de sondagens encomendadas e que têm o objectivo essencial de influenciar o voto dos eleitores e de os levar, agora, a votar a favor do que
antes rejeitaram.
Veremos, em Outubro, se será «sim» ou «não»...


Seja como for, para os operacionais que levam por diante a construção desta União Europeia do grande capital, a aprovação é um caso arrumado. E farão o que necessário for nesse sentido.
Em matéria de referendos, a orientação está definida há muito: quando, por ocasião do tratado de Maastricht, o eleitorado dinamarquês votou «não», o então presidente da Comissão Europeia, Jacques Delors, disse como era: «Far-se-ão tantos referendos quantos os necessários até o «sim» ganhar»...
Este conceito de Delors foi depois aperfeiçoado com o tratado porreiro, pá: face à perspectiva de o tratado vir a ser rejeitado pelos povos, os operacionais decidiram que não há referendo para ninguém...
Como se vê, para estes operacionais, a democracia só é democracia se servir os interesses dos seus patrões - e para isso, e só para isso, eles e ela existem.

O «não» da Irlanda é apenas uma pedrinha na engrenagem. Uma pedrinha que os operacionais removerão... custe o que custar, a bem ou a mal, com referendo ou sem ele - mas sempre, sempre, em nome da democracia...
Assim agem, assim funcionam, assim nos insultam, assim nos lixam, estes escalrachos da democracia.

POEMA

POEMA


Façam-se os alicerces da cidade do futuro
nas rotas que a metralha vai abrindo!
Erga-se a nova Torre de Babel dos homens
com os destroços deste mundo velho!
Que se confundam, numa só, as línguas,
como, na podridão, se confundiram
os cadáveres daqueles que vestiam
uniformes diferentes!
Que continue calma e silenciosa
a Terra de Ninguém,
por ser a Terra de Todos!

Irmão, se o sacrifício se consuma,
Irmão, que o sacrifício se aproveite!


Álvaro Feijó

QUE GRANDE CAMBADA!

Esta semana, a revista Visão oferece cinco páginas de publicidade ao BE.
Trata-se de uma oferta de vulto - com a enorme vantagem de não entrar nas contas da campanha eleitoral e de, assim, não estar sujeita à tal lei de financiamento dos partidos...

Cinco páginas de publicidade é obra!
Nelas, os publicitários de serviço propõem a cada leitor ... a compra do BE, do seu programa eleitoral e dos seus líderes - tudo ao preço de um simples voto nas legislativas.
É possível, até, que os primeiros compradores do pacote triplo tenham direito a prémios especiais: uma fotografia autografada do líder máximo; ou duas fotografias autografadas dos lideres mínimos; ou, quem sabe?, uma fotografia do responsável/BE pela área dos trabalhadores a brindar com o ex-ministro Pinho, autografada pelos dois brindantes...

O trabalho destes publicitários de serviço é notável: nada é esquecido na sua mensagem publicitária.
É assim que, após a glorificação do BE, a coroação do seu programa eleitoral e a beatificação dos seus líderes - e num derradeiro incentivo aos leitores para que comprem o pacote triplo - os publicitários da Visão procedem a um feérico exercício de futurologia condicionada: recorrendo ao todo-poderoso SE que tem vindo a ser utilizado pelos seus colegas de outros média (designadamente do Sol e do Público), eles garantem que «o BE poderá facilmente duplicar os seus deputados no Parlamento SE...» - isto é: SE cada leitor da Visão (e do Sol e do Público...) comprar o pacote triplo. Ao preço de apenas um voto...

Que grande cambada!

POEMA

LEGENDA PARA A VIDA DE UM VAGABUNDO


Nasci vagabundo em qualquer país,
minhas fronteiras são as do mundo.
Esta sina vem-me no sangue:
não me fartar! Um desejo morto,
mais dez a matar.

O caminho é longo!...
- Mas nada é longe e distante
quando se quer realmente...
E nunca o cansaço é tão grande
que um passo mais se não possa dar.


Joaquim Namorado

HONDURAS: A LUTA CONTINUA!

A Venezuela é um daqueles países que está todos os dias nos jornais portugueses. Não para informar os leitores sobre o que ali se passa, mas precisamente com o objectivo contrário: desinformar, manipular, mistificar.
Basta um adversário de Hugo Chávez soltar um pio e é certo e sabido que tal pio, devidamente ampliado e ornamentado com efeitos especiais, tem honras de destaque nos média lusitanos.
Hoje, o Diário de Notícias grita-nos a pungente estória de um «autarca de Caracas há seis dias em greve da fome contra Chávez» - e lá está, em grande plano, a fotografia do autarca, deitado sobre um colchão, ao ar livre, numa rua (ou praça) da capital venezuelana.
Já não me recordo de quais são as razões do protesto, mas hão-de ter a ver, certamente, com qualquer «crime horroroso» cometido pelo Presidente Chávez, já que, como nos dizem todos os dias os média portugueses, Chávez é um tirano, um ditador, um facínora...

Na mesma página, muito discretamente como convém, o DN fala-nos das Honduras.
Para nos informar sobre o que lá se passa?
Não: para nos desinformar sobre o que lá se passa.
Com efeito, a finalizar um texto em que fala sobre personalidades e instâncias internacionais que condenam o golpe, o DN, em jeito de conclusão, escreve:
«Zelaya tem recolhido amplo apoio internacional. Por seu lado, Micheletti conta com apoio interno».
Assim se percebe por que é que o DN tem silenciado as gigantescas manifestações que, desde o golpe, o povo hondurenho tem vindo a realizar...
Assim se desinforma. Assim se manipula. Assim se mistifica.

Entretanto - informa hoje a TeleSur - a luta do povo das honduras continua: milhares de pessoas continuam a manifestar-se nas ruas, apoiando e exigindo o regresso do seu legítimo Presidente.
Mas esta é uma informação só possível vinda de órgãos de informação dignos - coisa que o DN e os seus pares portugueses não são;
que honram o dever e o direito de informar - coisa que o DN e os seus pares portugueses não sabem o que é;
que respeitam a inteligência e os direitos dos seus leitores - coisa que o DN e os seus pares portugueses desprezam;
que escrevem e divulgam a verdade - coisa que o DN e os seus pares portugueses abominam.

POEMA

VITÓRIA!


Derrotado, ao assalto voltei,
minhas feridas sarei
e tornei;
de novo batido fui,
mas no combate o braço armei,
com força maior
tornei;
as lutas eram tam grandes,
novo desastre encontrei
- feito em pedaços meu corpo,
ainda forças busquei...

Cem vezes ao combate
parti.
E por fim,
o que queria consegui.


Joaquim Namorado

NÃO FALHAM UMA...

As grandes notícias do momento - isto é: as notícias que fazem as delícias dos jornais portugueses - são, destacadamente, em primeiro lugar a morte e o funeral de Michael Jackson e, logo a seguir, a apresentação de Cristiano Ronaldo aos sócios do Real Madrid.
Primeiras páginas, complementadas por páginas e páginas interiores, fazem da morte de um e da vida do outro os acontecimentos mais relevantes do planeta.

Num segundo plano - mas obedecendo aos mesmos critérios informativos - surge a disputa entre Pinto da Costa e Carolina Salgado, acontecimento maior da vida nacional, cujo desfecho é aguardado com natural expectativa. Quem deu umas lambadas a quem?: eis a questão. O tribunal decidirá.

Bem classificadas - como é da praxe - estão também as notícias sobre o BE.
Como é da praxe, são muitas e boas - tão boas que pode dizer-se que cada uma delas é um autêntico panfleto de propaganda eleitoral...

Mais abaixo no ranking, mas bem posicionada, está a polémica Manuel Alegre/Elisa Ferreira/Ana Gomes a propósito das duplas candidaturas: o poeta criticou as colegas e elas vieram a terreiro negar-lhe autoridade moral para a crítica, já que, dizem, também ele, quando se candidatou à presidência da República não abdicou do cargo de deputado. Toma!
Aguarda-se, agora, a réplica do visado que, muito provavelmente, guardará uns dias de silêncio de modo a que os jornais vão informando sobre esse silêncio...
Mas a coisa promete, tanto mais que, como se sabe, os média têm um fraquinho por Alegre: pelos seus tabús, pelos seus espirros, pelas suas tossidelas, quiçá pelas suas humaníssimas expulsões de gases...

Finalmente, mesmo lá no fundo dos fundos do ranking (ao lado das notícias sobre o PCP) - e sem hipótese de alguma vez vir a ser notícia, a não ser que... - está tudo o que diz respeito ao golpe de estado das Honduras.
É claro que neste caso, tudo é nada. Ou quase.


O que mais admiro nestes critérios informativos dos média do grande capital é o seu rigor cirúrgico: não falham uma...

POEMA

(A Eterna Criança que me persegue a
pedir esmola. Grito de cólera.)


Ouve, Não-sei-quem:

recuso-me a viver
num mundo assim de lua podre
disfarçado de flores
com repetições de esqueletos
e a Eterna Voz Faminta
aqui na minha frente
- pálida de existir!

Ouve, Não.sei-quem:

e se, depois de tudo isto,
ainda há céu e inferno
ou outra sombra intermédia,
recuso-me terminantemente a morrer
e a entrar nessa comédia!


José Gomes Ferreira

TUDO CERTO

No sábado passado, 45 - convivas - 45, amigos e admiradores de Manuel Pinho, juntaram-se e jantaram com o ex-ministro.
Tratou-se de uma manifestação de solidariedade e de apreço pela acção desenvolvida pelo homenageado na pasta da economia - e de pesar pela sua substituição no cargo.
O prato principal foi, muito apropriadamente, uma paella que é, como se sabe, um prato típico da gastronomia espanhola, olé!

Entre os 45 - convivas - 45, encontrava-se António Chora, presidente da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, cargo que tem vindo a desempenhar sob estrondosos, sinceros e merecidos aplausos por parte dos média propriedade do grande capital.
Chora ficou sentado em merecido lugar de honra: precisamente ao lado do homenageado.
Às tantas, o «Walesa português» - como há já quem chame a este destacado quadro do BE - usou da palavra e explicou as razões da sua presença no repasto.
Não sei se em seu nome individual se em nome dos trabalhadores que representa, Chora informou que estava ali «para agradecer todos os esforços que Manuel Pinho fez para manter a Autoeuropa em Portugal» - após o que, estendendo a todo o País a sua análise à prestação do ex-ministro Pinho, proclamou:
«O ministro fez muito pela indústria do País».

Comentários para quê?
Chora foi, mais uma vez, o homem certo, no lugar certo, no momento certo, com o discurso certo...
Tudo certo, portanto.

POEMA

TRÊS QUADRAS


P'ra provocar ódio e ira
ao cinismo e à vaidade,
cuspo na face à mentira,
beijando os pés à verdade.

Porque a mentira te agrade
não me deves obrigar
a ocultar a verdade
e a mentir p'ra te agradar.

Finges não ver a verdade,
porque, afinal, compreendes
que, atrás dessa ingenuidade,
tens tudo quanto pretendes.


António Aleixo

NAS HONDURAS A LUTA CONTINUA

A situação nas Honduras continua a não merecer especial atenção por parte dos jornais portugueses.
Nada de primeiras páginas: apenas pequenas notícias em páginas interiores - e mesmo essas não conseguindo esconder as suas simpatias pelos golpistas.

A TeleSur tem vindo a transmitir, em directo, imagens da multidão que, desde ontem, marcha pacificamente na direcção da base onde, previsivelmente, aterrará hoje o avião transportando o Presidente Manuel Zelaya e, entre outros, os presidentes do Equador, Argentina e Paraguai.
Tal acontecimento, em princípio, deveria ser «notícia», ou até A NOTÍCIA: que diabo, não é todos os dias que se assiste a uma coisa destas (creio, mesmo, que se trata de um acontecimento inédito).
Pois sobre essa marcha, nem uma palavra nos jornais de hoje: o Público - deliciado e cheio de esperança - dedica uma coluna de uma página interior ao apoio explícito dado pela Igreja Católica hondurenha ao golpe e aos golpistas; o DN destaca «a atitude de desafio», «o gesto nunca antes visto», de o governo golpista ter anunciado a sua saída da OEA.
Quanto aos comentadores e analistas de serviço, continuam sem produzir comentários ou análises - certamente à espera de ver em que param as modas...

Da repressão, das prisões, dos mortos... os jornais portugueses não têm notícia...
Também a situação dos média nas Honduras parece não incomodar os seus gémeos portugueses. Isto apesar de a liberdade de informação - mesmo a formal.. - ter sido mandada às urtigas e de continuar a divulgação das «justificações» do golpe e dos horrores que o golpe evitou - e de entre esses horrores, os média hondurenhos sublinham o pior de todos eles: a chegada dos «comunistas a comer criancinhas», se o referendo se tivesse realizado...

Mas o DN não dorme e - certamente após aturada investigação... - descobriu quem é O RESPONSÁVEL por tudo o que de mau está a acontecer nas Honduras.
Sabem quem é o vilão?; sabem quem é a «personagem central desta trama política»?
Adivinharam: é Hugo Chávez...

Entretanto, e é isso que conta, o povo hondurenho está na rua: em massa e determinado.
Entretanto, e esse é um dado relevante, cresce a solidariedade internacional com a luta do povo das Honduras.

Entretanto, sublinho a condenação do golpe por parte do PCP e, muito especialmente, o «alerta para eventuais manobras que, a coberto da condenação formal do golpe de Estado, pretendam legitimar os objectivos deste acto anticonstitucional».

POEMA

VENTO NO ROSTO


À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.


António Gedeão

UMA FRASE, DEZOITO PALAVRAS...

A ofensiva ideológica do capitalismo cavalgou desenfreadamente a derrota do socialismo, particularmente após o desaparecimento da URSS.
Desde então, uma poderosa campanha - elaborada pelos produtores de ideologia do grande capital e amplamente difundida pelos média dominantes - varreu o mundo, propagando a diabolização do comunismo e a santificação do capitalismo - e adaptando o essencial dessa ideia a cada situação em cada país.

Foi assim que, em relação ao processo em curso na Venezuela - processo que está longe de ter como objectivo a construção de uma sociedade comunista, mas que assume um carácter revolucionário e uma inequívoca postura anti-imperialista - essa ofensiva, sempre partindo da sua base anti-comunista, cedo definiu as suas grandes linhas e cedo as divulgou massivamente por todo o planeta.
Em uníssono, repetidamente e em todo o mundo, os média dominantes difundiram uma imagem do Presidente Chávez que o mostrava como um «populista» que «despreza a democracia», que tem a «ambição de se eternizar no poder», que «não aceita a liberdade de informação», etc, etc.
Exemplos do que que diziam, não davam - a mentira afirmava-se como verdade pela sua repetição exaustiva.

E tão ampla, intensa e repetidamente divulgaram essa imagem que ela acabou por se instalar, como coisa real, na generalidade dos, regra geral desprevenidos, consumidores de comunicação social.
Até, mesmo, em boa gente - boa gente que, apesar de o ser, não se atreve a duvidar de uma «informação» que lhe chega todos os dias, não apenas através de um ou outro jornal, rádio ou televisão, mas através de todos os jornais, de todas as rádios, de todas as televisões.

Então, a partir do momento em que essa imagem do Presidente Chávez, por eles congeminada e difundida, passou a «verdadeira», a ofensiva entrou em velocidade de cruzeiro, isto é: basta uma breve alusão às mentiras difundidas para que a generalidade das pessoas as entenda como se de verdades se tratasse.

Um exemplo:
José António Lima - ex-esquerdista de «morte ao capitalismo!» e actual sub-director do Sol e propagandista de «viva o capitalismo!» - a dado momento de um texto já não sei sobre que assunto, disparou assim:
«Chávez vê a democracia como a eternização no poder e empenha-se em fechar televisões e silenciar vozes incómodas».
E eis como, numa simples frase de 18 palavras, atirada de passagem, se resume o essencial das patranhas que, durante anos - em extensos textos, em longas notícias, em desenvolvidas reportagens... - foram repetidas tantas vezes quantas as necessárias para serem aceites como verdades...

É claro que José António Lima sabe que está a falsear a realidade; sabe que, na Venezuela, a democracia económica, política, social, cultural, participativa, é um milhão de vezes mais democrática do que a existente em Portugal.
Sabe até que, na Venezuela existem jornais como o Sol e que, como o Sol, cumprem a sagrada missão que o Sol aqui cumpre: «informar» de acordo com os exclusivos interesses do grande capital que é o seu dono.
Mas sabe também - e isso é que os patrões dele não suportam - que na Venezuela há vários jornais (e rádios e televisões) que não são propriedade do grande capital.

Ora, o que ele queria - e por isso escreve o que escreve - é que a liberdade de informação na Venezuela fosse como é cá...

POEMA

LIMITAÇÃO


O humano destino fê-lo homem.
Àparte esse, não há nenhum destino.


Armindo Rodrigues

ESTAREI ERRADO?

Decididamente, o golpe militar reaccionário das Honduras não é «notícia» para os jornais portugueses.
Bem pelo contrário, ele tem sido objecto de cirúrgico silenciamento, de cuidada filtragem noticiosa, de desbragada manipulação e desinformação - tudo na base da «conclusão» arrematada por todos os jornais de que o golpe foi legal porque o referendo era ilegal...

Desta vez, não há fotografias espectaculares de multidões nas ruas - nem sei, mesmo, se algum jornal publicou alguma fotografia mostrando as poderosas manifestações de protesto dos hondurenhos e a brutal repressão praticada pelas forças golpistas.
Desta vez, não há as grandes parangonas sobre o silenciamento dos jornais, rádios e televisões.
Desta vez, não há primeiras páginas bombásticas e as notícias são remetidas para páginas interiores - e, mesmo aí, reduzidas a escassas linhas.
Desta vez, nem o acontecimento internacional que foi a condenação do golpe pela ONU e pela OEA, levou estes órgãos ditos de informação a aliviar, um pouco que fosse, a cerrada ofensiva desinformativa.
Desta vez, nem o anunciado regresso às Honduras, na próxima quinta-feira, do Presidente Manuel Zelaya - acompanhado solidariamente pela Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pelo Presidente do Equador, Rafael Correia e pelo Presidente da OEA - alterou, minimamente que fosse, os «critérios» dos referidos jornais em matéria de destaques informativos.

Por que será? - pergunto.
E respondo: a meu ver, esta postura dos jornais portugueses face ao reaccionário e antidemocrático golpe militar, prende-se com o facto de o referido golpe ser visto pelos referidos jornais com bons olhos, com muita simpatia e com muitos votos de sucesso.
Estarei errado?