POEMA

(A Eterna Criança que me persegue a
pedir esmola. Grito de cólera.)


Ouve, Não-sei-quem:

recuso-me a viver
num mundo assim de lua podre
disfarçado de flores
com repetições de esqueletos
e a Eterna Voz Faminta
aqui na minha frente
- pálida de existir!

Ouve, Não.sei-quem:

e se, depois de tudo isto,
ainda há céu e inferno
ou outra sombra intermédia,
recuso-me terminantemente a morrer
e a entrar nessa comédia!


José Gomes Ferreira

TUDO CERTO

No sábado passado, 45 - convivas - 45, amigos e admiradores de Manuel Pinho, juntaram-se e jantaram com o ex-ministro.
Tratou-se de uma manifestação de solidariedade e de apreço pela acção desenvolvida pelo homenageado na pasta da economia - e de pesar pela sua substituição no cargo.
O prato principal foi, muito apropriadamente, uma paella que é, como se sabe, um prato típico da gastronomia espanhola, olé!

Entre os 45 - convivas - 45, encontrava-se António Chora, presidente da Comissão de Trabalhadores da Autoeuropa, cargo que tem vindo a desempenhar sob estrondosos, sinceros e merecidos aplausos por parte dos média propriedade do grande capital.
Chora ficou sentado em merecido lugar de honra: precisamente ao lado do homenageado.
Às tantas, o «Walesa português» - como há já quem chame a este destacado quadro do BE - usou da palavra e explicou as razões da sua presença no repasto.
Não sei se em seu nome individual se em nome dos trabalhadores que representa, Chora informou que estava ali «para agradecer todos os esforços que Manuel Pinho fez para manter a Autoeuropa em Portugal» - após o que, estendendo a todo o País a sua análise à prestação do ex-ministro Pinho, proclamou:
«O ministro fez muito pela indústria do País».

Comentários para quê?
Chora foi, mais uma vez, o homem certo, no lugar certo, no momento certo, com o discurso certo...
Tudo certo, portanto.

POEMA

TRÊS QUADRAS


P'ra provocar ódio e ira
ao cinismo e à vaidade,
cuspo na face à mentira,
beijando os pés à verdade.

Porque a mentira te agrade
não me deves obrigar
a ocultar a verdade
e a mentir p'ra te agradar.

Finges não ver a verdade,
porque, afinal, compreendes
que, atrás dessa ingenuidade,
tens tudo quanto pretendes.


António Aleixo

NAS HONDURAS A LUTA CONTINUA

A situação nas Honduras continua a não merecer especial atenção por parte dos jornais portugueses.
Nada de primeiras páginas: apenas pequenas notícias em páginas interiores - e mesmo essas não conseguindo esconder as suas simpatias pelos golpistas.

A TeleSur tem vindo a transmitir, em directo, imagens da multidão que, desde ontem, marcha pacificamente na direcção da base onde, previsivelmente, aterrará hoje o avião transportando o Presidente Manuel Zelaya e, entre outros, os presidentes do Equador, Argentina e Paraguai.
Tal acontecimento, em princípio, deveria ser «notícia», ou até A NOTÍCIA: que diabo, não é todos os dias que se assiste a uma coisa destas (creio, mesmo, que se trata de um acontecimento inédito).
Pois sobre essa marcha, nem uma palavra nos jornais de hoje: o Público - deliciado e cheio de esperança - dedica uma coluna de uma página interior ao apoio explícito dado pela Igreja Católica hondurenha ao golpe e aos golpistas; o DN destaca «a atitude de desafio», «o gesto nunca antes visto», de o governo golpista ter anunciado a sua saída da OEA.
Quanto aos comentadores e analistas de serviço, continuam sem produzir comentários ou análises - certamente à espera de ver em que param as modas...

Da repressão, das prisões, dos mortos... os jornais portugueses não têm notícia...
Também a situação dos média nas Honduras parece não incomodar os seus gémeos portugueses. Isto apesar de a liberdade de informação - mesmo a formal.. - ter sido mandada às urtigas e de continuar a divulgação das «justificações» do golpe e dos horrores que o golpe evitou - e de entre esses horrores, os média hondurenhos sublinham o pior de todos eles: a chegada dos «comunistas a comer criancinhas», se o referendo se tivesse realizado...

Mas o DN não dorme e - certamente após aturada investigação... - descobriu quem é O RESPONSÁVEL por tudo o que de mau está a acontecer nas Honduras.
Sabem quem é o vilão?; sabem quem é a «personagem central desta trama política»?
Adivinharam: é Hugo Chávez...

Entretanto, e é isso que conta, o povo hondurenho está na rua: em massa e determinado.
Entretanto, e esse é um dado relevante, cresce a solidariedade internacional com a luta do povo das Honduras.

Entretanto, sublinho a condenação do golpe por parte do PCP e, muito especialmente, o «alerta para eventuais manobras que, a coberto da condenação formal do golpe de Estado, pretendam legitimar os objectivos deste acto anticonstitucional».

POEMA

VENTO NO ROSTO


À hora em que as tardes descem,
noite aspergindo nos ares,
as coisas familiares
noutras formas acontecem.

As arestas emudecem.
Abrem-se flores nos olhares.
Em perspectivas lunares
lixo e pedras resplandecem.

Silêncios, perfis de lagos,
escorrem cortinas de afagos,
malhas tecidas de engodos.

Apetece acreditar,
ter esperanças, confiar,
amar a tudo e a todos.


António Gedeão

UMA FRASE, DEZOITO PALAVRAS...

A ofensiva ideológica do capitalismo cavalgou desenfreadamente a derrota do socialismo, particularmente após o desaparecimento da URSS.
Desde então, uma poderosa campanha - elaborada pelos produtores de ideologia do grande capital e amplamente difundida pelos média dominantes - varreu o mundo, propagando a diabolização do comunismo e a santificação do capitalismo - e adaptando o essencial dessa ideia a cada situação em cada país.

Foi assim que, em relação ao processo em curso na Venezuela - processo que está longe de ter como objectivo a construção de uma sociedade comunista, mas que assume um carácter revolucionário e uma inequívoca postura anti-imperialista - essa ofensiva, sempre partindo da sua base anti-comunista, cedo definiu as suas grandes linhas e cedo as divulgou massivamente por todo o planeta.
Em uníssono, repetidamente e em todo o mundo, os média dominantes difundiram uma imagem do Presidente Chávez que o mostrava como um «populista» que «despreza a democracia», que tem a «ambição de se eternizar no poder», que «não aceita a liberdade de informação», etc, etc.
Exemplos do que que diziam, não davam - a mentira afirmava-se como verdade pela sua repetição exaustiva.

E tão ampla, intensa e repetidamente divulgaram essa imagem que ela acabou por se instalar, como coisa real, na generalidade dos, regra geral desprevenidos, consumidores de comunicação social.
Até, mesmo, em boa gente - boa gente que, apesar de o ser, não se atreve a duvidar de uma «informação» que lhe chega todos os dias, não apenas através de um ou outro jornal, rádio ou televisão, mas através de todos os jornais, de todas as rádios, de todas as televisões.

Então, a partir do momento em que essa imagem do Presidente Chávez, por eles congeminada e difundida, passou a «verdadeira», a ofensiva entrou em velocidade de cruzeiro, isto é: basta uma breve alusão às mentiras difundidas para que a generalidade das pessoas as entenda como se de verdades se tratasse.

Um exemplo:
José António Lima - ex-esquerdista de «morte ao capitalismo!» e actual sub-director do Sol e propagandista de «viva o capitalismo!» - a dado momento de um texto já não sei sobre que assunto, disparou assim:
«Chávez vê a democracia como a eternização no poder e empenha-se em fechar televisões e silenciar vozes incómodas».
E eis como, numa simples frase de 18 palavras, atirada de passagem, se resume o essencial das patranhas que, durante anos - em extensos textos, em longas notícias, em desenvolvidas reportagens... - foram repetidas tantas vezes quantas as necessárias para serem aceites como verdades...

É claro que José António Lima sabe que está a falsear a realidade; sabe que, na Venezuela, a democracia económica, política, social, cultural, participativa, é um milhão de vezes mais democrática do que a existente em Portugal.
Sabe até que, na Venezuela existem jornais como o Sol e que, como o Sol, cumprem a sagrada missão que o Sol aqui cumpre: «informar» de acordo com os exclusivos interesses do grande capital que é o seu dono.
Mas sabe também - e isso é que os patrões dele não suportam - que na Venezuela há vários jornais (e rádios e televisões) que não são propriedade do grande capital.

Ora, o que ele queria - e por isso escreve o que escreve - é que a liberdade de informação na Venezuela fosse como é cá...

POEMA

LIMITAÇÃO


O humano destino fê-lo homem.
Àparte esse, não há nenhum destino.


Armindo Rodrigues

ESTAREI ERRADO?

Decididamente, o golpe militar reaccionário das Honduras não é «notícia» para os jornais portugueses.
Bem pelo contrário, ele tem sido objecto de cirúrgico silenciamento, de cuidada filtragem noticiosa, de desbragada manipulação e desinformação - tudo na base da «conclusão» arrematada por todos os jornais de que o golpe foi legal porque o referendo era ilegal...

Desta vez, não há fotografias espectaculares de multidões nas ruas - nem sei, mesmo, se algum jornal publicou alguma fotografia mostrando as poderosas manifestações de protesto dos hondurenhos e a brutal repressão praticada pelas forças golpistas.
Desta vez, não há as grandes parangonas sobre o silenciamento dos jornais, rádios e televisões.
Desta vez, não há primeiras páginas bombásticas e as notícias são remetidas para páginas interiores - e, mesmo aí, reduzidas a escassas linhas.
Desta vez, nem o acontecimento internacional que foi a condenação do golpe pela ONU e pela OEA, levou estes órgãos ditos de informação a aliviar, um pouco que fosse, a cerrada ofensiva desinformativa.
Desta vez, nem o anunciado regresso às Honduras, na próxima quinta-feira, do Presidente Manuel Zelaya - acompanhado solidariamente pela Presidente da Argentina, Cristina Kirchner, pelo Presidente do Equador, Rafael Correia e pelo Presidente da OEA - alterou, minimamente que fosse, os «critérios» dos referidos jornais em matéria de destaques informativos.

Por que será? - pergunto.
E respondo: a meu ver, esta postura dos jornais portugueses face ao reaccionário e antidemocrático golpe militar, prende-se com o facto de o referido golpe ser visto pelos referidos jornais com bons olhos, com muita simpatia e com muitos votos de sucesso.
Estarei errado?

POEMA

POSIÇÃO DE GUERRA


Crescem em mim milhões de punhos
cerrados,
bandeiras desfraldadas,
horizontes.
Soam em mim milhões de brados
resolutos,
protestos brutos,
queixumes.
Abrem-se em mim milhões de chagas,
como crateras de fogo.
Rompem em mim vendavais.
Sou eu que me interrogo,
a tudo atento,
sobranceiro ao gozo ou ao sofrimento,
com pensamentos verticais.


Armindo Rodrigues

PARA ALÉM DA NÁUSEA

Não pára, a publicação de livros da autoria de reputados historiadores que, quais prestidigitadores, tiram triunfantemente da manga (ou da cartola) a conclusão de que em Portugal não existiu fascismo.

Confesso que me cansei de os ler. Em primeiro lugar porque, citando-se uns aos outros, dizem todos o mesmo e, por isso, chateiam que se fartam. Em segundo lugar, porque a operação de branqueamento do fascismo que de há uns anos a esta parte tem vindo a invadir livrarias, médias, escolas, etc, cheira que tresanda a promoção do fascismo.

Agora, foi dado à luz mais um desses livros: «Estados novos Estado Novo», de Luís Reis Torgal.
Deu notícia dele, há dias, no Jornal de Letras, um «mestrando em História Contemporânea na Faculdade de Letras de Lisboa», que sintetiza aspectos vários do pensamento do autor, designadamente em matéria de comparação do fascismo português (isto digo eu, é claro...) com o fascismo italiano.
O autor, muito embora reconhecendo a existência de algumas «semelhanças (do salazarismo) com o fascismo italiano», salienta as diferenças, essas, sim, ao que parece, significativas.
E quais eram essas diferenças?
Ele explica: «Salazar não era um chefe de partido como Mussolini, mas alguém que sabia conciliar diversas opiniões (a própria União Nacional era entendida como um "instituição Nacional" e não como um partido» - confesso-me estupefacto e deslumbrado com esta imagem do Salazar conciliador de opiniões diversas...
Outro exemplo apresentado para ilustrar as tais «diferenças»: enquanto no fascismo italiano imperava o princípio de «autoridade sem liberdade», em Portugal, Salazar defendia o princípio de "autoridade e liberdade» - coitados dos italianos do tempo do Mussolini e felizes dos portugueses do tempo de Salazar...

Assim fica mais uma vez demonstrado que em Portugal não existiu fascismo - com a promessa de que a demonstração vai prosseguir para além da náusea.

POEMA

DOIS CAMINHOS


Há um silêncio imposto e outro de repouso.
Um é nocturno e estreito e o outro um dia aberto.
Num, apenas a medo o sonho é um débil gozo.
No outro, o sonho cabe após dele desperto.
Num, o que é certo e necessário é enganoso.
No outro, mesmo o engano é necessário e certo.


Armindo Rodrigues

MAIS UM GOLPE...

Os jornais de hoje - todos - tratam como era esperado tratarem, o golpe de estado militar que depôs e exilou o Presidente das Honduras, Manuel Zelaya.
Como caninos obedecendo à voz do dono, eles repetem-se quer na relevância dada aos acontecimentos - que remetem para as páginas interiores - quer no seu conteúdo, que pode resumir-se assim: o referendo era «ilegal», logo o golpe foi «legal».
É sintomática, igualmente, a preocupação comum a todos eles de ilibar os EUA de quaisquer responsabilidades no golpe e de sobrevalorizar as declarações chapa 1 de Obama - assim como quem diz que os EUA nada têm a ver com o golpe...

Em causa está, obviamente, um golpe militar - mais um! - feito à imagem e semelhança de dezenas de outros que na América Latina, ao longo da história, foram perpetrados contra governos que, eleitos democraticamente, levavam por diante, legitimamente, políticas que tinham como preocupação primeira servirem os interesses dos seus povos e não os interesses dos EUA.
Daí a participação activa dos vários governos norte-americanos na organização e, por vezes, na própria concretização desses golpes que, amiúde, foram acompanhados de sangrentas matanças.

Dir-se-á (e já houve quem dissesse) que também as forças anti-imperialistas recorreram ao golpe militar para ascenderem ao poder...
E é verdade.
Com uma diferença significativa: é que essas tentativas de golpe ocorreram, sempre, em países dominados por ditaduras - por sinal, todas instaladas e (ou) apoiadas pelos EUA...

Não têm razão de ser, portanto, as «dúvidas» dos analistas sobre a quem é que serve o golpe de estado das Honduras: dêem-lhe as voltas que derem - e mesmo invocando os golpes que condenam - em última análise, como a História nos mostra, qualquer golpe militar levado a cabo em qualquer país da América Latina ou é contra ou é a favor do domínio dos EUA nesse país.
Tirem, então, as conclusões sobre a quem interessa e quem levou a cabo o golpe militar que depôs o Presidente Manuel Zelaya...

POEMA

MEUS IRMÃOS...


Meus irmãos
é preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
é preciso que este se enterre até aos joelhos
na vaza dos arrozais
é preciso que eles façam todas as perguntas
é preciso que recolham toda a luz
é preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos
balizem as estradas
é preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
é preciso que batam tambor na selva
e enquanto na terra houver um único país
ou um único homem escravo
e enquanto no céu restar nem que seja
um única nuvem atómica
é preciso que os nossos poemas dêem tudo,
corpo e alma para a grande liberdade.


Nazim Hikmet

SIMULTANEIDADES...

O Presidente da República marcou as eleições legislativas para 27 de Setembro - e não, como era sua vontade, para a mesma data das autárquicas.
Ele bem artimanhou, bem tabuzou, bem cavacou, mas não conseguiu impor a sua vontade: a operação eleições simultâneas foi derrotada.
Tratou-se, de facto, de uma operação montada a rigor: Cavaco começou por dar sinais de querer meter as duas eleições no mesmo saco; depois, logrou atrair para a sua «causa» a generalidade dos propagandistas da política de direita; e chegou, mesmo, a invocar uma misteriosa «sondagem», segundo a qual a maioria dos portugueses defendia a simultaneidade das eleições... - «sondagem» pelos vistos só do seu conhecimento e, provavelmente, feita num universo de inquiridos composto pelos seus amigos mais chegados (admitindo que os tem)...


Estou em crer que a grande falha da cavacal operação foi ter começado demasiado tarde e, por isso, não ter dado o tempo suficiente aos propagandistas de serviço para levarem à prática, com êxito, a manobra em que são peritos de, a partir de uma opinião muitas vezes publicada, fabricarem a desejada opinião pública...


Recorde-se, entretanto, que esta ideia da simultaneidade das eleições não é ideia nova. Já foi falada noutras alturas - e, por sinal, sempre por más razões e com maus objectivos, o que não surpreende na medida em que misturar várias eleições num mesmo acto eleitoral é uma excelente forma de baralhar para reinar - matéria na qual os executantes da política de direita são verdadeiros especialistas.


E já agora, vale a pena lembrar (quanto mais não seja a título de curiosidade e também para que não caia no esquecimento...) que a simultaneidade de eleições era um dos caminhos escolhidos pelos golpistas do 11 de Março de 1975 - o tal golpe organizado por Spínola e cuja preparação o PS/Mário Soares acompanhava a par e passo através dos encontros de Manuel Alegre e outros homens de mão de Soares com os golpistas.
Relembremos, então, ainda que resumidamente, os planos dos golpistas:
concretizado o golpe - depois de presos e colocados em «unidades seguras» os «elementos pró-comunistas do Conselho dos Vinte» - Spínola assumiria o poder, proclamaria o estado de sítio "até ao pleno funcionamente das instituições", suspenderia as liberdades democráticas, adiaria as eleições para a Assembleia Constituinte marcadas para Abril e anunciaria eleições para Novembro.
Nessas eleições, os portugueses elegeriam, simultaneamente, o Presidente da República e os deputados para a Assembleia. Mas não só: a simultaneidade englobava ainda, o Programa do Governo e a Constituição!!! - ou seja: matavam todos os coelhos com uma só cajadada...


Mas voltando ao dia de ontem: o Presidente da República marcou as eleições legislativas para uma data não coincidente com a das autárquicas.
Não tendo possibilidade de fazer o que queria, teve que fzer o que não queria.
Por isso - e só por isso... - fez bem.

POEMA

OS GRANDES AMIGOS


São como as árvores
de grande porte.
Quando elas partem
as raízes ficam
aquém da morte.


Luís Veiga Leitão

UNIÃO DE FACTO

Possivelmente há quem ache exagerada a insistência com que escrevo sobre a acção desenvolvida pelos média dominantes enquanto porta-vozes caninos dos interesses do grande capital - que é o dono deles.
Provavelmente, haverá também quem ache que insisto demasiado na apresentação de situações concretas exemplificando o carinhoso tratamento reservado ao BE por esses média do grande capital.
Mesmo assim - e porque penso que não é assim... - vou continuar a insistir.


Há dias, trouxe aqui o exemplo de um texto do Público que constituía uma desavergonhada acção de propaganda eleitoral a favor do BE - texto, a meu ver, impublicável em qualquer jornal minimamente sério, e de assinatura inimaginável para qualquer jornalista minimamente sério.
Ora, a confirmar que isto anda tudo ligado, aí está mais do mesmo. Desta vez no Sol.
Quem assina a peça é o já nosso conhecido Manuel Agostinho Magalhães - que nunca se sabe bem se é um jornalista/BE ou um BE/jornalista, mas que se sabe bem ser um entusiástico propagandista do BE.
Eis o título deste atentado ao jornalismo - título que, como se vê, poderia encabeçar um qualquer folheto de propaganda do BE:
«Bloco rejuvenescido com programa radical».
Depois, a acção de propaganda segue por aí fora (ouvindo um dirigente do BE que, por acaso ia ali a passar...) e sempre atropelando e atropelando a acção jornalística até a deixar às portas da morte...
E, quando se pensava que não era possível esticar mais a corda propagandística, eis que o propagandista entra em parafuso eleitoralista e, a partir de um enorme SE
- SE o BE obtiver X% dos votos nas legislativas... -
conclui que, SE... o BE vai eleger, «sensivelmente o dobro dos actuais oito deputados»...
E assim se demonstra como é fácil meter o Rossio na Rua da Betesga: basta um «se»...

Já agora, actualizo os exemplos: no Público de hoje, a pretexto de uma desavença entre be's algarvios (uns ex-PSR, outros ex-UDP) - desavença relacionada com a lista para as legislativas - o autor da «notícia», de seu nome Idálio Revez, aproveita para informar os leitores que «o BE tem fortes possibilidades de se estrear na eleição de um deputado por Faro» - isto SE... repetir «nas legislativas o resultado das eleições europeias».
Cá temos outra vez o enorme SE...

E cá temos, sempre, a comovente relação amorosa entre os média - propriedade do grande capital - e o BE.
Uma relação que, pelas abundantes provas de carinho e de ternura evidenciadas, bem pode considerar-se como uma verdadeira união de facto.

POEMA

NATUREZA MORTA


As bombas destruíram todas as casas menos uma,
as casas onde viviam os homens que não tinham cor nenhuma.

Por entre os escombros
alguns milhões de cadáveres contavam anedotas e encolhiam os ombros.

Quando já não havia mais homens para matar,
nem pedras por calcinar,
nem searas por destruir,
foi só então que as bombas cessaram de cair.

Sobre a mesa vermelha
uma verde maçã e uma garrafa amarela e torta.
Natureza morta.

Felizmente as bombas destruíram todas as casas menos uma,
as casas em que viviam os homens que não tinham cor nenhuma.

Aí, com perícia esmerada,
os sábios reconstituíram um corpo, tão perfeito como se fosse vivo.
A casa, essa, foi reservada
para museu e arquivo.


António Gedeão

CONFIRMAÇÕES

Os governos dos 27 países da UE decidiram, por unanimidade, reconduzir Durão Barroso no cargo de presidente da Comissão Europeia.
Quer isto dizer que, se se der crédito às declarações de José Sócrates, de Cavaco Silva, etc - para os quais defender a entrega de tal cargo a um português é «um acto de patriotismo» e favorece o «interesse nacional» - os governos dos restantes 26 países nem são «patrióticos» nem defendem o seu «interesse nacional»...


Mas, deixando de lado as patrioteirices de meia tigela e as imbecilidades patetas e patéticas, há que registar o facto de Barroso ter sido reconduzido e extrair dele (do facto, é claro...) o significado de que se reveste.

A ida de Barroso para presidente da Comissão Europeia foi, como sabemos, a paga pela sua atitude de cúmplice na criminosa invasão e ocupação do Iraque e no bárbaro morticínio de centenas de milhares de iraquianos - o que evidencia luminarmente, quer as «qualidades» de Barroso, quer as «qualidades» dessa Europa do grande capital e sucursal do imperialismo norte-americano que dá pelo nome de União Europeia.

A recondução de Barroso confirma-o como... o que ele é; e confirma os que o reconduziram como... o que eles são:
criados para todo o serviço ao serviço das «pátrias» e dos «interesses nacionais» do grande capital explorador e opressor.

POEMA

O QUE DA RAZÃO NÃO FAZ...


O que da razão não faz
uma firme barricada
de que mais será capaz
que de não sê-lo de nada?
Pois vale a pena viver
a contrariar a vida?
Pior que a vida perder
é aceitá-la perdida.
Fique às nuvens e ao luar
a cobardia do céu.
Recto seria julgar
a lei primeiro que o réu.


Armindo Rodrigues

«ARQUIVE-SE»?

Um destaque na primeira página do Diário de Notícias de hoje, diz o seguinte:
«Freeport. Se a aprovação do outlet for considerada legal, os crimes investigados já prescreveram».

Confesso que, receando o que iria encontrar, não fui ler o desenvolvimento da notícia nas páginas interiores.
E fico a interrogar-me sobre o significado desta notícia...
E, apesar de tudo o que já aconteceu em matéria de arquivamentos de processos semelhantes, é ainda com alguma perplexidade que me interrogo:
será que estamos, uma vez mais, perante um «caso» cujo esclarecimento e resolução passa pelo recurso ao tradicional carimbo «arquive-se»?
Não é possível!
Não?...

POEMA

«SE EM PORTUGAL UM ESCRITOR...»


Se em Portugal um escritor é largamente proclamado
com coros de louvores; e se é inteligente -
deve por certo começar a ter terríveis dúvidas
de ser alguma coisa de em verdade grande.
Porque a chamada crítica ou que se arroga tal
atira ciosamente lama e vómitos
a quem seja, senão grande, pelo menos digno
- numa ânsia de que o público imagine que a honradez
é um vício, e ser canalha uma virtude.


Jorge de Sena

gente cá da terra!


tem nome de esteva marítima que todo ele é a força da serra e dos cabeços que calcorreou fugindo, como água de enxurrada, à tirania que lhe proibia o pão. o Saragaço vende cautelas e sorri aos amigos que vê passar. o seu corpo franzino é uma faúlha da brasa nas tardes que fazem ferver o sangue entre a cal em ebulição. Sempre que conhece alguém, o Saragaço tira da algibeira o orgulho do seu sentir. orgulhoso, -se possível em tão pouco corpo, inchado - diz com todo o ar que lhe sai do peito: «este é o meu Partido», logo acrescentando «camarada» à frase que assim cumprimenta o novo amigo. para o Saragaço, que do bravio do mar e da planta só tem o nome - e a coragem! - não lhe cabe na cabeça que haja alguém que possa não o ser... Camarada! e a palavra nele tem todo o sentido da grande casa que acaba de abrir a porta ao novo amigo. por estas bandas há também quem isto confunda com alguma loucura, logo humanizada na ternura que sempre reconhecem a um velho (bem sei que nem parece!). eu não me engano, e sei bem que o Saragaço tem é um coração maior que as pernas canetas que o suportam. e é vermelho como a fome do trigo nos campos. hoje, como é hábito desde que nos conhecemos, comprei-lhe uma cautela. sentei-me com ele. bebemos uma cerveja. no café, os ricos da terra olhavam com algum espanto « o antropólogo e o cauteleiro???». ele sentiu-o. rimos os dois. ele puxou do cartão do nosso Partido. colocou-o em cima da mesa. chamou-me camarada. como se tivesse acabado de me conhecer. como se sempre me tivesse conhecido. num sussurro o meu coração gritou-lhe um «camarada» enquanto brindávamos. ele disse-me « vamos ver se é desta que sai». se sair, apontem como promessa de homem comunista, vamos os dois a Cuba. o cauteleiro e o antropólogo. o galamba e saragaço. os camaradas, pois!
bela gente tem a minha terra.

POR QUE SERÁ?

O registo de hoje em matéria de manipulação mediática diz respeito a uma peça de propaganda eleitoral, disfarçada de «notícia»: o propagandeado é o partido de Francisco Louçã; o propagandista é o jornal de Belmiro de Azevedo.

A «notícia», que é assinada por Leonete Botelho, começa assim:
«BE recandidata Pureza por Coimbra nas legislativas».
Logo a seguir a este título informativo, eis que Leonete nos «informa» que o candidato do BE se apresenta «desta vez com a expectativa de ser eleito deputado»...
Depois de, como quem não quer a coisa, sublinhar que o BE «subiu a terceira maior formação política em votos», Botelho passa a anunciar os primeiros candidatos do BE por Braga, Vila Real e Aveiro - todos acompanhados de simpáticos dados biográficos ...
A seguir, embalada, Leonete dedica parte grande do espaço disponível da «notícia» às primeiras figuras do BE por Lisboa e Porto: para «informar» que «ainda estão por decidir»... mas que tudo indica que venham a ser, respectivamente, Louçã e Fazenda...
Finalmente, e já em pleno desvario propagandístico, Botelho «informa» que, «de acordo com uma projecção» elaborada por um blogueiro (que cita), «extrapolando os resultados do dia 7 para as legislativas, o BE elegia 21 deputados» - ou seja, explica a diligente e prestimável Leonete, «mais treze do que os actuais 8».

Estamos, assim, perante uma «notícia» que outra coisa não é senão uma despudorada peça de propaganda eleitoral, debitando «informações», «apreciações» e «opiniões» que parecem ter sido - e talvez tenham sido - produzidas pela secção de propaganda do partido propagandeado...
Não há dúvida: o jornal de Belmiro de Azevedo tem um fraquinho pelo BE.
Por que será?

Registe-se, agora, o contraponto:
a CDU anunciou na quinta-feira passada os seus primeiros candidatos por Évora, Lisboa, Santarém e Setúbal - que o Público silenciou absolutamente.
a CDU realizou, com a presença de centenas de pessoas, sessões públicas de apresentação desses candidatos nos distritos de Évora, Santarém e Setúbal - o Público dedicou meia dúzia de linhas a uma dessas iniciativas e silenciou as restantes.
Não há dúvida: o jornal da Sonae não pode com a CDU.
Por que será?

POEMA

PEQUENA BALADA DO SOLDADO ALIADO


Irá que o seu dever é ir.
Irá que assim lhe ordenaram.
Irá que é lá que está o inimigo.
Irá que o regime tem de cair.
Irá que a democracia deve impor-se.
Irá que uma nova ordem é precisa.
Irá que a vontade do povo não conta.
Irá que a paz faz-se com a guerra.
Irá que os mortos deles não se choram.
Irá que os vivos deles não se importam.
Irá que os filhos deles não são seus.
Irá que um herói deve lá estar.
Irá que Deus está com ele.
Irá que só Allah está com os outros.

Virá?


Joaquim Pessoa
(Março de 2003)

O CARNICEIRO ESTÁ COM MEDO

O governo de Gordon Brown decidiu abrir um inquérito sobre a participação da Grâ-Bretanha na invasão e ocupação do Iraque.
É claro que, antes mesmo de conhecidos os resultados do inquérito, muita coisa se sabe, já, sobre essa participação criminosa:
sabe-se que o Governo britânico, chefiado por Blair, manifestou incondicional apoio político à invasão chefiada pelo imperialismo norte-americano; sabe-se que o Governo de Blair desenvolveu intensa actividade na divulgação da vasta rede de mentiras que serviu de pretexto para o crime; sabe-se que, por decisão de Blair, soldados britânicos foram enviados para o Iraque e aí participaram, sob a designação de «aliados», na brutal ocupação daquele país e no monstruoso morticínio dela decorrente - sabe-se, enfim, que Blair é - com Bush, Aznar, Barroso e vários outros criminosos de guerra - um dos responsáveis pelo assassinato de muitas centenas de milhares de homens, mulheres e crianças iraquianas.

E, sabendo-se tudo isto, sabe-se muito: sabe-se o suficiente, por exemplo, para julgar e condenar Blair pelos crimes de que é responsável - coisa que aconteceria em qualquer país democrático...
Ora, acontece que, ao que tudo indica, para além do muito que se sabe, há mais... ou seja, parece que o colaboracionismo criminoso de Blair se reveste de particularidades até agora desconhecidas.
Daí o pedido que Blair fez a Gordon Brown no sentido de não tornar públicos os resultados do inquérito.

Inquérito, sim - «somos democratas, não é verdade?»... - mas para ficar na gaveta, bem escondido e bem longe das vistas e do julgamento do povo.

Se Gordon Brown vai, ou não, silenciar as conclusões do inquérito... é o que veremos.
Mas uma coisa parece certa: Blair, o carniceiro, está com medo.

POEMA

CASA DE PENHORES


I

Rua estreita - não sei quem lá passou.
Porta aberta - não sei quem lá entrou.
Não sei - não sei dizer e não me importa,
nem a rua, cansada de ser rua,
nem a porta, cansada de ser porta.

Mas foi aqui, na rua triste e nua,
e junto à porta aberta, fria e larga,
que me surgiu aquela frase amarga
e nunca mais me deixou:
- Schubert empenhou o violino e o mundo não estoirou!

II

Mas não falemos de Schubert... falemos da velha tonta...
- a velha tonta que perdeu a neta
e anda, de porta em porta, a imitá-la...

Diz assim, aflautando a sua fala:

«Ó velha, conta... ó velha, conta
aquela história triste do poeta...»

- A velha tonta que perdeu a neta
todos os dias ajoelha
em frente da lamparina...

(O Cristo empenhou-o a velha
para salvar a neta pequenina...)

E a velha tonta reza à lamparina:

- «Meu Deus, perdoa-me a audácia
de ter teu Filho empenhado...
- Foi por causa da conta da farmácia...
Perdão, meu Deus, perdão!»

- E o Cristo, resignado,
em três meses de juro crucificado,
espera o dia do leilão.


Sidónio Muralha

O VERDADEIRO ANIMAL FEROZ

«Novas Fronteiras» é uma coisa que o PS/Sócrates cozinha, de vez em quando, para exibir uma suposta definição de nova política governamental - género, «agora, sim, agora é que é»... - e para, ao mesmo tempo, demonstrar a «abertura» da cena, servindo ao respeitável público, uns quantos «independentes» que decidiram pôr as suas incomensuráveis inteligências e saberes ao serviço do programa eleitoral do PS.
A coisa foi a lume brando ontem, na FIL, com todos os ingredientes: lá estava, no papel de «independente», a inevitável Irene Pimentel; e lá estava o estado maior do PS... ou estado menor, se tivermos em conta o papel maior ali desempenhado pelo pequeno António Vitorino.
E lá disseram o que ia ser o programa eleitoral do PS:
blá-blá-blá - decidiu Sócrates;
blá-blá-blá - copiou Vitorino;
blá-blá-blá, repetiram todos, em coro síncrono.
E, a concluir: Temos programa - disse Vitorino;
Porreiro, pá! - disse Sócrates.

No entanto, Sócrates disse mais - e mais importante: rejeitou, indignado, as acusações de «humildade» que lhe têm sido feitas e voltou a assumir, triunfante, a postura de «animal feroz» que tão bem lhe cai.
É de homem!
E com tal veemência o fez que contagiou o seu «coordenador do programa eleitoral».
Foi assim que, a dada altura, o pequeno Vitorino, em biquinhos de pés, «desafiou o PSD a dizer o que vai fazer se vencer as legislativas»: «Vá, digam o que querem, não tenham medo, digam verdadeiramente o que pretendem» -intimou, triunfante, qual «animal feroz» plastificado.
É de homem!


E lá partiram todos, provavelmente cada um comentando para si que, independentemente dos programas eleitorais, as práticas governamentais do PS e do PSD obedecem, uma e outra, ao mesmissimo programa - o do grande capital.
Esse, sim, o verdadeiro animal feroz.

POEMA

ROTEIRO


Parar. Parar não paro.
Esquecer. Esquecer não esqueço.
Se carácter custa caro
pago o preço.

Pago embora seja raro.
Mas homem não tem avesso
e o peso da pedra eu comparo
à força do arremesso.

Um rio, só se for claro.
Correr, sim, mas sem tropeço.
Mas se tropeçar não paro
- Não paro nem mereço.

E que ninguém me dê amparo
nem me pergunte se padeço.
Não sou nem serei avaro
- se carácter custa caro
pago o preço.


Sidónio Muralha

GRANDECÍSSIMOS... PLURALISTAS!

Prossegue a operação visando a reabilitação de Sócrates, através da substituição da sua imagem arrogante - e derrotada - por uma imagem humilde- e vencedora...
A SIC deu o primeiro grande passo nesse sentido, proporcionando-lhe uma oportuníssima entrevista conduzida por uma oportuníssima entrevistadora...
Ontem foi a vez de o Diário de Notícias mostrar o que vale: a primeira página do jornal incitava-nos a ler, na sua «Notícias TV - A Revista de TV e SOCIAL MAIS LIDA EM PORTUGAL», uma reportagem (com FOTOS EXCLUSIVAS) de umas mini-férias de Sócrates, no Algarve. Trata-se de um texto encomiástico até dizer chega e que mais parece uma peça de publicidade paga.

Mas Sócrates é também PS: porque é o PS que vai a votos lá para Setembro/Outubro...
E o prestimoso Diário de Notícias não dorme: hoje, ofereceu toda a primeira página do seu suplemento «DN Gente», ao conhecido militante do PS, Pedro Adão e Silva: texto encomiástico até dizer chega e que mais parece uma peça de publicidade paga...

Não se pense, no entanto, que o DN só pensa em Sócrates/PS. Não! De forma alguma!
A comprová-lo veja-se a atenção que dá a outros partidos, por exemplo, o PSD, o CDS/PP e, é claro, o filho querido da casa, o BE, sobre o qual o DN, na sua edição de hoje, publica nada mais nada menos do que 8-notícias-8!
E todas simpáticas para o referido partido: encomiásticas até dizer chega e que mais parecem peças de publicidade paga...

Que grandecíssimos... pluralistas!

POEMA

LÍRICA SEM NEBLINA


Já nos versos dos Vedas,
há 2500 anos,
crepitavam as labaredas
dos problemas humanos.
Já então, quando as aves emigravam,
os homens não falavam de saudade,
mas simplesmente levantavam
uma canção à liberdade.
Então e sempre entrou a luta na poesia
como um pregão pela janela aberta
e enriqueceu-a dia a dia
numa perpétua descoberta.
Nem narcóticos, nem neblinas, nem adornos, nem véus,
pega o poeta em palavra, tijolos e argamassa,
e constrói um arranha-céus
que cada hora se ultrapassa.
E nesta maré de novo e de renovo,
movimento ascensional,
em cada poema o povo
põe a sua impressão digital.


Sidónio Muralha

NEM A BRINCAR...

A notícia chegou e disse:

Gustavo Villoldo era um empresário cubano - representante da General Motors em Cuba - e pai de um filho com o mesmo nome.

Em 1959 a sua empresa foi nacionalizada por decisão do governo revolucionário, aplicada pelo Che, então presidente do Banco Nacional de Cuba - e Gustavo Villoldo, inconformado com o facto, suicidou-se, tomando uma dose elevada de comprimidos para dormir.

Gustavo Villoldo (filho) fugiu para os EUA e, em 1967, integrava o comando de agentes da CIA que perseguiu e assassinou o Che na Bolívia.

Agora, o filho intentou uma acção contra Fidel e o Che, acusando-os de responsáveis pela morte do pai.

E um juiz norte-americano não só lhe deu razão como condenou Fidel e o Che a pagarem-lhe uma indemnização de 700 milhões de euros.

A notícia só não diz como é que a sentença vai ser executada, e o que acontecerá aos acusados se não pagarem a indemnização ao acusador...

Esta justiça norte-americana é danada para a brincadeira... - mas nem mesmo a brincar deixa de exibir o seu conteúdo de classe.

POEMA

PARA VÓS O MEU CANTO...


Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos;
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito dum rio;

- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;

- para vós os meus versos, companheiros da vida!

Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...

Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...

Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.

E vou convosco. - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia de Juízo...

Que o Dia do Juízo
não é no Céu... é na Terra!


Sidónio Muralha

A LUTA CONTINUA!

A repressão sobre dirigentes e activistas sindicais aumentou consideravelmente no ano de 2008: contam-se por milhares - muitos milhares! - os representantes dos trabalhadores vítimas das mais diversas medidas repressivas.
Do despedimento à prisão, à tortura e ao assassinato, passando pelas ameaças e chantagens do mais variado tipo, a tudo o grande capital internacional e os seus serventuários nos governos têm recorrido, com o objectivo de desarticular a luta organizada dos trabalhadores e de enfraquecer e, se possível liquidar, as suas estruturas representativas.

Dados divulgados pela Confederação Sindical Internacional mostram que a repressão tem vindo a assumir novas formas, sendo muitos os casos em que são os próprios patrões - através das suas polícias privadas e com a complacência das autoridades governamentais - a prender, agredir e torturar trabalhadores.
Também o número de trabalhadores assassinados por desenvolverem actividade sindical continua a aumentar: no ano de 2008, foram mortos 76 sindicalistas.

A Colômbia continua a ocupar o primeiro lugar na repressão anti-sindical: dos 76 assassinados no ano de 2008, 49 eram sindicalistas colombianos.
Recorde-se que, nos últimos dez anos, mais de 2 700 sindicalistas foram assassinados no país governado pelo narcofascista Uribe.
Registe-se que, no ano de 2009, o número de dirigentes sindicais assassinados na Colômbia é já de, pelo menos, 17.
Recorde-se e registe-se que a Colômbia é vista pelos EUA como a democracia mais avançada da região e onde o respeito pelos direitos humanos é uma realidade...

Sublinhe-se que por maior e mais brutal que seja a repressão ordenada pelo grande capital, ela não conseguirá impedir a continuação da luta dos trabalhadores e dos povos - luta que prosseguirá até à vitória final.