POEMA

TELEGRAMA DE MOSCOU


Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia eléctrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado
- Stalingrado: o tempo responde.


Carlos Drummond de Andrade

DIA D - DIA DAS MENTIRAS

As comemorações do 65º aniversário do desembarque na praia de Omaha Beach, na Normandia, foram o que se esperava:

Sarkozy a falar da «eterna dívida de gratidão da França para com os Estados Unidos da América»;
Brown a falar da «aliança transatlântica, para se prolongar por séculos, selada por milhares de vidas na praia de Omaha Beach (que ele rebaptizou de Obama Beach...) ;
e Obama, o Chefe, a falar do «Dia D, que não podemos esquecer, porque foi um momento e um lugar onde a bravura e o altruísmo de uns poucos mudaram o curso de um século»;
enfim, todos, mais os jornalistas que os acompanhavam, a concluir o que desde há muito concluíram: que o desembarque na Normandia «marcou o ponto de viragem da II Guerra Mundial» - e, assim, todos a fazerem do Dia D, um dia de mentiras.

Permito-me discordar da conclusão dos oradores e escribas, contrapondo-lhe esta:
o que, de facto, marcou o ponto de viragem da II Guerra Mundial não foi o Dia D - 6 de Junho de 1944 - mas sim a batalha de Stalinegrado, iniciada em 17 de Setembro de 1942 e terminada a 2 de Fevereiro de 1943 - portanto dezasseis meses antes do desembarque na Normandia.
De facto, foi essa batalha - na qual o Exército Vermelho e o povo de Stalinegrado, derrotaram o exército nazi - que marcou o ponto de viragem da II Guerra Mundial.
E foi na sequência dessa vitória que se iniciou a contra-ofensiva soviética, que - impulsionada por nova e decisiva vitória do Exército Vermelho em Kursk, em Julho de 1943, na «maior batalha de tanques da história» - só terminaria com a entrada do Exército Vermelho em Berlim e com a consequente derrota do nazismo, em Maio de 1945.

E a verdade é que, na altura em que mais de um milhão e meio de soviéticos morriam em Stalinegrado, pela Democracia, pela Liberdade, pela Vida, os protagonistas do futuro desembarque na Normandia, deitavam contas à sua vida... umas contas muito ao seu jeito democrático: à hipótese, considerada por Roosevelt, de ajudar os soviéticos, que suportavam todo o peso do exército nazi, Truman, então ainda senador, respondia assim: «Se virmos que a Alemanha está em vias de ganhar a guerra, daremos uma ajuda à Rússia; se virmos que a Rússia vai ganhar, então teremos que ajudar a Alemanha» - e acrescentava: «Para que os russos e os alemães se matem, o mais possível, uns aos outros».

E foi na base dessas contas à vida deles que o desembarque na Normandia aconteceu - menos de um ano antes da derrota do nazi-fascismo, sublinhe-se - e, portanto, forçado pelo desenvolvimento da guerra.
Ou seja: o dia D ocorreu quando - e porque - o avanço impetuoso e imparável do Exército Vermelho, Europa fora - libertando a Roménia, a Bulgária, a Polónia... e aproximando-se de Berlim - não oferecia a mínima dúvida sobre o desfecho da guerra.


Sabe-se hoje que cerca de trinta milhões de soviéticos deram as suas vidas na luta contra o nazi-fascismo em cuja derrota tiveram um papel determinante e decisivo.
Que nenhum dos oradores de ontem, na praia de Ohama (ou de Obama?...), tenha feito a mínima alusão a esses mortos, não surpreende: na verdade, eles foram lá para manter vivas as mentiras com que alimentam o seu sonho de domínio do mundo - que é muito semelhante ao sonho nazi que o heróico povo soviético derrotou na II Guerra Mundial.

POEMA

(Todo o dia e toda a noite grunhe
em forma de símbolo debaixo
do meu quarto)


Eh! vizinho porco,
todo o dia de borco
a foçar na terra onde nasceu!
Ensine ao aldeão
a sua lição
de pensar menos no céu
e mais no chão.

(Na terra, camponês,
também há estrelas
que tu não vês...
Mas hás-de vê-las.)


José Gomes Ferreira

DIA 7

Na quarta-feira - a dois dias do termo da campanha eleitoral - a SIC resolveu entrevistar Miguel Portas.
Trata-se de um favorecimento particular e especial ao BE por parte da cadeia televisiva de Balsemão - favorecimento que seria surpreendente numa situação de democracia mediática, mas que não surpreende ninguém nesta bandalheira antidemocrática que é a prática da comunicação social dominante.

Para o dono da SIC, tal como para todos os donos dos média dominantes - que são os donos dos grandes grupos económicos e financeiros - o critério informativo tem como objectivo exclusivo, sempre, a salvaguarda dos seus interesses.
E é à luz desse critério que essa entrevista deve ser entendida.

Os grandes grupos económicos e financeiros têm previamente assegurada a sua vitória nestas eleições - já que, quer ganhe o PS quer ganhe o PSD, é o grande capital que ganha.

O que eles não querem - e os traz apavorados - é que a CDU suba, designadamente captando votos de segmentos do eleitorado do PS descontentes com a política de direita.
Porque se esses votos se deslocarem do PS para qualquer outra força política que não seja a CDU, não há problema: ficam em casa...
O problema, para eles, é se esses votos se deslocam para a CDU, única força que, de facto, combate a política de direita e lhe contrapõe uma alternativa de esquerda.

Ora, é para tentar impedir isso que o BE existe.
E é por isso que os média, propriedade do grande capital, tratam o BE com carinhos maternais.
E é por isso que a entrevista da SIC ao BE não surpreende.

Mas é bem possível que, dia 7, o eleitorado lhes troque as voltas.

POEMA

AMIGO


Mal nos conhecemos
inaugurámos a palavra «amigo».

«Amigo» é um sorriso
de boca em boca,
um olhar bem limpo,
uma casa, mesmo modesta, que se oferece,
um coração pronto a pulsar
na nossa mão!

«Amigo» (recordam-se, vocês aí,
escrupulosos detritos?)
«Amigo» é o contrário de inimigo!

«Amigo» é o erro corrigido,
não o erro perseguido, explorado,
é a verdade partilhada, praticada.

«Amigo» é a solidão derrotada!

«Amigo» é uma grande tarefa,
um trabalho sem fim,
um espaço útil, um tempo fértil,
«Amigo» vai ser, é já uma grande festa!


Alexandre O'Neill

sei do porto da ternura...


venho aqui contar-vos de uma amizade sem fim... fruto de uma outra que me levou até ao melhor que «lá tem por casa». a Alice é uma mulher! com toda a força contida nas letras que o alfabeto dos Homens usa para escrever o feminino. toda ela é um vulcão fervente de beijos, ternura, igualdade, fraternidade... ela é a mulher que o rogério ribeiro sempre pintou quando quis falar da mulher alentejana... e comunista. a Alice é minha amiga. sinto-o na forma como me olha cheia de paixão maternal e no gesto carinhoso com que me oferta tudo o que de melhor lá habita pelo ninho. hoje convidou-me para o almoço. o Herlander, vindo de Beja, passou pela Vila onde me apanhou a caminho de Mil Fontes - onde a Alice, sua irmã, e o companheiro de longa data (devo dizer de sempre?), o João, passam agora os dias merecidos do seu descanso. O caminho, com este camarada, como todas as viagens, foi feito de abraços em linhas de palavras, confidências, confissões. à nossa espera (esta é a fotografia tirada enquanto nos esperava, ainda sem saber que já lá haviamos chegado!) um lume aceso prometendo sardinhada... e um abraço tamanho do mundo, quase maior que a mulher que nos esperava, e que nos havia de mostrar a sua praia secreta, quase tão bonita como o seu coração de alentejana. tudo na sua fala são ondas, aves marítimas, espuma. sempre que sai à rua traz atrelada a si a sua condição de sonhadora e comunista. ve-la falar com quem conhece (quem não conhece esta amiga de todos???) é presenciar a um comicio ambulante do nosso Partido... com tudo o que de belo as palavras têm. a Alice não esquece que cada acção sua é acção de uma comunista. a Alice traz agarrada a si a mensagem de igualdade e justiça que exige para todos. cada passo é menos um que falta no caminho dos outros. brisa húmida e fresca de água, de mar, nos corações incendiados pelo capitalismo. hoje, talvez mesmo sem o saber, a Alice mostrou a muitos - com quem se cruzou ela nas ruas das suas férias??? - que domingo há um voto que conta mais... um voto dos trabalhadores, agricultores, pescadores... a Alice sabe o caminho. a Alice é uma mulher de certezas... a Alice é comunista! eu gosto muito dela? ela saber-lo-á?

«ARQUIVE-SE!»

O DCIAP (Departamento Central de Investigação e de Acção Penal) decidiu ARQUIVAR o inquérito relacionado com a passagem de aviões da CIA por Portugal.

Quer isto dizer que não há provas que confirmem a aterragem (e a descolagem) desses aviões em aeroportos portugueses?
Pelo contrário: o DCIAP diz que tais aterragens (e descolagens) não oferecem dúvidas, estão claramente confirmadas.
Então porquê o arquivamento do processo?
Bom... porque... não há indícios de que os prisioneiros que seguiam nos referidos aviões, estivessem algemados, e não havendo provas disso... não há processo, está tudo nos conformes, a democracia pode respirar fundo (tal como os governos PS e PSD), não se fala mais nisso, em suma: «ARQUIVE-SE!».
E os aviões da benemérita CIA podem continuar a visitar-nos... desde que os presos que transportam não estejam algemados...

Mais um - a juntar a vários outros processos arquivados.
Mais um - ao qual se irão juntar... sabe-se lá quantos mais: provavelmente todos os que envolvem praticantes da política de direita...
A confirmar que Portugal é um país arquivado.

P.S.: a eurodeputada Ana Gomes, instada a pronunciar-se sobre este arquivamento, declarou que por enquanto não tem nada a dizer; mais tarde, sim. - «mais tarde» significa, certamente, depois de passadas as eleições...

POEMA

O SONHO


Pelo Sonho é que vamos,
comovidos e mudos.
Chegamos? Não chegamos?
Haja ou não haja frutos,
pelo Sonho é que vamos,

Basta a fé no que temos.
Basta a esperança naquilo
que talvez não teremos.
Basta que a alma demos,
com a mesma alegria,
ao que desconhecemos
e ao que é do dia-a-dia.

Chegamos? Não chegamos?

- Partimos. Vamos. Somos.


Sebastião da Gama

Agarra com as tuas mãos, o nosso futuro!

Durante os últimos anos, milhares lutaram nos seus locais de trabalho e de estudo, encheram praças e avenidas de protesto em defesa dos seus direitos, afirmaram a sua indignação para com as políticas de direita, contrárias aos interesses e aspirações deste povo.

Está a chegar a hora dos trabalhadores, dos reformados, dos intelectuais, dos pequenos e médios empresários, dos jovens e das mulheres do nosso país tomarem nas suas mãos a decisão de contribuir, com o voto na CDU, para a construção de um caminho de mudança e de ruptura com a política de direita.
Não deixes fugir das tuas mãos a oportunidade já no dia 7 de Junho de contribuir para a transformação que é preciso realizar na sociedade portuguesa.

Votando na CDU no próximo domingo, estás a defender os teus interesses, os interesses dos trabalhadores, do povo e do país. Estás a dar voz às aspirações e aos anseios do nosso povo, a dizer BASTA de exploração, a afirmar a nossa soberania nacional, a contribuir para uma ampla frente de resistência e ruptura que o nosso país precisa.

No próximo domingo, tens nas tuas mãos o futuro. Com confiança vamos construir um ABRIL DE NOVO!


No próximo domingo, dia 7 de Junho, leva a tua luta até ao voto. VOTA CDU!





Nota: transposição na íntegra de e-mail recebido.


POEMA

QUEREM O CÉU


Querem o céu, a mística mansão
da alma.
E, se estivessem lá,
queriam a terra, a sórdida morada
da raiz.
Mas é o céu que lhes diz
eternidade,
verdade,
santidade
e descanso.

Assim se pode mistificar
a preguiça,
o pecado,
a mentira
e a transitória vida natural.

O grande tecto azul, porém, não dá sinal
de acolher o aceno.
Afaga as nuvens, e a luz solar
faz o dia maior ou mais pequeno.


Miguel Torga

CHEIRAM MAL: CHEIRAM A... MÉDIA

Volto ao tema.
A desfaçatez e a desvergonha dos média dominantes - de todos, sem excepção! - ultrapassaram, nesta campanha eleitoral, todos os limites conhecidos e imagináveis.
Nunca esses média desceram tão baixo, nunca foram tão longe na prática da desinformação organizada e da propaganda enganosa e suja, nunca exibiram tão ostensiva e descaradamente o desprezo pelo direito à informação dos seus utentes, nunca mergulharam tão profundamente na degradação e na abjecção.
Em consequência disso:
nunca a propaganda ao BE foi tão ostensiva, descarada e assumida;
e nunca a propaganda contra a CDU foi tão ostensiva, descarada e assumida - especialmente a partir da Marcha Protesto, Confiança e Luta! que, mostrando as potencialidades de aumento da influência eleitoral da CDU, provocou autêntico pânico nos arraiais do grande capital e dos seus serventuários.

Abundam os exemplos do que acima é dito: são aos milhares - sublinho: aos milhares!
Aqui ficam dois:

1 - Há dias, a SIC resolveu fazer uma peça sobre a Marinha Grande e para lá deslocou a respectiva equipa que começou por ouvir gente da terra a falar da história de luta do povo marinhense e dos seus históricos vidreiros.
Pela força das circunstâncias, lá tiveram que ouvir alguns militantes comunistas - vidreiros - os únicos aliás que, com conhecimento de causa, podem falar dessa luta.
Mas cedo ficou claro que a SIC não queria falar com comunistas, que não fora à Marinha Grande para ouvir marinhenses a falar das suas lutas.
Cedo ficou claro que o que a SIC queria era fazer propaganda ao BE numa localidade onde é conhecida a influência dominante do PCP - e onde, por isso, a SIC queria forjar a ideia (e divulgá-la como verdade) de um ascenso da influência do BE... a pedir votos, é claro...
Como é que a SIC fez isso?
Muito simples: primeiro pôs o conhecido vidreiro Miguel Portas a dizer que sim e mais que também, blá-blá-blá.
Depois tomou a palavra um «jornalista» que, entre outras pertinentes afirmações, disse, mais coisa menos coisa, que a Marinha Grande das grandes tradições de luta, continuava a ser uma referência para as forças de esquerda: o PS, o POUS e o BE!!!
Entretanto, enquanto o «jornalista» debitava as suas estórias, a câmara ia-se deslocando... cirurgicamente... até parar, milimetricamente... num cartaz de campanha eleitoral do BE, com Miguel Portas a pedir o voto...
Que grande órgão de informação é esta SIC!

2 - Ontem, o DN publicou, com grande destaque, uma peça intitulada «Os pretensos candidatos à Europa».
Tratava-se de duas cartas de dois leitores do jornal com «duras críticas à forma como está a decorrer a campanha eleitoral», em matéria de intervenção demagógica, oportunista e desonesta dos candidatos - e, claro, metendo todos os candidatos no mesmo saco escuro da demagogia, do oportunismo e da desonestidade.
Até aqui, nada a comentar, a não ser para dizer que os referidos leitores têm todo o direito de expressar as suas opiniões (ou melhor: as opiniões que julgam ser suas...) e que o DN tem todo o direito de publicar essa opiniões (fingindo que nada fez para que os leitores pensassem o que pensam...).
Só que, a peça é ilustrada com uma fotografia... adivinhem...
Exactamente: uma fotografia de um comício da CDU! - como que a dizer aos leitores: aqui estão os candidatos demagogos, oportunistas e desonestos: não votem neles...
Que grande órgão de informação é este DN!

Obviamente, num caso como no outro, nada daquilo tem a ver com jornalismo nem com informação.
Trata-se de propaganda baixa, de manipulação rasteira, de descaro sujo, de desinformação porca, de... acrescentem o que quiserem - que eu não suporto mais este cheiro nauseabundo: estes média cheiram mal: cheiram a... média...

POEMA

DE MÃOS DADAS


Era um carreiro,
era um atalho,
era um caminho,
é uma estrada larga por onde
caminhamos de mãos dadas.

Era um fio de água,
era uma fonte,
era um ribeiro,
é um rio imenso de sangue correndo
nas veias dos homens de mãos dadas.

Era um sopro,
era uma aragem,
era um vento,
é um vendaval levando-nos
por sobre o mundo de mãos dadas.

Era uma chama,
era uma faísca subtil,
era uma fogueira,
é um incêndio, é uma aurora cobrindo
os que marcham invencíveis de mãos dadas.


Papiniano Carlos

GENTE DE CLASSE...

Mais de 1 600 delegados e dirigentes sindicais e membros de comissões de trabalhadores tornaram público um apelo ao voto na CDU.
É muita gente: 1 600 dirigentes de estruturas representativas dos trabalhadores, uns militantes comunistas, outros apartidários, outros, até, oriundos de áreas políticas bem distantes das forças que integram a CDU.
E, sobretudo, é gente de classe... que, por isso mesmo, e sabendo que no dia 7, a luta de classes se trava nas assembleias de voto, apela ao voto no seu partido de classe.

Como se esperava, os analistas de serviço, com lugar cativo nos média propriedade do grande capital, assobiaram para o lado - e continuaram a tecer elogios e apelos ao voto no... BE (agora fazendo-o já às claras, sem sombra de pudor nem ponta de vergonha)
Percebe-se o silêncio dos analistas: na verdade, se analisassem este apelo ao voto na CDU - mesmo à sua maneira de criados do grande patronato - ser-lhes-ia difícil fugir, em primeiro lugar, à constatação de que nenhuma outra força política foi objecto de apoio semelhante;
e, em segundo lugar, que isso se deve ao facto de, entre as forças componentes da CDU, estar o PCP - o único partido que esses representantes dos trabalhadores viram sempre, sempre, sempre a seu lado nas muitas lutas que têm desenvolvido.

(Só falta, agora, que o esbracejante Sócrates, ou algum dos seus ecos, venha dizer que viu dirigentes sindicais a apelar ao voto na CDU, alertando as suas polícias para a gravíssima ocorrência...)

POEMA

OS OLHOS DAS CRIANÇAS


Atrás dos muros altos com garrafas partidas
bem para trás das grades do silêncio imposto
as crianças de olhos de espanto e de medo transidas
as crianças vendidas alugadas perseguidas
olham os poetas com lágrimas no rosto.

Olham os poetas as crianças das vielas
mas não pedem cançonetas mas não pedem baladas
o que elas pedem é que gritemos por elas
as crianças sem livros sem ternura sem janelas
as crianças dos versos que são como pedradas.


Sidónio Muralha

RENOVAÇÃO QUÊ?

A auto-designada «Renovação Comunista» - associação criada por ex membros do PCP depois de verem derrotada a sua tentativa de liquidar o Partido - pronunciou-se sobre a «crise económica».
E apontou responsáveis.

Diz a dita associação que a responsabilidade da crise, a nível europeu, está na «deriva dos governos e instituições europeias».
Postas as coisas assim, somos levados a pensar que o sistema capitalista nada tem a ver com a crise: a culpada é «a deriva», ou, dito de outra forma, se «os governos e instituições europeias» não tivessem derivado e tivessem aplicado o capitalismo como deve ser, não haveria crise nenhuma...

No plano nacional, a supra citada associação opina que «há fortes responsabilidades dos partidos portugueses de direita, mas igualmente a cumplicidade do PS oficial».
Espantoso!: «fortes responsabilidades», no primeiro caso, e «igualmente a cumplicidade», no caso do PS...
Como se o PS não fosse, desde 1976, o chefe de fila da contra-revolução; o principal responsável pela destruição da democracia de Abril e pela restituição do poder ao grande capital; o mais fiel servidor do capitalismo; enfim, como se o PS não fosse o iniciador e o protagonista mais destacado da política de direita - aplicada sempre com o apoio do PSD (quando o PS é governo); e aplicada sempre com o apoio do PS (quando o PSD é governo), numa sintonia absoluta com os interesses dos grande grupos económicos e financeiros.

Quanto à referência ao «PS oficial», apetece perguntar se há algum PS não oficial... e se há, o que é?; o que é que tem feito?; e, especialmente, onde é que está?...

«Renovação Comunista» se chama a coisa.
E também neste caso, apetece perguntar: renovação quê?...

POEMA

ANTRO - 1966


Este é o Homem de Java,
o Pitecantropo,
há uns 600 mil anos!

Este é o Homem de Neanderthal,
há 60 a 70 mil anos!

Este é o Homem-Sequestrado
há já quarenta anos.


Francisco Viana

PARA QUE NUNCA MAIS SEJA TARDE

«Vi lá vários dirigentes partidários» - disse Sócrates, comentando imagens da manifestação dos professores.
E fê-lo ostentando aquele seu peculiar jeito ameaçador, de polícia político à espera da oportunidade para passar à acção...

Há umas semanas atrás, Sócrates viu vários dirigentes dos sindicatos dos professores na lista da CDU e produziu igual reparo censório, igualmente carregado de ameaças...

Os média dominantes dão notícia destas visões de Sócrates, sem comentários.
E os comentadores com lugar cativo nos média dominantes, também não comentam.
Para uns e para outros, se o alvo do ataque é o PCP, está tudo bem e... toma lá que é democrático...
E assim continuarão a fazer se, um dia destes, Sócrates, abusando da maioria absoluta de que dispõe, passar das ameaças aos actos, por exemplo: proibindo os dirigentes partidários de serem sindicalistas e proibindo os sindicalistas de serem candidatos eleitorais (da CDU, obviamente) - e condenando-os se não obedecerem.

É assim a democracia deles: longe, tão cada vez mais longe!, da democracia de Abril - e tão cada vez mais perto da «democracia orgânica» do antigamente...

E é também isto que está em jogo nas eleições do próximo domingo.
Parafraseando um célebre poema:
Primeiro, levaram os comunistas; mas eu não era comunista e não me importei.
Depois, levaram os sindicalistas; mas eu não era sindicalista e não me importei...
Agora, é tarde...

Pois: é bom que se importem - que nos importemos todos - antes que seja tarde.
E as eleições de 7 de Junho constituem uma excelente oportunidade para que, com o voto na CDU - e com Abril de novo - nunca mais seja tarde.

POEMA

O TEMPO É NOSSO


Espancaste-me.
Cegaste-me.
Olho por olho? dente por dente?

Talião perdeu a pena
que embora cheia de penas
o tempo é nosso, da nossa gente.
E mal na noite que dura
a dura dor permanece

já a canção amanhece.


Francisco Viana

Chichorro em Aljustrel


De 29 de Maio a 20 de Junho, as Oficinas de Formação e Animação Cultural, em Aljustrel, têm patente uma exposição do Roberto Chichorro. Grande, grande alegria corre nas veias do nosso privilégio. Para quem ainda não conhece a vila mineira, este é mais um pretexto para uma visita.

QUAL É A ABU GHRAIB QUE SE SEGUE?

Sabe-se que há mais de 2 000 fotografias tiradas na prisão de Abu Ghraib, entre 2001 e 2005, documentando os horrores praticados por soldados dos EUA sobre prisioneiros iraquianos: torturas, violações, abusos sexuais - e confirmando que as atrocidades cometidas pelos soldados norte-americanos no Iraque foram muito mais e mais graves do que se imaginava.

Divulgar ou não divulgar essas fotografias: eis a questão que se coloca ao governo do país responsável pelas barbaridades praticadas.
O Presidente Obama acha que não, e tem feito tudo para impedir a publicação das referidas fotografias.
Não porque não condene e lamente tais horrores, entenda-se: claro que condena!; claro que lamenta!; ou não fosse ele o transportador da onda de «mudança» graças à qual se catapultou para a presidência do mais poderoso país do mundo.
Só que, argumenta Obama, a publicação de tais fotografias viria agravar o sentimento anti-norte-americano provocado pela invasão, destruição e ocupação do Iraque; viria enegrecer a imagem dos EUA aos olhos do mundo - e isso, não!, isso não pode ser!, a imagem dos EUA é intocável!: é a imagem que todos os dias chega aos mais recônditos recantos do planeta: pátria da liberdade, da democracia e da paz; pátria onde, como pode confirmar quem ler as suas leis, a tortura é expressamente proibida e os direitos humanos são integralmente respeitados; pátria que é modelo a seguir por todos os países...

Ou seja: Obama condena e lamenta as barbaridades que os militares do seu país praticaram - mas, a bem da imagem fabricada do seu país, quer esconder bem escondidas as provas dessas barbaridades...
Há que convir que se trata de uma estranha forma de condenação e de lamento - tão estranha que dá vontade de perguntar: qual é a Abu Ghraib que se segue?...

POEMA

SOLIDARIEDADE


Vamos, dêem as mãos.

Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse ,medo, essa raiva?
Porquê esssa imensa barreira
entre o Eu o Nós na natural conjugação do verbo ser?

Vamos, dêem as mãos.

Para quê esses bons-dias, boas-noites,
se é um grunhido apenas e não uma saudação?
Para quê esse sorriso
se é um simples contrair de pele e nada mais?

Vamos, dêem as mãos.

Já que a nossa amargura é a mesma amargura,
já que a miséria para nós tem as mesmas sete letras,
já que o sangrar dos nossos corpos é o vergão da mesma chicotada,
fiquemos juntos,
sejamos juntos.
Porquê esse ar de eterna desconfiança?
esse medo, essa raiva?

Vamos, dêem as mãos.


Mário Dionísio

É DE HOMEM!

O facto de a demissão de Dias Loureiro do Conselho de Estado ter ocorrido na sequência da audição de Oliveira e Costa no Parlamento, é digno de registo.
Não tanto porque Oliveira e Costa tenha produzido revelações sensacionais: na verdade, ele não disse praticamente nada de novo, podendo dizer-se, até, que quase tudo o que revelou já tinha sido objecto de notícias em vários jornais no decorrer dos últimos meses.

O que, na realidade, é novo é a postura de Oliveira e Costa em relação a Dias Loureiro, este seu passar ao ataque (ou ameaçar fazê-lo...), visto que a sua ida ao Parlamento foi como que a afirmação pública de que não está disposto a ser o único culpado e que, se for caso disso, revelará... tudo o que sabe.
Que é muito, certamente. Que envolverá outros, certamente.
(E que, por isso mesmo, provavelmente nunca virá a ser integralmente revelado...)

Ora tudo leva a crer que, isto digo eu, mais do que tudo, foi este aviso que levou Dias Loureiro a demitir-se do Conselho de Estado.
Porque, uma coisa era o processo avançar até onde avançasse, mas com os principais envolvidos bem encostados uns aos outros; outra coisa, bem diferente, será (seria...) cada um começar para aí a dizer o que sabe de cada um...

Quem não vê as coisas por este prisma é o Presidente da República.
E muito provavelmente é ele, e não eu, quem está certo.
De facto, como estamos lembrados, um dia - quando era primeiro-ministro e tinha chamado ao seu Governo vários dos agora implicados no caso BPN - Cavaco Silva garantiu-nos que nunca tinha dúvidas e raras vezes se enganava.
E foi, certamente, essa mesma coragem de afirmar que o levou agora, segundo o Público, a garantir «não ter "nenhuma razão" nem "nenhuma informação" que o levem a perder a confiança no seu conselheiro».
É de homem!

POEMA

(SER FIEL A UMA IDEIA)


Ser fiel a uma ideia
custa mais do que parece.
Quem o é logo se enleia
nas próprias teias que tece.
Por isso há quem a afirmar
no que esconde não repara,
e quem só com perguntar
já a resposta põe clara.
Só quem não pensa não erra.
Erro não é falsidade.
Quanto mais perto da terra,
mais uma ideia é verdade.


Armindo Rodrigues

Messejana - Aljustrel


Quem não se apaixonaria?

A MISTURADA QUE LHES CONVÉM

A propósito da audição de Oliveira e Costa no Parlamento, escreveu Eduardo Dâmaso, Director-Adjunto do Correio da Manhã:
«Esta é a maior e também a mais indecorosa novela portuguesa dos tempos modernos, com manifesto reflexo na credibilidade dos políticos, dos partidos, dos banqueiros e das instituições.»

A intenção da prosa é óbvia: distribuir as culpas por todos os políticos e por todos os partidos - que é a melhor forma de, por um lado, aliviar as culpas dos verdadeiros culpados; de, por outro lado, espalhar a ideia de que os partidos são todos iguais; e de, com tudo isto, ocultar a verdadeira causa deste e de muitos outros casos que por aí andam à espera do carimbo «arquive-se!»: a política de direita que há 33 anos flagela Portugal praticada por governos PS e PSD - sozinhos, de braço dado, e com ou sem o CDS/PP atrelado.

A prova de que o «caso BPN» é um filho natural da política de direita, está no caudaloso envolvimento nele de governantes de governos de Cavaco Silva - que foi, durante trágicos dez anos, um dos mais exímios praticantes dessa política antidemocrática e antipatriótica, ao serviço dos interesses do grande capital.

Ora, metendo todos os partidos no mesmo saco, Eduardo Dâmaso produz a misturada que mais convém aos beneficiários da política de direita.
Que os outros se sintam bem assim ensacados, é natural: estão em casa...
Mas há um partido que não entra nesse saco, e tentar metê-lo lá é tempo perdido: porque essa não é a sua casa; porque é diferente dos que são todos iguais: porque é O Partido.

POEMA

EXORTAÇÃO


Não te escondas em vão
por detrás do teu véu,
rosto velado!
A luz suprema, o sol que se levanta
deste lado,
apenas desencanta
o que de si é já desencantado.


Miguel Torga

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Já se sabe que, em matéria desinformação organizada, não há pai para os média dominantes - e se acaso têm mãe, trata-se, certamente, de mulher de muito má nota...
Apesar disso, eles surpreendem-me constantemente...
Foi o que me aconteceu com o Diário de Notícias de hoje.
Peguei no dito, e fiquei preso a um título da sua primeira página: «A história do português que venceu em Cannes».
Pensei: o DN vai falar do êxito notável que foi a conquista, pelo jovem cineasta João Salaviza, da Palma de Ouro.
No entanto, logo a seguir, e ainda na primeira página, deparei com o seguinte sub-título: «Salaviza fez os tempos de antena do "sim ao aborto" do Bloco de Esquerda»
Interroguei-me: o que é que uma coisa tem a ver com a outra?...
E, de súbito, muitas outras perguntas me assaltaram: como é que o (ou a) jornalista se lembrou, tão oportunamente, desse facto?; será que alguém lhe soprou ao ouvido?, etc, etc....

Bom, mas adiante: na página 44 está a notícia, assinada por Paula Lobo.
Título: «Dos tempos de antena do BE à Palma de Ouro».
Voltei a interrogar-me: o que é que uma coisa tem a ver com a outra?...
Reli o título e re-interroguei-me: será que a jornalista me está a querer dizer que a Palma de Ouro obtida por João Salaviza se deve ao BE?
E respondi-me: pelo menos é isso que está a insinuar...
E passei à leitura do texto corrido, que começa assim:
«Editou alguns dos tempos de antena do Bloco de Esquerda (BE) e um filme para a campanha do "sim" aquando do referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez».
Bom, aqui chegado tudo se me apresentou mais claro...
E foi já sem sombra de surpresa que, no final do texto, mesmo a fechar, lá vinham outra e outra vez os «tempos de antena do BE», blá-blá-blá...


Mas a «história» não acaba aqui: acaba precisamente na última página do mesmo DN, onde João Salaviza é entrevistado.
Uma entrevista que parecia vir mesmo a calhar e da qual a última pergunta é, como não podia deixar de ser, se tinha alguma relação política com o BE...
Ao que o entrevistado respondeu que é completamente apartidário; que geralmente não vota, ou vota em branco; que os trabalhos que fez para o BE resultaram de solicitações de pessoas desse partido com quem tem relações de amizade; que foi um participação muito pequena, pois apenas fez a montagem de dois filmes; que não realizou nem produziu nada...


Relido o conjunto dos textos, não me restam dúvidas de que a jornalista me tentou enganar: de facto, ela não teve tanto a intenção de valorizar o êxito do jovem cineasta premiado, mas mais o objectivo de fazer publicidade ao BE, deixando a pairar a ideia de que o primeiro era membro do segundo... - publicidade enganosa, já que, a pretexto de divulgar uma notícia altamente positiva, estava a tentar vender como bom um produto que está bem longe de o ser.

POEMA

SONETO DO TRABALHO


Das prensas dos martelos das bigornas
das foices dos arados das charruas
das alfaias dos cascos e das dornas
é que nasce a canção que anda nas ruas.

Um povo não é livre em águas mornas
não se abre a liberdade com gazuas
à força do teu braço é que transformas
as fábricas e as terras que são tuas.

Abre os olhos e vê. Sê vigilante
a reacção não passará diante
do teu punho fechado contra o medo.

Levanta-se meu Povo. Não é tarde.
Agora é que o mar canta é que o sol arde
pois quando o povo acorda é sempre cedo.


José Carlos Ary dos Santos

ANZÓIS, PRECISAM-SE

Há um mês, Paulo - Filho de Belmiro - anunciou a tragédia: em 2008, os lucros da Sonae desceram!; em 2008, os lucros da Sonae foram de - «apenas!» - 80 milhões de euros!
No entanto, dando provas de notável visão empresarial, o Filho do Pai produziu três afirmações lapidares:
1 - «Faço um balanço positivo da actuação do Governo»:
2 - «Tenho empatia por José Sócrates»;
3 - «O Público é um jornal de grande qualidade que nos beneficia imenso.
Mais palavras para quê?: é o filho de peixe a exibir as suas excelsas capacidades natatórias...

Há dias, Belmiro - Pai de Paulo - também a pensar em lucros (e, portanto, em exploração), passou receita para as empresas afectadas pela crise (que são todas, obviamente...): ou despedem 50% dos trabalhadores ou reduzem os salários em 50%.
Como se vê, num caso ou noutro está assegurado o essencial: duplicar o grau de exploração e, assim, duplicar os lucros.
É o Pai do Filho a ensinar o b-a-bá da economia de mercado...
E, continuando a aula, fez questão de lembrar que o emprego não é um direito humano: é, isso sim, um acto de caridade, uma prova da bondade do patrão, que o trabalhador deve agradecer portando-se bem, ou seja: não exigindo melhores salários nem melhores condições de trabalho; fazendo horas extraordinárias quando o patrão mandar (e, evidentemente, não as recebendo como extraordinárias); e, especialmente, acabando com esse luxo inadmissível, indecente, indecoroso, que são os fins-de-semana - neste caso expressando-se naquele seu linguajar típico, ordenou, imperativo: «não há emprego para quem quer passar os fins-de-semana com os pés na água».
Mais palavras para quê?: é o peixe velho a exibir-se, defecando boçalidade, arrogância, insolência, autoritarismo - e exalando um nauseabundo e pestilento cheiro a fascismo.

Perceberemos muito melhor a situação que vivemos, se reflectirmos um pouco sobre o significado das declarações destes «peixes».
E dessa reflexão, concluiremos que... anzóis precisam-se - ou seja, que a luta de massas é o caminho.
E que «quando o povo acorda é sempre cedo».

POEMA

(POR MAIS QUE CALEM...)


Por mais que calem
por mais voltas que dê o mundo
por mais que neguem os acontecimentos;
por mais repressão que o estado instaure;
por mais que lavem a cara com a democracia burguesa;
por mais assassinatos de estado que cometam e calem;
por mais greves da fome que silenciem;
por mais que tenham saturados os cárceres;
por mais pactos que engendrem os controladores de classe;
por mais guerras e repressão que imponham;
por mais que tentem negar a história e a memória da nossa classe

Mais alto diremos:
assassinos de povos
miséria de fome e liberdade
negociadores de vidas alheias
mais alto do que nunca, em grito ou em silêncio,
recordaremos os vossos assassinatos
de gentes, vidas, povos e natureza.
De boca em boca, passo a passo, pouco a pouco.


Salvador Puig Antich
(poema escrito na cela por este jovem anarquista
pouco antes de ser assassinado pelo regime franquista,
em 2 de Março de 1974)

DESCULPEM LÁ A MINHA INSISTÊNCIA...

Disse Manuela Ferreira Leite que graças a Deus os comícios acabaram.
Pronto, se Deus disse, está dito - e, assim, fica a pobre senhora liberta por Deus do pesado encargo de falar em comícios.

Ainda sobre comícios: «Os comícios em Portugal são mais moderados e um pouco mais tristes»: disse José Sócrates, comentando a forma efusiva como Zapatero foi recebido no comício-a-dois, em Valência.
Pronto, se Sócrates disse, está dito - e, assim, fica o secretário-geral do PS, por um lado, redimido da vergonha de não ter sido por aí além aplaudido no tal comício-a-dois; e, por outro lado, aliviado da vergonha que foi ir discursar em castelhano a Valência e ouvir o Zapatero discursar em castelhano, em Coimbra...

Mas não são apenas os comícios que estão dar que falar: também as grandes mobilizações de massas estão na ordem do dia.
De sábado para cá (obviamente...), um afinado coro de vozes especializadas disse que, tal como os comícios (ou mais ainda...), as grandes manifestações estão «ultrapassadas», «deslocadas da realidade actual», não têm qualquer «significado» nem «consequências» - isto, para além de que 85 mil foi o número fornecido pelo PCP...
E num jornal de hoje, um muito apregoado especialista na matéria, sintetizou assim a coisa: «as grandes manifestações, como a do PCP no sábado, em Lisboa, já pouco valem» - o que vale, isso sim, garante o supra-citado especialista, são «as sondagens»...
Pronto, se eles o dizem, está dito - e, assim, sacodem o receio que a Marcha do PCP/CDU provocou nas hostes dos mandantes e praticantes da política de direita & seus derivados...


Tudo isto exibindo em pleno o carácter da comunicação social dominante e as razões da sua existência - e mostrando, também, que, sem ela, os partidos que dela vivem e de sondagens se alimentam, seriam todos uns ilustres desconhecidos...
Ou, dito de outra forma: sendo a comunicação social dominante propriedade dos grandes grupos económicos e financeiros, os partidos por ela apoiados política e eleitoralmente são aqueles - e só aqueles - que, directa ou indirectamente, servem os interesses dos seus donos.
Desculpem lá a minha insistência...

POEMA

ESMAGADOS SOB AS PATAS...


Esmagados sob as patas
das bestas taciturnas
os nosso peitos ansiosos,
que havemos nós de fazer senão, irados,
mesmo imprudentemente,
erguer-nos contra quanto
é ordem truculenta,
crença mutiladora,
ou crime sistemático?


Armindo Rodrigues

CDU, Com Confiança!


Nos olhos embaciados ainda descortinei o sorriso de amigos que nos esperavam, para ver passar também as gentes de Aljustrel e a sua mina, as suas preocupações, a sua luta, o seu sonho comum que ali unia milhares e milhares de trabalhadores, operários, camponeses, sem terra, quadros técnicos, intelectuais, pescadores, mareantes, estudantes, desempregados, reformados, pensionistas, gente nova, gente velha, gente boa! lá estavam, aplaudindo os da sua classe que nas gargantas traziam a Lisboa - e à festa/luta da CDU - os hinos que neste Alentejo servem de alento para os dias amargos que trazemos. Lembro-me bem... atravessámos a Praça do Saldanha a cantar, a gritar, VENCEREMOS, VENCEREMOS, COM AS ARMAS QUE TEMOS NA MÃO. VENCEREMOS VENCEREMOS A BATALHA DA TERRA E DO PÃO! e venceremos! porque está escrito desde o inicio dos tempos em que os corações bons se reconhecem e sabem ser de injustiça a exploração dos seus iguais. Mas, dizia-vos, nos olhos embaciados descortinei o sorriso dos meus amigos. E vi um Partido inteiro em tamanha força. Lá estava a Guida, o Casanova, a Maria, a Sal, o Poeta no Popular e o Sérgio... e a Zé, e todos os amigos que fazem deste o grande Partido. O Partido dos Trabalhadores e do povo. Gritei Avenidas fora... Avenidas pintadas de um sonho que Lisboa já saudosa de Abril brindou com sol - numa tarde que muitos anunciavam de trovoada! Punho erguido, ao desafio daqueles que tudo fizeram - e fazem! - para silenciar esta grandiosa demonstração de força, de sonho, de confiança! de certeza de que sim, é possível, um mundo melhor, uma democracia avançada, um mundo sem exploração do homem pelo homem, com respeito pela natureza e por todos os seres que, connosco, tomaram de empréstimo este país e este mundo. As avenidas foram rios, e a praça do Marquês um mar de utopia desaguando na possibilidade que cada um oferecia da sua enormíssima vontade! Enquanto caminhava, nos momentos em que, fazendo o silêncio descansava a rouquidão assanhada na garganta, os meus passos ensaiavam a fala do homem nascido na voz do Adriano. Outras vezes, embora em sentido contrário (porque íamos descendo!), o Fausto assaltava-me o pensamento e ouvia «por este rio acima» milhares e milhares de companheiros e camaradas, subindo arduamente o difícil leito do rio, rasgando as correntes contrárias do capitalismo, gritando o descontentamento e o sonho... augurando uma vitória que, lembrando as palavras de um grande amigo, não é apenas possível, como inevitável! grande grande é a viagem! grande grande, muito grande tripulação tem esta nau! naveguemos pois! rumo à vitória!
Viva a CDU!

É SIMPLES

Éramos 85 000.

E a pergunta a fazer é esta:

que outra força política seria capaz de erguer uma iniciativa com aquela dimensão e aquela força?

E a resposta é esta: nenhuma!

Por isso, os média dominantes têm feito (e continuarão a fazer) tudo para menorizar, desvalorizar, silenciar, a Marcha - apresentando-a como uma «coisita» muito inferior a umas tantas dezenas ou centenas de pessoas em sessões do PS, do PSD, do CDS/PP e do BE.
Não surpreende que assim façam: é para isso que existem, já que, como é sabido, são propriedade do grande capital.

No que nos diz respeito, é simples: A MARCHA CONTINUA!

POEMA

PRIMEIRO RETRATO DO NATURAL


Ela queria perceber o que se passa.
Queria?

Passa a rua às risadas.
«Uscumunistas?»

Gritam flores da jarra.
Estão inocentes?

O telefone terrinta.
É o destino?

Na bandeja de prata, o sedativo.
Por tomar?

Na sala das porcelanas, a senhora.
Por viver.

*

De sentinela à porcelana
está Inês ou Teresa ou Ana
(Maria, deixa-se ver).
Tem à mão uma bengala
para o que der ou vier:
«Se os bolchevistas entrarem,
vão ver, vão ver!
As porcelanas inteiras
é que eles não hão-de ter!»

*

Porcelana implora
Senhora insiste.
Até que a levam prà cama,
pauzinho em riste, zangada.

É uma terrina vazia
que em sonhos se suicida
à bengalada.


Alexandre O'Neill