17 DE MAIO DE 1959

No dia 17 de Maio de 1959... - dir-me-ão: foi inaugurado o Cristo Rei.
E é verdade. E esse foi o grande acontecimento do dia. Não contesto.

Todavia, outros acontecimentos, ocorreram nesse longínquo dia 17 de Maio de 1959. Acontecimentos de menor relevância, sem dúvida, sem direito a comemoração de cinquentenário nem nada que se pareça, mas mesmo assim dignos de registo - pelo menos por quem os viveu.

No que me diz respeito, do dia da inauguração do Cristo Rei, o que mais vivamente recordo é uma reunião nacional alargada da União da Juventude Portuguesa (UJP) - movimento juvenil antifascista que havia sido criado um ano antes (no decorrer da campanha para as presidenciais, na qual os candidatos antifascistas Arlindo Vicente e Humberto Delgado enfrentaram o candidato fascista Américo Tomás).
A reunião realizou-se no Monsanto - nem mais nem menos! - e, curiosamente, sem grandes cuidados de vigilância...

E tudo isso graças, precisamente, à inauguração do Cristo Rei.

Eu explico: pensámos nós, jovens da UJP - e pensámos bem - que a multidão que se deslocaria a Lisboa nesse dia, nos permitiria reunir passando despercebidos aos olhos e ouvidos da PIDE; pensámos nós - e pensámos bem - que o Monsanto seria invadido por grupos de gente a pic-nicar e que o nosso «grupo» seria apenas mais um...
E assim foi: durante parte da manhã e da tarde desse dia da inauguração do Cristo Rei, mais ou menos disfarçados de inaugurantes, discutimos e decidimos o que nos pareceu necessário e possível no sentido de darmos mais força à nossa luta contra o regime fascista.
E assim foi o nosso acontecimento desse dia 17 de Maio - um dos tais acontecimentos sem direito a comemoração cinquentenária.
Mas com direito a ficar, na memória dos que o protagonizaram, como o grande acontecimento desse dia 17 de maio de 1959.

POEMA

(A gente da mesa vizinha só fala
em dinheiro, negócios de compra e venda...
E, no entanto, temos de salvar o mundo,
homens. Dar-lhe outro sentido.)


Tudo vendem e compram: sonhos, estátuas de sebo,
palácios para idílios de espectros,
sorrisos de crocodilo,
frio arrancado das lanças...

Só não percebo
porque não vendem o luar a metro
e as estrelas a quilo
(para caixões de crianças).


José Gomes Ferreira

MAIS UM...

Diz o Público de hoje que:

«O processo do chamado "caso Judas", no qual o antigo presidente da Câmara de Cascais José Luís Judas e o empresário Américo Santos eram arguidos, foi arquivado sem que nenhum dos acusados tenha ido a julgamento».

Sem mais comentários, acrescente-se, a bem do rigor, que José Luís Judas era Presidente da Câmara eleito pelo PS.

POEMA

(Saltimbancos)


Ao som dum sol-e-dó
vão dois maltrapilhos
a ensinar os filhos
a dançar no pó.

Que pena esta sem gente sem pão
não ter
imaginação
para sofrer!


José Gomes Ferreira

QUE PIVETE!

O jornalista alemão Wolfgang Munchau, em artigo publicado no Financial Times, escreveu assim:

«Não há nada na política europeia que cheire pior do que a aparente inevitabilidade de mais cinco anos de Durão Barroso. Ele é o caniche de Ângela Merkel».

Palavras certeiras. Ou quase: porque infelizmente a política da União Europeia, exportada para os diversos países, cheira que tresanda para os trabalhadores e os povos; e porque caniches de chefes poderosos são coisa trivial na UE- como o demonstram Ângela Merkel e os seus pares (de Sarkozy a Zapatero, de Berlusconi a Sócrates...), no cumprimento fiel e servil dos ditames do grande capital.

Em todo o caso, é curiosa e por demais elucidativa esta imagem mal-cheirosa e canina que o jornalista nos dá de Durão Barroso.

E é certamente tendo em conta o mau cheiro do caniche que José Sócrates defende a continuação de Barroso como presidente da Comissão Europeia - em nome de um «patriotismo» que, além de provinciano e ridículo, se revela, agora, intensamente mal cheiroso...

Que pivete!

POEMA

UM FANTASMA PERCORRE A EUROPA


...E as velhas famílias fecham as janelas,
reforçam a segurança das portas,
e o pai corre às escuras para os Bancos
e o pulso pára-lhe na Bolsa
e sonha de noite com fogueiras,
com reses a arder,
que em vez de trigais tem chamas,
em vez de grãos, chispas
caixas,
caixas de ferro, cheias de faúlhas.
Onde estás,
onde estás?
Os camponeses passam e calcam-nos o sangue.
O que é isto?

- Fechemos,
fechemos depressa as fronteiras.
Vede como avança rápido no vento de Leste,
das estepes vermelhas da fome.
Que os operários não lhe ouçam a voz,
que o seu silvo não penetre nas fábricas,
que não divisem a sua foice erguida os homens dos campos.
Detende-o!
Porque transpôs os mares,
percorrendo toda a geografia,
porque se esconde nos porões dos barcos
e fala com os fogueiros
e trá-los tisnados para a coberta
e faz com que o ódio e a miséria se sublevem
e as tripulações se levantem.

Fechai,
fechai os cárceres!
A sua voz estilhaçar-se-á contra os muros.
Que é isto?

- Mas nós seguimo-lo,
fazemo-lo baixar do vento Leste que o traz,
perguntamos-lhe pelas estepes vermelhas da paz e do triunfo,
sentamo-lo à mesa do camponês pobre,
apresentamo-lo ao dono da fábrica,
fazemo-lo presidir às greves e às manifestações,
falar com os soldados e os marinheiros,
visitar os pequenos empregados nas oficinas
e erguer o punho aos gritos nos Parlamentos do ouro e do sangue.

Um fantasma percorre a Europa,
o mundo.
Nós chamamos-lhe camarada.


Rafael Alberti

Manifesto Comunista!

PROPAGANDA?

«Preços da carne, peixe e leite voltam a descer» - informa o Jornal de Notícias de hoje, à largura de toda a sua primeira página.
Curiosamente, esta mesma notícia, mais carne menos peixe, foi dada por este mesmo jornal há uns tempos atrás.
Na altura, a anunciada descida de preços não chegou aqui, ao «meu» supermercado, talvez porque se tenha perdido pelo caminho, ou por falha de comunicação, ou assim... - como então fiz questão de sublinhar.

Veremos se desta vez a sensacional notícia se confirma, isto é, se os meus «preços da carne, peixe e leite» descem mesmo.
Caso contrário, terei de concluir que tais notícias se inserem na campanha de propaganda à política do Governo - tanto mais que não é costume os aumentos serem anunciados... e muito menos em parangonas de primeiras páginas.

POEMA

AVISO


A noite que precedeu a sua morte
foi a mais breve de toda a sua vida
Pensar que estava vivo ainda
era um fogo no sangue até aos punhos
A sua força era tal que ele gemia
Foi quando atingia o fundo deste horror
que o seu rosto num sorriso se lhe abriu
Não tinha apenas um único camarada
mas sim milhões e milhões de camaradas
para o vingarem sim bem o sabia
E então para ele ergue-se a alvorada


Paul Éluard

PRONTO!: NÃO SE FALA MAIS NISSO...

O inquérito ao caso das propostas de obras assinadas por José Sócrates na década de 80, foi arquivado.

Foi o DIAP de Coimbra que assim decidiu. Por considerar que «os eventuais crimes já prescreveram»

Pronto!: não se fala mais nisso...

(agora só falta deixar que passe o tempo necessário para que prescrevam todos os outros processos sobre outros «eventuais crimes»)

POEMA

DE PÉ, OH COMPANHEIRO


Cantar aqueles que partiram
é dar força à liberdade
as flores vermelhas que os cobriram
tornaram alegre a saudade.

Foi naquela tarde de Maio
que lhes dissemos adeus
quem disser adeus em Maio
nunca se afasta dos seus.

De pé, de pé oh companheiro!
De pé e punho levantado
o que morreu é o primeiro
a estar de pé ao nosso lado.

Quem tombar no caminho
continua ao nosso lado
partir não é estar sozinho
é lutar acompanhado.

Por isso os que não ficaram
nem calados nem cativos
em Maio não nos deixaram
pois para nós só há vivos.

Na batalha que travamos
não há tristeza nem morte
a bandeira que levamos
é a razão do mais forte.

Baixando à terra com ela
quem morre devolve à terra
a semente ainda mais bela
contra a fome e contra a guerra.


José Carlos Ary dos Santos

Ervidel do Alentejo!


Estiveram lá todos... mesmo os que, por algum motivo que já me quiseram dizer, não puderam ir. estiveram lá todos. e ainda tenho a voz embargada pelas lágrimas de ter reunido tantos amigos... nestas alturas um homem repara nos passos que dá... e, honestamente, não sei quais tenha dado para merecer tantos e tão bons amigos... mas lá estavam... mais de cem...lá estavam. cada um marcando profundamente a sua presença no meu coração rendido a tamanha demonstração de tão nobre sentimento. Bem sei que tínhamos a desculpa do livro... afinal, estava a ser lançado um livro que relata histórias (a HISTÓRIA) das gentes da terra. E estava tudo curioso. naturalmente. lá estão as fotografias dos avós, dos pais, dos irmãos... do sofrimento e das alegrias das suas vidas que, de uma forma ou de outra, moldaram também a história deste povo. do nosso povo. do povo a que pertenço. mas lá estavam todos. e no final eu percebi que apenas queriam retribuir o abraço que sentiram pela minha parte -e, essencialmente, da Junta de Freguesia - por termos sabido dar voz às suas vozes habitualmente esquecidas pela história oficial.
lá estavam todos. o luís, o valverde, o domingos, o caixinha, o cardador, o raimundo, o inácio... a vanessa, o gui, os meus pais... e agora cá estão todos... bem apertados no meu peito, pois não tenho mais espaço no coração para tanta e tão boa gente. sábado nasci novamente. desde lá que sou filho de Ervidel. amanhã, quando me virem em qualquer lugar, não digam «lá vem o alentejano!» embora não estejam errados... sejam mais específicos! lá vem o ervidelense!
a todos os amigos: muito obrigado

( para mais pormenores acerca da publicação clicar no titulo)

POEMA

BALANÇA


No prato da balança um verso basta
para pesar no outro a minha vida.


Eugénio de Andrade

DO PORMENOR AO PORMAIOR...

Na sua crónica de hoje no Jornal de Notícias, Manuel António Pina comenta criticamente - e com justeza, a meu ver - as Queima das Fitas: «alarvidades+Quim Barreiros+garraiadas+comas alcoólicos»...

A dada altura, o cronista faz comparações:
«No antigo regime, os estudantes universitários eram pomposamente designados de "futuros dirigentes da Nação". Hoje, os futuros dirigentes da Nação formam-se nas "jotas" a colar cartazes e a aprender as artes florentinas da intriga e da bajulice aos poderes partidários, enquanto à Universidade cabe formar desempregados ou caixas de supermercados».

É verdade que assim foi - e é quase verdade que assim é.
No que respeita ao passado, há apenas a lamentar que o cronista, em vez de escrever «antigo regime» não tenha escrito regime fascista, e assim se tenha deixado levar, inadvertidamente, na onda de branqueamento do fascismo dos historiadores de serviço...
No que respeita ao presente, metendo as «jotas» todas no mesmo saco, o cronista procede a uma generalização bem ao arrepio da realidade.
É que, de facto, da mesma forma que os partidos não são todos iguais, também as «jotas» não o são, como nos mostra a prática da Juventude Comunista Portuguesa, distinta da de todas as outras «jotas» - essas, sim, todas iguais entre si.

Dir-me-ão que se trata de um pormenor.
Talvez.
Ou talvez não. Porque como a vida e a experiência nos mostram, às vezes, o chamado pormenor revela-se como autêntico pormaior...

POEMA

SEMPRE


Éramos muitos...

De vós só restam a lenda
e as cruzes espalhadas
pela vinha
de cepas mutiladas.
E agora enchemos o vosso silêncio
de novas palavras,
palavras a que os vossos lábios
não estavam afeiçoados.

Sois a lenda que surge e teima
em vestir-se com as luzes
que mal se adivinham.
Sois o destino já cumprido,
a história enraizada na vinha
de cepas mutiladas.

Éramos muitos...

e somos mais,
apesar das cruzes
que apodrecem ao relento,
apesar das palavras que nunca chegam
a ser iguais para toda a gente,
apesar da sufocante espera.

Éramos muitos.
E somos mais.


Félix Cucurull

Apresentação do Livro "Assalariados Agrícolas de Ervidel"

Ei-lo!
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Recepção aos convidados pelo Exmo. Sr. Presidente da Junta de Freguesia de Ervidel.

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Na abertura da sessão, actuou o Grupo Coral As Margens do Roxo

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O público presente.

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A apresentação com intervenções do Presidente da Câmara de Aljustrel, Presidente da Junta de Freguesia, José Casanova que redigiu o prefácio e o Autor do livro António Lains Galamba
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O público encheu o Museu Agrícola de Ervidel.
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A sessão de autógrafos.

POEMA

(No Eléctrico)


E se eu de súbito gritasse
nesta voz de lágrimas sem face!:

Eh! companheiros da plataforma
presos ao apagar do mesmo pavio!
Por que não nos amamos uns aos outros
e damos as mãos
- sim, as nossas mãos
onde apodrecem aranhas de bafio?

Eh! companheiros da plataforma!
(Não empurrem, Irmãos.)


José Gomes Ferreira

O DIA SEGUINTE

De hoje a um mês - 8 de Junho - será o dia seguinte às eleições para o Parlamento Europeu e, pouco depois, os deputados eleitos iniciarão (ou reiniciarão) as suas funções.
Cada um à sua maneira, como temos visto até aqui - sendo certo e sabido que, dos actuais cabeças de lista, Ilda Figueiredo será a que mais trabalho desenvolverá e a que, naquela instância europeia, melhor defenderá os interesses de Portugal e dos portugueses.
De facto, a postura singular dos eleitos da CDU faz a diferença: o que dizem aos eleitores durante a campanha eleitoral é o que fazem nos órgãos para que foram eleitos.
Lá como cá.

Há um outro aspecto que mostra a diferença entre o PCP/CDU e todos - todos! - os outros partidos: é o que tem a ver com o dia seguinte às eleições.
No caso do PCP e dos seus aliados, no dia seguinte, seja qual for o resultado obtido, a luta continua - sendo certo que quanto melhor for o resultado obtido mais forte será a luta.
Porque é para isso que os comunistas querem obter mais votos em cada eleição: para fortalecer a luta.

Mesmo quando não são eleitos, não é por isso que os candidatos comunistas desistem de lutar pelas propostas com que se apresentaram aos eleitores e de cumprir os compromissos que com eles assumiram.
Um exemplo: nas últimas eleições legislativas, Ilda Figueiredo foi cabeça de lista da CDU pelo distrito de Aveiro. Não foi eleita.
No dia seguinte, às oito da manhã, Ilda Figueiredo estava à porta de uma empresa do distrito, levando a sua solidariedade aos trabalhadores ameaçados de perderem os seus postos de trabalho.
Dos deputados que o eleitorado do distrito elegera na véspera, nem um lá estava...
E muito provavelmente, parte grande dos trabalhadores dessa empresa era nesses deputados que tinha votado...


De hoje a um mês - 8 de Junho - será o dia seguinte às eleições para o Parlamento Europeu. Esperamos que o eleitorado, dando mais votos à CDU, dê mais força à luta que irá prosseguir.
E assim será se cada um de nós, activistas da CDU, der o seu contributo para levarmos por diante uma grande e esclarecedora campanha eleitoral - uma campanha que marque a diferença e que dê mais força à luta do dia seguinte.

POEMA

O INIMIGO


Grandes olhos frios espiam esta calma
fictícia em que vives. Olhos de inimigo
que chove sobre ti a sua areia,
migalha-te o futuro, cobiça-te os joelhos,
oferece longas jornas de fome, salários
feitos de medo e asco.

Sobre os campos, as fábricas, o inimigo
sopra no teu querer uma paralisia.
Inventa sombras, disfarça a sua imagem;
a linha que o define, fugidia,
em vão a pensarás, em vão teu lápis
tentará aprisionar o seu contorno.

Mas se avanças um passo logo o vês
nesses olhos que tentam fascinar-te.


Egito Gonçalves

O FOLCLORE

O Bloco Central está na ordem do dia: chovem as opiniões de dirigentes dos partidos da política de direita e dos analistas de serviço sobre a possibilidade de PS e PSD juntarem os trapinhos, caso nenhum obtenha a maioria absoluta nas legislativas.
Diz um que o país não está assim tão mal que justifique essa medida «salvadora»; diz outro que tal medida seria «o 112 da crise»; outro diz «nunca!»; outro diz «talvez»; outro diz «sim»...
No fundo, o que todos querem dizer ao dizer o que dizem é que o essencial é assegurar a continuação da política de direita da qual o PS e o PSD têm sido os executores exclusivos (quando necessário com o CDS/PP), desde que Mário Soares a iniciou, já lá vão 33 sombrios anos.

Para o grande capital - que é o dono disto tudo, inclusive dos executores e propagandistas da política de direita - o Bloco Central, não é, de todo, a solução ideal: convém-lhe muito mais que seja um dos dois partidos, não importa qual, a cumprir a tarefa de bem aplicar essa política, de modo a que o outro possa continuar a fingir que é oposição, e a manter a patranha de que PS e PSD são opositores e alternativa um ao outro.
Como temos visto, essa modalidade tem a enorme vantagem de fazer com que, em cada eleição, milhões de eleitores descontentes com o governo PS (ou PSD), votem no PSD (ou no PS), isto é: que milhões de eleitores descontentes com a política de direita, voltem a votar nessa política julgando que estão a votar numa política diferente.

No entanto, os senhores do grande capital sabem que o capitalismo vive a maior e mais grave de todas as suas crises - que não é a última mas que confirma que a última há-de chegar...
Sabem que vão «superar» essa crise da única maneira que conhecem: acentuando a exploração dos trabalhadores.
Sabem, também, que essa crise atinge todo o mundo capitalista de que Portugal faz parte.
Sabem, ainda, que quando a crise cá chegou, já a política de direita mergulhara o País numa crise profunda que, agora, tudo indica vir a ser a mais grave e duradoura de sempre.
Sabem, finalmente, que os trabalhadores portugueses e as suas organizações de classe não lhes darão tréguas e tudo farão para derrotar a política de direita e impor um novo rumo para o País, por Abril de novo.

E sabendo tudo isto, os donos disto tudo não correrão riscos: se considerarem que o governo de Bloco Central é o menos arriscado, tomarão as medidas necessárias para que ele se concretize.
E se assim for, os líderes dos partidos da política de direita farão o que lhes for dito.
E os analistas de serviço analisarão de acordo com o que os patrões disserem.
Porque é para isso que servem, uns e outros, enquanto serventuários do grande capital
Tudo o resto é folclore.

POEMA

A BOMBA


O primeiro sopro arrancou-lhe a roupa;
o imediato levou também a carne.
Ao longo da rua
durante alguns segundos correu o esqueleto.
Mas a rua já não estava,
estava toda no ar;
de lá caíam bocados de prédios, bocados
de crianças, restos de cadilaques...
O esqueleto não compreendia sozinho
aquela situação:
deixou-se tombar sobre algumas pedras radioactivas
e permitiu na queda o extravio de alguns ossos.

(Caso curioso: o coração
pulsou ainda três ou quatro vezes
entre o gradeamento das costelas.)


Egito Gonçalves

100 DIAS DE MUDANÇA

«Deito-me com a sensação de que as decisões que tomamos são as mais correctas», confessou Obama - que, contudo, não disse com que sensação se levanta. Nem especificou quem é que beneficia com as «decisões correctas» que toma:
os trabalhadores?
o grande capital?
Alguém há-de ser...

Ainda Obama: «Os críticos disseram que tenho feito de mais, que não posso fazer tudo ao mesmo tempo. Rejeito esse ponto de vista».
Sendo certo que com críticos destes, Obama não precisa de ter amigos... não é menos certo que o Presidente dos EUA está farto de demonstrar que pode fazer tudo ao mesmo tempo.
Eis um exemplo disso: na segunda-feira passada, no Afeganistão, as forças militares norte-americanas desferiram o ataque mais mortífero desde que os EUA invadiram o país, em 2001: mais de 120 pessoas, em grande parte mulheres e crianças, foram mortas.
De imediato - ao mesmo tempo... - Obama deu instruções a Hillary Clinton para dizer que «os EUA lamentam profundamente a perda de vidas civis».

Matar e lamentar os mortos: eis Obama a fazer tudo ao mesmo tempo - e a justificar o futuro: continuar a matar. E a lamentar. E a matar. E a lamentar. E a matar. E a matar. E a matar.

POEMA

JOEIRA!


Até quando te calarás, povo?
Até quando te quedarás irresoluto?
Até quando te verei receoso?
Até quando serás ingénuo?
Até quando escutarás
os pregadores
que exploram
a tua inefável candura?
Mestres e guias infalíveis...?
Há-os de voz potente
e de botas ferradas;
há-os mais suaves,
até angélicos
e muito sábios...
Há os que usam, com palavras demasiado escolhidas,
a tua língua.
Joeira, povo,
com uma peneira finíssima
e esfrega a pele
nos cardos que te rodeiam
até que a dor se torne insuportável,
até sentires a dor soar
como um clarim de combate.


Félix Cucurull

UMA QUESTÃO DE IRRITAÇÃO

O País aguarda ansiosamente, há meses, que Manuel Alegre anuncie a sua decisão sobre se, sim ou não, se recandidata a deputado pelo PS.
Ou seja: se, sim ou não, vai continuar a,
primeiro, enquanto deputado do PS, votar a política de direita,
e depois do mal feito, em inflamada e grandíloqua fala de esquerda, declamar a inócua declaração de voto.


Por várias vezes, os jornais anunciaram datas para o magno acto, mas depois, sabe-se lá porquê, a revelação foi adiada - e tantas vezes isso aconteceu que os jornalistas de serviço a Alegre, passaram a falar de «tabu».
Entretanto, Alegre, sempre sublinhando que depois se verá, vai dizendo que sim, mas; que não, mas; que talvez, mas...
Há quem diga que este buliçoso saltitar é uma forma de Alegre aparecer, ser falado, mostrar que existe...
Não concordo: Alegre não precisa disso para estar praticamente todos os dias nos jornais - e pode mesmo dizer-se que, comparável a ele nessa matéria, só o omnipresente Louçã, cujo, sabe-se bem porquê, é o filho querido dos média-propriedade-do-grande-capital.

Vem tudo isto a propósito da espectacular notícia hoje dada à luz pelo prestimoso Diário de Notícias.
«Tabu de Alegre termina dia 15»: diz-nos o jornal, na sua primeira página, acompanhando a sensacional informação com uma foto não menos sensacional de Alegre. E lá dentro, numa página inteira, repete-se o título e acrescenta-se que «a decisão final» está marcada para o dia 15.
Parece que desta vez é que é!
Será?

Se me perguntarem por que gasto tanta cera com tão minúsculos defuntos, por que razão Alegre, Soares & Cia. aqui são chamados com frequência, responderei que é uma questão de irritação, isto é: que nada me irrita mais do que esta gente que, arrotando esquerda por todos os orifícios corporais, anda há 33 anos a apoiar, de facto, a política de direita.

Anathema, Hoje!

Hoje, os britânicos Anathema estão presentes na Incrível Almadense, em Almada, para um concerto. Deixo-vos uma das minhas músicas favoritas.

Sleepless

And I often sigh
I often wonder why
Im still here and I still cry

And I often cry
I often spill a tear
Over those not here
But still they are so near

Please ease my burden

And I still remember
A memory and I weep
In my broken sleep
The scars they cut so deep

Please ease my burden
Please ease my pain

Surely without war there would be no loss
Hence no mourning, no grief, no pain, no misery
No sleepless nights missing the dead ... oh, no more
No more war


POEMA

FIDELIDADE


Creio no homem. Já vi
costas rasgadas a golpes de chicote,
almas cegas avançando aos arrancos
(Espanhas a cavalo
da dor e da fome). E acreditei.

Creio na paz. Já vi
altas estrelas, incendiadas regiões
amanhecendo, rios ardentes
e profundos, caudal humano
para outra luz: Vi e acreditei.

Creio em ti, pátria. Digo
o que vi: relâmpagos
de raiva, amor falado e uma faca
rangendo, fazendo-se em pedaços
de pão: se bem que haja hoje apenas trevas
eu vi e acreditei.


Blas de Otero

SABEM-NA TODA

Jorge Sampaio disse ao Diário Económico que está muito preocupado com a «governabilidade» do País, que ele considera fundamental para assegurar a «estabilidade».

«Governabilidade» e «Estabilidade» são palavras-chave do discurso dos mandantes, praticantes e propagandistas da política de direita - e, na situação actual, a utilização de tais palavras desemboca sempre, inevitavelmente, na necessidade de um governo de bloco central.
Foi assim com o ex-Presidente da República nesta entrevista, e assim foi, por exemplo, com o presidente Van Zeller, há dias...
Num caso e noutro o objectivo é o mesmo: que o futuro governo prossiga, sem entraves de qualquer espécie e em perfeita estabilidade, a política de direita que tem vindo a espalhar a instabilidade na vida da imensa maioria dos portugueses.


Se eu estivesse entre os jornalistas que entrevistaram Jorge Sampaio, ter-lhe-ia pedido que explicasse quais as razões que o levam a defender, para o Governo, uma aliança com o PSD, e para a Câmara de Lisboa uma coligação de «esquerda»
E se ele, recorrendo ao paleio da praxe, fugisse à resposta, chamar-lhe-ia a atenção para dois aspectos:
1 - propondo alianças (que sabe serem inconcretizáveis) com o PCP, atira para este partido as culpas de não haver uma coligação de «esquerda» em Lisboa - e de tal forma o alvo é cirurgicamente esolhido que nesta coligação de «esquerda» que não se concretizará, o BE nunca é citado... o que permite despejar todas as culpas sobre o PCP.
2 - concretizada, ou não, essa coligação de «esquerda» em Lisboa, o PS, com esta manobra, fica sempre a ganhar:
se houvesse coligação, ela daria ao PS aquela imagem de esquerda que tão útil lhe seria para levar por diante, no Governo, a política de direita.
não havendo coligação, fica no ar essa mesma imagem de «esquerda» - da «esquerda» sofredora que fez todos os esforços para uma coligação mas esbarrou na intransigência sectária do PCP...

Como se vê, estes cavalheiros sabem-na toda: seja a inventar manobras politiqueiras do mais baixo nível; seja a organizar provocações como a do passado 1º de Maio; seja a - suprema desvergonha e desfaçatez - praticar uma política de direita em nome da «esquerda» e do «socialismo»...

POEMA

O OUTONO DOS TIRANOS


Tirano vem, tirano vai,
no vai-e-vem sempre cai,
não há tirano que não caia.
Vive no cai-que-não-cai
com sua lei, sua laia
temendo o homem que vai,
o homem que vai
e vaia.


Sidónio Muralha

E DISSE BEM

O caso nada tem de inovador, insista-se: trata-se, em todos os aspectos, de uma repetição de outros casos com idênticas génese, desenvolvimentos e objectivos.
Em todos os aspectos: desde a preparação do incidente; à imediata leitura comum do ocorrido por parte dos média dominantes, logo seguida da propagação exaustiva dessa leitura, tornando-a «verdade universal».
A partir daí, é o que estamos a ver, a ouvir e a ler: uma vergonha!
E é o que, presumivelmente, continuaremos a ver, a ouvir e a ler nos tempos mais próximos.

«Agredido», «insultado», «violência», «comunistas», «sectarismo do PCP»: eis como, com meia dúzia de palavras, se constrói uma gigantesca e despudorada operação de propaganda; eis como a acção de meia dúzia de pessoas (uma dúzia?, pronto: uma dúzia) que caíram numa armadilha tosca, foi pretexto para, como desde o início estava previsto, fazer do PCP o alvo a abater e fazer do PS uma cândida e inocente vítima que, nessa qualidade, aproveita para insultar e caluniar o PCP - sem que, neste caso, os insultos e calúnias sejam motivo para qualquer reparo por parte dos média dominantes...

(O editorialista do DN de hoje, talvez por efeito de qualquer longínquo rebate de consciência, reconhece que «os manifestantes que agrediram Vital Moreira» o fizeram «apenas por palavras e alguns gestos sem grande violência»... Mas isso não o impede de seguir o rasto da leitura fabricada e de, até, a cavalgar perigosamente)

«O PCP manifesta a sua discordância e lamenta os incidentes verificados em Lisboa, num acto isolado de alguns manifestantes, mas rejeita as acusações, insultos e calúnias dirigidas pelo PS contra o PCP»: disse o dirigente comunista Francisco Lopes.

E disse bem.

POEMA

ENTRA-ME EM CASA...


Entra-me em casa o dia.
Entra-me em casa a noite.
Entra-me em casa o vento.
Entra-me em casa só
quem eu gosto que entre.


Armindo Rodrigues

O COZINHADO

Como era previsível, as primeiras páginas dos jornais de hoje são dedicadas à propaganda eleitoral do PS. Aparentemente, não se trata de publicidade com sinal de pago... mas é claro que é disso que se trata: paga o grande capital, proprietário desses jornais.

Há que reconhecer que o cozinhado foi preparado com todos os matadores.
Depois das «entradas» de ontem, em que a «vítima Vital» fez o seu número, cumprindo o que lhe era exigido (é certo que sem o brilhantismo de Soares, mas também não se lhe pedia o impossível...), os média serviram o primeiro prato.
Pelo Diário de Notícias ficamos a saber que «manifestantes da CGTP expulsam Vital do 1º de Maio»; e que «Sectarismo irrompe no 1º de Maio»; e que «resta saber se os portugueses que este ano são chamados a votar por três vezes terão em linha de conta as agressões e os insultos a Vital Moreira» - ora cá está o que eles queriam: votos!.
Cá está a explicação para o facto de o candidato Vital Moreira - que não é militante do PS - ter integrado a delegação que, em representação daquele partido, foi «cumprimentar o secretário-geral da CGTP». Sabendo todos - o candidato, o partido que o propõe e os jornais do grande capital - que era bem provável que, por razões óbvias, acontecesse o que aconteceu.
Quanto à comemoração do 1º de Maio, o DN só não a ignora totalmente porque para falar de Vital Moreira tinha que a referir. Em contrapartida, farta-se de falar da «manifestação» de «pouco mais de meia centena de anarquistas», dos «mayDay» e etc.

Pelo Público ficamos a saber que «Intolerância estragou o desfile» - e um tal Paulo Moura produz uma «reportagem» de grau zero (abaixo de zero, se faz favor!), na qual informa, em título, que «Vital Moreira foi insultado e as palavras de ordem acabaram esquecidas» - após o que, embalado, dedica duas páginas ao 1º de Maio, isto é a agredir e a insultar os trabalhadores que participaram na gigantesca manifestação.

Depois, à sobremesa, vieram as «reacções»: em primeiro lugar o inevitável Vitalino que, em conferência de imprensa (que poderia ter sido marcada na antevéspera...), «acusou os comunistas e a Intersindical de serem co-responsáveis pelo incidente» e (em discurso que poderia ter sido preparado na véspera...) exigiu que a CGTP e o PCP pedissem desculpas formais ao PS e a Vital Moreira - repetindo tudo o que antecessores seus disseram quando de provocações semelhantes organizadas pelo PS.

Ainda em matéria de «reacções» houve a do candidato do PSD, que disse tratar-se de um «acto antidemocrático» (pois claro...); a do candidato do CDS/PP, que pediu «elevação e educação na campanha eleitoral» (pois claro); e a do candidato do BE, que «disse tratar-se de uma manifestação de sectarismo» (pois claro...)

Jerónimo de Sousa disse não comentar o que não viu - e disse bem, ou seja, não embarcou na provocação.
Por isso lhe cairam todos em cima. E em alguns casos da forma mais primária e estúpida, como foi o caso do Público que, na sua rubrica «sobe e desce» colocou o secretário-geral do PCP a «descer», socorrendo-se deste «argumento» demencial: «terá ele visto a Revolução de Outubro de 1917 que os comunistas tanto glorificam?» ...
(«Argumento» que, se não estou em erro, foi copiado de um comentário produzido por um exaltado visitante do Público on line...)

Quer tudo isto dizer que a provocação vai continuar.
Provavelmente com benefícios eleitorais para os seus autores e amigos.
Provavelmente com prejuízos eleitorais para os alvos da provocação.

O que quer dizer que os activistas da CDU terão que dedicar ainda maiores esforços à campanha eleitoral.

E é isso que iremos fazer.

POEMA

TENTAÇÃO VENCIDA


Venham deuses e polícias,
diabos, magos, banqueiros,
ofertar-me, alvissareiros,
o mando e as sua delícias.
Tratem-me com vis blandícias
ou com modos sobranceiros,
ou cheguem aos derradeiros
tratos das piores sevícias.
Venham anjos em milícias,
da ilusão mensageiros.
Não me venceis, embusteiros,
com cruzes nem com malícias.


Armindo Rodrigues

ESTÁ-LHES NO SANGUE...

Pena foi que aqueles manifestantes que apuparam Vital Moreira tivessem caído na ratoeira que lhes foi armada.
Porque foi disso que se tratou: Vital Moreira foi ao 1º de Maio da CGTP à espera que acontecesse o que aconteceu - ou mais ainda, se possível...
E quando saiu do Martim Moniz e se dirigiu para as comemorações da UGT, ia certamente satisfeito e com o sentimento de tarefa cumprida.
Imagino os jornais de amanhã...

Como é sabido, não é esta a primeira vez que o PS recorre a este tipo de provocações: idêntica armadilha foi montada por Mário Soares, então candidato à presidência da república, na Marinha Grande.
E também nessa altura houve quem caísse na ratoeira, o que muito agradou ao provocador e grandes benefícios lhe trouxe.

Entretanto, recordamos hoje, aqui, uma outra provocação montada pelo PS há 34 anos, precisamente no 1º de Maio de 1975, dia escolhido por Mário Soares para - como sublinhou Álvaro Cunhal - «iniciar as provocações de grande espectáculo, que culminariam na ruptura e saída do Governo» («A verdade e a mentira na Revolução de Abril . a contra-revolução confessa-se»)
Soares - que rejeitara participar na manifestação e recusara aceitar que o primeiro-ministro Vasco Gonçalves interviesse no comício - organizou uma operação provocatória que tinha como objectivo provocar confrontos no Estádio 1º de Maio e ir à tribuna «exigir a demissão de Vasco Gonçalves e a saída dos comunistas do Governo».
Não o conseguiu, obviamente - mas imagine-se o que teria acontecido se lograsse concretizar os seus intentos...
Em todo o caso, conseguiu que a imprensa nacional e internacional o apresentasse como «insultado», «agredido» e, naturalmente, «vítima dos comunistas», «os verdadeiros culpados de tudo o que aconteceu» - e ele próprio produziu relatos lancinantes das maldades antidemocráticas que os comunistas lhe fizeram...
Provavelmente, jornais de amanhã dirão o mesmo a propósito deste 1º de Maio, e a «vítima» Vital repetirá o paleio da «vítima» Soares.

Voltando à provocação do 1º de Maio de 1975, vale a pena lembrar as confissões feitas por Mário Soares a Maria João Avilez, em 1995 - portanto vinte anos depois da ocorrência e quando a contra-revolução vitoriosa já lhe permitia falar à vontade e com a arrogância de vencedor.
Confessou ele, impante:
«Estragámos a festa. Entrámos (no Estádio 1º de Maio) de roldão, em puro confronto físico, (...) abrindo caminho ao empurrão, ao soco e aos encontrões.(...) Quando lá chegámos (à tribuna) fomos impedidos de entrar pelos elementos da Intersindical (...) Impossibilitados de entrar e de usar da palavra».
Palavras bem reveladoras de uma incontestável vocação provocatória - tão forte e tantas vezes utilizada por esta gente do PS que dela se pode dizer que está-lhes no sangue.

POEMA

REMATE


O que é obscuro
tentemos
elucidá-lo.

O que é complexo
tentemos
simplificá-lo.

O que é impuro
tentemos
purificá-lo.


Armindo Rodrigues

ESTAMOS ENTENDIDOS

Na opinião do presidente da CIP, Francisco van Zeller, se nenhum partido obtiver a maioria absoluta nas próximas legislativas, então, «deverá ser formado um governo de Bloco Central».
Tal governo é indispensável, diz ele, para garantir «a estabilidade necessária para enfrentar a crise».

Ou seja: para o grande capital, em cujas garras a política de direita iniciada por Mário Soares depositou o poder, a continuação dessa política é uma questão crucial - e tanto melhor se o governo de serviço, seja ele do PS ou do PSD, dispuser da maioria absoluta.
Se nenhum dos dois partidos obtiver essa maioria, então... entendam-se para que a política de direita possa continuar a ser aplicada em «estabilidade»: foi isto que o presidente da CIP, em nome dos donos disto tudo, veio dizer.
Dito de outra forma: para o grande capital, tanto faz que o governo seja PS, ou PSD, ou PS/PSD - com ou sem outro(s) partido(s) atrelado(s) - : o que é preciso é que o governo, com maioria absoluta, prossiga a política que serve os interesses do grande capital

Avaliando o quadro partidário nacional, o presidente da CIP - sempre a pensar no governo «necessário» - expôs a sua visão das coisas: o PS e PSD têm, naturalmente, «posições conciliáveis», tal como, «eventualmente», o CDS, e «o BE tem muitas propostas interessantes» que só não são já aplicáveis devido à crise.
Quanto aos comunistas é que não há nada a fazer: «As soluções apresentadas pelo PCP são conhecidas e levam-nos à Coreia do Norte e a Cuba, portanto não nos interessa».

Reconheça-se que, distinguindo, com rigor, o PCP dos restantes partidos - e confirmando que o PCP é um partido diferente dos que são todos iguais - este representante do grande capital dá provas de notável coerência e de apurado sentido de classe...
Perdoe-se-lhe o não ter resistido à tentação de atribuir às «soluções apresentadas pelo PCP» destinos que elas, inequivocamente, não têm.
Mas até isso se percebe: se dissesse a verdade - isto é, que a luta do PCP tem Abril de novo como referência essencial - estaria a falar contra os interesses que representa...

«O PCP não nos interessa» - disse ele.
Pois não: o Partido da classe operária e de todos os trabalhadores «não interessa» ao grande capital explorador; o Partido que tem como objectivo supremo a contrução de uma sociedade sem exploradores nem explorados «não interessa» aos que tudo fazem para manter esta sociedade assente na exploração do homem pelo homem.
Estamos entendidos.