Anathema, Hoje!

Hoje, os britânicos Anathema estão presentes na Incrível Almadense, em Almada, para um concerto. Deixo-vos uma das minhas músicas favoritas.

Sleepless

And I often sigh
I often wonder why
Im still here and I still cry

And I often cry
I often spill a tear
Over those not here
But still they are so near

Please ease my burden

And I still remember
A memory and I weep
In my broken sleep
The scars they cut so deep

Please ease my burden
Please ease my pain

Surely without war there would be no loss
Hence no mourning, no grief, no pain, no misery
No sleepless nights missing the dead ... oh, no more
No more war


POEMA

FIDELIDADE


Creio no homem. Já vi
costas rasgadas a golpes de chicote,
almas cegas avançando aos arrancos
(Espanhas a cavalo
da dor e da fome). E acreditei.

Creio na paz. Já vi
altas estrelas, incendiadas regiões
amanhecendo, rios ardentes
e profundos, caudal humano
para outra luz: Vi e acreditei.

Creio em ti, pátria. Digo
o que vi: relâmpagos
de raiva, amor falado e uma faca
rangendo, fazendo-se em pedaços
de pão: se bem que haja hoje apenas trevas
eu vi e acreditei.


Blas de Otero

SABEM-NA TODA

Jorge Sampaio disse ao Diário Económico que está muito preocupado com a «governabilidade» do País, que ele considera fundamental para assegurar a «estabilidade».

«Governabilidade» e «Estabilidade» são palavras-chave do discurso dos mandantes, praticantes e propagandistas da política de direita - e, na situação actual, a utilização de tais palavras desemboca sempre, inevitavelmente, na necessidade de um governo de bloco central.
Foi assim com o ex-Presidente da República nesta entrevista, e assim foi, por exemplo, com o presidente Van Zeller, há dias...
Num caso e noutro o objectivo é o mesmo: que o futuro governo prossiga, sem entraves de qualquer espécie e em perfeita estabilidade, a política de direita que tem vindo a espalhar a instabilidade na vida da imensa maioria dos portugueses.


Se eu estivesse entre os jornalistas que entrevistaram Jorge Sampaio, ter-lhe-ia pedido que explicasse quais as razões que o levam a defender, para o Governo, uma aliança com o PSD, e para a Câmara de Lisboa uma coligação de «esquerda»
E se ele, recorrendo ao paleio da praxe, fugisse à resposta, chamar-lhe-ia a atenção para dois aspectos:
1 - propondo alianças (que sabe serem inconcretizáveis) com o PCP, atira para este partido as culpas de não haver uma coligação de «esquerda» em Lisboa - e de tal forma o alvo é cirurgicamente esolhido que nesta coligação de «esquerda» que não se concretizará, o BE nunca é citado... o que permite despejar todas as culpas sobre o PCP.
2 - concretizada, ou não, essa coligação de «esquerda» em Lisboa, o PS, com esta manobra, fica sempre a ganhar:
se houvesse coligação, ela daria ao PS aquela imagem de esquerda que tão útil lhe seria para levar por diante, no Governo, a política de direita.
não havendo coligação, fica no ar essa mesma imagem de «esquerda» - da «esquerda» sofredora que fez todos os esforços para uma coligação mas esbarrou na intransigência sectária do PCP...

Como se vê, estes cavalheiros sabem-na toda: seja a inventar manobras politiqueiras do mais baixo nível; seja a organizar provocações como a do passado 1º de Maio; seja a - suprema desvergonha e desfaçatez - praticar uma política de direita em nome da «esquerda» e do «socialismo»...

POEMA

O OUTONO DOS TIRANOS


Tirano vem, tirano vai,
no vai-e-vem sempre cai,
não há tirano que não caia.
Vive no cai-que-não-cai
com sua lei, sua laia
temendo o homem que vai,
o homem que vai
e vaia.


Sidónio Muralha

E DISSE BEM

O caso nada tem de inovador, insista-se: trata-se, em todos os aspectos, de uma repetição de outros casos com idênticas génese, desenvolvimentos e objectivos.
Em todos os aspectos: desde a preparação do incidente; à imediata leitura comum do ocorrido por parte dos média dominantes, logo seguida da propagação exaustiva dessa leitura, tornando-a «verdade universal».
A partir daí, é o que estamos a ver, a ouvir e a ler: uma vergonha!
E é o que, presumivelmente, continuaremos a ver, a ouvir e a ler nos tempos mais próximos.

«Agredido», «insultado», «violência», «comunistas», «sectarismo do PCP»: eis como, com meia dúzia de palavras, se constrói uma gigantesca e despudorada operação de propaganda; eis como a acção de meia dúzia de pessoas (uma dúzia?, pronto: uma dúzia) que caíram numa armadilha tosca, foi pretexto para, como desde o início estava previsto, fazer do PCP o alvo a abater e fazer do PS uma cândida e inocente vítima que, nessa qualidade, aproveita para insultar e caluniar o PCP - sem que, neste caso, os insultos e calúnias sejam motivo para qualquer reparo por parte dos média dominantes...

(O editorialista do DN de hoje, talvez por efeito de qualquer longínquo rebate de consciência, reconhece que «os manifestantes que agrediram Vital Moreira» o fizeram «apenas por palavras e alguns gestos sem grande violência»... Mas isso não o impede de seguir o rasto da leitura fabricada e de, até, a cavalgar perigosamente)

«O PCP manifesta a sua discordância e lamenta os incidentes verificados em Lisboa, num acto isolado de alguns manifestantes, mas rejeita as acusações, insultos e calúnias dirigidas pelo PS contra o PCP»: disse o dirigente comunista Francisco Lopes.

E disse bem.

POEMA

ENTRA-ME EM CASA...


Entra-me em casa o dia.
Entra-me em casa a noite.
Entra-me em casa o vento.
Entra-me em casa só
quem eu gosto que entre.


Armindo Rodrigues

O COZINHADO

Como era previsível, as primeiras páginas dos jornais de hoje são dedicadas à propaganda eleitoral do PS. Aparentemente, não se trata de publicidade com sinal de pago... mas é claro que é disso que se trata: paga o grande capital, proprietário desses jornais.

Há que reconhecer que o cozinhado foi preparado com todos os matadores.
Depois das «entradas» de ontem, em que a «vítima Vital» fez o seu número, cumprindo o que lhe era exigido (é certo que sem o brilhantismo de Soares, mas também não se lhe pedia o impossível...), os média serviram o primeiro prato.
Pelo Diário de Notícias ficamos a saber que «manifestantes da CGTP expulsam Vital do 1º de Maio»; e que «Sectarismo irrompe no 1º de Maio»; e que «resta saber se os portugueses que este ano são chamados a votar por três vezes terão em linha de conta as agressões e os insultos a Vital Moreira» - ora cá está o que eles queriam: votos!.
Cá está a explicação para o facto de o candidato Vital Moreira - que não é militante do PS - ter integrado a delegação que, em representação daquele partido, foi «cumprimentar o secretário-geral da CGTP». Sabendo todos - o candidato, o partido que o propõe e os jornais do grande capital - que era bem provável que, por razões óbvias, acontecesse o que aconteceu.
Quanto à comemoração do 1º de Maio, o DN só não a ignora totalmente porque para falar de Vital Moreira tinha que a referir. Em contrapartida, farta-se de falar da «manifestação» de «pouco mais de meia centena de anarquistas», dos «mayDay» e etc.

Pelo Público ficamos a saber que «Intolerância estragou o desfile» - e um tal Paulo Moura produz uma «reportagem» de grau zero (abaixo de zero, se faz favor!), na qual informa, em título, que «Vital Moreira foi insultado e as palavras de ordem acabaram esquecidas» - após o que, embalado, dedica duas páginas ao 1º de Maio, isto é a agredir e a insultar os trabalhadores que participaram na gigantesca manifestação.

Depois, à sobremesa, vieram as «reacções»: em primeiro lugar o inevitável Vitalino que, em conferência de imprensa (que poderia ter sido marcada na antevéspera...), «acusou os comunistas e a Intersindical de serem co-responsáveis pelo incidente» e (em discurso que poderia ter sido preparado na véspera...) exigiu que a CGTP e o PCP pedissem desculpas formais ao PS e a Vital Moreira - repetindo tudo o que antecessores seus disseram quando de provocações semelhantes organizadas pelo PS.

Ainda em matéria de «reacções» houve a do candidato do PSD, que disse tratar-se de um «acto antidemocrático» (pois claro...); a do candidato do CDS/PP, que pediu «elevação e educação na campanha eleitoral» (pois claro); e a do candidato do BE, que «disse tratar-se de uma manifestação de sectarismo» (pois claro...)

Jerónimo de Sousa disse não comentar o que não viu - e disse bem, ou seja, não embarcou na provocação.
Por isso lhe cairam todos em cima. E em alguns casos da forma mais primária e estúpida, como foi o caso do Público que, na sua rubrica «sobe e desce» colocou o secretário-geral do PCP a «descer», socorrendo-se deste «argumento» demencial: «terá ele visto a Revolução de Outubro de 1917 que os comunistas tanto glorificam?» ...
(«Argumento» que, se não estou em erro, foi copiado de um comentário produzido por um exaltado visitante do Público on line...)

Quer tudo isto dizer que a provocação vai continuar.
Provavelmente com benefícios eleitorais para os seus autores e amigos.
Provavelmente com prejuízos eleitorais para os alvos da provocação.

O que quer dizer que os activistas da CDU terão que dedicar ainda maiores esforços à campanha eleitoral.

E é isso que iremos fazer.

POEMA

TENTAÇÃO VENCIDA


Venham deuses e polícias,
diabos, magos, banqueiros,
ofertar-me, alvissareiros,
o mando e as sua delícias.
Tratem-me com vis blandícias
ou com modos sobranceiros,
ou cheguem aos derradeiros
tratos das piores sevícias.
Venham anjos em milícias,
da ilusão mensageiros.
Não me venceis, embusteiros,
com cruzes nem com malícias.


Armindo Rodrigues

ESTÁ-LHES NO SANGUE...

Pena foi que aqueles manifestantes que apuparam Vital Moreira tivessem caído na ratoeira que lhes foi armada.
Porque foi disso que se tratou: Vital Moreira foi ao 1º de Maio da CGTP à espera que acontecesse o que aconteceu - ou mais ainda, se possível...
E quando saiu do Martim Moniz e se dirigiu para as comemorações da UGT, ia certamente satisfeito e com o sentimento de tarefa cumprida.
Imagino os jornais de amanhã...

Como é sabido, não é esta a primeira vez que o PS recorre a este tipo de provocações: idêntica armadilha foi montada por Mário Soares, então candidato à presidência da república, na Marinha Grande.
E também nessa altura houve quem caísse na ratoeira, o que muito agradou ao provocador e grandes benefícios lhe trouxe.

Entretanto, recordamos hoje, aqui, uma outra provocação montada pelo PS há 34 anos, precisamente no 1º de Maio de 1975, dia escolhido por Mário Soares para - como sublinhou Álvaro Cunhal - «iniciar as provocações de grande espectáculo, que culminariam na ruptura e saída do Governo» («A verdade e a mentira na Revolução de Abril . a contra-revolução confessa-se»)
Soares - que rejeitara participar na manifestação e recusara aceitar que o primeiro-ministro Vasco Gonçalves interviesse no comício - organizou uma operação provocatória que tinha como objectivo provocar confrontos no Estádio 1º de Maio e ir à tribuna «exigir a demissão de Vasco Gonçalves e a saída dos comunistas do Governo».
Não o conseguiu, obviamente - mas imagine-se o que teria acontecido se lograsse concretizar os seus intentos...
Em todo o caso, conseguiu que a imprensa nacional e internacional o apresentasse como «insultado», «agredido» e, naturalmente, «vítima dos comunistas», «os verdadeiros culpados de tudo o que aconteceu» - e ele próprio produziu relatos lancinantes das maldades antidemocráticas que os comunistas lhe fizeram...
Provavelmente, jornais de amanhã dirão o mesmo a propósito deste 1º de Maio, e a «vítima» Vital repetirá o paleio da «vítima» Soares.

Voltando à provocação do 1º de Maio de 1975, vale a pena lembrar as confissões feitas por Mário Soares a Maria João Avilez, em 1995 - portanto vinte anos depois da ocorrência e quando a contra-revolução vitoriosa já lhe permitia falar à vontade e com a arrogância de vencedor.
Confessou ele, impante:
«Estragámos a festa. Entrámos (no Estádio 1º de Maio) de roldão, em puro confronto físico, (...) abrindo caminho ao empurrão, ao soco e aos encontrões.(...) Quando lá chegámos (à tribuna) fomos impedidos de entrar pelos elementos da Intersindical (...) Impossibilitados de entrar e de usar da palavra».
Palavras bem reveladoras de uma incontestável vocação provocatória - tão forte e tantas vezes utilizada por esta gente do PS que dela se pode dizer que está-lhes no sangue.

POEMA

REMATE


O que é obscuro
tentemos
elucidá-lo.

O que é complexo
tentemos
simplificá-lo.

O que é impuro
tentemos
purificá-lo.


Armindo Rodrigues

ESTAMOS ENTENDIDOS

Na opinião do presidente da CIP, Francisco van Zeller, se nenhum partido obtiver a maioria absoluta nas próximas legislativas, então, «deverá ser formado um governo de Bloco Central».
Tal governo é indispensável, diz ele, para garantir «a estabilidade necessária para enfrentar a crise».

Ou seja: para o grande capital, em cujas garras a política de direita iniciada por Mário Soares depositou o poder, a continuação dessa política é uma questão crucial - e tanto melhor se o governo de serviço, seja ele do PS ou do PSD, dispuser da maioria absoluta.
Se nenhum dos dois partidos obtiver essa maioria, então... entendam-se para que a política de direita possa continuar a ser aplicada em «estabilidade»: foi isto que o presidente da CIP, em nome dos donos disto tudo, veio dizer.
Dito de outra forma: para o grande capital, tanto faz que o governo seja PS, ou PSD, ou PS/PSD - com ou sem outro(s) partido(s) atrelado(s) - : o que é preciso é que o governo, com maioria absoluta, prossiga a política que serve os interesses do grande capital

Avaliando o quadro partidário nacional, o presidente da CIP - sempre a pensar no governo «necessário» - expôs a sua visão das coisas: o PS e PSD têm, naturalmente, «posições conciliáveis», tal como, «eventualmente», o CDS, e «o BE tem muitas propostas interessantes» que só não são já aplicáveis devido à crise.
Quanto aos comunistas é que não há nada a fazer: «As soluções apresentadas pelo PCP são conhecidas e levam-nos à Coreia do Norte e a Cuba, portanto não nos interessa».

Reconheça-se que, distinguindo, com rigor, o PCP dos restantes partidos - e confirmando que o PCP é um partido diferente dos que são todos iguais - este representante do grande capital dá provas de notável coerência e de apurado sentido de classe...
Perdoe-se-lhe o não ter resistido à tentação de atribuir às «soluções apresentadas pelo PCP» destinos que elas, inequivocamente, não têm.
Mas até isso se percebe: se dissesse a verdade - isto é, que a luta do PCP tem Abril de novo como referência essencial - estaria a falar contra os interesses que representa...

«O PCP não nos interessa» - disse ele.
Pois não: o Partido da classe operária e de todos os trabalhadores «não interessa» ao grande capital explorador; o Partido que tem como objectivo supremo a contrução de uma sociedade sem exploradores nem explorados «não interessa» aos que tudo fazem para manter esta sociedade assente na exploração do homem pelo homem.
Estamos entendidos.

POEMA

MEU PRIMEIRO DE MAIO


Todos
que marchais pelas ruas
e deteis as máquinas e as fábricas,
todos
desejosos de chegar a nossa festa
com as costas marcadas pelo trabalho,
saí a 1º de Maio,
o primeiro dos dias.
Recebê-lo-emos, camaradas,
com a voz entrecortada de canções.
Primavera,
derretei a neve.
Eu sou operário,
este dia é meu.
Eu sou camponês,
este dia é meu.

Todos,
estendidos nas trincheiras
esperando a morte infinita,
todos
os que num carro blindado
atiram contra seus irmãos,
escutai:
Hoje é 1º de Maio.
Partamos ao encontro
do primeiro dos nossos dias,
enlaçando as mãos proletárias.
Calai vossos morteiros!
Silêncio, metralhadoras!
Eu sou soldado,
este dia é meu.

Todos,
das casas,
das praças,
das ruas,
encolhidos pelo gelo invernal,
todos
torturados de fome,
das estepes,
dos bosques,
dos campos,
saí neste 1º de Maio!
Glória à gente fecunda!
Desabrochai, primavera!
Verde campos, cantai!
Soai sirenes e apitos!
Eu sou de ferro,
este dia é meu.
Eu sou a terra,
este dia é meu!


Mayakovsky

MAIO MADURO MAIO

Há 35 anos, o 1º de Maio foi dia de confirmação da liberdade que havia sido alcançada no dia 25 de Abril, quando o MFA derrubou o governo fascista de Marcelo Caetano.
Mas o primeiro 1º de Maio foi mais do que isso: foi passo decisivo para o arranque do processo revolucionário que viria a derrubar o regime fascista e a construir uma democracia política, económica, social, cultural, ancorada na independência e na soberania nacional, e com uma ampla componente participativa - a democracia mais avançada alguma vez existente no nosso País. Foi Maio, Maduro Maio...

De então para cá, a política da contra-revolução - com, entre outros, Soares, Sá Carneiro, Freitas, Cavaco Silva, Guterres, Barroso, Sócrates... - destruiu a democracia de Abril e impôs a democracia burguesa hoje dominante: Portugal voltou a estar nas mãos do grande capital, com todas as graves consequências daí decorrentes.

Amanhã, os trabalhadores, em massa, encherão ruas e praças de meia centena de localidades exigindo uma «mudança de rumo» - exigindo mais emprego, mais salários, mais direitos, ou seja: exigindo o termo da política de direita que conduziu o País à dramática situação em que se encontra; exigindo Abril e a sua democracia avançada - que o era porque tinha como referência primeira o respeito pelos interesses e direitos dos trabalhadores, do povo e do País.

Amanhã é dia de irmos para rua - lutar e ganhar forças para as lutas de depois de amanhã, e do dia seguinte, e dos dias seguintes. Por Abril de novo, até à vitória.
Que é difícil mas é nossa.

Poema

Com este poema de António Ramos Rosa, encerro este ciclo de poesia dedicado ao Companheiro Vasco - a figura maior da Revolução de Abril.



DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO



Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo a cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo a corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto

Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto.

Aqui as minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu para dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada


António Ramos Rosa

CRIATURA EXECRÁVEL

O homem não pára nem se cala: em todo o lado onde Abril é atacado (ou se faz a defesa do capitalismo), ele lá está a mentir, a aldrabar, a deturpar factos, a vomitar provocações, a defender o grande capital - e em todo o lado onde ele está, Abril é miseravelmente atacado (e o capitalismo é defendido com unhas e dentes).
Assim continua a cumprir esta criatura execrável, o seu sinistro papel de chefe da contra-revolução/mercenário do capitalismo - e sempre, sempre, arrotando democracia sem ponta de vergonha.
Falo de Mário Soares, como já devem ter percebido - e dele passo a transcrever parte do seu mais recente vómito sobre Abril.

Escreve a excerável criatura: «A revolução - esta é a verdade - não foi, nem é, a Reforma Agrária, que não chegou a muito mais do que um ensaio, nem as nacionalizações, feitas à pressa e mal, no seguimento do 11 de Março de 1975».

Aqui chegado, confesso que não tenho condições para comentar tão deprimente exibição de baixeza humana.
E termino já este post, para evitar ceder à tentação de chamar à criatura os nomes todos que lhe são devidos...

POEMA

NOME DE VASCO


A tua voz excessiva tornava-os mais pequenos.
Eles exigiam-te palavras untuosas,
as secas flores da jactância,
seu sono e alimento.
A verdade saía da tua boca iluminada
e eles tinham os ouvidos postos na mentira
no bocejo intrigante, na fala camuflada.
A tua voz recuada na origem não se perdia
nos afazeres verbais da litigância
não sabia a ganância.
Era o vento dos pobres sobre os metais do luxo.
Não te punhas a embalar o povo
como à criança que tarda a adormecer.
Atiravas-lhe à cara as palavras abruptas
um rosto incorruptível por marés de ferrugem
e gestos de morrer.

A tua fronte vasta tornava-os mais pequenos.
Nela despertava o susto das mães familiares,
o trigo parco dos homens nas tabernas
que te olhavam ingénuos vendo a seara crescer.
Ao colo dos pais os meninos sorriam
e os velhos viam coisas saltar dos teus cabelos.
Mas eras tu que soltavas a vida
amarrada a um poste como um burro de carga
a vida desavinda que os enraivecia
e que lhes dava um coice na pança saciada.

Aqui perde-se o tempo a trabalhar as lendas.
Mas o teu rosto não pode adormecer
sobre a toalha tépida que tece a tua ausência
onde derramo o choro e os outros vão beber.
Porque o teu pulso não suportava a febre
e erguia-se no ar como um pássaro agudo
que respirasse os ventos antes de partir.

Sobre o ladrar dos cães a tua voz alteia
como a papoula que o tempo não desfolha
a coluna de fogo que cai sobre a alcateia.
És o lagar imenso onde as uvas fermentam
sob os pés descalços e vivos da memória.
És a boca que a História utilizou por boca
o corredor onde o orvalho cresce entre a juventude
e os homens se passeiam com trigo na cintura.
Neste lugar de inverno lembramo-nos de ti
como quem desperta.
Ninguém aqui precisa de recuar no tempo
nem das sereias que engolem o nevoeiro.
Ninguém aqui suporta que tu voltes
como um Desejado
com o seu cortejo de rotas feiticeiras
que gritem pelo teu nome junto aos becos do mar
com as suas luas gordas de saudade e preguiça.
Teu nome está de pé como um mastro
de cal rubra.
Estás aqui, entre nós, no meio do teu País.
Connosco vais contigo porque o povo assim o quis.


Armando Silva Carvalho

UM PAÍS DE SANTOS

Consumada a canonização de Nuno Álvares Pereira, o «Prefeito da Congregação para as Causas Santas», D. José Saraiva Martins não esconde a felicidade que lhe vai naialma.
Diz ele, triunfante, que esta canonização «é um acto de justiça e é uma página de ouro da História da Igreja e de Portugal».
E é capaz de ser, já não digo nada...

Quanto ao futuro, D. Saraiva Martins - que só pensa nas Causas Santas, que delas e para elas vive - também está confiante.
E tem razão para isso, já que «estão em Roma 33 causas de beatificação e canonização oriundas do nosso país», o que quer dizer que «Portugal vai, certamente, continuar a ter santos» - e, portanto, vai ter mais «páginas de ouro» na sua História que, assim, tende a transformar-se num verdadeiro tesouro...

Não há dúvida: o futuro de Portugal está nas canonizações.
E muitas serão elas, pois para além das já concretizadas e das 33 que se perspectivam, D. Saraiva promete muitas mais.
E porquê? Porque, garante ele, «somos um país de santos».
Atão não somos?...

POEMA

AO REVOLUCIONÁRIO VASCO GONÇALVES


Queria usar a língua em que escrevi
os versos mudos da poesia lírica
para o discurso prático
da revolução escrita.

Ninguém já entendia o vapor grave
e gasto da linguagem.
Durante a desejámos, canto enquanto
desejo, com o gasto
movimento dos versos. Quem entende
a voz da sua boca equivocada?

Desconheço o silêncio. Conheci-o
com o entendimento de quem vive.

Por isso este poema não é épico,
é um simples
poema em quadras íntimas:
um revolucionário
não cabe na política
mas cabe
nos metros úteis da poesia escrita.


Gastão Cruz

MAIO DOS TRABALHADORES

No dia 25 de Abril de 1974, o Movimento das Forças Armados derrubou o governo fascista.
Nos dias e meses que se seguiram, o movimento operário e popular e os militares revolucionários derrubaram o regime fascista.

Entre um e outro destes dois tempos, ergueu-se o poderoso 1º de Maio de 74 - expressão da imensa força autónoma e independente do movimento operário e popular - a marcar o rumo e o ritmo da Revolução de Abril, a dizer-nos, de forma inequívoca, que a Revolução Portuguesa iria desenvolver-se pela acção conjugada das massas populares e do Movimento das Forças Armadas - a aliança POVO/MFA.

Comemorámos o 35º aniversário do 25 de Abril.
É tempo, agora, de comemorarmos Maio dos trabalhadores - fazendo do próximo Dia do Trabalhador uma poderosa jornada de luta.
De luta por Abril de novo.

POEMA

PROVAVELMENTE


Provavelmente
não terei a força, o verbo, o tamanho para falar duma revolução
que rebentou no coração daqueles que, desde o primeiro vagido, a desejaram.

Provavelmente
esquecerei nomes, trocarei datas, falarei dos heróis que o não foram
e dos cobardes que tiveram a coragem de não puxar gatilhos,
de permanecerem poetas e não matarem
ainda que com essa negação da morte ficassem
com os corpos presos, que a alma não.

Provavelmente
louvarei demasiado os que me são queridos, cantarei as paisagens
onde nasci e chegarei mesmo ao despudor de gritar
que o Alentejo é o mais lindo país do mundo,
que uma papoila vermelha floresce diariamente
nos dedos dos que trabalham a terra.

Provavelmente
deixarei nas margens deste recado essoutros que em Marços
e Setembros saíram para a rua agarrados à estrela da manhã
para com ela (somente com ela) defenderem a liberdade.

Provavelmente
não saberei pronunciar os nomes das crianças
que num mês de Abril inventaram novos símbolos,
debruaram de cravos as redacções escolares, as paredes dos jardins,
os troncos dos abetos, e inundaram com as aguarelas da ternura
os olhos dos homens cansados.

Provavelmente
e porque não? direi que vi soldados vestindo a farda que o povo usa,
essa camisa lavada e branca dos nossos irmãos operários,
camponeses, trabalhadores de todos os misteres.

Provavelmente
trocarei as notas à melodia que semeou o luar, desvirtuarei
a cor da baioneta que defendeu o sol, não saberei agarrar
o espanto das mãos que seguravam o vento como quem
agarra essas bandeiras de carne a que chamamos filhos.

Provavelmente
não citarei nomes de capitães, dragonas de almirantes,
siglas dos partidos, as multidões dos comícios, as cores
dos panfletos, o eco dos gritos que rebentaram a veia tensa
deste quase meio século que sufocou o pulmão
da nossa Pátria sempre adiada.

Provavelmente
só vos falarei dum Homem com rosto de homem, palavra
de homem, o gesto simples do Homem simples e sincero
que todos esperámos na lonjura da esperança,
como o Criador esperou o nascimento do mundo.

Provavelmente
escreverei: Vasco Gonçalves.

Provavelmente
acrescentarei: - Por aqui passou um Homem!


Eduardo Olímpio
(Fevereiro de 1976)

2 Anos a tomar Partido

Pois é meus amigos, faz hoje dois anos que decidi criar o Cravo de Abril e estender a participação aos restantes membros que nele contribuem, fazendo deste espaço uma referência no esclarecimento, na tomada de posições, de debate, de promoção de ideias, de transmissão de cultura e valores.
Como é habitual, alterámos o cabeçalho e a foto descritiva do Cravo de Abril. Ousámos a troca de cores mas mantemos o Cravo VERMELHO bem presente e tudo aquilo que ele representa.
Deixo-vos o vídeo de comemoração do II Aniversário do Cravo de Abril.




Obrigado a todos!

Abril de Novo

POEMA

(Fragmento do Poema «O Dia Mundial da Paz em Custóias e Caxias)


(...) Grande foi Vasco
e também o ódio, e também a mácula, e também a morte
(intelectual, seminal) de várias e desvairadas gentes
o destruíu. Ou
talvez não. A glória, a corrupção
em centros ciáticos sedimentada
outros corrompeu. Astutos pescadores de pégasos
em águas turvas. O vento passa. O povo porém
finca os pés na terra. Canto
para ti: Vasco igual a povo. Para que não se esqueça
a sábia floração
de um mar (mármore) jamais em repouso - a força, a determinação
do homem novo. Pobre. Dissolvido
em palavras de névoa. Pobre. Camuflado
em buracos de sótãos e caves; em bairros de lata; em arcos de ponte
e choupanas de palha; esterco; barcaças apodrecidas... Esse,
o proleta, o campesino
eleva-se na sombra, ouve, entende
a tua voz, a palavra Revolução; e transmite o fogo, a fábula
a seus camaradas mais descuidosos: ambulantes, desocupados...

Os próprios burgueses, os mais pequeninos, os que se vendem
por um prato de lentilhas
um dia compreenderão o fenómeno
da Independência Nacional; (tal qual és - Brecht,
sem ironia - não poderás continuar a ser) - um dia, dizia,
haveis de compreender que também os vossos filhos
serão a seu tempo devastados
pela Besta Imunda. Transparente
foi Vasco
em sua luta sem cálculo nem quartel
contra a garra imperial. A usura. A erosão. A
decadência pusilânime. Apenas o povo,
apenas o exército vulnerável
dos explorados
aceitou a claridade, entendeu a palavra límpida
do futuro. O búzio
da Revolução.


Casimiro de Brito

PASSADO, PRESENTE - E O FUTURO?...

Manuel António Pina, em crónica publicada há dias no JN - «Vital, o "amordaçado"» - depois de pertinentíssimas considerações sobre «o arrependido do PCP», remata assim:
«O que sempre me pergunto, em casos como o de Vital Moreira, é o que, se falasse, o seu passado diria do seu presente».
Isto trouxe-me à memória uma intervenção do «passado» Vital, que deixa claro o que ele «diria do seu presente», hoje cabeça de lista do PS ao PE e defensor acérrimo da União Europeia do grande capital.

Vital «passado», abordando a questão da «ofensiva generalizada das forças reaccionárias contra o regime democrático saído do 25 de Abril», ofensiva para a qual «a Constituição da República constitui um dos alvos principais», respondia assim a argumentos utilizados pelas «forças reaccionárias»:
«Dizem que a Constituição seria incompatível com o Mercado Comum - mas com isto apenas mostram o seu enfeudamento aos interesses das multinacionais europeias e tornam ainda mais evidente o desastre que constituiria a plena integração no Mercado Comum».

É fácil imaginar o que este Vital «passado» chamaria ao Vital «presente»...
E quanto ao futuro do dito Vital... tudo pode acontecer. Aguardemos.

POEMA

COMPANHEIRO VASCO


Além de tudo o mais
reiventaste a pureza das palavras
e fizeste com elas pedras e tijolos
de onde nasceriam pouco a pouco as casas.
Além de tudo o mais
tu foste o poeta da verdade
o homem que se bate corpo a corpo
sem medo, sem ódio, com ternura
com a força que o vento dá ao trigo
a força de quem pode estar de frente
e olhar de olhos nos olhos toda a gente.
Além de tudo o mais
tu és o companheiro
o camarada, o homem verdadeiro
o herói anónimo que nunca terá estátua.
Depois de tu falares
e mostrares que fazes o que falas
nenhum de nós se pode desculpar
ninguém pode dizer que não sabia
fomos todos carrascos da pátria
que tu querias libertada!
E ou enchemos as ruas
com o teu nome na ponta da espingarda
ou morremos aos poucos de saudade
desse cravo vermelho que arrancámos
raíz, tronco, semente, Liberdade!


José Barreiros

DESVERGONHA SEM LIMITES

Mário Soares é, hoje, um dos mais activos propagandistas da ideologia dominante, desenvolvendo intensa actividade falada e escrita - que, naturalmente, os média divulgam exaustivamente.
O DN de hoje dá nota de declarações por ele proferidas numa sessão sobre o 25 de Abril, onde, a dada altura, se saiu com esta tirada com a qual confirma que no seu caso a desvergonha não conhece limites:
«A revolução dos cravos foi um caso único, sem influência estrangeira. Foi uma revolução completamente original que foi feita em Portugal, por portugueses, sem interferência estrangeira de qualquer ordem».

É claro que quando Soares diz «revolução» está, essencialmente, a pensar em contra-revolução - e quando nega a «interferência estrangeira» está a sacudir a água do capote em relação ao papel que ele desempenhou enquanto agente do capitalismo internacional ao serviço dessa contra-revolução.
Na realidade, como Soares sabe melhor do que ninguém, a «interferência estrangeira» - apoiada nuns tantos homens de mão comprados por milhões e milhões de dólares, libras, marcos, francos, coroas... - foi crucial para travar e, posteriormente, vencer o processo revolucionário; foi crucial para pôr em prática a política de direita- a política da contra-revolução, a política do ódio a Abril - que há 33 anos flagela os trabalhadores, o povo e o País e é causa fundamental da grave situação em que o País se encontra.
E como Soares sabe melhor do que ninguém, ele foi o mais destacado - e certamente o mais bem pago - de todos esses homens de mão que foram os veículos da interferência estrangeira em Portugal.

POEMA

O COMUM DA TERRA

(A Vasco Gonçalves)


Nesses dias era sílaba a sílaba que chegavas.
Quem conheça o sul e a sua transparência
também sabe que no verão pelas veredas
da cal a crispação da sombra caminha devagar.
De tanta palavra que disseste algumas
se perdiam, outras duram ainda, são lume
breve arado ceia de pobre roupa remendada.
Habitavas a terra, o comum da terra, e a paixão
era morada e instrumento de alegria.
Esse eras tu: inclinação da água. Na margem
vento areias mastros lábios, tudo ardia.


Eugénio de Andrade

TROCA POR TROCA

Afinal, o tão badalado acordo BE/PS - que levou à aprovação na generalidade, por ambos, de uma proposta sobre o fim do sigilo bancário - não é bem o que parecia ser, nem pouco mais ou menos.
Bem pelo contrário: de acordo com a tal proposta, o fim do sigilo bancário aplica-se apenas às contas dos contribuintes individuais, ou seja, a essa imensíssima maioria dos portugueses conhecidos por tesos.
Quem fica a beneficiar com a iniciativa do BE, que o PS apoiou, são... as empresas que, em comparação com a legislação actual, vêem o acesso às suas contas bancárias dificultado: só com autorização de um tribunal.

Entretanto, o acordo entre BE e PS em torno da célebre proposta já deu certamente alguns frutos. Isto porque,
- a proposta do BE (que, curiosamente, não se preocupa com os enriquecimentos ilícitos), revelou-se importante para o branqueamento do Governo PS e da sua política;
- e a aceitação entusiástica dessa proposta pelo PS, foi uma óptima acção de propaganda em favor do BE.

Foi troca por troca.

POEMA

A GUERRA QUE AÍ VEM


A guerra que aí vem
não é a primeira. Antes dela
houve outras guerras.
Quando a última acabou
houve vencedores e vencidos.
Entre os vencidos o povo baixo
passou fome. Entre os vencedores
passou fome também o povo baixo.


Brecht

HOMENS SEM PALAVRA

A participação de Obama na Cimeira da América visava, disse ele,
«criar um novo relacionamento de cooperação com a América Latina»,
já que, segundo disse,
«com tudo o que está em jogo, não podemos deixar de nos ouvir uns aos outros, Temos de encontrar e construir os nossos interesses comuns»,
e para isso é necessário, sempre nas palavras de Obama,
«ouvir e aprender».

Obama foi lá, ouviu e terá aprendido - provavelmente terá, até, aprendido muito - mas não aprendeu o essencial, e por isso não fez aquilo que deveria fazer: anunciar o fim do bloqueio a Cuba.
Se o tivesse feito, teria dado inequívocas provas de «mudança». Não o tendo feito, e recorrendo aos mesmos argumentos dos seus antecessores (Bush incluído), mostrou que a sua «mudança» não passa de paleio.

A utilização do «argumento» dos «direitos humanos» tem servido a todos os presidentes dos EUA, desde Kennedy, para justificar quer o bloqueio, quer o conjunto de acções terroristas desencadeadas pelo imperialismo norte-americano contra Cuba.
Tal «argumento» tem servido, igualmente, para desviar as atenções da falta de palavra de todos esses presidentes dos EUA.

Com efeito, remontando ao ano de 1962, recordamos que, face às ameaças e tentativas de invasão de Cuba, a União Soviética, a pedido do governo cubano, instalou bases de mísseis na Ilha, e que a resposta dos EUA a essa decisão colocou o mundo à beira de uma guerra nuclear.
No final do processo de negociações então realizado, acordou-se que a URSS procederia ao desmantelamento das bases de mísseis e que, em troca, os EUA cessariam as operações contra Cuba e poriam termo ao bloqueio.

A URSS cumpriu com a palavra dada: retirou os mísseis.
Os EUA não cumpriram com a palavra dada: até hoje, não pararam de agredir Cuba - e o bloqueio mantém-se.

Portanto, o que Obama tinha a fazer era, tão-somente, cumprir a palavra dada por Kennedy e jamais cumprida por qualquer presidente dos EUA.
Se tal fizesse, então sim, essa seria, de facto, uma «mudança».
Não o tendo feito, entra para o rol dos homens sem palavra - que, para o caso, são todos os presidentes dos EUA.

POEMA

MEU CAMARADA E AMIGO


Revejo tudo e redigo
meu Camarada e Amigo.
Meu irmão suando pão
sem casa mas com razão.
Revejo tudo e redigo
meu Camarada e Amigo.

As canções que trago prenhas
de ternura pelos outros
saem das minhas entranhas
como um rebanho de potros.
Tudo vai roendo a erva
daninha que me entrelaça:
canção não pode ser serva
homem não pode ser caça
e a poesia tem de ser
como um cavalo que passa.

É por dentro desta selva
desta raiva deste grito
desta toada que vem
dos pulmões do infinito
que em todos vejo ninguém
revejo tudo e redigo:
meu Camarada e Amigo,

Sei bem as mós que moendo
pouco a pouco trituraram
os ossos que estão doendo
àqueles que não falaram.

Calculo até os moinhos
puxados a ódio e sal
que a par dos monstros marinhos
vão movendo Portugal
- mas um poeta só fala
por sofrimento total!

Por isso calo e sobejo
eu que só tenho o que fiz
dando tudo mas à toa:
Amigos no Alentejo
alguns que estão em Paris
muitos que são de Lisboa.
Aonde me não revejo
é que eu sofro o meu país.


José Carlos Ary dos Santos

Abril! Sempre!


foram momentos de uma amizade sem fim. vermelho colorido nos cravos da Guida, nos cravos de Abril, no pensamento de quem sabe amar a terra que comeu a sua juventude. às onze e meia da manhã, já os primeiros se aglomeravam em volta do lagar da Agrária. Da Reforma Agrária, memória dos dias mais bonitos que o sol já beijou no querer dos trabalhadores. invadimo-lo como quem quem o arranca ao latifúndio pela primeira vez! e logo, nos olhos e nas palavras dos homens e mulheres de Ervidel que nos acompanharam, se soltaram roldanas, cabos, mós, e o azeite que iluminou, que ilumina, a esperança da revolução que ainda não cumprimos. Lá estavam eles... o Viriato, o Domingos, o Valverde, o Caixinha... todos... todos os nomes que aqui faltam e que, na sua biografia, escrevem o súor com que arrancaram à fome o sustento dos filhos. nos ouvidos dos meus camaradas que cá se deslocaram, cintilava, bem a pressenti, a comoção de quem descobre com que linhas se faz um sonho, nas palavras inauguradas por amigos acabados de se fazer. depois veio o museu rural. Arados, charruas, foices. e a fome. sempre afome. Mas também as lutas, as alfaias do sonho com que ergueram o descontentamento perante o imperialismo do latifúndio. E logo o riso aberto de quem ama! de quem ama e faz o Partido da sua luta e da sua querença. simbolo da união dos operários e camponeses, simbiose que Ervidel e Aljustrel encarnam nas gentes que as habitam. Foi esta aliança, a sua consciência, que nos uniu ali. girando em torno de um sonho que também neste blog se materializa e afirma! depois, depois veio uma mesa cheia de amor. E quero lembrar o esforço dos camaradas que, trabalhando, o possibilitaram. O queijo, o paio, as azeitonas, o pão alentejano... e os grãos com carne onde cada um encontrou a metamorfose da união. e as lágrimas ainda estavam por vir. mas não demoram, como combinado desde o inicio dos tempos em que os alentejanos cantam. e ouviram-se, nas gargantas colectivas, das mais belas modas resistentes que esta gente, a minha gente, compôs. Foram grandolas, operários, searas, alquevas de ternura lembrando a nossa luta. a nossa revolução que virá para cumprir Abril e fazer justiça ao luis, ao copa, ao artur, a todos os pseudónimos que estes homens, clandestinos comunistas no fascismo, usaram para honrar a sua gente, a sua classe. Lá esteve também o Raimundo, poeta popular que aprendeu a rimar ao som das ripadas da fome dos filhos. lá estiveram o nobre e o ildefonso, cantando como ninguém, ao som da viola, as mais belas letras da esperança. E a Joaquina no poema do Ary e das portas que ninguém mais cerrará. e as crianças que vieram trazer aos cravos a juventude que muitos lhe querem negar. passou também um gato. conheço-o. é o pantufa, reside na Adega do Moreira ( que belo vinho que nos ofereceu! obrigado). passou galopando como cavalo e paladino. parou por moimentos. olhou-nos. deve-nos ter sabido comunistas. pediu festas. enroscou-se ali perto. adormeceu tranquilo. Amanhã Abril virá! e nem os bichos lhe são indiferentes!
Foi dos dias mais belos da minha existência. obrigado

Para a Guida


Camarada: foi com muita tristeza que anunciaste a tua ausência no encontro onde festejámos todos o II aniversário do Cravo de Abril. Maior ainda a que nos invadiu por saber da tua impossibilidade. ainda assim, fruto de uma ternura e do coração que te caracteriza, encontrámos uma surpresa tua à nossa espera. foram palavras bonitas aquelas que nos dirigiste, e que nos fizeram gritar bem alto, contigo, « Viva o 35º aniversário do 25 de Abril!». a acompanhar as letras que nos fizeram rasar as lágrimas, cravos, cravos vermelhos que enviaste para marcar , ainda mais, a presença de Abril no nosso encontro! com eles, pétala a pétala, cada desbravar do teu sorriso fraterno que assim lá esteve. não houve ninguém, nenhum camarada - se não te conhecia - que não quisesse saber quem eras! quem de Espinho inundou o alentejo no sonho vermelho dos cravos e das pombas - simbolo de sonho colectivo! - que assim nos chegaram.? Quem te conhece, sabe que a intenção cumpria-se nos cravos. no seu vermelho flamejante. quem assim te passou a conhecer, sabe que o sonho passa bem além das fronteiras das pessoas do nosso quotidiano. estiveste connosco. como sempre estamos todos. no abraço revolucionário de quem faz das flores junção. e da sua cor, o reflexo da bandeira do nosso sonho. Cantei para ti, cantámos todos, um Grândola. estiveste lá, junto de cada palavra onde acaba a tirania e a exploração. obrigado pelos cravos. lindas pombas. voaram de mão em mão. uma delas - quase todas - poisou junto de um coração revolucionário que por ali andava, junto dos seus iguais. cheirou a estevas e a alecrim! não sei se do ramalhete que se compôs em cada coração, se dos ares das gentes do norte que vieram contigo... com as aves.
muito obrigado. o teu gesto habita agora onde se levanta o silencio embargado pela comoção.

o colectivo do Cravo de Abril!
Abril! SEMPRE!

POEMA

(Um momento de filosofia barata)


Para além do «ser ou não ser» dos problemas ocos,
o que importa é isto:
- Penso nos outros.
Logo existo.


José Gomes Ferreira

MIMOS DEMOCRÁTICOS

Nos últimos dez dias, os média dominantes fartaram-se de falar, escrever e mostrar imagens da Moldávia.
Isto porque os comunistas ganharam as eleições - ainda por cima obtendo uma maioria absoluta - e os habituais «sectores democráticos» não aceitaram os resultados, consideraram tratar-se de uma «fraude eleitoral» e exigiram a «recontagem dos votos».
A exigência foi acompanhada pela invasão, destruição, incêndio dos edifícios do parlamento e do governo - casos que os média trataram com benévolo distanciamento, eximindo-se de os qualificar ou tratando-os com uma simpatia carregada de cumplicidade.
A dada altura, as autoridades do país decidiram ceder à exigência e proceder á recontagem dos votos.
A partir daí, os contestatários mudaram a agulha: rejeitaram o que antes haviam exigido e passaram a exigir o que sempre esteve nos seus intentos: a queda do governo e a sua substituição por um «governo democrático», ou seja, por um governo totalmente encarneirado nas baias do capitalismo internacional.

Entretanto a recontagem dos votos foi por diante e os resultados foram conhecidos ontem: «vitória dos comunistas do Presidente Vladimir Voronin, com perto de 50 por cento dos votos. Não foram detectadas as fraudes denunciadas pela oposição».
Por isso, a notícia foi silenciada pela generalidade dos média - e os que se lhe referiram fizeram-no em meia dúzia de linhas bem escondidinhas, só ao alcance dos leitores mais atentos e interessados.

Mas aguardemos: quando (e se) «a oposição» retomar as suas acções terroristas - inclusive com grupos organizados idos de outros países - a Moldávia voltará a ser a notícia do dia.
Na verdade, estes média estragam os seus utentes com tantos mimos democráticos...

POEMA

CONFIDÊNCIA


Absorto, chegou-se ao pé de mim
e disse:
«Sabe, não sei se o patrão tem culpa ou não
de ser patrão;
mas a sarna também não tem culpa de ser sarna
- e é uma chatice!»


Francisco Viana