talvez ela veja isto...

milhares de minutos de ausência... embalado pelas horas que me trouxeram a dor de uma morte que me abalou no mais profundo de mim... dias amargos, ou talvez apenas justificações para um abandono que nunca existiu na realidade. não escrevo há dias, meses, anos na minha consciência de revolucionário comprometido com Abril, com os homens e com os leitores/amigos que aqui, teimosamente, vão permanecendo. mas sou militante dedicado ao Partido e nem o maior hecatombe me proíbe a foice e o martelo, sinónimo da mais bela aliança do mundo. aprendi com a espuma dos dias que nos aniquilam todos os preconceitos, que os homens amam, mas a natureza dispõe. e volto talvez mais manso, embora ainda mais afincado no que acredito. e, nestes dias, perdoem não trazer aqui a lembrança vermelha. trago-vos, talvez a mais bela de todas as revoluções... lembro hoje que a juventude, o fogo do corpo exuberante na vitalidade que nada parece derrubar, por vezes nos cega para o mais óbvio das coisas sensíveis. arrependo-me desse dia com tanta intensidade como não me arrependo de mais nenhum passo ou desalinho. vinte anos feitos no fulgor do que acreditamos. e a vida inteira na imortalidade dos dias que não passam. perdi-a na teimosia do meu orgulho. hoje beijei-a novamente. mesmo que sonhando. (terá sido real?) e de novo os meus dedos se abriram para deixar escorrer a impossibilidade da minha condição. sou forasteiro nos dias que são meus. estamos de acordo no nosso amor. não o concretizamos. porque nunca nos magoámos e sabemos que, à maneira do caetano, amor é dor. será justo? propus-lhe a fuga a tudo o que nos afasta e nos torna impossíveis. e a proposta passou para a categoria da impossibilidade. Comunistas que aqui passam, gente sensível, para que lado é que me viro? para que lado?
até já.

POEMA

PROFECIA


Cada gesto de ódio
cada gesto de prepotência
cada gesto para amordaçar a verdade
cada gesto para amparar a mentira
cada gesto que suprime outro gesto
cada gesto - indigesto

- voltará implacável como um «boomerang»
e ninguém escapará a essa lei.


Sidónio Muralha

UMA VITÒRIA E UMA DERROTA

Paulo Pedroso - há dias anunciado como cabeça de lista do PS nas eleições para a Câmara de Almada - instaurou, em tempos, um processo contra seis jovens que referiram o seu nome no caso de pedofilia da Casa Pia.
O deputado do PS acusava os os jovens de «denúncia caluniosa e infamante» e de «imprecisões» nas suas declarações.

(Entre parêntesis e apenas para avivar memórias recorde-se que o agora candidato à Câmara de Almada foi, em tempos, «acusado de 23 crimes sexuais e esteve quatro meses na prisão, mas não foi pronunciado»)

Agora, o Tribunal da Relação de Lisboa rejeitou as pretensões do ex-ministro do Governo PS/Guterres, considerando que não há razão para os seis jovens serem julgados, dado que «Paulo Pedroso não fez prova de que os seis jovens mentiram» e que «das imprecisões não resulta por si só que os arguidos mentiram. Outros elementos apontam no sentido de que os factos relatados não eram falsos».

Trata-se, obviamente, de uma vitória dos seis jovens acusados de caluniadores infamantes por Paulo Pedroso.
Trata-se, obviamente, de uma derrota do candidato do PS à Câmara de Almada.

Pelo que, se o Cravo de Abril tivesse uma daquelas rubricas «sobe e desce» com que alguns jornais aplaudem ou apupam personalidades diversas, colocaria os seis jovens lá bem em cima e o Paulo Pedroso lá bem em baixo.

POEMA

FRENTE A FRENTE


Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.

Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.


Eugénio de Andrade

MUDANÇA SEM SURPRESAS...

Prossegue a «mudança» prometida pelo então candidato e agora Presidente dos EUA, Barack Obama.
Embora não detectável a olho nu, tudo indica que a «mudança» está a atingir as profundezas do sistema.
Pelo menos na opinião dos republicanos, para os quais «Obama está a conduzir os EUA para o socialismo»...
Exactamente: «para o socialismo»!
E dizem mais, os republicanos: dizem - atenção, muita atenção!!! - que o perigo comunista que pesa sobre a pátria do imperialismo é tão grande que «Lénine e Stáline devem estar muito felizes com o que se está a passar nos EUA»...

Lida a notícia, corri os jornais todos à procura de factos que me confirmassem esse rumo socialista de Obama e a subsequente felicidade de Lénine e de Stálin.
Confesso que não encontrei nada no género. Mas certamente sou eu que não sei ler, porque se os republicanos dizem...

Em contrapartida, deparei com uma notícia que diz assim:
«O vice-presidente dos EUA, Joe Biden, disse que o seu governo vai manter o embargo a Cuba».
A notícia não surpreende: surpresa seria, isso sim, o anúncio do fim dessa sucessão de actos criminosos que constituem o embargo.
Isto é: surpresa seria a mudança...

Mas enquanto esperamos pela surpresa, atentemos nas razões com que Joe Biden fundamenta a continuação do embargo:
«Eu e Obama pensamos que o povo cubano deve determinar o seu próprio futuro e deve ter a possibilidade de viver em liberdade».
Ou seja: para que o povo cubano determine o seu próprio futuro e tenha a possibilidade de viver em liberdade, é necessário que os EUA prossigam com o embargo: com a ofensiva económica, política e terrorista com a qual, há quase 50 anos, vêm tentando que o povo cubano aceite que quem decide sobre o seu futuro e a sua liberdade são os EUA.

Está visto que a «mudança» de Obama não traz surpresas - a não ser as que os republicanos - eles e só eles - detectam...

POEMA

REJEITO


Não me engraxem os sapatos
nem me cortem o cabelo.
A barba já me cresceu
com pujança.
Os meus farrapos revelam
que sou um homem livre.
Quando percorro os atalhos
vencido pelo desalento,
ouço os homens que ladram
pela boca dos seus cães.
Hoje vomitei
as côdeas que me deram.
A esmola dava-me volta
ao estômago e deixava-me
um gosto amargo na boca.
Por caminhos de tojos
empreendi o meu exílio.
Caminho pelo mundo fora...
e o regresso agarra-se-me
aos pés doridos
e aos braços que se descerram
numa ânsia de abraçar.
Porém rejeito o preço
que me querem impor
estes homens que ladram
pela boca dos seus cães.


Félix Cucurull

PLURALISMO...

Não é preciso especial atenção às notícias para nos apercebermos da intensa promoção que os média dominantes estão a fazer ao BE e ao CDS/PP.
Basta desfolhar, mesmo que distraídamente, um qualquer jornal, ou passar os olhos ou os ouvidos, ao de leve, por qualquer telejornal ou noticiário de rádio e... eles lá estão - o BE e o CDS/PP - a propósito de tudo e de nada, com fotos e textos altamente favoráveis, apresentados como gente de bem na qual é preciso votar - de modo a que, como já sublinharam destacados representantes do grande capital, a maioria absoluta seja assegurada... se não nas eleições, com votos, depois das eleições, com arranjos...

Folheando o DN de hoje, lá encontramos, a páginas tantas, a inevitável foto de Paulo Portas.
Lida a notícia - meia página! - verificamos que toda ela gira em nome do candidato do CDS/PP ao PE.
Para informar sobre quem é o que pensa esse candidato?
Não: para informar - em meia página de texto! - que o dito candidato será apresentado na Páscoa...

E, a outras páginas tantas, lá encontramos a habitual e abundante dose de BE: ele é uma deputada que disse não sei o quê não sei onde; ele é o sempre-presente Louçã, com foto a cores, a dizer não sei quê sobre «a justiça»; ele é o diariamente-presente Miguel Portas - também conhecido por o calão do Parlamento Europeu - igualmente a cores, a blá-blá-blar sobre as eleições europeias... eu sei lá: é uma pouca vergonha.

Naturalmente, sobre as actividades da candidata da CDU, Ilda Figueiredo - que participa todos os dias em iniciativas, no País ou nas emigrações - o DN e os restantes média continuam pura e simplesmente a não dizer nada - seguindo, aliás, o critério que utilizam em relação à generalidade das actividades do PCP.
Com pormenores como este: conta-me um camarada que, há dias, no decorrer de um grande comício do PCP, foi notada a presença de uma cadeia de televisão que se fartou de filmar, enquanto o jornalista de serviço, de bloco em punho, se fartava de tomar notas sobre as intervenções que eram feitas. Á saída, o jornalista arrancou do bloco as folhas escritas e deitou-as para um caixote de lixo. À noite, para o noticiário dessa cadeia de televisão, o comício do PCP não existiu...

Enfim, tudo exemplos que dão carradas de razão ao Presidente da República quando, atentíssimo ao que se passa, garante a existência noe média nacionais de absoluto respeito pelo pluralismo...

POEMA

CANDIDATO CAÔ CAÔ


Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha e bebeu cachaça, e até
bagulho fumou

Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato,
eu logo percebi
é mais um candidato

às próximas eleições
às próximas eleições
às próximas eleições

Fez questão de beber água da chuva
foi lá na macumba e pediu ajuda
bateu a cabeça no gongá, «deu azar»...

A entidade que estava incorporada
disse: «Esse político é safado,
cuidado na hora de votar

Meu irmão se liga
no que lhe vou dizer
hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe bater

Meu irmão se liga
no que lhe vou dizer
hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe prender

Hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe bater.
Eu falei p'ra você, viu?»

Nesse país que se divide
em quem tem e quem não tem
sempre o sacrifício cai no braço do operário.

Eu olho para um lado
eu olho para o outro
eu vejo desemprego
vejo quem manda no jogo.

E você vem, vem
pede mais de mim
diz que tudo mudou
e agora vai ter fim

Mas eu sei quem você é
e ainda confio em mim
sei que o jogo é sujo
mas eu não desisto assim.

Você me deve
você me deve.
Hoje ele pede, pede, pede de você
amanhã ele vai, vai, vai te foder
hoje ele pede, pede, pede de você
amanhã ó!


Walter Meninão

A ABERTURA OFICIAL DA CAÇA

Aproximam-se as eleições: em Junho serão as do Parlamento Europeu e lá para o fim do ano as legislativas e as autárquicas.
Todas importantes para todos os partidos, embora com conteúdos-de-importância diferentes, como é fácil de perceber.
Para o PCP/CDU, as eleições são vistas como parte integrante da luta de massas contra a política de direita e por um novo rumo para Portugal, inspirado nos valores e ideais da Revolução de Abril.
Para os partidos da política de direita, as eleições são o caminho essencial para assegurar o prosseguimento dessa política, oposta, em tudo o que é fundamental, aos valores e ideais de Abril.
E, como sabe quem quer saber, o sistema está montado de forma a assegurar previamente a vitória dessa política em todos os actos eleitorais - sendo certo que, no dia em que essa vitória não estiver previamente assegurada, não há eleições para ninguém...

Deitando uma vista de olhos, ou de ouvidos, pelos média dominantes - propriedade do grande capital - facilmente nos apercebemos das suas opções eleitorais.
Ou melhor: da sua opção eleitoral, já que, para o pragmático grande capital, o que conta não é tanto o partido que executa a política de direita mas a eficácia com que essa política é executada.
Daí que a preocupação primeira e maior desses média seja a de dar relevo e acarinhar todas as forças que, directa ou indirectamente, favorecem a política de direita e, simultaneamente, silenciar ou tratar com os pés a única força que, consequente e coerentemente, se bate contra essa política: o PCP/CDU.
Querem exemplos disso?: leiam um qualquer jornal em qualquer dia; ouçam uma qualquer rádio em qualquer dia; liguem para um qualquer canal de televisão em qualquer dia.

Quer isto dizer que os apoiantes da CDU nas três eleições que aí vêm, partem para essas batalhas em profunda e flagrante desvantagem em relação a qualquer dos restantes partidos - e que, portanto, o esforço que lhes é exigido é incomensuravelmente superior ao dos apoiantes de todos esses partidos.

Mas os trunfos da política de direita, não se resumem aos média.
Temos visto, ao longo dos últimos 33 anos, como o partido que na altura é governo utiliza em seu proveito o aparelho de Estado; como o Governo de ocasião usa e abusa do poder para, com o dinheiro que é de todos, caçar votos para si.
Trata-se de uma prática corrente e que é, já, componente do conceito de democracia dominante.

E aí estão eles, mais uma vez, ao ataque.
Sabe-se que o Governo PS/Sócrates foi o que mais longe levou a política governamental em matéria de submissão do poder político ao poder económico- e, por isso, o que mais longe levou o agravamento das condições de trabalho e de vida dos portugueses.
Assim, é natural que vá também mais longe do que qualquer dos seus antecessores em matéria de despudorada caça ao voto, quer nas promessas - feitas com a prévia determinação de não serem cumpridas - quer na tal compra de votos para o PS com o dinheiro que é de nós todos.

É o caso - oportunamente denunciado pelo deputado Bernardino Soares - do ministro Vieira da Silva que, ao que parece, procedeu oficialmente à abertura da caça ao voto: designado «coordenador da campanha eleitoral do PS», o ministro tem vindo a dedicar-se à tarefa de correr o País a comprar votos para o PS, oferecendo em troca «cheques e casas»...

E como, infelizmente, não se deslocará a Portugal nenhum «grupo de observadores internacionais» com o objectivo de «avaliar a democraticidade das eleições»...

POEMA

PRINCÍPIO


ERA uma vez...

... é uma história sem feiticeiras,
sem sapatinhos que se perdem e se encontram;
sem reis, sem princesas,
sem Ilhas Afortunadas.
Talvez toda, talvez em parte
se pareça com outras histórias que alguém sabe,
histórias repetidas em voz baixa
porque estamos na hora do medo,
na hora do silêncio...

Também eu tenho de calar-me;
há gente de mais a ouvir.


Félix Cucurull

COISAS DA JUSTIÇA

Avelino Ferreira Torres foi absolvido, por falta de provas, dos crimes de que era acusado: «corrupção, peculato de uso, extorsão e abuso de poder».

Depois da sentença, já impoluto, o absolvido proclamou que, até agora, «só acreditava na justiça Divina e na justiça de Fafe. Agora começo a acreditar na justiça dos tribunais».
Aquele «começo a gostar» parece indiciar algumas cautelas.
Será que Avelino tem alguns processos pendentes?...

Depois de ler a sentença, a juíza produziu declarações igualmente muito educativas, que não vale a pena transcrever.

No entanto, mais importantes do que as declarações de Avelino e da juíza foram as declarações das testemunhas, que dizendo o contrário do que antes haviam dito - e jurando dizer a verdade com o mesmo fervor com que antes o haviam feito - foram decisivas para a absolvição do réu.
Tudo isto a bem da justiça, obviamente.

Ainda a propósito de justiça, o inimitável bastonário da Ordem dos Advogados, Marinho Pinto, publicou um texto no qual «arrasa a PJ no caso Freeport», acusando-a de crime de «conspiração contra o primeiro-ministro» - que o mesmo é dizer: acusando-a de desenvolver uma campanha negra contra Sócrates...
Isto digo eu, que não percebo nada de geografia. Mas o bastonário garante que a posição que assumiu sobre o assunto «não é um apoio ao primeiro-ministro». Ora, se ele o diz...

Já agora recordo que aqui há tempo, Marinho Pinto pronunciou-se estridentemente contra o processo do «Caso Casa Pia» que, segundo disse, constituía uma autêntica «cabala contra o PS». E também nessa altura, o bastonário garantiu que a sua posição não era um apoio ao PS...
Ora, se ele o disse...

Aqui chegado, interroguei-me sobre que semelhanças há entre, por um lado, Avelino, a sua juíza e as suas testemunhas e, por outro lado, Marinho Pinto.
E a resposta foi: muitas!...

POEMA

OUTRA VEZ


Tanto na minha língua como na dos vizinhos
há sempre mentirosos, exploradores mesquinhos.
Estendem-te armadilhas, dizem-te patranhas,
os que falam como tu e os de falas estranhas.

Serás porém injusto, quando alguém te explora
tornando a tua fome assustadora,
se pensares que todos os da mesma língua
comem o que é teu para morreres à míngua.

Se te enganam hoje em bom catalão,
pensa que há mais gente, pronta a dar-te a mão,
amanhã e aqui, ou noutros países,
com palavras doces ou de ásperos matizes.

E para acabar esta lengalenga,
não consintas nunca que ninguém te prenda
o chocalho oco dos mansos carneiros
que pastam o tojo no pó dos outeiros:
para os rebanhos há uma só linguagem:
pontapé que ferve, pancada selvagem.


Félix Cucurull

A LUTA É O CAMINHO

A tão celebrada «caixa que mudou o mundo», não o mudou para melhor...
Bem pelo contrário: ela tem sido um poderoso instrumento de manipulação e mistificação, de desinformação organizada, de formação/deformação de mentalidades - sempre, essencialmente, ao serviço dos interesses e da ideologia da classe exploradora e sempre, essencialmente, contra a classe dos explorados.
Decorre isto do facto de as cadeias de televisão serem, na sua quase totalidade, propriedade dessa classe exploradora - e as que o não são, pertencem ao Estado, também ele, na imensa maioria dos casos, fiel servidor dos mesmos interesses e da mesma ideologia.

Muitos milhões de cidadãos, em todo o mundo, formam aquilo que julgam ser a sua opinião sentados frente ao televisor.
Ali aprendem todos os «fatalismos» e todas as «inevitabilidades» que permitem ao grande capital aumentar a exploração e os lucros.
Ali aprendem «o princípio» de que não é necessário, nem vale a pena, lutar - e ali aprendem o medo das consequências de infringirem esse «princípio».
Ali aprendem em quem devem votar, porque «não há alternativas» aos governos do grande capital.
Ali aprendem que, quer a economia esteja em alta quer esteja em baixa, o papel que lhes está reservado é o de fazer «sacrifícios» e «apertar o cinto».
Enfim, ali são, sem disso se aperceberem, formatados ao sabor dos interesses e da ideologia dos que os exploram todos os dias e todos os dias lhes roubam direitos humanos fundamentais.

A «caixa que mudou o mundo» é, assim, o mais importante e o mais eficaz de todos os veículos da ideologia dominante, não apenas por ser o de maior audiência mas também porque é o de mais fácil acesso - e, ainda, porque é o que mais cedo atinge os alvos.
Segundo Marçal Grilo - que já foi muita coisa e agora é, entre outras coisas, Administrador da Fundação Gulbenkian - «quando chegam à escola, aos seis anos, as crianças já viram quatro a cinco mil horas de televisão» - ou seja, já deram os primeiros e decisivos passos no roteiro impiedoso da formatação...


Quer isto dizer que estamos perante uma inevitabilidade contra a qual não há nada a fazer?
Não: quer apenas dizer que a luta dos que não desistem de assumir a consciência do mundo em que vivem, da necessidade de o transformar e do papel que têm a desempenhar nessa transformação, é uma luta muito, muito difícil, e que exige esforços, dedicações, coragens e vontades incomensuráveis.
E que é tendo isso em conta que os que lutam devem avaliar os resultados do seu esforço.
Para que não esqueçam que, nestas circunstâncias - por exemplo e para não irmos mais longe - juntar na rua 200 mil pessoas, constitui um êxito muito maior do que os números dizem.
E que assim sendo, as razões para encarar com confiança a vitória na luta pela construção de um mundo novo, são também elas muito maiores do que a primeira vista pode parecer.
E que, por tudo isso, a luta é o caminho.

POEMA

PROCURA


Não conheces o caminho,
mas apenas a angústia
do estômago vazio
e as promessas
que jamais se cumprem.
Sabes de cor
o que te dirão amanhã.
Não sei se ainda escutas.
Talvez tenhas uma vaga esperança
e queiras acreditar nos homens.

Não conheces o caminho
mas apenas a angústia
de todas as mentiras:
as dos outros, as tuas.
Tens o estômago vazio
e nem sequer te resta
a coragem de seres livre.

Não conheces o caminho,
mas apenas a angústia
de não confiar nas mãos que se te estendem.
Tens o estômago vazio
e aprendeste
que terás de esvaziar também o cérebro de sonhos.

Não conhecemos o caminho
porque são demasiadas
as estradas falsas
que os homens abriram.
E agora mete-nos medo a miragem...

Mas as fontes estão certas,
chega-me aos ouvidos
o murmúrio da água.
(E do sangue que vai marcando as sepulturas
dos que ousaram ser audazes de mais.)


Félix Cucurull

DESVERGONHA SEM FRONTEIRAS

É por demais conhecida a abertura dialogante do ministro Santos Silva, a sua permanente disponibilidade para ouvir e considerar opiniões mesmo que discordantes das suas, a sua infinita capacidade para construir consensos, etc, etc, etc...
Exemplos disso encontramo-los todos os dias nos média onde o ministro leva a cabo com incontestado zelo a missão de propagandista que lhe está confiada.
É um desses exemplos que aqui vos trago hoje.

Inquirido sobre qual era o ponto da situação em relação ao diferendo PS/PSD em torno da escolha do provedor de justiça, o ministro garantiu, peremptório que «há hipóteses de acordo».
E explicitou as duas razões essenciais que suportam o seu optimismo:
em primeiro lugar: «seria muito bom, razoável, que o PSD fizesse parte da solução para o provedor de justiça»;
em segundo lugar: «confia em que o PSD aceite o nome proposto pelo PS».
Aqui está, então, um exemplo concreto de aplicação concreta do conceito de diálogo do ministro do PS: ele chegará a acordo com todos os que aceitarem as suas propostas...


Mas Santos Silva não é só isto. Ou seja: não é apenas um homem de diálogo e de consensos. Ele é, também, um homem de negócios.
E foi nessa qualidade que avançou o derradeiro «argumento» para o acordo com o PSD: «O PS designa o provedor de justiça e o PSD designa o presidente do Conselho Económico e Social, tradicionalmente do PS».

«Argumento» forte, sem dúvida.
É certo que o facto de ter surgido demasiado tarde, talvez impeça a sua viabilidade imediata. Mas é só uma questão de tempo: porque é do interesse dos dois, mais tarde ou mais cedo o negócio concretizar-se-á.
A confirmar que eles tratam o País como se fosse coisa deles - e tratam os portugueses como bestas, às quais exigem que lhes garantam, através do voto, a perpetuidade no governo.
A confirmar, enfim, que a desvergonha desta gente não conhece fronteiras nem limites.

POEMA

BAILE DE MÁSCARAS


Quando o senhor comendador entrou no salão
com a condecoração de mérito industrial,
toda a gente lhe queria dar o prémio
da melhor fantasia daquele Carnaval.


Raúl Castro

«INDIGNAÇÃO»...

Ainda a propósito da questão aflorada no meu post «isto anda tudo ligado», transcrevo a crónica, carregada de ironia - e, lamentavelmente, de verdade - publicada hoje no Correio da Manhã.

«INDIGNAÇÃO

O meu vizinho Alberto ficou sem emprego. Parece que a fábrica onde trabalha a mulher também vai fechar. A sua velha mãe, idosa, não consegue pagar os medicamentos com a pequena reforma que recebe.
O Alberto está muito indignado: aquele sacana do Lucílio Baptista inventou um pénalti escandaloso»

Pois...

POEMA

AMARGO ESTILO NOVO


Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos,
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.

Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel,
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel.
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.

E é tudo tão simples quando se rola a flor entre os dedos!
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem.


António Gedeão

ISTO ANDA TUDO LIGADO

O erro do árbitro que apitou mal, prejudicando irremediavelmente uma equipa em favor de outra, transformou-se, desde sábado passado, no maior acontecimento nacional.
Todos os jornais, rádios, televisões - e muitos blogues - têm feito disso a notícia maior e arrastaram milhões de pessoas, por todo o País, a não pensar noutra coisa.
O País está em estado de choque perante tamanha... chame-se-lhe o que se quiser: injustiça, roubo, fraude, corrupção...
Circula um abaixo-assinado exigindo a repetição do jogo e que, segundo li num jornal de hoje, recolheu, em dois dias, muitos milhares de assinaturas - muito mais assinaturas, diz o jornal, do que as recolhidas, em várias semanas, a exigir a demissão do Conselheiro de Estado Manuel Dias Loureiro...

O caso remeteu para segundo plano tudo o resto, não apenas no que respeita às graves questões sociais que atormentam milhões de portugueses - entre eles, certamente, muitos dos flagelados pelo apito errado do árbitro - mas também no que respeita ao «fenómeno desportivo», como é hábito dizer-se...
O próprio jogo da selecção nacional que ocorrerá no próximo fim-de-semana - «jogo decisivo mas que não é decisivo», li por aí... - tem passado praticamente despercebido. E só não caiu totalmente no esquecimento porque o seleccionador nacional detectou e entendeu tornar pública a existência, entre os jogadores da selecção, de «sinais evidentes de entusiasmo e confiança». E, talvez julgando necessário apresentar mais provas desse «entusiasmo» e dessa «confiança», rematou deste jeito: «Há uma atmosfera especial no rosto, nos sinais corporais de cada jogador».
Ó diabo!...

Estas cenas trouxeram-me à memória um estudo divulgado há umas semanas atrás pela agência Lusa, segundo o qual «as palavras "futebol", "Sport Lisboa e Benfica" e "Futebol Clube do Porto» foram as que apareceram mais vezes em notícias publicadas na imprensa nacional em 2008 (jornais generalistas, desportivos e económicos
Talvez este estudo nos ajude a perceber por que é que, em tempos, se dizia que o fado é qu'induca e o futebol é qu'instrói...
Porque, como lucidamente dizia o poeta, isto anda tudo ligado...

POEMA

O FUTURO


Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.

Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.

Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.

O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.


José Carlos Ary dos Santos

TODOS À RUA!

Está visto que a rua - ou seja: as massas, na rua, em movimento - os faz tremer.
Vamos, então, para a rua dizer da nossa razão.

Jerónimo de Sousa anunciou hoje, em conferência de imprensa:

«É perante esta situação de um país sem saída no quadro da actual política, é perante esta exigência de ruptura e mudança na vida política nacional, que anunciamos hoje a realização de uma grande manifestação política, uma Marcha de protesto, ruptura e confiança, uma grande acção de luta por uma vida melhor, que irá decorrer no dia 23 de Maio, precisamente daqui a dois meses, na cidade de Lisboa».


No dia 23 de Maio, vamos fazer a Festa de Abril nas ruas de Lisboa.

POEMA

COBARDIA


E não diz a palavra!
Já não consegue a pura claridade
da raiva que se exprime
num grito que trespassa o firmamento!
Parafraseia a dor, como um pinheiro
que tem medo do vento
e se torce na duna, horizontal, rasteiro,
a enrodilhar a voz do sofrimento.

Filho do instinto,
perdeu a força heróica de arrancar
o aço do punhal que o atravessa.
Morre por não ter pressa
de se salvar!


Miguel Torga

O MEDO DA RUA

O medo da rua é uma obsessão típica dos representantes do poder capitalista, quer ele se apresente na sua expressão de ditadura fascista (com aconteceu durante 48 anos), quer se exiba na modalidade de ditadura do grande capital (como acontece há 33 anos).

Ficaram célebres as afirmações de Salazar sobre o assunto, especialmente as suas ameaças de não deixar - custasse o que custasse - que o poder caísse na rua.
Também no 25 de Abril, quando Spínola foi ao Quartel do Carmo conferenciar com o fascista Marcelo Caetano, o objectivo era, igualmente, o de não deixar o poder cair na rua.

Ora, com a poderosa manifestação do dia 13, o medo da rua voltou a assaltar os representantes do poder capitalista dominante.
Percebe-se: os actuais executantes da política ao serviço do grande capital nunca tinham visto tanta gente na rua, a contestá-los, a chamar-lhes o que são, a mandá-los dar uma volta, a exigir um outro rumo para Portugal.
E foi esse medo novo que lhes trouxe à memória o medo velho - o medo da força organizada dos trabalhadores em movimento, o medo da multidão em luta - e os pôs a cacarejar, quais galinhas assustadas, contra os perigos da rua...

Dou o exemplo de dois desses bípedes.
Vera Jardim, deputado do PS, cheio de prudência, aconselhou assim: «O Governo deve seguir a sua política, não se deixando influenciar pela rua».
E João Proença - o chefe recém-reeleito de uma central «sindical» que tem como tarefa única estar sempre contra os trabalhadores e do lado do governo do grande capital (seja ele do PS ou do PSD) - logo se apressou a alertar o Governo de Sócrates para não se deixar influenciar pela grandiosidade da manifestação.
Patético, cobarde e sem vergonha, o sindicalista do grande patronato gemeu assim: «mal de nós se o Governo for gerido pela rua».

Quer isto dizer que temos que continuar a vir para a rua, e que é na rua - isto é, com a luta - que correremos de uma vez por todas com esta corja que há mais de trinta anos tudo tem feito para nos roubar Abril.

POEMA

SOMOS TODOS POETAS


Por que não queres os versos que te nascem
como rebentos pelo tronco acima?
Por que não queres a inesperada rima
dos sentimentos?
Olha que a vida tem desses momentos
que se articulam numa cadência
tão imprevista,
que é uma conquista
da consciência
não ser um túnel de negação...
Brotam as folhas que são precisas
e outras folhas que o não são.


Miguel Torga

AS SIMPATIAS DO SOCIÓLOGO

Alberto Gonçalves - o «sociólogo» que aos domingos se entorna em toda uma página do Diário de Notícias - dispara, hoje, contra «alguns leitores apaixonados» que se insurgiram contra o seu escrito de há uma semana sobre a manifestação do dia 13 - escrito no qual o «sociólogo» uma vez mais desnudou o seu pensamento pescado à linha na direita mais cavernícola e reaccionária.
Diz Gonçalves que os tais «leitores» o acusaram de estar vendido aos «interesses governamentais» - acusação que o visado rejeita já que simpatia pelo Governo de Sócrates não é com ele, bem pelo contrário.

É verdade que Alberto Gonçalves não simpatiza por aí além com este Governo.
Porquê?:
em primeiro lugar, porque este Governo traz tacticamente atreladas a si as palavras «esquerda» e «socialista» - palavras que, mesmo não tendo rigorosamente nada a ver com a prática concreta do Governo de Sócrates, são perigosas, perigosíssimas, intoleráveis para o «sociólogo»...;
em segundo lugar, porque não simpatizando com este Governo, está a cumprir o sagrado dever de simpatizar com o que virá a seguir, ou seja, com a alternância que, disfarçada de «alternativa», deverá prosseguir a política de direita que há 33 anos tem vindo a ser aplicada por sucessivos governos PS/PSD.

E, atenção!, com essa política, o «sociólogo» simpatiza, e de que maneira! - tanto que se, nos seus textos de domingo, passasse a escrito o que lhe vai naialma, aplaudiria o facto, incontestável, de o Governo de Sócrates (mesmo «de esquerda» e «socialista»...) ter levado essa política de direita mais longe do que qualquer dos governos que o antecederam.
Portanto, que fique claro: o que ele não suporta - e teme! e treme! - é «as forças que estão por detrás» da manifestação do dia 13, que «sabem muito bem o que querem» - que é o oposto do que o «sociólogo» quer...

Tudo isto a confirmar que, na verdade, estão errados os tais «leitores apaixonados» que o acusam de estar vendido «aos interesses governamentais»: em rigor, ele está vendido, de facto, é aos interesses da política de direita ao serviço do grande capital.
Tudo isto a confirmar, também, que pelo seu conteúdo, os textos que Alberto Gonçalves escreve todos os domingos no DN actual, em nada diferem, no essencial, dos que os albertos gonçalves de há cinquenta anos escreviam no saudoso DN de então.
Ou no órgão oficial do regime fascista: o igualmente saudoso Diário da Manhã que, bem vistas as coisas, seria o espaço ideal para acolher os escritos dominicais de Alberto Gonçalves.
Porque aí, sim, o «sociólogo» teria possibilidade de, livremente, sem o recurso a quaisquer subterfúgios, expressar as suas verdadeiras simpatias...

POEMA

COMPANHEIRA DOS HOMENS


A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes,
poesia tão pessoal como uma escova de dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.

E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.


Sidónio Muralha

POIS...

Disse Maria José Morgado, ao Sol, que «há muitos políticos pobres que ao fim de uns anos estão milionários».
A afirmação é verdadeira, sem dúvida, e tão óbvia que qualquer cidadão, mesmo sem desempenhar as tarefas que Maria José Morgado desempenha, sabe que assim é.
Além disso, sabe quem quer saber que esses novos ricos andam por aí exibindo as suas fortunas súbitas em liberdade, à solta... - e que Maria José Morgado, se quiser, pode pôr termo a tais exibições...
Quererá?
Duvido.

Acresce que, postas as coisas como Maria José Morgado põe - e sabendo-se como foi longe a linha da propaganda dominante que diz que «os políticos (e os partidos) são todos iguais» - a ideia que fica a pairar é a de que esse enriquecimento súbito é coisa que toca a todas as famílias políticas.
Será essa a intenção da autora da afirmação?
Creio que sim.

Como todos sabemos - nós e Maria José Morgado - há muitos políticos pobres que se mantêm pobres.
No que me diz respeito, conheci e conheço milhares de políticos - meus camaradas de partido, portanto meus camaradas de luta contra esta sociedade baseada na opressão e na exploração e por uma sociedade liberta de todas as formas de opressão e de exploração - e não sei de nenhum que se tenha tornado milionário - nem súbita nem lentamente.
Estou em crer que as intenções profundas da afirmação de Maria José Morgado se encontram num outro momento das suas declarações ao Sol, em que, após considerações diversas sobre riqueza boa e riqueza má, declarou: «Não tenho nada contra a riqueza, que aliás é necessária».
Pois.

POEMA

ENCORAJAMENTO


...E a poesia lá vai - tão amada e detestada -
livre, como se marchasse nua contra o vento,
vai levar aos que se cansam da longa caminhada
a água pura e fresca do encorajamento.

E ela lá vai... Lá vai, e luta, quer queiram ou não,
contra a lassidão e a doença do sono,
e a quem tiver sede oferece a canção
do futuro sem grades e dos homens sem dono.


Sidónio Muralha

FAÇAMOS AS CONTAS

Como era previsível, a Sonae, em 2008, teve uma quebra nos lucros.
Os efeitos de tal quebra traduziram-se na descida de Belmiro de Azevedo no ranking nacional e internacional dos homens mais ricos - notícia que quando foi divulgada provocou profundo pesar em todos os portugueses.

Segundo informou Paulo Azevedo - herdeiro de Belmiro e actual presidente executivo da Sonae - a quebra dos lucros anda pelos 70 %, isto é: em 2008, o lucro de Belmiro passou de cerca de 115 milhões de euros para, apenas... 80 milhões de euros.
Mas tudo se resolverá: para tranquilidade da Nação, no próximo ano o grupo aumentará os lucros - isto porque, Paulo de Azevedo, ele o diz, vai «tornar a Sonae uma grande multinacional». Outra razão para acreditar que os lucros da Sonae vão aumentar em 2009, é que Paulo Azevedo, ele o diz, faz «um balanço positivo da actuação de José Sócrates» e tem «empatia por José Sócrates» (aí está, dito por quem sabe, aquilo que nós já sabíamos: o Governo de Sócrates é fiel cumpridor das ordens dos grandes grupos económicos e financeiros).

Entretanto, a propósito destas quebras de lucros dos grandes, um comentdor do Público, num aparente assomo crítico, escrevia ontem: «(com a crise) os ricos perderam mais num ano do que a maioria das pessoas ganhará ao longo de toda uma vida».
O que, sendo verdade, é verdade que peca por defeito, já que «a maioria das pessoas» precisaria de muitas vidas para ganhar tanto como o Belmiro perdeu num ano - e de muitas mais vidas para ganhar o que Belmiro ganha mesmo em ano mau...
Para vermos como é, façamos as contas: tomando como exemplo uma pessoa que ganhe 1000 euros/mês (ordenado que «a maioria das pessoas» não ganha), essa pessoa precisaria de 3 000 anos de trabalho para ganhar tanto como Belmiro perdeu num ano - e precisaria de 6 600 anos de trabalho para ganhar tanto como Belmiro ganhou no ano de 2008.

Quer isto dizer, entre muitas outras coisas, que Paulo Azevedo sabia o que dizia ao sublinhar que «o Público é um jornal de grande qualidade que nos beneficia imenso»...

POEMA

POIS


O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca penetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.

Assim tudo ficou até que não.

Azevedo e silva ao volante do mini
vê elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções.

E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.


Alexandre O'Neill

PLURALISMO FIÁVEL

Há dias, o Presidente da República vetou a lei do pluralismo. E explicou porquê.
Contudo, se a decisão de rejeitar a lei foi boa, as razões que estiveram na origem da decisão são péssimas.
Dessas razões - que Cavaco Silva enunciou com aquela solenidade pernóstica com que usa ridicularizar-se e fazer-nos rir - destaco duas.

Em primeiro lugar, considerou a lei «inoportuna». Porquê?
Porque, segundo informou, «estão em preparação a nível europeu critérios fiáveis sobre pluralismo».
Este é o argumento da subserviência saloia e bacoca aos ditames do que vem de fora - do es-tran-gei-ro, da Eu-ro-pa - matéria na qual o então primeiro-ministro Cavaco se tornou um emérito especialista.

A segunda razão, baseia-se na seguinte e abalizada opinião do Presidente da República:
«Em Portugal não há, ao contrário do que porventura sucederá noutros países, um défice de pluralismo da comunicação social».
«Défice de pluralismo»?: claro que não, sr. Presidente, nem pensar nisso, bem pelo contrário:
como vemos, ouvimos e lemos todos os dias, todos os média defendem os interesses não apenas de um ou dois, mas de todos os grandes grupos económicos e financeiros.
E não há critério de pluralismo mais fiável do que esse.

POEMA

O MACACO


Nunca se sabe
até que ponto
um macaco pode chegar
na ânsia de nos imitar.

Dizem alguns autores
ser o macaco
difícil de apanhar
- mas não.

Em qualquer
mundana
reunião
num ombro
numa frase
num olhar
no jeito "humanista"
de falar
aí temos o macaco
a trabalhar
procurando
aproveitar a confusão.

Pessoalmente
sou de opinião
que o macaco
é fácil de caçar
até à mão.

Alexandre O'Neill

O VALE-TUDO

O medo da luta dos trabalhadores organizados continua a estimular as declarações e os escritos dos propagandistas do Governo e da sua política.
Daí a fortíssima ofensiva em curso contra a CGTP e contra o PCP, na sequência da histórica manifestação do dia 13.
Que aquilo lhes meteu medo, não há dúvida. Daí o ataque às causas desse medo: a existência de sindicatos de classe e de um partido de classe, que não desistem de lutar pela defesa dos interesses e dos direitos dos trabalhadores.

Hoje, em entrevista ao Diário Económico, o presidente do Conselho Económico e Social, Bruto da Costa, comenta assim a manifestação: «O que vemos é que os trabalhadores que estão associados a uma central estão mobilizados e mobilizáveis. E os trabalhadores ligados a outra central não estão.»
Aqui chegado, esperava eu que o entrevistado se pronunciasse sobre as razões que levam a situações tão díspares numa e na outra central, ou seja: por que é que os trabalhadores filiados na CGTP-IN estão, e os filiados na UGT não estão, «mobilizados e mobilizáveis» para lutarem pelos seus interesses?
Mas o ilustre presidente não foi por aí. Obviamente porque não lhe convinha ter que tirar a conclusão óbvia: porque a CGTP é a central dos trabalhadores e a UGT é a central da política de direita ao serviço do grande capital.
Por isso, desviando o seu raciocínio da conclusão óbvia, o homem raciocinou assim: «Portanto não há uma posição geral dos trabalhadores».
Ou seja, como por palavras dele explicou: uns estão e outros não estão mobilizados, isto é uma carga de trabalhos, o melhor é que as próximas eleições dêem a maioria absoluta ao Governo dos desmobilizados...

E levando a tarefa até ao fim, lá avançou com a conclusão da moda - «A filiação partidária dos dirigentes sindicais descredibiliza os sindicatos».
Conclusão que,
1 - disparada deste jeito, só pode ter como alvos os militantes comunistas que são dirigentes sindicais, e
2 - se faz eco das declarações do Chefe Sócrates em favor de «sindicatos livres de tutelas partidárias».

E se tivermos em conta que as referidas declarações de Sócrates foram proferidas no congresso da Tendência Socialista da UGT, é fácil de ver que, para esta gente, o vale-tudo continua a ser o único caminho conhecido.

POEMA

O NOVO MANDAMENTO


Está criado
o novo mandamento. Aos pássaros
dirás: não cantareis; às flores:
não florireis. E florirão
as bombas. E morrerão
as pombas. E ao sangue
dirás: rio
serás. E sobre
os escombros erguerás
o homem novo, o seu cadáver, desenharás
a ferro e fogo o mapa
do luto e das lágrimas. E imporás,
enfim,
a liberdade. A liberdade
do terror e das armas. A liberdade
para matar.


Albano Martins

A CIMEIRA DA GUERRA

Em 16 de Março de 2003, faz hoje seis anos, três criminosos de guerra - Bush, Blair e Aznar - juntaram-se na Base das Lajes, naquela que viria a ficar conhecida por «Cimeira da Guerra».
Para lhes servir as bebidas, enquanto decidiam invadir e destruir o Iraque, chamaram o então primeiro-ministro de Portugal, Durão Barroso , o qual viria a cumprir tão exemplarmente as funções de lacaio que, logo a seguir, foi promovido a presidente da Comissão Europeia.

Barroso, disse na altura o que lhe disseram para dizer: que «é dele (Saddam) a responsabilidade de não ter respeitado durante anos o direito internacional» e de ter em seu poder terríveis armas de destruição maciça» - e que «esta Cimeira é a última oportunidade para uma solução política».

A «solução política» chegou quatro dias depois da Cimeira: às ordens do imperialismo norte-americano, o Iraque foi sistematicamente arrasado e centenas de milhares de iraquianos assassinados, naquele que foi um dos mais bárbaros crimes da história.

Posteriormente, Barroso, armado em ingénuo, declarou que tinha agido «com base em informações, que não foram confirmadas, de que havia armas de destruição maciça no Iraque»...
Quanto a Bush, Blair e Aznar, esses declararam que sabiam da inexistência dessas armas no Iraque...

Feitas as trágicas contas, estamos perante quatro criminosos de guerra, quatro assassinos em massa, quatro réus que aguardam o julgamento - até um dia...