POEMA
SONETO IMPERFEITO DA CAMINHADA PERFEITA
Já não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
em que os poetas são os próprios versos dos poemas
e onde cada poema é uma bandeira desfraldada.
Ninguém fala em parar ou regressar,
ninguém teme as mordaças e as algemas.
- O braço que bate há-de cansar
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Versos brandos... Ninguém mos peça agora.
Eu já não me pertenço: sou da hora.
E não há mordaças, nem ameaças, nem algemas
que possam perturbar a nossa caminhada,
onde cada poema é uma bandeira desfraldada
e os poetas são os próprios versos dos poemas.
Sidónio Muralha
Por
Fernando Samuel
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30.11.11
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ESTÁ-SE MESMO A VER...
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Fernando Samuel
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29.11.11
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POEMA
ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA
Sabes o que é a luta? Embora pises
areias ardendo e cimentos
aflorando pontas de lança?
- É a ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA
de dar folhas, frutos, rebentos,
com lanhos no tronco e nas raízes.
Luta em ti, fora de ti, na rua,
porque lutando
a ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA será tua.
E, enquanto a vida queira e possa,
luta sempre, porque lutando
a ÁRVORE QUE NÃO SE CANSA será nossa!
Luís Veiga Leitão
Por
Fernando Samuel
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29.11.11
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MATAR É O SEU OFÍCIO
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Fernando Samuel
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28.11.11
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POEMA
VOSSOS NOMES
No chumbo, no terror, na morte, com sangue escrevo
vossos nomes.
Na pedra, no ácido, neste branco muro escrevo
vossos nomes.
Nas trevas, no medo, na raiz da aurora escrevo
vossos nomes.
No sonho, nos ventos, na flor do trigo escrevo
vossos nomes.
No aço das duras tarefas, no relâmpago escrevo
vossos nomes.
No amor, na cólera, na fome desta ave escrevo
vossos nomes.
No sol que levamos, na verde esperança escrevo
vossos nomes.
No riso, nas lágrimas, no coração da pátria escrevo
e semeio
vossos nomes.
No ventre em flor da minha amada semeio, escrevo
e multiplico
vossos nomes.
Papiniano Carlos
Por
Fernando Samuel
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28.11.11
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DIA 30 HÁ MAIS
Por
Fernando Samuel
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27.11.11
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POEMA
ADEUS
Fiquem em paz, meus amigos,
fiquem em paz
Eu vou partir
convosco no coração
e a minha luta na cabeça.
Fiquem em paz,
amigos meus,
fiquem em paz.
Não quero ver-vos na praia
alinhados como aves num postal.
Não quero os vossos lenços a acenar, não, isso não.
Vejo-me inteiro nos olhos dos meus amigos.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
adeus sem uma palavra.
As noites vão fechar o ferrolho da porta
Os anos vão criar teias de aranha nas janelas
e eu cantarei na prisão a minha canção de combate.
Tornaremos a ver-nos, amigos, tornaremos a ver-nos.
Juntos, sorrindo, olharemos o sol
bater-nos-emos lado a lado.
Ó meus amigos
meus irmãos de luta
meus companheiros de trabalho
Adeus.
Nazim Hikmet
Por
Fernando Samuel
em
27.11.11
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VIVA A CONCENTRAÇÃO DE DIA 30!
E a realidade é que, como afirmou Jerónimo de Sousa,
«A Greve Geral foi um momento maior da história da luta dos trabalhadores e do povo português, expressão intensa da luta de classes que se trava no nosso País».
Por
Fernando Samuel
em
25.11.11
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POEMA
ENTRE PATRÃO E OPERÁRIO
Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.
Armindo Rodrigues
Por
Fernando Samuel
em
25.11.11
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VIVA A GREVE GERAL (2)
Os «democratas» são assim...
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Fernando Samuel
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24.11.11
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POEMA
SALMO 57
Senhores defensores da Ordem e da Lei:
Porventura o vosso direito não é de classe?
o Civil para proteger a propriedade privada
o Penal para aplicá-lo às classes dominadas
A liberdade de que falam é a do capital
o seu «mundo livre» é a livre exploração
Sua lei é a das armas, sua ordem a dos gorilas
vossa é a polícia
são vossos os juízes
Na prisao não há latifundiários nem banqueiros
Extraviam-se os burgueses já no seio materno
têm preconceitos de classe desde que nasceram
como a cascavel nasce com venenosas glândulas
como nasce o tubarão devorador de gente
Oh Deus acaba com o statu quo
arranca os colmilhos aos oligarcas
Que se precipitem como a água dos autoclismos
e sequem como as ervas sob o herbicida
Eles são os «gusanos» quando chega a Revolução
Não são células do corpo mas somente micróbios
Abortos do homem novo que é preciso atirar
Antes que lancem espinhos que o tractor os arranque
O povo irá divertir-se nos clubes privativos
entrará na posse das empresas privadas
o justo há-de alegrar-se com os Tribunais do Povo
Festejaremos em grandes praças o aniversário da Revolução
O Deus que existe é o dos proletários
Ernesto Cardenal
Por
Fernando Samuel
em
24.11.11
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VIVA A GREVE GERAL!
A mostrar que a força dos trabalhadores unidos e organizados é imparável.
Por
Fernando Samuel
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24.11.11
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POEMA
A FÁBRICA
Da alavanca ao tear da roda ao torno
da linha de montagem ao cadinho
do aço incandescente a entrar no forno
à agulha a trabalhar devagarinho.
Da prensa que se fez para esmagar
à tupia no corpo da madeira
do formão que nasceu a golpear
à força bruta de uma britadeira.
Do ferro e do cimento até ao molde
que é quase um esgar de plástico sereno
do maçarico humano que nos solde
à luz da luta e não do acetileno
nasce este canto imenso e universal
sincopado enérgico fabril
sereia que soou em Portugal
à hora de pegarmos por Abril.
Transformar a matéria é transformar
a própria sociedade que nós fomos
ser operário é apenas saber dar
mais um pouco de nós ao que nós somos.
Um braço é muito mas por si não chega
por trás da nossa mão há uma razão
que faz de cada gesto sempre a entrega
de um pouco mais de força. De mais pão.
Estamos todos num único universo
e não há uns abaixo outros acima
pois se um poema é uma obra em verso
um parafuso é uma obra-prima.
Operários das palavras ou do aço
da terra do minério do cimento
em cada um de nós há um pedaço
da força que só tem o sofrimento.
Vamos cavá-la com a pá das mãos
provar que em cada um nós somos mil
é tempo de alegria meus irmãos
é tempo de pegarmos por Abril.
José Carlos Ary dos Santos
Por
Fernando Samuel
em
24.11.11
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UMA MUITO GRANDE GREVE GERAL
Por
Fernando Samuel
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23.11.11
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POEMA
PARA VÓS O MEU CANTO...
Para vós o meu canto, companheiros da vida!
Vós, que tendes os olhos profundos e abertos,
vós, para quem não existe batalha perdida,
nem desmedida amargura,
nem aridez nos desertos;
vós, que modificais o leito de um rio;
- nos dias difíceis sem literatura,
penso em vós: e confio;
penso em mim: e confio;
- para vós os meus versos, companheiros da vida!
Se canto os búzios, que falam dos clamores,
das pragas imensas lançadas ao mar
e da fome dos pescadores,
- penso em vós, companheiros,
que trazeis outros búzios pra cantar...
Acuso as falas e os gestos inúteis;
aponto as ruas tristes da cidade
e crivo de bocejos as meninas fúteis...
Mas penso em vós e creio em vós, irmãos,
que trazeis ruas com outra claridade
e outro calor no apertar das mãos.
E vou convosco - Definido e preciso,
erguido ao alto como um grito de guerra,
à espera do Dia do Juizo...
Que o Dia do Juizo
não é no céu... é na Terra!
Sidónio Muralha
Por
Fernando Samuel
em
23.11.11
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Assim vai a democracia
Por
Fernando Samuel
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22.11.11
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POEMA
MÁQUINA DO MUNDO
O Universo é feito essencialmente de coisa nenhuma.
Intervalos, distâncias, buracos, porosidade etérea.
Espaço vazio, em suma.
O resto é a matéria.
Daí, que este arrepio,
este chamá-lo e tê-lo, erguê-lo e defrontá-lo,
esta fresta de nada aberta no vazio,
deve ser um intervalo.
António Gedeão
Por
Fernando Samuel
em
22.11.11
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SERVENTUÁRIOS DO CAPITALISMO
Por
Fernando Samuel
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18.11.11
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POEMA
QUEM ESCOLHE O CAMINHO DAS PEDRAS
Quem escolhe o caminho das pedras
foge à fascinação do fácil
Quem escolhe o caminho das pedras
sabe de cor a cor do sangue
Quem escolhe o caminho das pedras
nada quer para tudo ser
Quem escolhe o caminho das pedras
ama o amor na raiz do lume
Quem escolhe o caminho das pedras
equilibra-se nos fios da morte
Luís Veiga Leitão
Por
Fernando Samuel
em
18.11.11
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A MELHOR SOLUÇÃO
Por
Fernando Samuel
em
17.11.11
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POEMA
OS MENINOS NASCEM
Vós podeis, tiranos, forjar ainda mais sólidas algemas,
chapear de aço as paredes das nossas e vossas cadeias,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, cravar mais fundo as vossas baionetas,
esmagar-nos nas ruas debaixo das patas dos vossos cavalos,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, roubar, incendiar, fuzilar sem descanso,
vedar os caminhos ainda livres, envenenar as fontes ainda puras,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, vir de novo descarregar a vossa cólera sobre Oradour,
lançar vossa chuva de raios sobre o nosso humano desejo de viver,
e fazê-lo-eis;
Vós podeis, tiranos, inventar ainda piores suplícios,
mordaças mais espessas, baixezas mil vezes mais desumanas para Buchenwald,
inutilmente o fareis:
Esta simples criancinha dormindo em seu berço,
este menino ainda na barriga da mãe, olhai
como vos fitam
serenos e terríveis.
Papiniano Carlos
Por
Fernando Samuel
em
17.11.11
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O EXPOENTE MÁXIMO
Sem olhar a meios, a «democracia pacífica» de Soares - ao mesmo tempo que entregava o poder ao grande capital que havia sido sustentáculo do fascismo e agravava brutalmente as condições de trabalho e de vida dos trabalhadores e do povo - exibia a sua natureza avançando contra a Reforma Agrária e, «pacificamente» e «democraticamente» dava início a um processo que, durante 14 anos, viria a pôr novamente o Alentejo a ferro e fogo, reprimindo, prendendo, espancando, julgando e condenando em julgamentos sumários milhares de trabalhadores - assassinando, como nos casos de Caravela e Casquinha.
Mas sempre, insista-se, «pacificamente» e «democraticamente».
Portanto, ao gosto e ao jeito de Soares e da contra-revolução de que ele foi, no plano nacional, o expoente máximo.
Por
Fernando Samuel
em
16.11.11
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POEMA
NA FÁBRICA ONDE EU TRABALHAVA
Na fábrica onde eu trabalhava havia muito frio
mas os meus camaradas sorriam e contávamos histórias
uns aos outros
de vez em quando encandeávamo-nos e esfregávamos os olhos
depois olhávamos admirados a perfeição da soldadura
medíamos dobrávamos batíamos o ferro
e era como se pouco a pouco algo dentro de nós se construísse
tínhamos ali as nossas entranhas e o nosso jardim
e aquilo era como a nossa horta ou a nossa casa à hora do almoço
José Vultos Sequeira
Por
Fernando Samuel
em
16.11.11
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fim
Ouvi chorar a morte de uma oliveira já velha
E então percebi que os homens são o susto vegetal do seu próprio assombro.
Casa das glicínias, 19 de Outubro de 2011
Lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
16.11.11
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gota a gota
Gota a gota
Desfalece no trabalho o suor operário
Ceifando trigo
bordando enxovais às gerações devedoras ao seu tutano
Casa das glicínias, 14 de Outubro de 2011
Lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
16.11.11
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A NOSSA PRINCIPAL TAREFA
Por
Fernando Samuel
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15.11.11
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POEMA
O NOVO MANDAMENTO
Está criado
o novo mandamento. Aos pássaros
dirás: não cantareis; às flores,
não florireis. E florirão
as bombas. E morrerão
as pombas. E ao sangue
dirás: rio
serás. E sobre
os escombros erguerás
o homem novo, o seu cadáver, desenharás
a ferro e fogo o mapa
do luto e das lágrimas. E imporás,
enfim,
a liberdade. A liberdade
do terror e das armas. A liberdade
para matar.
Albano Martins
Por
Fernando Samuel
em
15.11.11
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O MELHOR DE TODOS OS FERIADOS
Por
Fernando Samuel
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14.11.11
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POEMA
NÃO ME PEÇAM RAZÕES
Não me peçam razões, que não as tenho,
ou darei quantas queiram: bem sabemos
que razões são palavras, todas nascem
da mansa hipocrisia que aprendemos.
Não me peçam razões por que se entenda
a força da maré que me enche o peito,
este estar mal no mundo e nesta lei:
Não fiz a lei e o mundo não aceito.
Não me peçam razões, ou que as desculpe,
deste modo de amar e destruir:
Quando a noite é de mais é que amanhece
a cor da primavera que há-de vir.
José Saramago
Por
Fernando Samuel
em
14.11.11
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MATURIDADE CÍVICA
O Presidente da República prossegue a sua operação de venda de Portugal aos capitalistas dos EUA.
Fá-lo em discursos à sua cavacal maneira: em mau português e com uma sem-vergonha sem margens.
Assim, ao mesmo tempo que vai vendendo pedaços de Portugal ao desbarato, ao preço da uva mijona, oferece aos capitalistas compradores todas as garantias : as ordens da troika serão cumpridas integralmente e os portugueses farão todos os sacrificios necessários a tal cumprimento - porque, disse ele, ontem, nos EUA, «tenho confiança na maturidade cívica dos portugueses»...
Para Cavaco Silva, então, «maturidade cívica» significa prescindir de todos os direitos de cidadania e aceitar alegremente a política de direita e anti-patriótica que ele e os seus pares levam à prática, servindo fielmente os interesses do grande capital.
Ou seja, aceitar alegremente o desemprego e a precariedade, a destruição de serviços públicos essenciais, o roubo nos salários e nos subsídios de Natal e de férias, o roubo de direitos fundamentais conquistados à custa de muitas e difíceis lutas - e aceitar como coisa patriótica e inevitável os aumentos dos lucros dos grandes grupos económicos e financeiros.
E assim sendo, muito há-de ter sofrido Cavaco Silva - e muito enraivecido terá ficado - ao saber das poderosas lutas levadas a cabo nos últimos dias pelos trabalhadores portugueses dizendo «não!» ao pacto das troikas, lutas que valem pela força demonstrada e pelo que significam em termos de estímulo e de preparação da grande Greve Geral de 24 de Novembro: a fortíssima e participadíssima luta dos trabalhadores do sector dos Transportes; a giganteca manifestação dos trabalhadores da Administração Pública que ontem encheu Lisboa de luta; as múltiplas acções, por iniciativa de diversas comissões de utentes, em defesa dos serviços públicos - e a impressionante manifestação dos militares.
Em todos estes casos, sim, os que participaram nestas lutas revelaram uma enorme MATURIDADE CÍVICA - precisamente porque fizeram o oposto do que Cavaco diz que deviam fazer...
Por
Fernando Samuel
em
13.11.11
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POEMA
CANÇÃO DE GUERRA
Aos fracos e aos covardes
não lhes darei lugar
dentro dos meus poemas.
Covarde já eu sou.
Fraco, já o sou demais,
e se entre fracos for
me perderei também.
Quero é gente animosa
que olhe de frente a Vida,
que faça medo à Morte.
Com esses quero ir,
a ver se me convenço
de que também sou forte.
Quero vencer os medos...
Vencer-me - que sou poço
de estúpidos terrores,
de feminis fraquezas.
Rir-me das sombras, rir-me
das velhas ondas bravas,
rir-me do meu temor
do que há-de acontecer.
Venham comigo os fortes...
Façam-me ter vergonha
das minhas covardias.
E de seus actos façam
(seus actos destemidos)
chicotes prós meus nervos.
Ganhe o meu sangue a cor
das tardes das batalhas.
E eu vá - rasgue as cortinas
que velam o Porvir.
Vá - jovem, confiado,
cumprindo o meu destino
de não ficar parado.
Sebastião da Gama
Por
Fernando Samuel
em
13.11.11
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CUIDADO COM O GASPAR
No decorrer do debate sobre o Orçamento do Estado, o ministro Gaspar das Finanças acusou os que discordam do OE de responsáveis por todos os males que aí vêm.
Quer isso dizer que, na maneira de ver do ministro Gaspar, discordar do OE constitui um crime grave e aplaudir o OE constitui o único caminho a seguir...
É claro que não há a mínima originalidade na postura do ministro Gaspar - o que ele diz e defende hoje, já Salazar o dizia e defendia no tempo da outra senhora - mas é curioso verificar como o Gaspar tem a lição toda na ponta da língua...
Por isso... cuidado com ele!...
A dada altura - sempre negando aos discordantes o direito de discordar - o ministro avançou com um argumento demolidor: disse ele que «cerca de 80% dos portugueses votaram nos três partidos que subscrevem o programa» - o que conferiria ao OE uma legitimidade democrática a toda a prova...
Ora não é assim, de modo nenhum.
E convém desde já esclarecer que, mesmo que fosse verdade, ou seja, mesmo que «cerca de 80% dos portugueses» tivesse apoiado os tais três partidos, isso não retirava legitimidade à discordância de quem entendesse discordar.
Mas para além disso, o ministro Gaspar está a mentir quando diz o que diz: não foram «cerca de 80% dos portugueses» que votaram no PS, no PSD e no CDS: foram cerca de 80% dos votantes - e os votantes foram cerca de 60% dos inscritos nos cadernos eleitorais... e nem todos os portugueses estão inscritos...
Portanto foram menos, muito menos de 50% dos portugueses os que votaram na troika nacional - e muitos deles não teriam votado se soubessem previamente o que aí vinha em matéria de política de destruição dos interesses dos trabalhadores, do povo e do país...
Mas - repito - cuidado com o Gaspar!
Por
Fernando Samuel
em
12.11.11
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POEMA
PRANTO PELO DIA DE HOJE
Nunca choraremos bastante quando vemos
o gesto criador ser impedido
Nunca choraremos bastante quando vemos
que quem ousa lutar é destruído
por troças por insídias por venenos
e por outras maneiras que sabemos
tão sábias tão subtis e tão peritas
que nem podem sequer ser bem descritas.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Por
Fernando Samuel
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12.11.11
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AO QU'ISTO CHEGOU!...
Aqui chegado, deve ter exposto toda a mercadoria disponível: façam favor de escolher... - sempre sublinhando que «este programa é um ponto de oportunidade de negócios que deve ser aproveitado»...
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Fernando Samuel
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11.11.11
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POEMA
ANA E ANTÓNIO
A Ana e o António trabalhavam
na mesma empresa.
Agora foram ambos despedidos.
Lá em casa, o silêncio sentou-se
em todas as cadeiras
em volta da mesa vazia.
«Neo-Realismo!» dirão os estetas
para quem ser despedido
é o preço do progresso.
Os estetas, esses, nunca
serão despedidos.
Ou julgam isso, ou julgam isso.
Mário Castrim
Por
Fernando Samuel
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11.11.11
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O MICROFONE ESTAVA LIGADO...
Por
Fernando Samuel
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10.11.11
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POEMA
VIAGEM
Aparelhei o barco da ilusão
e reforcei a fé de marinheiro.
Era longe o meu sonho, e traiçoeiro
o mar...
(Só nos é concedida
esta vida
que temos;
E é nela que é preciso
procurar
o velho paraíso
que perdemos).
Prestes, larguei a vela
e disse adeus ao cais, à paz tolhida.
Desmedida,
a revolta imensidão
transforma dia a dia a embarcação
numa errante e alada sepultura...
mas corto as ondas sem desanimar.
Em qualquer aventura,
o que importa é partir, não é chegar.
Miguel Torga
Por
Fernando Samuel
em
10.11.11
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PARA QUE FIQUE REGISTADO...
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Fernando Samuel
em
9.11.11
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POEMA
UTILIDADE
Só as mãos que se estendem para a frente interessam.
Só os olhos que vêem para além do que se vê,
só o que vai para o que vem depois,
só o sacrifício por uma realidade que ainda não existe,
só o amor por qualquer coisa que ainda não se vê e ainda,
nem nunca, será nossa
interessa.
Mário Dionísio
Por
Fernando Samuel
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9.11.11
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GRAÇAS E DEUS...
Por
Fernando Samuel
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8.11.11
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POEMA
MENINO POVO
O meu Menino Povo de olhos resplandecentes
mora
na choça negra de terra e colmo
a meio da floresta,
entre a fome
e a noite.
E a sua mãe pobre
nada mais tem para lhe dar
que dois grandes seios.
Agora
o piar das aves agoirentas enche a noite
e o Menino treme
de pavor.
Lá fora uivam as alcateias
e a floresta range diabolicamente.
Parece que a noite
será sempre noite...
Ai se assim fosse!
Mas eu que venho de longe
e sou a clara esperança
trago comigo o canto das calhandras
na alvorada,
e juro ao meu Menino Povo de olhos resplandecentes
que a manhã não tarda,
ela aí vem a caminho por todos os caminhos do mundo,
é breve Dia.
Papiniano Carlos
Por
Fernando Samuel
em
8.11.11
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É TÃO SIMPLES, NÃO É?
Por
Fernando Samuel
em
7.11.11
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POEMA
DEZ RÉIS DE ESPERANÇA
Se não fosse esta certeza
que nem sei de onde me vem,
não comia, nem bebia,
nem falava com ninguém.
Acocorava-me a um canto,
no mais escuro que houvesse,
punha os joelhos à boca
e viesse o que viesse.
Não fossem os olhos grandes
do ingénuo adolescente,
a chuva das penas brancas
a cair impertinente,
aquele incógnito rosto,
pintado em tons de aguarela,
que sonha no frio encosto
da vidraça da janela,
não fosse a imensa piedade
dos homens que não cresceram,
que ouviram, viram, ouviram,
viram, e não perceberam,
essas máscaras selectas,
antologia do espanto,
flores sem caule, flutuando
no pranto do desencanto,
se não fosse a fome e a sede
dessa humanidade exangue,
roía as unhas e os dedos
até os fazer em sangue.
António Gedeão
Por
Fernando Samuel
em
7.11.11
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BOM DIA! BOM DIA!
Bom dia! Bom dia!
Alguém disse que as férias são como bolas de sabão: acabam logo.
É verdade, digo eu...
Por isso aqui estou, hoje apenas para:
saudar os/as visitantes do Cravo de Abril - de quem tinha saudades, muitas saudades;
dizer-vos como é bom regressar de férias e ser recebido com a notícia da convocação de uma Greve Geral - assim, até dá vontade de ir mais vezes de férias...
e oferecer-vos um poema que me foi oferecido pelo autor, o grande poeta cubano Miguel Barnet:
CHE
Che, tú lo sabes todo,
los recovecos de la Sierra,
el asma sobre la yerba fria,
la tribuna,
el oleaje en la noche
y hasta de qué se hacen
los frutos y las yuntas
No es que yo quiera darte
pluma por pistola
pero el poeta eres tu.
Por
Fernando Samuel
em
6.11.11
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outono
Vieram com as primeiras chuvas
E traziam na humidade todas as searas. Talvez se conseguissem ouvir
Os gritos do joio entre as promessas do pão, espigas em esforço
Ante o silêncio imemorial
saltavam potros rasgando a paisagem
Na crua luz do orvalho.
Vieram com as primeiras chuvas engrossar as lágrimas que por cá já habitavam
Entre o ruído mouco das bocas operárias rasgando o pão.
Traziam o cheiro a lenha acesa e o íngreme ligeiro das ruas na planície.
Havia o silêncio roto pelo matraquear das botas cardadas, levantando a pele aos amores proibidos
E o medo à infância comprometida com a fuga resgatada.
Vieram com as primeiras chuvas impregnadas do odor do gado
E do cio dos homens. Lembro-me das janelas de avental e da lareira reflectida
Nas romãs. Os gritos. Pão. Trabalho. Terra. Mesmo quando das gargantas apenas a queixa dos dentes hiantes perante a rijeza das côdeas. No Alentejo são os olhos que falam, mesmo antes
Da invenção dos sons.
Vieram com as primeiras chuvas. As saudades do sul. Com a tempestade rompendo o útero da minha mãe nasceu, caniculamente, um alentejano. Com as águas do céu, viola-me essa certeza o meu exílio.
Casa das glicínias, 4 de Novembro de 2011
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
4.11.11
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