salitre
No eco dos dedos afundei o choro
Depois percebi que as lágrimas são o rosto liquefeito do que amamos
Mas já era tarde e apenas o cheiro das glicínias ainda se lembrava dos nomes
Impronunciáveis das tuas metamorfoses…
Os pés amanhecidos sobre a tijoleira lambida do salitre
O linho restante dos corpos anunciando o respigar das brasas.
é Outono. E com o orvalho o reflexo do teu rosto resgatado.
Casa das glicínias
27 de Outubro de 2011
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
27.10.11
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água
Vieram dizer-me: as raízes são o amor na versão da sede.
Eu acreditei e já não parti. Tive medo que faltasse a água.
casa das glicínias, 25 de Outubro de 2011
lains de ourém
foto: taverna do carnau, ferreira do alentejo, 2009
Por
Antonio Lains Galamba
em
25.10.11
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Mineiros de Aljustrel - Ilustrações Chichorro - IV
Por
Antonio Lains Galamba
em
25.10.11
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pássaros
às vezes trago comigo um bando de pássaros tristes. estorninhos... de certeza. sinto-o pelo desalinho de abandono à sua partida.
janela do cigano, aljustrel
outubro de 2007
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
23.10.11
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Mineiros de Aljustrel - Ilustrações Chichorro - III
Por
Antonio Lains Galamba
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21.10.11
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Mineiros de Aljustrel
Por
Antonio Lains Galamba
em
21.10.11
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desalinhos
sorvedor da noite na cal arrefecida ao abandono.
acaso imaginas tu, amor ausente, porque mordem a parede
as formigas da minha inquietação?
lains de ourém, madrugada de novembro 07
Por
Antonio Lains Galamba
em
21.10.11
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meia noite
teu corpo foi hoje, talvez, um rio
onde em lágrimas as crianças perdem o barco de papel.
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
20.10.11
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lírios debruçados
amo como nunca amei. o coração das flores, os lírios debruçados na tua ausência
amo os caminhos que nos separam
porque permitem o «nós» e o difícil acesso.
gosto dos dedos caninos que acenam desatenções
pelo meio das más línguas do mundo.
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
20.10.11
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Mineiros de Aljustrel - Ilustrações Chichorro - II
Por
Antonio Lains Galamba
em
20.10.11
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searas ausentes
às vezes é no hábito que se escondem as mais acutilantes ausências,
subúrbios de cimento armado nos frágeis braços dos velhos.
nem sempre as aves anunciam as tempestades marítimas
antes as injectam em fragas nos corações revoltos.
às vezes é de linho o fogo em formigueiro pelo mel dos corpos
gritantes pela combustão amarga da solidão.
nem sempre de searas ausentes se faz a fome
antes do ondulado da lua onde, ausentando-se, se tece a presença
do que se lembra. nossa senhora dos aflitos,
na memória dos homens que na azeda condição se afligem ante o deserto
ou a saudade dos lírios.
são de xisto laminado os dedos dos mortos que se lembram
unhas roídas na ânsia do que não se sabe
e onde não entra lúcida a imaginação.
todas as flores são gritos de raiva
onde a esperança, efémera, se multiplica
no absoluto ridículo do luto antecipado de que se vestem
todos os sonhos dos bichos.
deus apenas existe na conjugação das letras ou dos medos
bálsamo alquímico com que a tragédia se engalana
antes de vir gritar aos homens a sua tirana supremacia.
janela do cigano, aljustrel, 7 de junho de 2009.
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
19.10.11
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Mineiros de Aljustrel - Ilustrações Chichorro - I
Por
Antonio Lains Galamba
em
19.10.11
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Mineiros de Aljustrel
Por
Antonio Lains Galamba
em
18.10.11
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Trás-os-montes
o verão já começou, e a porosa
sombra das oliveiras abre-se à nudez
do olhar. Lá para o fim da tarde
a poeira do rebanho não deixará
romper a lua. Quanto ao pastor,
talvez um dia suba com ele às colinas,
e se aviste o mar."
Eugénio de Andrade
Por
João Galamba
em
16.10.11
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ouvi dizer
Ouvi dizer, entre os gritos do mundo, que é no silêncio dos pássaros
Que as mães carregam ao colo os filhos mortos
Estevas em sangue amassadas pelo molho dos olhos
Longínquos, como bátegas libertando o pó da terra em brasa.
Ouvi dizer, rente ao silêncio das romãs e dos limões, que é no estalar
Da fruta que as mágoas vêm beber a sua própria existência
Junto do coração amargo dos homens assustados
Caroços liquefeitos na sede do lume.
Ouvi dizer , ardendo no restolho das ausências que transporto, que nas lâminas
da solidão
É que se rasgam as certezas dos homens orgulhosos
Peregrinos dos regatos enfiados nos bolsos da infância rebentando na corrente
os ovos roubados aos ninhos , esquecidos atrás nas calças.
Disseram-me ainda há pouco que os homens mordem à força quando perdem todas as outras
Formas de amar. Alcateias assustadas pelo cio.
Casa das glicínias
4 de Outubro de 2011
Lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
16.10.11
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sempre sul
Nas romãs abertas, junto do linho do lume,
amanhecem gregárias,
todas as esperanças do mundo.
Nos pés descalços sobre a serradura dos dias
Caminham, lentamente, todas as amarguras dos homens
Buscando em cada sílaba a revolução perfeita
Para a linguagem das metamorfoses
Engrenagens da justiça de que
Comunistas
Fazemos a certeza do pão.
Sob o suco do grão amam os bichos.
Lanternas apontadas à geração
que virá. Cumprir o mês das flores
silenciado sob o óculo dos iscariotes.
Casa das glicínias, 14 de Outubro de 2011
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
14.10.11
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sul
Pétala a pétala
As papoilas sangram em brasa a promessa do pão
Prometem à foice as lágrimas vermelhas de quem tomba
No destino acre de morrendo matar
A fome ao olhar triste dos homens
Que vendo ruir vidradas flores
Julgam tratar-se dos olhos raiados em sangue,
memorial ao astro
-Que não arreia os trambelhos da brasa-
E aos dias grandes demais para tamanha fome.
Casa das glicínias, 14 de Outubro de 2011
Lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
14.10.11
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alentejo
partida
é nos olhos das velhas que se inicia a planície…
depois, apenas rosmaninho ardendo à brasa , em sulcos pelo interior das romãs.
lenço preto e a madrugada laminando gelada os pés das mães buscando a água.
o cheiro a estevas, o velho portão rangendo. o muro do quintal
guardando na memória a infância defraudada do emigrante.
casa das glicínias, 10 de outubro de 2011
lains de ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
10.10.11
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OVERDOSE DESINFORMATIVA
Por
Fernando Samuel
em
10.10.11
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POEMA
AMEAÇA DE MORTE
Não basta ter-me dado nos meus versos:
pedem a carne e a pele, os inimigos.
Os olhos, dois postigos
de olhar o mundo sem ninguém me ver,
querem-nos entaipados;
e quebrados
os braços, que eram ramos a crescer.
Luto, digo que não, peço socorro,
mas saíu-me ao caminho uma alcateia.
Lobos da liberdade alheia
que me seguem os passos hora a hora,
sem que eu possa sequer adivinhar,
na paisagem do medo tumular,
qual deles salta primeiro e me devora.
Miguel Torga
Por
Fernando Samuel
em
10.10.11
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saudades
Alentejo, choro convulso das andorinhas ao partir. Terra rasa , olhos incendiados, gente profunda. Nos flancos das éguas é que nascem todas as searas na luz amarelíssima das grinaldas. As buganvílias são escudeiros da cal ante o deserto do restolho, fio de água rolando da pele rugosa dos limões amanhecidos.
Casa das glicínias, 3 de Outubro de 2011
Lains de Ourém
Por
Antonio Lains Galamba
em
9.10.11
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A COMUNA DE ESPINHO!
Por
Antonio Lains Galamba
em
9.10.11
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SÃO ASSIM OS PENSADORES...
Depois, calou-se, cansado, extenuado de tanto pensar...
Por
Fernando Samuel
em
9.10.11
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POEMA
A MÃO E O ARADO
Não
nós não estamos submersos
nem destruídos
nem sequer dispersos
ou vencidos.
O que nós estamos,
onde nós estamos,
é no chão ávido de madrugada
sedentos de irromper.
Mas só a mão e o arado lavram
o incêndio da manhã.
Francisco Viana
Por
Fernando Samuel
em
9.10.11
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CURRÍCULO À PROVA DE BALA
Por
Fernando Samuel
em
7.10.11
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POEMA
COLUNA
Levanta a fronte, levanta!
Que toda a gente saiba de quem é.
Não faças dela a cinza duma chama
nem planta nua dum pé
abrindo covas na lama.
Levanta a fronte, levanta!
Não faças dela espelho a descoberto
onde o quebrado corpo se despoja,
num chão intérmino e deserto
em que a dor se roja.
Levanta a fronte, levanta!
Para quê essas sombras que te inundam,
sombras roxas e lôbregas de becos?
Para quê essas rugas que se afundam
como leitos de rios secos?
Levanta a fronte, levanta!
Foi a cela que te anoiteceu
com charcos de medo e gelo?
Quem trouxe um sonho como o teu,
jamais deve perdê-lo.
Levanta a fronte, levanta!
Quem ergue a fronte, levanta a voz,
levanta o sonho num facho a arder:
lUÍS VEIGA lEITÃO
Por
Fernando Samuel
em
7.10.11
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O AVISO QUE O HOMEM DOS «AVISOS» NUNCA FARÁ
Por
Fernando Samuel
em
6.10.11
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POEMA
ESCOPRO DE VIDRO
Estou aqui construindo o novo dia
com uma expressão tão branda e descuidada
que dir-se-ia
não estar fazendo nada.
E, contudo, estou aqui constuindo o novo dia.
Porque o dia constrói-se; não se espera.
Não é sol que deflagre num improviso de luz.
É um orfeão de vozes surdas, um arfar de troncos nus,
o erguer, a uma só voz, dos remos da galera.
Cantando entre os dentes
um refrão anidro abro linhas quentes
com um escopro de vidro.
Abro linhas quentes
sem tremer a mão,
com um escopro de vidro
de alta precisão.
António Gedeão
Por
Fernando Samuel
em
6.10.11
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COM TODA A CONFIANÇA
Por
Fernando Samuel
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4.10.11
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POEMA
AS VOZES
o senhor administrador dentro do carro
olha de sobrolho franzido
a manifestação em frente à sede da empresa
a polícia está lá
para evitar que a gentalha se aproxime
e o porteiro
perfilado abre-lhe a porta
o senhor administrador
esfrega as mãos
sorri à secretária
e pergunta
se as cartas para os seus pares
foram enviadas e se as reserva das suites
estão garantidas
«custa um milhão» - esclarece ela solícita -
não há problema - diz ele - são personalidades políticos
jornalistas empresários nossos amigos
mas aquela gente à porta ó minha querida
já disse alguma coisa ao ministro
ligue-lhe e passe-me o telefone»
pouco depois correrias gritos tiros
e alguns dias mais tarde o
ministro - mas meu caro não sei o que lhe hei-de dizer
eles não desistem
e na manhá levantada reerguem-se as vozes uma
canção um protesto a vida
José Vultos Sequeira
Por
Fernando Samuel
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4.10.11
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CHEIRA MAL...
Por
Fernando Samuel
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3.10.11
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POEMA
CAPOEIRA
Sacudindo subitamente o silêncio e o sono, um galo
anunciou alegremente a madrugada.
E bom será declará-lo:
aquilo não foi um canto, foi um grito
vibrado como um dardo. Um grito
lúcido, largo, límpido como a madrugada.
Na impossibilidade de ser julgado o galo
o dono vai responder pelo delito.
Mais nada.
Sidónio Muralha
Por
Fernando Samuel
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3.10.11
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PARA QUE FIQUE REGISTADO
Por
Fernando Samuel
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2.10.11
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POEMA
EM QUALQUER LUGAR...
Em qualquer lugar
em que alguém estiver,
há querer e buscar,
partir e chegar,
saber e ignorar,
achar e perder.
Armindo Rodrigues
Por
Fernando Samuel
em
2.10.11
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A LUTA CONTINUA
Por
Fernando Samuel
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1.10.11
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POEMA
O FUTURO
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos da Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vi.
José Carlos Ary dos Santos
Por
Fernando Samuel
em
1.10.11
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