Ainda a propósito das lutas dos trabalhadores, vale a pena abordar uma outra questão actualmente muito em voga em certos blogues e caixas de comentários.
Trata-se das comparações aí feitas entre as lutas levadas a cabo pelos trabalhadores de alguns países da Europa (França, Grécia, etc.) e as lutas que os trabalhadores portugueses têm vindo a desenvolver - comparações que, diz quem as faz, são extremamente desfavoráveis para os trabalhadores portugueses...
Dizem essas vozes que lá (nesses países) é que se luta, lá é que as lutas têm a dimensão e o conteúdo revolucionário que se exige, lá é que o capitalismo treme... - enquanto que em Portugal é uma tristeza... só agora é que se avança para a primeira greve geral e mesmo assim uma greve desprovida de conteúdo anticapitalistas, conciliadora, etc, etc.
Segundo as ditas vozes, as culpas de todas estas carências revolucionárias, destes desvios oportunistas, desta conciliação com o inimigo capitalista, etc, etc, radicam na postura oportunista e revisionista do PCP e da CGTP.
Nada disto é novidade.
Aliás, como a experiência nos mostra, este paleio surge por vagas regra geral coincidentes com períodos de ascenso da luta de massas: ouvimo-lo nos anos sessenta, quando as massas trabalhadoras intensificavam a sua luta rumo à vitória; ouvimo-lo durante o processo revolucionário de Abril, quando o movimento operário e popular avançava impetuosamente para as grandes conquistas transformadoras que marcaram esse período; ouvimo-lo agora, quando por toda a Europa - Portugal incluído - o movimento de massas cresce e avança.
E é claro que - sempre e na situação actual de forma bem evidente - este paleio cíclico tem como alvo prioritário as forças que, nos planos político e social, constituem a incontestável vanguarda da luta das massas contra a política de direita: o PCP e a CGTP.
Menorizando e desvalorizando a luta dos trabalhadores portugueses, essas vozes estão, de facto, a insultar milhares e milhares de trabalhadores que, com uma coragem e uma consciência notáveis, têm dado um combate sem tréguas à política de direita -para além de não se coibiram de evidenciar uma gritante carência de rigor (para não dizer outra coisa...) na avaliação dessa luta.
É um facto que, nas últimas três décadas, a luta dos trabalhadores portugueses assumiu uma força, uma dimensão e um conteúdo singulares em toda a Europa.
Porque os trabalhadores portugueses são «especialíssimos»?
Não: porque, como sempre acontece, a força, a dimensão e o conteúdo da luta de massas depende das condições concretas - objectivas e subjectivas - existentes em cada momento.
Ora, nas últimas três décadas, Portugal foi o único país da Europa onde se fez uma Revolução - Revolução que liquidou o capitalismo monopolista e o latifúndio; que teve como preocupação primeira e essencial o respeito pelos direitos e interesses dos trabalhadores; que restituiu a Portugal a soberania e a independência; que iniciou a construção de uma democracia económica, social, política e cultural, amplamente participada: uma democracia avançada, rumo ao socialismo - e que consagrou todas essas conquistas naquele que é um dos mais belos textos em língua portuguesa: a Constituição da República aprovada em 2 de Abril de 1976.
Assim tendo sido, é natural que nesse processo revolucionário e nesse período tenham occorido as mais fortes e participadas lutas de todo o continente europeu - lutas revolucionárias erguidas pelo poderoso movimento operário e popular, tendo à frente, naturalmente, o PCP e a CGTP.
Depois, veio a contra-revolução... que os trabalhadores portugueses enfrentaram com uma coragem e uma determinação notáveis.
E mais uma vez a luta em Portugal se situou nos níveis mais elevados da luta de massas em toda a Europa.
Recorde-se - só um exemplo - a luta dos trabalhadores da Reforma Agrária em defesa daquela que foi «a mais bela conquista da Revolução»: foram 14 anos de resistência heróica fazendo frente à repressão, às prisões, aos espancamentos, aos julgamentos sumários, aos assassinatos, à brutalidade e à violência praticadas às ordens dos soares, dos barretos, dos cavacos, de toda a corja contra-revolucionária - uma luta que ficará como referência marcante na história da luta dos trabalhadores e dos povos de todo o mundo.
São, enfim, 34 anos de luta - de uma luta singular em toda a Europa, travada com o duplo objectivo de defender a Revolução e de procurar a satisfação de reivindicações e interesses mais imediatos.
Uma luta que, por isso mesmo, teve e tem como alvo a política de direita e o sistema capitalista que ela integra.
Uma luta que se tem traduzido, ao longo de todos estes anos, na concretização de poderosas movimentações de massas.
Uma luta que, nos últimos meses, tem vindo a crescer e a atrair novos segmentos das massas trabalhadoras, com significativas greves e paralisações, com jornadas de luta memoráveis, com gigantescas manifestações de massas.
Uma luta que, com a Greve Geral de 24 de Novembro, atinge um novo e superior patamar .
Que não é a luta final - mas que nos vai permitir tirar a mais importante de todas as conclusões: depois de 24, a luta continua.
Face a tudo isto, parece-me um pouco estranho (para não dizer outra coisa...) o que as tais vozes vêm repetindo sobre uma suposta posição recuada dos trabalhadores portugueses comparativamente com os seus camaradas de luta de outros países europeus.
Será que não vêem mesmo?
Será que não querem ver?
Ou será que...?