POEMA
SALA DE CONCERTOS
LIII
(«Concerto nº 4» de Paganini: Espectáculo em que a peça principal foi a «música concreta» das palmas.)
O arco
do violinista
apareceu de súbito enfeitado
com fitas, bandeirinhas, cores de música,
laços, harmónicas, faúlhas...
E entre foguetes de pizzicatos
e apoteoses de faíscas
romperam dos subterrâneos da rabeca,
enroladas em serpentinas
de carnaval,
pombas com caudas em leque
e aplausos nos bicos
misturados com suor e cabelos
do acorde perfeito
final.
(Bravo! Bravo! Bis!)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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31.8.10
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O SALÁRIO DO CRIME
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Fernando Samuel
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30.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
XLVI
(Stockausen. Música electrónica. Viagem espacial.)
Em cada homem
há uma viagem para um planeta longínquo...
(Para os pobres é a Terra.)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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30.8.10
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POR ISSO
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Fernando Samuel
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29.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
XLII
(Falla.)
Um anjo cigano
inventou um instrumento novo
- viola de sol e nevoeiro
com cordas de nervos de touro.
Para o tocar
é preciso
ouvir missa primeiro.
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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29.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
XXXIII
(Lápide.)
Mozart morreu. E no meio da tempestade
de neve e abandono,
dois gatos-pingados
de rendas de luto
e vénias de minuete
lançaram o caixão
na vala comum,
a assobiar.
Todo o planeta
passou a ser a cova viva de Mozart.
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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28.8.10
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TUDO NOS CONFORMES
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Fernando Samuel
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28.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
XXX
(«Requiem» de Mozart.)
Ímpeto de rasgar o tecto com as mãos
para gritarmos aos astros,
cá de baixo das labaredas do nosso poste:
«O mistério somos nós.
Fomos nós, os homens,
que criámos a morte.»
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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27.8.10
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UMA NOTÍCIA DIFERENTE
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Fernando Samuel
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27.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
XIV
(«Tristão e Isolda no Teatro de S. Carlos. Vejo mal o palco, por causa da coroa. Maldita Coroa Real! Vontade de derrubá-la e esmagar alguns parvos da plateia. Atrás de mim o escultor Dias Coelho, mais tarde assassinado pela PIDE, ao lado de uma rapariga.)
Atrás de mim na Geral
dois jovens efémeros da mãos dadas,
Filtros de Suor na pele ardente,
aproveitam esta melodia
para fingir que se amam
na mentira de se amarem eternamente...
Enquanto eu continuo na minha ilusão com musgo
de amar ninguém em toda a gente.
José Gomes Ferreira
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26.8.10
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HONDURAS: O FASCISMO
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Fernando Samuel
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26.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
X
(Primeiro intervalo no Teatro de S. Carlos. Sorrimos uns para os outros. «Então como está?» «Há muito que não o via!»... Musgo. Teias de aranha nos ouvidos. Fascismo de «smoking». Passo pelos corredores escondido atrás de mim mesmo.)
Disseram-lhes
que estavam vivos
por disciplina de cemitério.
E todos acreditaram
já com os pés em ângulos rectos.
Mas vivos que são?
Mortos incompletos.
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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25.8.10
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NO CAMINHO DE ABRIL
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25.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
IX
(Visão de Mahler. Improviso durante a audição na Rádio da Primeira Sinfonia. Sim, Abelaira: gosto muito do Mahler - que me soa às vezes como uma espécie de Schubert trágico.)
Marcha fúnebre
com os vivos todos em caixões
e o cadáver atrás, a pé, sozinho,
ao som da filarmónica
que marca o passo a fingir vida
na poeira morta
do caminho.
Filarmónica transcendente
que afinal
só toca a valsa banal
da morte nua de toda a gente.
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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24.8.10
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OFERTA AO SR. MINISTRO
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Fernando Samuel
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24.8.10
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POEMA
SALA DE CONCERTOS
II
(«Sonata a Kreutzer» tocada por Menuhin, no Tivoli.)
Que crime confessa Beethoven
nesta sonata?
Matou talvez em sonhos
a Sempre-Apetecida
com mãos de quem não mata.
E agora confessa o crime
- farto do amor eternamente sublime.
(Beethoven:
ai de quem não ama
como quem morre
- na cama.)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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23.8.10
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O PRECONCEITO
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23.8.10
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POEMA
CINZAS
XXVI
(Derrocada.)
Vale-me, orgulho,
ou lá o que és
deste chão peninsular
- e ata-me aos pés
o pedregulho
dos cadáveres hirtos lançados ao mar.
Vem com mãos de metal
endireitar-me a espinha
e ordena que se cale
esta voz a chorar dentro da minha.
Ergue-me da lama onde o céu atola
os corações dos sapos caídos da lua
e leva-me pela gola
de rua em rua.
Abre
na súplica deste meu olhar de desprezo
um clarão de desafio de sabre
ao mundo em peso.
E dá depois um destino de asas pretas
à sombra dos meus passos
- cabeça erguida, a atirar planetas
para os espaços.
Eu, o poeta militante,
que por ódio à dor que se mascara
desci do meu mirante
e vim para a rua de lágrimas na cara.
Não lágrimas de mãos postas
ao luar gemebundo
(a fingir que trago às costas
a dor do mundo)...
...Mas estas - vede -
lágrimas de cicatriz
que correm no sangue da sede
dos homens viris.
Lágrimas que só ostento
para as guardar secretas
(o eterno tormento
de todos os poetas).
Ah! mas que nenhum Sonho, nenhuma Voz me embale
- nem a tua, orgulho, que possuis
a limpidez de um punhal
em mãos azuis.
Não me tragas penugens de regaços
quando me deito,
nem me leves nos braços
para outro leito.
Não me persuadas
de que há nos meus versos palavras de magia
que vão à frente, de lâmpadas atadas,
a iluminarem a morte que nos guia.
Nem me iludas de que posso transformar a Terra
e arrancar os mortos das mortalhas
com os meus versos de tremor de terra
- afinal pássaros de nuvens a cantar nas muralhas.
Não, orgulho. Dá-me apenas esta lâmina de olhos nus
com lágrimas por dentro a rasgarem a realidade
-para poderem ver bem o fel, o suor, o pus
e a solidão da Verdade.
José Gomes Ferreira
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22.8.10
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«LIBERDADE DE INFORMAÇÃO»
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Fernando Samuel
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22.8.10
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POEMA
CINZAS
XXIV
(Soeiro Pereira Gomes, tão altivo e humano, que combatia na clandestinidade contra o fascismo, morreu de um cancro. Sinto vergonha de existir.)
Hoje até remorsos tenho
dos meus pobres versos a fingirem de subversivos
que os mortos do rebanho
lêem com o arreganho
de se julgarem vivos.
(No fundo, evasão
para futuros sem chão.)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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21.8.10
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ERA LINDA, A MINHA PROFESSORA
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Fernando Samuel
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21.8.10
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POEMA
RUAS DESERTAS
XVII
Vou a cantar! Vou a cantar!
...mas cada vez mais próximo da Esquina
onde está talvez à minha espera...
a Garra.
Saída do outro lado do Ar...
a Garra.
Pendida da pele da sombra...
a Garra.
Implacável no silêncio curvo...
a Garra.
Mas talvez não seja ainda naquela Esquina.
Talvez só na outra mais adiante
onde se vê uma ave a esvoaçar
na somba do muro...
(O melhor é cantar! O melhor é cantar!)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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20.8.10
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DUAS DIFERENÇAS
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20.8.10
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POEMA
RUAS DESERTAS
IX
(E o vento trouxe este coro de presos do Aljube)
«Ouve, Noite:
só nós, os que não acreditamos no céu,
tivemos a coragem de gritar a esta carcaça a fingir de vida: NÃO!
Nós, sem morte nem mundo,
para aqui a apodrecer nas tumbas do sol secreto
e a sonhar com um céu para os outros na Terra
que só o ódio vê.
E é esta a nossa guerra.
E é esta a nossa fé.»
José Gomes Ferreira
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19.8.10
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ENFIM, É A CRISE...
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POEMA
CAFÉ
LIX
(Estamos sozinhos no Universo.)
Todas as noites toca um telefone na Lua.
Sou eu, sou eu a marcar o número automático dos poetas de hoje
para gritar cá de baixo em código de astros:
Está lá? Está lá? Aqui Terra, zero, zero, zero, zero, zero.
S.O.S.! Fome, ódio de mil patas, tiranos com cutelos de cinzas,
mortos que só vêem o céu através dos caminhos das raízes
- e as mães a baterem nos filhos
para lhes ensinarem a instrução primária das lágrimas.
Aqui escravos, preguiça, azorragues de chumbo derretido,
exportação de tédio dos palácios dos ricos, carregamentos de bocejos,
suor em latas para discursos de demagogos,
mordaças com restos de bocas de cadáveres,
fúria de túmulos, guerra, raptos, incestos, automóveis imbecis,
saques, mandíbulas nos olhos a roerem o azul
- e os dedos de súbito de ferro-em-brasa nos seios das mulheres,
lodo de sol aparente
que continuam a ser deusas nos jantares de cerimónia
com os colos luzidios das horas empertigadas.
Aqui planeta zero, zero, zero, nada, torres de musgo,
punhais a rasgarem noites em vez de chagas,
países de arame farpado, vulcões de sangue,
batalhas trespassadas do frio dos esqueletos concretos
- e ainda por cima a carne das mulheres só é real um momento,
um momento apenas
e em vão tentamos fixá-la com um sopro de frio
no rasto deste defunto com um caixão às costas
cheio de corações vivos.
S.O.S! S.O.S.!
Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!
Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...
E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, fartos
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!
Nem de transfomarem os cavalos em relâmpagos!
José Gomes Ferreira
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18.8.10
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O SILÊNCIO É DE OURO
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18.8.10
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POEMA
CAFÉ
LV
(Manhã de domingo. As igrejas enchem-se de esqueletos vestidos de medo.)
Doente de febres subtis
posso lá reduzir o Sonho do Maior Segredo
a esta burocracia de morte mole!
Não, não invejo esta gente
que ajoelha feliz
diante do Medo
com feições de sol.
José Gomes Ferreira
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17.8.10
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UM VÓMITO
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17.8.10
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POEMA
CAFÉ
LIII
(Hoje vi no Campo Grande um autêntico rebanho de ovelhas. E outro de carneiros. E outro de homens: nós, os portugueses de mil novecentos e quarenta e tal.)
Olha as ovelhas como são!
Tão diferentes daquelas
verdes ovelhinhas
da minha imaginação
- sim, verdes da cor do limão -
que na infância de outros prados
vinham comer à mão
luas amarelas.
Estas não.
Parecem lama aos bocados
com lã de terra
- os estupores!
Talvez na Primavera
rebentem em balidos de flores.
(Enquanto eu apascento
lobos de vento...)
José Gomes Ferreira
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16.8.10
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SE ELES O DIZEM...
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Fernando Samuel
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16.8.10
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POEMA
CAFÉ
XXXVIII
(A gente da mesa vizinha só fala em dinheiro, negócios de compra e venda... E, no entanto, temos de salvar o mundo, homens. Dar-lhe outro sentido.)
Tudo vendem e compram: sonhos, estátuas de sebo,
palácios para idílios de espectros,
sorrisos de crocodilo,
frio arrancado das lanças...
Só não percebo
porque não vendem luar a metro
e as estrelas a quilo
(para caixões de crianças).
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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15.8.10
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O EUROMILHÕES...
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15.8.10
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POEMA
CAFÉ
XXXV
(Pastoral escrita de propósito para uma canção de protesto
de Fernando Lopes-Graça que mantém, inflexível, um coro
de canções populares e revolucionárias.)
Ó pastor que choras,
o teu rebanho onde está?
- Deita as mágoas fora,
carneiros é o que mais há.
Uns de finos modos,
outros vis por desprazer...
Mas carneiros todos
com carne de obedecer.
Quem te pôs na orelha
essas cerejas, pastor?
São de cor vermelha,
vai pintá-las de outra cor.
Vai pintar os frutos,
as amoras, os rosais...
Vai pintar de luto
as papoilas dos trigais.
José Gomes Ferreira
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14.8.10
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SEM BATER À PORTA
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14.8.10
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POEMA
CAFÉ
XXXIV
(Cantámos em redor da Estátua.)
Em multidão
os homens parecem maiores do que são.
Nela
a nossa voz,
tão rude quando cantamos sós,
parece mais bela.
Num coro de cantar
sai cá para fora
tudo o que há em nós de sol-treva no luar.
(O resto - os sonhos mesquinhos -
fica para a solidão
dos caminhos.)
José Gomes Ferreira
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13.8.10
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MATAR, MATAR, MATAR
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13.8.10
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POEMA
CAFÉ
XXXIII
(O pedestal da Estátua ficou coberto de flores.
Último ritual do Movimento de Unidade Democrática
em torno do monumento de António José de Almeida.)
Montes e montes de flores...
Mais uma vez os nossos mortos
rasgaram o chão
para darem o sol
- o outro, o subterrâneo -
às rosas ardentes
que levámos na mão
como uma bandeira pintada
pelo coração.
Montes e montes de flores...
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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12.8.10
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SEM COMENTÁRIOS
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Fernando Samuel
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12.8.10
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POEMA
CAFÉ
XXVIII
(No Rossio os ardinas vendem em Separatas da «Seara Nova» duas canções do Graça: a «Mãe Pobre» com versos de Carlos de Oliveira e a «Jornada» com versos meus.)
Dia de chuva na cidade
triste como não haver liberdade.
Dia infeliz
com varões de água
a fecharem o mundo numa prisão.
E alguém a meu lado com voz múrmura que diz:
«está a cair pão.»
Ah! que vontade de gritar àquela criança seminua
sem pão nem sol de roupa:
«Eh! pequena! Deita-te na rua
e abre a boca...»
(Dia em que urdo
este sonho absurdo.)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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11.8.10
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ESQUERDA E «ESQUERDA»
A propósito da ofensiva em curso contra o Serviço Nacional de Saúde (SNS), o Diário Económico ouviu António Arnaut.
Arnaut teve, como é sabido, um papel destacado em todo o processo de construção e aprovação do SNS, facto que o entrevistador recorda, explicando ser essa a razão pela qual ele é considerado o «pai do Serviço Nacional de Saúde».
Por seu lado, Arnaut (diz o jornal) «aceita com orgulho a paternidade» - uma «paternidade» que, talvez por modéstia e para que se saiba que não foi ele sozinho o criador do SNS, «gosta de partilhar».
E «partilha-a» destacando «três grandes apoiantes do SNS»: «Basílio Horta, Rui Pena e Sá Machado».
O destaque é, provavelmente, justo mas certamente injusto.
Justo, talvez, porque é possível que os três nomes citados tenham dado um contributo positivo para a criação do SNS.
Injusto, sem dúvida, porque como António Arnaut muito bem sabe, ninguém apoiou mais todo o processo de construção e aprovação do SNS do que o Grupo Parlamentar do PCP.
Esquecer isso, revela, no mínimo, uma clamorosa falta de memória.
E fiquemo-nos por aqui...
Quanto à defesa do SNS face à ofensiva actual visando liquidá-lo, se Arnaut quiser olhar para a realidade facilmente constatará que, também aí, o PCP está na primeira fila da luta - uma luta que se trava contra os que querem liquidar o SNS na Constituição (caso do PSD com o seu projecto de revisão constitucional) e, simultaneamente, contra os que o vão destruindo com a aplicação de medidas devastadoras (caso do Governo PS/Sócrates, com os encerramentos de centros de saúde, urgências, maternidades, etc, etc).
Aliás, e como Arnaut não ignora, o PCP é o único partido que dá garantias de travar essa luta até ao fim, já que do PSD e do CDS sabe-se o que há que esperar e do PS... bem, do PS
só há que esperar aquilo que a sua prática ao longo dos últimos 34 anos tem mostrado... e que Arnaut tão bem define ao dizer: «Com o PS na oposição o SNS estará melhor defendido. Porque o PS na oposição é de esquerda».
Ficamos assim a saber, pela boca do destacado militante António Arnaut, que o seu partido, o PS, só é de «esquerda» quando é necessário fazer o papel de «oposição»... de forma a obter votos de esquerda que lhe permitam ir para o governo desempenhar o seu verdadeiro papel de protagonista principal da política de direita.
Pergunto: e Arnaut? É de esquerda? Ou é de «esquerda»?...
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Fernando Samuel
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11.8.10
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POEMA
CAFÉ
V
(Epitáfio para um morto pela polícia.
Morreu com tanta simplicidade, tão anónimo!)
Não. Não descanses, morto!
Tu que não morreste na cama
mereces o destino diferente
de não te desfazeres em lama
como toda a gente.
Não descanses, morto!
Para que de ti e da Terra se evole
outra espécie de sol...
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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10.8.10
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A TAREFA DO GOVERNO
Há quinze dias comentei aqui a notícia sobre aquela medida em tempos anunciada por Sócrates a bem do «acesso a saúde oral das crianças, das grávidas e dos idosos»: o «cheque-dentista» - que, afinal, não tinha cobertura e levou os dentistas a deixar de atender portadores do cheque careca enquanto o Governo não pagasse os 4 milhões de euros que lhes deve...
Agora, são os passes sociais: a Associação Nacional de Transportadores Rodoviários de Pesados de Passageiros (Antrop) informou que se o Governo não pagar os cerca de 15 milhões de euros em dívida para com as transportadoras, estas deixarão de vender passes sociais, com as consequências que isso terá para milhares e milhares de pessoas.
Amanhã o que será?
Sabe-se lá: com um Governo destes tudo é possível.
Entenda-se: tudo, excepto fazer qualquer coisa de útil para a maioria dos portugueses.
Excepção que se percebe se tivermos em conta que o tempo não chega para tudo, e que satisfazer plenamente os interesses dos grandes grupos económicos e financeiros é tarefa que rouba o tempo todo ao primeiro-ministro e ao seu Governo - e rouba tudo à maioria dos portugueses.
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Fernando Samuel
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10.8.10
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POEMA
CAFÉ
I
(De novo em Lisboa. Sensação do mundo desarrumado.)
Quem foi o arquitecto
que fez este Café
tão longe da natureza
e tantos homens de pé?
Criado: põe esta gente na rua!
E abre um buraco no tecto
que eu quero ver a lua.
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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9.8.10
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DÁ GOSTO DIALOGAR ASSIM
O título da notícia do Público informa-nos que «Estados Unidos estão "abertos ao diálogo" com o Irão».
Lendo este título, qualquer leitor distraído concluirá que, ao contrário do que dizem os «anti-americanistas primários», o Governo dos EUA não impõe decisões à força, procura soluções consensuais, dialoga...
Lendo a notícia que se segue ao título, ficamos a saber de que «abertura ao diálogo» se trata.
É a secretária de Estado Hillary Clinton - a própria - que, numa dúzia de palavras dialogantes nos explica como é.
Diz ela: «Continuamos abertos ao diálogo» - e logo acrescenta: «Mas eles sabem o que têm que fazer».
«Eles» são, obviamente, os iranianos; e «o que têm que fazer» é, obviamente, obedecer às ordens do Governo dos EUA e desistir do seu programa nuclear, de modo a - diz Hillary Clinton - «tranquilizar a comunidade internacional».
Se o Governo iraniano persistir na desobediência, então, está esgotada a incomensurável paciência do Governo de Obama e acabou-se o diálogo...
E, como dizia há dias um alto responsável militar dos EUA, o plano de ataque ao Irão está preparado e pode ser desencadeado a qualquer momento, é só chegar a ordem...
Dá gosto dialogar assim...
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Fernando Samuel
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9.8.10
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POEMA
PROVÍNCIA
XLII
(Despedida da Serra. Em Lisboa começou a luta pela ilusão da Liberdade.
Mas o que é bom é lutar, ver combater, contar ilusões nos comícios...)
Aqui ficas, melodia,
que nunca encontrei
por mais que a buscasse
nas bocas, por lei,
cosidas na face...
Aqui ficas, minha sombra,
na terra deitada
- à espera, sozinha,
da Noite da Espada
Fora da Bainha.
Aqui ficas, minha raiva,
a sonhar que furas
os olhos das rãs
- com estas mãos puras
de tecer manhãs.
Aqui ficas, meu sonho,
para um dia pores
todo o sol que queiras
nas cristas das flores,
e inventar bandeiras.
Aqui ficais, meus olhos,
na luz que pisamos,
na cor dos redutos
- pendidos dos ramos
a fingir de frutos.
Aqui ficas, outono,
sangue que reluzes
nos pinheiros tortos
e ensinas, nas cruzes,
a preguiça aos mortos.
Aqui ficas, morte,
que a morte é assim
- este dar ao mundo
o que o mundo em mim
gela num segundo.
(Só tu não ficas, solidão,
no domir longo dos pinhais.
- Levo-te no coração
para os vendavais
da multidão.)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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8.8.10
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A MAIS BELA HOMENAGEM
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Fernando Samuel
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8.8.10
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POEMA
PROVÍNCIA
XXXVI
(Ao porco que todo o dia e toda a noite grunhe
em forma de símbolo debaixo do meu quarto, na casa da senhora Rosinha.)
Eh! vizinho porco,
todo o dia de borco
a fossar na terra onde nasceu!
Ensine ao aldeão
a sua lição
de pensar menos no céu
e mais no chão.
(Na terra, camponês,
também há estrelas
que tu não vês...
Mas hás-de vê-las.)
José Gomes Ferreira
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Fernando Samuel
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7.8.10
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OUTRAS HIROSHIMAS NOS ESPREITAM...
Este ano, pela primeira vez, representantes dos governos dos EUA, da França e da Grã-Bretanha estiveram presentes nas «cerimónias de Hiroshima» - e, asim tendo sido, também o secretário-geral da ONU lá esteve, pela primeira vez...
O embaixador dos EUA no Japão depositou uma coroa de flores «em memória de todas as vítimas da II Guerra Mundial» - e assim se baldou a falar concretamente de Hiroshima e dos que ali semearam o CRIME, o HORROR: os EUA.
O primeiro-ministro do Japão falou do «horror e do sofrimento causados pelas armas atómicas» e da «responsabilidade do Japão em liderar o combate para construir um mundo sem armas nucleares» - e assim se baldou a enunciar os culpados do «horror e do sofrimento causados pelas armas atómicas», os que, concretamente, lançaram o «horror e o sofrimento»: os EUA.
O secretário-geral da ONU, como se esperava, também não disse nada.
Quer isto dizer que, quando o essencial fica por dizer, o que se diz não passa de blá-blá-blá.
Quer isto dizer, portanto, que, como era previsível, continuará a vigorar a monumental patranha lançada na altura pelos criminosos de guerra Truman e Churchill, justificando o CRIME.
Patranha que persiste apesar de ter sido claramente desmentida pelos documentos secretos desclassificados, pelos EUA, em 1995 - há 15 anos!
Esses documentos desclassificados, provam, inequivocamente, que, quando as bombas atómicas foram lançadas, o Japão estava irremediavelmente vencido; que o imperador do Japão decidira render-se desde 20 de Junho; que o Japão perdera quase toda a aviação e marinha e a sua defesa antiaérea tinha sido desfeita pelos 7 mil raids dos B-29 norte-americanos; que a capital, Tóquio, tinha sido exaustivamente bombardeada pelos norte-americanos, provocando 125 mil mortos e feridos, etc, etc, etc.
Quer isto dizer, igualmente, que as «cerimónias de Hiroshima» de ontem foram mais uma farsa, mais um insulto à memória das centenas de milhares de homens, mulheres e crianças inocentes, vítimas dos criminosos objectivos expansionistas do imperialismo norte-americano.
Entretanto, longe de Hiroshima - nos EUA, sentado junto à piscina da sua casa - Theodore Van Kirk, que é o único ainda vivo dos tripulantes do bombardeiro B-29 que lançou a bomba sobre Hiroshima (Enola Gay se chamava o bombardeiro, assim baptizado pelo piloto Paul Tibbets em homenagem a sua mãe...) repete-se em sentidas manifestações de «orgulho» pelo que fez nesse dia 6 de Agosto de 1945.
«Senti-me orgulhoso de estar no Enola Gay» - diz o monstro.
«Se fosse hoje voltaria a lançar a bomba atómica» - diz a besta.
E confessa que «o único objecto pessoal» que, nesse dia, levou consigo foi... «a Bíblia» - «em formato de bolso», para poder tê-la junto ao coração quando lançasse a bomba atómica...
Quer tudo isto dizer que, neste 65º aniversário de Hiroshima, Theodore Van Kirk, dizendo o que sente, disse o que os governantes dos EUA pensam.
Outras hiroshimas espreitam os povos do mundo.
Por
Fernando Samuel
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7.8.10
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POEMA
PROVÍNCIA
XXXIV
(Saltimbancos.)
Ao som dum sol-e-dó
vão dois maltrapilhos
a ensinar os filhos
a dançar no pó.
Que pena esta gente sem pão
não ter
imaginação
para sofrer!
José Gomes Ferreira
Por
Fernando Samuel
em
6.8.10
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