ÁFRICA
África do Congo,
África distante do Congo
distante...
África apertada, cingida,
no périplo do meu abraço:
nó dos meus pulsos
fechando o teu corpo negro
aberto para a minha ânsia.
Descoberta do acaso
das minhas navegações:
África perdida nos «cabarets»
com o teu riso branco de espanto
das civilizações.
Ó minha negra,
escrava humilde e fiel,
encontro do meu destino pirata...
Floresta nunca pisada;
virgindade das florestas virgens rasgada;
rosa desfolhada
como a tua boca no riso branco,
como o teu destino branco
na lotaria da vida.
Cadeia dos meus sentidos,
febre da minha aventura...
Roubei os diamantes do teu seio,
o oiro das tuas pulseiras,
e negociei tudo nas bancas!
Vendi as tuas terras
e os teus rebanhos,
derrubei as tuas florestas
e arrasei as tuas aldeias,
despovoei os teus reinos,
trocei as tuas crenças...
Veneno europeu...
Fiz dos teus filhos escravos
e, senhor do meu destino,
amarrei-te à minha sorte.
Veneno europeu...
Teu corpo de mapas,
neste leito do mundo,
quantas vezes o fiz meu...
Ris com esse riso de cartaz:
branco,
límpido,
fixo.
Ris.
O jazz toca um desses blues
- e o negro do cornetim
rasga o silêncio
com o seu grito de faca.
O eco fica bailando
no teu corpo
como o ramo das palmeiras...
das palmeiras lá do Congo.
O som cavo das marimbas
bate o compasso no fundo da música...
África civilizada,
vestida à moda das nações,
fazendo ouvir nos boulevards
a tua música de recorte primitivo.
Outros batuques distantes,
ouros batuques mais distantes
que me vêm no sangue
- o bater das marimbas foi que o acordou.
A virgem loira desfalece
nos barços de quem dançou.
A saxofone, do espanto
dos teus olhos, se entornou...
E o teu riso de cartaz,
branco
como marfim de amuletos,
brilha nos acordes do piano.
Capa de magazine:
A luz correu no teu corpo
que brilhou como uma lança...
Já não há lanças em África...
dança,
dança...
Já não há lanças em África,
já não há guerra,
já não há guerra...
- batuque de lanças quebradas,
batuques do Congo já não são de guerra!
Batuques de lanças quebradas:
batuques de guerra... não!
Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras...
- Yes, whisky and soda.
Nos cofres fortes do Cabo
o teu suor corre em libras:
África da colonização!
Joaquim Namorado
(Com este poema - África - o Cravo de Abril encerra o ciclo dedicado a Joaquim Namorado. Trata-se, como sublinhou Alexandre Pinheiro Torres, de uma composição poética precursora da poesia que Francisco José Tenreiro - natural da ilha de São Tomé - iria publicar no ano seguinte, em Ilha de Nome Santo.
Assim, com África, Namorado abre caminho à poesia protestatária, autóctone, nascida dos próprios espaços das antigas colónias portuguesas, de que Francisco José Tenreiro se tornará o grande arauto.
Pinheiro Torres observa, ainda, que «foi o dinâmico Joaquim Namorado que lhe abriu a porta, sendo de duvidar que sem ele Francisco José Tenreiro tivesse chegado à consciência política e desalienatória que, a breve trecho, viria a alcançar».
Assim sendo, Francisco José Tenreiro é o poeta que se segue.
Começaremos, precisamente, com poemas do seu livro Ilha de Nome Santo - que foi o nono dos dez volumes dessa primeira grande manifestação colectiva do neo-realismo português que foi o «Novo Cancioneiro»)