POEMA

ENTRE PATRÃO E OPERÁRIO


Entre patrão e operário,
entre operário e patrão,
o que é extraordinário
é pretender-se união.
Não vista a pele do lobo
quem do lobo a lei enjeita.
A propriedade é um roubo.
Ladrão é quem a aproveita.
Negar a luta de classes
é negar a evidência
de um mundo de duas faces,
de miséria e de opulência.


Armindo Rodrigues

A BATALHA NAVAL

Procuradores do Ministério Público procederam a buscas em três escritórios de advogados, à procura de provas sobre o negócio da compra dos dois submarinos, feita pelo então ministro da Defesa, Paulo Portas - que foi um dos grandes vencedores das eleições de domingo passado e, por isso, sabe-se lá se futuro ministro outra vez...

Registe-se o pormenor curioso que é o de um destes escritórios de advogados - Vieira de Almeida & Associados - já ter sido objecto de buscas semelhantes no âmbito do caso Freeport - o que pode indiciar uma, digamos assim, vocação do dito escritório para este tipo de... buscas...

Nas buscas a estes três escritório, os procuradores procuravam o rasto dos 30 milhões de euros que o negócio dos submarinos de Paulo Portas rendeu a alguém - que eu juro não saber quem foi.

A notícia não diz se os procuradores encontraram ou não o rasto que procuravam - se é que os 30 milhões deixaram algum rasto fosse onde fosse, já que este pode muito bem ser um daqueles casos de que é uso dizer-se: desapareceu sem deixar rasto...

Assim, tudo indica estarmos perante uma divertida batalha naval - mais divertida ainda, agora que entrou em cena o Bastonário Marinho Pinto, o qual, com uma saraivada de disparos parece ter passado ao lado dos dois submarinos e ainda mais ao lado dos 30 milhões.
Disse o Bastonário, irado, que as buscas realizadas pelo Ministério Público são «terrorismo judicial».
Porquê?: porque, explica o Bastonário, «é absolutamente ilegal ir aos escritórios para procurar elementos para incriminar os clientes» - explicação que, ou muito me engano ou quer dizer que «os escritórios» são, ou devem ser, locais seguros para todas as eventuais negociatas dos «clientes»...

POEMA

POVO SEM LEI E SEM PÃO


Povo sem lei e sem pão
que desesperado esperas,
se te respeitas deveras,
levanta a face do chão.

Tempos houve em que falaste
aos reis de igual para igual.
O próprio rumo real
muita vez o apontaste.

Agora, pávido e frio,
atado de mãos e pés,
nada ouves, nada vês,
tens o coração vazio?

Que destino te vergou
que não poderás vergar,
se vergaste até o mar
quando era negro e só?

Povo sem lei e sem pão
que desesperado esperas,
sê ao menos, como eras,
rebelde na servidão.


Armindo Rodrigues

OS INTERESSES DO POVO HONDURENHO

A situação nas Honduras agrava-se.
Eis, em meia dúzia de factos, o que ali se passa.

A repressão aumenta - «repressão selvagem, proveniente de selvagens», como foi caracterizada.

O governo fascista decretou o estado de sítio por 45 dias e suspendeu cinco direitos constitucionais:
- liberdade pessoal
- liberdade de expressão
- liberdade de associação
- livre circulação
- direitos dos detidos.
Direitos escolhidos a dedo, como se vê, e bem elucidativos do carácter fascista do poder instalado.

Ao mesmo tempo, tropas às ordens do governo golpista tomaram de assalto e encerraram a Rádio Globo e a televisão Canal 36 - os dois órgãos de informação que davam notícias sobre o que se passa no país.

A Embaixada do Brasil, onde se encontra o Presidente Manuel Zelaya, continua cercada pelas tropas e prosseguem as ameaças de invasão e os cortes de electricidade e de água e a proibição da entrada de víveres.

Entretanto, o Comité para a Defesa dos Direitos Humanos nas Honduras tornou público um comunicado sobre outros aspectos concretos da repressão: cargas sobre manifestantes, centenas de pessoas nas prisões, feridos, desaparecidos - e responsabiliza o fascista Micheletti pelas mais de 100 pessoas que foram assassinadas desde o golpe fascista de 28 de Junho.

Por seu lado, o Governo dos EUA, cuja preocupação maior parece ser a de assegurara a manutenção dos golpistas no poder, declarou que o regresso clandestino do Presidente Zelaya às Honduras era um acto «irracional e idiota que não serve os interesses do povo hondurenho»
Assim se confirma que para o Governo de Obama, na boa tradição dos governos norte-americanos de todos os tempos, «os interesses do povo hondurenho» são os interesses dos EUA...

Como a realidade tem vindo a demonstrar, os verdadeiros interesses do povo hondurenho defende-os o próprio povo na sua luta heróica - há três meses e sem um dia de pausa - exigindo a reposição da legalidade democrática e o regresso ao País do seu Presidente legítimo, Manuel Zelaya.

E o povo hondurenho vencerá!

POEMA

BIOGRAFIA


Protesto contra a vida,
mas amo-a com furor,
e odeio a paz traída
que me querem impor.

Qual dos homens sou eu,
de quantos posso ser?
Que foi que me venceu?
Ou é isto vencer?

Ás vezes, de tardar
a esperança em que cismo,
sinto-me soçobrar
num negro niilismo.

Não há ira nem pejo
que exprimam tanto nojo
com que aviltados vejo
tantos homens de rojo.

Ilusões e tristezas
quem é que nunca as teve?
Soltem-se as nuvens presas.
Faça-se a treva leve.

Cada homem só o é
porque outros homens há.
Sofre-se para quê?
Sempre dores haverá?

Acaso nada valha
viver-se vertical.
Mas cortem-me à navalha
e eu jurarei que vale.


Armindo Rodrigues

A CDU AVANÇA

A CDU aumentou em número de votos e de deputados e em percentagem.
Aumentou pouco. Mas aumentou.
Queríamos e merecíamos mais votos, mais deputados e mais percentagem?: claro que queríamos e, sobretudo, merecíamos. Mas esse querer e esse merecer não correspondidos, de forma alguma anulam o carácter positivo do resultado obtido - um resultado que confirma o crescimento sustentado registado nos sucessivos actos eleitorais dos últimos anos.
E esse é um dado fundamental a ter em conta.
Razão tinham, por isso, os activistas da CDU que ontem à noite, no Centro de Trabalho Vitória, gritavam: a CDU avança com toda a confiança.

Os comentadores do costume, fartaram-se de badalar sobre a «queda para 5º lugar», apresentando-a como uma tragédia para a CDU.
Como esses comentadores sabem - mas não querem que se saiba... - não é tragédia nenhuma. Nem deve ser, sequer, motivo de apreensão: a meu ver, tal «queda» só seria motivo de apreensão se ela resultasse da perda de eleitorado da CDU para os partidos que ficaram em 3º e 4º lugares. Ora isso, não só não não aconteceu como, pelo contrário, a CDU aumentou a sua votação.

O PS teve uma quebra acentuada em relação às últimas legislativas, uma quebra que, significativamente, lhe retirou a maioria absoluta - no entanto, ouvindo e vendo, ontem, Sócrates e outros dirigentes do PS, dir-se-ia que acontecera o contrário do que aconteceu...
O PSD/Manuela Ferreira Leite portou-se mais ou menos à altura do PSD/Santana Lopes - e com isto se diz tudo.
O CDS/PP e o BE registaram assinaláveis subidas - surpreendentes, talvez, no primeiro caso, muito aquém das previsões no caso do BE.

Avaliando estes resultados, poder-se-á dizer, como me disse um amigo (membro do PS) em mensagem que hoje recebi, que eles traduzem uma viragem eleitoral à esquerda?
Nem de longe nem de perto.
Aliás, não percebo que contas podem levar a tal conclusão - e muito menos percebo e aceito que, para que essas contas dêem certas, se considere o PS um partido de esquerda, quando, na realidade, ele há muito que deixou de ser um partido de esquerda (se é que alguma vez o foi).
Pergunto: como é possível considerar de esquerda um partido que é, há 33 anos, o principal protagonista da política de direita e o líder assumido da contra-revolução?


E agora, como vai ser?
Veremos...
O PS perdeu a maioria absoluta mas, estou em crer, não lhe hão-de faltar apoios parlamentares, às claras ou camuflados, para continuar a política de direita...
É certo que os deputados que elegeu não dão para, acrescentando-lhe os do BE, levar por diante uma política de direita com pequenos retoques de esquerda...
É certo, também, que com o CDS/PP há deputados que cheguem para o PS/Sócrates continuar no velho «rumo» seguido até aqui - e um casamento entre os dois não seria mais do que a repetição de uma boda de ambos conhecida...

Uma coisa é certa, no entanto: por parte das forças que integram a CDU - com destaque para o PCP - a luta contra a política de direita vai prosseguir.
E mesmo sendo esta uma conclusão que podíamos ter tirado ontem, antes da contagem dos votos, não deixa de ser relevante reafirmá-la de forma inequívoca um dia após as eleições.
Para que conste...

Entretanto, já estão aí as autárquicas, a exigir-nos muito esforço, muita dedicação, muita militância, muita confiança - condições indispensáveis para, no dia 11 de Outubro, darmos mais força ao trabalho, à honestidade e à competência dos eleitos da CDU no poder local.

POEMA

PROGRAMA


Esta ânsia de indagar,
de analisar, de propor,
de discutir, de negar,
de afirmar só duvidando,
para a cada dúvida erguida
sempre outras razões opor,
de por igual estar presente
onde estou e onde não estou,
é o caminho mais puro
que vale a pena trilhar.

Este prazer de arrasar,
para de novo construir,
de imaginar que sou aço,
sem me esquecer de que sou,
irremediavelmente,
mísero, frágil, comum,
de pele, músculos, ossos,
sangue, nervos, desatinos,
é o destino mais claro
que vale a pena sonhar.

Este orgulho de não querer
nada para mim apenas,
para ter os braços mais livres,
para mais livre pensar,
para ser mais de direito
dono do que necessito,
para a quanto me rodeia
não o achar nunca estreito,
é a riqueza maior
que vale a pena ganhar.


Armindo Rodrigues

ATÉ AMANHÃ, CAMARADAS

Assim passei o meu dia de ontem, dia de reflexão:
De manhã fui ao café, tomei o pequeno almoço, li jornais, reflecti...
Depois, dei uma volta pela blogosfera, postei uns posts, visitei os meus blogs preferidos, em alguns dos quais deixei comentários. Almocei. Reflecti...

A seguir, ouvi música. Música recorrente: o Adriano («Gente de Aqui e de Agora» e «Que Nunca Mais»); e «Trovas do Tempo que Passa - Samuel Canta Adriano» - cd que me foi oferecido aqui há uns meses e que me confirma inequivocamente que Adriano «foi um dos homens que fizeram cantar» bem. Reflecti...
Seguiram-se alguns daqueles «clássicos» a que recorro com frequência - por isso lhes chamo recorrentes...: Beethoven (a recorrentíssima Quinta); Mahler (a Nº 2, a da Ressurreição, que Jorge de Sena ouviu assim:
«Ante este ímpeto de sons e de silêncio
Ante tais gritos de furiosa paz
Ante um furor tamanho de existir-se eterno
Há portas no infinito que resistam?»
Não há: reflecti.

E por aqui andei, saltitando recorrentemente do Jorge de Sena para o Armindo, deste para o Zé Gomes... - sempre reflectindo...

Á noite fui ao futebol - pela primeira vez, este ano.
Ver a Luz a (quase) encher é um espectáculo. Ver o Benfica ganhar é O espectáculo. Ouvir os cânticos e os gritos da multidão - «Assim se vê a força do SLB!» - dá para... reflectir...

De regresso a casa - obviamente, em estado de reflexão... - vi dois filmes, tirados à sorte do meio de uma dezena de recorrentes...: «O Mundo a seus pés» que me proporcionou demorada reflexão...; e o «Cinema Paraíso», que cumpriu o seu destino de me fazer chorar - lágrimas boas: de ternura, de tristeza, de alegria, de amargura, de felicidade... - e reflecti.

.............................................................................

Agora, vou votar.
Com a convicção profunda de que o meu voto será um dos que contribuirão para que a CDU atinja o seu objectivo principal: uma votação maior do que a obtida nas anteriores legislativas.
Com a certeza de que - independentemente de esse objectivo ser ou não alcançado - amanhã, segunda-feira, A LUTA CONTINUA.

Até amanhã, camaradas.

POEMA

POSIÇÃO DE GUERRA


Crescem em mim milhões de punhos
cerrados,
bandeiras desfraldadas,
horizontes.
Soam em mim milhões de brados
resolutos,
protestos brutos,
queixumes.
Abrem-se em mim milhões de chagas,
como crateras de fogo.
Rompem de mim vendavais.
Sou eu que me interrogo,
a tudo atento,
sobranceiro ao gozo ou ao sofrimento,
com pensamentos verticais.


Armindo Rodrigues

(com este poema, o Cravo de Abril inicia um novo ciclo de poesia, com o qual presta homenagem ao Poeta Armindo Rodrigues)

LEVADOS E BEM LEVADOS...

Pelo que tem sido dito e escrito estamos perante a iminência de uma tragédia que atingirá muitos milhões de pessoas em todo o planeta e roubará a vida a um número indeterminado, mas elevado, dos atingidos.
É este, em resumo desdramatizado, o aviso que nos chega sobre as consequências da gripe A - para combater a qual estão a ser produzidas e vendidas milhões e milhões de vacinas, de máscaras, de etc, etc...

Eis senão quando, segundo o Sol, o Bastonário da Ordem dos Médicos de Espanha, pede a palavra e diz:
«Estamos perante uma epidemia de medo causada por uma doença fantasma que só serve interesses económicos e políticos».

E o Bastonário da Ordem dos Médicos de Portugal, acrescenta:
«Isto tudo é um absurdo. Estão a gastar-se milhões com uma doença banal. Esta gripe é menos perigosa do que a gripe sazonal».

Quer isto dizer que estamos, uma vez mais, a ser levados... e bem levados...

POEMA

A PORTUGAL


Esta é a ditosa pátria minha amada. Não.
Nem é ditosa, porque o não merece.
Nem minha amada, porque é só madrasta.
Nem pátria minha, porque eu não mereço
a pouca sorte de nascido nela.

Nada me prende ou liga a uma baixeza tanta
quanto esse arroto de passadas glórias.
Amigos meus mais caros tenho nela,
saudosamente nela, mas amigos são
por serem meus amigos, e mais nada.

Torpe dejecto de romano império;
babugem de invasões; salsugem porca
de esgoto atlântico; irrisória face
de lama, de cobiça, de vileza,
de mesquinhez, de fátua ignorância;
terra de escravos, cu pró ar ouvindo
ranger no nevoeiro a nau do Encoberto;
terra de funcionários e de prostitutas,
devotos todos do milagre, castos
nas horas vagas de doença oculta;
terra de heróis a peso de ouro e sangue,
e santos com balcão de secos e molhados
no fundo da virtude; terra triste
à luz do sol caiada, arrebicada, pulha,
cheia de afáveis para os estrangeiros
que deixam moedas e transportam pulgas,
oh pulgas lusitanas, pela Europa;
terra de monumentos em que o povo
assina a merda o seu anonimato;
terra-museu em que se vive ainda,
com porcos pela rua, em casas celtiberas;
terra de poetas tão sentimentais
que o cheiro de um sovaco os põe em transe;
terra de pedras esburgadas, secas
como esses sentimentos de oito séculos
de roubos e patrões, barões ou condes;
ó terra de ninguém, ninguém, ninguém:

eu te pertenço. És cabra, és badalhoca,
és mais que cachorra pelo cio,
és peste e fome e guerra e dor de coração.
Eu te pertenço: mas ser's minha, não.


Jorge de Sena


(com este «A Portugal» - poema escrito no exílio, em 1962, poema amargo, amargo... - encerra-se este ciclo dedicado a Jorge de Sena, com o qual o Cravo de Abril homenageou o Poeta cujos restos mortais foram - finalmente! - trasladados para Portugal)

EM JEITO DE BALANÇO...

Hoje é dia de reflexão - dia em que, de acordo com a lei, não se deve fazer propaganda eleitoral...
Isto julgava eu, mas lendo o Diário de Notícias de hoje, vi que estava enganado: lá estão, em jeito de «balanço da campanha», oito-páginas-oito de propaganda eleitoral...
Propaganda aos mesmos que o referido jornal propagandeou durante o tempo legal da campanha: o PS (muito, muito propagandeado); o PSD (não tanto, mas enfim...); o BE (sempre o filho querido, o menino bonito, do DN e de todos os gémeos do DN); o CDS/PP (propagandeado qb).
E, é claro, para mostrar o pluralismo reinante no matutino, a CDU: tratada de acordo com a tradição - uma tradição laboriosamente construída ao longo de muitos dias, de muitas semanas, de muitos meses, de muitos anos...
Com uma curiosidade: de passagem é feita uma breve, brevíssima alusão a um tal «comício de Lisboa que contou com a participação de cerca de sete mil pessoas». Pronto!: a partir de agora ninguém mais pode dizer que os jornais - todos! - silenciaram a mais participada iniciativa da campanha eleitoral...

Posto isto, e também em jeito de «balanço da campanha», passo a reflectir o seguinte:
todos os média propriedade do grande capital fizeram da CDU o alvo exclusivo dos seus ataques - ataques que se traduziram, com frequência, num desavergonhado vale-tudo;
todos esses média fizeram de todos os restantes partidos os alvos exclusivos dos seus elogios - elogios que se traduziram, com frequência, num desavergonhado vale-tudo.

Refletir sobre as razões de tudo isto, é o caminho certo para, amanhã, se encontrar o quadradinho certo no boletim de voto.

POEMA

VAI INAUGURAR-SE O MUSEU DA CARIDADE


Aceitam-se récitas da dita.
Aceitam-se chás dançantes.
Aceitam-se confessionários.
Aceitam-se misericórdias.
Aceitam-se subscrições públicas.
Aceitam-se esmolas ao sábado.
Aceitam-se valas comuns.
Aceitam-se bairros económicos.
Aceitam associações de protecção às raparigas.
Aceitam-se conferências de S.Vicente de Paula.
Aceitam-se consultas grátis.
Aceitam-se hospitais.
Aceitam-se dispensários.
Aceitam-se necrológios.
Aceitam-se artigos de fundo.
Aceitam-se discursos patrióticos.
Aceitam-se sugestões para acrescentar esta lista.

E também se aceitam poemas sociais como este.


Jorge de Sena

QUE GRANDE CAMBADA!

Sou um daqueles «militantes tradicionais do PCP» que criticam a forma miserável como a comunicação social dominante tem tratado a campanha da CDU - mais do que «tradicional» devo ser, mesmo, tradicionalíssimo, já que a minha crítica se estende à forma miserável como essa comunicação social trata o PCP/CDU durante os 365 (ou 366) dias do ano.

E já agora, aproveito para dizer que critico, apenas, porque não posso fazer mais nada. Se pudesse, submetia esses média a um castigo que, para eles, seria dolorosíssimo, uma autêntica tortura : obrigava-os a transformarem-se em verdadeiros órgãos de informação.

Mas vamos ao que interessa: ontem à noite, a CDU realizou um comício, no Campo Pequeno, no qual participaram sete mil pessoas.
Trata-se, sem dúvida, da maior de todas as iniciativas desta campanha eleitoral - porventura maior, até, do que a soma das maiores iniciativas promovidas por todos os restantes partidos...

Pois bem: os jornais de hoje - todos! - silenciaram absolutamente o referido comício: nem uma palavra, nem uma foto, nem uma referência, nem uma alusão a qualquer das intervenções lá proferidas (mesmo que fosse, como é hábito, para deturpar o que foi dito).
NADA! SILÊNCIO TOTAL!

Percebe-se: anunciando todos os dias a CDU a descer, não lhes convém mostrar a CDU a crescer...
Que grande cambada!

POEMA

«DEIXEM-SE DE FINGIR...»


Deixem-se de fingir de heróis de esquerda,
com bancos e bancas de advogados, redacções,
editoriais, automóvel, bolsas e cátedras,
quintas herdadas, páginas literárias.
Deixem-se de uivar em defesa de ismos
que nenhum vos pertence ou a que pertenceis
a não ser para dançar a dança desnalgada
dos que não têm vergonha do povo português.
O único ismo em consonância com os arrotos
de bem comidos, e os rosnidos de instalados
naquilo que criticam disfarçando-se,
é o relismo - de reles. Nada mais.


Jorge de Sena

ATENÇÃO, MUITA ATENÇÃO

Os jornais todos os dias registam o que, segundo cada um deles, é «negativo» e «positivo» nas campanhas eleitorais de cada partido.
Com frequência, as justificações apresentadas para a classificação negativa ou positiva são de bradar aos céus. Especialmente no que respeita à CDU.
(Só um exemplo: a abertura da campanha da CDU foi «negativa» porque durante parte do comício no Templo de Diana... choveu - certamente por culpa da CDU que não tomou as medidas necessárias para impedir que a chuva caísse...)

Hoje, o Diário de Notícias e o Jornal de Notícias entenderam-se na justificação da nota atribuída à campanha da CDU - nota negativa porque, acusa o DN, «o militante tradicional do PCP continua a queixar-se dos jornais»;
e porque, acusa o JN, «alguns militantes têm criticado o trabalho da comunicação social em relação à campanha da CDU».

Atenção «militantes» e «militantes tradicionais do PCP», muita atenção: nada de «queixas» nem de «críticas» aos jornais, façam como os «militantes» dos outros partidos que aplaudem e agradecem os favores dos jornais...
Tanto mais que, como se vê, quem se mete com os jornais, leva...

POEMA

FESTA ALEGÓRICA


O bobo do imperador Maximiliano
organizou uma festa alegórica
que o povo e a corte de soberano à frente
saborearam em grandes gargalhadas:
juntou na praça todo o cego pobre,
prendeu a um poste um porco muito gordo,
e anunciou ganhar o dito porco aquele
que à paulada o matasse. Os cegos todos
a varapau se esmocaram uns aos outros,
sem acertar no porco por serem cegos,
mas uns nos outros por humanos serem.
A festa acabou numa sangueira total:
porém havia muito tempo que o imperador
e a corte e o povo não se riam tanto.
O bobo, esse tinha por dever bem pago
o fabricar as piadas para fazer rir.


Jorge de Sena

A CAMBADA MEDIÁTICA

Os chamados órgãos de informação - fórmula pomposa utilizada para designar os média dominantes, propriedade do grande capital - todos os dias nos mostram o que valem enquanto tal.

Desinformar organizadamente é a sua profissão: quer em matéria de noticiário nacional e internacional; quer no que respeita a «opinião»; quer em relação a títulos, fotos e legendas, programas de entretenimento, entrevistas, debates, reportagens...
Acresce que, estando ao serviço de quem estão - que é quem lá põe dinheiro forte, como diz o engenheiro Belmiro no seu linguajar característico- todos eles imitam as poses e gestos e arrogância e insolência dos patrões, num ostensivo desprezo pela inteligência, pela sensibilidade e pelos direitos dos seus consumidores/pagadores.
E o descaro vai ao ponto de todos eles se auto-designarem «independentes», «isentos», «imparciais», «plurais» e de se auto-apresentarem como exemplos e garantes da «liberdade de informação, pilar essencial da democracia»...

Vem isto a propósito da primeira página do Diário de Notícias de hoje, onde um dos destaques vai para as Honduras.
E diz assim:
«O regresso louco de Zelaya às Honduras.
Presidente deposto em pijama voltou ontem de surpresa.
Após 15 horas de viagem, refugiou-se dos tumultos na embaixada brasileira»

Aí está a «informação» típica da cambada mediática: insultuosa, humilhante, mentirosa.

POEMA

DOENÇA URGENTE


Sentes uma dor?
A dor aumenta?
Os médicos na América não são chamados,
não visitam ninguém. O teu médico
de família, se lhe pedires que te acuda,
responde-te que vás para o hospital.
Vais para o hospital.
Ninguém te conhece,
ninguém te ouve,
ninguém te pergunta nada.
Sentes uma dor?
Continuarás a senti-la
enquanto os exames, as análises, as conferências
(previamente verificado o valor dos teus
seguros de saúde e a tua conta bancária)
se sucedem.
A dor aumenta?
Gritas?
Acabas por calar-te?
Morres?
Os exames deram um diagnóstico correcto
que tecnicamente não poderia ter sido dado antes
- e a tua família não pode processar
ninguém pelo facto de teres morrido.
Apenas poderá mandar a conta à
companhia de seguros.


Jorge de Sena

HONDURAS - SOLIDARIEDADE

O Presidente Manuel Zelaya regressou ontem às Honduras.
Fê-lo clandestinamente, como é óbvio, e perante a incredulidade do fascista Micheletti.
Este, começou por negar, com a arrogância provocatória que lhe é característica, a presença do Presidente legítimo nas Honduras, assegurando que Manuel Zelaya - que designou como «terrorista mediático» - se encontrava «numa suite de um hotel da Nicarágua».
Depois, foi obrigado a reconhecer a presença do Presidente Manuel Zelaya nas Honduras, na Embaixada do Brasil - às imediações da qual começaram a acorrer milhares de pessoas manifestando o seu apoio ao Presidente legítimo.

Dirigindo-se aos seus apoiantes, o Presidente Zelaya afirmou:
«Quero dizer-vos que estou comprometido com o povo hondurenho e que não descansarei nem um dia, nem um minuto, até afastar a ditadura do poder. A partir de agora ninguém me tirará daqui, pelo que a minha posição é: pátria, restituição do poder, ou morte».
E aludindo à resistência heróica do povo hondurenho, o Presidente disse: «Somos um povo unido e somos, por isso, um povo vencedor»

Entretanto, o fascista Micheletti decretou o estado de sítio e forças militares à sua ordem intimaram os manifestantes a afastar-se quer das imediações da Embaixada do Brasil quer da sede da ONU, onde também estão concentradas milhares de pessoas.
Os manifestantes recusaram-se a cumprir as ordens e declararam que vão manter-se ali.

Quer isto dizer que a luta do povo das Honduras pelo restabelecimento da democracia entrou agora numa nova e mais avançada fase - só possível, recorde-se, porque o povo resistiu e não parou de se manifestar um único dos 86 dias passados desde o golpe fascista.

Quer isto dizer, também, que a solidariedade com a luta do povo hondurenho é agora ainda mais necessária e premente.

POEMA

«É IMPOSSÍVEL DISCUTIR...»


É impossível discutir seja o que for.
Se se tem razão, ou não tem
é totalmente indiferente:
ou se aceitam as regras do jogo, ou se muda de vida e de lugar.


Jorge de Sena

A ÚNICA FORMA...

«Em Portugal vive-se um ambiente de medo como nunca se viu»: gritou a líder do PSD, certamente pensando lá para si que a Madeira é o único recanto deste jardim da Europa onde não há medo... - e receitou que «a única forma de acabar com esta situação é afastar José Sócrates do poder».

É verdade que centenas de milhares de portugueses vivem num ambiente de medo. Melhor dizendo, de medos: medo de perder o emprego, medo de não arranjar emprego, medo de não receber o salário, medo das reformas e pensões de miséria, medo do presente, medo do futuro, etc, etc, etc.

Todavia, é injusto responsabilizar José Sócrates - só ele - por tais medos. E é falsa a afirmação de que afastando-o do poder - só a ele - acabam os medos.
Na realidade, os muitos medos que percorrem a sociedade portuguesa são medos característicos de um regime assente no domínio do grande capital, ou seja, assente na violência da exploração e da opressão.
E é esse regime que tem vindo a ser construído, há 33 anos, precisamente pelo PS (de Soares, Alegre, Guterres, Sócrates, etc, etc,etc.) e pelo PSD (de Cavaco, Marcelo, Barroso, Manuela Ferreira Leite, etc, etc, etc) - num processo que pela sua longevidade (33 anos!) e pela sempre assegurada alternância (PS/PSD!) na execução da mesma política de direita pariu este regime de política única, praticada por um partido único bicéfalo.
Regime sustentado no medo e gerador de medos.

Por isso Manuela Ferreira Leite está enganada - ou melhor quer enganar-nos... - quando diz que «a única forma de acabar com esta situação é afastar José Sócrates do poder».
De facto, a «única forma de acabar com esta situação» é afastar do poder a política de direita praticada pelo PS de José Sócrates e pelo PSD de Manuela Ferreira Leite - e substituí-la por uma política de esquerda, ao serviço dos interesses dos trabalhadores, do povo e do País.

É nesse sentido que as eleições do próximo domingo podem vir a constituir um significativo passo em frente para acabar com esta situação. Para acabar com o medo. Com os medos.

POEMA

O CORREIO


O correio, com um carrinho, transporta dezenas de cartas
para cada casa. Recebidas as cartas,
as pessoas sentam-se a abri-las uma a uma.
Ofertas de livros obscuros, bónus para compra das coisas mais heteróclitas
(comprando uma fica-se comprando outras pela vida inteira),
de empréstimos bancários, de seguros de vida, etc. etc.
pedidos dos índios pobrezinhos, dos rapazes abandonados,
das crianças da Coreia, da propaganda da Bíblia, etc. etc.
Com isso, ao fim de uma hora, encheu-se o cesto de papéis.

Mas qualquer americano sentiria que o mundo o abandonara,
se o correio lhe não trouxesse essa hora
de saber-se destacado em listas de moradas
(que as entidades aliás, permutam entre si).


Jorge de Sena

MAIS VOTOS E MAIS DEPUTADOS

De hoje a uma semana vamos a votos.
E a opção que se coloca a cada eleitor é simples :
ou votar na continuação da política de direita que - aplicada ora pelo PS ora pelo PSD ao longo de 33 anos - conduziu o País ao estado em que está;
ou votar na ruptura com essa política e na implementação de uma nova política, de esquerda, que inicie a resolução dos muitos e graves problemas existentes.

A troca de acusações com que o PS e o PSD têm vindo a desviar as atenções do eleitorado dessa questão principal - fingindo que são alternativa um ao outro; fingindo que entre eles há diferenças no que respeita à política que pretendem aplicar; fingindo que nada têm a ver com a política praticada por ambos nos últimos 33 anos - é a prova mais clara da intenção comum a Sócrates e a Ferreira Leite de darem continuidade à política de direita de que ambos têm sido os implacáveis executantes.

Do outro lado da política de direita e dos partidos que a têm praticado e querem continuar a praticar está a CDU, contrapondo-lhes uma política alternativa de facto e assumindo-se como alternativa política de facto.
E a ampla adesão das populações à campanha eleitoral da CDU é um sinal inequívoco de que essa alternativa vai avançando, vai ganhando terreno, vai conquistando mais e mais apoiantes.

Isto apesar do tratamento de excepção a que os média dominantes submetem as iniciativas eleitorais da CDU, numa prática de distribuição de simpatia e de elogios por todas as outras forças concorrentes, e do contrário de tudo isso em relação à CDU.
É nessa mesma linha de comportamento que devem ser vistas as chamadas «sondagens de opinião» - utilizadas cada vez mais, não como instrumentos de avaliação das intenções de voto dos eleitores, mas como instrumentos de influenciação do voto.

No entanto, e apesar disso, a CDU avança. Com toda a confiança.
E o seu resultado eleitoral está ainda em processo de construção - ou seja: daqui até dia 27, muitos votos podem ser, e devem ser, conquistados.
É essa a tarefa que se coloca a todos os candidatos e activistas da Coligação Democrática Unitária.
Com a profunda convicção - atrevo-me a dizer: com a profunda certeza - de que, no domingo, a CDU obterá mais votos e elegerá mais deputados do que nas anteriores eleições legislativas.

E se assim for, uma coisa pelo menos é certa: no dia 28, a luta continuará mais participada e mais forte - sendo que, nesse sentido e com esse objectivo, o voto na CDU é o único que conta.

POEMA

OS PRAZERES DA JUVENTUDE


Ao fim de 24 jogos perdidos,
o time ganhou o desafio.
O público inundou o campo, desceu à cidade,
e durante horas interrompeu o trânsito, bebeu na rua,
quebrou montras, partiu mesmo os faróis dos carros
da polícia que, risonha, comungava
naquele entusiasmo regional e jovem
por um triunfo tão longamente ansiado.

Uma centena de pessoas manifesta-se na rua
(contra uma «vitória» que não se vê no Viet-Nam),
e os cacetes desabam, a prisão enche-se,
porque interromperam o trânsito, incitaram à desordem,
e resistiram malignamente à autoridade
que os mandou dispersar.


Jorge de Sena

A FORÇA DO «DINHEIRO FORTE»

A propósito da «vigilância» - ou não? - exercida pelo Governo sobre a Presidência da República - caso que, como incisivamente acentuou o Cantigueiro, seja quem for que tenha razão, constitui «um lamaçal de contornos algo porcos» - pronunciou-se, de dedo em riste, o dono do Público, Belmiro de Azevedo.

Belmiro ordenou à «equipa do jornal que não se deixe assustar por opiniões um bocado desastradas de alguns governantes que querem mandar no Público sem pôr lá dinheiro forte».
Ora, quem põe lá «dinheiro forte» é ele, Belmiro, como toda a gente sabe - e a bom entendedor duas palavras bastam: dinheiro forte...

Na passada e por dever de ofício, Belmiro acrescentou que o que deseja é que « o Público passe a ganhar dinheiro».
Mas, atenção!, que ganhe dinheiro mantendo «sempre a mesma linha editorial, isto é, com independência» - assim deixando claro que a prioridade das prioridades não é «ganhar dinheiro», mas ter um jornal ao serviço dos seus interesses.
E não se pode ser mais claro quando se chama a isso «independência»...

Finalmente - e não sei se com tremidos de voz - Belmiro declamou que «a liberdade de imprensa é um bem muito mais importante do que uma disputa eleitoral».

E lendo isto, veio-me à memória aquela frase de um outro Belmiro que explicitava assim a liberdade de imprensa existente no jornal de que era proprietário:

«No meu jornal, os jornalistas têm toda a liberdade de escrever o que eu penso».


Como se vê, o «dinheiro forte» tem muita força...

POEMA

CADASTRADO


Uma vez, aos sete anos,
partiu à pedrada a lanterna da porta da igreja.

Dez anos depois, conduzindo um carro,
não parou num cruzamento de rua
onde havia um sinal de stop.

Dois anos depois, teve uma briga
num bar, e partiu a cabeça de um amigo
com uma garrafa de cerveja.

Quando se recusou a combater no Viet-Nam,
o seu cadastro provava como desde a infância,
sempre manifestara sentimentos
nitidamente de traidor à pátria.


Jorge de Sena

A FRASE DO DIA

Os jornais diários têm, como é natural, um jornalista que acompanha cada uma das campanhas eleitorais.
Lendo as reportagens publicadas, não é difícil apercebermo-nos dos critérios que obedeceram à escolha de quem para quem - e para quê...

Assim, os que acompanham a campanha da CDU são, regra geral, anticomunistas típicos - e, naturalmente, imprimem essa marca no conteúdo de todos os textos que escrevem.
Já os acompanhantes do BE produzem textos de tal forma elogiativos ao partido que acompanham que, por vezes, dir-se-ia serem mais propagandistas em acção de caça ao voto do que jornalistas.
Quem duvide e queira confirmar o que acima se diz, pode consultar, por exemplo, o Diário de Notícias, ou o Público, ou...

Estes panegiristas do BE, no desempenho do seu métier, descobrem e passam a escrito, todos os dias, coisas do arco-da-velha - coisas que, se publicadas em volume, proporcionariam a quem as lesse sucessivas e sonoras gargalhadas. E não só...

Dos jornais de hoje, escolhi uma frase - e desde já confesso o embaraço da escolha, tanta era a oferta disponível...
É seu autor o jornalista do Diário de Notícias que acompanha o BE, Luís Naves, e aqui fica, sem comentários, como FRASE DO DIA:

«O BE faz uma campanha onde não parece haver grande preocupação de mediatização»

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UNS CABELOS TODOS BRANCOS



Estamos a vê-lo todos e sabemos.

Foram anos de fome, quantas vezes
à beira dos mercados e das feiras.
Foram anos com o perigo a escorrer das paredes.
Foram anos de todas as esquinas vigiadas.
Anos de encontros mais cronometrados
do que o fio-de-prumo sobre a lâmina.
Foram anos eternos de prisão
numa ilha de mar, de guardas, de muralhas
e de silêncio com o olhar feroz
de grades sobre o dia.

Foi toda a vida com o coração
sem nunca se esquecer por que batia.


Mário Castrim

COMO ESTAVA PREVISTO

Ei-los: os ex.
Chegaram quando estava previsto chegarem: logo após a abertura oficial da campanha para as legislativas.

Como de costume, quem chegou não disse nada de novo ou de inesperado: foi a habitual carta «dirigida à direcção do PCP» - mas, de facto, dirigida aos média propriedade do grande capital; foi o tradicional blá-blá-blá do «sectarismo» e do «isolacionismo» que leva ao «definhamento do Partido» e ao «afastamento de milhares de militantes e dirigentes» - querendo com isto dizer que 1 que parte vale por milhares...; foi todo o ódio e toda a frustração de quem não se conforma com o facto de o PCP continuar a ser o que os seus militantes querem que seja e não o que os seus inimigos desejariam que fosse; foi, enfim, como estava previsto, a tradicional operação anticomunista de tempo de eleições.

Nada de novo, também, no que respeita à difusão da notícia: ela foi entregue a um jornal (calhou ser o órgão da Sonae mas poderia ter sido qualquer outro, tirado ao acaso de entre os média propriedade do grande capital); esse jornal destacou, para bem tratar o assunto, um dos seus muitos peritos em anticomunismo; a notícia teve honras de primeira página e de mais uma página inteira - e, como também estava previsto, saltou para todos os chamados noticiários de rádios e televisões propriedade do grande capital.

E aposto com quem quiser que, nos dias que aí vêm, esta coisa vai ser a notícia em tudo quanto se diz órgão de informação.
E aposto, também, que o que agora anunciou a partida, vai ser entrevistado e entrevistado e entrevistado - e que, nessas entrevistas, vai repetir e repetir e repetir tudo o que anda a dizer desde que, há vários anos, partiu de facto.
E aposto, ainda, que outros ex serão chamados a dar opinião - e que opinarão de acordo com o que está previsto.

Aposto, finalmente, que o secretário-geral do PCP - intensamente envolvido na campanha eleitoral - vai ser metralhado, todos os dias e a todas as horas, com perguntas provocatórias sobre o assunto.

POEMA

MÃE


De noite
ouvi barulho
na cozinha.

Levantei-me.

Fui ver.

A mãe passava a ferro
os calções que eu devia
levar à escola.

Sentada, mal podia
com o ferro. Longe
um galo nos dizia «o dia aí vai».

Esfrego os olhos estremunhado.

E a mãe:
- O que é, filho? Cuidado
não acordes o pai.


Mário Castrim

ser leal ao meu amor, se ele assim para mim fosse!

Estes são, também, os meus dias. entre gente boa que me ensina, momento a momento, que as coisas simples são as mais profundas de amar. não imagino os meus dias sem estes camaradas. não sei que seria da minha alegria se não houvesse a quinta-feira, dia marcado na memória de todos, para o encontro do Cante. nele, neste som profundo vulcanizado nas dores e alegrias de uma classe, o alentejo inteiro ergue-se para dizer ao silêncio do latifúndio que mesmo quem sofre não se resigna e se levanta, no abraço solidário que o colectivo atira às consciências, mesmo as mais solitárias. na taberna do Lota, meu mestre e meu amigo - tantas e tantas as pescarias na nossa cumplicidade! - entre um medronho e um tinto, entrançados com uma fatia de pão com linguiça, os vermelhos da terra juntam-se para cantar a revolução. sei de cor os caminhos que lá nos levam. como conheço cada um dos corações que por lá habita. quando dão conta da minha chegada riem-se e «picam» logo uma moda... daquelas que sabem que eu muito gosto. ou o «cabelo entrançado», ou esta - da qual vos deixo um bocadinho - «diz a laranja ao limão/ qual de nós será mais doce/ ser leal ao meu amor/ se ele assim para mim fosse».
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Alentejo, Alentejo...

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POEMA

A LIÇÃO


Francisco Miguel estava na prisão.
Todos os dias guardava do seu pão
pra dar ao pombos
que vinham até ali
das velhas casas.

Ele sabia
que o dever
de todo o homem
é defender as asas.


Mário Castrim

VAMOS A ISSO!

Foram mais de 6 000 os que se juntaram em Évora, no Templo de Diana, naquele que foi um dos maiores comícios de sempre em terras do Alentejo.
Ali, ouviram discursos claros, simples, verdadeiros - e canções claras, simples, verdadeiras.

Foi, no que respeita à CDU, uma excelente abertura oficial da campanha para as legislativas, nas quais, no dia 27, o eleitorado deveria (deverá...) pronunciar-se sobre a grande alternativa que lhe é colocada: ou votar na continuação da política com que, há 33 anos, o PS e o PSD (às vezes com o CDS/PP) têm vindo a flagelar a imensa maioria dos portugueses; ou optar pela ruptura com essa política de direita e por uma política de esquerda ao serviço dos interesses da imensa maioria dos portugueses.

«Nenhum voto de esquerda é útil na mão do PS», disse Jerónimo de Sousa - verdade incontestável, confirmada pela prática concreta desse partido ao longo de mais de três décadas em que, falando e caçando votos em nome da «esquerda», utilizou sempre esses votos em favor da política de direita.

É claro que, para a generalidade dos média dominantes, as «mais de 6 000» pessoas presentes em Évora, são sempre «segundo contas da CDU», ou «segundo disse Jerónimo de Sousa»...
Ou seja, os jornalistas não sabem contar... - ao contrário do que aconteceu com as presenças na iniciativa do BE em Lisboa: «2 500 pessoas» - segundo os jornalistas, que neste caso já sabiam contar...
Mas isso é o habitual mais do mesmo em que os média do grande capital são especialistas...

E o que mais interessa agora é que, daqui até ao dia 27, há ainda muitos votos a conquistar - e que é necessário conquistar - para a CDU.
VAMOS A ISSO!

POEMA

ESTOU AQUI


Pai, então!
Tens de aprender a andar.
Vou-te ensinar
a ti.
Segura a minha mão
ou o meu dedo.
Vá, não tenhas medo.

Eu estou aqui.


Mário Castrim

DROGAS

Droga quer dizer, por exemplo, Colômbia - que é o maior produtor de cocaína e o principal fornecedor do país que mais a consome em todo o mundo: os EUA.

Onde há droga, há combate à droga. Embora em muitos casos esse «combate» não passe de um disfarce por detrás do qual se escondem outros e bem diferentes «combates» - como acontece na Colômbia...

São muitas e muito diversificadas as rotas da droga colombiana rumo aos EUA.
Casos há em que a droga sai da Colômbia com a maior das facilidades e sem qualquer perigo para os traficantes - é o que acontece com duas «insuspeitas» instituições que, soube-se agora, funcionam como autênticos cartéis da droga: a DAS (Serviços Secretos da Colômbia) e a DEA (Agência dos Estados Unidos contra a droga)...


Mas há mais drogas. Na Colômbia e em todo o lado, Portugal incluído.
Por exemplo: uma coisa que diz chamar-se «Fundação Coração Verde» acaba de organizar uma coisa a que chamou «IV Temporada de Arte de Bogotá» e que consta de uma coisa a que chamam «exposição de artes plásticas».
Das «obras de arte» expostas consta uma droga bem reveladora de quem a produziu: uma pintura dos presidentes da Venezuela e do Equador «a beijarem-se na boca».
É claro que o recurso a tais drogas só confirma o medo que a cambada tem da força e do apoio popular aos processos revolucionários em curso na Venezuela, no Equador e em vários outros países da América Latina.

Drogas semelhantes a esta «Fundação» e à sua «exposição», abundam por cá.
Exemplos disso, são a revista Tabu, do Sol, e uma droga abjecta, pornográfica, nojenta, ali vomitada por um tal Nuno Saraiva - neste caso a confirmar a raiva da cambada face ao êxito da Festa do Avante.

POEMA

AVÔ


O avô estava a olhar para longe
longe
para tão longe daqui

- Para onde estás a olhar, avô?

- Estou a olhar para ti.


Mário Castrim

«PAI DA DEMOCRACIA»

De um qualquer livro escrito por Mário Soares sabe-se, antes de o ler, que é um esgoto de blá-blá-blá demagógico a correr para a fossa que é a intensa actividade ao serviço do capitalismo desenvolvida pelo autor ao longo de muitos anos.
Foi enquanto homem de mão do capitalismo internacional que Soares - pago pelos serviços secretos dos EUA, da Alemanha, da França, da Grã-Bretanha, etc, etc - encabeçou e dirigiu a acção contra-revolucionária que viria a liquidar a Revolução de Abril e a recolocar Portugal nas mãos do capitalismo nacional e internacional.
E é por isso que os propagandistas ao serviço do grande capital lhe chamam «pai da democracia».

Vem isto a propósito de um anúncio - que acabei de ler na revista do Círculo dos Leitores - a um livro de Mário Soares: «Um Mundo em Mudança».
É claro que quem diz «mudança» diz Obama e quem diz Obama diz... Soares - e, de facto, lá estão eles na capa do livro anunciado: em cima à direita, Soares, de bochechas; e em baixo, à esquerda, Obama, de sorriso.

Sobre o livro, diz o anúncio que Soares «deposita a sua confiança na capacidade política de Barack Obama para conduzir e liderar não só os Estados Unidos, mas também o mundo, em direcção uma nova era»...

O chefe supremo do imperialismo a liderar o mundo: eis o grande sonho de Soares, o sonho maior de toda a sua vida, o objectivo principal de toda a sua actividade.
É por isso que os propagandistas ao serviço do grande capital têm instruções para lhe chamar «pai da democracia».

POEMA

NOME DE FLOR


Liberdade.
Um nome
de flor
ou de voar.
A gota
em qualidade
de suor
que apaga a fome

e se põe a cantar.


Mário Castrim

SÓ NÃO PERCEBE QUEM NÃO QUER

Organizadamente, os média do grande capital prosseguem a operação de silenciamento sobre a situação nas Honduras.
Lendo, ouvindo, vendo os jornais, as rádios e as televisões... as Honduras não existem, nada se passa naquele país onde há cerca de três meses, um golpe de estado, levado a cabo por forças reaccionárias apoiadas pelo Governo de Obama, depôs o Presidente Manuel Zelaya e o seu Governo e impôs um governo reaccionário composto por lacaios do imperialismo norte-americano.

Sublinhe-se que o único jornal nacional que informa e exprime opinião sobre as Honduras - inequivocamente contra os golpistas e inequivocamente com o povo hondurenho em luta - é o Avante! («o jornal que dá o nome à Festa», também ela alvo de uma organizada operação de silenciamento por parte dos média do grande capital...)

No entanto, apesar de silenciada, a luta do povo hondurenho não pára, pelo contrário: todos os dias, por todo o País, prosseguem as diversificadas acções exigindo a reposição da democracia ali onde agora impera a democracia made in USA
No fim de semana passado, ocorreram poderosas manifestações em Tegucigalpa e em todas as principais cidades hondurenhas.
Na quinta-feira iniciou-se uma greve geral de 48 horas no sector estatal, convocada pelas três centrais sindicais das Honduras. Para amanhã, estão previstas novas manifestações e caravanas.
E tudo indica que assim continuará a ser até que os golpistas sejam derrubados e presos - ou entregues ao seu patrono Obama.
Entretanto, foi anunciado que o Presidente Manuel Zelaya, usará da palavra na Assembleia Geral da ONU, no próximo dia 23 - e ontem o Presidente da Nicarágua, Daniel Ortega dirigiu-se à comunidade internacional sublinhando ser seu dever e sua batalha prioritária o restabelecimento da ordem constitucional nas Honduras.

Isto enquanto, o Governo Obama - que nos primeiros dias fingiu, hipocritamente, condenar o golpe, e, hipocritamente, declarou a suspensão de toda a cooperação militar com o governo golpista - mostra a sua verdadeira face e anuncia manobras militares conjuntas com as forças armadas dos golpistas.

Sempre a mostrar o que é, o Governo de Obama declarou publicamente que os direitos humanos são respeitados na Colômbia do narcofascista Uribe.
Tal declaração era indispensável para que o Congresso dos EUA aprovasse os fundos para o Plano Colômbia, ou seja: para, a partir das sete bases militares dos EUA na Colômbia, desenvolver a prevista operação terrorista contra os países que, na América Latina, ousaram libertar-se das garras do imperialismo norte-americano.
É, aliás, neste contexto que se explica o apoio de facto do Governo dos EUA ao golpe fascista das Honduras.

E tudo se torna mais claro, se tivermos em conta que, com a ocupação consentida da Colômbia, este país está em vias de se transformar no Israel da América Latina - e que Israel foi, até agora, o único país que reconheceu o governo golpista das Honduras...

Face a tudo isto, é fácil perceber a operação de silenciamento da situação nas Honduras por parte dos média propriedade do grande capital...
Só não percebe quem não quer.

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA INSCRIÇÃO A LÁPIS EM CAXIAS



«Encontramo-nos
nesta sala
setenta e dois camponeses
do Couço
e de Montemor.
Sempre
sempre nos demos
como irmãos.

Vocês devem continuar
a fazer o mesmo.»


Mário Castrim

O ESTADO DA VISÃO

A Visão está preocupada com o voto dos portugueses.
Ou seja: a Visão quer que os portugueses votem e votem bem no dia 27.
Explicando melhor: a Visão acha que «as eleições» são um tempo de «escolhas» e que as «escolhas» devem ser reflectidas, pensadas, de modo a que o voto seja bem «decidido».
Para isso, a Visão ensina que é preciso «olhar, de forma o mais objectiva possível, para o país que temos e para o percurso que fizemos ao longo dos últimos tempos. E, em especial, dos últimos quatro anos».
Como se vê, não há melhor forma de ensinar as pessoas a votar bem do que, de forma objectiva, desviar-lhes a atenção daquela que é a questão central destas eleições, a saber: que PS e PSD (às vezes com o CDS/PP) estão no Governo há 33 anos, tempo e mais do que tempo para mostrarem, ambos, que não prestam.

Para melhor ensinar os seus leitores a votar bem, a Visão produziu e ofereceu-lhes (por 2,85 euros) um «especial de 40 páginas» sobre «O Estado da Nação»: dados e mais dados, números e mais números, que o Director, Pedro Camacho, sintetiza enaltecendo «as reformas consideráveis, de substância», as «reformas de bandeira», realizadas por Sócrates: «na Saúde, na Educação, na área do Trabalho, na Justiça, na Segurança Social, na Energia».O mal todo está em que, ensina o Director, o Governo «não soube explicar à sociedade» as imensas bondades dessas reformas.
E assim, «a sociedade» não percebeu que, com essas reformas, o Governo lhe estava a abrir as portas do Paraíso - e ignorante e ingrata, concluiu que era o Inferno que estava a entrar portas dentro...

Com tais ensinamentos, não há leitor da Visão que não fique a saber como votar bem...

Registe-se ainda que também para a Visão, a Festa do Avante! não existiu: nas suas 172 páginas, aí incluídas as 32 dedicadas a espectáculos, etc, não há uma linha dedicada ao maior acontecimento cultural, artístico, político, de massas, realizado em Portugal.
Este silenciamento é tão significativo como o barulho das 40 páginas sobre «O Estado da Nação» - e ambos mostram, a quem quiser ver, o estado da Visão...

POEMA

ALENTEJO


O camponês alargou o braço
à cintura redonda da distância.

As palavras que tinha
subiam da cisterna da memória
encontraram a saliva na boca
todas se desfizeram na saliva.

Depois, José Luís cuspiu-as para a terra
brandamente
como se entregasse um filho
a sua mãe.


Mário Castrim

A FESTA DO LIVRO

A Festa do Livro é marcada, todos os anos, pelo lançamento de vários livros - que vale a pena comprar e ler.
Um dos livros lançados este ano - da autoria de António Gervásio - diz em título e demonstra com fotos e textos que «A Reforma Agrária é Necessária».

As cerca de trezentas fotografias, complementadas com textos de Álvaro Cunhal e de António Gervásio, contam-nos a história da Reforma Agrária:
o tempo negro do fascismo, em que A Terra a quem a Trabalha era um sonho que alimentava a luta heróica do proletariado rural do Sul contra o latifúndio sustentáculo do fascismo;
o tempo luminoso da Revolução de Abril, em que, sempre através da luta, esse sonho se concretizou e produziu a mais bela conquista da Revolução;
o tempo sombrio da brutal ofensiva contra-revolucionária, em que, não obstante a corajosa resistência dos trabalhadores, as forças reaccionárias - encabeçadas pelo PS/Mário Soares e pelo PPD/Sá Carneiro/Cavaco Silva - destruíram a Reforma Agrária, impondo o passado ali onde o futuro estava a ser construído.
E concluem: a Reforma Agrária, com a entrega da Terra a quem a trabalha ou a queira trabalhar, é necessária, porque ela é parte integrante e indispensável da Democracia.

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DA CAMPANHA DOS 50 MIL CONTOS



Os camaradas de Portimão foram ao mar
por sua conta. Chegaram de madrugada
melhor dizendo: de manhã.

Os camaradas meteram o peixe
em grandes selhas. Escamaram,
estriparam, escalaram,

levaram os caldeirões ao lume
sopraram o lume
levantavam as tampas de quando em quando.

Sabiamente cortaram
sardinhas, lulas, polvo, tamboril,
ruivo, raia, safio.

Os camaradas salgaram, temperaram, provaram
de colher na boca, os olhos longe,
à procura do gosto perfeito dos séculos.

Os camaradas traziam os pratos que as companheiras
repartiam ponderadamente
com a ciência das velhas mães.

Os camaradas vieram servir à mesa
deixavam os pratos, levavam as senhas
perguntavam: está bom ou não está, camarada?

Os camaradas ficaram a fazer as contas.
Os camaradas ficaram a arrumar a casa.

Alguns camaradas adormeceram durante o Canto Livre.


Mário Castrim

Oscar David Montesinos

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA LÁGRIMA


Nós, comunistas,
não habitamos
o deserto
nunca.

Há sempre
alguma coisa
alguém
uma palavra
uma canção
um nome
que de repente
se transforma em lágrima.

A lágrima
ao sol
é um pequeno punho
de cristal.


Mário Castrim

POR ISSO

A Festa é o Partido.

Por isso, era o Partido que ali estava - o Partido da Juventude, da Esperança e do Futuro.
Por isso, na Festa, a Juventude é esperança, a Esperança é futuro e o Futuro é certeza.
Por isso, a cidade que é a Festa é a «Cidade perfeita no País imperfeito».
Por isso, milhares de não-comunistas se encontram na Festa dos comunistas, construída por comunistas, e ali se sentem como se estivessem em suas casas.
Por isso, quando Jerónimo de Sousa, na tribuna do Palco 25 de Abril, disse que «Somos o que somos e o que queremos ser - um Partido Comunista digno desse nome», a multidão de comunistas e não-comunistas entendeu e aplaudiu.

Por isso - porque é o Partido - a Festa é indestrutível.
Por isso - porque é obra do ideal comunista - é a Festa da Juventude, da Esperança e do Futuro.

Por isso, NÃO HÁ FESTA COMO ESTA!

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UMA TIPOGRAFIA CLANDESTINA


Gritar Liberdade, é fácil
quando existe liberdade.
É fácil defender a liberdade de expressão
num off-set sofisticado
com ar condicionado, telex, telefones,
salário, hora para almoço, avales bancários,
protecção das leis e do governo,
amplas janelas para o Sol, quebrado
por estores de alumínio, docemente.

Assim
ser pela liberdade de expressão
é cómodo e é fácil.

Mas do que estou a falar é doutra coisa.
Se entendeste, o poema está cumprido.
Se não, o poema espera
com a paciência tradicional de todos os poemas.


Mário Castrim

QUE GRANDE!...

Mário Soares prossegue a tarefa - bem remunerada, presumo - de preencher, todas as terças-feiras, uma página do Diário de Notícias - a confirmar que os média do grande capital dão espaço e pagam bem a quem serve os interesses dos seus donos.
Nesses textos de Soares, os temas abordados são sempre três. Isto é: um. Melhor dizendo: três em um. A saber: a defesa do capitalismo; a defesa da política de direita; a defesa do PS como o mais eficaz executante dessa política.
Isto numa prosa trapalhona, sebenta, aporcalhada, sempre tendo como música de fundo a banda sonora de arrotos à democracia, à liberdade e aos direitos humanos made in USA.

Ontem, Soares escreveu sobre as eleições legislativas.
Trata-se de um texto de propaganda à política de direita praticada pelo PS/Sócrates.

Assim, começa por garantir
- que «o eleitorado já percebeu que só tem duas alternativas: o PS ou o PSD»;
- que «a escolha é entre o PS (Esquerda democrática) e o PSD (Direita ou Centro-Direita);
- que o resto é tudo «voto de protesto ou voto ideológico-partidário? que não conta para nada;
- que quem não votar no PS/Sócrates está a fazer o jogo da «direita»...

A seguir, Soares desencabresta numa galopada de elogios a Sócrates: à sua «inteligência», à sua «tolerância», à sua «moderação», ao seu «conhecimento da realidade nacional», à sua «combatividade, coragem e determinação», e compara Sócrates, o seu herói nacional, a Obama, o seu herói internacional...

Finalmente, depois de todos estes apelos ao voto no PS/Sócrates, Soares faz o que se julgava impossível nele: superando-se a si próprio em descaro e em desvergonha, termina assim:
«Os leitores sabem que não sou incondicional de ninguém. Nunca fui. Não o sou de Sócrates. Digo-o em consciência e como observador atento e à distância».

Que grande aldrabão! Que grande parlapatão! Que grande pantomineiro!
Que grande!...

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DE UM COMÍCIO


O sol em chapa ou o aperto da sala.
O camarada que fala
a pesar as palavras numa balança de precisão
multiplicada cem mil vezes a atenção.
O comício é muito importante.
Vezes sem conta dissemos PCP.
Comprámos o emblema, o autocolante.
Gritámos as palavars de ordem correctas
e ainda outras que enfim...
A nossa força torna-se evidente, real.
A nossa consciência sabe melhor porquê.
Cantar o «Avante», mesmo desafinado
mas em coro, levanta-nos o moral.

Os camaradas que ficaram de vigilância
aos Centros de Trabalho, aguardam ansiosos
que venha alguém: «Correu tudo bem?
Estava cheio?, Não houve novidade?»

Ouvem tudo, recolhem dos nossos gestos
o eco da alegria. À sua guarda
o Centro de Trabalho é uma enorme colmeia.


Mário Castrim

A mais bonita Festa!



às nove e meia da manhã aljustrel estava vestida de gala para receber a alegria matinal do manel. o meu amigo aguardava-me com alegria pueril. os seus olhos - velhos e cegos - estavam plenos de luminosidade talvez só explicável pelo reflexo vermelho do nosso sonho comum! a viagem até ao seixal foi feita entre cantorias e animadas conversas, entre amigos que sabiam ser aquele domingo um domingo diferente, mais belo, mais cheio de abril e maio ainda que setembro, mais profundo na funda comoção de dois amigos que rumavam à mais bonita festa do mundo! à entrada, parecia que a cadeira de rodas tinha ganho meia tonelada, de repente, tamanha a ânsia que transportávamos na garganta, de tanto e tanto querer ver, cá de cima, as pessoas, as bandeiras, a beleza de um ideal materializado no trabalho e dedicação que fez erguer - junto com o mais justo ideal - a mais bonita festa do mundo! passeámos, rimos, comovemo-nos juntos. almoçámos junto de milhares e milhares de camaradas. à hora do lanche, juntou-se-nos o meu irmão tiago e um amigo de infância. Logo houve abraços e festas, e o sorriso transbordante do manel, quando nos dizia: vocês são excelentes criaturas! Somos todos manel, meu querido amigo. São assim os comunistas, como bem prova o mais bonito símbolo, prova de união de operários e camponeses. Antes do comício, da grandiosa e fenomenal carvalhesa, o meu irmão, entre duas imperiais, ofereceu-te um pin onde em letras nós materializamos o sonho. PCP. colocaste-o na lapena, no bolso onde, minutos depois, iria habitar o rubro de um cravo! rente à noite comemos uma sopa de peixe em Santarém. quando entrámos para o carro, para o regresso que adiámos enquanto pudemos, disseste-me: antónio, muito obrigado. Devolvendo-te as lágrimas disse-te obrigado eu! muito sinceramente manel, meu amigo lindo e velho, obrigado eu!
esta foi, esta é, a mais bonita festa do mundo!

POEMA

VIAGEM ATRAVÉS DA FESTA


Reivindicamos a alegria.
Reivindicamos as canções de liberdade.
Reivindicamos a música ordenadora do universo.
Reivindicamos as mãos dadas dos amantes.
Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas.
Reivindicamos as pontes tranquilas.
Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis.
Reivindicamos a palavra, o poema, o livro.

Reivindicamos a festa.
Reivindicamos esta arma.


Mário Castrim

Com esta «Viagem através da festa», o Cravo de Abril inicia a publicação de um conjunto de poemas de Mário Castrim, publicados em dois pequenos livros - «Viagens» e «Nome de Flor» - editados por ocasião das Festas do Avante! de 1977 e 1979, por iniciativa da «célula dos trabalhadores da Renascença Gráfica/Diário de Lisboa».
É a nossa homenagem - pequena, modesta, simples, mas feita de muita amizade, camaradagem e admiração e, por isso, nascida no fundo do coração - ao grande escritor, poeta, cronista, homem da cultura e militante comunista que foi o Mário Castrim.

FOI BONITA A FESTA, PÁ!

Pode dizer-se, mesmo - e sem receio de errar - que foi a mais bonita e a maior de sempre.
E também sem receio de errar, pode dizer-se que mais bonita e maior do que a Festa do Avante!/2009, só... a Festa do Avante!/2010.

Quem lá esteve, viu como foi.
Quem lá não esteve, e tenha procurado saber, pelos jornais (Público, Diário de Notícias, Jornal de Notícias e Correio da Manhã) o que foi a Festa, saberá apenas que a Festa do Avante! foi... um local onde o secretário-geral do PCP fez dois discursos, um na abertura outro no encerramento.
E mesmo sobre esses discursos - aos quais é dado, regra geral, muito menos espaço do que aos comícios do PS, do CDS e do BE - ficar-se-á a saber que, no de abertura, estavam «centenas de pessoas empunhando bandeiras do PCP e da CDU» e que, no de encerramento, «a multidão que encheu o campo defronte do Palco 25 de Abril reagiu obedientemente às palavras de Jerónimo de Sousa»...

Sobre a Festa do Avante! - a Gala da Ópera, os espectáculos diversificados realizados nos diversos palcos, a Exposição de Artes Plásticas, o Teatro, as actividades desportivas, os debates, as exposições, a alegria, o ambiente de convívio a confirmar que «a Festa do Avante! é o espaço com maior índice de fraternidade por metro quadrado existente em Portugal»... sobre isso, nada disseram os referidos jornais, remetendo-se a um silêncio tão unânime que dir-se-ia ter sido decidido por um qualquer serviço de censura...
Silenciando assim o maior acontecimento político, cultural, artístico, convivial, de massas realizado no nosso País, esses jornais - cujos directores não se cansam de exaltar a «liberdade de informação» existente... - exibiram a sua verdadeira dimensão enquanto órgãos de informação.

Mas, para raiva deles, foi bonita a Festa, pá!