POEMA
FRENTE A FRENTE
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.
Eugénio de Andrade
FRENTE A FRENTE
Nada podeis contra o amor.
Contra a cor da folhagem,
contra a carícia da espuma,
contra a luz, nada podeis.
Podeis dar-nos a morte,
a mais vil, isso podeis
- e é tão pouco.
Eugénio de Andrade
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Fernando Samuel
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30.3.09
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REJEITO
Não me engraxem os sapatos
nem me cortem o cabelo.
A barba já me cresceu
com pujança.
Os meus farrapos revelam
que sou um homem livre.
Quando percorro os atalhos
vencido pelo desalento,
ouço os homens que ladram
pela boca dos seus cães.
Hoje vomitei
as côdeas que me deram.
A esmola dava-me volta
ao estômago e deixava-me
um gosto amargo na boca.
Por caminhos de tojos
empreendi o meu exílio.
Caminho pelo mundo fora...
e o regresso agarra-se-me
aos pés doridos
e aos braços que se descerram
numa ânsia de abraçar.
Porém rejeito o preço
que me querem impor
estes homens que ladram
pela boca dos seus cães.
Félix Cucurull
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Fernando Samuel
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29.3.09
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CANDIDATO CAÔ CAÔ
Ele subiu o morro sem gravata
dizendo que gostava da raça, foi lá
na tendinha e bebeu cachaça, e até
bagulho fumou
Foi no meu barracão, e lá
usou lata de goiabada como prato,
eu logo percebi
é mais um candidato
às próximas eleições
às próximas eleições
às próximas eleições
Fez questão de beber água da chuva
foi lá na macumba e pediu ajuda
bateu a cabeça no gongá, «deu azar»...
A entidade que estava incorporada
disse: «Esse político é safado,
cuidado na hora de votar
Meu irmão se liga
no que lhe vou dizer
hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe bater
Meu irmão se liga
no que lhe vou dizer
hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe prender
Hoje ele pede seu voto
amanhã manda a polícia lhe bater.
Eu falei p'ra você, viu?»
Nesse país que se divide
em quem tem e quem não tem
sempre o sacrifício cai no braço do operário.
Eu olho para um lado
eu olho para o outro
eu vejo desemprego
vejo quem manda no jogo.
E você vem, vem
pede mais de mim
diz que tudo mudou
e agora vai ter fim
Mas eu sei quem você é
e ainda confio em mim
sei que o jogo é sujo
mas eu não desisto assim.
Você me deve
você me deve.
Hoje ele pede, pede, pede de você
amanhã ele vai, vai, vai te foder
hoje ele pede, pede, pede de você
amanhã ó!
Walter Meninão
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28.3.09
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PRINCÍPIO
ERA uma vez...
... é uma história sem feiticeiras,
sem sapatinhos que se perdem e se encontram;
sem reis, sem princesas,
sem Ilhas Afortunadas.
Talvez toda, talvez em parte
se pareça com outras histórias que alguém sabe,
histórias repetidas em voz baixa
porque estamos na hora do medo,
na hora do silêncio...
Também eu tenho de calar-me;
há gente de mais a ouvir.
Félix Cucurull
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Fernando Samuel
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28.3.09
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OUTRA VEZ
Tanto na minha língua como na dos vizinhos
há sempre mentirosos, exploradores mesquinhos.
Estendem-te armadilhas, dizem-te patranhas,
os que falam como tu e os de falas estranhas.
Serás porém injusto, quando alguém te explora
tornando a tua fome assustadora,
se pensares que todos os da mesma língua
comem o que é teu para morreres à míngua.
Se te enganam hoje em bom catalão,
pensa que há mais gente, pronta a dar-te a mão,
amanhã e aqui, ou noutros países,
com palavras doces ou de ásperos matizes.
E para acabar esta lengalenga,
não consintas nunca que ninguém te prenda
o chocalho oco dos mansos carneiros
que pastam o tojo no pó dos outeiros:
para os rebanhos há uma só linguagem:
pontapé que ferve, pancada selvagem.
Félix Cucurull
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Fernando Samuel
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26.3.09
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PROCURA
Não conheces o caminho,
mas apenas a angústia
do estômago vazio
e as promessas
que jamais se cumprem.
Sabes de cor
o que te dirão amanhã.
Não sei se ainda escutas.
Talvez tenhas uma vaga esperança
e queiras acreditar nos homens.
Não conheces o caminho
mas apenas a angústia
de todas as mentiras:
as dos outros, as tuas.
Tens o estômago vazio
e nem sequer te resta
a coragem de seres livre.
Não conheces o caminho,
mas apenas a angústia
de não confiar nas mãos que se te estendem.
Tens o estômago vazio
e aprendeste
que terás de esvaziar também o cérebro de sonhos.
Não conhecemos o caminho
porque são demasiadas
as estradas falsas
que os homens abriram.
E agora mete-nos medo a miragem...
Mas as fontes estão certas,
chega-me aos ouvidos
o murmúrio da água.
(E do sangue que vai marcando as sepulturas
dos que ousaram ser audazes de mais.)
Félix Cucurull
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26.3.09
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Fernando Samuel
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25.3.09
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BAILE DE MÁSCARAS
Quando o senhor comendador entrou no salão
com a condecoração de mérito industrial,
toda a gente lhe queria dar o prémio
da melhor fantasia daquele Carnaval.
Raúl Castro
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Fernando Samuel
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25.3.09
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AMARGO ESTILO NOVO
Tudo é fácil quando se está brincando com a flor entre os dedos,
quando se olham nos olhos as crianças,
quando se visita no leito o amor convalescente.
É bom ser flor, criança, ou ser doente.
Tudo são terras donde brotam esperanças,
pétalas, tranças,
a porta do hospital aberta à nossa frente.
Desde que nasci que todos me enganam,
em casa, na rua, na escola, no emprego, na igreja, no quartel,
com fogos de artifício e fatias de pão besuntadas com mel.
E o mais grave é que não me enganam com erros nem com falsidades
mas com profundas, autênticas verdades.
E é tudo tão simples quando se rola a flor entre os dedos!
Os estadistas não sabem,
mas nós, os das flores, para quem os caminhos do sonho não guardam segredos,
sabemos isso e todas as coisas mais que nos livros não cabem.
António Gedeão
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Fernando Samuel
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24.3.09
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O FUTURO
Isto vai meus amigos isto vai
um passo atrás são sempre dois em frente
e um povo verdadeiro não se trai
não quer gente mais gente que outra gente.
Isto vai meus amigos isto vai
o que é preciso é ter sempre presente
que o presente é um tempo que se vai
e o futuro é o tempo resistente.
Depois da tempestade há a bonança
que é verde como a cor que tem a esperança
quando a água de Abril sobre nós cai.
O que é preciso é termos confiança
se fizermos de Maio a nossa lança
isto vai meus amigos isto vai.
José Carlos Ary dos Santos
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23.3.09
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Fernando Samuel
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23.3.09
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COBARDIA
E não diz a palavra!
Já não consegue a pura claridade
da raiva que se exprime
num grito que trespassa o firmamento!
Parafraseia a dor, como um pinheiro
que tem medo do vento
e se torce na duna, horizontal, rasteiro,
a enrodilhar a voz do sofrimento.
Filho do instinto,
perdeu a força heróica de arrancar
o aço do punhal que o atravessa.
Morre por não ter pressa
de se salvar!
Miguel Torga
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Fernando Samuel
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22.3.09
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SOMOS TODOS POETAS
Por que não queres os versos que te nascem
como rebentos pelo tronco acima?
Por que não queres a inesperada rima
dos sentimentos?
Olha que a vida tem desses momentos
que se articulam numa cadência
tão imprevista,
que é uma conquista
da consciência
não ser um túnel de negação...
Brotam as folhas que são precisas
e outras folhas que o não são.
Miguel Torga
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Fernando Samuel
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22.3.09
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22.3.09
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COMPANHEIRA DOS HOMENS
A poesia dos senhores que propagam o nevoeiro e confundem as gentes,
poesia tão pessoal como uma escova de dentes,
a poesia que eles queriam guardar nas suas casas
numa gaiola, como um pássaro a quem mutilassem as asas,
a poesia quebrou as algemas e saiu da prisão
e arrastou-se nas trincheiras, e dormiu nos campos de concentração,
e amou aqueles que negam mas que nunca se negaram,
e conheceu prostitutas que nunca se entregaram,
e comeu na malga dos soldados aquela sopa de massa
que é igual para todos como o pré e a desgraça.
E os homens aprenderam nas noites de inclemência
a cantar os seus versos, a recitá-los de cor,
e a murmurá-los nessas horas em que tudo é confidência
e em que cada palavra ganha uma ressonância maior.
Sidónio Muralha
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Fernando Samuel
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21.3.09
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Fernando Samuel
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ENCORAJAMENTO
...E a poesia lá vai - tão amada e detestada -
livre, como se marchasse nua contra o vento,
vai levar aos que se cansam da longa caminhada
a água pura e fresca do encorajamento.
E ela lá vai... Lá vai, e luta, quer queiram ou não,
contra a lassidão e a doença do sono,
e a quem tiver sede oferece a canção
do futuro sem grades e dos homens sem dono.
Sidónio Muralha
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Fernando Samuel
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21.3.09
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Fernando Samuel
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20.3.09
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POIS
O respeitoso membro de azevedo e silva
nunca penetrou nas intenções de elisa
que eram as melhores. Assim tudo ficou
em balbúrdias de língua cabriolas de mão.
Assim tudo ficou até que não.
Azevedo e silva ao volante do mini
vê elisa a ultrapassá-lo alguns anos depois
e pensa pensa com os seus travões
Ah cabra eram tão puras as minhas intenções.
E a elisa passa rindo dentadura aos clarões.
Alexandre O'Neill
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Fernando Samuel
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18.3.09
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Fernando Samuel
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O MACACO
Nunca se sabe
até que ponto
um macaco pode chegar
na ânsia de nos imitar.
Dizem alguns autores
ser o macaco
difícil de apanhar
- mas não.
Em qualquer
mundana
reunião
num ombro
numa frase
num olhar
no jeito "humanista"
de falar
aí temos o macaco
a trabalhar
procurando
aproveitar a confusão.
Pessoalmente
sou de opinião
que o macaco
é fácil de caçar
até à mão.
Alexandre O'Neill
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Fernando Samuel
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18.3.09
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Fernando Samuel
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18.3.09
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O NOVO MANDAMENTO
Está criado
o novo mandamento. Aos pássaros
dirás: não cantareis; às flores:
não florireis. E florirão
as bombas. E morrerão
as pombas. E ao sangue
dirás: rio
serás. E sobre
os escombros erguerás
o homem novo, o seu cadáver, desenharás
a ferro e fogo o mapa
do luto e das lágrimas. E imporás,
enfim,
a liberdade. A liberdade
do terror e das armas. A liberdade
para matar.
Albano Martins
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Fernando Samuel
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16.3.09
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Fernando Samuel
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16.3.09
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PARA BELLUM
Protestos, livros, poemas, sacrifícios,
a história analisada e desmascarada; a paz
e não a guerra desde sempre a guerra.
É velho tudo isto. Há malandros
para ganhar com as guerras, há patriotas
para mandar os outros morrer nelas, há
heróis ou não heróis que morrem nelas,
há multidões para serem massacradas.
Eu protesto, tu protestas, ele protesta, etc.
E nada muda, ou muda para mais.
Antigamente, os faraós ao contar os mortos inimigos
(nunca os próprios mortos) exageravam - evidente.
Hoje, os comunicados cometem sempre esse exagero
(e a mesma distracção discreta). Mas há sempre
humanidade com vocação para matar e multidões
com vocação vacum para cadáver.
E neste cheiro a podre milenário - vale a pena
sequer dizer que são filhos da puta?
Jorge de Sena
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Fernando Samuel
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16.3.09
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Fernando Samuel
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16.3.09
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NOVA VASSALAGEM
Subitamente os periódicos, a rádio,
propõem virilmente a indignação.
Doloroso é o instante em que a fissura
ameaça a ordem, abala a tradição,
golpeia a calma espessa que sugere
falsamente uma paz.
É preciso de novo, é necessário
confirmar.
Aqui, além, os esteios reúnem.
Falam do tempo, dos seus vários comércios;
pesam o valor do susto que os ronda.
Redigem o impresso, a anestesia. Assinam
em rigorosa ordem hierárquica.
O telegrama parte.
Egito Gonçalves
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Fernando Samuel
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15.3.09
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15.3.09
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O PROGRESSO DAS CIÊNCIAS
Conseguiram encerrar o vento,
retirar a pouco e pouco o ar
e - maravilha! - o povo
resiste ainda e vive.
A asfixia é lenta e os que morrem
parecem ir de morte natural.
Hoje porém os sábios consideram
enganosa essa fórmula que reduz
o paciente à condição de peixe triste.
Pois no repouso fictício a onda
aguarda o luar da maré cheia.
Nas manhãs da terra
as manchas de sangue ganham punhos;
a viva carne cobre o inesperado.
Egito Gonçalves
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Fernando Samuel
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13.3.09
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Fernando Samuel
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13.3.09
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«MORRA O BISPO E MORRA O PAPA»
Morra o bispo e morra o papa,
maila sua clerezia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram frades, morram freiras,
maila sua virgaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só terra bebia!
Morra o rei e morra o conde,
maila toda fidalguia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram meirinho e carrasco,
maila má judicaria.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra quem compra e quem vende,
maila toda a usuraria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morram pais e morram filhos,
maila toda filharia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morram marido e mulher,
maila casamentaria.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Morra amigo, morra amante,
mailo amor que se perdia.
Ai rosas de sangue e leite,
que só a terra bebia!
Morra tudo, minha gente.
Vivam povo e rebeldia.
Ai rosas de leite e sangue,
que só a terra bebia!
Jorge de Sena
Por
Fernando Samuel
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12.3.09
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Fernando Samuel
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12.3.09
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COMBOIO AFRICANO
Um comboio
subindo de difícil vale africano
chia que chia
lento e caricato
Grita e grita
quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou
Muitas vidas
ensoparam a terra
onde assentam os rails
e se esmagam sob o peso da máquina
e no barulho da terceira classe
Grita e grita
quem esforçou não perdeu
mas ainda não ganhou
Lento caricato e cruel
o comboio africano...
Agostinho Neto
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Fernando Samuel
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12.3.09
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O IÇAR DA BANDEIRA
(poema dedicado aos Heróis do povo angolano)
Quando voltei
as casuarinas tinham desaparecido da cidade
E também tu
Amigo Liceu
voz consoladora dos ritmos quentes da farra
nas noites dos sábados infalíveis
Também tu
harmonia sagrada e ancestral
ressuscitada nos aromas sagrados do Ngola Ritmos
Também tu tinhas desaparecido
e contigo
os Intelectuais
a Liga
o Farolim
as reuniões das Ingombotas
a consciência dos que traíram sem amor
Cheguei no momento preciso do cataclismo matinal
em que o embrião rompe a terra humedecida pela chuva
erguendo planta resplandecente de cor e juventude
Cheguei para ver a ressurreição da semente
a sinfonia dinâmica do crescimento da alegria nos homens
E o sangue e o sofrimento
eram uma corrente tormentosa que dividia a cidade
Quando eu voltei
o dia estava escolhido
e chegava a hora
Até o rio das crianças tinha desaparecido
e também vós
meus bons amigos meus irmãos
Benge, Joaquim, Gaspar, Ilídio, Manuel
e quem mais?
- centenas, milhares de vós amigos
alguns desaparecidos para sempre
para sempre vitoriosos na sua morte pela vida
Quando eu voltei
qualquer coisa gigantesca se movia na terra
os homens nos celeiros guardavam mais
os alunos nas escolas estudavam mais
o sol brilhava mais
e havia juventude calma nos velhos
mais do que esperança era certeza
mais do que bondade era amor
Os braços dos homens
a coragem dos soldados
os suspiros dos poetas
Tudo todos tentavam erguer bem alto
acima da lembrança dos heróis
Ngola Kiluanji
Rainha Ginga
Todos tentavam erguer bem alto
a bandeira da independência.
Agostinho Neto
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Fernando Samuel
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11.3.09
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11.3.09
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FULMINADOS DE ESPANTO
Fulminados de espanto
ensinam:
sempre assim foi
há-de ser sempre assim
Da saudade aberta como gume
na cinza que era fogo
e que perderam
da própria cobardia receada
nada dizem
Ensinam
o denso labirinto do seu tédio
Rui Namorado
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Fernando Samuel
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10.3.09
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10.3.09
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COROAI-ME DE ESPINHOS...
Lírios, já não, que me parecem luzes
de luto.
Rosas, pior,
que são a burguesia
das flores
no apogeu.
Tojos arnais, apenas.
Cilícios vegetais
sobre a fronte de quem
tem nojo das carícias do presente.
Tojos arnais, até que possa alguém
ser poeta e ser gente.
Miguel Torga
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Fernando Samuel
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10.3.09
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AQUELE QUE SE SENTOU À PORTA DO TEMPO
Aquele que se sentou à porta do tempo
e deixou dormir o pensamento sobre a relva
em demasia confiante ou desenganado
aquele que se sentou estupidamente no tempo
e o deixou escorrer irremediavelmente entre os dedos
como velha adormecida no outono
honestamente aproveitou o oásis
alheio ao decorrer das caravanas
no livro dos povos ficará
com o prolongamento dos tiranos.
Rui Namorado
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Fernando Samuel
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9.3.09
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Fernando Samuel
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ELAS
(excerto)
Elas fizeram greves de braços caídos
Elas brigaram em casa
para ir ao Sindicato e à Junta
Elas gritaram à vizinha que era fascista
Elas souberam dizer
salário igual e creches e cantinas
Elas vieram para a rua de encarnado
Elas foram pedir para ali
uma estrada e canos de água
Elas gritaram muito
Elas encheram as ruas de cravos
Elas disseram à mãe e à sogra que
isso era dantes
Elas trouxeram alento e sopa
aos quartéis e à rua
Elas foram para as portas de armas
com os filhos ao colo
Elas ouviram falar de uma grande mudança
que ia entrar pelas casas
Elas choraram no cais
agarradas aos filhos que vinham da guerra
Elas choraram
de ver o pai a guerrear com o filho
Elas tiveram medo e foram e não foram
Elas aprenderam a mexer nos livros de contas
e nas alfaias das herdades abandonadas
Elas dobraram em quatro um papel
que levava dentro uma cruzinha laboriosa
Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa
a ver como podia ser sem os patrões
Elas levantaram um braço
nas grandes assembleias
Elas costuraram bandeiras e bordaram
a fio amarelo pequenas foices e martelos
Elas disseram à mãe,
segure-me aqui os cachopos, senhora,
que a gente vai de camioneta a Lisboa
dizer-lhes como é
Elas vieram dos arrabaldes
com o fogão à cabeça
ocupar uma parte de casa fechada
Elas estenderam roupa a cantar
com as armas que temos na mão
Elas diziam tu às pessoas com estudos
e aos outros homens
Elas iam e não sabiam para onde, mas iam
Elas acendem o lume
Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado
São elas que acordam pela manhã as bestas,
os homens e as crianças adormecidas.
Maria Velho da Costa
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Fernando Samuel
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8.3.09
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É traço de união
E crítico mordaz
Espelho da convicção
Fruto da Revolução
Interveniente pela paz
Exímio a analisar
As manobras capitalistas
Certeiro a denunciar
Os que nos querem tramar
Travestidos de socialistas
É notícia, é informação
Poesia revolucionária
É apelo aos que não
Vislumbram a voz da razão
É uma força libertária
Revolucionário a mobilizar
Convicto e subtil
Eficaz a argumentar
Democraticamente exemplar
Parabéns CRAVO DE ABRIL.
Manangão