POEMA

NATUREZA-MORTA COM FRUTOS


1
O sangue matinal das framboesas
escolhe a brancura do linho para amar.

2
A manhã cheia de brilhos e doçura
debruça o rosto puro na maçã.

3
Na laranja o sol e a lua
dormem de mãos dadas.

4
Cada bago de uva sabe de cor
o nome dos dias todos do verão.

5
Nas romãs eu amo
o repouso no coração do lume.


Eugénio de Andrade

O MEDO MAIOR

De todos os muitos medos que pesam sobre os portugueses, o maior de de todos é o de «perder o emprego».
É o que dizem os resultados de um inquérito levado a cabo pelo Instituto Nacional de Estatística - que informa, ainda, ter este medo atingido o valor mais alto registado nos últimos 23 anos.
Ou seja: com o Governo José Sócrates/PS, os portugueses têm ainda mais medo de «perder o emprego» do que tinham na altura dos governos Cavaco Silva/PSD.

A notícia dá que pensar, não dá?
E dá para perguntar: que raio de democracia é esta em que o medo maior dos cidadãos é o de verem ser-lhes negado o direito ao emprego, o direito ao mais importante de todos os direitos a que o ser humano tem direito?

POEMA

NA VARANDA DE FLORBELA


Aqui cantaste nua.
Aqui bebeste a planície, a lua,
e ao vento deste os olhos a beber.
Aqui abandonaste as mãos
a tudo o que não chega a acontecer.

Aqui vieram bailar as estações
e com elas tu bailaste.
Aqui mordeste os seios por abrir,
fechaste o corpo à sede das searas
e no lume de ti própria te queimaste.


Eugénio de Andrade

A ERA OBAMA

Os EUA têm por hábito publicar todos os anos um «relatório» no qual decretam quem é que respeita e quem é que não respeita os direitos humanos, no mundo.

Também por hábito, os resultados do «relatório» são sempre iguais:
entre os que respeitam os ditos direitos - e que de ano para ano os respeitam cada vez mais... - estão, sempre, todos os países que, de uma forma ou doutra, dizem amén ao imperialismo norte-americano;
entre os que não respeitam os tais direitos - e que de ano para ano os desrespeitam cada vez mais... - estão, sempre, os países que, de uma forma ou doutra, rejeitam o imperialismo norte-americano.

Assim tem sido ao longo dos tempos e dos governos em funções: com Bush-filho-do-pai, com Clinton, com Bush-pai-do-filho, e por aí fora.
Daí as expectativas sobre como iria ser na era da «mudança» agora iniciada por Obama.

Pois bem: chegou o primeiro «relatório» da era Obama, a da «mudança».
E que nos diz ele?: que «o respeito pelos direitos humanos avançou» em países como, por exemplo, o Iraque e a Colômbia; e que «o respeito pelos direitos humanos regrediu» em países como, por exemplo, a Venezuela e Cuba.

Ou seja: respeito pelos direitos humanos tem, para Obama, o mesmo significado que tinha para todos os seus antecessores: é o respeito pelos interesses dos EUA.

POEMA

(E o vento trouxe este coro de presos do Aljube.)


«Houve, Noite:
só nós, os que não acreditamos no céu,
tivemos coragem de gritar a esta carcaça a fingir de vida: NÃO!

Nós, sem morte nem mundo,
para aqui a apodrecer nas tumbas do sol secreto
e a sonhar com um céu para os outros na Terra
que só o ódio vê.

E é esta a nossa guerra.
E é esta a nossa fé.»


José Gomes Ferreira

O CAMINHO

Voltemos à Venezuela.
Para registar o facto notável de o projecto de Hugo Chávez ter saído vencedor em 14 dos 15 actos eleitorais a que foi submetido nos últimos dez anos - mais actos eleitorais do que o total dos realizados em cerca de trinta anos anteriores...
Para registar (e lembrar...) igualmente, que - ao contrário do que propalam os média dominantes em todo o mundo - a imensa maioria dos órgãos de comunicação social venezuelanos são propriedade do grande capital e são, por isso, ferozes opositores da revolução bolivariana, contra a qual desenvolvem uma permanente campanha de terrorismo mediático - campanha que, em tempo de eleições, vai muito para além do habitual vale-tudo, como aconteceu no decorrer do recente referendo.

Assim sendo, quais as razões que estão na origem das sucessivas vitórias eleitorais da revolução bolivariana?
Pedro Campos, no Avante! da semana passada, dá-nos a explicação - uma explicação ligada, naturalmente, aos avanços do processo revolucionário em matéria de preocupações com os direitos e interesses dos trabalhadores e do povo venezuelano.

Assim, nos dez anos de governação de Hugo Chávez:
a pobreza desceu de 49, 4% para 30,2%(dados de 2006) e a pobreza extrema caíu de 21,7 para 7,4% - isto apesar de a greve patronal de 2002/2003 ter travado significativamente esta linha de progresso;
foram criados 4 500 consultórios populares, que combinam cuidados médicos primários e secundários com centros de diagnóstico, reabilitação e tecnologia especializada;
a mortalidade infantil desceu cinco pontos;
a taxa de crianças em idade escolar matriculadas subiu de 44,7% para 60,6% - e no ensino superior subiu de 21, 8 para 30,2%;
o analfabetismo foi erradicado;
o serviço de água potável chega, agora, a 92% da população;
o desemprego baixou para metade do existente há dez anos;
cerca de 14 milhões de pessoas podem comprar alimentos subsidiados pelo governo na rede Mercal;
a economia venezuelana já leva cinco anos consecutivos de crescimento e, medida em dólares, cresceu 526,98 por cento em comparação com 1998.

Estas são algumas das razões - e muitas mais há - que estão na origem das sucessivas vitórias eleitorais da revolução bolivariana.
Razões que evidenciam claramente o conteúdo profundamente democrático do regime venezuelano e que têm na sua origem uma massiva participação popular.
Porque a vertente participativa é a pedra de toque de qualquer democracia, sendo sabido e certo que sem participação popular não há democracia plena.

Aliás, como a nossa experiência nos tem mostrado:
primeiro, com a democracia avançada de Abril - o momento mais luminoso, porque o mais participativo, da nossa história colectiva;
agora, com esta democracia burguesa - de facto, ditadura do grande capital - em que a participação é considerada crime passível de severa condenação.

E tudo isto - a experiência venezuelana e a portuguesa - a mostrar-nos que «sim, é possível!» - e que o desenvolvimento e a intensificação da luta de massas é o caminho para lá chegarmos.

POEMA

CAMPO DE BATALHA


O poeta caminha, sem destino, desesperado,
vagando o olhar sobre as pilhas de cadáveres
- homens que partiram das suas terras para virem
apodrecer aqui, adubo amontoado.

O poeta escreve sobre os mortos! Recorda
as infâncias tão próximas, as lágrimas na estação,
os beijos da família, o abraço dos amigos,
o comboio enfeitado de flores e bandeiras.

Estendidos na planície revolvida
nem moscas nem traições os incomodam.
Uma bomba transformou-os em quietude,
as mãos vazias, os amores parados...

Livres da angústia pela morte,
não sofrerão doenças ou velhice.
Haverá missas pela sua alma
e trigo semeado, em breve, neste solo.

Cada um deles está rígido e perfeito
com direito a um crepe no retrato.
Imperfeita, no conjunto, só a bomba,
mas trabalha-se nela com afinco.


Egito Gonçalves

UMA PEQUENA DIFERENÇA...

Desde que o «caso Freeport» veio a lume, na sua fase actual, tenho-me interrogado com frequência sobre as formas de que se revestirá a (não) resolução do dito.
Imaginei mil e um desenlaces, provavelmente todos de possível concretização, mas nenhum me deixando completamente convencido e satisfeito.

Eis que o Diário de Notícias de hoje apresenta uma solução espectacular!
Reside ela, a solução, naquilo que o DN designa por «uma pequena diferença».
E é assim: de acordo com a Lei, tudo depende de saber se a decisão favorável do secretário de Estado do Ambiente, em 2002, foi lícita ou ilícita.
Porque se a decisão foi lícita, quaisquer crimes de corrupção passiva e activa e de tráfico de influências, já prescreveram.

Depois deste esclarecimento legal, digamos assim, tenho para mim como coisa certa - mais do que certa! - que a decisão foi lícita...


POEMA

ANA E ANTÓNIO


A Ana e o António trabalhavam
na mesma empresa.
Agora foram ambos despedidos.
Lá em casa, o silêncio sentou-se
em todas as cadeiras
em volta da mesa vazia.

«Neo-realismo!» dirão os estetas
para quem ser despedido
é o preço do progresso.

Os estetas, esses, nunca
serão despedidos.

Ou julgam isso, ou julgam isso.


Mário Castrim

OPTIMISMO E LUTA DE MASSAS

Lembro-me de uma história, ocorrida há uns anos atrás - antes, portanto, da actual crise global do capitalismo: numa pequena cidade dos EUA tinha encerrado a empresa onde trabalhava a imensa maioria dos habitantes da cidade, atirando famílias inteiras (praticamente toda a população) para o desemprego e espalhando a angústia em muitos milhares de pessoas.
A solução encontrada por quem de direito (como é uso dizer-se...) foi a de pôr em prática uma campanha de superação colectiva dessa angústia.
A campanha visava instalar o «optimismo» nas famílias desempregadas e sem perspectivas de futuro, e constava da realização de espectáculos gratuitos com a presença de conhecidos cantores e actores que, nos intervalos das suas actuações, gritavam e punham toda a gente a gritar: «Pensa positivo!»
As televisões iam acompanhando e dando notícia sobre os resultados da campanha: no decorrer desses espectáculos e em reportagens de rua, entrevistavam os desempregados e colhiam as suas opiniões que, regra geral, eram... «optimistas», ou seja, apesar de desempregadas e sem perspectivas de emprego à vista, as pessoas já estavam a seguir os conselhos de... quem de direito, ou seja: já estavam a «pensar positivo»...
Com uma excepção: na entrevista a um jovem casal, a rapariga, com ar e voz tristes e com visível sentimento de culpa, confessava: Ele (era o companheiro) já pensa positivo, mas eu ainda não sou capaz, não consigo esquecer que estamos os dois desempregados, que não sabemos quando arranjaremos emprego nem como iremos viver...

Vem esta história a propósito de um texto hoje publicado na revista «notícias magazine», do Diário de Notícias, intitulado «Optimismo... Espírito anticrise». O apelo à leitura do referido texto, destacado na capa da revista, diz assim:
«OPTIMISMO
A depressão generalizada não vai deitar-nos abaixo! A crise não vai levar a melhor! Mexemo-nos, respiramos, amamos e temos muitas razões para sorrir. E não é difícil encontrá-las. A ciência ajuda e dá-nos uma boa notícia: o optimismo cultiva-se! Saiba o que pode fazer para conseguir erguer o espírito anticrise»

Estamos, assim, perante uma versão actualizada da campanha «pensa positivo!».
Neste caso, a grande novidade é a invocação da «ciência»...
Num caso e noutro - quer com a ajuda dos espectáculos gratuitos, quer com a ajuda da ciência - o objectivo dos propagandistas do capitalismo é impedir a todo o custo que as vítimas do capitalismo descubram que só através da luta conseguirão «levar a melhor» sobre a crise...

E que, na situação concreta existente em Portugal, é com uma adesão massiva à luta de massas - designadamente à jornada nacional de luta convocada pela CGTP para o próximo dia 13 de Março - que o verdadeiro optimismo pode triunfar. Porque é a luta de massas que constrói o futuro- e quanto mais forte ela for, mais cedo ele chegará.

POEMA

FIANÇA


Como uma só cara tenho,
tenho uma palavra só.
Quem tem duas faz-me dó,
ou, pior, dele desdenho.
Sabedor de donde venho,
certo de para onde vou,
embora cego de pó,
em me encontrar me entretenho.
Sou senhor de algum engenho
e tenaz também o sou.
E àqueles a quem me dou
em dar-me inteiro me empenho.


Armindo Rodrigues

E AGORA, ANTÓNIO?

Estamos perdidos! Nós, portugueses, e a nossa língua portuguesa: o escritor António Lobo Antunes anunciou, há dias, que deixará de escrever daqui a dois anos!

Como não podia deixar de ser, a notícia deixou o País em verdadeiro e dramático estado de choque. Consta que desde a mais escusa taberna da serra algarvia à mais remota botica do nordeste trasmontano, passando pelas grandes superfícies literárias da Capital, não se fala de outra coisa... - e, em todo o lado, o ambiente vivido é de profunda dor e de sentido pesar.

«Pois é verdade que o António vai deixar de escrever?»
«Infelizmente assim é, para nosso infortúnio e nossa desgraça»
«E agora, que vai ser da língua portuguesa?»
«Sei lá!... só sei que estamos perante uma dramática catástrofe, um horroroso cataclismo, um catastrófico e horroroso tsunami...»
Diálogos como o acima citado - e mesmo mais dramáticos ! - multiplicam-se por toda a Terra Pátria, invadida de pungente pranto.

E é caso para isso.
Senão vejamos: sabemos, porque António - ele mesmo, o próprio - nos disse repetidas vezes que ninguém escreve como ele: «Ninguém escreve assim» - decidiu e mandou publicar, há tempos.
E para que não restassem dúvidas, fez questão de deixar claro que: «Não tenho a menor dúvida de que não há, na língua portuguesa, quem me chegue aos calcanhares».

Pois nem Fernão Lopes, Gil Vicente, Frei Luís de Sousa, António Vieira?...
Não, ninguém chega aos calcanhares do António.

Pois nem Verney, Garrett, Camilo, Eça, Aquilino, Pessoa?...
Tudo isso é peixe miúdo, longe, muito longe dos calcanhares do António.

E Saramago?...
Já cá faltava... sobre esse insignificante António já disse que nunca o leu mas não gosta dele...
Mas é Prémio Nobel, o único, até hoje, da língua portuguesa...
Irra!, António já disse que nem pode ouvir falar nisso e que, esse, esse, esse, esse... nem às redondezas do seus calcanhares chega...

Assim é, de facto: António gosta, absoluta e exclusivamente, de si próprio.
E nesse gostar absoluto e exclusivo gastou todo o seu potencial de gosto...

E agora?: sem António... o que será de António?...

POEMA

ROMPER DO DIA


Não é em vão
que o romper de cada novo dia
se inaugura pelo cantar do galo
denunciando
já de antigos tempos
uma traição.


Brecht

ELES ANDAM POR AÍ...

Todos os dias somos confrontados com uma qualquer das múltiplas modalidades de que é feita a campanha em curso visando o branqueamento e (ou) promoção do fascismo.

A partir do esforço hermenêutico de um rebanho da estoriadores do sistema - os quais se situam politicamente num amplo espaço que vai da extrema (dita) esquerda à extrema (de facto) direita - está concluído e escrito que em Portugal não existiu fascismo: existiu, quanto muito, dizem eles, um regime autoritário, com um chefe género pai severo, que se limitava, de quando em quando, a puxar as orelhas aos filhos mais rebeldes...
E se os estoriadores assim concluem e as suas conclusões são difundidas pelos média dominantes e chegam a todo o lado, inclusive às escolas... quem é que se atreve a questionar tão sábias conclusões?...

Mas a verdade é que tais conclusões facilitam - e de que maneira! - a acção dos grupelhos fascistas, ou neo-fascistas, que com crescente frequência dão sinal de si promovendo as mais diversificadas iniciativas - sempre com a complacência, quando não o estímulo, do regime de política única de direita e dos inevitáveis média propriedade do grande capital ao serviço desse regime - e sempre em violação flagrante da Constituição da República Portuguesa, recorde-se.
Como temos observado, as autoridades - céleres na repressão de trabalhadores em luta; na prisão, julgamento e condenação de dirigentes sindicais ou de jovens da JCP - tratam com cuidados maternais esses grupelhos fascistas que fazem o que querem, quando querem e onde querem.

É o que acontece, agora, com o abaixo-assinado que corre na Internet a exigir que a Ponte 25 de Abril volte a chamar-se Ponte Salazar...
Os promotores da iniciativa estão também a organizar um almoço comemorativo do nascimento do ditador fascista (que ocorreu em 28 de Abril de 1889). No entanto, por razões detectáveis à vista desarmada, decidiram que o almoço se realizaria... no dia 25 de Abril... Em Santa Comba Dão, é claro...

O promotor-mor destas fascistices é um tal «João Gomes, empresário, de 51 anos», que se farta de falar sobre os objectivos da sua acção patriótica...
Diz ele que não deixará que se «apaguem 40 anos de história» - o que só lhe fica bem...;
e que andou na «Mocidade Portuguesa» - lindo menino!... - onde aprendeu «uma série de coisas boas, por exemplo, como as meninas aprendiam a bordar»- as coisas que a «bufa» ensinava!...
E, certamente inspirado pelos tais estoriadores do sistema, proclama que Salazar, para fazer todas as bondades que fez, «teve que ter uma inspiração, senão divina, pelo menos suprema»... - era lá possível fazer tanta coisa boa sem uma inspiração desse tipo!

E, com tudo isto, é bem provável que, um dia destes, esta manifestação de raça patriótico-fascista deste Gomes salazarista, venha a ser condignamente premiada.
Como?: talvez uma medalha no 10 de Junho, ou assim...

Cuidado: eles andam por aí.

POEMA

POETAS IMORTAIS


Há poetas
que se dizem imortais
porque nada os afecta.
Penteados e engomados
têm suaves estalos
e fazem o seu papel
de poetas de bem.

Há poetas
que se dizem intemporais
e só os cativa
a rosa,
a andorinha
ou uma palavra viva.
E se falo disto
é porque há poetas
que se dizem imortais
porque tocam timbales e trombetas.

Conheci-os
quando era rapaz.
Uma tarde,
armados dos instrumentos,
vieram-me buscar
e fomos todos juntos
à casa grande da vila.
Recordo bem o falsete,
e as rosas na parede,
e a música do soneto,
e o vinho azedo e os pastelinhos,
e o sorriso da presidenta.

Não voltei lá mais.
Deve ser por isso
que, quando me encontram pela rua,
não me falam
certos poetas imortais.


Juan Vergés

SINAIS DA «MUDANÇA»

A «mudança» prometida por Obama está em marcha: o novo Presidente dos EUA tem vindo a desenvolver uma inusitada e caudalosa actividade epistolar e comunicacional.
E selectiva, sublinhe-se: como podemos ler num magnifíco post do Cantigueiro, enquanto que, para Cavaco Silva e para José Sócrates, Obama mandou escrever aquelas cartas-tipo destinadas a todo o gado miúdo do planeta, já para o Rei de Espanha fez questão de telefonar... Sangue azul é sangue azul...

E a confirmar que estas cartas e contactos telefónicos, quer pela forma quer pelo conteúdo, trazem a marca da «mudança», um jornal de hoje dá conta de uma carta enviada pelo Presidente dos EUA ao Presidente do Kosovo.
Nela, segundo a notícia, Obama renovou «o apoio dos EUA ao Kosovo multiétnico, independente e democrático, para que tenha o lugar que merece como membro da Comunidade de Estados».
E o jornal que dá a notícia explica assim a carta: «O Kosovo tem importante interesse estratégico para os EUA, já que constitui uma base segura para os EUA na Europa».

Aí está a «mudança» na sua expressão essencial: com Obama, ou Bush-filho, ou Clinton, ou Bush-pai... o imperialismo norte-americano não muda; não desiste da prerrogativa de que se apossou de decidir quem é e quem não é «democrático»; não desiste da ideia de que «o que é bom para os EUA é bom para o mundo»; não desiste do «sonho americano» de dominar o planeta.

POEMA

PROPÓSITO


Far-me-ei cada dia mais amigo dos loucos,
mas sem gritos; ou seja daqueles
que escondem e queimam o amor
no fogo secreto do cachimbo da vida
e o dão com o fumo e o ar que respiram,
em qualquer lugar;
ou seja (ou, por exemplo, se querem agora):
quando voltam a casa do trabalho,
ou vão pela rua,
ou sobem ao eléctrico, ou entram na igreja
que é talvez onde menos se gasta
deste santo Incenso,
ou quando... etcétera, etcétera, etcétera.
Deixemo-nos de palavras: sei que me entendem.


Josep Grau

QUE CAMBADA!

Como se esperava, os jornais portugueses não ficaram satisfeitos com a concludente vitória do «sim» no referendo da Venezuela - vitória que, nas circunstâncias em que foi obtida, pode e deve considerar-se histórica.
Apenas o Diário de Notícias traz a notícia para a primeira página e todos, incluindo o DN, repetem a cassete de falsidades que exaustivamente têm vindo a utilizar: «Chávez "agarra" poder perpétuo»; «Chávez vai manter-se no cargo sem prazo»; «Chávez vai manter-se, indefinidamente, no cargo»; «Chávez colado à cadeira do poder»; «Venezuelanos dão carta branca a "messias" Chávez»; «Chávez para sempre»; enfim, «Chávez é o paradigma de um certo populismo»...

Se o resultado tivesse sido o oposto, imagine-se o que seriam as primeiras páginas de todos estes jornais!...

Os jornais que refiro (DN, JN, Correio da Manhã, Diário Económico e Público) repetem-se, igualmente, na decisão de, sobre o referendo, darem a palavra... à «oposição venezuelana» e aos «analistas» - que analisam ao jeito dos jornais portugueses: «A vitória do «sim» não é o ponto final da discussão venezuelana. Há ainda muitas cartas para jogar» - ameaçam.
E os «analistas» de cá deixam um alerta de sentido inequívoco: «A expressão de votos, em democracia, fala mais alto do que quaisquer tiradas teóricas, mas pode, por vezes, constituir um grito destravado que torna inaudível a própria democracia»...
A bom entendedor...

Ora a verdade é que, quer eles queiram quer não, o referendo constitucional venezuelano é uma demonstração da democracia, de facto, existente naquele País.
Senão vejamos:
Os deputados bolivarianos no Parlamento da Venezuela são amplamente maioritários, pelo que, se Chávez quisesse, em vez de convocar um referendo teria levado a proposta de revisão constitucional ao Parlamento e tê-la-ia feito aprovar sem qualquer dificuldade - e, claro, sem permitir que o povo se pronunciasse de forma directa.

Imagine-se, agora, que Chávez tinha seguido esse caminho: o que para aí não iria de acusações de totalitarismo, ditadura, opressão, violação das liberdades e dos direitos humanos, eu sei lá!...

E no entanto, se Chávez tivesse optado por tal caminho, teria feito exactamente o que o PS e PSD têm feito nos últimos 32 anos, em que, recorde-se, já procederam a 7 revisões da Constituição da República Portuguesa (nalguns casos revisões de fundo: que desprezaram os próprios limites materiais da Constituição e que tornaram reversível o que a Lei Fundamental do País dizia ser irreversível), sem nunca recorrerem ao referendo e recorrendo sempre à utilização abusiva da maioria de que dispôem no Parlamento.

E, já agora, imagine-se também o que diriam os jornais portugueses se Chávez tivesse dito e feito assim:
Como não tenho a certeza de que o «sim» vai ganhar, não há referendo para ninguém: a emenda constitucional vai ao Parlamento onde tenho a aprovação garantida.
Senhores, o que por aí não iria!...
E, no entanto, se Chávez tivesse dito e feito assim estaria a dizer e a fazer exactamente o que os governantes portugueses fizeram para assegurar a «vitória» do «sim» ao Tratado de Lisboa...

Desculpem o desabafo: já não tenho pachorra para aturar esta cambada.

POEMA

VEJO-OS PASSAR FUGAZMENTE


Vejo-os passar fugazmente, com difíceis
sorrisos, cheios de palavras inúteis,
que eles vaziaram quase sem reparar,
ao fim duns anos de verem a mesma
cara ao espelho, ao largo de uma revolta
que os sobressaltou há tempos e agora não sabem
o que hão-de fazer dela. Cada vez mais externo,
não há nada deles, apesar dos fatos únicos,
apesar do gesto que ensaiam cada noite
com um desassossego ansioso de primado.
Para quê saber quem são e donde vêm?
Acompanhados de fantasmas e sombras,
satisfatoriamente dotados, tristes objectos
que se forjaram, às cegas marcham
pelos poucos caminhos em que a estrela brilhe.


Francesc Vallverdû

O INCHAÇO

Após uma série de sessões nas quais apresentou, com sucesso fulgurante, a sua «moção de estratégia», Sócrates foi reeleito secretário-geral do PS.
E tamanho foi o duplo êxito que o homem, inchado de orgulho, não cabe em si de satisfação com a grandeza que detectou no seu partido e, agora, trata os portugueses e portuguesas como se todos e todas fossem membros do PS ou, no mínimo, candidatos a tal condição...
Ora, como avisadamente escreveu Santo Agostinho por volta do ano 400, «orgulho não é grandeza: é inchaço. E o que está inchado parece grande, mas não é sadio»...

A verdade é que, no que respeita ao acto eleitoral, participaram nele cerca de 30% dos inscritos no PS (dos quais 96,4% deram o seu voto ao actual primeiro-ministro) - certamente os que consideram bons os serviços por ele prestados ao partido e ao País...

Quanto às sessões em torno da «moção de estratégia» - sessões que, por razões que a razão desconhece, alguém apelidou de «debates» - constituíram, todas elas, vibrantes manifestações de orgulho partidário e de sólida confiança na continuação da boa governação do País pelo líder bem-amado.
E na verdade, nessas memoráveis sessões - desde a primeira, perpetrada em Évora, até à mais recente, cometida na cidade de Viseu - o «debate» estratégico-partidário elevou-se à superior condição de comício-pimba - neste último caso, «num pavilhão quase cheio com militantes de todo o distrito» e (quem o diz é «um militante de Lamego») «arregimentados com muitos telefonemas», já que - como sublinha «um militante de Mortágua» - «as ordens são para não desmobilizar em torno do secretário-geral».

E é este inchaço, composto pelo secretário-geral reeleito e pelos militantes arregimentados, que faz a grandeza do partido do governo.

POEMA

SOBRE A PAZ


Às vezes a paz
não passa de medo,
medo de ti, de mim,
medo de nós, que não queremos a noite.
Às vezes a paz
não passa de medo.

Às vezes a paz
tem gosto de morte.
Dos mortos para sempre,
dos que são só silêncio.
Às vezes a paz
tem gosto de morte.

Às vezes a paz
é como um deserto
sem vozes nem árvores
como um vazio imenso onde os homens morrem.
Às vezes a paz
é como um deserto.

Às vezes a paz
fecha as bocas
e ata as mãos
só nos deixa as pernas para fugir.
Às vezes a paz.

Às vezes a paz
não é mais do que
uma palavra vazia
para não dizer nada.
Às vezes a paz.

Às vezes a paz
faz muito mais mal,
às vezes a paz
faz muito mais mal.
Às vezes a paz.


Raimon

SINAIS DOS TEMPOS

Eis os factos:
o Parlamento Europeu enviou uma equipa de «observadores» com a tarefa de observarem a democraticidade, ou a falta dela, no referendo que hoje se realiza na Venezuela.
Um dos observadores - o eurodeputado espanhol Luis Herrero - oportunamente entrevistado pelo canal privado de televisão Globovision, dirigiu um apelo aos venezuelanos, no qual, a dada altura, dizia:
«que nunca votem deixando-se levar pelo medo que um ditador lhes quer impor de forma premeditada. Que os venezuelanos jamais se esqueçam que são cidadãos livres, que devem votar em plena liberdade e como o desejam».
A Comissão Eleitoral Venezuelana considerou «ofensivas» as declarações do eurodeputado e ordenou a sua expulsão do país.

A odisseia do pobre deputado - vítima do terrível ditador... - tem sido relatada nos mais ínfimos pormenores pelos média internacionais - isto apesar de o eurodeputado Herrera dizer (já em S. Paulo, Brasil) que «não quero ser protagonista», para logo acrescentar, cheio de solidariedade democrática: «as verdadeiras vítimas são os venezuelanos, que suportam esse senhor há dez anos»...
Para completar a operação, o presidente do Partido Popular Europeu, Joseph Daul, veio a público proclamar que a expulsão do eurodeputado «confirma que Hugo Chávez se está a desviar cada vez mais das liberdades fundamentais que devem ser respeitadas em democracia» - e o eurodeputado português Sérgio Marques (que faz parte do grupo de «observadores»), disse à Lusa: «Acho que, independentemente das afirmações que fez - e não as vou comentar, ele tem total liberdade de expressão - o comportamento da polícia venezuelana esteve muito longe de ser correcto, um deputado não pode ser detido, muito menos nas condições em que o foi».

Pronto: está a estrangeirinha montada e em andamento.
Aliás, à boa maneira da democracia dominante e sem inovações: trata-se de uma provocação típica na qual, invocando a «democracia e a liberdade» e com o apoio dos média à escala mundial, se atenta, de facto, contra a democracia e a liberdade.

Estas equipas de «observadores» que se deslocam a vários países com o objectivo proclamado de fiscalizarem a democraticidade das eleições aí realizadas, são sinais típicos dos tempos que vivemos.
Tais práticas, além do mais, tendem a instalar a ideia de que, nos países desses «obervadores» as eleições constituem exemplos acabados de respeito pela democracia e pela liberdade - ideia falsa e perigosa, e que constitui um dos maiores embustes do sistema hoje dominante no mundo.
O eurodeputado espanhol que está a protagonizar esta provocação baixa, quando chama «ditador» ao presidente da Venezuela,
sabe que Hugo Chávez foi eleito em eleições mil vezes mais democráticas do que aquelas em que ele, eurodeputado espanhol, foi eleito;
sabe que Hugo Chávez foi eleito por uma percentagem de eleitores infinitamente maior do que a que elegeu o primeiro-ministro de Espanha ou de qualquer outro país de União Europeia;
sabe, até, que Hugo Chávez, há 10 anos Presidente da Venezuela, foi eleito! - ao contrário, por exemplo, de Juan Carlos, «Rei de todos os espanhóis» há quase 34 anos, até ver...

POEMA

SE BASTASSE DAR UM GRITO


Se bastasse dar um grito para que soubessem!
Se bastasse chorar alto, escrever cartas,
se bastasse andar nu para que notassem!
Tu, Nai, não compreenderás. Eles entretêm-se
a beber cerveja, a falar de mulheres,
a crer em Deus. E não adivinham
que as mãos as tenho negras
de tanto construir castelos de sangue.
Parece que querem dizer que não é tão vero
como eu penso. Oh, Nai, não compreendas,
não compreendas nunca, nem perdoes,
escreve-lho na fronte com arame,
grita-o da varanda, até que morram
de tanto o saberem, Nai, e o mundo rebentar.
Ai, se bastasse morrer para que acreditassem,
havia de amar-te com o sangue dos outros.


Miguel Ângel Riera

TÍTULOS

Eis alguns dos títulos com maior destaque em jornais de hoje, 14 de Fevereiro, Dia dos Namorados...


«EUA: Bancos continuam a anunciar perdas assustadoras
Cresce o pessimismo em relação ao plano norte-americano»


«A Europa da zona euro mergulha numa recessão pior do que a dos Estados Unidos»


«Portugal cresceu a um ritmo de menos de metade do crescimento da média europeia»


«Queda do PIB português é a 2ª maior da Zona Euro»


«Economia caiu a pique e agora 2009 pode ser ainda mais sombrio
Portugal foi um dos países europeus com pior desempenho económico no final de 2008. Até os mais pessimistas ficaram surpreendidos»


«Constâncio admite entregar gestão do BPP a outro banco»


«Governos do PS foram epicentros do caso Freeport»
«No caso Freeport, de um modo mais próximo ou de uma forma mais distante, quase todos se conhecem e se relacionaram. No PS ou em torno deste»


Eu não comento.
Quem quiser que o faça.

POEMA

ACUSAM-ME DE MÁGOA E DESALENTO


Acusam-me de mágoa e desalento,
como se toda a pena dos meus versos
não fosse carne vossa, homens dispersos,
e a minha dor a tua, pensamento.

Hei-de cantar-vos a beleza um dia,
quando a luz que não nego abrir o escuro
da noite que nos cerca como um muro,
e chegares a teus reinos, alegria.

Entretanto, deixai que não me cale:
Até que muro fenda, a treva estale,
seja a tristeza o vinho da vingança.

A minha voz de morte é a voz da luta:
se confia a sua dor perscruta,
maior glória tem em ter esperança.


Carlos de Oliveira

SEM PONTA DE VERGONHA

Um jornal de hoje noticia que «devido à crise, Aznar perdeu o emprego de assessor da empresa britânica Centauro Capital».
Esta assessoria era um dos muitos e bem remunerados «empregos» oferecidos ao ex-primeiro-ministro espanhol pelos bons serviços prestados enquanto foi governante, e é claro que a perda deste tacho em nada afecta a vida da família Aznar - família abençoada, como se sabe, por muitas outras caudalosas fontes de rendimento da mesma proveniência da assessoria agora perdida.

No entanto, a notícia recordou-me - e por isso aqui a refiro - esse velho hábito do velho sistema capitalista que consiste em pagar bem aos governantes que o servem bem.
Como temos visto, regra geral a paga é feita em três tempos: antes, durante e depois da governação.
Antes, criando as condições necessárias para que os ditos governantes sejam «eleitos democraticamente»;
durante, acenando-lhes com o depois...;
e depois, distribuindo-lhes os trinta (milhares de milhões de) dinheiros através de altos cargos em conselhos de administração de grandes empresas, em assessorias (seja lá isso o que for...) e em mil outras formas de pagamento - todas altamente remuneradas.

E mesmo tendo em conta que este negócio de compra/venda é um todo nas suas três partes constitutivas, diz-nos a realidade que a terceira fase - o depois - é, de longe, a mais rentável - de tal forma que, como já é uso dizer-se, melhor do que ser governante é ter sido governante.

Olhem para eles, : Dias Loureiro, Jorge Coelho, Pina Moura... - isto para citar apenas três, entre centenas de casos.
Olhem para eles, : Clinton, Blair, Aznar... - isto para citar apenas três, entre milhares de casos.
Tudo gente que, aos diversos níveis e nas devidas proporções, governou ao serviço dos interesses do grande capital, e nessa governação se governou... - e para atingir esse duplo objectivo, esfacelou, trucidou, matou tudo o que se lhe opôs: direitos humanos, seres humanos... tudo o que foi necessário.

E, como não podia deixar de ser numa «democracia de mercado», todos estes negócios são feitos de acordo com as «leis do mercado» e segundo as normas da «democracia» em vigor, ou seja: sem ponta de vergonha.

POEMA

DESLIGANDO A TV


A esta hora as anémonas nadam evitando o lodo
e Jesus Cristo está ainda sentado à direita de Deus Pai É a ele
que me dirijo: para que
evite a poluição das águas;
acenda a luz nas auto-estradas;
faça admitir na Guarda Nacional indivíduos capazes;
fiscalize devidamente os empréstimos externos;
esteja ao lado dos camponeses e dos operários;
mantenha a nossa cidade limpa;
acabe de vez com a inflação e o contrabando;
não permita lock-outs;
não se alheie das graves dificuldades do Serviço Nacional de Saúde;
atenda as preces das mães solteiras;
não deixe continuar nesta situação o nosso único Zoo;
dê coragem aos que julgam que não há nada a fazer;
tire da cabeça dos nossos governantes a ideia maluca
de mandarem construir uma central nuclear;
impeça o desvio dos nossos aviões;
dê um empurrãozinho na Habitação Social;
veja bem o que se está a passar com os impostos;
dê também uma olhadela pela Secretaria de Estado da Cultura;
ajude o mais possível as nossas colheitas;
procure a maneira de actualizar as pensões de reforma e invalidez;
termine com as pequenas e grandes invejas dos nossos intelectuais;
volte a pôr a Feira do Livro na Avenida da Liberdade;
tente que cada um de nós ame mais o próximo ou
se não for possível que ao menos façamos todos férias repartidas.


Joaquim Pessoa

O APELO DOS BISPOS

Os bispos portugueses, reunidos em Fátima, debruçaram-se sobre o magno problema do casamento entre homossexuais.
Podiam ter-se debruçado sobre muitas coisas importantes. Mas não: optaram por este tema.
E estão no seu direito, reconheça-se.

Depois de terem mergulhado a fundo no assunto, tomaram a decisão de, nas próximas eleições, «apelar ao voto contra quem defende os casamentos "gay"».
O que significa, deduzo eu, que apelam ao voto em quem está contra os ditos casamentos...
E, mais uma vez reconheço, têm todo o direito de decidir como decidiram.

Foi pena, no entanto - isto digo eu - que os bispos não se tenham debruçado também sobre, por exemplo, o desemprego, a precariedade, os salários em atraso, as reformas e pensões miseráveis, a pobreza, a fome, a miséria.
Se tal fizessem e se utilizassem o mesmo critério em matéria eleitoral, apelariam ao voto contra os responsáveis por esses flagelos sociais - o que significaria apelarem ao voto em quem luta contra esses flagelos...
E então outro galo cantaria no que toca a resultados eleitorais...

Mas não. E percebe-se: é que esses dramas brutais que atingem a imensa maioria dos portugueses, prendem-se com aquilo a que, desde a Idade Média, os bispos antepassados dos actuais designavam por «ordem natural das coisas», ou seja: a ideia de que «ricos e pobres sempre houve e há-de haver»...
Acresce que, segundo os bispos de antanho e os de agora, os pobrezinhos - pobrezinhos mas honrados... - terão sempre um lugarzinho garantido no Céu, enquanto que os ricos (tomem lá para aprenderem...) só lograrão alcançar o Céu se, na Terra, particarem essa suprema virtude teologal que é a Caridade.
Por isso - e a confirmar que Deus não dorme e os bispos pensam em tudo - foi criada esta outra ideia básica essencial que é a cereja no magnífico bolo da harmonia universal: é preciso que os ricos sejam cada vez mais ricos para poderem dar maiores esmolas aos pobres...


Ora, estando os problemas sociais assim resolvidos por Obra e Graça de Deus (com competentíssima assessoria dos bispos, registe-se), percebe-se que a preocupação dos bispos, em Fátima, se tenha direccionado para o magno problema dos «casamentos "gay"».
Ad majorem Dei gloriam, é claro.

POEMA

TUDO É FOI


Fecho os olhos por instantes.
Abro os olhos novamente.
Neste abrir e fechar de olhos
já todo o mundo é diferente.

Já outro ar me rodeia;
outros lábios o respiram;
outros aléns se tingiram
de outro Sol que os incendeia.

Outras árvores se floriram;
outro vento as despenteia;
outras ondas invadiram
outros recantos de areia.

Momento, tempo esgotado,
fluidez sem transparência.
Presença, espectro da ausência,
cadáver desenterrado.

Combustão perene e fria.
Corpo que a arder arrefece.
Incandescência sombria.
Tudo é foi. Nada acontece.


António Gedeão

ACABOU!

Dizia-me há dias um amigo que se o ministro Augusto Santos Silva fosse treinador de futebol seria uma espécie de Jesualdo Ferreira...
Objectei-lhe que estava a ser injusto e ele perguntou-me: injusto para quem?, para o ministro ou para o treinador?
Confesso que fiquei sem resposta. Depois, puxando um pouco pela memória, foi-me fácil constatar, tanto no ministro como no treinador, posturas da mesma família: arrogantes, insolentes, ofensivas, desavergonhadas...
Bom, mas isto, como certamente já repararam, é apenas um pretexto meu para desabafar. E desculpem lá o desabafo mas a verdade é que já não posso ouvir, nem ler, nem ver, o professor Jesualdo - da mesma forma que só por obrigação profissional, e mesmo assim com hercúleo esforço, ouço ou leio o ministro.

Hoje li.
E fiquei a saber que se confirma a existência de «poderes ocultos empenhados em destruir política e moralmente José Sócrates com o "caso Freeport"»...

Fiquei a saber, também, que esta «cabala« vem na sequência da outra «cabala», ou, como o ministro informou: «da anterior tentativa de decapitação do PS através do processo da Casa Pia»...

Mas para além de tudo isto, fiquei a saber, pelo ministro, que, no que respeita ao primeiro-ministro, o «caso Freeport» acabou.
Isto porque, informou o ministro, «o Ministério Público já disse que o primeiro-ministro não é suspeito, nem está sob investigação».
Pronto, se assim é, não se fala mais nisso, assunto encerrado. ACABOU!
E para esclarecimento integral e pormenorizado do caso - com o qual, diga-se pela última vez, o primeiro- ministro nada tem a ver - resta-nos, então, como aqui escrevi há uns tempos, esperar pela Justiça.
A Justiça na qual dizem depositar toda a confiança muitos que... aguardam julgamentos...
Cá por mim, teimoso que sou, não me sai da cabeça esta ideia de que, em cada momento, a justiça dominante é a justiça da classe dominante.

POEMA

MEUS IRMÃOS...


Meus irmãos

É preciso atrelar os nossos poemas
à charrua do boi magro
É preciso que este se enterre até aos joelhos
na vaza dos arrozais
É preciso que eles façam todas as perguntas
É preciso que recolham toda a luz
É preciso que os nossos poemas como marcos quilométricos
balizem as estradas
É preciso que sejam o sinal a anunciar a aproximação do adversário
É preciso que batam tambor na selva

E enquanto na terra houver um único país ou um único homem escravo
E enquanto no céu restar nem que seja uma única nuvem atómica
É preciso que os nossos poemas dêem tudo por tudo, corpo e alma para a grande liberdade.


Nazim Hikmet

GENTE FINA

A grande notícia do fim-de-semana foi, como se esperava, a Convenção do BE: lugar de destaque, todos os dias, nas primeiras páginas; e, todos os dias, em páginas e páginas interiores: reportagens encomiásticas, entrevistas, fotos, comentários e análises, enfim, todo o habitual foguetório laudatório com que os média dominantes usam tratar os seus preferidos - que são, por coincidência, os preferidos dos donos desses média: os grandes grupos económicos e financeiros.
E se o BE é preferido todos os dias de todos os meses de todos os anos, mais preferido teria que ser em dias de convívio nacional da prestimosa agremiação.

Sobre a Convenção propriamente dita, os média disseram-nos que nela se falou muito, muito, sobre uma caudalosa torrente de temas, criteriosamente distribuídos:

no primeiro dia: eleições, alianças, votos, louçã, manuel alegre, juntar forças, deputados;

no segundo dia: eleições, alianças, votos, louçã, manuel alegre, juntar forças, deputados;

no terceiro dia: eleições, alianças, votos, louçã, manuel alegre, juntar forças, deputados - e esquerda grande.

E como o tempo passa a fugir e não dá para tudo, falou-se menos - muito menos, muito muito menos... - de temas género o código do trabalho e outros da mesma família.
Além de que a Convenção estava ali para se debruçar sobre temas elevados, upa-upa - e não para perder tempo com questões insignificantes, menores, rasteiras.
Gente fina é outra coisa...

POEMA

(Estamos sozinhos no Universo!)


Todas as noites toca um telefone na Lua.

Sou eu, sou eu a marcar o número automático dos poetas de hoje
para gritar cá de baixo em código de astros:

Está lá? Está lá? Aqui Terra, zero, zero, zero, zero, zero.
S.O.S! Fome, ódio de mil pata, tiranos com cutelos de cinzas,
bandeiras de pele humana, olhos furados de cardos,
mortos que só vêem o céu através dos caminhos das raízes
- e as mães a baterem nos filhos
para lhes ensinarem a instrução primária das lágrimas.
Aqui escravos, preguiça, azorragues de chumbo derretido,
exportação de tédio dos palácios dos ricos, carregamentos de bocejos,
suor em latas para discursos de demagogos,
mordaças com restos de bocas de cadáveres,
fúria de túmulos, guerra, raptos, incestos, automóveis imbecis,
saques, mandíbulas nos olhos a roerem o azul
- e os dedos de súbito de ferro-em-brasa nos seios das mulheres,
lodo de sol aparente
que continuam a ser deusas nos jantares de cerimónia
com os colos luzidios das horas empertigadas.
Aqui planeta zero, zero, nada, torres de musgo,
punhais a rasgarem noites em vez de chagas,
países de arame farpado, vulcões de sangue,
batalhas trespassadas do frio dos esqueletos concretos
- e ainda por cima a carne das mulheres só é real um momento,
um momento apenas
e em vão tentamos fixá-la com um sopro de frio
no rasto deste defunto com um caixão às costas
cheio de corações vivos.

S.O.S! S.O.S!

Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!

Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...
E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, fartos
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!

Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!


José Gomes Ferreira

SER OU NÃO SER

José Sócrates prossegue a campanha de promoção da «moção» que apresentará ao congresso do PS.
Ontem esteve no Porto, onde começou por defender a excelência das suas propostas de «mudança» - «mudança» que não é propriamente mudança, já que prevê a continuação da política de direita em tudo o que é essencial...
Seguiu-se o «debate», que decorreu à porta fechada e que não foi propriamente debate mas mais uma sessão de perguntas e respostas - as primeiras colocadas por quem não sabe e quer saber, as segundas debitadas por quem sabe e quer ensinar...

Foi assim que, em resposta a um presente que lhe perguntou se «o PS é ou não é de esquerda», Sócrates aproveitou, não para responder à pergunta, mas para, numa clara alusão a Manuel Alegre, se insurgir contra os que «andam por aí com o peito cheio de medalhas a dizer o que é de esquerda e o que não é de esquerda»...
Poderia, se quisesse, fazer em cacos a postura do seu colega medalhado, acrescentando, por exemplo, qualquer coisa do género: ele dá aulas de esquerda mas anda há mais de 32 anos a apoiar a política de direita...
E poderia, ainda, dizer, dizendo a verdade: mas ele é-nos extremamente útil porque dá uma imagem de esquerda ao PS...
E, a rematar, poderia tranquilizar as hostes deste jeito: não se preocupem com estas guerras, aquilo que nos une é muito mais e mais importante do que aquilo que nos separa.

E assim teria respondido plenamente à pergunta feita - que era, recorde-se: «O PS é ou não é de esquerda?»...

Ser ou não ser: eis a questão.
E a resposta é: não!

POEMA

CANÇÃO DA FUNDAÇÃO DO NATIONAL DEPOSIT BANK


Pois não é?: fundar um banco
é bom para preto e para branco.
Se o dinheiro se não herda,
arranjai-o; senão - merda!
Boas são para isso acções;
melhores que facas, canhões.
Só uma coisa é fatal:
capital inicial.
Mas quando o dinheiro falta,
donde vem, se não se assalta?
Ai! não nos vamos zangar!:
donde outros o vão tirar.
De algum modo ele viria
e a alguém se tiraria.


Brecht

«ESPERANÇA NENHUMA»

Tudo indica que vão manter-se por muito tempo as dúvidas sobre a concretização, de facto, da «mudança» e da «esperança» anunciadas por Obama.
Os que acreditam, tendem a ver em cada gesto do Presidente dos EUA um sinal - e assim vão mantendo acesa a chama...
Entretanto, cresce o número dos que, à cautela, sublinham o volume e a dimensão dos problemas com os quais Obama se debate e as dificuldades em superá-los.
É o caso, por exemplo, do Presidente Lula da Silva que, ontem, aludindo à complexidade da «crise mundial», referia que «o nosso querido companheiro Obama está com um "pepinaço" na mão».
E deitando cá para fora tudo o que lhe vai na alma, o Presidente do Brasil, de olhos postos no céu, confessou: «Rezo por ele mais do que por mim, para que ele consiga encontrar uma saída para os Estados Unidos, e quem sabe isso ajude a resolver o problema de outros países».

Estou em crer que a prece de Lula da Silva será parcialmente atendida - Obama vai «encontrar uma saída para os Estados Unidos» - mas que daí não decorrerá qualquer ajuda à resolução do «problema de outros países» - bem pelo contrário.
Isto porque, como nos diz a lógica do imperialismo, «o que é bom para os EUA, é bom para o mundo», mas - isto digo eu - o que é bom para o mundo não é (ou raras vezes é) bom para os EUA...
E a verdade é que, nesta questão básica essencial, nada indica que esteja no horizonte a mínima hipótese de «mudança» - bem pelo contrário.
A propósito, recordo aqui a resposta dada por Paco Ibañez, há cerca de um mês, quando lhe perguntaram com que esperança via a vitória de Obama:

«Não, esperança nenhuma. Como vai Obama mudar algo se vai governar um país que é, em si, imperialista e se construiu sobre massacres, crimes e ocupações, em todo o mundo? Os centros do poder são exactamente os mesmos e se ele não os respeitar vai voltar a ser só um negro. Entendes? Não é nada pessoal contra Obama, é uma questão estritamente dos Estados Unidos. Não, nenhuma esperança. Não enganemos mais as pessoas que já são suficientemente enganadas».

Mais palavras para quê?

POEMA

DRAMA


A quem falo no mundo? Por quem foi
esta bandeira branca de poeta?
A quem descubro a chaga que me rói
por não ser seu artista e seu profeta?

A quem arranco com beleza a seta
do calcanhar humano que lhe dói?
A quem vejo chegado à sua meta,
novo senhor da terra e novo herói?

A nenhum homem, que a nenhum conheço.
Água de um rio que não tem começo,
nas duas margens sinto o mesmo não.

Mas na direita a vida é gasta e velha...
Só na outra uma chama se avermelha
capaz de me aquecer o coração.


Miguel Torga

SUCIALISMO DE BOCHECHAS

No post de terça-feira passada, comentei um artigo de Mário Soares, publicado nesse mesmo dia no Diário de Notícias - e no qual, ele, na sequência de uma série de charlatanices, fazia a habitual propaganda ao seu «socialismo democrático».
A esse «socialismo democrático» de Soares, chamei eu, no referido post, «filho querido do seu capitalismo».

Bom, a verdade é que até parece que Mário Soares não apenas leu o que eu escrevi, como concordou comigo e decidiu expressar publicamente esse acordo...
Pelo menos é o que pode deduzir-se do texto por ele publicado na edição de hoje da Visão, onde, a dada altura, podemos ler:
«Precisamos de um capitalismo ético, com valores, orientado por Estados de Direito, que obviamente respeite o mercado, mas que lhe imponha regras».

É isso, então, o «socialismo democrático» de Soares - ao qual mais ajustado é chamar sucialismo de bochechas.

POEMA

LIBERDADE SEM PÃO...


Liberdade sem pão não é liberdade.
Sem liberdade, o pão é escuro e amargo.
Enquanto a alvorada é uma rosa branca,
o pino da tarde é um toiro bravo.
Entre o destino aceite e o escolhido,
é o mais custoso o que mais me quadra.
Pode viver-se preso e ser-se livre.
Pode viver-se livre e ser-se escravo.


Armindo Rodrigues

POBRE HOMEM RICO

Em título de 1ª página, o Diário Económico de hoje noticia que Américo Amorim, o «homem mais rico de Portugal não escapa à crise».
Tal título serve para nos lembrar que a crise toca a todos; que nem o «homem mais rico» escapa, vejam bem!; que temos que estar preparados para os necessários e indispensáveis sacrifícios...

Também em título de 1ª página, o Jornal de Notícias como que complementa o título anterior: «Homem mais rico do país está a despedir».
Tal título serve para nos lembrar que, face à crise, os despedimentos são inevitáveis, vejam bem, até o homem mais rico» é obrigado a despedir!, ele bem não queria, coitado, mas não teve outro remédio, é a crise...

Quer isto dizer que, em torno destes dois títulos e das notícias que se lhes seguem, gravita o essencial da ofensiva ideológica em curso, a qual diz aos trabalhadores que é necessário interiorizarem a crise e aceitarem as fatalidades e as inevitabilidades dela decorrentes; que não vale a pena os sindicatos andarem para aí a organizar greves, manifestações, lutas; que essas coisas a que dizem ter direito, são inadmissiveis e inaceitáveis na situação actual, visto que, estando o país mergulhado numa grave crise, todos os bons patriotas têm o dever de juntar forças para responder à crise, em vez de andarem por aí, de cartilha leninista na mão, a atiçar ódios de classe, a prégar contra o suposto carácter opressor e repressor do capitalismo e a anunciar o socialismo como suposta única alternativa - e recorrendo a práticas que, bem vistas as coisas, configuram cenários inequivocamente terroristas...

Posto isto, aceitemos como verdade absoluta que (como desde há centenas de anos nos tem sido dito) ricos e pobres sempre houve e há-de haver, e sejamos solidários com o nosso concidadão Amorim e com todos os que, como ele, devido à crise, vivem o drama pungente de verem as suas fortunas não aumentar ou até - ó tragédia! - diminuir...

POEMA

COM FÚRIA E RAIVA


Com fúria e raiva acuso o demagogo
e o seu capitalismo das palavras

Pois é preciso saber que a palavra é sagrada
que de longe muito longe um povo a trouxe
e nela pôs sua alma confiada

De longe muito longe desde o início
o homem soube de si pela palavra
e nomeou a pedra a flor a água
e tudo emergiu porque ele disse

Com fúria e raiva acuso o demagogo
que se promove à sombra da palavra
e da palavra faz poder e jogo
e transforma as palavras em moeda
como se fez com o trigo e com a terra.


Sophia de Mello Breyner Andresen

SINISTRA FIGURA

«Mário Soares é o pai da democracia portuguesa»: esta é uma frase frequentemente utilizada pelos comentadores políticos do sistema.
Frase que, a meu ver, tem muito de verdade: de facto, Soares, enquanto homem de mão do capitalismo internacional e enquanto secretário-geral do PS, foi uma peça decisiva da contra-revolução que liquidou a Democracia de Abril e impôs a democracia burguesa hoje dominante - com a suprema vantagem, para o grande capital, de toda a sua acção contra-revolucionária ter sido feita em nome da liberdade, da democracia, dos direitos humanos, enfim, do socialismo democrático...
Nesse sentido, e por isso, ele é, sem dúvida, um dos maiores impostores e uma das mais sinistras figuras da história de Portugal - e é, também, além de pai da democracia, pai do PS...

Vem isto a propósito do artigo de Soares publicado no Diário de Notícias de hoje onde aborda, no essencial, as mesmas questões da semana passada e da anterior e da anterior: Obama/mudança, a crise e a saída da crise - chegando sempre às mesmas conclusões que, naturalmente, são as que mais interessam ao capitalismo.
Desta vez, o pretexto foi o Fórum Social Mundial e a presença ali de «Chefes de Estado, como Lula da Silva, Hugo Chávez, Evo Morales, quase todos latino-americanos, mais ou menos radicais».
Informa o «pai da democracia» que esses Chefes de Estado «se manifestaram violentamente contra o capitalismo financeiro especulativo» - coisa que ele considera correcta, porque «esse tipo de capitalismo morreu»,..
Informa o pai do PS, depois, que esses Chefes de Estado se pronunciaram «em favor do socialismo».
E, num sobressalto, logo pergunta: «Mas que socialismo?» - e, categórico, logo responde:
«Não, seguramente, o socialismo de tipo soviético» - esse, nunca!...

Finalmente, assumindo a dupla e complementar postura de pai da democracia e pai do PS - e como que dirigindo-se aos «Chefes de Estado mais ou menos radicais» - atira: «Do socialismo democrático não gostam. Então, qual?»

E lendo isto, concluí para mim que Mário Soares talvez nunca tenha sido tão claro na demonstração de que o seu querido «socialismo democrático» não passa de um filho querido do seu capitalismo...

POEMA

QUANDO INVENTARAM DEUS


Quando inventaram Deus, a palavra
voava a pouca altura, o alfabeto
estava por nascer. Isto foi ao princípio.
Quando se fizeram os primeiros livros,
encheram-nos de metafísica (sempre
mal estudada) e do terrorismo do além.

É uma triste façanha essa de arremeter
contra a gasta ciência dos antigos,
não é a táctica adequada. Ponhamos
os anjos no seu lugar, os hálitos celestiais
no olvido, as bíblicas sentenças no centro
da luta de classes. Nós, os materialistas,
sentimos pena dos crentes saídos de Oxford,
dos agentes da bolsa que inventaram a fraude
e nem por isso deixam de cumprir os ritos, suas
encomendas ao Senhor dos espaços.

Quando inventaram Deus, as condições eram outras.
Agora, trata-se de pôr em ordem as nossas coisas.
A princípio foi a matéria e só depois é que
se mesclaram os céus e a terra.


Luis Suardíaz

«COM TODA A LIMPEZA»

Escrito por João Rendeiro - ex presidente do BPP - e com prefácio de João Cravinho - ex ministro de Guterres - foi publicado em Novembro passado o livro «Testemunho de um Banqueiro».
Trata-se, como sublinha o DN (que dá a notícia), do primeiro livro publicado em Portugal sobre a vida de um banqueiro - e escrito pelo próprio.
Com ele pretendiam, o autor e o prefaciador, certamente, gravar para a história um caso exemplar de sucesso empresarial, uma demonstração clara da superioridade do sector privado em relação ao público, etc, etc.

É claro que o livro e o prefácio foram escritos antes de descoberta a falência do BPP e de todas as múltiplas ocorrências a ela ligadas.
Por isso, o escrito de Cravinho é um elogio entusiástico ao êxito, às capacidades, ao talento, à personalidade de Rendeiro.

A constatação por Cravinho das excelsas capacidades e qualidades de Rendeiro começou mal se conheceram, ou melhor: «mesmo sem o conhecer bem pessoalmente», Cravinho apercebeu-se «desde logo da sua craveira intelectual e carácter»...
Ou seja: o sucesso de Rendeiro estava à vista...

Daí que o estrondoso «êxito» do BPP não tenha constituído qualquer surpresa para Cravinho, como ele próprio nos diz:
«Hoje, não carece de demonstração o sucesso da ambiciosa e inovadora estratégia empresarial que (Rendeiro) vem prosseguindo em torno do Banco Privado Português»...
Ou seja: palavras para quê?: é um banqueiro português de sucesso em acção...

E, a propósito da «personalidade de Rendeiro e da ambição que o moveu», escreve Cravinho:
«Chegar mais alto pelo seu próprio mérito, com toda a limpeza, é também apontar caminhos aos outros, um pouco como quem abre portas a futuras marés que levantam os barcos à medida que a linha de água sobe».
Ou seja: como Cravinho vinha demonstrando, Rendeiro é um exemplo a seguir pelos «outros»...
Especialmente se o fizerem «com toda a limpeza» - e, isto digo eu, se não se deixarem caçar...

POEMA

AS NOTÍCIAS DA GUERRA


Quisera esquecer-se das notícias da guerra,
voltar a cara um pouco ao egoísmo dos seus dias,
e olvidado o tempo da batalha
refugiar-se
- quem sabe onde! -
oculto
ao ruído dos tiros.
Mas quando lhe dizem que a bomba rebentou
sobre o junco no canavial
e que o estrépito do bombardeio ainda afoga a flautita
que percorria o tempo das aldeias
e que o grito rebenta interminável confundindo-se
com o hino das colheitas:
então
quisera olvidar seu nome e rasgar todas as palavras
que pouco ou nada podem fazer pelo junco rebentado.

Então,
este homem quisera rasgar-se diante do espelho.


Alberto de Diego

MUDANÇA

Desde que Obama anunciou, primeiro, a intenção, depois, a decisão, de fechar a prisão de Guantánamo, a questão passou a ser tema diário nos média, regra geral apresentada como um exemplo da tal «mudança» prometida.
Pode dizer-se, até, que a sinistra prisão tem sido mais falada desde que que se anunciou o seu fecho do que durante todo o tempo do seu funcionamento...

Ora, sendo positivo o encerramento do campo de concentração de Guantánamo e sendo positivo que Obama assim tenha decidido, continua a sobrar a questão essencial há dias colocada por Fidel Castro:
a entrega da base de Guantánamo aos seus legítimos donos: o povo de Cuba - repondo a legalidade e pondo termo à violação do direito internacional que é a ocupação de Guantánamo pelos EUA.

Essa, sim, seria uma medida portadora de inequívoco conteúdo de MUDANÇA.